segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Ele repara na sua palidez, nos vincos que se desenham mais sob os olhos à medida que a tarde avança e o sol se vai alastrando gorduroso, enfraquecido, no chão…»

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O Medo
«(…) Soltou-se brandamente e correu pela escada de madeira velha, que estalou numa espécie de gemido contínuo sob a pressa irregular dos seus pés, ainda com a pressão quente das mãos quentes dele nos cabelos, nos seios, nas ancas, nas ancas através da saia; nas pernas o contorno firme das pernas dele, o sulco profundo dos seus dedos a tentar destruir-lhe o tremor quase inconsciente do corpo, o medo de recuar, voltar para trás. E apertou mais o corrimão de ferro estreito, frio, até o sentir cravado na carne, a rasgar-lhe a carne à medida que a mão descia acompanhando o movimento das pernas, do corpo todo, olhos cravados na porta lá em baixo a deixar passar vagamente uma ténue claridade já opaca de noite, espessa já no ruído agudo da rua. Ela sabia-o a vê-la descer naquela pressa despropositada, indeciso entre descer também, chamá-la ou apenas continuar assim calado, sem compreender. Hesitou, oscilou no crepúsculo acentuado da escada e continuou agora lentamente como se hesitasse ainda, lentamente como quando a subiu, cada movimento controlado, marcado, silencioso. E ele debruçado, com a marca das ancas nos dedos, com a descoberta incompleta do seu corpo a espiar-lhe a mais pequena hesitação, o menor gesto. Soltou o corrimão; parada, oscila um segundo, talvez nem um segundo, os olhos cravados na porta. Oscila ainda, mas retesa-se logo e numa espécie de salto à mistura com o rangido áspero da madeira, desceu o que lhe restava na escada e na rua encostou-se entontecida a qualquer coisa, talvez a um cartaz onde uma mulher inclinada olhava em frente com um pequeno gato enrolado aos pés, ou talvez a um poste de sinalização. Quem sabe se nem mesmo se encostou e apenas gemesse até retomar consciência de si e continuasse rua abaixo sem saber porquê, com toda aquela ânsia, aquele medo, com aquela raiva contida.

O Vazio
A areia havia tomado uma tonalidade baça, amarelada, de marfim, e era pesada e húmida, pesada sem o sol, como se a Lua pesasse nos ombros e nos dedos através dela: grossa, áspera, quase dolorosa, ao mesmo tempo que mole, esponjosa, peganhenta. Tentou sacudi-la do peito, das ancas, dos cabelos. Ajoelhada, via toda aquela extensão vazia..., a areia agarrava-se-lhe à pele e ela via toda aquela extensão vazia... De pé voltou-se. De pé sem mesmo o olhar mas a fixá-lo muito como se o visse, como se tivesse de inventar as palavras, como se não soubesse qualquer gesto, afinal sem sequer o fixar mas apenas olhando na sua direcção, parecendo realmente olhá-lo, mas nem o vendo, porém sentindo toda e qualquer partícula do seu corpo, repugnada. Ergueu as mãos, finalmente ergueu as mãos e aproximou-as da cara, aproximou-as da boca, mecanicamente do cabelo, de novo da boca, e deixou-as cair a aflorar as ancas, para as tornar a erguer, indecisa, agora olhando-o realmente, e não a areia, nem o mar, nem os paus das barracas, olhando-o realmente, tendo a total consciência da sua presença, da sua presença estranha de desconhecido, da sua língua estranha a que cerrara os dentes, dos seus olhos estranhos que a fitaram enquanto ia e vinha dentro de si. Curvou-se então e quase sem ruído começou a vomitar sobre a areia.

O Vinho
O olhar apático, vazio, percorre, escorrega no pequeno tampo da mesa e detém-se-lhe nas mãos firmes, grandes, pousadas perto dos copos quase cheios que ambos esqueceram por momentos, presos a uma enorme lassidão: quase um sono. Oscila um pouco a cabeça, os dedos cravados no vidro frio do copo branco ao qual o vinho empresta um tom dormente, rosado. Avidamente, de um trago, deixa o líquido espesso inundar-lhe a boca e correr amargo pela garganta. O sol atravessa a porta envidraçada e detém-se perto do balcão estreito. Ele torna a encher-lhe o copo e ela torna a engolir o vinho, sequiosa, demorando o copo perto dos lábios, o copo já vazio que ele enche e ela bebe presa de uma sede sem limites, de uma indiferença sem limites, de um vazio sem limites. Oscila um pouco a cabeça e olha-o, demorando-se a examinar-lhe a curva correcta do nariz, ou talvez nem o olhe, tomada por uma total indiferença ou dor, uma dor ou uma maneira branda de se calar ao deixar o vinho correr na garganta: ávida, sequiosa, numa pressa enlouquecida. Ele repara na sua palidez, nos vincos que se desenham mais sob os olhos à medida que a tarde avança e o sol se vai alastrando gorduroso, enfraquecido, no chão, a contornar os pés das mesas, a tentar subir mesmo até à garrafa, até aos dedos fechados sobre o copo ou abertos inúteis sobre o tampo da mesa. Estremece; o vinho tem um travo amargo que a adormece por dentro pouco a pouco. Estremece; um arrepio que a faz tremer no seu vestido decotado a mostrar-lhe o peito solto. Quando ela se curva o homem pensa mesmo ir vê-lo soltar-se do pouco tecido que o prende e ficar ali exposto à luz macilenta do crepúsculo enquanto ela bebe, as duas mãos erguidas perto da cara, crispadas no copo de vidro grosso ao qual o vinho empresta um tom rosado, dormente. Estremece; poisa sem ruído o copo vazio e deixa as mãos ao lado das dele, sem as tocar. Olha a rua através da porta envidraçada e repara que as luzes já se começaram a acender dentro das lojas. O sol recuou no soalho, agora é apenas uma ligeira mancha a chocar nos vidros da porta de batentes e lá fora nas montras. Afinal era isso o que primeiro supusera ser a luz acesa das lojas: ainda não será tão tarde. A mulher sente calor: o calor fictício do vinho e também a tontura envolvente do vinho, do qual não tem o hábito. Ele enche-lhe o copo e ela bebe ainda, sem falar: olha-o apenas tacteando o vácuo que não transpõem um para o outro e através do qual se fixam, se desviam, se aproximam de novo, em silêncio». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «E devagar distanciava-se de casa, percorrendo todas aquelas ruas, voltando depois para trás, revendo todos aqueles prédios, contendo todos aqueles prédios»

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A Imobilidade
«(…) Recua ainda e ainda. Recua. Logo em baixo a escada faz uma curva ligeira. Pensamos que ela vai cair. Sabemo-lo. Desce um degrau, outro e outro a recuar sempre e sempre. Não a avisamos, não gritamos e ela recua debaixo do olhar indiferente da outra. Será uma acusação? Os saltos dos seus sapatos brancos têm na pedra carcomida um ruído seco, em desequilíbrio precipitado. Não gritamos, não a avisamos e ela recua. Recua ainda e ainda, presa de um terror secular que não cala nos olhos.

