terça-feira, 21 de maio de 2019

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco»

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«(…) Os velhos princípios, Diego, vão perdendo vigência, os tempos mudam e as pessoas pensam de maneira diferente. Não tenho nada contra o nu em privado, sobretudo às escuras, mas levá-lo para a rua é como tirar o sal à comida. Não sei que vai ser de nós. Ao que se diz por aí, e já há algum tempo, abundam os cabr… complacentes; e que acontecerá se a coisa alastra? É o que eu te digo, Diego. Que vai ser de nós? De ti e de mim, por exemplo. No que a mim me toca, Excelência, resta-me pouco tempo de vida, e, desde que haja vinho... Bebeu o que restava no copo. O inquisidor-mor fechou os olhos e recordou os velhos tempos de Roma. A ave passou roçando os vidros da janela e escondeu-se no alto cipreste que ocupava o centro do pátio quadrangular.
Primeiro foi um Te Deum, a quatro vozes mistas, com repetida intervenção do órgão, que umas vezes ficava por baixo, como quem serve de suporte às piruetas melódicas, e, outras, as perseguia na sua complicada ascensão: laudamus, laudamus, laudamus, até chocar e se reflectir nas altas abóbadas; outras, por fim, excluía-as da corrente sonora, e era o único a subir e a encher o espaço com o resfolegar da sua abundante tubagem; uma música de muito mérito, trazida de Roma, concebida para a imensidão do Vaticano, que naquela capela de mediana dimensão ficava um pouco grande: de tal modo que às vezes vibravam as paredes e estremeciam as colunas. Depois, a asfixia do incenso e do calor, de tal modo que alguém desmaiou e foi preciso levá-lo para fora e socorrê-lo com aguardente e ar fresco: era um mercedário seco, especialista na questão De auxilus, que não tinha nada a ver com a ordem do dia, mas que não se podia deixar de fora de uma consulta geral como aquela. Quando terminou o Te Deum, formou-se no claustro a procissão; duas filas de hábitos variados e o inquisidor-mor atrás: muito teso, embora um pouco distraído, indiferente aos pajens que lhe seguravam a cauda. Cantavam o Veni Creator, segundo o cantochão, que lhes era mais acessível do que aquelas polifonias romanas, ainda que o cantassem com vozes frouxas e bastante ásperas. Não saía muito bem, mas tanto fazia. Nem todos os da procissão entraram, só os que tinham assento no Supremo, quer como membros titulares quer como teólogos convidados; ou seja, consultores, e entre estes figurava um jesuíta português, o padre Almeida, bastante novo ainda, mas de rosto queimado pelos sóis brasileiros. O padre Almeida estava de passagem por Madrid: tinham-no destinado a capelão secreto de uma casa de Inglaterra, porque o outro capelão tinha sido justiçado, o que era o mesmo que admitir que não restava muito tempo de vida ao padre Almeida; mas não parecia acabrunhado nem entristecido, nem tão-pouco entusiasmado com o seu futuro martírio: comportava-se com naturalidade, muito mais do que os seus companheiros, apesar da reputação de teólogo sábio que o seu reitor proclamava na carta de apresentação para o inquisidor-mor com que justificava a sua presença. O padre Almeida chocava um pouco entre os restantes clérigos, porque usava por cima da sotaina um colarinho à francesa, e porque, ao desabotoá-la por causa do calor, se lhe tinham visto meias pretas e calção. Mas, como estrangeiro, não lho levavam a mal». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT