quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Último Judeu. Noah Gordon. «O osso de uma mártir? É o osso de Santa Ana, disse calmamente o prior. Espina demorou um pouco para compreender. A mãe de La Virgen Maria!»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Primeiro Filho.
Toledo, Castela. 23 de Agosto de 1489.
O Filho do Ourives.
«(…) Tinham se passado onze anos desde a sua conversão. Durante todo esse tempo se dedicara com fervor à fé pela qual optara, observando cada dia santo, assistindo diariamente à missa com a esposa, mostrando-se sempre ávido para servir a sua Igreja. Agora pusera-se prontamente, na estrada, para atender ao pedido do padre, embora num passo que não fatigasse o animal sob o sol abrasador. Chegou ao mosteiro jeronimita a tempo de ouvir o som de bronze dos sinos chamando os fiéis para o Ângelus da Encarnação. Viu também quatro suados irmãos leigos carregando a cesta de pão de véspera e o caldeirão de sopa fraca, o caldo ralo que seria a única refeição do dia para os indigentes reunidos na porta do mosteiro. Encontrou o padre Sebastián andando de um lado para o outro no claustro, absorto numa conversa com frei Júlio Pérez, o sacristão da capela. O ar de gravidade nos seus rostos chegou até Espina.
Atordoado foi a palavra que piscou na cabeça do médico quando o prior mandou o sacristão sair e cumprimentou-o sombriamente em nome de Cristo. Encontraram o corpo de um garoto entre as nossas oliveiras, foi assassinado, disse o padre, um homem de meia-idade com uma ansiedade crónica no olhar. Era como se vivesse com medo de Deus não estar satisfeito com o seu trabalho. Sempre fora decente nas relações com os convertidos. Espina abanou devagar a cabeça, mas a mente já estava atenta a um sinal de advertência. Era um mundo violento. Com desagradável frequência alguém era encontrado morto, mas após a vida ter fugido não havia razão para chamar um médico. Venha. O prior conduziu-o até à cela de um frade, onde o corpo fora estendido. Já o calor tinha trazido moscas e o especial fedor adocicado da mortalidade humana. Com uma pontada de angústia, Bernardo Espina reconheceu o rosto e benzeu-se, não sabendo se o reflexo era pelo menino judeu chacinado, por si mesmo ou pela presença do clérigo.
Gostaríamos de saber mais detalhes sobre esta morte. O padre Sebastián olhou para ele e continuou: saber tudo. Tanto quanto é possível saber. Bernardo abanou a cabeça, ainda confuso. Ele chama-se Meir e é filho de Helkias Toledano, disse Bernardo e o padre assentiu. O pai do rapaz assassinado era um dos principais ourives de toda a Castela. Bernardo Espina continuou: se não me falha a memória, o garoto tem no máximo quinze anos. Seja como for, a sua vida mal passou da infância. Assim é que ele foi encontrado? Exacto. Por frei Angelo, que colhia azeitonas de manhã muito cedo, logo após as Matinas. Posso examiná-lo, padre?, perguntou Espina, e o prior concordou com um gesto impaciente da mão. O rosto do garoto era inocente e não tinha marcas. Havia contusões esbranquiçadas nos braços e no peito, um ponto roxo nos músculos da coxa, três facadas superficiais nas costas e um corte no lado esquerdo, sobre a terceira costela. O ânus estava rasgado e havia esperma nas nádegas. E filetes muito nítidos de sangue de um lado a outro da garganta cortada. Bernardo conhecia a família, judeus devotos e obstinados que abominavam os que, como o próprio Bernardo, se tinham disposto a abandonar a religião dos pais.
Após o exame, o padre Sebastián pediu que o médico o seguisse até ao sacellum, onde se deixaram cair de joelhos nas duras lajes diante do altar e recitaram o pai-nosso. De uma estante, atrás do altar, o padre Sebastián tirou uma pequena caixa de sândalo. Abrindo-a, removeu uma peça de seda escarlate, fortemente perfumada. Quando ele desdobrou a seda, Bernardo Espina viu um fragmento seco e esbranquiçado, com menos de meio palmo de comprimento. Sabe o que é isso? O padre parecia entregar o objecto com relutância. Espina aproximou-se da luz oscilante das velas votivas e examinou-o. Um pedaço de osso humano, padre. Sim, meu filho. Bernardo estava numa ponte frágil, estreita, equilibrando-se sobre o traiçoeiro abismo do conhecimento ganho em horas longas e secretas diante da mesa de dissecação. A dissecação fora proibida pela Igreja, mas Espina ainda era judeu na época da aprendizagem com Samuel Provo, um médico de renome, também judeu, que a praticava secretamente.
Agora ele olhava directamente nos olhos do prior. O fragmento de um fémur, o maior osso do corpo. Neste caso, tirado de perto do joelho. Examinou os relevos do osso, avaliando a massa, a angulação, os sinais característicos, os sulcos. É da perna direita de uma mulher. Pode dizer tudo isso simplesmente olhando? Sim. A luz das velas amarelava os olhos do prior. É o mais sagrado dos elos para o Salvador. Uma relíquia. Bernardo Espina fitou o osso com interesse. Nunca sonhara em chegar tão perto de uma relíquia sagrada. O osso de uma mártir? É o osso de Santa Ana, disse calmamente o prior. Espina demorou um pouco para compreender. A mãe de La Virgen Maria!» In Noah Gordon, O Ùltimo Judeu, Uma História de Terror na Inquisição, Editora Rocco, 2000, ISBN 978-853-251-171-6.

Cortesia de ERocco/BertrandE/JDACT

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «… gastos com a caridade da Santa Sé em 2007, e ficaram em segundo lugar (depois da Alemanha) em contribuições para a própria Santa Sé»

jdact e wikipedia

Os Tesouros do Vaticano
(…) A dotação do Vaticano é inferior à de uma universidade católica norte-americana. A sua existência financeira é precária. Exibe o seu esplendor e as suas cerimónias, mas a riqueza que pagava o seu esplendor desapareceu há muito tempo e mal pode pagar pelas cerimónias. Os activos do Vaticano sempre foram um segredo bem guardado, mas sempre um objecto de muita especulação. As estimativas vão de 1,5 bilhão a 15 bilhões de dólares e mais. Inclui as obras de arte e edifícios, que na sua maioria não podem ser vendidos. Grande parte dos activos do Vaticano está em títulos e reservas de ouro. Activos adicionais são formados por receita de aluguéis, venda de moedas, selos e lembranças. Como os palácios, residências reais, residências e propriedades históricas na Grã-Bretanha, o Vaticano tornou-se atracção turística e arrecadador de dinheiro. Especialistas financeiros observam que, apesar da sua riqueza, o orçamento do Vaticano tem mostrado um déficit de vários milhões de dólares desde 2001, mas o seu débito é garantido pelos activos. O maior deles inclui as propriedades do Vaticano, em Roma e as suas cercanias, a residência de Verão do papa em Castel Gandolfo, edifícios de escritórios, palácios e catedrais. A Cidade do Vaticano, com os seus muros que remontam ao século XVI, conquistou a sua independência em 1929, após a conclusão dos Pactos Lateranenses com a Itália. No dia 11 de Fevereiro daquele ano, o papa Pio XI e Benito Mussolini criaram o Vaticano com as suas dimensões actuais e garantiram edifícios e direitos de soberania adicionais.
Segundo Ivan Ruggiero, contador chefe da Santa Sé, o património imobiliário do Vaticano vale cerca de 1,21 bilhão de dólares, sem incluir os seus tesouros de arte de valor inestimável. O valor do património imobiliário foi calculado sem considerar o seu real valor no mercado, disse Ruggiero. E é claro que o grande património artístico da Santa Sé não foi considerado, uma vez que o seu valor é inestimável e não comercial. (Por ser inestimável, o valor dos tesouros de arte foram relacionados como um euro). A basílica de São Pedro é considerada para além dos valores do mercado. Em Julho de 2008, a Associated Press informou que o Vaticano apresentou um déficit em 2007, o que a Santa Sé atribuiu ao dólar fraco nas generosas cestas de doação dos fiéis norte-americanos, e custos elevados para o funcionamento dos órgãos de comunicação do Vaticano (um jornal e uma estação de rádio). O Vaticano publicou valores financeiros mostrando um déficit de quase 13,5 milhões de dólares, citando a forte queda na cotação do dólar norte-americano. O Vaticano de Roma paga muitas das suas despesas em euros, moeda que subiu muito de valor em relação ao dólar norte-americano. O demonstrativo financeiro, publicado pela assessoria de imprensa da Santa Sé, mostrava uma receita de 371,97 milhões de dólares contra uma despesa de 386,27 milhões.
O Vaticano disse que seus investimentos financeiros foram prejudicados principalmente pela inversão aguda nas taxas de câmbio, acima de tudo para o dólar norte-americano, e que os aluguéis e outras receitas do seu grande património imobiliário ajudaram as finanças. Os Museus do Vaticano, que incluem a Capela Sistina, uma das principais atracções turísticas, também ajudaram as finanças da Santa Sé. O óbolo de São Pedro, recolhido em todo o mundo anualmente, mostrou que os fiéis norte-americanos foram os mais generosos em termos absolutos da quantia doada, mais de 18,7 milhões de dólares. Nenhuma nação de católicos doa mais do que os norte-americanos. Um comité consultivo de cardeais publicou em 2008 um relatório mostrando que os Estados Unidos foram a nação que mais contribuiu (19 milhões de dólares, ou 29% do total) para os gastos com a caridade da Santa Sé em 2007, e ficaram em segundo lugar (depois da Alemanha) em contribuições para a própria Santa Sé». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «O que alguém faria com o museu do Vaticano? Talvez o governo italiano pudesse comprá-lo para fazer a última estação da linha de metro de Roma»

jdact e wikipedia

Os Tesouros do Vaticano
(…) Os edifícios do Vaticano, especialmente a basílica de São Pedro, são adornados com ouro, prata, pedras preciosas e o mais fino mármore. Para entender porque o papa tem essas colecções, explicou Maurizio Luca, especialista do Vaticano encarregado da sua manutenção, é preciso pensar no significado do papa e da Igreja ao longo dos séculos. Os papas e a sua corte eram os maiores patronos da cultura no seu tempo. Este é o lugar onde os papas colocaram alguns dos maiores artistas para trabalhar, e isso transformou-se em colecções. Em 2001, dois ex-funcionários do Vaticano foram acusados de envolvimento em fraudes de obras de arte. O monsenhor Michele Basso, ex-administrador do Capitólio de São Pedro, e o monsenhor Mario Giordana, ex-conselheiro da embaixada italiana no Vaticano, foram acusados de tentar vender obras de arte falsamente atribuídas a artistas como Michelangelo, Guercino e Giambologna a instituições como o Metropolitan Museum, em Nova Iorque, e a National Gallery, em Washington. (…) Os trabalhos mais notáveis eram um busto de mármore, o Jovem São João Baptista, atribuído a Michelangelo, e um vaso grego antigo, atribuído a Eufrónio. Os funcionários teriam usado papéis impressos do Vaticano para autenticar as obras e aumentar o seu valor. Como o Vaticano é ao mesmo tempo uma cidade e um Estado (ambos na cidade de Roma), é administrado da mesma forma que os países, com uma prestação de contas de toda a sua riqueza; porém, também funciona como uma empresa multinacional. O escritor Karl Keating observou que o orçamento anual do Vaticano era mais ou menos igual ao da arquidiocese de Chicago. Uma parte dos fundos era usada para manter o próprio Vaticano e a outra parte destinava-se ao trabalho missionário da Igreja e outras obras ao redor do mundo.
Imagino que poderíamos perguntar porque o Vaticano tem dificuldades para equilibrar um orçamento anual relativamente pequeno, escreveu Keating. A riqueza da Igreja é composta quase que inteiramente de igrejas, hospitais, escolas e missões, mais as obras de arte. Poderia vender as obras de arte, mas o produto da venda não alimentaria os pobres do mundo por um dia sequer. Se o Vaticano vendesse todas as suas obras de arte, receberia centenas de milhões de dólares, mas uma única vez. Elas desapareceriam, e o dinheiro não iria durar muito. (…) Os papas são guardiões, não donos. Eles têm a responsabilidade de preservar os seus tesouros artísticos para a posteridade, não vendê-los para colecções particulares. Calculou-se que custa cerca de 250 milhões de dólares anuais para administrar o Vaticano. O dinheiro vem de (…) contribuições das conferências dos bispos, dioceses, ordens religiosas, doadores leigos e outras entidades. Em 2004, esse total chegou a 89 milhões de dólares. Desse valor, cerca de 27,2 milhões vieram de dioceses individuais nos termos do Cânone 1.271 do Código da Lei Canónica, que obrigava as dioceses a contribuir financeiramente para manter a Santa Sé. Isso significa que 2.883 jurisdições eclesiásticas de todo o mundo deram uma média de 10 mil dólares cada uma em 2004. (…) As arquidioceses ricas deram muito mais, muitas dioceses menores deram pouco ou nada.
O Vaticano também acumula ganhos com bens imóveis, cerca de trinta edifícios e 1,7 mil apartamentos de propriedade da Santa Sé que geraram uma renda de 64,5 milhões de dólares em 2004. Os ganhos também são provenientes de investimentos e outras actividades financeiras, com 80% da carteira do Vaticano em títulos e 20% em acções. Em 2004, o demonstrativo financeiro do Vaticano não forneceu um total geral, mas especialistas disseram que os ganhos devem ter sido da ordem de 100 milhões de dólares. O demonstrativo sublinhou que isso representava um ganho de 21,5 milhões de dólares, atribuído à melhoria da situação dos mercados financeiros mundiais em 2004. Um relatório [de 2004] do Vaticano indicou que as contribuições para o óbolo de São Pedro, fundo de apoio às acções de caridade papais que não fazem parte do orçamento regular do Vaticano, totalizaram 52 milhões de dólares (…) uma queda de 7,4%.
O famoso escritor e sacerdote de Chicago padre Andrew Greeley escreveu: houve um tempo em que a Igreja foi realmente muito rica (e essa é outra história), mas a Reforma e a Revolução Francesa acabaram com isso. O catolicismo é pobre em propriedades. Qual é, por exemplo, o valor de reposição da basílica de São Pedro no Vaticano? Quem a compraria? Quanto rende anualmente? Na verdade, as velas votivas, a sua única fonte de receita, mal pagam a manutenção. E o que alguém faria com ela se a comprasse, principalmente depois que descobrissem que era um chamariz de vendas? Construiriam condomínios? O que alguém faria com o museu do Vaticano? Talvez o governo italiano pudesse comprá-lo para fazer a última estação da linha de metro de Roma». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «Depois do Túmulo de São Pedro, a Capela da Pietà é o local mais visitado e silencioso de toda a basílica…»

jdact e wikipedia 

Os Tesouros do Vaticano
(…) Os aumentos nos aluguéis teriam provocado grande polémica em Roma, pois a Igreja teria ameaçado despejar os inquilinos que não pagassem. O prejuízo também foi atribuído ao péssimo desempenho dos veículos de comunicação do Vaticano, incluindo um jornal e uma estação de rádio, que haviam perdido aproximadamente 15 milhões de euros no ano anterior. Em 2007, o Vaticano reportou uma receita geral de 236,7 milhões de euros, enquanto as despesas totalizaram 245,8 milhões de euros. Boa parte da receita do Vaticano vem de doações de membros da Igreja em todo o mundo. Os católicos norte-americanos contribuem com cerca de 80 milhões de dólares. Especialistas avaliaram que a riqueza total do Vaticano em 2008 superava os 5 bilhões de euros. O tamanho exacto da riqueza do Vaticano em bancos e acções é assunto controverso, e a Santa Sé não revela. Mas dinheiro e investimentos não constituem toda a medida da riqueza da Cidade do Vaticano. A Santa Sé possui a maior colecção de tesouros artísticos do mundo. Em museus, locais de exibição pública, em câmaras privadas, corredores de mármore, igrejas, capelas, e na basílica de São Pedro podem ser encontradas pinturas, afrescos, desenhos, esculturas e vitrais criados pelos maiores artistas da história ao longo de séculos desde antes de Cristo até hoje.
A primeira colecção de antiguidades do mundo foi criada pelos papas Júlio II, Leão X, Clemente VII, Paulo III e Pio V. Entre elas estavam o Torso de Hércules, o Apolo Belvedere e o Grupo de Laocoonte. Pio VI deu continuidade à actividade de Clemente XIV com tamanho sucesso, que as suas colecções (…) foram reunidas num grande museu (…) o Museu Pio-Clementino. Ele tem onze salas repletas de antiguidades celebradas. A fundação dos Museus Vaticanos remonta a 1503, quando o recém-eleito papa Júlio II della Rovere colocou uma estátua de Apolo no pátio interno do Palácio Belvedere construído por Inocêncio VIII. (…) Dezenas de artefactos foram acrescentados ao longo dos séculos, e as colecções acabaram sendo reorganizadas sob Bento XIV (1740–1758) e Clemente XIII (1758–1769). Eles fundaram os Museus da Biblioteca Apostólica: o Sagrado (Museo Sacro, 1756) e o Profano (Museo Profano, 1767). O Museu Cristão, composto por artigos encontrados em catacumbas que não poderiam ser mantidos in situ, foi fundado por Pio IX em 1854 no Palácio Laterano e removido para os Museus do Vaticano pelo papa João XXIII. O papa Pio XI inaugurou em 1932 (…) a Galeria de Arte do Vaticano (a Pinacoteca).
Boa parte da colecção de tesouros do Vaticano está aberta ao público nos seus inúmeros museus e dentro do Vaticano na forma de arte e esculturas. O mais famoso e popular é composto pelo tecto da Capela Sistina, pintado por Michelangelo, e a escultura Pietà, mostrando a Virgem Maria segurando o corpo crucificado, na Capela da Pietà, no interior da basílica de São Pedro. Descrita pelo Vaticano como talvez a escultura mais famosa do mundo com tema religioso, foi esculpida quando Michelangelo tinha vinte e quatro anos de idade e é a única que ele assinou. Com essa magnífica estátua, Michelangelo deu-nos uma visão cristã e altamente espiritualizada do sofrimento humano, observou uma publicação do Vaticano. Artistas anteriores e posteriores a Michelangelo sempre retrataram a Virgem com o Cristo morto nos braços como enlutada, quase à beira do desespero. Michelangelo, por outro lado, criou uma aura altamente tranquila. Enquanto segura no colo o corpo sem vida de Jesus, o rosto da Virgem emana doçura, serenidade e uma aceitação majestosa dessa imensa dor, combinada com a sua fé no Redentor. É quase como se Jesus estivesse prestes a acordar de um sono brando, como se depois de todo sofrimento e espinhos, a rosa da ressurreição estivesse prestes a desabrochar.

