segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa. «… as três igualmente aqui, como em muitos outros tempos e decisões: recusando sermos sombra, sedativo, repouso de guerreiro. Guerreiros, nós, mulheres de corpo inteiro e segura mão»

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Primeira Carta III
 (…) Não te respondo a carta escrita; dita para mim ou feita em meu sentido e facto aceite, em duas direcções, numa aparente ambiguidade: a tua infelicidade por me amares ou tua maior infelicidade em não me teres amado nunca, se possível. Se possível, digo, pois a paixão que me dedicas existe tendo-te muito mais a ti por objecto que a mim, na realidade; e apesar do sofrimento que lamentas é muito mais ela em teu proveito (te enriqueces, te humanizas, te revigoras, afirmas), e por isso me amas. Que em meu proveito só o é pela atenção que me dedicas, pelo uso que já fiz dela contra a minha solidão, pela fuga que me obrigas a empreender todos os dias. Fuga: ao repelir-te porque me exiges, fuga ainda enquanto te aceito, te pareço aceitar apenas, pois recuso o amor como cedência a outrem, ou condescendência.
Por isso, irmã, foi a ti escrita a carta que tanto se hesita sempre escrever a quem ou de quem nela se fala e fira, mas a quem leva mensagem. No fundo a quem se acusa de não ser (mos) sombrinha chinesa na mão, antes sol tão intenso que cega mas deslumbra. E de novo nos encontramos juntas as três igualmente aqui, como em muitos outros tempos e decisões: recusando sermos sombra, sedativo, repouso de guerreiro. Guerreiros, nós, mulheres de corpo inteiro e segura mão.
Riso breve deixamos sobre as coisas, retornando de onde nunca fôramos. E assim nos expomos umas às outras, contando-nos talvez um homem, sim, porém também de nós nem sempre os homens, mas o nosso espaço vazio, a nossa claridade sufocante, a voragem de tudo o que tocamos, a nossa constante descoberta dos contornos imprecisos, dos perfis exactos, da dureza das formas. De ti te dizes fluida, de mim vidro e de ti outra milhano (mosto, mastro). De mim desejo: o corpo à descoberta do prazer e a paixão que me engana; de imediato, desejo, e eu sobre a paixão como se a possuísse toda num longo acto de amor sem esperma mas meu suco.

Possível será ser-se mulher sem se ser fruto?

Por tal me chamas rosa seguindo eu sem decorar nenhuma sala, nesta mansa sede que calo ou costumo calar, não a vocês. Por tal ou para isso nos sentimos perto. E se ainda hesitamos (quase sempre tu, pedra-fêmea, tua tranquila transparência) mais não é que a força do hábito de desconfiarmos sempre ao pé dos outros. Hábito de usos e modos, medos bravos: hábitos de útero e convento. Hábitos de fatos e fitas a formar-nos as formas.
De súbito se despe Mariana para mãos que a firam, a provoquem, a desvariem na sua própria descoberta. Não sei se sonsa como afirmas nas cartas, se esperta na lástima ostentada, assim se desculpando, se ilibando, apossando-se, todavia, do cavaleiro, servindo-se dele como alimento da sua paixão, sustento da sua liberdade. Que com paixão se desclausura a freira.
Não sendo o cavaleiro mais do que pretexto, motivação. Homem que pensou montar e foi montado. Encontrará o amor outra maneira senão esta: aquele que utiliza ou é utilizado. Aquele que devora ou é devorado; se finge devorado e por sua vez devora?
Não me devoras ou domas pelo lamento. Já te esqueço hoje e não desejo. Já me afasto e venço, já te vendo ou troco mesmo pela calma tranquilidade em que me vejo. Recusa-me, escrevo-te, mas tu não me recusas vivendo de esconsas datas e memórias reatadas só contigo, certamente com elas te masturbando, isso te chega, ou não te chega, então me acusas de manso e fingimento em subtil maneira de tristeza, dizendo-me quereres mesmo em teu tormento (eu factor de tormento, logo paixão, sendo o tormento ainda utilizado como constrangimento a me demover da frieza que te dedico), eu teu desalento, desespero, fio tecido em meu redor à maneira de teia». In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT