sábado, 8 de janeiro de 2022

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Quando a reverenda madre estava insatisfeita, unia os dedos mínimos três vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra as palmas. Quando Lúcia se mostrava lenta na execução de seu trabalho, a reverenda madre comprimia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ávila

«(…) Recostou-se no catre pequeno e desconfortável, desesperada por um cigarro. Relutante, saiu da cama. O pesado hábito que usava até para dormir roçava contra sua pele sensível como lixa. Pensou em todas as lindas roupas de estilistas penduradas no seu apartamento em Roma e no Chalé em Gstaad. Irmã Lúcia podia ouvir o movimento suave e farfalhante das freiras, reunindo-se no corredor. Negligente, ela arrumou a cama e também saiu para o extenso corredor, onde freiras entravam em fila, olhos baixos. Lentamente, todas começavam a encaminhar-se para a capela. Parecem um bando de pinguins idiotas, pensou irmã Lúcia. Não conseguia entender porque aquelas mulheres haviam deliberadamente renunciado às suas vidas, desistindo de sexo, belas roupas e boa comida. Sem estas coisas, que motivo existe para continuar a viver? E as malditas regras! Quando irmã Lúcia entrara no convento, a reverenda madre avisara-lhe: Deve andar com a cabeça baixa. Mantenha as mãos cruzadas por dentro do hábito. Dê passos curtos. Ande devagar. Nunca deve fazer contacto visual com qualquer das outras irmãs ou sequer olhar para elas. Não pode falar. Seus ouvidos são para escutar as palavras de Deus. Está bem, reverenda madre. Durante o mês seguinte Lúcia recebera as instruções.

As que vieram para cá não tinham a intenção de se juntarem às outras, mas sim habitar a sós com Deus. A solidão do espírito é essencial para uma união com Deus. É salvaguardada pelas regras do silêncio. Está bem, reverenda madre. Deve sempre obedecer ao silêncio dos olhos. Fitar as outras nos olhos a distrairia com imagens inúteis. Está bem, reverenda madre. A primeira lição que aprenderá aqui será rectificar o passado, expulsar os velhos hábitos e inclinações seculares, apagar todas as imagens do passado. Fará penitência de purificação e mortificação para se despojar da vontade e amor próprios. Não basta se arrepender das ofensas passadas. Quando compensar não apenas seus pecados, mas também por todos os pecados que já foram cometidos. Está bem, reverenda madre. Deve lutar contra a sensualidade, o que João da Cruz chamou de a noite dos sentidos. Está bem, reverenda madre. Cada freira vive em silêncio e solidão, como se já estivesse no céu. Nesse silêncio puro e precioso, pelo qual tanto anseia, ela é capaz de escutar o silêncio infinito e possuir Deus. Ao final do primeiro mês, Lúcia recebera os votos iniciais.

Tivera que cortar os cabelos no dia da cerimónia. Fora uma experiência traumática. A reverenda madre cuidava disso pessoalmente. Convocara Lúcia à sua sala e fizera um sinal para que ela se sentasse. Prostrara-se às suas costas e, antes que Lúcia percebesse o que estava acontecendo, ouvira o barulho da tesoura e sentira alguma coisa puxando-lhe os cabelos. Começara a protestar, mas compreendera subitamente que aquilo só podia melhorar o seu disfarce. Poderei deixá-lo crescer de novo mais tarde, pensara. Enquanto isso, ficarei parecendo uma galinha depenada. Ao voltar para o cubículo lúgubre que lhe fora designado Lúcia pensara: Este lugar é um ninho de serpentes. O chão consistia de tábuas soltas. A enxerga e a cadeira de encosto recto ocupava a maior parte do espaço. Sentira-se ansiosa por ler um jornal. Não há a menor possibilidade, reflectia. Naquele lugar nunca tomava conhecimento dos jornais, muito menos escutavam rádio ou viam televisão. Não havia qualquer ligação com o mundo exterior. Contudo, o que mais afectava os nervos de Lúcia era o silêncio desolador. A única comunicação era feita através de sinais com as mãos, e aprendê-los a levara à loucura. Quando precisava de uma vassoura, devia deslocar a mão direita estendida da direita para a esquerda, como se estivesse varrendo.

Quando a reverenda madre estava insatisfeita, unia os dedos mínimos três vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra as palmas. Quando Lúcia se mostrava lenta na execução de seu trabalho, a reverenda madre comprimia a palma da mão direita contra o ombro esquerdo. Para censurar Lúcia, ela coçava a própria face, perto do ouvido direito, com todos os dedos da mão direita, num movimento para baixo. Pelo amor de Deus, pensava Lúcia, parece que ela está coçando uma mordida de pulga. Elas chegaram à capela. As freiras rezaram silenciosamente; contudo, os pensamentos de irmã Lúcia se concentravam em coisas mais importantes do que Deus. Mais um ou dois meses, quando a polícia parar de me procurar, sairei deste hospício. Depois das orações matutinas, irmã Lúcia marchou com as outras para o refeitório, violando furtivamente os regulamentos, como fazia todos os dias, ao estudar os rostos das companheiras. A sua única diversão. Ela achava incrível pensar que nenhumas das irmãs sabia como as outras pareciam. Sentia-se fascinada pelos rostos das freiras. Algumas eram jovens, algumas velhas, outras bonitas, e feias. Não podia compreender porque todas pareciam tão felizes. Havia três rostos que Lúcia achava particularmente interessantes. Um era o da irmã Teresa, que parecia ter cerca de sessenta anos. Estava longe de ser bonita, mas possuía uma espiritualidade que lhe proporcionava um encanto quase sublime. Parecia estar sempre sorrindo interiormente, como se estivesse por dentro de algum segredo maravilhoso». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

 JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Havia uma serenidade indescritível dentro dos muros e nos corações das mulheres que ali viviam. Se o convento era uma prisão, tratava-se de uma prisão no Éden de Deus…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ávila

«(…) As velas nos castiçais antigos projectavam sombras evocativas nos tectos e paredes. Em quatrocentos anos, nada mudara dentro dos muros do convento, excepto os rostos. As irmãs não tinham pertences pessoais, pois desejavam ser pobres, emulando a pobreza de Cristo. A própria igreja era desprovida de ornamentos, salvo uma cruz de ouro maciço, de valor inestimável, antigo presente de uma rica postulante. Por estar tão em desacordo com a austeridade da ordem, era mantida num armário no refeitório. Uma cruz de madeira simples pendia no altar da igreja. As mulheres que partilhavam suas vidas com o Senhor viviam juntas, trabalhavam juntas, comiam juntas e rezavam juntas, mas nunca se tocavam e se falavam. As únicas excepções permitidas eram quando ouviam a missa ou quando a reverenda superiora Betina lhes falava na privacidade da sua sala. Mesmo então, uma antiga linguagem de sinais era usada ao máximo possível. A reverenda madre era uma religiosa com cerca de setenta anos, expressão inteligente, jovial e dinâmica, glorificada na paz e alegria de vida no convento, uma vida consagrada a Deus. Protectora irredutível das suas freiras, sentia muita angústia quando era necessário impor a disciplina, mais do que aquela que estava sendo punida. As freiras circulavam pelos claustros e corredores de olhos baixos, mãos cruzadas dentro das mangas, na altura do peito, passando e repassando pelas suas irmãs sem qualquer palavra ou sinal de reconhecimento. A única voz no convento era a dos sinos, os sinos que Vitor Hugo chamou de A ópera dos Campanários.

As irmãs vinham de antecedentes díspares e de muitos países diferentes. Pertenciam a famílias de aristocratas, camponeses, soldados... Chegaram ao convento como ricas e pobres, instruídas e ignorantes, miseráveis e exaltadas, mas ali eram todas iguais aos olhos de Deus, unidas no seu desejo de casamento eterno com Jesus. As condições de vida no convento eram espartanas. No Inverno o frio era cortante, e uma luz pálida filtrava-se pelas janelas gradeadas. As freiras dormiam plenamente vestidas em enxergas de palha, cobertas por mantas ásperas de lã, cada uma na sua pequena cela, mobilada apenas com uma cadeira de pau, de encosto recto. Não havia lavatório, um pequeno jarro de barro e uma bacia ficava no chão, no canto da cela. Nenhuma freira tinha permissão para entrar na cela da outra, à excepção da reverenda madre Betina. Não havia nenhum tipo de recreação, apenas trabalho e orações. Havia áreas de trabalho para tricotar, encadernar livros, fiar e fazer pão. Havia oito horas de oração diárias: matinas, laudes, primas, terças, sextas, nonas, vésperas e completas. Havia ainda outras devoções: bênçãos, hinos e litanias. Matinas era a oração que se fazia quando metade do mundo estava dormindo e a outra metade absorvida no pecado.

Laudes, o ofício do amanhecer, seguia-se às matinas, o nascer do sol aclamando como a figura de Cristo, triunfante e glorificado. Primas era a oração matutina da igreja, pedindo as bênçãos para as obras do dia. Terças, acontecia às nove horas da manhã, consagrada por Santo Agostinho ao Espírito Santo. Sextas, eram às onze e meia, evocada para extinguir o calor das paixões humanas. Nonas, era recitada em silêncio às três horas da tarde, a hora da morte de Cristo. Vésperas, era o serviço vespertino da igreja, como laudes fora a oração do amanhecer. Completas, eram às últimas horas canónicas dos ofícios divinos. Uma forma de orações nocturnas, um preparativo para a morte e também para o sono, encerrando o dia com uma declaração de submissão amorosa: Manus tuas, domine, comendo spiritum meum. Redemisti nos, domine, deus, veritatis.

Em algumas das outras ordens a flagelação fora abolida, mas sobrevivia nos conventos e mosteiros Cistercienses de clausura. Pelo menos uma vez por semana, e às vezes todos os dias, as freiras puniam seus corpos com a Disciplina, um açoite de trinta centímetros de comprimento, de corda fina, encerado, com seis pontas nodosas que provocavam uma dor angustiante; era usado para espancar as costas, pernas e nádegas. Bernard de Clairvaux, o ascético abade dos Cistercienses, advertira: O corpo de Cristo está aniquilado..., nossos corpos devem se conformar à semelhança do corpo ferido de Nosso Senhor. Era uma vida mais austera do que em qualquer prisão, mas as irmãs viviam em êxtase, como jamais ocorrera no mundo exterior. Haviam renunciado ao amor físico, bens pessoais e liberdade de opção, mas ao abrirem mão dessas coisas também renunciaram à ganância e competição, ódio e inveja, a todas as pressões e tentações que o mundo exterior impunha. No interior do convento reinava uma paz absoluta e o inefável sentimento de alegria pela união com Deus. Havia uma serenidade indescritível dentro dos muros e nos corações das mulheres que ali viviam. Se o convento era uma prisão, tratava-se de uma prisão no Éden de Deus, com o conhecimento de uma eternidade feliz para as que escolheram livremente ingressar e permanecer ali.

A irmã Lúcia foi despertada pelo repicar do sino do convento. Abriu os olhos, surpresa e desorientada por um momento. Na pequena cela em que dormia ainda estava escuro, uma escuridão desoladora. O som do sino avisava-lhe que eram três horas da madrugada, quando o ofício das vigílias começava. Droga! Esta rotina vai matar-me, pensou a irmã Lúcia». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

As Areias do Tempo. Sidney Sheldon. «Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas ligando o refeitório, sala comunitária, celas e capela, predominando por toda a parte um ambiente de amplitude fria e limpa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Madrid

«(…) É como disse um dos nossos grandes escritores: Ninguém na Espanha se preocupa com o bem comum. Cada grupo se interessa apenas por si mesmo. A Igreja, os bascos, os catalães. Cada um diz que se fod… os outros. O bispo sabia que o coronel Acoca citara errado Ortega y Gasset. A citação inteira incluía o exército e o governo; mas, sabiamente, não disse nada. Tornou a se virar para o primeiro-ministro, à espera de uma discussão racional. Excelência, a Igreja Católica... O primeiro-ministro achou que Acoca já fora longe demais. Não nos interprete mal, bispo. Em princípio, é claro, este governo está dando total apoio à Igreja Católica. O coronel Acoca interveio outra vez. Mas não podemos permitir que suas igrejas, mosteiros e conventos sejam usados contra nós. Se continuarem a permitir que os bascos guardem armas e realizem reuniões neles, terão de arcar com as consequências. Tenho certeza de que as informações que recebeu estão equivocadas, declarou o bispo, suavemente. Mas pode estar certo de que ordenarei uma investigação imediata. O primeiro-ministro murmurou: Obrigado, bispo. Isso é tudo que pedimos. Martínez e Acoca ficaram observando o bispo se retirar. Depois o primeiro-ministro perguntou: O que acha? Ele sabe o que está acontecendo. O primeiro-ministro suspirou. Já tenho problemas suficientes neste momento sem criar uma crise com a Igreja. Se a Igreja é a favor dos bascos, então está contra nós. A voz do coronel Acoca era mais enérgica agora. Eu gostaria que me concedesse permissão para dar uma lição ao bispo. O primeiro-ministro foi contido pela expressão de fanatismo nos olhos do coronel. Tornou-se cauteloso. Tem mesmo informações de que as igrejas estão ajudando os rebeldes? Claro, Excelência.

Não havia como determinar se o homem dizia mesmo a verdade. O primeiro-ministro sabia o quanto Acoca odiava a Igreja. Mas talvez fosse bom deixar que a Igreja sentisse o gosto do açoite, desde que o coronel Acoca não fosse longe demais. O primeiro-ministro Martínez ficou imóvel por um instante, pensativo. Foi Acoca quem rompeu o silêncio: Se as igrejas estão abrigando terroristas, então elas devem ser punidas. Relutante, o primeiro-ministro anuiu com a cabeça. Por onde vai começar? Jaime Miró e seus homens foram vistos em Ávila ontem. Provavelmente estão escondidos no convento local. O primeiro-ministro decidiu-se. Reviste-o. Essa decisão desencadeou uma sucessão de acontecimentos que sacudiu toda a Espanha e abalou o mundo.

Ávila

O silêncio era como uma nevasca amena, suave e aconchegante, tão tranquilizante quanto o sussurro de um vento de Verão. O convento Cisterciense da Estrita Observância ficava nos arredores da cidade muralhada de Ávila, a mais alta cidade da Espanha, 112 quilómetros a noroeste de Madrid. O convento fora construído para o silêncio. As regras haviam sido adoptadas em 1601, e permaneceram inalteradas ao longo dos séculos: liturgia, exercício espiritual, reclusão rigorosa, permanência e silêncio. Sempre silêncio. O convento era um conjunto simples de prédios de pedra, em torno de um claustro, dominado pela igreja. Ao redor do prédio central as arcadas abertas permitiam que a claridade se espalhasse pelos largos blocos de pedra do chão, onde as freiras deslizam sem fazer barulho. Havia quarenta freiras no convento, rezando na igreja e vivendo no claustro.

O convento de Ávila era um dos sete que restaram na Espanha, um sobrevivente das centenas que haviam sido destruídos na Guerra Civil, num dos periódicos movimentos anti-Igreja que dominam o país ao longo dos séculos. O convento Cisterciense de Estrita Observância era devotado exclusivamente a uma vida de orações. Era um lugar sem estações ou tempo, e aquelas que ali ingressavam se tornavam para sempre isoladas do mundo exterior. A vida cisterciense era contemplativa e penitencial; o ofício divino era recitado todos os dias, e a clausura era completa e permanente. Todas as irmãs vestiam-se de forma idêntica, e os seus trajes, como tudo no convento, eram caracterizados pelo simbolismo de séculos. O capuche, o manto e capuz, simbolizava inocência e simplicidade, a túnica de linho representava a renúncia às coisas do mundo e mortificação; o escapulário, pequenos quadrados de lã usados sobre os ombros, indicava a disposição para o trabalho árduo. Uma touca, uma cobertura de linho disposta em dobras por cima da cabeça e em volta do queixo, lados do rosto e pescoço, completava o uniforme. Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas ligando o refeitório, sala comunitária, celas e capela, predominando por toda a parte um ambiente de amplitude fria e limpa. Janelas de treliça com vidro grosso davam para um jardim murado. Cada janela era guarnecida com barras de ferro e ficava acima da linha de visão, para que não houvesse distracções externas. O refeitório era amplo e austero, as janelas tinham persianas e cortinas». In Sidney Sheldon, As Areias do Tempo, 1989, Publicações Europa-América, 2003, ISBN 978-972-105-176-8.

Cortesia PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Sidney Sheldon, Literatura, Espanha, Política,  

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam…»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Diz-se que a noite é sempre boa conselheira, mas é também a coberto dela que se perpetram crimes, que se contam segredos, que se perpetuam mistérios. Jantaram na mesa número 205 do deck 14. Myriam quis que fossem ver a peça que estava em cartaz. Na verdade era mais do que uma, pois chamava-se Musicais da Broadway, um resumo das principais cenas e músicas de Cats, West Side Story, O Fantasma da Ópera e outros clássicos renomados, da batuta de Andrew Lloyd Webber. Não era obra que ficasse na retina, mas foi agradável. Uma espécie de pastiche de digestão fácil porque afinal em férias não há porque se desgastar com dramas ou obras de profundidade dramática excessiva. Recolheram ao quarto já passava das onze da noite. Myriam estava feliz e era esse o objectivo. Estás bem, meu querido?, perguntou-lhe. Pareces muito desligado hoje. Andas bem? Estou bem, Myr. Não te preocupes. Falaste com o Ben esta noite? Falei, mentiu. Vou-lhe ligar novamente à meia-noite, se não te importas. Hoje foi um dia importante para ele. Tão tarde? E ainda mais em Jerusalém, censurou franzindo o cenho. É. Ele pediu. Está bem. Mas não fiques uma hora ao telefone. Já sabes que tenho frio de noite.

Está descansada, querida. Será rápido. A voz sumia-se cada vez mais. Não conseguira falar com o Ben Júnior. O telefone estivera sempre desligado. O assistente não conseguira localizá-lo em lado nenhum. Não estava na propriedade que os Isaac possuíam em Telavive, tão-pouco apareceu na sede da empresa . Temia que o bilhete que recebera ao pequeno-almoço estivesse relacionado com o desaparecimento do filho. Não fazia ideia de quem o enviara, nem quem poderia estar ao corrente do Statu Quo. Fosse como fosse em breve o saberia. Passou o dia a desconfiar de tudo e de todos. Dos empregados sorridentes, dos restantes turistas, independentemente do género; só Myriam escapava à suspeita. Perguntou-se centenas de vezes se o emissor da mensagem estaria no barco, se estaria a observá-lo, se, se, se. Isto num homem que sempre evitou os ses. No dia anterior aportaram em Livorno e visitaram Florença e poderia muito bem ter sido aí que o interlocutor entrara, muito a tempo de sair no dia seguinte, em Nápoles, aproveitando o corre-corre do navio, de porto em porto na costa ocidental italiana. Era uma agulha num palheiro no meio de três mil pessoas. Beijou Myriam carinhosamente na testa e saiu para a piscina.

Não demores, advertiu Myriam antes de ele bater gentilmente à porta. Não sabia que outra resposta dar se não um Será rápido, mas a verdade é que não sabia para o que ia. A agenda mental normalmente assinalava sempre qualquer coisa, uma reunião, um telefonema, um almoço, comprar um presente, uma flor para Myriam, mas, neste ponto, a nove minutos da meia-noite, estava em branco. Caminhou pelo corredor do deck 14 em direcção ao elevador. Subiria um lanço e dali à piscina não levaria mais de dois ou três minutos no seu passo lento e nervoso. As pernas tremiam-lhe como se pressentissem um abismo. Passou por alguns turistas que cambaleavam à procura do equilíbrio no regresso ao quarto que não lembravam onde ficava. Os empregados arrumavam a desordem do dia, o lixo que os impudicos lançavam ao chão sem culpa, beatas de cigarro, copos de plástico, pedaços de comida.

Perto da piscina o movimento era menor, estranhamente, ou talvez não. Bem Isaac deu por si ofegante. Não fora grande caminhada, nem havia subidas ou descidas íngremes. Não estava ninguém. A água ondulava ao sabor do gigantesco navio. Iluminação submersa pintalgava a água de um azul-vivo, cujo movimento ondeante a transformava num organismo com vida. Não viu vivalma. Estranho. Mas nada naquele dia fora normal. Consultou o relógio. Onze e cinquenta e sete. Os segundos matutavam na cabeça dele ou seria o coração a latejar nas veias que marcava o ritmo da inquietação. Os três minutos pareceram seis e depois doze, até que chegou a meia-noite e..., nada aconteceu. Verdade que era apenas a hora do seu relógio, talvez ainda não fosse meia-noite no relógio do outro interveniente, fosse ele ou ela quem fosse. Olhou ao seu redor e não sentiu qualquer movimento. A noite estava fria, desagradável. O navio deslizava lentamente para sul, abrindo caminho pelas águas do Tirreno. Dois minutos depois da hora, segundo o seu relógio, ouviu um disparo oco. Não saberia apontar a proveniência dele mas é certo que o que quer que fosse não passou nem perto de si. De qualquer forma sentia-se demasiado exposto. Momentos após o disparo e as dúvidas viu algo a descer no céu, lentamente. Estava a cerca de 50 metros de altura e descia em direcção à piscina. Ao princípio não conseguiu descortinar o que era. Um objecto voador não identificado. Aos trinta metros conseguiu dar um nome ao objecto. Chamava-se paraquedas. Imune à observação atenta de Ben Isaac, o paraquedas manteve a sua descida serena». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade,  

Luís Miguel Rocha. A Mentira Sagrada. «Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Desculpe? Que raio de pergunta era aquela? Mera curiosidade, acrescentou. Deixou-o sem palavras. Ou melhor, teria de responder com cuidado para não ser mal interpretado. Acredito que há um mundo para além da morte onde estaremos em comunhão com Deus e... O Céu? Sim. E o Inferno? Para quem não salvou a alma, explicou Rafael. Não estava a ver onde aquilo ia dar. Acha que o turco e o alemão foram para o Céu ou para o Inferno? Gavache tinha o dom de o deixar sem palavras. Huh..., diria que para o Céu. Que homem tão estranho. Então acredita que levaram uma vida digna que lhes abriu as portas do Céu?, insistiu Gavache. Sem dúvida. Então, a seu ver, o que é que eles terão feito para que alguém tivesse planeado tão meticulosamente as suas mortes? O que fizeram… Ou o que sabiam? Gavache deixou a pergunta no ar. Rafael percebeu onde o inspector queria chegar. Não havia porque ocupava aquele posto. Era arguto. E há ainda outra coisa, prosseguiu Gavache. Rafael aguardou. Disse-me que veio por razões pessoais e não em nome do Papa, confirma? Correcto, afirmou Rafael apreensivo.

Mas estes crimes não foram ainda tornados públicos, senhor padre. Não há um jornalista que tenha conhecimento disto. Informámos a Santa Sé por razões muito especiais, o que torna a sua presença aqui muito estranha, concorda? Gavache não esperou pela resposta. Olhou-o directamente. Compreendo que seja amigo de uma das vítimas, mas terá de me responder porque razão apanhou o último avião do dia para vir, em nome pessoal, ajudar na investigação de um crime que ninguém sabe que aconteceu. O corpo do seu amigo ainda nem esfriou. Feita a pergunta e a observação virou-lhe as costas. Devia ser habito fazê-lo. Leve o seu tempo a preparar a resposta. Por…, foi o primeiro pensamento que lhe assomou à mente. Também o segundo e o terceiro. O quarto já foi uma variação menos lesiva. Grande mer… Jacopo acercou-se dele nesse momento, como se nada fosse. Então? O que queria o gajo? Rafael agarrou-o pelos colarinhos e ergueu-o alguns centímetros no ar à falta de parede onde encostá-lo. Meu grande cabr… praguejou. Jacopo agarrava as mãos de Rafael na ânsia de se libertar mas eram como garras possantes cravadas. Que foi?, conseguiu perguntar. Quem te deu a informação da morte do Zafer? Ainda não conseguia ligar aquele nome ao grupo dos mortos. Parecia irreal. Quem? A Secretária de Estado, respondeu a custo o outro. Rafael pousou-o. Digerira tudo mal desde o início. Não era o que se esperava dele. Os olhos abertos raiavam sangue. Estava furioso consigo mesmo. Tu disseste que tinha sido a Irene.

Que me tinha dito que ele apanhara o avião para Paris para ir ver um pergaminho. Não disse que foi a Irene quem me deu a noticia, completou Jacopo. O que é que se passa?, quis saber compondo-se. Quem te mandou dar-me a informação? Estava de costas voltadas a pensar. O Trevor, a pedido do secretário, explicou Jacopo. As ordens eram para virmos para Paris no primeiro voo. Não foi por isso que vieste? Rafael não respondeu. És completamente doido, acusou Jacopo. Eu não quero estar aqui. Vim porque me pagam para isso. Estava muito bem em Roma a moer o juízo à minha mulher. Rafael permaneceu calado, imóvel. Tu vieste mesmo por amizade, não foi? Pensaste que te fui dar a notícia e que a Irene te pediu para vires ver o que se passava? Eles não estavam juntos há anos. Pensaste que eu estava aqui por gostar da tua companhia?

Rafael tornou a olhar para as fotografias do corpo de Sigfried. Gavache chegou nesse preciso momento Chegamos a alguma conclusão?, inquiriu roufenhamente. O inspector disse que informou o Vaticano por razões muito especiais. Quais são? Seja bem-vindo, padre Rafael, saudou Gavache com um meio sorriso. Abriu uma cigarreira em tons prata e tirou outra cigarrilha do interior. Levou-a à boca e procurou o isqueiro para incendiar o prazer. Apalpou os bolsos. Jean Paul, gritou. Aqui, senhor inspector, proferiu o assistente, estendendo a mão e acendendo o isqueiro junto à ponta da cigarrilha. Depois entregou um telemóvel a Rafael. Por isto, limitou-se a dizer. Rafael pegou no telemóvel e olhou para ele, depois desviou o olhar para Gavache com uma expressão inquisitiva. O seu amigo teve uma grande presença de espírito, diga-se. Conseguiu ligar o gravador do telemóvel e gravou uma parte do que aconteceu. Talvez porque o aparelho tem um botão dedicado. O seu amigo usava-o recorrentemente para registar ideias e pensamentos. A parte que nos interessa não se percebe muito bem, mas o laboratório já está a trabalhar na gravação. De qualquer forma, há algo aqui bastante explícito. Tirou o aparelho das mãos de Rafael e procurou a gravação que pretendia. O som invadiu a sala.

Qual é o código que (ruído estático) te deu?, perguntava uma voz. Sei que o Vaticano mandou dar os códigos. HT, respondeu aquele que Rafael reconheceu como o amigo. Em que ordem? Não faço ideia. Zafer aparentava estar em grande sofrimento. Isso já vai passar. Foi de grande ajuda, Yaman Zafer. Que o Senhor tenha piedade de ti. O Papa rezará pela tua alma, disse o outro. O resto foram sons desconexos, que podia ser qualquer coisa, mas Rafael sabia. Era Zafer a morrer. Sentia o estertor da morte que acontecera naquele mesmo local. Por fim silêncio. Ouviram-se uns passos e uma frase de despedida. Ad maiorem Dei Glóriam. Gavache desligou o aparelho e encarou Rafael. Esta mer… diz-lhe alguma coisa? Rafael mirou-o com frieza e uma expressão mortífera. O demónio está nos pormenores. O assassino é jesuíta». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

 JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade,  

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos…»

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Vaticano. 19 de Abril de 2005

«(…) Jacopo Sebastiani, intrometeu-se o outro. Qual é a sua função?, questionou Gavache a Jacopo, cumprimentando-o com renitência. Somos amigos da vítima, adiantou-se Rafael antes que Jacopo respondesse. Gavache fitou os dois com displicência. Não queria disfarçar que os estava a avaliar. Diga-me, disse por fim para Rafael, era óbvio quem era o líder, quem é Yaman Zafer? Meteu a cigarrilha à boca e puxou um pouco mais de tabaco. As noites eram o pior do dia. Não há qualquer interesse do Vaticano. Estamos aqui em nome pessoal, como amigos do falecido. Gavache tornou a fitá-los. Ora um, ora outro, fazendo jus à sua função de inspector. Pois, acabou por dizer. O fumo da cigarrilha formava uma nuvem sobre os três homens. A amizade é uma coisa bonita. Conheciam-no há muito tempo? Há 20 anos. Era um conceituado arqueólogo na Universidade de Londres. Talvez conheça algumas das suas publicações, informou Rafael. Precisava de lhe dar alguma coisa. Gavache não era idiota. Não gosto de ler, respondeu o inspector francês de rajada. A vida já é um livro demasiado grande para andar a perder tempo com isso. Ele é arqueólogo e encontrou alguma coisa para o Vaticano? Fez alguns trabalhos sob patrocínio do Santo Padre, sim, confirmou Rafael. Algumas escavações em Roma e Orvieto. Não podia contar tudo. Podemos ajudar em alguma coisa?, ofereceu-se Rafael. Sentia que estava a perdê-lo. Não. Se quer que lhe diga, os amigos só atrapalham nestes casos, confidenciou com desdém. Jean Paul, gritou para alguém que se apresentou por detrás dele, a menos de um metro. Franzino e alto, com as veias do pescoço a sobressaírem. Quem o não conhecesse diria que passava fome.

Aqui, inspector. Escolta estes senhores à cidade. Não precisamos deles. Merci beaucoup. E virou-lhes as costas, levando novamente a cigarrilha à boca. Sigam-me, s'il vous plait, pediu o tal Jean Paul. Naquele momento Rafael olhou para Gavache que brandia umas fotografias que algum técnico lhe havia passado para a mão. Era este o teu plano?, reclamou Jacopo que enfiara as mãos no bolso para combater o frio. Perda de tempo. O demónio está nos pormenores, limitou-se a dizer Rafael que continuava a fitar Gavache. Entretanto, saíram para o exterior, em direcção à viatura de Jean Paul. Já têm os resultados da autópsia, inspector?, perguntou Rafael. Precisava de informações. Sim e não. Sim, temos, não, não sou inspector. Levou uma grande tareia o seu amigo e injectaram-no com cianeto. Morte rápida. Antes assim. Desceram umas escadas de ferro. Os sapatos pesados faziam-no tilintar a cada passo. Algum suspeito? Não, nenhum. Tudo limpo. Nem um fio de cabelo. Quer dizer, o que há mais ali é mer… Quem fez isto escolheu bem o sítio. Não vão encontrar nada, disse Rafael.

Padre Rafael, ouviu-se uma voz chamar. Era uma mulher à porta do armazém. Rafael olhou. O inspector Gavache quer dar-lhe uma palavra, se não se importa. Rafael galgou três degraus de cada vez e tornou a entrar no espaço que, outrora, seria o escritório do armazém. Gavache estava empenhado a discutir com dois dos seus homens. A voz roufenha a sobressair perante todos os outros. Avistou o italiano. Ah, senhor padre. Importa-se que o trate assim? De todo, respondeu Rafael aproximando-se. Passou-lhe umas fotografias para a mão. Conhece?, perguntou o francês com um tom inquisitivo. Rafael olhou as fotografias. Eram três. Em todas um corpo masculino caído num chão que não era aquele. Era mais escuro, sujo também. Uma cadeira de madeira caída ao seu lado. Não conseguia ver o rosto. Este não é o Zafer, proferiu com certeza. Até aí estamos de acordo. Deu-lhe outra foto. O corpo já estava em cima da maca, dentro do saco mortuário. Rafael viu o rosto e reconheceu. Não tinha qualquer identificação com ele. Que nome lhe vamos dar?, perquiriu Gavache na expectativa. Rafael desconhecia como é que o francês relacionou ambos os crimes, mas não ia omitir. Precisava dele para ter acesso ao caso…, aos casos. Sigfried Hammal. Professor de Teologia. Isto foi quando? Hoje. Aqui em Paris?

Gavache negou com a cabeça. Em Marselha. Olhou para os subordinados. Não necessitou dizer uma palavra para eles dispersarem e deixarem-nos a sós. O francês fitava o italiano com um olhar perscrutador O que é que se está a passar aqui?, perguntou de rompante. Um arqueólogo, um teólogo. Duas pessoas ligadas à Igreja mortas da mesma maneira, no mesmo país. Não faço ideia, respondeu Rafael. Não podia baixar o olhar, caso contrário denotaria fraqueza. Tretas. Também era amigo do alemão? Vi-o apenas uma vez. Por que motivo? Já não me recordo. Foi há muito tempo. Há quanto? Talvez há 20 anos. E o arqueólogo era inglês? Turco, mas vivia em Londres quase desde que nasceu. Não considera curioso que você conheça os dois? O que quer dizer com isso? Duas mortes seguidas de duas pessoas que conhecia. Está a dizer-me que sou suspeito? Claro. Todos somos. Só eles, apontou para as fotos, é que não são suspeitos de rigorosamente nada. A morte livrava de toda a culpa e sofrimento. Era a verdadeira salvação. Acredita na vida para além da morte?, perguntou o francês». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Luís Miguel Rocha, Roma, Conhecimentos, Literatura, Actualidade, 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «Naturalmente, a sua proverbial beleza afectava os alunos e os professores da Sorbonne, só que, apesar de ser muito cortejada, Sara mantinha um permanente distanciamento…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Parece um operário!, trauteou a senhora em pleno hall, as cordas vocais sempre à procura do registo certo, que nunca encontrariam. Sara!, gritou, enchendo o peito de ar como uma cantora de ópera em frente à plateia. Carol est là! Do primeiro andar escutou-se uma frase ininteligível, que a governanta interpretou como aprovação, apontando o dedo indicador gorducho para cima, sem sentir a necessidade de fornecer uma explicação adicional. Enquanto Carol subia as escadas, avisou-a de que contava com ela ao jantar, ia mandar pôr mais um lugar à table, cantarolou ao afastar-se, abafando o agradecimento da minha prima com o ressoar dos seus tacões no chão de madeira do corredor. Já no patamar do primeiro andar, Carol estacou ao deparar-se-lhe François, de joelho pousado no chão, olho esquerdo fechado, fisga apontada e uma pedra pronta para ser atirada. Prudente, ela sorriu. Meses de permanentes visitas à casa da amiga tinham-na levado à conclusão de que só neutralizava as hostilidades de François com um sorriso, a senha certa para um subtil armistício. Viste a Gestapo?, com ar de entendido, o rapaz explicou que as bandeirinhas nazis e o Mercedes negro não deixavam dúvidas. E a pistola é uma Mauser Luger P08, só a Gestapo as usa, garantiu, acrescentando uma certeza preocupante: Procuram o meu pai. Porquê?, perguntou a minha prima. François manteve o ar solene, enquanto colocava a pedra no bolso. Escapaste de boa. A esta distância, rachava-te a cabeça, como farei ao nazi, se entrar cá em casa. Numa tentativa clara para imitar a voz rouca de Churchill, gritou We shall never surrender! e a seguir atirou-se pelas escadas a baixo aos saltos, três degraus de cada vez, impulsionando-se com a mão direita no corrimão, que agarrava e largava com a destreza de um símio dominador daquela selva doméstica. Está cada vez mais nervoso, comentou Sara.

A amiga estava à porta do quarto e Carol sentiu-a aflita. Com vinte e dois anos, a mesma idade da minha prima, era lindíssima e dona de uns longos cabelos loiros realçados pelo contraste não só com os olhos castanhos, mas também com o manto de pequenas sardas que lhe cobria a pele rosada. O rosto de Sara, de tão perfeito, parecia desenhado por um pintor com a ambição clara de impressionar as gerações vindouras. A testa e as sobrancelhas, as bochechas e o queixo, a boca e os lábios, tudo tinha a proporcionalidade e a dimensão certas. Apenas o nariz destoava, pois apresentava no final um ligeiro levantamento que o arrebitava (Sara chamava-lhe um salto de ski), criando um resultado inesperado, magnificamente humano, como se aquela fosse a imperfeição necessária para garantir que ela não era uma deusa do Olimpo, mas sim uma mulher real.

Naturalmente, a sua proverbial beleza afectava os alunos e os professores da Sorbonne, só que, apesar de ser muito cortejada, Sara mantinha um permanente distanciamento que muitos interpretavam como arrogância, mas que não era mais do que um escudo protector. A amiga temia magoar-se, sofrer de mal d´amour, dizia sempre que era cedo para se apaixonar, pois ainda tinha muito para viver. Havia nela uma permanente recusa do romantismo, como se namorar fosse apenas uma desconfortável tolice. Tu é que gostas disso, justificava-se a Carol, deixando para trás uma mão cheia de pretendentes rejeitados. Tratava-se de um desligamento forçado, pois, se em sociedade Sara se mostrava alheada e muito racional, sofria uma clara metamorfose perto do irmão, ou mesmo do pai e da mãe. Tinha iras intempestivas e, após esses momentos em que mostrava o seu lado avassalador, corava e alegava que François lhe fazia estalar o verniz! Carol já a vira atirar um sapato, uma moldura, até um vaso de flores, sempre contra o irrequieto irmão. A bela esfinge que obrigava os pescoços masculinos a rodarem, a notável figura geradora de silêncios aduladores quando passava, transformava-se numa fera de dentes e punhos cerrados, cujos cabelos ficavam despenteados, como que vítimas de um tornado, mal François ultrapassava o denominado limite do aceitável, uma linha imaginária que ninguém sabia onde ficava, mas que avançava a olhos vistos, sobretudo depois da invasão da França pelos nazis. Tem medo de que prendam o meu pai, acrescentou Sara. Mas o que quer a Gestapo?, inquietou-se Carol.

Paris. 4 de Junho de 1940

A tensão na sala de jantar teimava em não se desvanecer, como se nem a ementa, uns linguados au meunier bem temperados, acompanhados por batatas cozidas e legumes salteados, nem a decoração elegante, lírios, girassóis, cravos e miosótis coloridos misturavam-se num centro de mesa, fossem capazes de diluir a preocupação dos comensais. Um peso no peito oprimia Carol. Fora um dia demasiado longo, carregado de surpresas desagradáveis. As bombas durante a noite, a decisão de madre Mary de encerrar o convento e a residencial, a suspensão inesperada das aulas na universidade, os parisienses em fuga atabalhoada, a partida sem aviso de Jean-Luc, as tentativas de roubo da Hirondelle e, por fim, a presença da Gestapo à porta de casa da amiga. A minha prima sabia que Marcel e Anne tinham ido de carro a Estrasburgo há vários dias, com a intenção de trazer de lá a mãe de Marcel, uma senhora de oitenta anos chamada Raquel, que vivia sozinha na velha casa da família». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris, 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «A minha prima estremeceu com a frieza do olhar do nazi, mas o seu apurado sentido de observação captou alguns relevantes pormenores: a testa alta, o cabelo ralo e claro…»

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Paris, 4 de Junho de 1940

«(…) Um homem alto, coberto por um casaco longo e preto, tocou à campainha da bonita mansão parisiense, de dois andares e águas-furtadas, onde ela muitas vezes estudava para os exames. Curiosa, Carol travou a Hirondelle. O Mercedes exibia duas bandeirinhas nazis junto aos retrovisores, era certamente pessoal da Embaixada germânica, mas andarem à vontade por ali, apenas horas depois de terem bombardeado a capital de França? Que descaramento arrogante! A minha prima matutou sobre a possível razão daquela inesperada visita. Marcel, o pai de Sara, era um judeu francês, que, embora nascido em Estrasburgo, trabalhara décadas em Colónia, nas prósperas fábricas do seu já falecido progenitor, nacionalizadas uns anos antes, quando o ambiente hostil aos judeus, na Alemanha, se tornou irrespirável. Contudo, em Paris, onde sempre tivera casa, apesar de influente na comunidade judaica, Marcel raramente visitava a sinagoga, até porque Anne, sua mulher, era católica e obrigara Sara e o filho mais novo, François, a uma educação cristã. Subitamente, a porta da moradia abriu-se e surgiu mademoiselle Laffitte, uma senhora gorducha que apresentava sempre as bochechas coradas e uns óculos redondos e minúsculos pousados a meio da cana de um largo nariz. Fazendo deslizar a bicicleta no asfalto, Carol aproximou-se, para escutar as perguntas do alemão, que estava acompanhado por dois ajudantes, um já na rua, encostado ao Mercedes, outro sentado ao volante.