Depois do Túmulo de São Pedro, a Capela da Pietà é o local mais visitado e silencioso de toda a basílica. A escultura é protegida por um vidro à prova de bala para evitar a repetição de um ataque perpetrado por um homem transtornado. Em 1972, o geólogo de trinta e três anos Laszlo Toth, húngaro de nascimento e de nacionalidade australiana, atacou a estátua com um martelo aos gritos de Eu sou Jesus Cristo ressuscitado! O braço esquerdo da Virgem ficou danificado, assim como o nariz, o olho esquerdo e o véu. O ataque foi o primeiro grande dano sofrido por uma obra de arte na basílica de São Pedro desde que um alemão quebrou dois dedos da estátua do papa Pio VI ajoelhado, em 1970. Os Museus do Vaticano estão repletos de obras de Giotto, Caravaggio, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Rafael, entre muitos outros. As bibliotecas do Vaticano guardam antigos manuscritos da Bíblia e de outras obras, em alguns casos o único exemplar de determinada obra». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Falamos já. Vou-me embora. No início, disse que regressaria a Flandres no espaço de um ano e ninguém me vai dissuadir. É claro, meu amor, e concordo convosco, mas é óbvio que temos de ser pacientes»

jdact

«(…) Fernando odiava de tal forma a ideia de um Habsburgo vir a usar a sua coroa, que chegou a declarar a sua intenção de voltar a desposar-se caso Isabel morresse. A fúria cega de Felipe ainda a assustava e Joana tratou de esconder no fundo do pensamento todas as recordações daquele dia. Marquês, achais que Felipe estava simplesmente dando conhecimento prévio à rainha da nossa partida? Imediatamente, como todos sabemos, pode envolver meses de preparação. É isso que todos esperam. Tenho de usar algo muito especial para recebê-lo. Maria, acho que o vestido de veludo roxo. Maria juntou a costura e preparava-se para deixar a sala quando Felipe entrou violentamente, trazendo com ele uma onda gelada de ar invernoso. Atirou ao chão a capa manchada de lama, o chapéu e as luvas. Estendeu as mãos para o calor agradável do fogo, o rosto transformado numa máscara tempestuosa. Não vão dizer-me o que posso ou não fazer, nem o que devo ou não dizer. Acabaram-se os sermões. Felipe, meu amor, tendes frio e estais cansado da viagem. Aquecei-vos, descansai um pouco, falaremos mais tarde. Joana aproximou-se dele de braços estendidos. Meu querido amor. Ele afastou rudemente os braços de Joana.
Falamos já. Vou-me embora. No início, disse que regressaria a Flandres no espaço de um ano e ninguém me vai dissuadir. É claro, meu amor, e concordo convosco, mas é óbvio que temos de ser pacientes, temos de esperar um pouco... Ele agarrou a mão que se aventurara a afagar-lhe a face. É óbvio, Senhora? Temos de esperar, Senhora? Pretendeis igualmente passar-me um sermão? Felipe, permiti-me. Temos de esperar até o nascimento do nosso filho, uma questão de semanas. Nessa altura, estaremos no início da Primavera... Não vim aqui pedir a vossa opinião, assim como não fui a Madrid em busca do conselho de Isabel. Nem ela nem mais ninguém vai-me dizer para escolher entre Luís e a Espanha, nem ninguém me vai dizer onde devo viver. Pretendo fazer o seguinte: partirei esta semana.
Querido, dizeis isso apenas porque estais zangado, porque os meus pais vos perturbaram. Quando tiverdes tempo para reconsiderar, meu amor, reconhecereis que... Estai calada, pelo amor de Deus! E agora escutai e escutai bem. Odeio este país. Odeio este povo. Odeio este tempo e só Deus sabe como odeio a comida. Mas pior, considero os vossos pais as pessoas mais hipócritas que jamais conheci e recuso-me a ficar, passando por um idiota ainda maior. Joana ficou chocada, consternada e, ao mesmo tempo, ansiosa. Que mais podia dizer? Meu Senhor, tenho a certeza... Disse-vos que vos calásseis! Calai-vos e sabei qual o vosso lugar! As palavras assobiavam por entre os lábios semicerrados. Tenho de voltar a Flandres. Viajarei pela França. Não há mais nada a dizer. Ir pela França seria... Ou não haveis ouvido ou sois demasiado estúpida para compreender o que acabo de dizer. Olhai para mim e escutai: vou partir da Espanha e darei início à viagem ainda esta semana. Mas, Felipe, eu tenho de ficar cá, não posso viajar no meu estado. Esse, Senhora, é um problema vosso, não meu. Felipe estava tão cego pela fúria que nem considerou a possibilidade de Joana ter um filho e Isabel, dado o seu total desprezo pelo arquiduque, nomear a criança como herdeira, negando-lhe, assim, quaisquer direitos ao trono de Castela.
Assim que o bebé nascer, partimos. Deixamos aqui a criança e viajamos por mar. Pretendo atravessar a França para ver o rei Luís, para limpar o meu nome. A Espanha está em guerra com a França. Irei como embaixador do vosso pai. Este jogo pode ser jogado por dois. Negociarei a paz para Espanha, nos meus próprios termos, uma nota oportuna de que nunca lhe perdoarei ter-me obrigado a presidir uma reunião de preparação do seu exército contra os franceses. Então era verdade. Pretendia mesmo ir e sozinho, deixando-a para trás. Joana não podia, não iria suportar. Vós? Negociardes com Luís? Como um vassalo negocia com o seu amo? Do que observei, iria limitar-vos a lamber-lhe as botas e a fungar a vossa concordância com tudo o que ele exigisse. Que imagem sórdida da humilhação e do servilismo. Sua perversa... Agarrou-lhe um dos pulsos com uma mão, enquanto lhe esbofeteava as duas faces com a outra, atirando-a em seguida ao chão. Em grande pranto, Joana rastejou até aos pés dele.
Que o diabo me leve a língua, Felipe, se pretendia dizer aquilo. Perdoai-me. Oh, meu Deus, que fiz eu? Felipe virou-se para Maria e Vilhena, as embaraçadas testemunhas. Olhai! É esta a mulher que queriam fazer rainha, sendo eu apenas seu consorte. E fala ela de servilismo! Joana sabia que, se ele fosse sem ela, perderia a esperança que lhe restava de que ele lhe pertencesse, a ela e só a ela. Cairia nos braços da primeira dama flamenga que encontrasse. Na Espanha, estivera protegida dos seus namoros. Ali, as jovens eram frígidas, lamentara-se Felipe, não correspondendo aos seus avanços amorosos. Uma vez em casa e sem a sua presença, estaria perdida. Imploro-vos! Estais vendo-me de joelhos, implorando-vos. Por favor, Felipe, não me abandoneis. Ele olhou para ela, para aquele rosto manchado de lágrimas, feio e inchado, com as marcas inflamadas dos seus dedos nas faces. Joana choramingou, numa derrota abjecta, agarrando-se às suas botas. Não ficais para o Natal? Dais-me nojo!, disparou ele, soltando-se com um pontapé». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Os seus afamados cozinheiros flamengos foram acusados de negligência criminosa, embora tivessem insistentemente negado qualquer culpa, apontando um dedo acusador aos criados espanhóis»

jdact

«(…) Porém, as últimas palavras de Filipe queimavam o íntimo de Joana e nada mais existia para além de uma escaldante onda de desejo. Era esmagador, só conseguia pensar no corpo nu de Filipe junto ao seu. Fingindo cansaço após um longo dia e uma necessidade desesperada de descansar, deixou a mesa, ordenando aos pés que caminhassem e não corressem. Filipe disse que achava ser seu dever acompanhá-la aos aposentos.
O frio de Dezembro que varria o palácio de Alcalá de Henares não se comparava com o que paralisava Joana. Segurou a cabeça e cambaleou. O marquês de Vilhena apressou-se a assistir à princesa, já no sexto mês de gravidez. Preciso de tempo. Tenho de ter tempo para pensar. Isso não pode ser verdade, exclamava ela, olhando para o papel que tinha nas mãos. Senhora, a rainha sabia muito bem da determinação de Felipe em abandonar a Espanha, tendo-o convocado de Saragoza a fim de o acautelar sobre o seu comportamento e de enfatizar as razões pelas quais devia ficar, além de mostrar por que motivo devia fazer um esforço para compreender esta nação que irá herdar. Como podeis ver pela carta, não teve êxito. O príncipe exprimiu a sua decisão de partir imediatamente. Ela conta agora convosco para o persuadir a adiar a partida. Considera isso uma questão da maior importância.
É claro que Felipe está ansioso por voltar a Bruxelas e eu anseio por ver de novo os meus pequeninos, mas a minha mãe deve estar enganada, pensando que Felipe deseja que partamos imediatamente. Não é hora de viajar. Pensamentos inquietantes insinuavam-se no seu espírito: estaria Felipe tão descontente que quisesse apressar a partida, indiferente às consequências; teria a sua mãe encorajado-o a partir, para se ver livre de um genro que considerava fútil e irreflectido, mantendo Joana com ela? Vilhena prosseguiu: apesar de tudo, a rainha Isabel achou melhor estardes prevenida antes da chegada do príncipe. Felipe estava apenas a duas horas de viagem e, portanto, chegaria muito em breve. Havia semanas que não o via e sentira muitas saudades. O seu coração sobressaltou-se, pois os dias solitários iam terminar. Felipe vinha aí. Tomai a vossa carta, marquês. Agradeço-vos o vosso interesse, tudo se resolverá por bem, asseguro-vos. Sorriu, certa de que, assim que tivesse Felipe junto de si, conseguiria afastar o seu mau humor, como fizera tantas vezes recentemente.
Dera-se a morte prematura de Artur, príncipe de Gales, o que pusera fim à sua agradável estada em Toledo. Isabel ordenara nove dias de luto. Sagaz, Joana concedera a Felipe nove dias de caça, embora soubesse como iria sentir-se infeliz sem ele. Depois, a cerimónia do juramento, já adiada devido ao luto, causava-lhe muita exasperação. E, quando foi nomeado apenas consorte, com o agravante de, no caso da morte de Joana, Castela passar directamente para o seu filho Carlos, o insulto foi demasiado ultrajante. Fora possuído por uma fúria imensa devido a um incêndio que destruíra grande parte dos tesouros sem preço da sua casa. Os seus afamados cozinheiros flamengos foram acusados de negligência criminosa, embora tivessem insistentemente negado qualquer culpa, apontando um dedo acusador aos criados espanhóis.
Todavia, esses problemas não eram nada perante a perda de Busleyden. Durante o Verão, houvera muitas mortes entre os flamengos, vítimas do calor ou da comida, e o seu querido amigo e conselheiro fora uma delas. Para Joana não fora nenhuma tragédia, pois via a morte do conselheiro como a retribuição divina dos seus inúmeros actos cruéis. Felipe suspeitara, evidentemente, de envenenamento, o que era uma possibilidade, pois circulavam rumores sobre umas cartas roubadas que alegadamente confirmavam o envolvimento dele em intrigas contra a Espanha. Verdade ou mentira, um jovem camareiro foi torturado até confessar o roubo e o assassinato. Em todos esses infortúnios, Joana desempenhara na perfeição o papel de dama solidária, conseguindo sempre que Felipe voltasse a ser o jovem despreocupado que fora durante toda a vida. Com a excepção daquela desastrosa cerimónia de juramento em Aragão, onde se viram confrontados com uma emenda que incluía a possibilidade de um futuro herdeiro aragonês». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «O que é aquilo? Doce de amêndoa, maçapão, estes são bispos e ali estão os ossos de santo... Não digais mais nada»

jdact

«(…) Mas só por brevíssimos períodos, Joana. Se ao menos conseguíssemos convencer-vos, a ti e a Filipe, a viver aqui. Ou a mandar-nos o nosso querido neto Carlos para que o educássemos como um verdadeiro espanhol. A Espanha tem de ser governada por um dos nossos, alguém que a ame, alguém que assegure que mantém a sua identidade, a sua dignidade. A voz de Isabel parecia nervosa. Alguém que não a deixe tornar-se pouco mais que um pedaço da Áustria. Estremeceu, tal era o seu desagrado face a tal eventualidade. Agora não, mãe, por favor, agora não. Tenho um presente para vós. Pajem, mande chamar Madame Halewyn e que traga o meu cofre vermelho. Mãe, trouxe um tecido requintadíssimo. Joana, sabes bem que os adornos não me interessam nada. Mas este é um fino material de Bruxelas, perfeito para os vossos véus. Nesse caso, suponho que seja aceitável. Joana lutou contra a mágoa, levantando-se de um salto. Assim que o virdes, vamos à procura de Filipe e do pai. E devem ser quase horas de jantar.
Pelos padrões de Isabel e Fernando, o jantar era uma ocasião extremamente sumptuosa. Um espectáculo imponente de baixelas de ouro e prata, a maior parte pertencente a Beatriz, decorava a mesa e os aparadores. O coração de Joana agradeceu-lhes. Aplaudiu o seu esforço para montar um espectáculo tão impressionante, mas compadecia-se, pois não se comparava nem de longe aos excessos de França e da Flandres. Sabia também como ia contra a sua filosofia de austeridade, tão firmemente implantada enquanto parte do seu luto permanente. A refeição deliciou-a. Infelizmente, era galinha. As magricelas galinhas espanholas haviam sido cobertas de farinha de arroz e cozidas em leite de cabra e água de rosas e, por fim, guarnecidas com uma camada de queijo grelhado. Filipe sussurrou-lhe, desdenhoso: Santo Deus, mais galinha! Uns passarocos esqueléticos que em Bruxelas nem mereceriam o nome de pardais. E fez de conta que comia. Isabel e Fernando ficaram chocados com a sua incrível falta de maneiras à mesa.
Não ligueis, pediu Joana, nervosa. Filipe está a queixar-se de ter de comer galinha depois de uma dieta de canja de galinha durante dias e também tem uma forte aversão ao alho, apesar de eu lhe ter dito que era benéfico. Na verdade, qualquer alimento que não seja preparado pelos seus próprios cozinheiros é sempre considerado suspeito. As nossas desculpas pela galinha. A resposta de Isabel foi gélida. Assegura a Filipe de que não existe alho escondido no seu prato, portanto pode parar de o inspeccionar, como se o que tem defronte de si fosse impróprio para consumo humano. Ao terminarem o primeiro prato, a toalha foi retirada e substituída por outra de linho lavado, delicadamente bordado com frutos do campo. Os criados trouxeram pratos com massas, biscoitos, rosquinhas, maçapão, doce de manteiga e natas. Joana tinha os olhos esbugalhados de alegria.
Filipe, tendes de provar estas delícias de pinhão. Primeiro, tentais transformar-me em frango, agora pensais que sou um esquilo. O que é aquilo? Doce de amêndoa, maçapão, estes são bispos e ali estão os ossos de santo... Não digais mais nada, a igreja mete o nariz em tudo. Dizei aos vossos pais que amanhã lhes ofereço um jantar da Flandres. Isso não fica nada bem. Seria demasiada comida, demasiada animação e demasiado barulho. Exactamente! Um pouco de vida não lhes faria mal nenhum. A propósito, daqui a quanto tempo poderemos apresentar as nossas desculpas e irmos para os vossos aposentos? Tenho na ideia uma sobremesa muito melhor que qualquer destas que vejo na mesa. Que diz Filipe? Que deseja oferecer-vos um banquete da Flandres, mãe. Mas tenho de vos avisar de que será muito diferente daquilo que conheceis. Isabel e Fernando sorriram, aceitando o convite». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Diário Secreto de Ana Bolena. Robin Maxwell. «Preferiu voltar-se de costas e chegar-se ao lume, tentando disfarçar o nervoso com um sorriso»

