sábado, 2 de abril de 2016

Histórias de Amor. José Cardoso Pires. «Ele foi feito sobretudo depois da sua morte, mas é o fruto e testemunho de vivências anteriores…»

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«(…) A um conhecimento grosseiro, a uma experiência sempre limitada do elemento humano poderá atribuir-se-me o que porventura haja para além ou fora deste aspecto. Mas, numa melhor hipótese, tal facto poderia derivar da própria força dos acontecimentos e, consequentemente, da obrigação a que o cronista se imporia de os penetrar no máximo das suas possibilidades.
Se é negra a realidade com que me encontrei entendo que a ela me não deveria ter furtado, por mais despatriados que possam parecer os fenómenos que a compõem. Razão, pois, porque ouso apresentar a Rapariga dos Fósforos, que, até. por ser obra de aprendiz, não terá talvez a filiação literária duma Joaninha de Olhos Verdes, seja-me perdoado o arrojo da comparação.
Mas por outro lado, ocorre-me muitas vezes atentar, e com sincero pavor, na vaga hibridez que nos foi imposta (a nova terminologia da angústia), e daí insisto em não me negar a enfrentá-la. Viera-me um vislumbre do génio do grande Garrett, e a Rapariga dos Fósforos seria facilmente reconhecida entre as muitas costureiras de cave, burguezinhas de lar negado, colegiais e futuras esposas de ofício que tanto vemos por aí…
Assim fica, quanto mais não seja para mim, como uma tentativa que acarinho porque cansidero que, perto ou longe dos nossos vínculos tradicionais, ela existe. Infelizmente existe. E o maís trágico, porém, é que a sua presença. se reveste de significado real, motivo que me pareceu imperioso para que a considerasse objecto de literatura». In J. C. P. Maio de 1952

Entretanto continuavam a olhar um para o outro, sorrindo levemente, sem palavras. Beijaram-se, e de novo tombavam para o lado e ficaram assim, as bocas abertas entreabertas, os olhos a luzirem. Estava calor e muita luz no pequeno quarto do hotel barato. O sol forte que rompia entre as frestas do estore espalhava-se pelas paredes nuas e pela roupa revolvida da cama. O moço suava, o suor corria-lhe no queixo e nas axilas misturado com a saliva dos beijos. Passou-lhe as mãos pelas faces, com uma ternura súbita: é indecente, estou a molhar-te com suor. Querido, segredou ela, e sorria. Então ergue-se no leito, limpando-o carinhosamente com a ponta do lençol enquanto ia dizendo querido, oh querido e deixava que os dedos dele lhe percorressem ao de leve o corpo. E agora?, brincou». In José Cardoso Pires, Histórias de Amor, [Livro proibido e censurado], colecção Os Livros das Três Abelhas, Editorial Gleba, Lisboa, 1952, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia EGleba/JDACT