Movimentos
Olha-os fixamente, por segundos. Na claridade extenuante do dia os contornos quase que se dissolvem e as diferenças de plano quase que desaparecem. Não existem saliências curvas, mas sim agudas, ásperas. Olha-os fixamente. O ódio confunde-se-lhe às vezes nos olhos.
Muito lentamente, a custo, fecha as pálpebras azuladas e geme baixo; um gemido contínuo, de dentes cerrados, os punhos a crisparem-se de cada lado do lençol e o rosto de uma palidez de morte. Mantém os braços abertos, a respiração presa, por vezes abandonada. Abandonada, por vezes como que oferecida. Tenta ainda fugir-lhe, arrancar-lhe as coxas entreabertas à pressão da sua língua, ao tacto do seu hálito, porém, mal ele parece libertá-la ela submete-se, ansiosa, apenas com uma ponta de rebeldia no movimento do corpo. E o gemido torna-se mais sincopado, contornado, entrecortado.
Volta-se defronte do espelho, apanha a cinta estendida na borda da cama. Vira-se: os seios vêem-se-lhe, queimados, negros de sol, no pequeno soutien de renda aberta. Parecem totalmente nus. Olha-os assim, nus. O calor alastrou pelo quarto, é um calor peganhento, feito de pequenos odores e de pequenas cores dissimuladas. Os dedos deslizam sobre a pele, descendo suavemente.
Corre ainda sem nunca se voltar. As mãos levantam o tecido pesado do fato para o manter afastado do chão. Mesmo assim arrasta consigo pequenas pedras e a poeira descolorida que se desloca brandamente perto dos arbustos; do buxo aparado há pouco. O olhar mantém-se fixo no labirinto geométrico do jardim. Há um gesto qualquer esboçado nos seus braços.
Mergulha a mão esquerda no aquário. As dez horas o calor iniciar-se-á pelo portão; alastrando-se no ferro do portão. Agora apenas treme de frio e quase grita; a outra mão paira perto da boca. E para quê? Os dedos ficam a pingar sobre o tapete a água tépida que haviam absorvido no aquário.
A mulher olha à roda a ver se alguma coisa falta: as jarras, as flores, ou as pratas? Desvia a cabeça do raio de sol que tropeça no móvel, no cristal da taça azul nesse mesmo móvel. As flores: debruçada, inquieta-se sobre elas. O olhar desinteressado, dá novamente volta à sala. Hirta na penumbra quente, escuta o tremendo silêncio da tarde.
Tropeça numa fuga detida por acaso. Encosta-se à parede lisa e inclina a cabeça junto ao frio branco da parede do corredor. Os joelhos vergam-se-lhe. Sente que a palidez lhe cresce num suor brando entre os seios soltos. E uma lentidão ou suor de cama.
Move os lábios como para acrescentar o silêncio. Os lábios, em silêncio na sala; a um canto da sala. Com um copo se possível amarfanhado nas mãos, olha-os. Tem de se mover entre eles na mesma sala: é um dever. Mas parece-lhe antes ser a sala que se move debaixo dos seus pés; pelo menos é essa sensação. E ela imóvel a deixar-se deslizar assim, apenas com um medo terrível de cair. Porém, pode tranquilizar-se: está tudo em ordem. Sorri. Um pobre sorriso usado em que ninguém acredita.
E devagar ela movia os braços e sorria, saía para a rua e andava devagar, demorando os passos, os braços pendentes, a boca seca, os olhos deslizando, os olhos roçando ao de leve as pessoas, contornando devagar as pessoas, os olhos retendo o tom mais agudo de um casaco ou o reflexo facetado de uma montra. Do pulso esquerdo caía-lhe a pulseira acobreada sobre a mão pendente junto à saia. E devagar distanciava-se de casa, percorrendo todas aquelas ruas, voltando depois para trás, revendo todos aqueles prédios, contendo todos aqueles prédios.
Era pequeno, preto, com uma espécie de crista. Ficava-se a olhá-lo durante muito tempo esquecida de tudo numa estranha amnésia consciente, quase que construída de propósito, os olhos fixos no aquário de vidro grosso, uma bola enorme, transparente, a um canto, quase encostado ao cinzeiro do lado esquerdo da parede perto da varanda mergulhada no sol. Fixava-o absorta e imóvel como se tudo dependesse daqueles movimentos circulares em redor do vidro ou do ruído quase imperceptível da água. Atenta, as mãos mergulhadas nos cabelos; apoiadas nos malares salientes; tinha nos olhos um ar perdido, absorto, ávido. Por isso mesmo ávido». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

Os Filipes. António Borges Coelho. «Dominaram a ilha menos a fortaleza: dom António era o rei e senhor de Portugal, o papa concedera-lhe esse direito»

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Conquista dos Açores
Batalha da Salga ou da Praia da Vitória
«(…) No ano seguinte, a 11 de Julho de 1581 chegou à Praia, vinda de Lisboa, a armada castelhana e alemã de Pedro Valdez. O monarca prometia perdão e muitas mercês ao governador Cipriano se o jurasse rei de Portugal. Eu não sirvo a el-rei dom António por interesse..., mas sirvo-o com a pureza de minha obrigação, de que resulta não me moverem mercês prometidas, que foi o laço em que caiu Portugal; porque fora do que devo, nenhuma cousa me poderá mover a troco de vender a honra e a lealdade, que não tem preço, ..., lição que a muitos fidalgos esqueceu. Pedro Valdez tinha ordens para aguardar a outra esquadra espanhola que se aproximava, mas adiantou-se e ordenou o ataque. Antes do amanhecer do dia 25 de Julho, dia de Santiago, começaram a sair em terra. Enquanto a segunda vaga de invasores desembarcava os portugueses matavam a primeira até que, da frota, acudiram em massa. Os terceirenses simularam que fugiam e, ao amanhecer do outro dia, cobriam o alto das colinas. Fomos a eles por uma ladeira acima, escreveu o espanhol Andres de Solazar, mas pareceu-nos melhor recuar para desembarcar mais gente e munições. Cercados por todos os lados, sofremos cinco assaltos mas fizemo-los recuar. Embarcávamos os feridos. Também fui evacuado com uma perna quebrada. Antes de chegar ao navio, virei a cabeça e vi os nossos inimigos que desciam trazendo à frente trezentos a quatrocentos bois e vacas. Os nossos viraram as costas cuidando valer-se da artilharia. Foram esmagados pelos bois. As ondas lançavam à praia os corpos dos afogados. Cravavam-nos de lançadas. Chamavam os vivos, ao engano, e matavam-nos. Os frades e os clérigos eram os primeiros a ensanguentar as mãos. Temo que a ilha se torne outra La Rochelle.
Os plebeus terceirenses vestiram-se com as roupas ricas dos mortos. Entravam nas casas. Na procissão da vitória participaram todas as Ordens religiosas menos a dos Jesuítas. Filipe I continuava em Lisboa mas os portugueses, em especial os do povo, alegraram-se com a vitória e traziam por ditado contra os castelhanos: guarda boiada. Começaram a prender os que falavam em dom António, frades e freiras, fidalgos, altos e baixos, que dele recebiam recado ou lho mandavam ou o desejavam e degredavam-nos para as galés. Deportaram para Castela a condessa de Vimioso, Ana de Aragão, e priores e ministros de ordens religiosas. Muitos saíam do reino em busca do senhor dom António.

Governo de dom António na ilha Terceira
A vitória da Salga exaltou o povo miúdo. Pediram à Câmara de Angra que confiscasse as rendas dos Jesuítas. O governador e o Senado não aceitaram mas proibiram-nos de pregar e mandaram cerrar com pedra e cal as portas e janelas do Colégio. Também lhes fecharam com travessas e ferrolhos as portas da igreja. De dentro, abriram-nas por força. E exposto o Santíssimo, aguardaram, ajoelhados, o martírio. Voltaram a fechar-lhes as portas. E fechados ficaram de Julho de 1581 a finais de Julho de 1582. Davam-lhes de comer às quartas e aos sábados. A gente rústica e plebeia achava Cipriano Figueiredo demasiado brando. E no princípio de 1582, dom António entregou o governo a Manuel Silva, agraciado com o título de conde de Torres Vedras, mas Cipriano manteve o cargo de corregedor. Manuel Silva criou Casa da Suplicação, do Cível e do Crime, Mesa do Desembargo do Paço, Mesa da Consciência e Ordens e Casa da Moeda, isto é, um Governo Nacional. Cunhou moeda com a efígie de dom António. E procedeu-se ao julgamento dos que tinham tomado voz por Filipe I. Betencourt foi degolado e confiscaram-lhe os bens. Convidaram os jesuítas a tomar partido por dom António. Recusaram. Manuel Silva mandou retirar tudo o que havia no Colégio, até os sinos, que enviou para as fortalezas. Serviram para dar aviso.

Batalha naval de Vila Franca do Campo
Em Julho de 1582 o rei dom António chegou à ilha de São Miguel com uma armada francesa comandada por Filipe Strozzi. Dominaram a ilha menos a fortaleza: dom António era o rei e senhor de Portugal, o papa concedera-lhe esse direito. E era tão católico que não quisera a ajuda do Turco». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2018

Os Filipes. António Borges Coelho. «Os fidalgos pensaram: vinha da parte de Filipe. João Betencourt, capitão da gente de cavalo, saiu da Casa dos Jesuítas com a bandeira levantada e percorreu as ruas»

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Filipe I (II) em Lisboa
«(…) No Cais da Pedra, os mercadores flamengos ergueram à sua custa um portal grandioso. No cimo estavam pintados quatro leões e logo abaixo um retrato do rei Filipe I, tirado pelo natural. Na ilharga, da banda direita, um gigante com o mundo na mão. Uma rua artificial seguia do cais até à Porta da Ribeira, ladeada, de uma e outra parte, por esteios onde estavam representadas as figuras dos reis da Índia, tributários de Portugal.
Da Ribeira à Sé seguiam-se os arcos: o de São Jorge, o dos ourives da prata, o dos barbeiros. O arco da Porta do Ferro, feito pelos cerieiros, era todo lavrado em cera com invenções de árvores e frutos. Na Rua Nova, aos Barreteiros, outro arco; e defronte do Chafariz, um portal com muitos enigmas. Arco da Moeda, arco das Fangas da Farinha, da Tanoaria, dos ourives do ouro. A porta da igreja de Santo António fora lavrada e dourada de novo e a porta da Sé estava bem ornada de pinturas. Os portais mostravam retábulos em louvor de Filipe I.
No Cais da Pedra, no portal dos flamengos, o presidente do Senado entregou ao rei as chaves da cidade. Devolveu-as e, a cavalo, deu as mãos a beijar aos vereadores e procuradores dos mesteres. Pediram-lhe a confirmação dos privilégios e das liberdades de Portugal. Respondeu que era contente de tudo outorgar. A cavalo, seguido a pé pelos fidalgos, chegou à porta da Ribeira onde lhe fizeram a fala. E prosseguiu até à Sé no meio de danças e folias. Voltou pela Rua Nova, a Calcetaria, a Porta da Oura até aos Paços da Ribeira. Chegou quase ao pôr-do-sol. Quanto ele ia alegre e contente, juntamente com os que lhe entregaram o reino e se com ele foram botar, tanto o povo lastimava, com bem de lágrimas, a dor que tinha e mostrava ter em sentimento de o verem a ele, rei, e não a quem desejaram, escreve o antoniano Pero Roiz Soares.
Depois de assentado nos Paços, começaram logo a fazer cruéis execuções nos portugueses que seguiram o senhor dom António, açoutando uns, enforcando outros, degredando muitos para as galés, não guardando decoro a ninguém porque frades, clérigos, leigos, todos iam por um teor remando seus remos nas galés. Em 31 de Janeiro de 1582, em carta a Gabriel Zayas, secretário de Filipe I, Jerónimo Corterreal escreüa: a gente vulgar está cheia de escândalo por estarem ainda correndo sangue as chagas e dores passadas, assim das mortes dos maridos, mulheres e meninos, como das perdas e roubos das fazendas, que se estimam, só no burgo de Lisboa e no circuito do seu termo, em cinco contos de ouro.

Conquista dos Açores
Batalha da Salga ou da Praia da Vitória
Filipe I não dormia tranquilo no Paço da Ribeira. Senhoreava o continente português mas abandeira de dom António tremulava na ilha Terceira e noutras ilhas dos Açores. E de França saía uma armada em apoio do rei Prior do Crato. Pelo seu lado, a rainha Isabel de Inglaterra não tardaria a entrar no conflito. As ilhas tomaram o partido de dom António logo em Junho de 1580 mas, em Janeiro de 1581, por acção do bispo Pedro Castilho e pela pregação dos Jesuítas, a ilha de São Miguel tomou voz por Filipe I. Já antes, em 29 de Setembro de 1580, os poderosos da ilha Terceira, a ilha mais povoada, tinham tentado proclamar o rei espanhol. No porto de Angra entrou uma nau castelhana. Os fidalgos pensaram: vinha da parte de Filipe. João Betencourt, capitão da gente de cavalo, saiu da Casa dos Jesuítas com a bandeira levantada e percorreu as ruas: viva el-rei Filipe! Viva! E quem o contrário disser morra.
O corregedor dos Açores, Cipriano Figueiredo, veio-lhe ao caminho: que coisa é esta senhor João Betencourt? Venho pedir a Vossa Senhoria que não mande atirar da fortaleza àquela nau, que é d'el-rei Filipe. O povo começou a juntar-se: mata, mata este traidor. Prenderam o Betencourt e alguns cidadãos de nome e principais da cidade. Outros cavalgaram para as suas quintas e ficaram a monte». In António Borges Coelho, Os Filipes, Editorial Caminho, 2015, ISBN 978-972-212-740-0.

Cortesia de Caminho/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano... Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho…»

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A morte de Lancelot
«(…) Nunca se sentira tão infeliz na vida. Agora, longe do solo pátrio, aterrorizado, levava dias a rezar como se isso pudesse restaurar-lhe a confiança em si próprio e na sua pobre alma partida onde sir Galaad e Lancelor dormiam o pesado sono da morte, porque o cavaleiro que julgara ser e o Rei que se orgulhara da sua missão tinham expirado em terras de França. Quando Deus, enfim, levasse a sua alma, ela estaria pronta para percorrer as novas paragens. Era apenas uma questão de tempo. Assim pensava e o confessava, com lágrimas nos olhos, aos seus companheiros, mirando o Sol nascente daquele Outubro frio, o mesmo Sol que fazia refulgir os telhados, as muralhas e as colinas em redor da sua Jerusalém ansiada onde desejava acabar a sua peregrinação, o seu caminho de sofrimento e aprendizagem.

De Alcântara a Alcáçovas pelo Bem do Mundo
João prosseguia, porque as circunstâncias a isso o obrigavam a guerra, a guerra de defesa, enquanto o pai abdicava de tudo, perdido em terras de França, desaparecendo, como um garoto, de sob a tutela paterna ou familiar, e assim o conseguiu uma vez, até que gente do Rei de França o foi encontrar num albergue miserável. Monsieur de Lébret apanhara um tremendo susto pois pensou que algo de terrível teria acontecido ao infortunado Rei português, cada vez mais instável no seu juízo e nas suas emoções. Os portugueses que acompanhavam o Rei achavam-se perfeitamente perdidos de aflição e pouco ajudavam, pois um dos criados do Rei trouxera-lhes uma carta onde Afonso informava que partia para Jerusalém. Sozinho, pelas estradas, tal um pedinte, o neto de Filipa de Lencastre, arrostando com intempéries, a fome, os salteadores... Lá o encontraram numa aldeia, onde se acolhera e já se deitara. Um tal Leboeuf foi quem o achou, acordou-o, pôs-se de guarda à estalagem e mandou avisar os portugueses. O conde de Penamacor, mais morto que vivo, acorreu e trouxe o desalentado Monarca. Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano...
Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho, interdito, como foi seu costume toda a vida, recolheu-se a meditar sobre a missiva. Guardou segredo até se decidir. Quando se decidia, pedia conselho. Era um método de trabalho como outro qualquer porque o conselho de nada servia. Só ele decidia e punha na mesa as pedras do jogo que sempre entendeu pôr. Não lhe levo a mal. Quando se deseja ordenar o mundo é assim que se faz. E um homem que, aos vinte anos, decide criar um império, tem de arrumar a casa primeiro. Aquele tempo de aprendizagem retirara-lhe muitas dúvidas, concedera-lhe as certezas possíveis, mas aplainara-lhe o difícil caminho que teria de percorrer. João era por de mais inteligente e lúcido e percebeu que o pai apenas servia para entravar-lhe o caminho nos negócios públicos, um inepto do ponto de vista político, embora um incapaz bem-intencionado, puro honesto». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido»

