domingo, 1 de novembro de 2015

A Farsa. Christopher Reich. «Mas... Em algum lugar ao longe..., em algum lugar acima deles..., um barulho distante de trovoada ecoou pelos cumes. A montanha estremeceu. Não era uma trovoada que estavam ouvindo, mas o barulho da placa rachando e soltando-se da neve mais antiga»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Jonathan virou os esquis de modo a deixá-los perpendiculares ao declive e fincou os bastões na neve. Aguente firme, gritou com as mãos em concha. Esperou um sinal em resposta, mas a mulher não o escutara por causa dos uivos do vento. De cabeça baixa, prosseguia a sua subida. Desceu um pouco a encosta dando passos de lado. Era acentuada e estreita, margeada de um lado por um paredão de pedra e do outro por uma greta profunda. Bem lá em baixo, encarapitada em uma encosta suave, via-se, de forma intermitente, a cidadezinha de Arosa, no cantão suíço oriental de Graubünden, piscando sob a camada de nuvens que se movia depressa. Sempre foi difícil assim?, perguntou Emma quando ele chegou ao seu lado. Da última vez, você chegou ao topo antes de mim. A última vez foi oito anos atrás. Estou ficando velha. É, 32. Um verdadeiro dinossauro. Espere só até ter a minha idade, aí é que a derrocada vai ser para valer. Ele pôs a mão dentro da mochila para pegar uma garrafa d’água e estendeu-a para a mulher. Como se está sentindo? Semimorta, respondeu ela, curvando-se por cima dos bastões. Hora de chamar os sherpas. Você errou de país. Eles aqui têm gnomos: mais espertos, mas com metade da força. Estamos sozinhos. Tem a certeza? Jonathan confirmou. Você está superaquecida, só isso. Tire o gorro um instante e beba o máximo de água que conseguir. Sim, doutor. Agora mesmo. Emma retirou o gorro de lã e bebeu avidamente da garrafa. Na sua mente, Jonathan via uma imagem dela na mesma montanha, oito anos antes. Era a primeira vez que escalavam juntos. Ele, o cirurgião recém-formado que acabara de voltar do seu primeiro posto na África trabalhando para Médicos Sem Fronteiras; ela, a decidida enfermeira inglesa que ele trouxera de volta como esposa. Antes de começarem, Jonathan perguntara se estava acostumada a escalar. Um pouco, respondera. Nada sério. Logo depois, arrasara-o na subida, demonstrando a habilidade de uma esquiadora experiente.
Assim é melhor, disse Emma, passando uma das mãos pelos cabelos ruivos revoltos. Tem certeza? Desculpe, Emma falou, sorrindo, mas os seus olhos cor de avelã estavam cheios de cansaço. Desculpe por quê? Por não estar tão em forma quanto deveria. Por diminuir o nosso ritmo. Por não ter escalado com você nesses últimos anos. Deixe de bobagem. Estou feliz por você estar aqui, só isso. Eu também, Emma falou, erguendo o rosto e dando-lhe um beijo. Olhe, disse ele, mais sério, o negócio aqui está ficando feio. Acho que talvez devêssemos voltar. Emma lhe estendeu a garrafa. Nem pensar, rapaz. Eu já o derrotei uma vez nesta montanha. Pode prestar atenção que vou derrotar de novo. Uma aposta com dinheiro? Uma coisa melhor que dinheiro. Ah, é?, Jonathan tomou um gole d’água, pensando em como era bom ouvi-la falar disparates de novo. Quanto tempo fazia? Seis meses? Um ano até, desde que as dores de cabeça haviam surgido e Emma começado a desaparecer dentro de quartos escuros por horas a fio. Ele não tinha certeza da data. Sabia apenas que fora antes de Paris, e que Paris fora em Julho. Arregaçando a manga do casaco, percorreu as funções de seu relógio de pulso Suunto. Altitude: 2.804 metros. Temperatura: –10º Celsius. Barómetro: 900 milibares (hPa) e em queda. Encarou os números, sem acreditar totalmente nos próprios olhos. A pressão estava caindo vertiginosamente. O que foi?, perguntou Emma. Jonathan enfiou a garrafa d’água dentro da mochila. A tempestade vai piorar. Temos que deixar umas marcas. Tem certeza de que não quer voltar? Emma sacudiu a cabeça. Dessa vez não havia orgulho no seu gesto. Apenas decisão. Tudo bem, então, disse ele. Vá você na frente. Eu sigo logo atrás. Me dê só um segundinho para arrumar as fixações.
Ajoelhado, Jonathan viu uma camada de neve cair sobre as pontas de seus esquis. Em segundos, eles ficaram cobertos. As pontas dos esquis começaram a tremer. Em poucos instantes, Jonathan se esqueceu completamente das fixações. Com cuidado, levantou-se. Acima de seu ombro, o Nordwand do Furga, um paredão de pedra e gelo, erguia-se 300 metros até um pico dentado de calcário. Os ventos constantes haviam empilhado neve fofa em volta do sopé, formando um banco de neve alto e largo que parecia saturado e instável. Carregado, no jargão dos alpinistas. A garganta de Jonathan secou. Ele era um montanhista experiente. Já escalara os Alpes, as Rochosas e até mesmo o Himalaia durante uma temporada. Já tivera o seu quinhão de acidentes. Saíra ileso, enquanto outros não haviam conseguido. Sabia quando se preocupar. Está sentindo?, perguntou ele. Tudo se está a preparar para desmoronar. Você ouviu alguma coisa? Não. Ainda não. Mas... Em algum lugar ao longe..., em algum lugar acima deles..., um barulho distante de trovoada ecoou pelos cumes. A montanha estremeceu. Ele pensou na neve acumulada no Furga. Dias de frio inclemente a haviam congelado para transformá-la em uma gigantesca placa de centenas de toneladas. Não era uma trovoada que estavam ouvindo, mas o barulho da placa rachando e soltando-se da neve mais antiga e mais esfarelada que havia em baixo». In Christopher Reich, A Farsa, tradução de Fernanda Abreu, Editora Arqueiro, S. Paulo, 2008, ISBN 978-858-041-013-6.

Cortesia de EArqueiro/JDACT