sábado, 7 de novembro de 2015

Saudade da Literatura. Crónica. Antologia. 1984-2012. Manuel António Pina. «O Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no “Fala Barato”»

jdact

Alguns jornais velhos
«O que será feito do Ferraz? E da Vitória? E do Artur? E do Paiva? E, dos outros? Há 20 anos eram crianças. E poetas. (e eu, e nós, o que éramos há 20 anos?). Hoje háo-de estar por aí, em qualquer lado, dispersos para sempre, provavelmente ao torno em alguma oficina, ou a fazer contas e a preencher papéis em algum absurdo escritório, ou repetindo desencantados gestos em linhas de montagem sem sentido. Há 20 anos, a Vitória queria ser uma flor: Se eu fosse flor / devia ser linda, / cor-de-rosa. / E as senhoras cortavam-me / para pôr nas jarras. O que quererá ela hoje? O Ferraz revoltava-se: Morrer enquanto estamos vivos / não adianta nada, / havíamos de morrer só quando estivéssemos mortos, / ou na barriga da mãe! Hoje ter-se-á resignado? E o Paiva surpreendia-se com coisas simples e surpreendentes: o Natal, a gente nas ruas, a toalha sobre a mesa da sala de jantar. Não é fácil ser criança. (Para dizer a verdade, ser adulto, o que quer que isso signifique, também não é...). Há 20 anos, o Ferraz, a Vitória, o Paiva e os outros eram crianças numa casa quase anónima da Senhora da Hora, o Centro de Recuperação de Crianças, onde alguns adultos as ajudavam a ser crianças, que é como quem diz que se ajudavam a si próprios a ser adultos. Pode muito bem ter sucedido que o Centro os tenha recuperado a todos e eles hoje estejam tão feios e tão recuperados, como nós e que os seus sonhos recuperados, sejam agora o Totoloto ou umas férias em Torremolinos.
Na altura, todos eles (e se calhar todos nós) sonhavam sonhos mais graves e mais improváveis. O Artur, por exemplo, sonhava ser uma casa: Se eu fosse casa, as pessoas dormiam dentro de casa, / e também jantavam dentro de casa, / e lavavam a cara no lavatório. Há 20 anos era a infância, esse misterioso lugar, perdido nas sujas ruas da grande cidade, ou nas ruas, também sujas, da escola e da família, que eles recuperavam na casa da Senhora da Hora. Com a ajuda de um imenso pequeno jornal de quatro páginas, o Fala Barato, que se publicava ao sabor do Sol: na Primavera quando era Primavera, no Verão quando era Verão, no Outono quando era Outono e no Inverno quando era, e era tantas vezes!, Inverno. Num desses invernos vieram buscar a Vitória e ela, subitamente aprisionada fora de si, escreveu uma prosa terrível no jornal: Eu gosto muito do Natal. Eu era para passar o Natal aqui no Centro, mas veio uma senhora buscar-me para ver a minha mãe que estava morta. Agora, 20 anos depois, folheio os Fala Barato, que encontro por acaso, velhos e despropositados, no fundo da estante, e procuro-os a todos, ao Ferraz, à Vitória e ao Paiva, mas encontro apenas sombras. E palavras, que é a matéria de que a memória, como a infância (e como os jornais), são feitos. Onde quer que hoje eles estejam, o Ferraz e os outros, não são o Ferraz e os outros que lá estão; o Ferraz, poeta maldito, a Vitória, fragilíssima, e o Paiva, que algum estranho deus contemplara com o raro dom, proibido às pessoas comuns, de ver as coisas pela primeira vez, ficaram para sempre no Fala Barato.
Tinham todos sido recolhidos no Centro, vindos sabe-se lá de onde, para serem recuperados. Porque a infância, como a poesia, sobretudo quando são mais puras, suportam mal a vida; eram crianças com problemas, e a infância é um problema que a vida raramente perdoa. Fora do Centro teriam certamente soçobrado no mundo dos adultos e das pessoas comuns. Hoje, provavelmente, são também, como todos somos, pessoas comuns. O mais certo é que já, não escrevam poesia e guardem os Fala Barato escondidos em qualquer sítio inacessível no fundo de si próprios. Os meus Fala Barato guardei-os também, de novo, no fundo inacessível da estante. E ali jazerão para sempre, mortos e irrecuperáveis». In Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 28/05/1988.

In Manuel António Pina, Crónica, Saudade da Literatura. Antologia, 1984-2012, selecção de Sousa Dias, Assírio Alvim, Porto, 2013, ISBN 978-972-37-1684-9.

Cortesia de AssírioAlvim/JDACT