sábado, 18 de maio de 2019

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo Torrente. «Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...»

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«(…) A carta de Franz Liszt à minha esposa Amélia, copiada em duplicado pelos esbirros do meu primo, pagos pelo erário público do meu pais, dizia: meu amor, com que força te ergues à minha frente quando executo o Segundo Concerto! Quão próxima ficas, como sinto a tua pele, quando toco os Sonetos! Graças à minha música, poderei reviver constantemente a nossa história tão breve, fá-la-ei tão duradoura como eu próprio e, se além do limite houver música, e eu creio que sim, nela persistirá o nosso amor inesquecível. Deus, que me deu a harmonia, deu-te a maternidade. O que na tua carta descreves das emoções da tua gravidez, é música feita vida. Perguntas como quero que se chame. Se for menina, Myriam, não sei porquê. Ou, melhor, sei: porque nesse nome vejo reunidas todas as virtudes e belezas de uma mulher. Myriam. Se for menino, chama-lhe Franz. Chamará pouco a atenção, porque na sua linhagem legal figuram vários Franciscos...
Convém que eu conte a conversa havida entre mim e Amélia no próprio dia do nosso casamento, quando um monte de sorrisos falsos fechou a por… da nossa intimidade. Veio dizer-me que eu lhe era simpático, que entendia a minha situação e que considerava justo que eu conhecesse a sua. Não me amava nem esperava amar-me nunca. Aceitava o casamento a que a haviam obrigado com a mesma inteireza e sentido do dever com que o aceitavam a maioria das princesas, vimos ao mundo para isso, ainda que, diferente de muitas delas, considerasse, mais leal do que calar-se, ter comigo aquela conversa e fazia-o como uma homenagem, porque me sabia capaz de a compreender, não como tantos brutos que apelam à honra, fazem cenas, e acabam levando com os cor… como qualquer outro. Respondi-lhe que concordava, mas que tinha a obrigação de dar um herdeiro à minha minguada coroa e que só podia conseguir isso com a colaboração dela, se possível de bom grado e não forçada. Chegámos a um acordo e nasceu Rosanna. Agradeceu-me porque, apesar de gerada sem amor, era sua filha e amava-a. Se há, ou não, algum motivo para ter outro filho, já o discutirem. E não houve, porque o meu primo me mandou dizer que, para os seus planos, bastava uma princesa e eu que arranjasse uma amante: que pena que não possa sê-lo eu!, disse, rindo, Amélia, quando lhe dei a ler o ultimato do nosso primo; em vez disso sou tua amiga, a tua boa amiga.
E dedicou-se ao cuidado de Rosanna como mãe excelente. O pior foi que eu me apaixonei por ela sem jamais me atrever a dizer-lho: achava-a tão afectuosa, tão sincera, tão bem disposta comigo, que compreendi a dor que lhe causaria, quem sabe até, se a piedade, ao saber que eu a amava. Foi nesta situação que apareceu Franz Liszt, cuja chegada à minha capital não descrevo porque terei que o fazer com outra semelhante, ainda que convenha recordar que a sua passagem pelas ruas causou mais entusiasmo do que a breve passagem do corso, quando lá esteve; mas temos que ver a diferença: Napoleão, pequenote; Franz Liszt, um galarote entre mulheres. Por outro lado, a música do piano, tocada por Franz Liszt, sempre soa melhor do que a dos canhões, mesmo tocada por Napoleão. O imperador da França entrou no meu palácio como em sua casa e sem saber ao certo onde entrava, para além de num lugar para dormir, e a Franz Liszt convidei-o eu, porque Amélia gostava de música». In Gonzalo Torrent, La Rosa de los vientos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Linda-a-Velha, 1995, ISBN 972-29-0326-8.

Cortesia de Difel/JDACT