terça-feira, 21 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta»

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«(…) Quando o padre Almeida pediu que lhe permitissem tirar a sotaina, porque fazia muito calor, mais do que com hostilidade, a maior parte dos membros do Supremo fitaram-no atentamente, já não irados, mas estupefactos, e embora quase todos pensassem que conviria examinar aquele desconhecido em matéria de ortodoxia, a maior parte deles tinha admitido, sem graves dificuldades mentais, que não seria necessário o tormento, e que um hábil interrogatório bastaria. E entre eles figuravam bastantes com reputação de hábeis interrogadores. O padre Almeida dobrou cuidadosamente a sotaina e pô-la sobre o seu assento, com o chapéu. Reverendos senhores, não vou citar os santos padres nem os textos sagrados. Apenas me permitirei recordar-vos a unanimidade de todos os moralistas e de todos os teólogos em exigirem, como condição básica do casamento, a liberdade dos cônjuges. Ora bem, seriam os nossos amados Reis livres ao casarem-se? Passeou os olhos à sua volta. Ouviam-no, mas não pareciam dispostos a responder-lhe, salvo o padre Villaescusa. Quem duvida? Foram interrogados de acordo com as formalidades do cerimonial, e ambos disseram que sim. E poderiam dizer que não? Rogo a Vossa Paternidade que medite a resposta.
O padre Villaescusa pareceu hesitar um momento. Depois, respondeu: não entendo a pergunta. O padre Almeida é bastante subtil. Não parece jesuíta. Subtil, diz Vossa Reverência? Pois eu vejo o caso bem claro: trata-se de dois príncipes imbuídos desta condição; trata-se de dois adolescentes, que foram educados na obediência a seus pais, que, além disso, são Reis. Como poderiam dizer que não? No entanto, os seus sins estavam condicionados pelo duplo carácter de príncipes e de adolescentes. Não foram afirmações livres. De entre a massa dos peritos saiu uma voz de cana rachada. Talvez o padre Almeida não se aperceba de que está a pôr em causa o mais antigo dos nossos costumes, o de que os pais concertem o casamento dos filhos, bem como o de solicitar a anuência da Igreja. O padre Almeida voltou-se para o falante, que era um frade velho de uma ordem secundária. Eu não ponho nada em causa. Eu nem sequer julgo. Limito-me a apresentar a Vossas Paternidades factos indiscutíveis, dos quais, para este caso, e só para este caso, me permito tirar ilações. O resto é da incumbência deste Santo Tribunal (maldito), não da minha.
Mesmo supondo que o padre Almeida tivesse razão, a ulterior consumação do casamento legaliza-o e santifica-o. O padre Almeida não precisou de mudar de posição, nem sequer de mexer a cabeça: o seu interlocutor encontrava-se diante dele, bem visível na sua cólera contida, mas evidente. Rogo ao reverendo padre Villaescusa que imagine por um momento que dizem a um adolescente: logo à noite tens que entrar no quarto da Rainha, e fazer isto e aquilo. E que dizem à Rainha: logo à noite, o Rei entrará no teu quarto: não lhe oponhas resistência, porque é a tua obrigação. De facto, padre: era essa a sua obrigação. Quem se atreve a duvidar? A obrigação da esposa é receber o seu esposo no leito e, como Vossa Paternidade diz, não lhe opor resistência. Admito que também fosse a obrigação do Rei; mas quem vai obrigado não vai livre. Se seguíssemos a sua doutrina, a maior parte dos casamentos seriam ilegais. Isso, reverendo padre, não sou eu que tenho que o concluir. Limito-me a mostrar a vossas reverências que os sucessivos acessos do Rei ao corpo da Rainha foram fruto do dever, não da liberdade. Esquece Vossa Mercê a obrigatoriedade do dever conjugal? Do ponto de vista do Rei ou da Rainha?, arguiu rapidamente o jesuíta. Eu entendo-o como recíproco, interveio da sua altura um dominicano do Supremo; ainda que, naturalmente, na maior parte dos casos seja uma obrigação da esposa, que nem sempre está disposta e, no entanto, deve aceder, para evitar males maiores». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT