quinta-feira, 31 de março de 2016

Amantes no 31. Madre Paula. Patrícia Muller. «Fazia a lide da casa e deixava a cozinha para elas. Ainda hoje, sou capaz de arrumar uma sala num ápice. Não o faço mais porque não preciso. No tempo do rei, tinha nove criadas. Hoje resta-me uma»

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«(…) O pai sempre se preocupou com o nosso sustento. Eu e as minhas irmãs devemos-lhe muito. Das memórias mais antigas que tenho, além da cara do pai no dia da morte do avôzinho, com os olhos esgazeados, o rosto transpirado a pedir-nos que nos mantivéssemos sãs, porque a vida dele dependia disso, lembro-me da mãe deitada na cama, comigo em cima a pesar-lhe de novo na barriga, a rir e a agarrar-me nas mãos. Temos de pentear esse cabelo. O cabelo cresceu-me negro e forte, até à cintura. Agora que a idade já avança, noto algumas cãs. Entristece-me. Quando os dias eram difíceis, ele aninhava-se no meu cabelo e ali enrolava tantas horas em silêncio. Às vezes, até adormecia nele. Era o seu lugar preferido. A mãe insistia em pôr-me uma pasta de azeite a cada quinze dias. Não perdi o hábito. Misturo duas colheres do precioso líquido com um ovo inteiro, depois faço-o escorrer nos fios escuros. É uma forma de voltar para perto dela. Tenho poucas memórias do tempo que passámos juntas. Morreu a seguir ao avô. A Luz, a Leocádia e eu ficámos com as obrigações do lar. Como irmã do meio, tinha metade das tarefas da Luz e o dobro das tarefas da Leocádia. Fazia a lide da casa e deixava a cozinha para elas. Ainda hoje, sou capaz de arrumar uma sala num ápice. Não o faço mais porque não preciso. No tempo do rei, tinha nove criadas. Hoje resta-me uma.
O que nós fomos e o que nós somos.., A Luz queixa-se muito. Ficou amarga. E tudo por minha causa, não a posso culpar. Devolvo-lhe a paciência com que ela me atura. Quem olha de fora só vê o que se vê de fora: duas irmãs velhotas e ranzinzas. As vistas para lá das janelas de casa são distorcidas. Eu e a Luz vivemos juntas desde sempre. Ela é a família que me calhou e a família que eu escolhi. O meu paí era Adrião d’Almeida, ourives como o avô. Herdou a loja-oficina, trabalhava à vista dos fregueses que lá iam buscar as filigranas, os cordões, os corações em ouro. Nunca conseguiu prestígio. As vizinhas invejosas falavam à boca pequena que não era um artesão talentoso. A Luz contou-me que quando a mãe morreu, ele bebeu demasiada sidra e pôs-se a trabalhar todo o ouro que tinha na loja. Fez a peça mais assombrosa que podia. A Luz assegurava que tinha sido um castelo de bonecas dourado, com torres, portas, janelas e ameias.
Um palácio de princesas do nosso tamanho, Paula. Uma ponte levadiça, também em ouro, que sobe e desce a um pátio com a largura dos teus braços. A volta do pátio, num andar de cima, os quartos com toucadores e camas. As camas têm banquetas, tudo em ouro. Cadeiras, também. Tudo pequenino no detalhe glorioso que lhe dá o ouro, acho eu. Ou achava, na altura em que ela ainda sorria. Sorria muito, a minha irmã. Fantasiava com príncipes e aventuras e viagens e vestidos bonitos. Mesmo com a morte da mãe, não deixou de sorrir. Isso só aconteceu quando me viu arrastar-me de desgosto, numa morte que não é do corpo mas do espírito. No convento, acontece muito. A paixão por um homem dá direito a dois caixões: um na terra e outro no céu. Vivíamos em Lisboa, no beco do Sedeiro, rua sempre suja dos despejos das janelas. A casa ficava no andar por cima da loja, tinha paredes grossas de pedra. À noite, junto ao fogo, cantávamos músicas alegres das festas e dos arraiais. Só muitos anos depois é que eu conheceria a ópera italiana (que ele tanto amava). Quem lhe deu a conhecer tal esplendorosa forma de arte foi dona Maria Ana de Áustria, a legítima mulher do meu amor, João Francisco António José Bento Bernardo Bragança, o Magnânimo, quinto da sua linhagem. Com ela julguei disputar o trono. A ele dei a vida. Relembro uma noite, dias após uma formidável briga entre nós, em que João trouxe músicos aos meus aposentos, homens carregados de instrumentos, violas, violinos, violoncelos, baixos e contrabaixos, cordas a desfiar em nome do perdão». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

Curiosidades no 31. Vaticano. Luís Miguel Rocha. «… não deixe de procurar dois discos no chão da praça que têm gravado: Centro della Colonata. Posicione-se em cima deles. Só nesses dois pontos da praça é que as quatro fileiras de colunas se transformam numa única»

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A Colunata da Praça de São Pedro
«Quem visita a Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, por vezes não repara em determinados pormenores, absolutamente deliciosos. Nenhuma imagem fará justiça ao tamanho monumental de tudo aquilo. Se ainda não visitou a praça sugiro um exercício fácil: quando vir uma imagem na televisão ou uma fotografia da Basílica de São Pedro, tente reparar no tamanho das pessoas.
Mas é a praça e a Colunata que quero destacar. A magnífica obra de Gian Lorenzo Bernini não é só um prodígio da arquitectura e da engenharia. É também uma obra matemática. O abraço que a Colunata nos dá é sentido. Não podia deixar de o ser. Quatro fileiras de gigantescas colunas dóricas abrem dois corredores para peregrinos, nas pontas, e um para veículos, no meio. Veículos da época de Bernini, evidentemente, do século XVIL Estamos, portanto, a falar de carroças, charretes, coches, etc. Estas colunas são encimadas por uma placa com cerca de setenta estátuas em cada colunata.
Se vai ou está a pensar ir a Roma e à Praça de São Pedro, não deixe de procurar dois discos no chão da praça que têm gravado: Centro della Colonata. É fácil encontrá-los. Dirija-se ao Obelisco do Vaticano, que está no centro da praça, também conhecido como Obelisco Egípcio ou Obelisco de Calígula, e daí, de um lado ou de outro, é indiferente, siga em direcção a uma das fontes, à procura dos discos no chão. Quando os encontrar, posicione-se em cima deles e olhe para a Colunata. Só nesses dois pontos da praça é que as quatro fileiras de colunas se transformam numa única, dando a ilusão de que só há colunas à frente. Dê um passo para o lado e verá todas as outras colunas a aparecerem por detrás das colunas da frente. Ao voltar ao disco, elas voltam a desaparecer. Magia.

Proibição de entrar no Vaticano
Perguntam-me muitas vezes se ainda não me proibiram de entrar no Vaticano. Só há um registo de que isso tenha acontecido a alguém. Quando Pio XII morreu, em 1958, alguém tentou vender à imprensa um filme com os seus últimos momentos de vida. Os agentes da Santa Aliança (meninas, o Rafael ainda não era nascido) foram incumbidos de encontrar o autor dessa gravação, custasse o que custasse. Descobriram que o autor das imagens era o próprio médico do papa, o doutor Galeazzi-Lisi. Este médico era um oftalmologista em quem Pio XII confiava cegamente para tratar todas as suas maleitas, nenhuma delas relacionada com os olhos. Galeazzi-Lisi foi expulso da Ordem dos Médicos italiana, e o papa João XXIII proibiu-o de voltar a pisar o Estado Cidade do Vaticano, proibição extensível a todos os seus familiares e descendentes. Essa proibição ainda está em vigor. Quanto ao filme, uns dizem que foi destruído, outros dizem que está nos Arquivos». In Luís Miguel Rocha, Obra Póstuma, Curiosidades no Vaticano, Porto Editora, Porto, 2016, ISBN 978-972-004-811-0.

Cortesia de PEditora/JDACT

Pintura no 31. Frida. Biografia. Hayden Herrera. «As palavras desabavam de sua boca, intensamente, enfaticamente, velozmente, pontuadas por gestos rápidos e graciosos, risadas de barriga cheia, e ocasionais gritos agudos de emoção»

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«Em Abril de 1953, menos de um ano antes de morrer aos 47 anos de idade, Frida Kahlo ganhou a primeira grande exposição das suas pinturas na sua terra natal, o México. Naquela altura a sua saúde estava tão deteriorada que ninguém esperava que ela conseguisse comparecer à estreia. Porém, às oito da noite, pouco antes da abertura das portas da Galeria de Arte Contemporânea da Cidade do México, uma ambulância aparece. A artista, usando o seu traje mexicano tradicional favorito, foi tirada do veículo e levada para dentro da galeria numa maca, até ser acomodada na sua cama de quatro colunas, que havia sido instalada na galeria naquela tarde. A cama estava adornada da maneira como ela gostava, com fotografias do marido, o grande muralista Diego Rivera, e dos seus heróis políticos, Malenkov e Stálin, esqueletos de papel maché pendurados no dossel, em cuja parte inferior havia um espelho afixado que reflectia o rosto de Frida, alegre, ainda que devastado pela doença. Um a um, centenas de amigos e admiradores fizeram fila para cumprimentar Frida Kahlo, depois formaram um círculo em volta da cama e cantaram baladas mexicanas até bem depois da meia-noite. O episódio a um só tempo resume e representa o ponto culminante da carreira dessa mulher extraordinária. A bem da verdade, esse evento comprova muitas das qualidades que marcaram Kahlo como pessoa e como pintora: a sua bravura e indomável alegria em face do sofrimento físico; a insistência na surpresa e na especificidade; o seu amor peculiar pelo espectáculo como máscara para preservar a privacidade e a dignidade pessoal. Acima de tudo, a estreia da sua exposição dramatizava o tema central de Frida Kahlo, ela mesma. A maioria dos cerca de duzentos quadros que ela produziu na sua curta carreira é de auto-retratos. Frida começou com um material formidável e impactante: quase bonita, ela tinha pequenos defeitos que só faziam aumentar o seu magnetismo. As suas sobrancelhas formavam uma única linha ao longo da testa e sua boca sensual era encimada pela sombra de um buço. Os seus olhos eram negros e amendoados, ligeiramente inclinados para cima nas extremidades. As pessoas que a conheciam bem dizem que a inteligência e o humor de Frida brilhavam naqueles olhos; dizem também que os olhos revelavam o seu estado de ânimo: devorador, fascinante, sedutor, céptico, desmoralizante ou destruidor. E na franqueza do seu olhar fixo havia algo que fazia com que os seus interlocutores se sentissem desmascarados, como se estivessem sob a vigilância atenta de uma jaguatirica. Quando Frida ria, era com carcajadas, gargalhadas profundas e contagiantes que explodiam ou como sinal de felicidade ou de reconhecimento fatalista do absurdo da dor. A sua voz era bronca, um pouco rouca. As palavras desabavam de sua boca, intensamente, enfaticamente, velozmente, pontuadas por gestos rápidos e graciosos, risadas de barriga cheia, e ocasionais gritos agudos de emoção. Em inglês, que ela falava e escrevia com fluência, Frida tendia a usar gírias. Lendo as suas cartas hoje, impressiona o que uma amiga dela chamou de as durezas ou asperezas de seu vernáculo; é como se ela tivesse aprendido inglês com Damon Runyon. Em espanhol, ela adorava usar linguagem chula, palavras como pendejo (que, em tradução polida, quer dizer estúpido) e hijo de su chingada (filho da pu…). Em ambas as línguas, ela saboreava o efeito sobre a sua plateia, efeito ampliado pelo facto de que esse vocabulário de sarjeta era proferido por uma criatura de aparência tão feminina, de cabeça altiva no pescoço comprido, com ares nobres de rainha. Ela vestia-se com roupas vistosas e dava preferência especialmente a compridos trajes mexicanos nativos, em detrimento de peças de alta-costura. Aonde quer que fosse, Frida causava sensação. Um nova-iorquino relembra que as crianças seguiam Kahlo pela rua, gritando, onde é o circo? Ela ficava indiferente». In Hayden Herrera, Frida (a biografia), 1983, tradução de Renato Marques, Editora Globo, São Paulo, 2011, ISBN 978-852-505-353-4.

Cortesia da EGlobo/JDACT

Histórico no 31. Abadia dos Cem Pecados Marcello Simoni. «Os cotovelos e os joelhos, bem como os ombros e os pulsos, estavam inchados e tumefactos por ter sofrido a acção dos tirantes muito além do limite da tolerância humana. O cardeal desmontou…»

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«No ano do Senhor de 1345, no fim do mês de Março, os planetas Saturno, Júpiter e Marte entraram em conjunção entre o 15.º e o 17.º graus do signo do Aquário, dando origem a um acontecimento astronómico que inflamou os corações e as mentes dos sábios da época. Não é fácil definir em que medida os movimentos dos corpos celestes influenciaram os acontecimentos humanos, mas, de facto, nos anos que se seguiram, a Europa foi atingida pela guerra, pela fome e pela peste. Todo o Ocidente cristão se tornou palco de uma dança macabra que despertou o medo do Apocalipse. Nem flagelos dessa envergadura conseguiram aplacar a sede de verdade, de beleza e de grandes ideais. Com efeito, foi precisamente nesse terrível momento que uma abadia surgida não longe do mar viu nascer dentro de si um dos ciclos pictóricos mais fascinantes e misteriosos da Idade Média. Esta é a história dos homens e das mulheres que participaram na sua realização.

Floresta de Ferrara, nos limites do burgo de São Jorge. 12 de Abril de 1333
Os três homens encontraram-se depois do pôr do So1, em grande segredo. Dois deles chegaram juntos, a cavalo, seguindo o curso do rio Pó, até quase se perderem num labirinto de vales e de turfeiras. Esperaram entre as árvores, atentos a qualquer som que proviesse das trevas. A semelhança dos seus vultos e os seus cabelos ruivos revelavam uma estreita relação de parentesco. No entanto, o mais ve1ho possuía um olhar tão profundo que se destacaria mesmo no fogo da batalha. Estavam ambos cobertos por armaduras de peças finamente cinzeladas, sinal de elevada estirpe, tal como os arreios dos corcéis. O terceiro homem apresentou-se em último lugar, também a cavalo. Trazia uma capa de cor púrpura e um chapéu de cardeal, mas as luvas de ferro bem apertadas sobre as rédeas faziam pressentir a presença de uma loriga sob as vestes. Vossa majestade, vossa alteza, disse, detendo-se sob a copa de um grande ulmeiro. Que grande honra. Finalmente, dignou lançou o mais novo, expressando-se também num francês perfeito. Ainda não havia completado dezassete anos, mas possuía a impetuosidade e o ardor pintados no rosto. Mais uma demora da vossa parte, monsenhor, e não nos teríeis encontrado. O homem ao seu lado silenciou-o com um gesto. Perdoai o meu filho, eminência. Entre os seus muitos dotes, carece daquele que consiste em ter tento na língua. Bem, o príncipe deve ficar ao corrente. Bem, o príncipe deve ficar ao corrente, respondeu o cardeal, alusivo. Pelo menos a partir de hoje à noite. Então havei-lo encontrado?, perguntou o homem de armas, baixando o tom de voz. O homem vestido de púrpura anuiu. Dirigia-se a Ferrara. Os meus soldados capturaram-no junto da muralha, enquanto preparavam o cerco. Um golpe de sorte. Assim sendo, não nos convocaram para aqui em vão, exultou o jovem. E diga-me, eminência, já…, falou? Duvida? Sem dizer mais, o cardeal fez sinal para que o seguissem e avançou a trote até às árvores. Atravessou um emaranhado de sombras, entre gritos de corujas e de outros animais nocturnos, até chegar a uma clareira ocupada por homens de armas e máquinas de assalto. No centro desse espaço, iluminado por archotes, estava um homem nu, estendido sobre a relva. Os três aproximaram-se dele para o observarem melhor. Era um monge, a julgar pela ampla tonsura. Jazia numa posição pouco natural, em cruz, devido às cordas que lhe prendiam os braços e as pernas a quatro cavalos. Os animais estavam parados, as cordas soltas, mas o rosto do infeliz ainda parecia alterado por um indizível sofrimento. Os cotovelos e os joelhos, bem como os ombros e os pulsos, estavam inchados e tumefactos por ter sofrido a acção dos tirantes muito além do limite da tolerância humana. O cardeal desmontou e inclinou-se sobre o monge.
Padre Facio Malaspina, em fuga há três anos. Não se dirigia a ele, mas aos dois homens de armas que o acompanhavam. Tirou o chapéu, descobrindo uma espessa cabeleira grisalha, e passou a mão pelo rosto. Sorria. Em fuga por esconder algo tão raro quanto precioso. Contudo, quando foi capturado, não o tinha consigo. A estas palavras, o monge foi invadido por um violento tremor e lançou um grito carregado de ódio. Maldito! Tentou reerguer-se, mas os tendões e músculos já não suportavam o seu peso. Maldito sejais..., vós e todos os cães de Avinhão!, sibilou. Depois fechou as pálpebras, esgotado. Não compreendo, interveio o homem de armas, trocando um olhar com o filho. Se não trazia nada consigo...» In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 30 de março de 2016

O Senhor do Falcão. Valeria Montaldi. «O que se passa, miúdo? O que tem o teu cão? A voz era de alguém que se aproximara por detrás dele. O miúdo virou-se erguendo os olhos para o homem alto que se lhe dirigira»

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Milão. 1226
«Está aberta a caça aos hereges e os inquisidores povoam as ruas da cidade. O cadáver de uma jovem mulher aparece a boiar nas águas do canal do Vettabbia, com o corpo dando sinais de parto recente. Só que da criança nem rasto. Passados 17 anos, alguém vai interrogar-se sobre o que realmente terá acontecido naquela noite. Arnolfo Sala, abade do mosteiro de San Simpliciano, atormentado por um sonho recorrente e com suspeitas antigas que só ele conhece, encarrega o frade Matthew de investigar o caso. Pelas ruas de uma Milão abalada pela perseguição aos hereges e pela luta contra o imperador Frederico II, o frade inicia a sua investigação. Por lugares ainda hoje reconhecíveis, como o Broletto, centro político e comercial da cidade, o bosque de Quadronno ou o Hospital do Brolo, Matthew entrecruza as histórias de Isaac, médico judeu, e da sua bela filha Raquel. Mas só o encontro com Guglielma, uma vidente e mística malquista aos olhos da igreja milanesa, assinalará indelevelmente a consciência do frade, indicando-lhe o caminho a seguir para concretizar a sua missão e resolver o mistério. A água turva do canal formava remoinhos escuros que, aos poucos, se alargavam em ondas lentas e preguiçosas; entre os seixos da margem, as ervas, miseráveis, absorviam, a custo, as franjas daquela espuma oleosa. As bolas esbranquiçadas brilhavam um instante apenas antes de explodir, depositando-se, em seguida, sobre as últimas babas de água. Segurando entre os dentes um pauzinho de madeira, um cão de pêlo ruivo corria ao longo dos diques, seguido por um miúdo que o chamava aos berros. O animal virava-se de vez em quando, como que para avaliar a distância que o separava do seu pequeno dono, retomando, seguidamente, a corrida. Depois de, cauteloso, ter evitado as rodas de uma carroça carregada de mercadorias, o animal parece ter-se acalmado e, tendo largado o pauzinho, começou a descer, com todo o cuidado, na direcção do canal, atento para não escorregar por entre os seixos viscosos. Com a língua de fora, sedento, estava prestes a tocar a água quando, de repente, o pêlo se lhe eriçou e a cauda lhe pendeu. Ficara imóvel como uma escultura de pedra, com o focinho esticado; só as narinas vibravam, farejando freneticamente a superfície da corrente. De seguida, porém, um latido fortíssimo fez-se ouvir provindo daquela goela. O miúdo, que já estava quase a apanhá-lo, parou repentinamente, assustado. O animal latiu de novo, mas o som transformou-se desta vez e quase subitamente num ganido doloroso.
O que se passa, miúdo? O que tem o teu cão? A voz era de alguém que se aproximara por detrás dele. O miúdo virou-se erguendo os olhos para o homem alto que se lhe dirigira; a boca delicada e os olhos claros sorriam benévolos naquele rosto escurecido pelo sol e as mãos calejadas seguravam um saco vazio, engordurado e rôto. O rapazinho não respondeu, atento, de novo, aos ganidos do cão, que, a passos cautelosos, continuava a descer em direcção à água. Quieto, Martino! Pára! O animal obedeceu, sem, todavia, desistir do seu lamento sonoro. Aterrado com a possibilidade de o cão ser levado pela corrente, o miúdo correu então para o dique, aos tropeções, por entre os seixos. A um palmo do cão, deu um último salto e segurou-o de repente pelo rabo, deixando-se depois cair de joelhos sobre os seixos. O homem alto, que o seguira, parou mesmo atrás dele. Martino, pára, pára já! Pode saber-se o que te deu? Nunca te vi nessa loucura... As palavras de reprovação do miúdo soavam assustadas: o animal tremia, mantendo, todavia, as patas da frente firmemente plantadas na água. As narinas dilatadas farejavam, convulsas, o pelo mantinha-se totalmente eriçado, escondendo quase completamente a forma das orelhas. O homem alto aproximou-se: depois de ter pousado uma mão protectora nas costas do miúdo, observou atentamente o canal, percorrendo a superfície com os olhos. A sua já longa familiaridade com aquela enseada do Vettabbia havia-lhe ensinado que a corrente preguiçosa e suja transportava, por vezes, as coisas mais horríveis: o seu trabalho de descarregador de barcos habituara-o a encontrar na margem todo o género de lixo, desde excrementos ali depositados há pouco a carcaças de animais mortos. Era exactamente este último e penoso tipo de lixo que temia, considerando o comportamento do cão ao aproximar-se da água. Mas preparava-se já para levar o miúdo de volta, ajudando-o a arrastar-se atrás do seu teimoso companheiro de brincadeira quando os seus olhos se fixaram num ponto do canal relativamente perto do local onde os barcos atracavam. À superfície, mesmo à tona da água, boiava qualquer coisa estranha: parecia uma massa esbranquiçada, comprida como um grande peixe mas não tão compacta. Aparecia e desaparecia com os lentos movimentos da corrente, arrastando-se atrás de uma espécie de emaranhado de algas escuras. O homem atentou melhor semicerrando os olhos para se proteger do reflexo do Sol: quando a mensagem inequívoca que as pupilas lhe enviaram lhe chegou à mente, um vómito incontido saiu-lhe da garganta. Apoiando as mãos nos joelhos, suspirou profundamente e virou-se: o miúdo fixava-o, estupefacto com a sua súbita palidez. Vai-te embora, vai, pequeno, volta para casa... Já! Espavorido mais pela tremura da voz do que pelo tom imperativo do homem, o miúdo afastou-se, agarrando o cão pelo cachaço e virando-se para trás a cada passada. Só quando o viu já em segurança no dique e depois a caminhar pela estrada fora, o homem ousou voltar a olhar para o canal. O cadáver aproximava-se da margem, lentamente. A forma do corpo ia-se delineando aos poucos: ora aparecia uma perna a flutuar, ora um pé, enquanto o que julgara ser um intrincado de algas se alargava, acariciado pela corrente, num longo velo de cabelos negros». In Valeria Montaldi, O Senhor do Falcão, 2003, tradução de Maria Irene Carvalho, Editorial Notícias, Editora Casa das Letras, 2005, ISBN 978-972-461-618-6.

Cortesia de EditorialNotícias/ECdasLetras/JDACT

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «O interior tinha um pé-direito de dois metros e meio de altura, o suficiente para albergar qualquer terráqueo na posição vertical. As luzes emitiam um brilho branco uniforme por todo o espaço não deixando nada encoberto»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) Quanto menos se sabe mais se crê. Sempre assim foi e assim será até ao final dos tempos. Noutras épocas, o que hoje são fenómenos da Natureza comummente conhecidos e explicados com a ajuda eficaz da ciência eram identificados como a ira de Deus, no caso das trovoadas e terramotos, e um prenúncio do fim do mundo se estivéssemos a falar de eclipses. Era ver os crentes ajoelhados em todos os altares, privados ou públicos, a apelar a Santa Bárbara, São Cristóvão e outros que tais para que intercedessem junto do Criador, Deus Nosso Senhor, Alá, Javé, cada um que escolhesse a oferta que melhor o servisse, para aplacar a ira Dele, quem quer que Ele fosse. E nos tempos anteriores a esses santos, quando eles ainda não eram santos, nem tinham nascido como os demais mortais, ou não eram ainda conhecidos como Deus ou Alá ou Javé, intercedia-se através de outros santos e outros deuses que se perderam nas areias do tempo e que ficaram esquecidos para sempre. E o mundo continuou sempre a rodar, sabe-se hoje, sobre si mesmo e sobre o sol, pouco interessado nas crenças de quem o habita. O mundo tão-pouco se importava com este homem que descia vinte degraus, bem agarrado aos corrimões, de ambos os lados. A idade não lhe perdoou. As rugas impressas no rosto, vividas, como vergões de chicote que não deixavam esquecer as agruras dos dias que foram. O resto o corpo encarregava-se de lembrar. Uma perna presa que teimava em não corresponder às ordens do dono, olhos que enxergavam mal com a ajuda dos óculos bastante graduados. Defeitos de uma máquina já muito usada e abusada que não teve cuidados quando devia. Um passo de cada vez para descer ao subterrâneo que mandou construir nos idos de 1950 por cinco bons homens, haviam feito um poço de elevador que permaneceu, justamente assim, até hoje, um simples poço sem elevador. Considerou mais seguro apenas uma entrada, a mesma saída, vinte degraus para baixo, os mesmos para cima. Não ponderou a velhice e o tolher dos membros. Nem queria pensar nos vinte degraus que teria de subir, pois se ainda ia a meio de os descer. Não era um percurso que fizesse diariamente. Apenas uma vez por outra, uma vez por ano, sempre na mesma data, 8 de Novembro, símbolos da história de cada um que ninguém deve invadir. Questões de privacidade. O subterrâneo ficava a cerca de 150 metros da casa grande, rodeado por árvores frondosas, que evidenciavam a crespidão do Outono. A entrada ficava dentro de uma barraca de madeira que, supostamente, os caseiros haviam usado para acolher os utensílios de trabalho em tempos idos. Parecia abandonada, de facto, cheia de pó e de teias de aranha, provavelmente habitada por outros bichos que não gostavam de aparecer a humanos de costas vergadas e arfantes. Havia uma bancada no centro da barraca que disfarçava a entrada para o subterrâneo. Era menos pesada do que aparentava. Tanto que foi mais fácil para o idoso desviá-la do que descer as escadas. Depois de as descer o percurso era curto. Cerca de vinte metros até à porta do cofre, uma estrutura de metal com meio metro de espessura e trancas do tamanho das pernas de um homem. Há sessenta anos teria de enfiar uma chave em determinado local para activar o maquinismo de abertura. Foi assim durante algumas décadas, mas com os avanços tecnológicos implementara uma fechadura totalmente electrónica. Abeirou-se de um teclado alfanumérico e marcou um código de oito letras. O código pertencia a quem devia, dizia o visor da máquina. Identidade Reconhecida Ben Isaac 8 NOV 2010 21h13m04 Acesso Permitido. O mecanismo iniciou a operação de abertura que, apesar de se tratar de uma sequência lógica de soltura de fechos, soava a Ben Isaac somente como ruídos desconexos que provinham do interior da estrutura. As duas manivelas exteriores rodaram somente no fim do processo e a pesada porta abriu-se para fora com uma expiração de ar como se de um organismo vivo se tratasse. Nesse momento, também automaticamente, as luzes fluorescentes acenderam-se, uma a uma, iluminando o interior do cofre. Cem metros quadrados de paredes em pedra com 80 centímetros de espessura. O interior tinha um pé-direito de dois metros e meio de altura, o suficiente para albergar qualquer terráqueo na posição vertical. As luzes emitiam um brilho branco uniforme por todo o espaço não deixando nada encoberto. Já bastava o lugar, em si, ser obscuro, algumas dezenas de metros acima, na barraca abandonada no meio das árvores frondosas, a 150 metros da casa grande. As paredes mostravam a pedra granítica fria, dura, emprestando alguma frescura à sala fechada. O chão era de ladrilho alvacento, como as luzes, que, em conjunto, criavam um ambiente diáfano. Não havia nada encostado às paredes. Nuas. Apenas três móveis escuros no centro da sala. Mostruários. Encimados por três vidros que impediam o oxigénio de entrar para o interior. No canto inferior esquerdo de cada um dos mostradores, um visor indicava a temperatura de 20 °C. Em cada um dos móveis um documento, dois num deles. Dois pergaminhos e dois ofícios mais recentes, da esquerda para a direita. Ben Isaac dirigiu-se ao móvel mais à esquerda, que continha um pergaminho e fitou-o». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «O meu amor já me não quer já me esquece e me desama tão pouco tempo a mulher leva a provar que não ama»

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O Namoro
«(…) Vivia muito isolado, como se sabe. Muitas vezes não tinha quem o tratasse, e queixava-se-me. Estava realmente muito apaixonado por mim, posso dizê-lo, e tinha uma necessidade enorme da minha companhia, da minha presença. Dizia-me numa carta: ... Não imaginas as saudadas que de ti sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza.... E mostra-o bem, nesta quadra que me fez:

Quando passo um dia inteiro
sem ver o meu amorzinho
cobre-me um frio de Janeiro
no Junho do meu carinho.

Em Maio de 1920, a Carris entrou em greve por uns dias, e passámos a fazer o percurso de comboio. Para que o meu Pai não soubesse que eu saía com o Fernando, ele apanhava o comboio no Cais do Sodré e eu em Santos. Assim conversávamos até Belém. Não digo namorávamos, porque o Fernando não gostava, conforme já contei. Quando acabou a greve, ia buscar-me, à tarde, como de costume e vínhamos de eléctrico para casa, mas, como ele achava que o trajecto não era suficientemente longo, dizia a brincar: E se fingíssemos que nos enganávamos e nos metêssemos num carro para o Poço do Bispo? Este escritório, onde eu estava empregada, fundiu-se, entretanto, com outro, na Rua Morais Soares, para onde fui e onde, portanto, o Fernando passou a ir buscar-me. Nesta altura, trabalhava ele, como correspondente, na Casa Toscanoy na Rua de S. Paulo. Aí passava as manhãs de domingo, de onde me telefonava. Como se sabe, o Fernando não gostava nada de falar ao telefone. Para nos podermos ver também ao domingo, eu, em vez de ir à missa à igreja de S. Domingos, como costumava, ia à da Conceição Velha, porque, depois, o Fernando (ele não assistia à missa, era crente mas não praticante) acompanhava-me a casa e assim tínhamos mais tempo para conversar no caminho. Muitas vezes me pediu para sairmos também à tarde. Numa carta, dizia: era excelente eu poder encontrar-te ao domingo de tarde, por exemplo.... Mas nunca o fizemos. Eu não podia, porque a família, principalmente o meu pai, que continuava sem saber de nada, era muito rigoroso comigo e não me era fácil arranjar um pretexto para sair...
O Fernando era uma pessoa muito especial. Toda a sua maneira de ser, de sentir, de se vestir até, era especial. Mas eu talvez não desse por isso, nessa altura, talvez porque estava apaixonada. A sua sensibilidade, a sua ternura a sua timidez, as suas excentricidades, no fundo, encantavam-me. Por exemplo, o Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então: hoje, não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos... Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: trago uma incumbência, minha Senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo num balde cheio de água. E eu respondia-lhe: detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto do Fernando Pessoa. Não sei porquê, respondeu-me, olha que ele gosta muito de ti. Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares.
O Fernando, principalmente quando se encontrava abatido, não acreditava que eu pudesse gostar dele. Dizia-me numa carta: se não podes gostar de mim a valer, finge, mas finge tão bem que eu não perceba. Ou, então, como nesta quadra:

O meu amor já me não quer
já me esquece e me desama
tão pouco tempo a mulher
leva a provar que não ama.

Um dia ao passarmos na Calçada da Estrela, disse-me: o teu amor por mim é tão grande, como aquela árvore. Eu fingi que não percebi. Mas não está ali árvore nenhuma... Por isso mesmo, respondeu-me ele. Outra vez, disse-me: chega a ser uma caridade cristã tu gostares de mim. És tão nova e engraçadinha, e eu tão velho e tão feio». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

A Hora do Diabo. Fernando Pessoa. «Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro»

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A Hora do Diabo
«(…) Mas, se o mundo é acção, como é que o sonho faz parte do mundo? É que o sonho, minha senhora, é uma acção que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? Sim, mas é triste o acordar... O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvida que não durma. Já uma vez ele mo disse... Ela olhou-o de sobressalto e teve subitamente medo, uma expressão do fundo de toda a alma que nunca sentira. Mas afinal quem é o senhor? Porque está assim mascarado? Respondo, numa só resposta, às suas duas perguntas: não estou mascarado. Como? Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim, sou o Diabo. Mas não me tema nem se sobressalte. E num relance de terror extremo, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.
Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada. Na minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse da minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso. Dato do princípio do mundo, e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora, como deve saber, todos os ironistas são inofensivos, excepto se querem usar da ironia para insinuar qualquer verdade. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém em parte porque de nada serve, e em parte porque a não conheço. O meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família.
Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou atrair. Essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer, creio, segundo me dizem de lá de baixo, até às vítimas. De resto, não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós, os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode, pois, estar tranquila porque a não desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o princípio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram pactos comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram pacto foi com a própria imaginação, que, em certo modo, sou eu.
Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. Antes assim, não é verdade? É o que está significado no Arcano 18. Confesso que não conheço bem o Tarot, porque ainda não consegui aprender os seus segredos com as muitas pessoas que há no mundo que o compreendem perfeitamente. Dezoito? O meu marido tem o grau 18 da Maçonaria. Da Maçonaria, não: de um rito da Maçonaria. Mas, apesar do que se tem dito, não tenho nada com a Maçonaria, e muito menos com esse grau. Referia-me ao Arcano 18 do Tarot, isto é, da chave de todo o universo, da qual, aliás, o meu entendimento é imperfeito, como o é da Cabala, da qual os doutores da Doutrina Secreta sabem mais do que eu. Mas deixemos isso, que é puramente jornalístico. Lembremo-nos de que sou o Diabo. Sejamos, pois, diabólicos. Quantas vezes tem sonhado comigo?
Que eu saiba, nunca, respondeu, sorrindo, Maria, fitando-o com olhos muito abertos. Nunca pensou no Príncipe Encantado, no Homem Perfeito, no amante interminável? Nunca sentiu ao pé de si, em sonho, o que acariciasse como ninguém acaricia, o que fosse seu como se a incluísse em ele, o que fosse, no mesmo tempo, o pai, o marido, o filho, numa tripla sensação que é só uma? Embora não compreenda bem, sim, creio que pensei assim e que senti assim. Custa um pouco a confessá-lo, sabe? Era eu, sempre eu, que sou a Serpente, foi o papel que me distribuíram desde o princípio do mundo. Tenho que andar a tentar, mas, bem entendido, num sentido figurado e frustrante, porque não vale tentar utilmente. Foram os gregos que, pela interposição da Balança, fizeram onze os dez signos primitivos do Zodíaco. Foi a Serpente que, pela interposição da crítica, tornou realmente doze a década primitiva. Realmente, não percebo nada. Não percebe: ouça. Outros perceberão. As minhas melhores criações o luar e a ironia». In Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, História e Alcance, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997, ISBN 978-972-370-435-8

Cortesia AAlvim/JDACT

terça-feira, 29 de março de 2016

De sopranos e barítonos ou como Eça de Queiroz revisita a ópera do século XIX. Jorge Valentim. «Eça de Queirós parece revestir as suas criaturas de timbres vocais específicos, colocando em prática o seu projecto de olhar irónico sobre o idealismo romântico»

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«O presente ensaio tem como objectivo propor uma leitura do romance de Eça de Queirós, O Primo Bazílio, a partir das referências directas às óperas e peças musicais mencionadas e performatizadas ao longo da narrativa. Tais citações funcionam como intertextos musicais, no sentido de propiciar um diálogo entre os discursos musicais instrumentais e vocais com a trama ficcional, incidindo de maneira significativa na construção da trajectória das personagens. Conhecedor das técnicas de composição operística em vigor na Europa e leitor das condições sociais do seu país, Eça de Queirós parece revestir as suas criaturas de timbres vocais específicos, dando-lhes assim uma função representativa e colocando em prática o seu projecto de olhar irónico sobre o idealismo romântico». In Resumo

«Assim a música aparece neste século como uma voz inesperada em que se entendem os desconsolados. E os desconsolados foram toda uma mocidade triste e enervada, toda uma primavera sagrada. Eça de Queirós (correspondência de Fradique Mendes). Dentro dos estudos culturais direccionados ao século XIX, é já um consenso das críticas literária e musical que o período oitocentista europeu é marcado pelo amadurecimento e apogeu de dois dos principais géneros da época. De um lado, o romance que, na esteira da ideologia burguesa, se tornou o meio de divulgação e propagação dos mais variados pontos de vista sobre o domínio burguês na literatura e nas artes. De outro, a ópera que, favorecida pelas construções dos grandes teatros, pela difusão febril da escola italiana do bel canto, bem como pelas suas companhias teatrais, e pela criação e produção de determinados enredos dramáticos, soube colocar no palco, não apenas as circunstâncias ficcionais do Oitocentos, mas também atendeu ao gosto de um determinado público com uma realização musical compreensível, na abrangência das suas três principais escolas: a italiana, a francesa e a alemã. Como na Península Ibérica, sobretudo em Portugal, não se chega a formar uma escola operística propriamente dita, sem menosprezar, é claro, os casos de Ciríaco Cardoso, Arthur Napoleão e Francisco Sá Noronha, dentre outros, é compreensível o facto de muitas companhias de ópera terem invadido os palcos portugueses com as obras de compositores italianos, franceses e alemães, ditando assim um gosto público que tentava colocar Portugal na rota dos principais centros culturais e intelectuais da Europa. Neste sentido, observador arguto da cidade e da sociedade de Lisboa, Eça de Queirós constrói em O Primo Basílio, para além de um episódio doméstico e de uma das mais reconhecidas obras do Realismo português, uma espécie mesmo de drama operístico, onde não faltam as figuras da prima donna, do amante sedutor, do marido traído, do amigo incondicional, da vilã aterrorizante e de personagens giocosos. É bom lembrar, aqui, que tal técnica de composição não era de todo desconhecida do escritor português. Em Antero de Quental, de 1896, o próprio Eça confessa que sob a influência de Antero logo dois de nós, que andávamos a compor uma ópera bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandaloso delírio (1920). Verdade ou não, o certo é que, impulsionado pela introdução das operetas de Offenbach em Portugal, Eça chega a escrever o libreto de uma opereta (A Morte do Diabo), com música de Augusto Machado. Apesar da notícia de tal produção, até hoje tais documentos ainda não foram encontrados.
Ora, se entendermos que a prática estética literária de Eça, num enfrentamento directo com a sociedade burguesa lisboeta, como afirmou Maria Lúcia Dal Farra, era composta essencialmente de uma arte corrosiva e desmistificadora que pudesse se exercer por meio da caricatura, da ironia e do escárnio (1995), então, arriscamos uma via de leitura do romance eciano que passa necessariamente pelo viés da ironia, tomando como ponto de partida as referências musicais e operísticas, que, ao lado das leituras românticas efectuadas por Luíza, compõem o repertório ilusório da personagem com uma imaginação fadada a uma impossível concretização e a um fracasso irremediável. Além de Walter Scott e das suas cenas de castelos na Escócia, de A Dama das Camélias, e da idealização paradisíaca de um Paul Féval, O Primo Basílio apresenta um elenco invejável de óperas e citações musicais dos mais variados gostos e escolas líricas, passando por Verdi (La Traviata), Donizetti (Lucia di Lamermoor), Bellini (Norma e La Sonâmbula), Rossini (Il Barbieri di Siviglia), Meyerbeer (L’Africane), Gounod (Medje, Romeu e Julieta, e Fausto), Mozart (Missa di Requiem e Don Giovanni), incluindo ainda a peça para piano Oração a uma virgem, um Nocturno de Chopin, a valsa O Danúbio azul de Johann Strauss e a canção Malagueña. Com todos estes exemplos tirados do século XIX, sob a égide de uma produção musical romântica, Eça parece perpetrar, através de um rico aparato cultural, o seu questionamento crítico à estética romântica, compondo assim uma espécie de requiem para o próprio Romantismo». In Jorge Valentim, De sopranos e barítonos ou como Eça de Queiroz revisita a ópera do século XIX, Universidade F. de S. Carlos, Abril, Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, volume 3, Nº 5, Novembro, 2010, Wikipedia.

Cortesia de RNELPAfricana/JDACT

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «O rei anunciava às Cortes o que elas já sabiam: que havia boas relações entre Portugal e as outras potências; que prosseguiam as negociações para a concordata quanto ao padroado português na Índia…»

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De acordo com o original

«(…) Aprecia a liberdade de comércio nas crises de subsistências: As vantagens da liberdade de comércio nesta questão, como em todas, são grandes e reaes; mas pergunto se há casos em que as circunstâncias se revestem de uma tal força que não lhes convenha obtemperar? Essas circunstâncias são, como muito bem sabe, necessidades e prejuízos. Aqui entendo debaixo do nome de necessidades: a difficuldade de comunicações entre uns pontos do reino e outros, a consequente paralisação do Comércio interno, e o isolamento em que umas terras menos favorecidas ficam relativamente a outras mais favorecidas. Absolutamente falando, Lisboa é dos pontos mais favorecidos pela sua produção e pela facilidade de exportação, mas estas circumstâncias estam-se hoje tornando contra ela para assim dizer. Quanto aos prejuízos, bem sabemos, e a história está aí para atestar a força que eles teem, a fortiori, quando eles invocam o auxilio da fome, ou para falar com mais propriedade, da idea da fome.
E, por fim, estuda a causa geral das crises: Amanhã terei o gosto de vê-lo, e então poderemos falar mais largamente sobre este assuntto que para mim não tem passado despercebido. Falando em geral, e não referindo-me unicamente a Portugal, eu sustentaria, e com o auxílio de boas autoridades, que a carestia na produção de 1855 é meramente relativa, e acha a sua explicação no aumento de população do globo, desproporcionado para o aumento muito menos rápido da cultura do solo. Além disso a questão do ouro, tão bem tratada no Jornal dos Debates por Mr. M. Chevalier, não pode ser estranha a esta e é-lhe para assim dizer correlativa; porque é um facto que o valor dos géneros, a respeito dos quais não se dá a carestia que se dá com os cereais, tem crescido quási na mesma rasão destes últimos. Em Novembro, Fontes partira para Londres e Paris afim de acomodar os credores estrangeiros, queixosos pela conversão dos títulos externos com redução de juros, e de abrir o Stock-Exchange à cotação dos nossos fundos, sem o que não lhe era possível recorrer ao crédito de que absolutamente precisava para continuar a construção das linhas férreas. A vida política ia, pois, animar-se com o regresso de Fontes, que trazia projectos de natureza a despertarem, sem dúvida, o interesse público.

No dia 31 de Dezembro lia, pela segunda ou terceira vez, o rei Pedro V o projecto do discurso da Coroa que lhe enviara o seu ministro do Reino, Rodrigo Fonseca Magalhães. Achava-o longo e desejava esclarecimentos sobre alguns pontos. Eu desejaria, escrevia o rei, em carta dessa data (carta a Rodrigo Fonseca Magalhães, de 31 de Dezembro de 1885), não lhe causando isso incómodo, que por aqui passasse pela volta do meio dia para me dar alguns esclarecimentos, sobre alguns pontos em que se toca no Discurso do Trono. Se possível fosse, eu desejaria que ele fosse mais breve, reservando-se os ministros nos seus relatórios ás camaras a desenvolver os pontos a que nele se alude. Sobre isto falaremos, se por aqui vier. Declaro que concordo com o teor do discurso. Só desejaria poder dizer as cousas em menos palavras. Era o costume, o rei não aprovava nada sem fazer objecções. Depois de prestados os esclarecimentos por parte do ministro e feitas as necessárias amputações na longa e desataviada prosa, foi aberta a sessão no dia 2 de Janeiro com as formalidades do estilo, não faltando o condestável que então era o príncipe Luís, mais tarde rei com o nome de Luis I. Iniciava-se a quarta sessão da legislatura e a primeira sessão parlamentar do novo reinado. Não obstante o amor do rei à brevidade e ao laconismo, o discurso ocupa três colunas no Diário do Governo. É como todos os anteriores e como haviam de ser todos os que vieram no suceder dos anos: uma narração fria, sem estilo, de factos ocorrentes no intervalo das sessões e de trabalhos a fazer, conforme o programa do governo. Aquele género especial de literatura não exigia mais.
O rei anunciava às Cortes o que elas já sabiam: que havia boas relações entre Portugal e as outras potências; que prosseguiam as negociações para a concordata quanto ao padroado português na Índia; que se tinham trocado as ratificações do tratado de comércio e navegação com a República Argentina e da convenção com o Brasil sobre moeda falsa; que recebera muitas congratulações pela sua ascensão ao trono; que havia tranquilidade no país; que infelismente fora o território nacional invadido pela colera-morbus, procedente das povoações de Hespanha fronteiras à raia, comunicando-se primeiro aos distritos da Guarda e Bragança e depois às terras do norte e sul do Reino; que foram, por virtude da epidemia, suspensos os estudos públicos em Coimbra, mas que já se ordenara para este mês de Janeiro a sua continuação. Referindo-se à situação da agricultura, falava da moléstia das videiras, e para consolar o povo amigo do vinho, acrescentava que era de esperar que viesse a acontecer entre nós o que já se observava em outros países: o decrescimento e a extinção do mal que felizmente não ataca a vitalidade da planta». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda. Mário Sacramento. «… que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé…»

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«(…) Consciência de tudo isso, persistência através de tudo isso e a seu despeito, eis o caminho, está claro. Mas há mais, um mais ainda e sempre: a obra que não desperte no crítico, enquanto ainda não crítico, aquele tumulto intimo que pode exigir um daqui a dias para se volver em juízo, tem muito poucas probabilidades de se prestar a uma critica de nível, pois tudo indica haver aí um inadequamento da obra ao critico ou do crítico à obra, é o mesmo.

Genialidade absurda
Na introdução que antepôs às Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes Rodrigues. Joel Serrão escreveu as seguintes palavras que. se bem que o coloquem no polo oposto do que visamos, têm contudo o mérito de chamarem a questão ao terreno que reputamos o mais próprio: afigura-se-me que o problema dos heterónimos de Pessoa tem a mesma explicação que a dualidade irredutível de Antero: a complexidade da alma humana, acentuada nos temperamentos poéticos geniais, complexidade que não invalida a unidade psíquica das irredutibilidades expressas esteticamente... Se Antero tivesse atribuído ao poeta nocturno e ao àpolíneo, que ele foi, nomes diferentes, com uma genealogia, profissão, características somáticas, como Pessoa fez aos seus heterónimos, aí teríamos um complexo problema, de raiz semelhante ao que agora nos preocupa...
Há com efeito em Antero o quer que seja (que não importa agora investigar, mas que distinguimos da tal dualidade, tão convencional em sua abstracta sistematização) que não só confere uma certa legitimidade à hipótese de Serrão, como ainda, num sentido muito mais geral (de que, para nós, tal hipótese não passaria dum aspecto particular) justificou que Pessoa visse nele um precursor da modernidade. Seria fácil, aliás, estabelecer um nexo entre o poeta da razão-em-crise, que ele foi, e os do irracional que se lhe seguiram, reservando a Pessoa, entre uns e outros, a posição intermédia de jongleur dos fragmentos) do racional. Do ponto que agora nos importa convém acentuar, contudo, que o que tornou Antero um caso ainda à parte não foi senão a circunstância exacta de ter lutado, em vão embora, contra a corrupção dos tempos, e ter assumido uma posição que em última instância o levaria a acompanhar o seu navio no naufrágio. Assim. longe de nos quadrar que Antero justifique Pessoa, preferimos que no-lo ajude a compreender à contra-luz. Para o que nos limitaremos a perguntar: que teria sucedido a Antero se, cativo dum pendor literário sem dúvida aberrante, tivesse permitido que se sentassem à mesa redonda da sua intimidade todas as tendências espirituais de que os Sonetos dão fé, acarinhando-as, impulsionando-as, glosando-as em obras de acomodada e parcimoniosa heteronímia divergente? Formulada a pergunta como foi, torna-se ocioso responder, pois todos reconhecemos que só o fundo de verdade em que a problemática de Antero visou, sem qualquer dúvida, uma resolução pôde conferir à sua obra aquela humanidade sem a qual ela não seria. Levado entre combates sempre renovados [a] disputar dia a dia à mão dos Fados / Uma parcela do saber augusto (Espectros), ele mesmo referiu ter essa preocupação influído os poemas de mais aparente evasão, como se depreende do seguinte passo duma carta particular: esse estado de espírito [o carácter desolado de certos poemas], no meio da sua violência, representa um contínuo impulso para a verdade e para o bem, e isso deve ser levado em conta ao poeta. É o que resume, hiperbolizando embora, este outro passo da sua correspondência: eu ainda não desisti de abrir, ainda que seja roendo com os dentes e a boca em sangue, o muro de bronze do destino.
Quer dizer: ninguém afinal melhor do que Antero permite aperceber o que há de implícito no conceito de personalidade como teor de vida, convergência de tendências, estruturação ideológica, fidelidade a um móbil, e o que por aí mesmo tem sempre de implicar-se numa candidatura ao génio (por isso. aliás, frustrada em Antero) como realização superiormente ímpar de tais condições. Tal como em todos os grandes artistas, a arte de Antero corresponde directamente à problemática do homem servindo-a, só não tendo Antero chegado à fase a que chegam os maiores de por seu turno a servir em virtude de, impossibilitado de atingir a visão unívoca que perseguia, lhe estar vedado esse grau de identidade da arte com a vida». In Mário Sacramento, Fernando Pessoa. Poeta da Hora Absurda, Contraponto [de Luís Pacheco], 1ª edição de 1959, Universidade de Toronto, 3-1761-01460047-2.

Cortesia de UToronto/JDACT

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «No tocante à questão das subsistências, o rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver»

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De acordo com o original

«(…) Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o rei, porém, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo: Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Além disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.
O expediente corria, entretanto, regularmente. O rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões (carta a Rodrigo Fonseca, de 25 de Novembro de 1855). Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame: Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.
E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer: Quanto ás coudelarias militares ou antes potris eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.
No tocante à questão das subsistências, o rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver. Em 15 de Dezembro dizia a Rodrigo: Eu tinha lembrado ao Fontes, antes da sua partida para Londres, a vantagem do governo mandar proceder a trabalhos tendentes a esclarecer esta questão. Dando-se publicidade a esses trabalhos, ter-se hia, no meu intender, justificado pela linguagem dos factos a conduta que se seguisse. Em França o Governo seguiu, segundo as notícias que tenho, esta marcha, como se pode ver por um interessante artigo de Mr. de Villèle na Revue Contemporaine; e a franqueza com que falou ao país fez-lhe bem. Verdade é que em França tudo quanto o governo fizer é bem feito, porque não há nesse país quem se possa colocar na posição de contradizer os actos de uma autoridade omnipotente. Respondeu-me ele Fontes que estes documentos os tinha o governo em seu poder, mas que lhe parecia que seria espalhar o terror o dar uma grande atenção a factos que, com quanto graves, comtudo não se apresentavam com um aspecto ameaçador. Como eu muitas vezes me posso enganar e forçosamente me hei de enganar, não insisti, deixando ao tempo o decidir da judiciosidade da minha idea.
E acrescenta: Muito longe de mim dar a importância que se pretende dar aos factos ultimamente conhecidos, muito longe de mim o acreditar na gravidade da nossa situação alimentícia, todavia perguntarei agora que um mês se passou desde que me lembrei de aventar essa idea: não teria o governo ganho na opinião pública mostrando, ainda mesmo quando fosse deitando poeira aos olhos, que tomava a peito uma questão séria, e que procurava os meios de esclarecer sobre ela o público para impedir os terrores, etc? A questão tem sido fortemente debatida pela imprensa periódica. Gosto dessas discussões; estimarei que as haja sempre que se trate de um objecto sério e que afecte a sociedade toda. Sinto, porém, que o princípio de oposição tão necessário para a existência de um governo constitucional, se desvirtue fazendo-o passar da altura em que êle devera ser colocado ao campo das misérias pessoaes». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

O Quinto Mandamento. Barry Eisler. «Numa noite, alguém que eu nunca tinha visto antes, decerto um dos civis que frequentavam o ginásio, que gostava do sítio e achava que misturar-se com pretensos mafiosos o tornava mais duro por osmose»

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«(…) O ponto fraco do yakuza era o vício da musculação. Vá-se lá saber qual a origem: se um historial de levar tareia no recreio, que lhe tivesse dado vontade de se mostrar visivelmente forte desde então, numa tentativa de superar uma sensação de insuficiência por ter um corpo naturalmente mais franzino do que os caucasianos, se um homoerotismo reprimido como aquele que motivava Mishima. Talvez alguns dos mesmos impulsos que haviam levado a que se tornasse, desde logo num mafioso. Claro que a obsessão dele nada tinha que ver com a saúde. Aliás, nitidamente, o tipo era consumidor de esteróides em excesso. Tinha o pescoço tão grosso que dava a impressão de ser possível passar uma gravata por cima da cabeça sem ter de folgar o nó além de acne tão grave que as duras luzes incandescentes do ginásio, desenhadas para exibirem com máxima definição os músculos que os frequentadores desenvolviam nos seus corpos, projectavam pequenas sombras na paisagem esburacada do seu rosto. Provavelmente tinha testículos do tamanho de passas de uva, o sangue a passar desenfreado pelo coração acelerado. Além disso, já o tinha visto perder as estribeiras no tipo de acesso violento sem qualquer provocação que é outro sintoma do abuso de esteróides. Numa noite, alguém que eu nunca tinha visto antes, decerto um dos civis que frequentavam o ginásio, que gostava do sítio e achava que misturar-se com pretensos mafiosos o tornava mais duro por osmose, começou a tirar alguns dos inúmeros discos de ferro que faziam peso na barra que o yakuza tinha estado a levantar. O yakuza afastara-se do banco de supino, provavelmente para fazer um intervalo, e o novato deve ter-se convencido, erroneamente, de que isso queria dizer que o outro tinha acabado. O próprio novato também era de tamanho respeitável, a sua camisola de cavas, de licra colorida, mostrava que tinha tronco e braços de halterofilista. Talvez alguém devesse tê-lo avisado, mas os sócios do clube eram sobretudo chinpira, jovens yakuza de baixa patente e aspirantes a rufas, não eram exactamente bons samaritanos interessados em ajudar o próximo. Seja como for, é preciso ser-se, no mínimo ligeiramente estúpido para se começar a desmontar uma barra como aquela que o yakuza estava a utilizar sem se olhar primeiro à volta, para pedir autorização. Provavelmente estava a pesar cento e cinquenta quilos, talvez mais. Alguém chamou a atenção do yakuza e apontou para lá. Este, que estava de cócoras, empinou-se e troou: Orya!, suficientemente alto para fazer vibrar o vidro laminado na frente da sala rectangular. Que mer… é essa?! Todos levantaram as cabeças, tão espantados como se tivesse havido uma explosão, inclusive o novato, que ainda há pouco estava tão distraído. Ainda a bradar impropérios, o yakuza avançou a direito para o banco, em passos largos, aproveitando bem a voz, quer tenha sido por instinto ou com intenção, para desorientar a sua vítima. Tudo no yakuza, as palavras, o tom de voz, o movimento e a postura, gritava: ataque! Mas o outro estava demasiado tolhido, fosse pelo medo ou pela negação, para se desviar da linha de ataque. Embora tivesse na mão um disco de ferro que pesava dez quilos e tinha a superfície substancialmente mais dura do que o crânio do yakuza, o homem não fez nada excepto deixar cair o queixo, talvez surpreendido, talvez para formular um pedido certamente fútil de desculpas». In Barry Eisler, O Quinto Mandamento, 2004, tradução de Luís Coimbra, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-6337-304-7.

Cortesia de SEmergência/JDACT

segunda-feira, 28 de março de 2016

Morreste-me. José Luís Peixoto. «Quanto é que falta?, ouço ainda. Viro-me de repente e só o lugar vazio, o silêncio mais intenso, o sítio das palavras vago em cada linha de claridade, em toda esta luz»

jdact e wikipedia

«(…) E falta justiça à insistência desta manhã, falta justiça ao artificial desta primavera, a esta luz fina. O ar finge-se respirável, a lezíria finge-se infinita na asfixia deste lugar pequeno e emparedado. E este lugar que era mundo, agora, vazio oco quer ser mundo ainda. E, realmente, tudo se mantém suspenso. Tudo quer e tenta ser igual. Todos parecem acreditar. Sem ti, as pessoas ainda vão para onde iam, ainda seguem as mesmas linhas invisíveis. Mas eu sei, pai. Perderam-se as leis contigo. Perdeu-se a ordem que trazias. Pai. O céu arrasta nuvens transparentes num êxodo lento. A estrada corta este mundo, divide, directa ao horizonte que não há, directa ao céu. Ao nosso lado, passam a correr, a fugir, a deslizar oliveiras, passam troncos verticais direitos, momento a momento, passam, alternam-se, sobrepõem-se copas emaranhadas de oliveiras. Cresce a manhã, cresce o cansaço. E a luz insiste. E a primavera. E o motor insiste uma entoação constante de insecto, uma constante voz subterrânea que a pouco e pouco se me infiltra entre as costelas e, na prisão do meu peito, se torna grito. Seguro o volante. Cresce a manhã, cresce o cansaço. Vou. Avanço, avanço e regresso. E cada quilómetro, um mês; e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos. Encontrei nas pedras deste caminho, no luminescente desta viagem, um espaço por onde entrei e acelero, onde cada quilómetro em frente é um mês que recuo. E avanço neste caminho que fizemos mil vezes juntos e avançam as estações do ano: primavera inverno outono verão primavera inverno... E avançam os quilómetros neste sítio onde entro como se caísse. Vertiginosamente. Atiro-me neste poço, no fundo que não se vê deste poço. E há tanta luz. Há os instantes que vivemos mil vezes juntos e que agora nascem sem nós e nos ultrapassam. Há o sol que partilhámos mil vezes e que agora não te aquece, que agora não me aquece. Pai. Passo por tudo e tudo me deixa e passa por mim. Caio. Avanço. Regresso. Na berma da estrada, entre extensões amarelecidas de mato e cardos secos, entre searas gigantes de trigo, rompem ervas corajosas poucas, rompem papoilas que do fogo sangue das suas chamas ateiam o louro, o áureo. Marés fulvas ardem. Mantas amarelas que sobem ao céu e ao sol, que o trespassam e jorram dele. E na manhã, quase tarde, desta primavera tórrida, tanto brilho encandeia. Cego, olho para o lado e vejo-me pequeno, há muitos anos, sentado sob a faixa importante do cinto de segurança, vejo-me sem paciência a perguntar quanto é que falta? Volto com o olhar à estrada. Respiro. Encontro em mim a serenidade para dizer falta pouco, falta pouco. Fixo o traço contínuo ou intermitente, branco e fito-me, pequeno de uns dez ou onze anos, fito-me tornado mancha e vulto no canto do olho. Quanto é que falta? Na terra, o pó eleva a idade e a combustão desta hora. Falta pouco, falta pouco. Atravessamos uma vila branca e tão deserta como esta estrada vazia, esta estrada sem ninguém. Atravessamos uma vila, já perto da nossa, esta vila de casas brancas, esta vila que conhecias e onde te conheciam. Atravessamos esta vila deserta onde todos te esqueceram. Dos meus lábios, as tuas palavras, os teus lábios, o teu conto pequeno e igual que contavas e sabias de cor, e sabíamos de cor. O conto. E perguntava-te se era verdade, se tinha mesmo acontecido; tu, simples, escondendo detalhes no olhar abstracto e no veludo liso vivo da face e da testa, como se respondesses, dizias é um conto. E selavas a conversa, e não falávamos mais sobre isso. Olho-me, vejo-me no banco, atento ao que pensava, pequeno e grandinho para os poucos anos, alimentado, a crescer, a faltar-me nada. E sinto uma alegria, a satisfação de ter conseguido dar o que não pude ter; contente, a satisfação imensa de ter conseguido. Sim, pai, conseguiste. Conseguiste tudo. Deste-me o que tenho. Construíste-me e construíste esperança no que tocaste. E olho-me pela última vez, vejo-me. A carne, o querer de criança. E sigo a febre, o fervente do que se aproxima e afasta. Quanto é que falta?, ouço ainda. Viro-me de repente e só o lugar vazio, o silêncio mais intenso, o sítio das palavras vago em cada linha de claridade, em toda esta luz. Invento, e digo falta pouco, falta pouco». In José Luís Peixoto, Morreste-me, Temas e Debates, 2000/2001, ISBN 972-759-370-4.

Cortesia de TDebates/JDACT

Uma pequena vila. Galveias. José Luís Peixoto. «Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar…»

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«Escuta lá, de quem é que tu és filho? Sou o filho do Peixoto da serração e da Alzira Pulguinhas»

Janeiro de 1984
«(…) A caminho da escola, os cachopos iam todos a coçar as ramelas e a torcer o nariz. Estavam ensonados e rabugentos com aquela manhã tão cinzenta, tão sem consideração pelas suas arrelias. Já na sala, arrumaram-se ao aquecedor de gás, a professora deu licença, e deram soltura às suas teorias. Forasteira, a professora ficou banzada com as cabeças dos cachopos e, nessa manhã, mandou-os para o recreio mais cedo. Achou que precisavam de correr. De madrugada, no alto da rua de São João, os homens e as mulheres firmaram-se e subiram com desenvoltura para os reboques dos tractores. E 1á seguiram para o campo sem grande paleio, sisudos, sentados em fardos de palha, a agitarem-se conforme os buracos da estrada e, se não fosse pelo cheiro cinzento a enxofre, quase a duvidarem que a noite anterior tivesse acontecido. As velhas, viúvas ou não, vinham para a porta de casa com a sua vassoura de mato. De rabo para o ar, começavam a varrer. Passava um instante e levantavam a cabeça para olhar em redor. Queriam dar fé e perceber se havia novidades. Esta incerteza demorou até meio da manhã.
Na torre da igreja, os sinos deram as dez. Estava a rodar essa música de sinos em perfeita afinação quando o Cebolo entrou de motorizada na vila. Era um motor preguiçoso, a gemer uma surdina de besouro, a falhar nas subidas, incerto, espécie de motor bêbado. Trazia o capacete enfiado na cabeça, mas levava a correia desapertada. Passava de olhos muito abertos, um mais aberto do que o outro. Quem o via, tão compenetrado, suspeitava. Quando parou no terreiro e pôs â motorizada na espera, os homens que estavam à porta do café do Chico Francisco ficaram só a olhar para ele. Com vagar, aproximou-se, deixou que passasse um momento e deu-lhes a notícia. Tresandava a uma mistura de enxofre e borregum. Ficaram doidos. Dois deles pegaram logo nas motas e seguiram juntos. Os outros espalharam-se: um desceu pela rua da sociedade, outro desceu pela rua da Fonte Velha, outro subiu em direcção ao Alto da Praça, outro foi para o lado do São Pedro. O Cebolo pouco se mexeu. A vitrina do café do Chico Francisco estava coberta por um tapume velho de contraplacado. Esse fundo deu ainda mais gravidade ao olhar do Cebolo. A notícia foi alastrando a partir do terreiro, como um incêndio, ou como água da chuva nas regadeiras, ou como a notícia de uma morte, ou como uma lata de tinta entornada.
Quando voltou para o campo, aturando os caprichos da motorizada, o Cebolo passou por grupos que avançavam a pé e de bicicleta. Foi ultrapassado por motas mais adolescentes e, mesmo à beira de chegar, foi ultrapassado pelo automóvel do doutor Matta Figueira. Quando essa nuvem de pó se desfez, o Cebolo teve de parar a motorizada para acreditar no que estava a ver. Dezenas de pessoas, centenas talvez, enchiam a herdade do Cortiço, atravessavam-na a passos largos. Contra o ligeiro abrandamento das ervas altas, dirigiam-se à cratera. Muitos rodeavam-na já. Julgando-se abandonadas, as cabras do Cebolo admiravam-se com aquele movimento de gente, levantavam um olhar de medo, coitadinhas, podiam mesmo ensaiar uma fuga espantada se alguém fizesse um gesto mais brusco, mas não chegavam a sair do lugar.
O terreno apresentava uma cratera redonda e inédita: um círculo com um diâmetro de uma dúzia de metros, mais ou menos, abatido a cerca de um metro abaixo do resto da terra. Era como se um martelo gigante tivesse afundado aquele disco. No centro, a coisa sem nome, imóvel, vaidosa, a exibir-se. Aqueles que tinham descido o degrau e feito menção de se aproximar, não aguentaram o calor. Mesmo à distância, a coisa sem nome difundia um calor ardente, que corava as faces e secava a boca. O cheiro a enxofre era quase irrespirável. Muitos tapavam a boca com lenços de assoar ou com a palma da mão. Ali, nunca ninguém tinha visto nada que pudesse comparar com aquilo. Rodeado por alguns dos seus filhos, o Cabeça estava lá, embasbacado. Se calhar, é um bocado de sol, disse». In José Luís Peixoto, Galveias, Quetzal Editores, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-722-179-8.