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A morte de Lancelot
«(…) Evidentemente que o Rei português, apesar de tudo, achou toda a conversação positiva, agradável, e saiu muito esperançado perante o olhar arguto do outro. Até se foi, em Dezembro, encontrar com o primo Carlos. A Casa de Borgonha achava-se nos espasmos finais, em estado de agonia, e Afonso não previra nunca isso. Nem ele nem ninguém. E o Duque avisou o primo que o outro, o Raposão, o intrujara. Ele apenas se divertira à custa do Africano, o herói da longínqua Arzila, de Tânger, o tal do Reino dos Algarves d'Aquém e Além Mar! O pobre Afonso soube logo em Janeiro, uns dias depois, que enquanto ele acreditara no Rei de França, este enviava-o para mediador e simultaneamente mandava reforços, um exército, para auxiliar o fim de Carlos e da Borgonha! O primo, esse, tivera a sorte do tio em Alfarrobeira. Pior sorte. Ficara em Nancy e o corpo, no meio do seu exército desbaratado, entregue à intempérie e à gula dos lobos que o devoraram em parte. Foi encontrado dois dias depois do desastre. O duque de Lorena vencera o filho de Isabel de Borgonha, o neto de João I de Portugal. O desastre arrastava a Casa de Borgonha, a bolsa florentina de Bruges, que os Médicis exploravam, e as esperanças do infeliz Rei de Portugal. Carlos, esse, não teve como o tio Pedro, quem chorasse por si e intercedesse junto do Papa pelos seus ossos aqui, em Portugal, como a mãe fizera pelos do irmão. O Rei Luís estava demasiado satisfeito para se importunar com o nefelibata Afonso de Portugal. Recebia, este, notícias de Portugal e sabia o filho aflito por falta de dinheiro. Sem dúvida a sua administração, a guerra, as suas loucuras e dissipações arrastavam o Reino para uma situação difícil que o rapaz era obrigado a solucionar.
A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido, não teria intenções de promover a discórdia para as bandas do Ocidente... O Rei Luís XI, inclusivamente, deixou de o tratar com a dignidade que lhe cabia, como o demonstrara em Arras. Praticamente o despediu, apressado e impaciente, embora com frases de melíflua complacência. Só lhe restava partir para Honfleur e regressar a Portugal. O pobre imbecil (as más línguas afirmavam que assim se lhe referira Luís XI) ainda teve um breve movimento de revolta. Partiu, sim, mas para longe! Ele iria entrar em religião, visitar a Terra Santa, abdicar. Morrer por morrer, só em Jerusalém. Como cantara o seu astrólogo judeu, o Guedelha, aquele esperto judeu amigo do Abravanel (mas este era um Príncipe, claro!, descendente da Casa de David!): oh Jerusalém, oh, Jerusalém de Ouro, se eu te esquecer que o Senhor retire a luz dos meus olhos e a paz ao meu coração! Persignou-se.
Aqueles eternos Judeus sempre a falar da Cidade do Senhor como se lhes pertencesse, a Cidade Santa, onde o tinham crucificado e cuspido na sua face! Mas eram belas aquelas frases e mestre Guedelha fora sempre um homem culto, inteligente e fiel. A sua decisão estava tomada. Não voltaria atrás. Talvez nesse instante se tenha recordado do tio que visitara Jerusalém e descansara à sombra do que restava do velho templo. Seria, da família, o segundo a pisar as suas ruas por onde as legiões romanas tinham marchado no passado longínquo e, mais tarde, outros também, porque o tempo não pára de deslizar sob os nossos pés indiferente, quantas vezes, ao nosso destino. Portanto, para Jerusalém! De França escreve uma carta, em Setembro, destinada ao filho e onde anuncia a sua abdicação». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «O que esperavas? Na serra já nevou. Em vez de limonada deveríamos tomar uma chávena desse novo elixir que dizem que há nas Índias e a que chamam cho..., hesitou, cholocate!»

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Lisboa. 4 de Setembro de 1493
«(…) Manuel voltou às suas ocupações e deu a conversa por terminada. Tinha passado muito tempo sobre tudo aquilo, a revolta, a inquietação pela sorte do seu irmão, a certeza de ser o único depositário dos bens e da tradição da casa de Viseu... Agora já não se preocupava com isso. O seu coração ocupava-se a evocar as douradas terras de leste, as amplas planícies castelhanas, impudicas na sua nudez, onde qualquer sombra se torna num dom inesperado. Ali, num qualquer dos muitos castelos que marcam a paisagem, estaria Isabel. Imaginou-a a ler junto de uma janela, a bordar à sombra dos álamos, a desfrutar da conversa das suas damas... De novo a voz de Diogo Silva tirou-o do seu sonho. Notícias da corte, anunciou-lhe ao mesmo tempo que lhe estendia um pergaminho que tinha recebido de um jovem pajem que, imóvel debaixo do lintel da porta, parecia esperar a resposta. Manuel leu atentamente a nota e dirigindo-se ao recém-chegado anunciou-lhe: podeis dizer a Sua Majestade, João II, que amanhã sem falta e à hora indicada irei ao seu palácio.

Granada. 22 de Novembro de 1495
Elvira entrou no aposento com um jarro de limonada e colocou-o em cima de uma pequena mesa de embutidos, muito perto de onde se encontrava a rainha. Em volta dela, as infantas Isabel, Joana, Maria e Catarina afadigavam-se no bordado de uma enorme toalha de altar. A soberana, pelo contrário, costurava primorosamente um gibão de Fernando, seu marido. Desde que se casaram, em 1469, tinha por costume encarregar-se pessoalmente da roupa do monarca. Gostava de coser, mas fazia-o sobretudo para se sentir próxima da presença do homem que amava sinceramente, mas de cuja companhia desfrutava menos do que teria desejado. As contínuas viagens do rei a territórios aragoneses ou as suas empresas militares afastavam-no frequentemente do seu lado e a soberana só podia sentir saudades da sua companhia e lutar continuamente contra o aguilhão de uns ciúmes não completamente infundados.
Enquanto Joana Guzmán servia a limonada, a rainha entreteve-se a observar o harmonioso grupo que formava a sua prole: Joana, temperamental e inquieta, tão parecida com a sua sogra, Joana Enríquez, no físico como no carácter com sua mãe, Isabel de Avis; Maria, serena e reservada, já uma mulher aos treze anos feitos há pouco; a pequena Catarina, tão decidida, com os seus caracóis louros e rebeldes escapando da touca e atrapalhando os olhos... Teve de reprimir um suspiro ao deter-se em Isabel, a sua primogénita, sempre calada, sempre triste, sempre distante desde que lhe negara a permissão para ingressar como clarissa. O que era feito da menina que vinha ter com ela quando estava preocupada ou da sorridente noiva de Sevilha?
A voz aguda de Catarina interrompeu os seus pensamentos: está muito fria!, lamentou-se ao provar a limonada. A infanta Joana sorriu. O que esperavas? Na serra já nevou. Em vez de limonada deveríamos tomar uma chávena desse novo elixir que dizem que há nas Índias e a que chamam cho..., hesitou, cholocate! Cho-co-la-te, rectificou a rainha, sem erguer os olhos da costura. Dizem, continuou a infanta Joana, que aquece a alma e o corpo e que são tais os seus benefícios que quem o ingere seria capaz de vencer a hidra de sete cabeças de um só golpe. Não sabeis o que dizeis, Joana. O almirante Colombo deu-nos a provar e é muito desagradável ao paladar. É picante, amargo... pouco êxito lhe auguro apesar da muita estima que os nativos têm por ele!, assegurou a rainha.
Vazio o jarro, Elvira recolheu-o e apressou-se a sair do aposento. Bem sabia como acabaria a conversa. Joana e Catarina envolver-se-iam numa das suas discussões, Maria tentaria apaziguá-las e Isabel continuaria fechada no seu mutismo. Caminhou pelo corredor apressadamente mas, de repente, dona Leonor atravessou-se no seu caminho: como está? Como está quem?, respondeu com alguma impertinência a camareira. Não tinha tempo a perder. Ainda tinha de passar pelas cozinhas, acender os braseiros, preparar os aquecedores das camas, arranjar os quartos para a noite e, às seis, esperava-a no pátio traseiro Rodrigo, o palafreneiro do príncipe João, com quem andava a conversar o que, se ela o soubesse, não teria a aprovação da velha aia. Quem havia de ser, criatura! A infanta nossa senhora... Qual delas? Dona Isabel, evidentemente. Por acaso Joana, Maria ou Catarina precisam dos meus cuidados?» In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

Cortesia de EsferadosLivros/JDACT

As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «O aio insistiu: é verdade, senhor duque. Diz-se que o rei anda já ocupado a procurar a intercessão do Papa para estabelecer os limites de cada reino nas terras recém-descobertas»

