segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Crepúsculo da Idade Média em Portugal. António José Saraiva. «Os poetas ora cantam a pequena aldeia galega onde nasceram, ora passam, com mais ou menos demora, pela corte de Portugal, ora se fixam e prosperam na corte de Afonso X»

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«Os trovadores que transpunham os Pirenéus facilmente se faziam ouvir nas cortes aragonesas, onde eram protegidos e premiados. De Aragão, os jograis trovadores da Provença ganhavam as cortes vizinhas de Leão e Castela, onde o seu prestígio internacional forçava a atenção dos reis e cortesãos que procuravam dourar-se com os ouropéis do estilo poético. Tanto pela língua como pelos temas, a joglaria provençal não era de fácil entendimento para os cavaleiros, mais habituados ao realismo e à rude metrificação dos cantares de gesta. Mas a élite dava leis e a música asas que permitiam voos por sobre as fronteiras culturais. Tornou-se moda compor cantigas à maneira provençal.
Não há notícias de que trovadores provençais tenham visitado a corte dos primeiros reis de Portugal, aqui nos confins do mundo. Mas donde seria o jogral Bonamis de que fala o testamento de Sancho I? Era inevitável que estes reis e os respectivos áulicos adquirissem os hábitos das outras cortes de Espanha que frequentavam, a quem estavam ligados por parentesco apertado e com quem trocavam os filhos em casamento. Como podia deixar de haver para cá do Ebro um estilo comum de cortejar as damas?
Já sugerimos noutro lugar que antes da chegada da moda provençal havia nas cortes de Espanha uma lírica de fundo tradicional, enraizada no Noroeste, cantada por jograis locais de língua galego-portuguesa e na qual veio a enxertar-se a influência dos trovadores provençais. A existência e a difusão de jograis líricos galegos explicariam porque é que o galego-português ficou sendo a língua lírica dos poetas de toda a Península Ibérica. A língua castelhana era própria dos jograis épicos. Entre os cantares de amor mais antigos, o de Sancho I e o de seu bastardo Gil Sanches não têm nada de provençalesco. Um, o do pai, é uma cantiga de amigo:

Ai eu coitada, como vivo en gran cuidado
Por meu amigo que hei alongado
(Refrão)

Ai eu coitada, como vivo en gran desejo
Por meu amigo que tarda e não vejo
(Refrão)

Outra, a do filho, tem a forma repetitiva, apesar de ser uma cantiga de amor:

Tu que ora vens de Montemaior
Tu que ora vens de Montemaior
Digas-me mandado de mia Senhor
Digas-me mandado de mia Senhor
(Refrão)

Tu que ora viste os olhos seus
Tu que ora viste os olhos seus
Digas-me mandado dela por Deus
Digas-me mandado dela por Deus
(Refrão)

Estes exemplos reforçam a hipótese de os mais antigos poetas galego-portugueses terem aprendido a compor na tradição local, e não nos modelos provençais. Ora os jograis e trovadores constituíram dentro da Península uma confraria internacional e migratória, viajando de corte em corte, mas tendo sempre na corte dos reis de Castela e Leão o seu poiso principal, no que respeita ao Ocidente da Península. Pertenciam a essa confraria indivíduos de todas as nacionalidades: galegos, portugueses, leoneses, castelhanos, talvez até aragoneses. Alguns nomes de trovadores célebres exemplificam esta diversidade:
  • Afonso X é rei de Castela;
  • João Airas é natural de Santiago;
  • Dinis I e João Soares Coelho são portugueses;
  • João Garcia Guilhade parece ser galego;
  • Martim Codax é natural de Vigo;
  • Bernal de Bonaval é de uma aldeia próxima de Santiago;
  • Martim Moxa parece ser aragonês.
A Península inteira era, de facto, a pátria de todos eles.
  • Os poetas ora cantam a pequena aldeia galega onde nasceram;
  • ora passam, com mais ou menos demora, pela corte de Portugal;
  • ora se fixam e prosperam na corte de Afonso X.
Com o exército de São Fernando tomam parte na conquista de Sevilha. Um jogral vilão que ganhou celebridade, Lourenço, saiu de Portugal, buscando amparo junto de Afonso X, e explicou a um confrade que o fazia para ganhar algo. De facto sabemos que ele veio a comprar casas em Espanha. João Soares Coelho, importante personagem da corte portuguesa, fez largas temporadas na corte do Rei Sábio, onde escreveu todas as suas composições que hoje se podem referenciar. Há algumas alusões nos cancioneiros a acontecimentos políticos e militares ocorridos em Portugal, como a guerra civil entre Afonso e Sancho; mas são escassas em comparação com as que se referem a acontecimentos em Castela: jornada de Sevilha, tomada de Valência, morte de Fernando III e de sua viúva e outros». In António José Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Gradiva Publicações, Lisboa, 1998, ISBN 972-662-157-7.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Leituras. Os Venturosos. Alexandre Honrado. «El-Rei em tudo isto o que mais cultiva ainda é a música, paixão antiga… Embora as suas muitas penas o levem cada vez menos a celebrar coisa que seja… - Tragam flautins e outros sopros, e cordas que se ‘tanjam’. Quero ouvir música no meu palácio»

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«E mesmo em caças, artes que requerem silêncios, El-Rei leva músicos tal é o ‘prazimento’... Aliás, eram frequentes, no tempo da sua melhor disposição, os passeios ao campo e aos rios, com acompanhamento musical. Muito característicos, em época de folguedo e divertimento, os passeios em rio, que no reino há um maior do que todos e que é o Tejo, e até soía estar em suas margens grandes lezírias que o rio, bruto, leva por vezes com ele e ocupa.
El-Rei ia pelo Tejo, primeiro pelas margens, em bons locais de embarcação, onde recebia singular recebimento de batéis e outros muitos navios, albetoças, barcas e todos toldados de grande perfeição. Uma vez, essa vez guardava em memória por ser a que mais lhe agrado captou, embarcara em uma grande alivadoura, toda toldada de brocado com muitas bandeiras de seda e alcatifada e muitas almofadas de brocado e batéis à volta que a levavam à toa, com os remeiros todos vestidos de libré das cores da princesa que então era viva, e os batéis muito embandeirados e pintados todos e os remos mui enramados e neles muitas folias de homens e de mulheres muito bem vestidos das cores da princesa e muitos entremezes e festas. E em El-Rei embarcando fez-lhe um conde uma surpresa e saiu o conde de uma ponta onde estava escondido, com grande soma de barcas e batéis muito embandeiradas e enramadas e todas com muitas bombardas que tiraram e com muitas trombetas e atambores e grandes gritas, que pareceu muito bem. E com estes batéis e barcas e outros muitos era o rio coberto deles, todo com folias, prazeres e ,entremezes e muitas trombetas bastardas, muitos atambores, muitas charamelas e sacabuxas, muitas infindas bombardas, que foi muito alegre festa por ser no Tejo, ai que tempo de saudades…
Nesse tempo e no tempo em que estava na capital do reino nos domingos e dias santos e em que não ia à carreira e em alguns da semana ia folgar em um batel embandeirado de seda levando sempre consigo música e algum oficial seu com que ia despachando e as mais das vezes chegava ao cais dos paços de Santos-o-Velho onde o Duarte, cavaleiro de sua casa, ou o Gil, camareiro-mor, a quem em parte de satisfação de seus serviços dera o oficio de guarda dele, lhes mandava trazer de merendar de muitas frutas verdes, conservas e coisas de açucar, vinho e água, de que também comiam os fidalgos que a seu chamado e se El-Rei estivesse de tal feição prazenteira, iam com ele no batel e assim toda a mais companhia de músicos, moços fidalgos da câmara e remeiros, para as quais merendas tinha mercês ordinárias que lhe El-Rei para isso fazia… Ai que saudades…
El-Rei em tudo isto o que mais cultiva ainda é a música, paixão antiga… Embora as suas muitas penas o levem cada vez menos a celebrar coisa que seja… - Tragam flautins e outros sopros, e cordas que se tanjam. Quero ouvir música no meu palácio. Eh, lá, D. Bosta, quereis dançar para nós?
O nobre Ataíde sentiu-se corar de humilhação. Não encarou seu rei para responder. Levantou-se e deitou a fugir e fugido andava quando deu com a entrada para a cozinha real. Uma azáfama de fogos, fumos, caldeirões e aves depenadas. Um calor de morrer. Um cheiro de estontear. Mesmo assim, Ataíde sentou-se a um canto, a sossegar. O primeiro a topá-lo foi o cozinheiro-mor, homem de grande sabedoria e que fora à Índia com Vasco, o navegador, e os seus... Recém-chegado, trouxera novas e muitas sabedorias de espantação variada, e não deixou de relacioná-las com o ar triste do fidalgo.
Ousado, chegou-se o cozinheiro-mor a ele e perguntou-lhe que inquietação era a sua, de que penas sofria. Ataíde, talvez da ocasião, do ambiente, do cansaço, desabafou. Contou a sua pouca sorte, a pequeníssima vontade de viver, o seu desinteresse, a sua apatia, a imbecilidade, o estupor em que vivia... Os seus tormentos. A sua inabilidade para as pujanças requeridas num novo século cheio de coisas tão vividas e ousadas...
O cozinheiro-mor ouviu-o. Melhores são os cozinheiros em audições que os confessores; os cozinheiros são artistas da paciência em lumes brandos ou fervuras...
Da amálgama dos condimentos operam sábias alquimias...» In Alexandre Honrado, Os Venturosos, Círculo de Leitores, Braga, 2000, ISBN 972-42-2392-2.

continua
Cortesia de C. de Leitores/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2012

Fado e Música Tradicional Portuguesa. Ana Laíns e a sua Voz doce. «A viagem prossegue... Desde a anterior paragem muitas imagens foram vividas e guardadas na minha memória. Imagens que rebusquei a quando do momento de me relançar nesta história. Tantas certezas, e com elas tantas novas incertezas»

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Quatro Caminhos
Quatro caminhos abertos
p'ra prever qualquer viagem
virada prós quatro pontos
dos cardeais das aragens!

Quatro caminhos perdidos
quem sabe até se existiram
estão no rasto de outros passos
que deles não se serviram!

Quatro caminhos à espera
do tempo que os vem trazer
dois foram dados à vida
e outros dois ao morrer!

Quatro caminhos traçados
aqui na palma da mão
prevêem vidas e mortes
dias sim e dias não!

Quatro caminhos roubados
pelos ladrões que andam nos sonhos
figuras, monstros, fantasmas
que nos perseguem, medonhos!

