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«(…) Nesse dia, Rodrigo Figueira
entrou na igreja, trajando o seu melhor fato. O excelente veludo de seda da sua
capa brilhava, mesmo com a luz fosca das velas que iluminavam o templo. Vislumbrou
ao fundo o padre Bartolomeu. O sacerdote, de estatura baixa e rosto muito redondo
e avermelhado, abria os braços, como que a recebê-lo. Bom dia! Como está vossa
mercê? De boa disposição?, e acompanhava as perguntas com gestos um tanto teatrais.
O cumprimento foi retribuído pelo fidalgo como uma obrigação de cortesia, sem convicção.
Oh, sim, sim..., de mui boa disposição, disse sem grande entusiasmo, quase distraído,
mais concentrado no passo que ia dar nesse dia, nessa cerimónia. Tomai assento,
pois que uma noiva nunca, e insistiu, mas nunca, chega no tempo marcado. Sabeis
como são complicados os toucados e os fatos, e sabe Deus que mais!..., afirmou,
imitando os gestos femininos com meneios das mãos, fingindo ter sobre a sua careca
um elaborado penteado.
Rodrigo Figueira sorriu e aceitou
a sugestão, aguardando serenamente a chegada da noiva. Os seus sapatos, de um negro
impecavelmente brilhante, revirados na ponta, começavam a incomodar as frieiras
que tinha desde que os primeiros ventos haviam trazido o frio do Norte. Estava-se
em Fevereiro e o sol espreitava, destemido e transparente, de um céu azul-turquesa.
Um bom dia para o seu casamento! Entretanto, celebravam-se alguns ofícios de defuntos
nas capelas laterais. As suas ladainhas ouviam-se, ininterruptas e constantes, como
zumbidos de abelhas em volta das flores na Primavera. Fazia-se tarde. Rodrigo tentava
distrair-se com o povo que entrava na igreja, gente que se benzia, baixava e levantava
a cabeça em largos gestos repetidos, bichanava orações frente às imagens de sua
devoção, percorria o perímetro da nave da igreja e saía do mesmo modo, mas já
com a certeza de que os santos a quem pedira teriam ouvido as suas preces.
A cerimónia deveria ser por volta
do meio-dia e já passava da uma hora da tarde. Teria acontecido alguma coisa?
Maria.Jácome, assim se chamava a noiva de dezanove anos, de boa cara, um pouco sofrida
e pesada para a sua idade, tinha um sorriso simpático e era bastante calada, segundo
Rodrigo se apercebera nas poucas vezes que estivera com ela. Mas, além de
alguns sinais salientes que marcavam a maçã do rosto do lado direito, não havia
na sua aparência nada que a tornasse verdadeiramente feia, embora nada a fizesse
especialmente bonita. Era aquele tipo de mulher que geralmente passava despercebido.
Todavia, debaixo de uma aparente bonomia, Maria tinha os seus quereres. Devia ser
o seu sangue herdado de Inês Sousa, sua mãe, um sangue alentejano, moldado por planuras
sem fim, crestadas pelo calor abrasador e seco ou vergastadas pelo vento gélido
e solitário. O pai da noiva, Pedro Jácome, era fidalgo estimado da casa do
infante Fernando, pai do futuro rei Manuel I, homem da sua guarda pessoal.
Quanto a Rodrigo Figueira, o noivo
expectante, era filho de Brites Alves, herdeira da enorme fortuna de seu pai, consubstanciada
numa vastidão de terras ao redor da cidade de Santarém, e de Henrique Figueira,
escrivão da Fazenda de Afonso V e muito seu privado. Brites falecera havia alguns
anos, deixando os filhos ricos o bastante. Os irmãos de Rodrigo, Aires e João Lourenço,
aguardavam calmamente no adro da igreja onde uma chusma de curiosos começava a ajuntar-se.
Talvez por causa do hábito da Ordem Militar de Malta, branco e negro com a cruz
de oito pontas que Aires envergava... Os olhares desviavam-se quando ele passava e
uma aura de respeito e admiração rodeava-o desde que chegara a Lisboa. Aires
viera do mosteiro Flor da Rosa. onde professara. Pedira licença ao
mestre para ir para um local onde pudesse ter mais acção como cavaleiro militar
sendo então designado para ir para Rodes, onde ficava a sede da Ordem. Estava. Pois,
prestes a partir para esta ilha onde eram necessários cavaleiros dispostos ao sacrifício,
uma vez que era constantemente atacada pelo Turco. Ainda no ano anterior, Maomé
II, imperador otomano, a havia assediado, tendo sido então rechaçado. A derrota
foi tão afrontosa para aquele imperador que, quando morreu. mandou que se escrevesse
na sua sepultura o seguinte epitáfio: desejo conquistar Rodes e a Itália. Sonhos
vãos, os dos defuntos! Quanto a Aires, levaria com ele a coragem dos cavaleiros
portugueses e contribuiria para a salvação da cristandade!» In
Maria João Câmara, O Pecado e a Honra, Oficina do Livro, Leya, 2012, ISBN
978-989-555-830-8.
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