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Lisboa. 4 de Setembro de 1493
«(…) Estava sozinho, dizia para consigo. E era nesses momentos que uma irreprimível angústia lhe oprimia o peito e teria dado a sua vida para que, na ala oposta do palácio, Isabel estivesse à sua espera. Porque essa e não outra era a razão pela qual Manuel, duque de Viseu, grão-mestre da Ordem de Cristo e o homem mais importante da corte depois do rei, se perdera em melancolias. Chorava o sobrinho definitivamente ausente, sim; mas também por ter perdido a única mulher que tinha amado. Ninguém suspeitara de nada. Reservado, nem os que lhe eram mais chegados conheciam os seus sentimentos. O respeito para com o príncipe morto e o seu próprio sentido de honra obrigavam-no a manter segredo. Quando conheceu a noiva do seu sobrinho Afonso ficou fascinado pela sua delicadeza, pela sua timidez e pela sua inegável beleza. A infanta castelhana partilhava com a mãe a sua tez de porcelana e os cabelos louros mas era mais alta do que a rainha Isabel e possuía um tal porte que quem não a conhecesse podia tomá-la por altiva. Como se isto não bastasse, quando com ela conviveu, Manuel teve de se render diante de uma conversação refinada e culta e uma firmeza de carácter pouco vulgar. Não obstante, nunca tentou qualquer aproximação. Isabel era a mulher de Afonso, gostava dele como sobrinho e respeitava-o como herdeiro. Mas mesmo sabendo que ela era fruto proibido, Manuel tinha sido feliz só por a saber por perto.
Naquela manhã, sentado diante da grande janela do seu quarto de estudo na ala oeste do palácio perto do castelo de S. Jorge, o duque deleitava-se na recordação contemplando o ir e vir dos veleiros no estuário do Tejo. Entretanto, os últimos raios de sol deslizavam pelos telhados vermelhos das casas que se apinhavam aos pés da fortaleza fundindo-se com eles. Esta nossa Lisboa não pode negar que um dia foi árabe, interrompeu-o o seu fiel Diogo Silva, reparai, senhor, no traçado das ruas que descem até ao rio, como parecem os corredores de um mercado árabe. Não estava entretido com ruas e praças, mas mais além, a olhar para o mar. Pensai, Diogo, que dele nos hão-de chegar grandes e abundantes dádivas...
Certamente, senhor. Vede apenas os êxitos de Castela. Diz-se que um genovês chamado Colombo descobriu novas e ubérrimas terras. Castela quer disputar a Portugal o domínio dos mares mas não o conseguirá. Manuel sublinhou as suas palavras com um enérgico gesto, embora a sua voz soasse monocórdica e indiferente. Era evidente que não lhe apetecia conversar. O aio insistiu: é verdade, senhor duque. Diz-se que o rei anda já ocupado a procurar a intercessão do Papa para estabelecer os limites de cada reino nas terras recém-descobertas. Compreendendo que era impossível furtar-se à conversa, Manuel decidiu continuá-la: melhor teria feito se tivesse prestado atenção ao tal Colombo quando este lhe propôs que financiasse a empresa. Também, quem é que iria pensar que esse aventureiro genovês tinha razão!, procurou justificar o monarca. E agora já é tarde para se arrepender. Melhor faria o nosso senhor João II se esquecesse o seu afã em dividir o mundo com a rainha de Castela, e organizasse o seu próprio reino que mau futuro espera uma monarquia sem sucessor...
Diz-se, Diogo Silva baixou a voz, que está decidido a nomear herdeiro o seu bastardo, Jorge Lencastre. Mas que a rainha, vossa irmã Leonor, opõe-se com todas as suas forças a tal decisão. Se o não fizer... Sabendo de antemão o que o velho preceptor ia dizer, Manuel adiantou-se-lhe: se, eu sei. Nesse caso, seria eu quem melhor e maior direito teria à sucessão pela minha condição de único descendente varão do rei Duarte I, meu avô, que a Glória tenha. Mas asseguro-vos, Diogo, que não tenho o mínimo interesse nisso. Além disso, embora seja verdade que sou neto do meu avô, também sou irmão de Diogo de Viseu e que tal condição não me parece o melhor aval para me aproximar do trono.
O aio passou a mão pela barba como querendo reflectir e em voz baixa lamentou: tendes razão. Fraco favor vos fez Diogo ao rebelar-se contra a Coroa! Mas, depois de receber o seu castigo, o rei fez-vos depositário de todos os seus bens e honras. É de crer, pois, que vos eximiu de qualquer culpa. Consta-me que assim é, Diogo, respondeu Manuel, mas pensai quanto ódio guardaria o coração do rei para matar o meu irmão com as suas próprias mãos, sem ter em consideração que era, além de nobre e mestre da Ordem de Cristo, o irmão da rainha... Não era ódio, senhor. Era justiça. O nosso rei João II quis apenas reforçar o poder da Coroa para fazer o país forte, evitando que se enfraquecesse em facções nobiliárias. A revolta de Diogo merecia um bom castigo e o rei só o aplicou, não só para implantar a justiça mas como aviso aos navegantes». In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

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As Mulheres de D. Manuel I. Maria Pilar del Hierro. «Como Isabel, o duque de Viseu também não conseguia refazer-se desde a morte do jovem Afonso. De pouco serviam os dois longos anos…»

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Santa Fé. Granada. Dezembro de 1491
«(…) Não consentirei, frei Hernando. Nunca concederei a minha autorização para tamanho disparate. A minha filha é uma infanta de Castela e Aragão e como tal deve submeter-se ao seu destino e pôr-se ao serviço da Coroa. A rainha Isabel de Castela passeava nervosamente pela sala, torcendo as mãos com energia, como que procurando nisso razões que avalizassem a sua posição. Pequena, de tez clara e cabelos loiros, o vigor dos seus gestos e a firmeza das suas palavras contradiziam a aparente fragilidade do seu físico. Estavam a discutir há mais de uma hora e em vão frei Hernando Talavera, o seu confessor, tinha esgrimido mil e um argumentos para convencer a soberana a que acedesse aos desejos da infanta Isabel e lhe permitisse que ingressasse num convento de clarissas. De pouco lhe servia aludir ao caminho empreendido por outras ilustres viúvas como Isabel de Portugal ou Elisenda de Montcada. A cada nome, a cada exemplo, a rainha replicava: vós o dissestes, viúvas de rei. Já tinham cumprido o seu dever e ainda assim, se não me engano, dona Isabel continuou a participar nos assuntos do reino e Elisenda de Montcada, embora se tenha retirado para o Mosteiro de Pedras Albas de Barcelona, nunca chegou a professar para o caso de o seu dever a reclamar. A minha filha é apenas uma infanta e, como tal, tem como obrigação atender às necessidades dos reinos dos seus pais.
Enérgica e loquaz, a rainha de Castela deixava sem palavras o sacerdote. Prudente, freí Hernando coibiu-se de dizer que ele próprio tinha dado já os primeiros passos para satisfazer os desejos de Isabel. No entanto, embora escondendo parte da verdade, não se deu por vencido e continuou a insistir: alteza, tendes de pensar que se a infanta tomou essa decisão não foi por capricho, ela é uma mulher sensata, e uma cristã fiel e devota. Vede, frei Hernando, eduquei, melhor dito educo, as minhas filhas no respeito à Coroa e à sua condição real. Assim, aprenderam música, artes e latim; sabem dançar, comportar-se e conversar; estão preparadas para serem mulheres de bem e, sobretudo, princesas exemplares que procurem a felicidade para os seus reinos. Como sabeis, Castela e Aragão têm vizinhos muito poderosos e, como tal, os seus soberanos precisam, pigarreou, precisamos de alianças vantajosas. Conheceis por acaso união mais forte do que os laços de sangue? Mas, senhora, teríeis Deus como aliado se a infanta... Com um gesto imperioso, a rainha mandou calar o frade e continuou: tenho quatro filhas, quatro pilares onde apoiar o meu trono e o do seu pai para que um dia o príncipe João herde a nação mais poderosa da terra. Mas isto só se alcançará se Isabel, Joana, Maria e Catarina contraírem matrimónios vantajosos que nos assegurem a paz com os reinos vizinhos e um bons aliados no caso de peremptória necessidade. Assim, pois, nunca consentirei que as minhas filhas se enterrem vivas entre as quatro paredes de um convento, concluiu com vigor.
Mas não podeis opor-vos à vontade de Deus... Não o faço!, exclamou a rainha levantando a voz. O meu marido e eu estamos prestes a incorporar o reino de Granada na Coroa de Castela com o que o território peninsular será uno e cristão. Por seu lado, Aragão trava o turco quando estende o seu estandarte até ao último pedaço do Mediterrâneo. E tudo isto se faz para maior honra de Deus e com o objectivo de manter na linha o infiel. Quatro filhas Deus me deu, repito, e ao seu serviço as porei se conseguir que casem com quatro príncipes cristãos. Não acreditais que se Isabel contrair novo matrimónio com um príncipe inglês, borgonhês ou francês seria mais útil para a fé de Roma do que encerrada num convento? Senhora, insistiu frei Hernando, inacessível ao desalento, a infanta assegurou-me que nunca contrairá novo matrimónio... Isso vê-lo-emos, contestou decidida a rainha. Deixai-me falar com ela e já lhe direi como deve comportar-se.