jdact

«(…) Nessa ocasião, Isabel sentira-se feliz pelo seu amigo de infância, embora se recordasse de uma breve punhalada de dor ao ver Robin beijar a sua bela e jovem noiva. Agora, enquanto ainda procurava palavras de consolo para Robin, interrogava-se se não teria sido de ciúme. Talvez que a vossa falta de desejo resulte de um efeito desagradável do encarceramento, sobre o vosso corpo e o vosso espírito, sugeriu Isabel simulando estar certa dessa possibilidade. Porquê, então, perguntou Robin, apertando mais a cintura de Isabel e puxando-a para si, de modo que os corpos trémulos se estreitaram um no outro, sonho constantemente, convosco, vejo o vosso rosto na minha imaginação, nada mais desejo que escutar o som da vossa doce voz para dar repouso à minha alma? E porquê, Isabel, vos desejo deitada, junto a mim, na escuridão. Isabel sentiu que continha a respiração, enquanto o escutava, receando que o mínimo sussurro do seu hálito a impedisse de lhe ouvir as belas palavras. Erguera o rosto para o dele e, apesar da profunda escuridão não teve dificuldade em descobrir os seus lábios ansiosos sobre os dele. E ali tinham ficado, esquecidos de dor, medo e culpa, nos braços um do outro até que o murmúrio aflito do carcereiro chegou lá de cima, com a primeira luz da manhã. Agora, já no seu palácio em Whitehall, Isabel entrou no labirinto de câmaras e antecâmaras privadas, onde os alabardeiros guardavam as portas das salas do conselho, do grande salão e a câmara real. Chegou num turbilhão à porta do seu quarto de dormir, agitando as aias num corrupio, como se de folhas secas se tratassem.
Ide, ide-vos daqui, todas vós. Mantinha a capa bem apertada, desejando que aqueles modos bruscos lhe disfarçassem o coração sobressaltado e o tremor das pernas. Num largo movimento perfumado de saias e saiotes sussurrantes, as aias saíram uma a uma, depois de fazerem à rainha uma profunda reverência. A câmara ficou em silêncio, mas Isabel não ficou só. Katherine Ashley encontrava-se junto à lareira, de braços cruzados, com uma expressão triste no rosto preocupado. Apesar de ser rainha, Isabel não se atrevia a ordenar à senhora Ashley que saísse. Preferiu voltar-se de costas e chegar-se ao lume, tentando disfarçar o nervoso com um sorriso. Sem pronunciar palavra, a mulher retirou-lhe dos ombros a capa de lã de Dudley e pô-la no braço. Não vos preocupeis Kat, o sangue não é meu, disse Isabel voltando-se para a aia. Apesar do aviso, os olhos de Kat abriram-se mais ao ver as manchas acastanhadas que sujavam a jaqueta de montar de Isabel. Em silêncio, cobriu os olhos com a mão enrugada e tentou acalmar-se. Concretizavam-se os seus piores receios. A jovem princesa, que desde pequena estivera a seu cargo, transformara-se numa altiva rainha. Nesse momento fantástico, em que na Abadia de Westminster, sob o resplendor de dez mil velas, a coroa de Inglaterra fora pousada pela primeira vez sobre a cabeça da sua querida menina, a relação entre Kat e Isabel alterara-se.
Porém, nada mudara, pensou, ao mesmo tempo que baixava a mão trémula do rosto. Absolutamente nada. Estendeu a mão e começou a desabotoar-lhe a jaqueta de veludo. A rígida postura de Isabel descontraiu-se e deixou cair os braços ao contacto familiar das mãos de Kat. Sabia que a sua aia sentiria o cheiro de Dudley na sua roupa e no seu corpo. Sabia que Kat se esforçava agora por encontrar palavras para exprimir a sua preocupação, sem quebrar as regras de etiqueta, necessárias entre elas. Quando Isabel era uma menina, uma princesa afastada da corte, com poucas possibilidades de subir ao trono, Kat mantivera uma disciplina rigorosa, mas amável. Os seus instintos protectores eram quase felinos, imbuídos de ardor e lealdade. Sempre lhe falara com franqueza e severidade, quando a situação o exigia. Para a menina praticamente abandonada pelos parentes de sangue, Kat Ashley e William, seu marido, eram os únicos portos de abrigo na terrível tempestade da sua jovem existência. E, agora Kat, sentia-se atormentada pela angústia. Quereis que vos prepare um banho?, perguntou, aparentando calma». In Robin Maxwell, O Diário Secreto de Ana Bolena, Planeta Editora, colecção Tudor 1, 2002, ISBN 978-972-731-131-6.
                   
Cortesia de PEditora/JDACT

domingo, 2 de setembro de 2018

O Diário Secreto de Ana Bolena. Robin Maxwell. «Os Dudley tinham sido encarcerados pela sua participação na frustrada conjura para colocar no trono lady Jane Grey, com intenção de que Guilford, seu próprio filho e marido desta…»

jdact

«(…) Com um enorme suspiro, pois não havia palavras que exprimissem o profundo alívio, e o amor arrebatado que sentia pelo seu velho amigo, apoiou-se no seu peito, deixando que ele lhe abraçasse o corpo trémulo. Agitada por soluços, molhou com as suas lágrimas escaldantes a capa de Robin que a abraçou com força e lhe falou num apressado murmúrio, sabendo ambos que aquele instante furtivo em breve terminaria. Tratam-vos bem?, perguntou. Bastante bem, Isabel fungou, retomando por fim a compostura. E a vós?, espreitou-o à luz vacilante da vela. Robin, estais tão magro, - tocou-lhe a face encovada. A comida que nos trazem é boa, mas tenho estado adoentado nas últimas semanas. Não o disse, porém Isabel adivinhou que o seu abatimento se devia à execução de seu pai e irmão mais velho. Lamento o sucedido a vosso pai e a John. Como estão os outros? Os meus irmãos estão bem. A prisão não é tão horrível quando se está em companhia da família, mas a mim mantêm-me isolado numa cela por baixo daquela em que eles se encontram.
Os Dudley tinham sido encarcerados pela sua participação na frustrada conjura para colocar no trono lady Jane Grey, com intenção de que Guilford, seu próprio filho e marido desta, fosse coroado rei. Talvez que, reflectiu Isabel em voz alta, o facto de haverdes sido o único dos vossos irmãos a proclamar Jane rainha, na praça de King’s Lynn, tenha ofendido Maria o suficiente para vos mandar isolar. Que importa!, exclamou Dudley apartando-se relutante do abraço de Isabel e segurando-a a alguma distância. Dizei-me como estais. Se alguma vez alguém esteve preso injustamente, esse alguém fostes vós. Era verdade. O seu próprio encarceramento era o resultado da revolta do jovem Thomas Wyatt, que, no seguimento da sublevação dos Dudleys se tinha oposto ao noivado de Maria com Filipe de Espanha, um príncipe estrangeiro. Mas não será lógico que Maria julgue que eu fui cúmplice, Robin? O objectivo da conjura era depô-la e colocar-me a mim no trono. Sem escutar as razões da própria irmã? Escrevi-lhe várias cartas, implorei-lhe audiências e nenhuma delas foi respondida ou concedida. Aquele maldito espanhol De Quandra, sempre me odiou.
Envenena-lhe o espírito contra mim. Porém, nunca encontrarão prova fiável do meu envolvimento na intriga do pobre Wyatt. E quem necessita de uma prova fiável?, murmurou Robin com desalento. É mais provável morrermos pelas palavras falsas do inimigo do que por acusação verdadeira. O terrível lamento ergueu-se mais uma vez das entranhas da prisão, ecoando na escada escura, como que para recordar aos dois jovens prisioneiros qual seria o seu destino. E as corridas das ratazanas junto aos pés, fê-los estremecer de fria repugnância. Não deveríamos apagar a vela? Se nos encontram juntos aqui, será o nosso fim.
Dudley lançou-lhe um olhar desesperado e apagou a vela. A escuridão abateu-se sobre eles como uma cortina de veludo negro que, paradoxalmente, em lugar de amortecer os sons, antes parecia amplificá-los. Temiam que a própria respiração os pudesse denunciar, de modo que se abraçaram de novo. Isabel teve de imediato a consciência da proximidade do corpo de Robin, do calor húmido do seu hálito junto ao rosto, da mão que lhe segurava a cintura, unindo-os como as flores do mesmo ramo. Porém, o que mais a sobressaltou foi o formigueiro que sentiu entre as coxas e que a fez ficar tão afogueada que imaginou poder Robin notá-lo, mesmo na escuridão. Logo foi possuída por um sentimento de culpa e vergonha.
Como vão as coisas com Amy?, perguntou então. Imaginou sentir que o abraço de Robin afrouxara um pouco, como se a pergunta sobre a esposa deste lhe tivesse suscitado remorsos. Mas a voz dele era firme, quando lhe respondeu: há quinze dias atrás, permitiram-lhe a ela e as esposas de meus irmãos que nos visitassem. Teme pela minha vida e... Fez uma pausa, como se não desejasse dar a conhecer o pensamento: sente muito a minha falta. Isabel alegrou-se uma vez mais por estar ao abrigo da escuridão que impedia o amigo de lhe ver a emoção gravada no rosto. Ciúmes, disse, incrédula, para consigo mesma. Tenho ciúmes de Amy Dudley! Isabel, ouviu Robin sussurrar. Isabel, sinto-me um traidor ao dizer-vos isto, mas à parte o alívio que me trouxe ver um rosto amigo e a gratidão que senti pela comida e presentes que Amy me trouxe, a sua presença pouco me comoveu. Não me atrevi a admitir que raramente pensava nela ou sentia a sua falta e que já não me agradava..., fazer amor com ela. Isabel tardou em encontrar resposta para as inesperadas palavras de Robin, pois sentira enorme alívio e uma estranha alegria com aquela triste confissão. Recordava-se que, apenas três anos antes, por alturas da Primavera, fora testemunha do casamento de Robin e Amy. Como pareciam apaixonados e que belo casal formavam». In Robin Maxwell, O Diário Secreto de Ana Bolena, Planeta Editora, colecção Tudor 1, 2002, ISBN 978-972-731-131-6.
                   