Cortesia de Quetzal/JDACT

O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto. António Cândido Franco. «… o campo era todo cheio de gente (…) E com estas coisas que viam, uns chorando, outros departindo, faziam tamanho alvoroço, que punham em turvação os governadores daquela partilha»

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O Mar e o Marão
«(…) Homens, mulheres, crianças e até velhos são feitos prisioneiros, num total, segundo o capítulo XXIV da Crónica, de 235 almas, sendo depois partilhados num campo, perto da cidade de Lagos e a tal destinado. É a partilha desta gente acusada de ser desenraizada dos seus locais próprios de existência, que inspira a Zurata algumas das descrições mais realistas e cruéis da sua crónica e por isso mesmo algumas das observações mais críticas e humanas que nela se podem encontrar. As mães são afastadas dos filhos, os maridos afastados das mulheres, as famílias desmembradas. Diz Zurara a dado passo: quem poderia acabar aquela partição sem mui grande trabalho? Que tanto que os tinham postos em uma parte, os filhos, que viam os padres na outra, alevantavam-se rijamente e iam-se para eles; as madres apertavam os outros filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços, recebendo feridas, com pouca piedade de suas carnes, por lhe não serem tirados! E assim trabalhosamente os acabaram de partir, porque além do trabalho que tinham com os cativos, o campo era todo cheio de gente (…) E com estas coisas que viam, uns chorando, outros departindo, faziam tamanho alvoroço, que punham em turvação os governadores daquela partilha.
Esta passagem, com todas as atenuantes que possa ter, e são decerto muitas tendo em atenção a época, constituirá sempre aos olhos do Futuro, e aos nossos próprios, uma irrefutável legenda das nossas imperfeições, das nódoas que mancham a nossa glória. E o infante Henrique, governador da Ordem de Cristo, que Zurara descreve em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês, não deixará nunca de constituir, na sua figura distante e silenciosa, o motor imóvel de toda esta acção, que se desenrola sob os seus olhos.
Se a circum-navegação da África, como depois a da América, constituiu para muitos navegadores um sentido íntimo de aventura, que em nada traiu o homem e a natureza antes revelou os lugares mais generosos da alma humana, ao revelar as terras mais afastadas, também ela, a circum-navegação da África, nos deu passos cruéis, como aquele que acabámos de referir, e que não foi decerto nenhuma excepção. E não podemos ser hoje indiferentes a esses passos, e esse seria o pior dos erros, pois eles funcionam, na sua realidade, como avisos. Mas a obscuridade que mancha a luminosidade deste ciclo tem ainda outra vertente não menos escura. Refiro-me à intolerância religiosa que, sobretudo a partir do reinado de João III, antes portanto de podemos dar por completo o ciclo do Mar, se torna a principal característica do nosso poder político e do nosso poder religioso». In António Cândido Franco, O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto, Junho de 1989, IADE, Lisboa.

Cortesia de IADE/JDACT

Diálogo com a Morte. Marie Hennezel. «… após a sua morte e por fidelidade à sua memória, fundei com Jean-Louis Terrangle a Associação Bernard Dutant; sida e renovação…»

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«(…) Bernard, lembro-me de quando foste hospitalizado no quinto piso, para fazeres a tua primeira toxografia. Estavas morto de medo. Tinhas a certeza de que ias morrer de um dia para o outro. Estavas tão angustiado que decidiste tomar a dianteira. Lembras-te? Engoliste o teu anel, depois um prego; tentaste até, atirar-te pela janela. Os olhos de Bernard fixam-me agora. Ouve-me e faz-me sinal para continuar. Dir-se-ia que deseja que lhe conte a sua história. Não querias continuar a viver, não conseguias projectar-te no futuro, não conseguias imaginar este lento caminhar para a morte. Além disso, sentias-te tão culpado! Falei-te demoradamente dessas travessias nocturnas, dessas travessias do deserto em que nos desesperamos porque não atinamos com o fim, porque não sabemos o que há para a frente. Mas eu disse-te também que atravessamos esses momentos terríveis, e que descobrimos então em nós forças insuspeitadas. Lembro-me de me teres dito: achas que sim? Eu ia para fora por uma semana e tive vontade, antes de te deixar, de te transmitir a força de acreditar nisso. Respondi-te: tenho a certeza, com tal firmeza que até me admirei. Passada uma semana, ao voltar ao hospital, deparei com o teu caro Tirou, ele disse-me que era um verdadeiro milagre: tudo entrara na ordem, e tu estavas em plena forma. Precipitei-me para o teu quarto. Estavas sentado na cama, com o rosto resplandecente, e abraçaste-me. Tenho vontade de viver, disseste-me, e eu respondi-te simplesmente, de tal modo me sentia comovida: tenho vontade de te ajudar.
Sabes, Bernard, és uma das pessoas que mais coisas me ensinaram. Vi-te viver e combater contra esta doença, vi como te transformavas. Mostraste-me que podemos olhar a nossa morte de frente e continuar a viver, dando sentido à vida. Lembro-me daquele dia em que, tendo eu partido um braço, me vieste buscar num táxi para me levares ao teu osteopata. Na sala de espera, perante o olhar pasmado de duas senhoras de certa idade, falaste-me dos teus desejos em relação ao futuro do teu corpo. As duas senhoras olhavam incrédulas para aquele homem de quarenta anos, algo emagrecido mas irradiando energia, a evocar tranquilamente a sua morte, e o local onde gostaria que as suas cinzas fossem dispersas, naquele recanto da Itália que ele ama, sob as oliveiras. Olhei-te. Respiravas vitalidade, nessa manhã, e falavas-me da morte como de uma coisa natural. Agradeci-te, Bernard, profunda e intimamente, por me tomares por testemunha de semelhante coisa. Compreendes, agora pus tudo em ordem, e penso que estou em paz com toda a gente, posso continuar a viver, ou morrer de um momento para o outro, estou pronto, foi o que me disseste. Há três meses. Longo caminho percorreste, em dezoito meses, desde o dia em que caíste no desespero por saberes que tinhas sida.
Tento, com amor, reconstituir todos os momentos da sua vida de que fui testemunha. Sinto que realizo uma obra sagrada: parece-me entretecer dois fios de ouro, o da sua vida tal como me surgiu e o da minha, perturbada pela dele nos últimos meses. Porque não convivemos impunemente com alguém acariciado pela morte e que, sabendo-o, vive tudo o que lhe acontece como um dom. No contacto com ele aprendi a agradecer cada instante. Estou agora a desenrolar aos seus pés de moribundo o tecido da nossa relação. Queria dizer-lhe tanta coisa, nestes derradeiros instantes, quanto ele contribuiu para me modificar (após a sua morte e por fidelidade à sua memória, fundei com Jean-Louis Terrangle a Associação Bernard Dutant; sida e renovação, cujo objectivo é o de ajudar todas as pessoas atingidas pelo HIV a encontrar em si próprias aforça para viver essa situação). Pela janela do seu quarto, que dá para a cidade universitária, chega a primeira claridade do dia. Do seu último dia. Bernard vai morrer às sete da tarde. Acaba de deixá-lo um amigo, uma amiga chega daí a alguns minutos. como tantos outros, parece que esperou por ficar só para entregar a alma!» In Marie Hennezel, Diálogo com a Morte, Editorial Notícias, colecção Ciência Aberta, Lisboa, 1997/2002, ISBN 972-460-793-3.

Cortesia de ENotícias/JDACT