Lisboa. 4 de Setembro de 1493
Como Isabel, o duque de Viseu também não conseguia refazer-se desde a morte do jovem Afonso. De pouco serviam os dois longos anos que tinham passado; de nada os muitos desgostos por que Manuel tinha passado nos seus escassos vinte e quatro anos de vida e que podiam ter-lhe curtido o ânimo. O mais novo dos filhos do infante Fernando e portanto, neto do que fora rei de Portugal, Duarte I, não tinha tido uma vida fácil. Ainda muito novo perdeu o pai, tinha enterrado os seus dois irmãos varões e o seu sobrinho Afonso tinha expirado nos seus braços. Como se isso não bastasse, a inimizade entre os Viseu e o monarca tinha turvado desde há muito tempo a sua relação com a rainha Leonor, sua irmã, a mesma que agora andava com a alma e a razão perdidas pela dor de ver morrer o seu único filho». In As Mulheres de D. Manuel I, Maria Pilar Queralt del Hierro, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-247-1.

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O Arquipélago da Insónia. António Lobo Antunes. «Não me deixes não à minha mãe já, a mim que o espreitava sem coragem de me aproximar e de repente ele Senhor como se o meu avô…»

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«(…) Vê-se logo a quem sais o meu avô que continua nesta casa a quem tudo falta apesar de igual, lá estão o relógio, as fotografias e ele desgostoso da gente ocupando o sofá em que nenhum de nós se atreve a sentar Que triste este sítio a palma a percorrer a testa e a desistir no bolso, as costas a pingarem até que de súbito uma ordem zangada Não me aborreçam idiotas e a suspeita de lágrimas, já no corredor assoava-se e tenho a certeza que Mãe referindo-se a um dos retratos que eu ignorava qual fosse, que bandós, que vestido enfunado, um mulo por companheiro e é tudo, só não compreendia a ausência de força e a suspeita de lágrimas, lembro-me de um contador onde guardava facturas, no meio das facturas cartas nem sequer atadas com uma fita numa caligrafia infantil, em papel de colégio, a pedir brinquedos, lápis de cor, visitas, não Chega cá não uma mulher, brinquedos, lápis de cor, visitas e após uma despedida cerimoniosa o nome completo no fim comigo a pensar Se lhas mostrasse fingia não ver o mulo a mancar debaixo da janela, ele sozinho e depois a minha avó (uma chávena num pires) e depois o meu pai que galopa na vila a interrogar postigos ou persegue na cozinha as empregadas que se recusam escondendo-se na tulha, o meu pai com quem o feitor conversava de igual para igual, de boné na cabeça porque era o meu avô quem mandava, não ele, o feitor ao qual a minha mãe obedecia Chega cá não em casa claro, na arrecadação das sementes enquanto o meu pai na vila como se apenas na vila conseguisse existir, reinando sobre a poeira dos mortos (há momentos em que me pergunto se não estamos todos mortos salvo o meu irmão a contemplar o relógio de que o esmalte dos números se descolou com o tempo) a insistir Não me deixes não à minha mãe já, a mim que o espreitava sem coragem de me aproximar e de repente ele Senhor como se o meu avô o pudesse ajudar ou alguma vez tivesse ajudado e no entanto a única pessoa capaz de salvá-lo nem que fosse pelo desdém e a troça, o relógio sobressaltou-se um instante e continuou a mover os ponteiros numa ausência de números de modo que o tempo cessara também, meia noite, setenta e seis da manhã, quarenta e oito da tarde, o que importam as horas, em qualquer uma delas as folhas das oliveiras paradas e nenhum arrepio no milho, uma chávena num pires a tremer e eu a tremer com ela, pode ser que o meu pai desejando que eu trouxesse a caçadeira ou o sacho e o ajudasse a acabar, escutei o cavalo que tentava libertar-se da argola e um sapo do tamanho do homem que eu nunca seria a ferver na lagoa (o meu avô?) a bomba do poço em que uma dificuldade de ferrugem corrigia a direcção do silêncio, não o silêncio da ausência de ruído, uma mudez feita das vibrações que se anulavam umas às outras de muita gente a falar e apenas reparamos nas bocas que não têm e nos vapores da terra de que nasciam insectos, desci as escadas para me afastar do meu pai (o que sinto por si?) evitando a sala onde a chávena a explicar o quê, a comunicar o quê, a prevenir o quê, um velho surgiu no alpendre Cuidado talvez não um velho, uma criatura que inventei (devo ter inventado) visto que não possuía feições e se dissolveu no muro, o meu irmão na cozinha e o meu avô a inquietar-se com ele, dava-lhe a comida, ajudava-o a vestir-se, obrigava o feitor a tirar o boné O meu neto agitando-se de não o ver receoso da lagoa, do poço Onde pára o rapaz? e o meu irmão a sacudi-lo com o braço porque ninguém existia, somos personagens de moldura, sorrisos confundidos com os estalos do soalho, não existimos e portanto o que digo não existiu, que caçadeira, que sacho, que baús, que dedos escrevem isto, ficam os tucanos da lagoa a caminho da fronteira e o meu avô a segurar o pescoço do meu irmão não como segurava o pulso da minha mãe Chega cá em precauções comovidas Há-de tomar conta disto tudo ou seja ausências e eu a perguntar-me qual o motivo de não me escolher para tomar conta disto tudo dando ordens da minha moldura às restantes molduras e elas para mim Senhor de boné contra o peito, o meu avô a verificar o milho, o trigo e a cerca convencido que milho e trigo e cerca e apenas uma extensão de ervas, moscas numa azinheira e um texugo a safar-se da gente, se porventura me apontassem Esse infeliz sai ao pai quer dizer um dia destes pega no cavalo que não lhe obedece que nem para os animais tem nervo e some-se na vila, procurei o bicho na argola e dentro de mim o Cristo de feira dobrado nos seus cravos Não me deixes o relógio que se imobilizava, galinhas poupadas pelos cães a bicarem pedritas e a serra à deriva na distância, o meu irmão debruçado para os limos do poço O meu único neto curioso das feições que o fitavam curiosas também e o único neto fazendo-se, desfazendo-se e refazendo-se na água de bochechas ora largas ora estreitas, orelhas que mudavam de forma, o cabelo que não cessava de flutuar diferente do cabelo lá em cima como se o meu irmão no poço apenas ou eu o houvesse empurrado Sou mais forte que tu na esperança que o meu avô me escutasse e não escutava, o meu irmão que devia ter empurrado (que empurrei?) que devia ter empurrado até que imagem nenhuma, lodo tranquilo, calhaus, o poço sem serventia tirando quem se interpunha entre o meu avô e eu (afoguei quem se interpunha entre o meu avô e eu?) o cadáver de um borrego (não o dele, não os deles)». In António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia, Publicações dom Quixote, LeYa, 2008, ISBN 978-972-203-694-8.
                    
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sábado, 1 de dezembro de 2018

O Arquipélago da Insónia. António Lobo Antunes. «O que é isso? e o cavalo amarrado à argola a afligir-se com o cheiro dos ossos, o meu avô de joelhos no pátio, o meu avô deitado Idiota os tucanos em debandada…»

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«(…) Voltei como se ambos fossem, não nós, no dia do enterro espreitou o cemitério da grade e sumiu-se de estribos a tilintarem nos ferros das correias, o meu pai para a minha mãe defunta. Deita-te aqui comigo, disso tenho a certeza. Deita-te aqui comigo não no tom em que Leva as tuas coisas para o andar de cima amanhã uma voz de desamparo se calhar da febre, se calhar da fraqueza e mais forte que a febre e a fraqueza Deita-te aqui comigo e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe ou as rédeas que não havia continuando a partir do cemitério a caminho da vila onde os espectros moravam a atirar-lhes de chibata no ar Não se escondam de mim sem que lhe respondessem porque não há quem se importe consigo, não peça Não me deixes à camisola e às saias de uma rapariga que lhe obedecia não por afeição, por medo e devia detestá-lo por medo igualmente, inerte à sua beira a ouvir o baloiço das árvores na noite e da terra que subia e baixava consoante as nuvens, o trote do cavalo rodeava a casa detendo-se no lugar em que golpeavam os porcos dando ideia que o sangue do animal ou da minha mãe quando nasci continuava a pingar no alguidar de forma que no momento em que o meu pai Não me deixes a procurei na sua cara, você que sofria quando o meu avô Chega cá a pegar na caçadeira, você à entrada do quarto, o meu avô a fixar os canos enjoado de si Idiota e você a baixar a caçadeira e a ir-se embora vencido, você a disparar sobre os tucanos e cada tucano um botão de cobre a fechar-lhe o pescoço, cada tucano o dono do trigo e do milho e não se dava ao trabalho de mandar os cães buscá-los, você, mesmo se a minha mãe com o meu avô Não me deixes apesar da boca fechada, você idiota pai e nisto compreendi que não foram os comunistas que deitaram fogo ao celeiro, tombaram o depósito da água e mataram o meu avô, foi você e não a espingarda, o sacho, os camponeses e a tropa e as empregadas da cozinha a fitarem-no quietos no instante em que Senhor num tom que crescia sem que desse conta do tom a crescer, levantando o sacho Senhor você que nunca Pai você sempre Senhor por submissão, por hábito, o meu avô a troçá-lo Já não era sem tempo sem acreditar nele e a calar-se quando o sacho lhe desfez um ombro, o segundo ombro, uma perna, a insistir Senhor ainda por submissão e por hábito, o meu avô O que é isso? e o cavalo amarrado à argola a afligir-se com o cheiro dos ossos, o meu avô de joelhos no pátio, o meu avô deitado Idiota os tucanos em debandada, um dos camponeses Jesus a erva a inclinar-se num murmúrio negro e o meu avô a apoucá-lo de cara desfeita Idiota com um botão de cobre a fechar-lhe o pescoço, o meu pai sem largar o sacho num último Senhor não já no tom que crescia, no tom do costume ou no estremecimento de uma chávena num pires que conseguisse Senhor e se calasse assustada, os dedos do meu avô fecharam-se e abriram-se e o meu pai beijou-os conforme os beijava antes de sentar-se à mesa, lembro-me de me fitar e sou capaz de jurar que não me via, via o Senhor teimava Senhor espantado com o silêncio a contemplar o sacho e a largá-lo, o meu avô sem majestade alguma com um dos olhos abertos e o outro não Idiota não Chega cá resignado, não montava um cavalo como o meu pai, montava um mulo quase sem pêlo que coxeava de uma das patas traseiras, tão idoso quanto ele e capaz de encontrar sozinho numa certeza lenta as veredas do trigo, quem trabalhava para nós a retirar o chapéu Patrão sem que o meu avô respondesse com um aceno ao menos, estacando junto à cerca a chamar o feitor de boné no peito a escutá-lo enquanto o mulo ia girando as orelhas alarmado com os sapos da lagoa e as cobras que se torciam no lodo assobiando guizinhos, o meu pai pontapeou-o do estábulo Desaparece-me da frente o mulo afastou-se na direcção dos juncos sabendo quem mandava agora e não o tornámos a ver, há instantes em que se me afigura na eira, abro a janela e enganei-me, se calhar os perdigueiros derrubaram-no e meia dúzia de cartilagens nas silvas, o meu pai entre os baús Não me deixes para uma camisola e umas saias de que o meu avô troçaria Trapos sem boca e a troçar das saias conforme troçava do meu pai Nunca foste um homem a sério de mim». In António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia, Publicações dom Quixote, LeYa, 2008, ISBN 978-972-203-694-8.

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As Naus. António Lobo Antunes. «A tonalidade das ondas contra a pedra mudara, agora transparente e doce como o som dos teus olhos. O reformado ganhou a centésima quadragésima nona…»

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«(…) O homem de nome Luís habitava com o pai no Cazenga quando uma patrulha disparou sobre o velho, de forma que assim que os amigos do dominó lho trouxeram embrulhado em rasgões de lençol, só com uma madeixa de cabelo ruço de fora, o deixaram na toalha do jantar, em cima dos talheres e dos pratos, e se foram a discutir um dobre de seis, desceu o beco até à agência funerária que uma granada rebentara, entrou pelos vidros estilhaçados da montra e escolheu uma urna no meio das muitas que sobejavam na loja porque os corpos se decompunham nas praças e nas ruas sem que ninguém se afligisse com eles, salvo os cachorros vagabundos e os ladrões de farrapos. Entornou o finado lá dentro, esquecido de o desembaraçar do lençol, de o beijar, de lhe vestir o fato do casamento ou de lhe aparar as unhas, atarraxou os parafusos do féretro e na manhã imediata instalou-o no carrinho de mão juntamente com uma muda de roupa e uma marmita de batatas e dirigiu-se à doca no intuito de embarcar para o reyno. Logo que o vomitado atingiu os dois palmos amarrou o caixão à perna do beliche, com a guita dos perus do Natal, para poder dormir, embora sentisse o pai navegar sem substância no interior do seu sono, chamando-o pelas frestas de nogueira na voz alvoroçada dos mortos. Ao atracarem em Lixboa o maneta e o reformado ajudaram-no a depositar a urna, a que faltavam pegas e uma porção de crepes, no rebordo do cais, e o reformado sacou as cartas da algibeira para uma última sueca sob os queixumes de noiva dos guindastes, os borborigmos das corvetas e os albatrozes que conspiravam no alto, intrigados pelo odor de vinagre do velho. Ao décimo terceiro trunfo de copas o das cautelas levantou-se, Buenas noches, senhores, que tenho de ir a Espanha acabar o meu livro, só consigo rever provas com o sol cigano de Madrid à cabeceira, prometo enviar pelo correio um exemplar autografado a cada um, e eles notaram então, surpreendidos. que as pessoas e a bagagem haviam desaparecido do porto: sobrava o escuro, um desertor supliciado numa espécie de palco para edificação das gentes e alimento dos corvos, e um candeeiro aceso num edifício de socorros a afogados ou de escritório marítimo, desses que o ministério das pescas, o Infante navegador e a Polícia Judiciária plantavam litoral abaixo para vigiar ao mesmo tempo o contrabando de haxixe e as manobras dos bucaneiros flamengos.
A tonalidade das ondas contra a pedra mudara, agora transparente e doce como o som dos teus olhos. O reformado ganhou a centésima quadragésima nona implacável partida quando já nem as pintas das cartas se diferençavam e se adivinhava o valor das quinas por um decepcionado eco na alma, após o que recolheu o baralho, se despediu e foi embora, lamentando, para não se comover, que com parceiros assim, que nem o número de pontos decoram, qual é o raio de gozo de vencer uma bisca. O homem de nome Luís permaneceu séculos observando o jogador que se afastava no passinho prudente dos subtis conhecedores do acaso até sumir-se, pardo no céu pardo, além do renque de arbustos paralelos a uma linha de comboio e se perder na desordem iluminada da cidade. Então sentou-se na urna com a água aos seus pés sem lograr distingui-la, salvo o ofegar do rio que se distanciava e avançava, e onde desembocavam os esgotos de Lixboa e os sonetos pastoris do poeta Francisco Rodrigues Lobo, suicida do Tejo pescado numa rede como um sável de bigodes. As gaivotas e os milhafres acolheram-se às cornijas quase concluídas dos Jerónimos para onde o exército transladara a chamazinha gloriosamente modesta do soldado desconhecido, camponês atónito jogado para a lama francesa e os gases alemães da primeira guerra mundial, dando lugar a morcegos do tamanho de perdizes que dormiam durante o dia na paz de arcos do claustro com um lagozito ao centro destinado à sereia criança que Bartolomeu Dias prometera a el-rei aquando da sua próxima viagem, logo que de madrugada um canto de búzio se erguesse dos recifes a deslumbrar os marinheiros. Locomotivas em manobras separavam o homem de nome Luís dos edifícios da margem, obliquamente assentes no pavimento das calçadas como as naus do cerco da cidade no musgo do Tejo. Um cabo da guarda-fiscal, de escopeta, vestido com as risquinhas dos suíços que protegem o papa, Passou por ele uma ocasião ou duas a fumar, e o morse da ponta do cigarro respondia em código aos sinais de lanterna dos contrabandistas, conduzindo às armadilhas da tropa falsas traineiras marroquinas atestadas de licor italiano e de papoilas de ópio». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

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As Naus. António Lobo Antunes. «… gengivas das ondas, destruído por correntes contraditórias e gumes de recife, barbudo de mexilhões e ostras oceânicas, com um resto de colchão e uma maçaneta dentro»

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«(…) Um ruivo grosso e tímido, gaguejando empenhos, acotovelou-me para se aproximar da secretária e estávamos sozinhos e postos de banda numa cidade que conhecia sem conhecer e cheirava à carne doce dos javalis que os monteiros açulam no Verão perseguindo-os pelas praças e travessas de Linda-a-Velha ou de Bucelas, enquanto homens de negócios holandeses e capitães dos mares de Malaca desapareciam nos táxis do aeroporto na direcção do centro da cidade e do fedor de vazante dos seus becos, e nós os três cá fora, no passeio, à torreira, à espera das mesinhas vindas de Angola como se as caravelas atravessassem as avenidas para nos depositarem aos pés um caixote bolorento de limos de baixios, amolecido pelas gengivas das ondas, destruído por correntes contraditórias e gumes de recife, barbudo de mexilhões e ostras oceânicas, com um resto de colchão e uma maçaneta dentro.

Era uma vez um homem de nome Luís a quem faltava a vista esquerda, que permaneceu no Cais de Alcântara três ou quatro semanas pelo menos, sentado em cima do caixão do pai, à espera que o resto da bagagem aportasse no navio seguinte. Dera aos estivadores, a um sargento português bêbedo e aos empregados da alfândega, a escritura da casa e o dinheiro que trazia, vira-os içar o frigorífico, o fogão e o Chevrolet antigo, de motor delirante, para uma nau que aparelhava já, mas recusou separar-se da urna apesar das ordens de um major gorducho (Você nem sonhe que leva essa gaita consigo), um féretro de pegas lavradas e crucifixo no tampo, arrastado tombadilho fora perante o pasmo do comandante que se esqueceu do nónio e levantou a cabeça, tonta de cálculos, para olhá-lo, no momento em que o homem de nome Luís desaparecia no porão e encaixava o morto sob o beliche, como os restantes passageiros faziam aos cestos e às malas. Depois estendeu-se no cobertor, poisou a nuca nas palmas e entreteve-se a seguir o crochet meticuloso das aranhas e o cio dos ratos nas vigas do tecto cobertas de caranguejos e percebes, sonhando com os braços nocturnos das negras carecidas. Ao segundo almoço conheceu um reformado amante de biscas e suecas e um maneta espanhol que vendia cautelas em Moçambique chamado Dom Miguel de Cervantes Saavedra, antigo soldado sempre a escrever em folhas soltas de agenda e papéis desprezados um romance intitulado, não se entendia porquê, de Quixote, quando toda a gente sabe que Quixote é apelido de cavalo de obstáculos, e ao fim da tarde puxavam o caixão e batiam trunfos lambidos no tampo de verniz, evitando tocar no crucifixo porque dá azar às vazas e altera as manilhas, e erguendo os sapatos de fivela sempre que os balanços do barco derramavam na sua direcção o vomitado dos vizinhos, que adquirira um palmo de altura e os obrigava, de meias ensopadas, a agarrarem-se às pegas a fim de que o cadáver não lhes escapasse, à deriva num caldo em que flutuavam lavagantes, transportando consigo os valetes e os ases da partida decisiva». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT

As Naus. António Lobo Antunes. «Nas minhas costas um plebeu de muletas protestava contra as demoras da burocracia, Em saindo daqui apresento queixa aos jornais, e eu cessei de ouvi-lo…»

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«(…) Lembro-me dos invernos com uma sementeira de alguidares e panelas no soalho a fim de receberem a chuva que descia em ampulheta das fissuras do tecto, e, mais recuada no tempo, da madrinha do meu pai a coser peúgas e ceroilas sob a cerejeira estéril das traseiras, que erguia uma das patas do tanque de lavar a roupa com a força de bíceps das raízes. E esta memória remota trouxe-lhe de súbito ao nariz o aroma de bosta de vaca dos derradeiros meses, desde que a telefonia anunciou a independência de Angola decretada por Sua Majestade, no rescaldo de um motim, durante as cortes de Lixboa, o odor do suor, da diarreia, do medo, quando colávamos em pânico os armários aos caixilhos porque daqui a nada uma coronha desventra o aparador, daqui a nada uma sapatilha esmaga o tapete a rir-se, daqui a nada o MPLA principia a disparar ao acaso e as nucas estoiram como figos numa pasta de carne branca e de grainhas vermelhas, o que julgaria o Infante, se vivo fora, lá na escola de Sagres, desdobrando mapas e consultando estrelas frente às janelas do mar, enquanto os seus capitães perseguiam dinamarquesas nas praias de Albufeira e Gil Eanes se apresentava em Lagos, pingando como um noivo exausto, com um ramo de florinhas murchas na mão. Disse Nem por sombras e pensou Claro que não, visto que em dezoito anos de África não recebi uma carta, um postal, um presunto, um retrato sequer. Quase que aposto que morreram todos há séculos, sepultados sob o lajedo das igrejas com o nome em latim apagado por solas de noviças, acomodados no tecido cor de pérola dos caixões, vestidos de casacos de xadrez, de xailes lilases, de blusas claras, de mãos postas e malares agudos como as estátuas jacentes nas criptas das capelas.
A minha família de queixo amarrado e moedas de prata nas órbitas a fitar-me com reprovação, Este é o que foi para Loanda morar no meio dos pretos em lugar de explorar uma tabacaria na Venezuela ou um escritório de transportes na Alemanha, este é o que montou um comércio de talhante nos musseques, vendia costeletas aos cafres, fez um filho a uma mulata, habitava um prefabricado da Cuca, nem um coche, nem um batel possuía, aos domingos espojava-se na sala, de calções, a ouvir relatos de futebol e a comer mer… de sanzala, o escrivão da puridade aplicou-se em apontamentos góticos adiante do meu nome, sacudindo as orelhas entendidas como se partilhasse o desprezo ou o desgosto dos meus tios, e o diácono que o acolitava, com uma coroa de cabelos e bochechas de Santo António de azulejo insistiu Nenhuns parentes, nenhum cunhado, nenhuma relação distante?, à medida que preenchia formulários, multiplicava números numa calculadora de bolso, me estendia um papel para assinar, Aqui, entornava uma gota de lacre no termo da página e a oferecia ao outro para que apusesse o anel de armas na nódoa de sangue fumegante. A mulata, de sandálias de plástico e lenço amarrado na testa, que antes de morar comigo servia à mesa num restaurante da Ilha,abismava-se num cartaz de férias orientais que exibia um casal de grinaldas ao pescoço refastelando-se de caneca de cerveja num poente marinho. Ninguém, disse eu, só a mobília do quarto que há-de chegar no próximo galeão se a não desviaram no porto com essa história de roubalheira, democracia e socialismo, e orgulhei-me das mesinhas de cabeceira com maçanetas de loiça, da consola de três portas para garrafas, cristais e copos de água e de vinho, para além da cómoda da roupa de sumptuoso tampo de mármore no qual se gravavam as veias que se ramificam de leve nas pálpebras das crianças, ao mesmo tempo que o escrivão me entregava, com a pompa de um diploma de menção honrosa, uma notificação ilegível, Tem oito dias para comparecer nesta repartição, agora veja lá. Nas minhas costas um plebeu de muletas protestava contra as demoras da burocracia, Em saindo daqui apresento queixa aos jornais, e eu cessei de ouvi-lo porque me lembrei de novo de Coruche e da madrinha do meu pai a coxear para casa, com a cesta das molas da roupa na mão, desfocada na latada das videiras. Quanto ao comer e ao dormir, explicou o escrivão alheio ao das bengalas, sem olhar sequer ou se preocupar nunca com a mulata ou o miúdo que se me enrolava nas pernas, de boca aberta numa espiral de angústia, arranjámos-lhe lugar na Residencial Apóstolo das Índias, Largo de Santa Bárbara, meta-se num autocarro e pergunte pelo senhor Francisco Xavier, o que se segue». In António Lobo Antunes, As Naus, 1988, Publicações dom Quixote, LeYa, 2016, ISBN 978-972-205-995-4.

Cortesia de PdQuixote/LeYa/JDACT