Quatro caminhos arados
pelos terrenos do peito
depois de tanta canseira
nasceu um amor-perfeito

Quatro caminhos à espera
do tempo que os vem trazer
dois foram dados à vida
e outros dois ao morrer

Quatro caminhos traçados
aqui na palma da mão
prevêem vidas e mortes
dias sim e dias não!
Poema de Amélia Muge
 
Portalegre

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O Maior Tufão de Macau. Pedro Fragoso Matos. «A canhoneira Camões é um navio de ‘molave’, madeira das Filipinas, forrado de teca e de pinho americano, e cavername ligado com pródigos de ferro em diagonal e foi mandada construir, bem como a D. Carlos, em 1866»

canhoeira Camões
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Com a amizade da LC e a memória do amigo APCM

(Continuação)
«No sentido de enriquecer o presente estudo, permito-me apresentar, seguidamente, alguns excertos desse belo documento, por constituir um extraordinário e empolgante relato duma das mais imponentes manifestações das forças naturais, desenvolvidas pela passagem daquele devastador tufão por Macau, terra portuguesa(?), longínquo marco milenário, atestando o valor da gente lusitana (?), sendo de evidenciar que é tanto mais curioso, quanto o seu autor confessa, muito simplesmente, que eu nunca vi a China. Assim, o almirante Braz Oliveira escreveu:
  • (...) O aspecto que oferecia o porto de Macau ao pôr do Sol no dia 22 de Setembro era deveras majestoso. Às 4 horas (p. m.) o Pontão da Polícia, a Lorcha Amazona, deu o tiro de tufão...Para os lados da foz do Rio do Oeste a atmosfera tinha esbraseado, como se a boca de uma enorme fornalha escancarasse as goelas, golfando torrentes de luz de metal fendente, e farrapos de nuvens soltas, cor de sangue, passavam rápidas sobre os picos das ilhas de Lapa e de S. João, sumindo se no negrume, que alastrava para o Sul. O vento NW soprava rijo, a vaga pequena, mas revolta, iluminada pela luz extraordinária, parecia um mar de fogo. Em porfiada regata, dezenas de embarcações chinas, com as velas a meio mastro, bordejavam para agarrar o ancoradouro da margem norte do rio, usual refúgio contra as iras da porcela (...)
    Ia no porto uma faina insana. Os navios preparavam-se para combater o vento.
Reforçavam as amarrações, arriavam as vergas e mastaréus, pregavam toldos sobre o xadrez das escotilhas, atracavam fortemente a artilharia, punham ferros à roça prontos a largar, fumegavam as chaminés dos barcos a vapor, aprontando as máquinas para a luta, dispunha-se a gente a postos de manobra, enquanto os comandantes, olhando a coluna barométrica, sentem mais esmagador o peso das responsabilidades do cargo que exerciam, aguardando as variadíssimas fases da peleja (...)
(...) A Estação Naval da China compunha-se de três canhoneiras:
  • Tejo, o comandante da Canhoneira, o primeiro-tenente Fernando Augusto Cabral exercia e comando da Estação Naval da China; 
  • Camões; 
  • Príncipe D. Carlos, e de algumas lanchas da Polícia. A canhoneira Camões, a Escuna Príncipe D. Carlos e a Lancha a Vapor Andorinha, pertencentes ao Governo da Província(?) de Macau e de Timor, no dia 1 de Setembro de 1874, tinham sido integradas na Estação Naval da China, no sentido de se activar a repressão contra a pirataria (...)
(...) A canhoneira Camões é um navio de molave, madeira das Filipinas, forrado de teca e de pinho americano, e cavername ligado com pródigos de ferro em diagonal e foi mandada construir, bem como a D. Carlos, em 1866, pelo Governador Coelho Amaral (...)
(...) A Camões está amarrada a 300 m no prolongamento da ponte de vapores da carreira de Hong-Kong.
A 100 m a NE avulta o pontão Amazona e ao mesmo rumo, atracado à ponte, um dos vapores de Cantão, o White Cloud, e a 150 m a SSE o vapor Poyang, na sua bóia. A NE, junto à margem E do rio vêem-se centenas de lorchas amarradas e o brigue Concórdia, próximo e ao S da ilha Verde. A W, encostado à ilha da Lapa, demora a barca Santa Sancha e a meia milha ao S da Camões a Tejo e a outra canhoneira nacional.
Às 9.30 (p. m.) refrescaram as rajadas, a escuna portava rijo pelos ferros, a máquina começou a funcionar avante, devagar, parando nos recalmões para não seguir em demasia. À meia-noite a máquina trabalhava avante, a toda a força e o navio conseguia por vezes aprumar a amarra e resistia optimamente. O vento rugia com incrível fúria pelo N; o escarcéu galgava as baixas amuradas.
A escuridão era completa, apenas a espaço rasgava o negrume o fraco lampejo das luzes da lorcha e do Poyang. 

Os amigos António Viseu e Olavo Rasquinho

In Pedro Fragoso Matos, O Maior Tufão de Macau, Separata dos Anais do Clube Militar Naval, Lisboa, 1985.

continua
Cortesia de António Pedro (†)
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O Paradoxo da Sabedoria. Elkhonon Goldberg. «Poderá o fenómeno da sabedoria, em princípio, ser compreendido em termos biológicos e neurológicos ou é demasiado esquivo e multifacetado para ser abordado com algum grau de precisão científica?»

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A Vida do Cérebro
«Mas o que tem a dizer para tranquilizar o público? Nesse momento disse para mim mesmo: “Que interessante idioma cultural! Tem de haver um fim feliz!
Tranquilizar nem sempre é algo positivo. Há circunstâncias em que agarrar à força o público, por assim dizer, e abaná-lo de forma alarmista será melhor a longo prazo. Mas sobre a questão do envelhecimento o público já recebeu a sua dose terapêutica de alarme. Ouvimos constantemente falar do flagelo da demência da doença de Alzheimer e dos sintomas da neuroerosão, a intrusão do esquecimento e a crescente fadiga mental. Infelizmente, estes flagelos são reais.

NOTA: Cunhei os termos neuroerosão e, por extensão, neuroerosivo, para preencher uma certa lacuna notada. É comum referir certas perturbações que dão origem a casos de demência como neurodegenerativas. Mas este termo é muito restritivo e negativo. Implica um conjunto específico de perturbações caracterizado pela atrofia neural primária. O termo cerebrovascular ou multienfarte, muitas vezes utilizados para referir outras perturbações específicas que resultam eventualmente em casos de demência, também têm conotações muito específicas e restritivas que implicam uma doença primária dos vasos sanguíneos do cérebro. Neuroerosivo pretende ser um termo genérico que abrange todas as possibilidades específicas e desprovido do sentido de finalidade associado aos outros termos.

Mas é tempo de olhar para o lado positivo, desde que seja real, e não um truque falso para tranquilizar as pessoas.

A Explicação da Sabedoria
A sabedoria é o aspecto positivo. Ao longo dos tempos, a sabedoria tem sido associada à idade avançada nas tradições populares de todas as sociedades. A sabedoria é uma preciosa benesse do envelhecimento. Mas, poderá a sabedoria resistir ao assalto da neuroerosão? E por quanto tempo?
Coloca-se a questão da natureza da sabedoria. Na nossa cultura, utilizamos a palavra com frequência e de forma reverente. Porém, terá sido alguma vez a sabedoria cabalmente definida? E a sua base neural compreendida? Poderá o fenómeno da sabedoria, em princípio, ser compreendido em termos biológicos e neurológicos ou é demasiado esquivo e multifacetado para ser abordado com algum grau de precisão científica?
Sem reclamar qualquer particular sabedoria, acredito que posso contribuir para uma maior compreensão pelo desenvolvimento das introspecções anteriores que contribuem para esclarecer a natureza da sabedoria ou, pelo menos, um dos seus aspectos importantes. O fio do raciocínio e a tese desenvolvida fluirão a partir dessa introspecção e desse discernimento.
Com a idade, o número de tarefas cognitivas da vida real que requer um grande e árduo esforço e a criação intencional de novas construções e ideias mentais parece diminuir. Por sua vez, a resolução de problemas adquire progressivamente a forma de reconhecimento de padrões. Isto significa que com a idade acumulamos um número crescente de modelos cognitivos. Consequentemente, torna-se mais provável que um número crescente de futuros desafios cognitivos se insira com relativa facilidade num modelo preexistente ou exija apenas uma ligeira modificação de um modelo mental previamente formado. A tomada de decisões assume a um ritmo crescente a forma de um reconhecimento de padrões e não tanto de resolução de problemas. Como demonstra a obra de Herbert Simon e de outros autores, o reconhecimento de padrões é o mecanismo mais poderoso para uma cognição bem sucedida». In Elkhonon Goldberg, O Paradoxo da Sabedoria, 2005, Forum da Ciência, PE-A, 2008, ISBN 978-972-1-05857-6.

Cortesia de PE-A/JDACT

Herculano Desconhecido. 1851-1853. António José Saraiva. «É interessante assinalar que Herculano tendia a considerar a agiotagem sob o aspecto puramente local da usura, e pretendia combatê-la com meios locais como eram os bancos-cooperativas municipais. Não atingia o escalão da banca nacional e internacional»

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«Desde 1ogo parece utópico elaborar um programa de governo sem encontrar os meios para os realizar. O municipalismo é deliberadamente apolítico, mantém-se por definição à margem dos partidos nacionais cuja supressão preconiza, nega ou minimiza o poder central; os seus partidários são os cidadãos municipais que ainda estão por nascer. Como portanto obrigar o poder a realizar o municipalismo? Em que interesses basear a expansão da ideia municipalista? Como todos os utopistas Herculano parece ter sonhado em certo momento, 1ogo a seguir ao golpe de estado de Saldanha, a efectivação da -sua ideia pelo poder pessoal, a utopia por excelência, esquecendo que o poder pessoal tem de assentar em alguma força. Quando viu desvanecer-se esta ilusão, ele próprio se desmentiu colaborando na constituição de um grande partido nacional, o partido histórico.
Herculano constrói a utopia municipalista como se ignorasse o facto de que os partidos políticos da sua época representam interesses e grupos sociais que se estendiam a toda a extensão do território, quando não radicavam em interesses internacionais. A agiotagem e a banca apoiavam o Cabralismo não eram evidentemente um episódio local, mas uma rede que não conhecia limites municipais; o mesmo se poderia dizer do grupo que empalmou a Regeneração; ou do Setembrismo que estabeleceu pautas protecionistas para atender aos interesses dos pequenos industriais que o apoiavam, etc..
Para reformar a estrutura política no sentido municipalista seria preciso começar por refazer pelos alicerces a estrutura social do país; e para isso seria preciso revolucionar a sua estrutura económica a começar pela própria propriedade agrícola, que no fundo o municipalismo pretendia defender. Por outras palavras, destruir os partidos políticos pressuporia destruir os grupos sociais em que se apoiavam, portanto a base económica donde eles nascem, o que equivalia a destruir toda a ordem social existente na época. Mas contraditoriamente, o municipalismo destinava-se a perpetuar um especto fundamental dessa ordem económica e social.
Esta complexidade do problema escapava a Herculano porque, como vimos, ele considerava o parlamentarismo sob o aspecto puramente político, sem investigar as suas raízes económicas que conhecia incompletamente. O que não quer dizer que esta utopia política não tivesse a sua base económica. Simplesmente era uma base quimérica, porque considerava o país como uma associação de proprietários rurais, esquecendo que a vida económica evolui constantemente, que todos os seus aspectos são inter-relacionados, e que, dentro dela, determinadas funções têm uma importância central.
É interessante assinalar que Herculano tendia a considerar a agiotagem sob o aspecto puramente local da usura, e pretendia combatê-la com meios locais como eram os bancos-cooperativas municipais. Não atingia o escalão da banca nacional e internacional. Por outro lado parece que não tinha em devida conta o facto de que a grande maioria da população camponesa é constituída não por proprietários mas por trabalhadores, os quais ficariam praticamente fora da organização política dos municípios». In António José Saraiva, Herculano Desconhecido. 1851-1853, Edições SEN, Porto, 1953.

Cortesia de Edições SEN/JDACT

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «No mundo dos antigos japoneses, o que corresponde à ‘lenda dourada’ é o “Konjaku”. Foi em 1844 que se descobriram as mil histórias do “Konjaku monogatari”. Os eruditos afirmaram que teria sido “Minamoto no Takakuni”, quem teria registado essas histórias no Verão do ano 1071»


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Retratos vivos
«A Bíblia permite-nos compreender a história dos antigos Hebreus, a escravatura a que estiveram sujeitos no Egipto, a deportação que os manteve prisioneiros dentro das muralhas da Babilónia, o édito de Ciro que os libertou, a língua que foram esquecendo, os cabelos cortados de Sansão e a sua força aniquilada pela faca de uma mulher, Saul saciado com o corpo e o canto de um adolescente, Judite segurando pelos cabelos a cabeça cortada de um general, Onan derramando o seu sémen na areia e gemendo de alegria na sua solidão.
O que corresponde ao que a Tora foi para o mundo dos antigos Hebreus e permite descobrir o sentido da maior parte das imagens esculpidas ou pintadas durante a Idade Média na Europa é a colectânea de lendas redigida pelo dominicano Jacques de Voragine, entre 1258 e 1263, a Legenda Aurea,  colectânea dos nimbos de ouro que inclui todas as histórias referentes aos mártires, santos, eremitas, padres do deserto, fundadores de conventos e padres da Igreja.
No mundo dos antigos japoneses, o que corresponde à lenda dourada é o Konjaku. Foi em 1844 que se descobriram as mil histórias do Konjaku monogatari. Os eruditos afirmaram que teria sido Minamoto no Takakuni, grande referendário de Uji, quem teria registado essas mil e uma histórias no Verão do ano 1071, em frente do rio de Uji, por ocasião dos grandes calores.
Tal hipótese foi posta de lado e não foi substituída por mais nenhuma, pelo que todas essas maravilhas foram atribuídas a ninguém. O que, para o mundo grego, em inícios do século II, teria correspondido com mais precisão à obra de Minamoto no Takakuni seriam as obras de Plutarco. O que, para o mundo francês do século XVII, corresponderia a Plutarco seria Tallemant. A quem se teria de acrescentar Saint-Simon. O que, para o mundo romano, correspondia a Tallemant era Suetónio. A quem os Romanos gostavam de acrescentar Tácito.


É minha intenção reflectir sobre duas histórias do Konjaku:
  • a sétima história do XXII rolo,
  • a quarta história do XXX rolo.
O que me interessa na confrontação dessas duas histórias, excelentemente traduzidas por Dominique Lavigne-Kurihara, é este aspecto paradoxal: o que os humanos mais amam não é susceptível de ser reconhecido.
O que reina é sempre o que se perdeu.
O que devora o homem é sempre o amor que sentiu quando ignorava a sua natureza. Esse amor é irreconhecível porque está imbuído de um mundo cujo reinado teve lugar antes da desunião do nascimento. Laço de antes da linguagem adquirida nos lábios daquela que deixa de estar unida e que já é a mãe que desfaz o laço. Unidade que diverge no acesso à luz para o olhar e pela transformação do corpo devida ao ar que se respira. Olhos que vêm e voz que clama dilacerando-se, dividindo a alma, destruindo a ressonância antiga, obscura.
O que já ocorreu é sempre esse desaparecimento impossível de conhecer, esse mundo engolido nos confins da vulva daquelas que nos fizeram crescer, e que regressa, com o seu silêncio característico, chamo silêncio à linguagem-que-já-não-é-órgão-de-nada, aquando das depressões nervosas, acelerando o ritmo cardíaco, angustiando a garganta, começando por fascinar os olhos e só depois a visão, sonhando. Dominando, animando, transportando, enlaçando e, por fim, matando os amantes». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

sábado, 1 de dezembro de 2012

Poesia. O Profeta do Orvalho. Wenceslau Moraes. José Jorge Letria. «Aqui deixei de saber o que é a pressa, o que é o tempo perseguido na voragem dos dias, o que é o sonho evaporado no temor das viagens»

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O Profeta do Orvalho

Em tantos lugares me perdi
Em tantos lugares me perdi
que hoje, para me encontrar, não me basta
nem mapa, nem bússola, nem sextante.
Eu sou o que sempre se perdeu na memória
que de si deixou no coração dos outros.
Lembras-te de mim, Arrusi, negra bonita
com olhos incendiados pela luz matutina da savana?
Lembras-te do teu marinheiro de mansas falas,
que se fazia ao mar como quem parte
para o último reduto do coração das estrelas?
Tornou-se parco para mim o mundo
com tantos afectos dispersos pelos portos
onde nenhum vento de monção me fará voltar.

Meu amigo Camilo Pessanha
Meu amigo Camilo Pessanha, como nós
entristecemos por razões desiguais
na teimosa penumbra dos retratos,
ambos feridos pela doença desta distância
que de um só golpe nos liberta e nos cativa.
O que seria da nossa escrita sem este Oriente
que nos deu uma nova alma, feita de tédio
e melancolia, deixando refém essa outra alma
com que nascemos portugueses e do mundo,
amantes inebriados pela tentação do longe?
Estamos lado a lado nos retratos, almas penadas
por longínquas servidões, respondendo
quando nos chamam pelos nomes gentios
que nos foram dados para venerarmos os deuses.

Eis-me, marinheiro sábio
Eis-me, marinheiro sábio, no exílio da terra,
corpo alongado sobre uma colcha de seda
como se estivesse esquecido e perdido do tempo
sobre a erva humedecida pelo orvalho,
na claridade baça do amanhecer de Kobe.
Aqui deixei de saber o que é a pressa,
o que é o tempo perseguido na voragem dos dias,
o que é o sonho evaporado no temor das viagens.
Ancorei neste espanto inominável, neste areal
de assombros em que se perde a lembrança e a face
e em que nos tornamos outros na memória de nós.

Poemas de Wenceslau de Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho’

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Mitos Climáticos Rui Gonçalves Moura. «Estudei nos livros… pelas sete partidas do mundo e neles vibrei com grandes e pequenas coisas, arrisquei… não por consciente e deliberada opção, que de herói tenho pouco, mas porque teve de ser e não o pude evitar…»

Cortesia de ruimoura e jdact

In Memoriam a Rui Moura.

De acordo com o original.

Modelos meteo-clima

«A meteorologia e a climatologia atravessam uma crise profunda de conceitos e de explicações dos mecanismos do tempo e do clima. Não acompanharam a revolução das observações dos satélites.
Por exemplo: - Qual é a origem do anticiclone (alta pressão) dito dos Açores?; - Qual é a origem da depressão (baixa pressão) dita da Islândia?; - Qual é a origem do índice que mede a diferença entre as pressões destas duas zonas?; - Qual é a origem das superfícies frontais frias e quentes? As escolas, linhas de pensamento, da meteorologia e da climatologia que não acompanharam nem reflectiram sobre as indicações observadas com o aparecimento dos satélites não conseguem explicar as causas daqueles fenómenos. Pois a Natureza pregou uma partida na altura da entrada em “força” do Protocolo de Quioto e deu uma lição em tempo real de dinâmica do tempo. De facto, esta tem sido (e ainda continua a ser) precisamente inversa à do efeito de estufa antropogénico (frio/seco em vez de frio/húmido; no Verão será quente/seco em vez de quente/húmido).
A dinâmica do tempo no Inverno de 2004-2005, relativamente ao hemisfério Norte, frio e seco, refuta a teoria de que o efeito de estufa antropogénico é responsável pelo aquecimento global. A cadência diária e a potência dos anticiclones móveis polares que têm nascido no Árctico e na Gronelândia – nomeadamente os dos dias 27 e 28 de Fevereiro que cobriram a Escandinávia, e os dos dias 1, 2 e 3 de Março que invadiram a França e a Espanha, alcançando o Mediterrâneo (com neve mesmo no Magrebe!) – apresentaram uma dinâmica inversa da considerada nos modelos que, mais uma vez, se mostraram incapazes de prever uma tal situação.
Os anticiclones móveis polares são os principais responsáveis pelas variações da pressão, da direcção e da velocidade do vento, da temperatura - tanto no aquecimento como no arrefecimento - (desmistificam o conceito de aquecimento global devido aos gases com efeito de estufa de origem antropogénica), da humidade, da nebulosidade e da pluviosidade, directamente e de maneira evidente (visível pelos satélites) nas zonas fora dos trópicos e atenuada nas regiões tropicais. Eles são (com graus diversos) responsáveis tanto pela variação perpétua do tempo como pela variabilidade do clima, em todas as escalas temporais.
Daí que os modelos baseados em concepções erradas não podem estar correctos. Só por milagre, e na Física não existem milagres. Por isso, o que os modelos apontam (em 2100!!!) não tem qualquer significado físico, científico ou climático. A realidade está constantemente a refutar as conclusões dos modelos.

Pergunta-se então: quem fez aumentar a pressão em certos sítios (e baixar noutros)? Foram os anticiclones móveis polares (AMP) que nascem, no hemisfério Norte, no Árctico e na Gronelândia que tiveram uma actividade acrescida a partir da década de 70 (talvez 1977), com um tempo mais rigoroso e violento. Isto é, alterou-se a chamada circulação geral que provoca as transferências de energia entre os pólos (donde vem frio) e os trópicos (donde vem calor). E quem foi o responsável desta mudança mais ou menos súbita? A resposta a Deus pertence e sempre houve, desde o big-bang, estas variações mais ou menos bruscas.
O aquecimento global previsto nos modelos aqueceria os pólos, diminuiria o gradiente de temperatura latitudinal e diminuiriam as tormentas (o Verão é sempre mais calmo!). Ora nada disto aconteceu. Os pólos arrefeceram, contrariamente ao que apontam os modelos, e os AMP tornaram-se mais potentes e mais frequentes (cerca de 1 por dia). A potência deles diminui no Verão
». In Mitos Climáticos, mensagem de 2005, Março 31.

Rui Gonçalves Moura morre aos 80 anos de idade, a 27 de Junho de 2010.

Amizade para um Académico.
JDACT

“Azulejo sábio” e Poesia. Alexandre O’Neill. «Se é que nele algo mais que não seja o meu desejo de “mostrar uma realidade” e envolver nele os poemas… É a acção e os factos que não inventei. Uma questão entregue ao critério…»

Pavões
jdact e cortesia de wikipedia

Os Amantes de Novembro
Ruas e ruas dos amantes
sem um quarto para o amor
amantes são sempre extravagantes
e ao frio também faz calor.

Pobres amantes escorraçados
dum tempo sem amor nenhum
coitados tão engalfinhados
que sendo dois parecem um.

De pé imóveis transportados
como uma estátua erguida num
jardim votado ao abandono
de amor juncado e de outono.


Há Palavras que nos Beijam
Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto;
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
letra a letra revelado

no mármore distraído
no papel abandonado).

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte.
Poemas de Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

JDACT

Largada das Naus. História de Portugal (1385 – 1500). António Borges Coelho. «O rei João I convidou para governador da praça Martim Afonso Melo… “Recusou”. Apoiado pelo infante Duarte, ofereceu-se o conde Pedro Meneses, filho do conde de Viana, que fora degolado em 1384 pelo vilão Caspirre»

jdact e cortesia de wikipedia

«Os reinos não podem suportar tamanha despesa. E Ceuta, alongada de vossa terra, só por água pode ter socorro. Não haveis de ter o vento a vosso mandado, mas cuidai, que se pode seguir tal azo, que estando os navios em vossos reinos três e quatro meses, e não haverem tempo de viagem, outras vezes podem perigar no mar que é cousa comum, e que quase todos os dias acontece, ou os filharem corsários e ladrões, como vedes que fazem cada dia. Pela grandeza da cidade, precisareis de muita gente, de mantimentos, de dinheiro para os soldos e as mercês. Ireis sobrecarregar o vosso povo? Muitos abandonarão o reino para fugirem aos encargos. Quanto ao sacrifício divino não faltam igrejas na vossa terra, e quase todas em ruína. Considerai também que se mantiverdes a cidade, as mercadorias portuguesas terão muita dificuldade em atravessar o Estreito de Gibraltar.
Os da tenção contrária sustentavam que o abandono seria uma vergonha aos olhos dos estrangeiros. Então a nobreza antepõe as coisas proveitosas às honrosas? Deus não quisesse que se tal desejo e vontade alojasse nas casas dos príncipes e senhores. Para virdes matar uns poucos de mouros velhacos pouco serviço faríeis a Deus. O vosso feito mais pareceria de corsário que de rei. Em Ceuta poderão os fidalgos ociosos exercitar-se nas armas, em vez de irem para França e Inglaterra. E com esta e outra gente que anda nos vossos paços povoareis as muralhas da cidade.
Neste segundo grupo identificamos os homens da aristocracia urbana que interpelavam os da primeira opinião, em boa parte fidalgos e gente que andava nos paços régios. O rei João I convidou para governador da praça o guarda-mor Martim Afonso Melo, que com ele estivera na Batalha Real. Recusou. Apoiado pelo infante Duarte, ofereceu-se o conde Pedro Meneses, filho do conde de Viana, que fora degolado em 1384 pelo vilão Caspirre. Regressara a Portugal por altura do Tratado de Segóvia. João I confiou-lhe o governo da praça, que exerceu com coragem e inteligência. Deixou-lhe trezentos vassalos, mais trezentos do infante Duarte, que ficaram sob a liderança do conde, mais duzentos e cinquenta do infante Pedro e trezentos do infante Henrique. Os vassalos dos dois infantes tinham capitão próprio. A cidade de Lisboa deixava cem homens de armas, certamente pagos à sua custa. Ao todo ficavam em Ceuta dois mil e setecentos homens, boa parte de origem urbana, muitos deles acostados à casa do rei e dos infantes. Ficavam também alguns estrangeiros e cavaleiros portugueses que andavam nas guerras europeias, como João Pereira, homem do infante Henrique, ou Pero Gonçalves, que diziam o Malafaia.
Em Tavira, no regresso, o rei João concedeu as primeiras mercês:
  • para o infante Pedro criou o ducado de Coimbra;
  • para o infante Henrique o ducado de Viseu, a que acrescentaria o senhorio da Covilhã.
À ida e à vinda, a peste mordeu a hoste expedicionária. Mas ninguém voltava sem trazer um bocado de riqueza. As mulheres regozijavam-se com os feitos dos maridos e com os proveitos alcançados. E expedicionários houve que, na partida, deixaram os cereais guardados no celeiro e, na volta, chegaram a tempo de colher as uvas.

Quem promove a conquista
A empresa de Ceuta mobilizara um país que vivera quase trinta anos em guerra, quente e fria, contra Castela. No entanto, agora o fervor era tão grande no reino que em todos os lugares, as gentes não falavam em al, principalmente nas cidades de Lisboa e do Porto. Por toda a Ribeira de Lisboa, calafates e carpinteiros reparavam as naus e navios enquanto os tanoeiros e outros homens e mulheres preparavam os mantimentos. Em tempo calado, o ruído dos martelos era tão grande, no dizer da Crónica, que se ouvia nos lugares do Ribatejo. O Porto armou à sua custa umas setenta naus e barcas, fora outra fustalha, que não sabeis um só lugar na Hespanha de que tão poderosa armada pudera sair.
Mobilizaram--se os fidalgos de quantia de todas as comarcas. No Norte e na Beira o recrutamento coube ao infante Henrique e a seu irmão Afonso, conde de Barcelos; na Estremadura e nas comarcas do Sul, ao infante Pedro. Os combatentes do Norte reuniram-se no Porto e navegaram em armada própria para Lisboa». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal (1385 – 1500), Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-21-2464-5.

Cortesia de Caminho/JDACT

Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid Martins. Lisa flores. «As cartas que vos deixo nasceram no silêncio de mim para ninguém. Um ninguém que o tempo queria que fosse diferente, que fosse pessoa. Pessoa que sentisse a magia das palavras e as fransformasse em flores. Num percurso do sonho, o tempo marcou encontro com a Natureza e fez brotar a essência da Vida»

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O meu coração é como um espelho
 - está nele o mundo inteiro reflectido.
Escrevo tal como vejo,
e parecerá acaso raro,
e mesmo louco,
pois penso em coisas bem estranhamente diversas.
Yoshida Kenko, 1283-1350

«Há tempos, cruzaram-se os meus caminhos com os de Lisa. Dotada de uma grande sensibilidade, é através da sua pintura "natif" que ela nos revela o seu extremo gosto pelo belo, por tudo quanto é puro e simples. E é com essa sua sensibilidade e esse seu gosto que eu me identifico. Tal como um poema haiku, a sua arte não tem fronteiras. Leio e releio as suas cartas com crescente admiração. Deslumbrada pela magia das suas palavras e pela fragrância das suas flores, aceitei colaborar neste livro.
Lisa Flores é uma escritora de linguagem poética e de miragens que nos mostra a Natureza na sua forma mais singular. Enquanto poetisa, é um ser receptivo ao permanente renascimento do mundo. Nas suas Cartas a Ninguém, Lisa vê o mundo com novos olhos, como se o contemplasse pela primeira vez, e toca o eterno. Revela-nos emoções fortes e simples, tanto do universo exterior como do universo mais íntimo da sua alma. Esta pintora-poetisa vive no coração da saudade, entregue aos anseios do seu Eu mais profundo.
Na sua caminhada poética, desvenda-nos, de forma renovada, a riqueza de pequenas maravilhas que se escondem numa simples pedra, numa árvore, numa nuvem, nas ondas do mar, no chilrear dos pássaros, na sombra dos malmequeres silvestres, verdadeiros paraísos onde o homem comum, esquecido do real valor da origem, só vê o valor representativo do interesse.

As flores são as mais bonitas
palavras e hieróglifos da Natureza.
Assim ela se insinua em nós
porque nos tem amor.
Coethe, 1749-1832

No Japão, as artes foram sempre entendidas como um caminho, Do, que abraça toda a espiritualidade de uma cultura. É um caminho para a perfeição, que, através da beleza, ajuda o homem a reencontrar as suas origens e os encantos primitivos da terra. Todo o caminho tem uma magia – Kado é o caminho das flores; Cha-do, a arte do chá; e Sho-do, a arte da caligrafia, ou a beleza na escrita da palavra.
Cada manifestação artística japonesa possui o seu próprio caminho. Um caminho vem de algum lugar e leva a algum lugar, mantendo um vínculo inquebrável entre passado, presente e futuro.
No Kado insere-se a minha arte, a Ikebana, que ocupa um lugar de destaque na vida japonesa. É assim que se designa a decoração floral, que data dos primórdios da civilização. As culturas mais antigas, como a egípcia, mostram-nos claramente que as flores sempre foram fonte de inspiração para adornos e outras expressões artísticas. A palavra ikebana resulta da fusão do antigo verbo "acordar", ikeru, e de bana, que significa "flor". Assim, ikebana é acordar as flores para a vida, é dar vida à beleza das flores que têm a valiosa função de ligar os corações dos homens.
Amamos as flores desde sempre. Há muito percebemos que elas não são apenas belas. As flores podem reflectir o passar do tempo e sentimentos humanos. A ikebana procura harmonizar as suas linhas, de elevado refinamento estético, com a Natureza que elas majestosamente representam. Podemos até comparar esta arte com a música:
  • uma simples sequência de notas forma uma bela melodia;
  • mas elas, notas, enquanto sons de vários instrumentos sincronizados, são capazes de dar origem a uma expressão muito mais rica do que uma melodia isolada».
In Lisa Flores, Cartas a Ninguém, ilustração de Ingrid B. Martins, colecção Outras Obras, Nova Vega, 2004, ISBN 972-699-785-2.

Na brisa da tarde
a gaivota voa
sobre o mar cintilante.
Paz.

Cortesia de Nova Vega/JDACT

Dia da Independência. Hino da Restauração de 1640. 1º de Dezembro. Os Quarenta Conjurados. Elvas. El-rei João IV. «Responsabilidade é o preço a pagar pelo direito de fazermos as nossas próprias escolhas. Responsabilidade é apenas outra palavra para designar oportunidade. E tornamo-nos ricos ou pobres para sempre conforme aproveitarmos ou deixarmos fugir a oportunidade»


jdact e cortesia de purl

Maria da Fonte, 1846


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