Cortesia de PEditora/JDACT

O Diário Secreto de Ana Bolena. Robin Maxwell. «A meio da escada ficara paralisada ao ouvir um gemido distante e lastimoso. Por alguns instantes, pensou tratar-se da sua imaginação, ou melhor, desejou que assim fosse, pois eram queixumes…»

jdact

«(…) Isabel falava agora em voz doce mas, com o olhar apaixonado, Robin ordenou-se que nada mais dissesse. Deixai-me falar: sou vosso, totalmente vosso..., súbdito, vassalo, servo obediente. Se me quiserdes por esposo, continuaria a obedecer às vossas ordens e teria alcançado o céu na terra. Se por motivo de alianças escolherdes outro consorte, hei-de compreender-vos e seguir-vos. Se escolherdes outro homem para amar..., parte de mim definhará e acabará por morrer. Mas escutai, Majestade. Qualquer que seja o destino que guardais para mim, amar-vos-ei do mesmo modo que, quando vos vi pela primeira vez. Lutarei e morrerei, deixarei que me despedacem vivo, para salvar esta terra e o vosso direito de a governar como bem vos aprouver. Imediatamente, Dudley rasgou a camisa e o colete, deixando a descoberto o peito que cortou com a lâmina faiscante do seu punhal. Por Deus, Robin!, Isabel caiu de joelhos, lavada em lágrimas, cobrindo com os dedos a ferida de onde o sangue brotava vivo. Nunca vos faria morrer por mim. Quero-vos vivo..., quero que me ameis. Fazei amor comigo, agora. Robin Dudley obedeceu de bom grado às ordens da sua rainha.
Já tinha anoitecido quando franquearam as portas do Palácio de Whitehall e detiveram os cavalos suados à luz dos archotes que iluminavam o pátio. Guardas e lacaios acorreram imediatamente, mas baixaram os olhos quando Dudley ajudou Isabel a descer da montada, os corpos juntos, antes de os pés dela tocarem o chão. A rainha levava posta a longa capa de Robin que ele próprio ajustara, num gesto protector, em redor do seu corpo. Sabia que os homens a observavam discretamente e, logo preocupada com as formalidades, estendeu a mão ao seu mestre-cavaleiro que, de joelho em terra, lhe tomou os dedos e lhos beijou. Sempre ao serviço de Vossa Majestade.
A rainha tocou-lhe no ombro e voltou-se para atravessar, por entre os guardas, a enorme entrada do palácio, seguindo com largas passadas pelo pátio e pela galeria que conduzia aos seus aposentos. Apesar da penumbra do corredor, iluminado apenas por archotes, Isabel não se sentia só, já que os olhos dos seus antepassados York e Tudor vigiavam a sua orgulhosa passagem. Sentia sempre o peso da linhagem que, por vezes parecia trespassar-lhe a pele de alabastro, insuflando-lhe a certeza do seu direito ao trono de Inglaterra. Antes de subir as escadas que conduziam aos seus aposentos, Isabel retirou com uma mão um archote da parede para iluminar o caminho e, com a outra, puxou as saias acima dos tornozelos, pois os degraus de pedra podiam ser traiçoeiros mesmo à luz do dia. A passagem era estreita e escura e o archote lançava sombras estranhas nas paredes. Com o cheiro da humidade nas narinas e a recordação do recente contacto do corpo de Robin, Isabel deu por si transportada a outros tempos, cinco anos antes, em que descia outra escada húmida e escura já noite alta, levando, não um archote, mas uma simples vela, receando ser descoberta naquele acto perigoso e clandestino.
Estava prisioneira na torre de Londres, acusada pela sua meia-irmã Maria, então rainha, de conspiração contra a coroa. Aterrorizada e débil devido a uma recente enfermidade, Isabel passara os longos dias de encarceramento a estudar e a traduzir os seus amados textos gregos, embora, verdade fosse dita, o trabalho que impusera a si própria, de pouco lhe servira para lhe distrair o espírito do cruel receio de uma sentença de morte. Aquele local terrível assistira a muitas execuções. Havia dezassete anos que a sua própria mãe aí morrera e, em tempos mais recentes, também Catarina Howard, sua prima e quinta mulher de seu pai. Apenas uns meses antes, outra prima, Jane Grey, de dezasseis anos havia sido decapitada em Tower Green, tendo-se comentado, conforme Isabel recordava com um arrepio, que do pescoço brotara mais sangue do que se podia imaginar conter um corpo tão pequeno. Isabel desceu cuidadosamente a estreita escada de Beauchamp Tower, cobrindo a vela com a outra mão para ocultar o mais possível o alcance da luz. Sabia que se a descobrissem tudo se complicaria para si e que pior sorte teria o bondoso guarda que se apiedara da frágil menina cuja vigilância tinha a cargo. Ou talvez, pensava cinicamente Isabel, não a considerasse traidora, mas sim a filha do bom rei Henrique e futura rainha que, quando se sentasse no trono de Inglaterra, haveria de recordar a bondade do velho carcereiro. Em qualquer dos casos, o certo é que consentira em desviar os olhos e que, em mais de dois meses, Isabel conseguira, pela primeira vez, iludir a vigilância dos seus guardiães.
A meio da escada ficara paralisada ao ouvir um gemido distante e lastimoso. Por alguns instantes, pensou tratar-se da sua imaginação, ou melhor, desejou que assim fosse, pois eram queixumes terríveis de um homem cuja existência seria certamente uma extensa agonia. Muitos prisioneiros com menos sorte que ela, estavam encerrados em celas sem janelas, escuras e frias, dormindo sobre palha bolorenta, com as articulações doridas e a pele coberta de pústulas das picadas de pulgas e piolhos. Bom Deus, murmurara repetidamente Isabel, tentando calar aquele som. Ao chegar ao segundo patamar, uma mão surgida das trevas agarrou-lhe o pulso. Voltou-se, sobressaltada, e viu o rosto belo e ousado de Robin Dudley iluminar a escuridão das escadas da torre. Isabel, graças a Deus!» In Robin Maxwell, O Diário Secreto de Ana Bolena, Planeta Editora, colecção Tudor 1, 2002, ISBN 978-972-731-131-6.
                   
Cortesia de PEditora/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulcanelli. «Tal estado de espírito devia ser fatal à obra da Idade Média; e é a ele que, de facto, devemos atribuir as inúmeras mutilações que hoje deploramos»

jdact

«(…) Outrora, as câmaras subterrâneas dos templos serviam de moradas às estátuas de Ísis, que se transformaram, quando se introduziu o Cristianismo na Gália, nessas Virgens Negras que o povo dos nossos dias rodeia de uma veneração muito particular. O seu simbolismo é, aliás, idêntico; umas e outras mostram, no seu pedestal, a famosa inscrição: Virgini pariturae, à Virgem que deve parir. Não se pode definir melhor o sentido esotérico das nossas Virgens negras. Elas representam, na simbólica, a terra primitiva, a que o artista deve escolher para objecto da sua grande obra. É a matéria--prima no estado mineral, tal como sai dos jazigos metalíferos, profundamente enterrada sob a massa rochosa.
Nos nossos dias, as Virgens negras são pouco numerosas. Citaremos algumas que gozam de grande celebridade. A catedral de Chartres é a mais rica nesse aspecto, possui duas. Uma, designada pelo vocábulo expressivo de Notre-Dame-sous-Terre, na cripta, está sentada num trono, cujo pedestal mostra a inscrição que indicamos: Virgini pariturae; a outra, exterior, chamada Notre-Dame-du-Pilier, ocupa o centro de um nicho de ex-votos com a forma de corações inflamados. Esta última, diz-nos Witkowski, é objecto de devoção de grande número de peregrinos. Primitivamente, acrescenta este autor, a coluna de pedra que lhe serve de suporte estava gasta pelas línguas e pelos dentes dos seus fogosos adoradores, como o pé de S. Pedro em Roma ou o joelho de Hércules, que os pagãos adoravam na Sicília; mas, para preservá-la dos beijos demasiado ardentes foi coberta com madeira, em 1831. Com a sua Virgem subterrânea, Chartres passa por ser o mais antigo lugar de peregrinação. Ao princípio, havia apenas uma antiga estatueta de Ísis esculpida antes de Jesus Cristo, como contam antigos cronistas locais. Entretanto, a nossa imagem actual data apenas do final do século XVIII, tendo a da deusa Ísis sido destruída numa época desconhecida e substituída por uma estátua de madeira, com o Menino sentado nos joelhos, a qual foi queimada em 1793.
Quanto à Virgem negra de Notre-Dame du Puy, cujos membros estão escondidos, apresenta a forma de um triângulo, devido ao manto que a cinge no pescoço e se alarga, sem uma dobra, até aos pés. O tecido está decorado de cepas de vinha e de espigas de trigo, alegóricas do pão e do vinho eucarísticos, e, à altura do umbigo, aparece a cabeça do Menino, tão sumptuosamente coroada como a de sua mãe. Notre-Dame-de-Confession, célebre Virgem negra das criptas de Saint-Victor, em Marselha, oferece-nos um belo exemplar de estatuária antiga, esbelta, grande e carnuda. Esta figura, plena de nobreza, tem um ceptro na mão direita e a fronte cingida por uma coroa de triplo florão. Notre-Dame de Rocamadour, termo de uma famosa peregrinação, já frequentada no ano de 1166, é uma madona miraculosa cuja tradição faz remontar à origem do judeu Zaqueu, chefe dos publicanos de Jerico e que domina o altar da capela da Virgem, construída em 1479. É uma estatueta de madeira, enegrecida pelo tempo, envolta num manto de lâminas de prata que protege a imagem carcomida. A fama de Rocamadour remonta ao lendário eremita, Santo Amador ou Amadour, que esculpiu uma estatueta da Virgem, de madeira, à qual foram atribuídos numerosos milagres. Conta-se que Amador era o pseudónimo do publicano Zaqueu, convertido por Jesus Cristo; tendo vindo para a Gália, teria propagado o culto da Virgem, que é muito antigo em Rocamadour; no entanto, a grande voga da peregrinação data somente do século XII.
Em Vichy, a Virgem negra da igreja de Saint-Blaise é venerada desde a mais remota antiguidade, como dizia já Antoine Gravier, sacerdote comunalista do século XVII. Os arqueólogos datam esta escultura do século XIV e como a igreja de Saint-Blaise, onde se encontra, só foi construída, nas suas partes mais antigas, no século XV, o abade Allot, que chama a atenção para esta estátua, pensa que ela figurava outrora na capela de Saint-Nicolas, fundada em 1372 por Guillaume de Hames. A igreja de Guéodet, chamada ainda Notre-Dame-de-la-Cité, em Quimper, possui também uma Virgem negra.

Arquitectos, pintores, escultores, preferindo a sua própria glória à da Arte, dedicaram-se aos modelos antigos imitados em Itália. Os construtores da Idade Média tinham como apanágio a fé e a modéstia. Artesãos anónimos de puras obras-primas, construíram para a Verdade, para a afirmação do seu ideal, para a propagação e a nobreza da sua ciência. Os do Renascimento, preocupados sobretudo com a sua personalidade, ciosos do seu valor, construíram para a posteridade do seu nome. A Idade Média deveu o seu esplendor à originalidade das suas criações; o Renascimento deveu a sua fama à fidelidade servil das suas cópias. Aqui, um pensamento; ali, uma moda. De um lado, o génio; do outro, o talento. Na obra gótica, a construção permanece submetida à Ideia; na obra renascentista, domina-a e apaga-a. Uma fala ao coração, ao cérebro, à alma: é o triunfo do espírito; a outra dirige-se aos sentidos: é a glorificação da matéria. Do século XII ao século XV, pobreza de meios mas riqueza de expressão; a partir do século XVI, beleza plástica, mediocridade de invenção. Os mestres medievais souberam animar o calcário vulgar; os artistas do Renascimento deixaram o mármore inerte e frio. É o antagonismo desses dois períodos, nascidos de conceitos opostos, que explica o desprezo do Renascimento e a sua profunda repugnância por tudo o que era gótico. Tal estado de espírito devia ser fatal à obra da Idade Média; e é a ele que, de facto, devemos atribuir as inúmeras mutilações que hoje deploramos». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia de E70/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulcanelli. «Lages de pedra, mausoléus de mármore, sepulcros, ruínas históricas, fragmentos do passado. Um silêncio lúgubre e pesado entre os espaços abobadados»

jdact

«(…) Huginus de Barma, na Prática, da sua obra emprega os mesmos termos para exprimir a matéria da Grande Obra, sobre a qual a estrela aparece: tomai terra verdadeira, diz ele, bem impregnada dos raios do sol, da lua e dos outros astros. No século IV, o filósofo Calcidius que, como diz Mullachius, o último dos seus editores, professava que era necessário adorar os deuses da Grécia, os deuses de Roma e os deuses estrangeiros, conservou a menção da estrela dos Magos e a explicação que os sábios dela davam. Depois de ter falado de uma estrela chamada Ahc pelos Egípcios e que anuncia desgraças, acrescenta:

Há uma outra história mais santa e mais venerável que atesta que, pelo nascer de uma certa estrela foram anunciadas, não doenças e mortes, mas a vinda de um Deus venerável para a graça da conversação com o homem e para vantagem das coisas mortais. Os mais sábios dos Caldeus, tendo visto essa estrela quando viajavam de noite, e sendo homens perfeitamente exercitados na contemplação das coisas celestes, procuraram, segundo se conta, o nascimento recente de um Deus e, tendo encontrado a majestade desse Menino, renderam-lhe as homenagens que convinham a um tão grande Deus. O que conheceis muito melhor do que outros.

Diodoro de Tarso mostra-se ainda mais positivo quando afirma que essa estrela não era uma dessas que povoam o céu, mas uma certa virtude ou força urano-diurna, que tomou a forma de um astro para anunciar o nascimento do Senhor de toda a gente. O Evangelho segundo S. Lucas, II:

Ora, naquela mesma região havia uns pastores que vigiavam e se revezavam entre si nas vigílias da noite para guardarem os seus rebanhos. Eis que apareceu junto deles um Anjo do Senhor e uma luz divina os cercou e sentiram grande temor. O anjo, porém, disse-lhes: não receeis porque vos venho anunciar a Boa Nova que trará uma grande alegria a todo o povo. É que hoje vos nasceu na cidade de David um Salvador que é o Cristo-Senhor; e este é o sinal que vos fará reconhecê-lo: encontrareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. No mesmo instante juntou-se ao Anjo uma multidão da milícia celeste que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade.

Evangelho segundo S. Mateus, II:

Tendo pois nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que do Oriente uns magos vieram a Jerusalém, dizendo: Onde está Aquele que nasceu, rei dos Judeus, pois vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo? … Então Herodes, tendo chamado secretamente os Magos, inquiriu deles, com todo o cuidado, acerca do tempo em que a estrela lhes tinha aparecido e enviando-os a Belém disse-lhes: ide e informai-vos bem que Menino é esse e depois que o houverdes achado vinde dizer-mo para que eu possa também ir adorá-lo. Eles, tendo ouvido as palavras do rei, partiram e logo a estrela que tinham visto no Oriente lhes apareceu, indo adiante deles, até que chegou e se deteve sobre o lugar onde estava o Menino. Quando eles viram a estrela foi grande a sua alegria e, entrando na casa, encontraram o Menino com Maria, sua Mãe e, prostrando-se, adoraram-no; depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes, ouro, incenso e mirra.

Nesse lugar baixo, húmido e frio, o observador tem uma sensação rara e que impõe o silêncio, a do poder unido às trevas. Estamos aqui no asilo dos mortos, como na basílica de Saint-Denis, necrópole dos ilustres, como nas Catacumbas romanas, cemitério dos cristãos. Lages de pedra, mausoléus de mármore, sepulcros, ruínas históricas, fragmentos do passado. Um silêncio lúgubre e pesado entre os espaços abobadados. Os mil ruídos do exterior, esses vãos ecos do mundo, não chegam até nós. Iremos desembocar nas cavernas dos ciclopes? Estamos no limiar de um inferno dantesco ou sob as galerias subterrâneas, tão acolhedoras, tão hospitaleiras, dos primeiros mártires? Tudo é mistério, angústia e temor neste antro escuro... À nossa volta, numerosas colunas, enormes, maciças, por vezes emparelhadas, erguidas sobre as suas bases largas e chanfradas. Capitéis curtos, pouco salientes, sóbrios, atarracados. Formas rudes e sumidas em que a elegância e a riqueza cedem lugar à solidez. Músculos fortes, contraídos sob o esforço, que partilham sem desfalecer o peso formidável do edifício inteiro. Vontade nocturna, muda, rígida, tensa numa resistência perpétua ao esmagamento. Força material que o construtor soube ordenar e repartir, dando a todos estes membros o aspecto arcaico de um rebanho de paquidermes fósseis, soldados uns aos outros, arredondando os dorsos ossudos, contraindo os ventres petrificados sob o peso de uma carga excessiva. Força real, mas oculta, que se exerce em segredo, se desenvolve na sombra, age sem tréguas nas profundezas dos subterrâneos da obra. Tal é a impressão dominante que sente o visitante ao percorrer as galerias das criptas góticas». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia de E70/JDACT

O Mistério das Catedrais. Interpretação Esotérica. Fulcanelli. «Todas as estátuas baixam o rosto para o solo. Os Magos anunciam que essa Criança nasceu em Belém e aconselham ao rei que envie embaixador»

jdact

«(…) A rosa representa então, só por si, a acção do fogo e a sua duração. É por isso que os decoradores medievais procuraram traduzir nas suas rosáceas os movimentos da matéria excitada pelo fogo elementar, tal como se pode ver no portal norte da catedral de Chartres, nas rosáceas de Toul (Saint Gengoult), de Saint-Antoine de Compiègne  etc.. Na arquitectura dos séculos XIV e XV, a preponderância do símbolo ígneo, que caracteriza nitidamente o último período da arte medieval, fez dar ao estilo dessa época o nome de gótico flamejante. Certas rosas, emblemáticas do composto, têm um sentido particular que sublinha mais as propriedades dessa substância que o Criador assinou com a sua própria mão. Este sinal mágico revela ao artista que seguiu o bom caminho e que a mistura filosofal foi preparada canonicamente. É uma figura radiada com seis pontas (digamma), chamada Estrela dos Magos, que radia à superfície do composto, ou seja, sobre a manjedoura onde Jesus, o Menino Rei, repousa.
Entre os edifícios que nos oferecem rosáceas estreladas de seis pétalas, reprodução do tradicional Selo-de-Salomão, citemos a catedral de Saint-Jean e a igreja de Saint-Bonaventure de Lyon (rosáceas dos portais); a igreja de Saint-Gengoult, em Toul; as duas rosáceas de Saint-Vulfran d’Abbeville; o portal da Calenda na catedral de Rouen; a esplêndida rosa azul da Sainte-Chapelle etc.. Sendo este signo do mais alto interesse para o alquimista, não se trata do astro que o guia e lhe anuncia o nascimento do Salvador?, reunimos aqui, de bom grado, certos textos que relatam, descrevem, explicam a sua aparição. Deixaremos ao leitor o cuidado de estabelecer todas as aproximações úteis, de coordenar as versões, de isolar a verdade positiva, combinada com a alegoria lendária nestes fragmentos enigmáticos.
Varrão, nas suas Antiquitates rerum humanaram, recorda a lenda de Enéias salvando o pai e os seus apanágios das chamas de Tróia e chegando, após longas peregrinações, aos campos de Laurente, termo da sua viagem.
Eis agora uma lenda extraída de uma obra que tem por título Livro de Seth{ } e que
um autor do século VI relata nestes termos:

Ouvi algumas pessoas falarem de uma Escritura que embora pouco certa não é contrária à fé e é, antes, agradável de ouvir. Aí se lê que existia um povo no Extremo-Oriente, à beira do Oceano, que possuía um Livro atribuído a Seth, o qual falava da aparição futura dessa estrela e dos presentes que se devia levar ao Menino, predicção que era considerada como transmitida pelas gerações dos Sábios, de pai para filho. Escolheram doze de entre os mais sábios e mais apaixonados peles mistérios dos céus e prepararam-se para esperar essa estrela. Se algum deles morria, o seu filho ou o parente próximo que participava na mesma expectativa era escolhido para substituí-lo. Chamavam-lhes, na sua língua, Magos, porque eles glorificavam Deus em silêncio e em voz baixa. Todos os anos estes homens, após a colheita, subiam a um monte que na sua língua se chamava Monte da Vitória, o qual encerrava uma caverna talhada na rocha e agradável pelos regatos e pelas árvores que o rodeavam. Chegados a esse monte, lavavam-se, oravam e louvavam a Deus em silêncio durante três dias; era o que eles praticavam durante cada geração, sempre esperando que, por acaso, essa estrela de felicidade aparecesse durante a sua geração. Até que, por fim, ela apareceu sobre esse Monte da Vitória sob a forma de uma criança e figurando uma cruz; ela falou-lhes, instruiu-os e ordenou-lhes que partissem para a Judeia. A estrela precedeu-os, assim, durante dois anos e nem o pão nem a água faltaram nas suas marchas. O que eles fizeram a seguir é resumidamente narrado no Evangelho.

A forma da estrela seria diferente, segundo esta outra lenda, de época desconhecida:

Durante a viagem, que durou treze dias, os Magos não repousaram nem tomaram alimento; a necessidade não se faz sentir e este período pareceu-lhes não durar mais do que um dia. Quanto mais se aproximavam de Belém, mais a estrela brilhava; tinha a forma de uma águia voando através dos ares e agitando as asas; por cima era uma cruz.

A lenda seguinte, que tem por título Das coisas que aconteceram na Pérsia, aquando do nascimento de Cristo, é atribuída a Júlio Africano, cronista do século. III, embora não se saiba a que época pertence realmente:

A cena passa-se na Pérsia, num templo de Juno, construído por Ciro. Um sacerdote anuncia que Juno concebeu. Todas as estátuas dos deuses dançam e cantam quando ouvem esta notícia. Uma estrela desce e anuncia o nascimento de um Menino Princípio e Fim. Todas as estátuas baixam o rosto para o solo. Os Magos anunciam que essa Criança nasceu em Belém e aconselham ao rei que envie embaixador. Então aparece Baco, que prediz que esse Menino expulsará todos os falsos deuses. Partida dos Magos, guiados pela Estrela. Chegados a Jerusalém, anunciam aos sacerdotes o nascimento do Messias. Em Belém saúdam Maria, fazem pintar, por um escravo hábil, o seu retrato com o Menino e colocam-no no seu templo principal, com esta inscrição: a Júpiter Mitra, ao deus sol, ao Deus grande, ao Rei Jesus, o império dos Persas faz esta dedicatória. A luz desta estrela, escreve Santo Inácio, ultrapassava a de todas as outras; o seu brilho era inefável e a novidade fazia com que aqueles que a olhavam ficassem espantados. O sol, a lua e os outros astros formavam o coro dessa estrela». In Fulcanelli, 1926, Le Mystère des Cathédrales, 1964, O Mistério das Catedrais, Interpretação Esotérica dos símbolos herméticos, Edições 70, colecção Esfinge, 1975.

Cortesia de E70/JDACT