Monsieur Marcel n´est pas là!, indignou-se mademoiselle Laffitte, agudizando o tom de voz. A governanta da casa, perante qualquer incómodo, entrava em imediato descontrolo sonoro. Sem aviso, iniciava um irregular cântico, onde se misturavam gritinhos de intenção melodiosa com claras fífias. Estas curtas árias eram acompanhadas por um acelerado bater de pestanas, sobretudo na presença de François, um rapaz de catorze anos, impertinente e de mau feitio, dado a partidas de mau gosto e a palavreado grosseiro. Porém, quando viu a temível Mauser do alemão da Gestapo, que levantara a aba do casaco para exibir o coldre aberto, a voz estridente de mademoiselle Laffitte sumiu-se e uma palidez súbita tingiu de branco o seu rosto, como se tivesse vislumbrado não apenas uma pistola, mas a sua própria morte. O decidido nazi anunciou que regressaria em breve, para falar com monsieur Marcel, uma preocupante promessa que obviamente não extinguiu o terror primitivo da governanta. Os dois alemães reentraram no Mercedes e, antes de fechar a porta, o que falara fitou Carol, ainda montada na Hirondelle.

A minha prima estremeceu com a frieza do olhar do nazi, mas o seu apurado sentido de observação captou alguns relevantes pormenores: a testa alta, o cabelo ralo e claro, as pupilas azuis, as sobrancelhas simétricas e finas, a pele bem barbeada e um nariz esfíngico. Recordou-se das palavras de Polly sobre os alemães giros que podiam aparecer em Paris. Contudo, mesmo parecendo um actor americano, aquele homem assustava ao mesmo tempo que encantava, talvez devido ao fosso que separava o aspecto físico, sofisticado e até belo, da voz agreste, da determinação autoritária dos gestos e da crueza gélida do olhar. Foi essa dualidade chocante a responsável pelo constrangimento de Carol, que permaneceu rígida enquanto o Mercedes arrancava sem pressas. Só quando o viu a cem metros, próximo dos Jardins do Luxemburgo, é que observou novamente mademoiselle Laffitte, que se mantinha também imóvel, qual estátua de museu, com o olhar ainda fixo no preciso local onde tinham estado o alemão e a sua arma, como se esta continuasse lá, pronta a disparar.

A minha prima desmontou da Hirondelle e aproximou-se. Bonsoir, mademoiselle Laffitte, a Sara está? A governanta demorou quatro segundos a responder. Os seus olhos vaguearam pela rua, um minúsculo tique agitou-lhe as bochechas, as mãos juntaram-se e pousaram na proeminente barriga, como as dos mortos, até que por fim as pestanas bateram aceleradas e exclamou: Oui, elle est là!

Lembrando-se das duas tentativas de roubo da Hirondelle só nesse dia, Carol pediu permissão para entrar com ela, obtida antes da notificação musical de que Sara acabara de tomar banho. Numa curta cantata, mademoiselle Laffitte denunciou mais uma tentativa de perturbação da mana pelo temível François. O petit sauvage invadira a salle de bain com descaramento, obrigando-a a manter-se à porta, qual guardiã do templo, perante a rajada de insultos do rapazola, cujos péssimos colegas de colégio eram obviamente os responsáveis por aqueles ditos diabòliquesIn Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Paris,

Domingos Amaral. Quando Lisboa Tremeu. 1755. «Gritei, procurando saber se estava ali alguém vivo, mas ninguém me respondeu. Ainda tentei escavar um pouco, afastar o entulho, mas depressa concluí que só avançaria se tivesse uma pá»

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«(…) Esta conversa entre o rapaz e o vizinho deve ter ocorrido cerca de meia hora antes de eu o ver pela segunda vez. Muhammed e eu ficámos junto à fonte, a beber e a descansar, e depois, não vendo o Cão Negro nas redondezas, decidimos descer, a caminho do Terreiro do Paço e do rio. A encosta onde ficava a Sé apresentava enormes danos nos edifícios, a grande maioria deles tinham sofrido derrocadas ou estavam esventrados ao meio, com os interiores à mostra.Como se fossem bolos a quem alguém havia cortado uma grande fatia exibiam os interiores, partes de quartos, camas, cadeiras, até lavatórios, suspensos no ar, presos por traves periclitantes. Roupa, utensílios íntimos, penicos, sapatos, colchas, formavam uma estranha mistura de cores, pedaços de madeira e tijolos soltos. Fomos descendo, quase sempre em silêncio, como que fazendo uma homenagem muda às vítimas do cataclismo, até chegarmos à zona da Igreja da Madalena. De repente, vimos um cão, um animal bonito, preto, com o pêlo brilhante, bem escovado. Passou por nós a abanar o rabo e a correr. Subiu um monte de entulho e começou a ladrar, entusiasmado, na direcção de outro monte de entulho. Depois, desceu, colocando as suas patas com cuidado, para não se ferir nas pedras e nas pontiagudas madeiras que emergiam do chão. Um vulto saiu de um buraco na terra e abraçou o cão com contentamento.

Percebi que era o mesmo rapaz que vira na fonte. Muhammed e eu aproximámo-nos e, quando chegámos a poucos metros, o rapaz viu-nos e ficou tenso. Examinava as nossas roupas desconfiado. Quem são vocês?, perguntou. Muhammed tossiu e chamei o cão com um assobio. Veio ter comigo e passei-lhe a mão pela cabeça, fazendo-lhe festas. O cão parecia contente e abanava muito o rabo. O rapaz observou-me sem dizer nada. É bonito, o teu cão, afirmei. O rapaz assobiou e o cão correu para ele. Depois, deu umas passadas rápidas para o lado, e enfiou-se por um buraco. Ouvimo-lo ladrar, e era um ladrar persistente, como se estivesse a chamar por alguém. O rapaz, ao ouvi-lo, desinteressou-se de nós e correu para o buraco, enfiando-se lá dentro. Espreitei: era uma espécie de passagem, onde uns degraus nasciam, um metro abaixo do nível do solo. O rapaz e o cão reapareceram. Acho que a minha irmã está lá em baixo. E tenho a certeza de que está viva, disse o rapaz. Examinei aquele aglomerado de pedregulhos e cascalho, e perguntei: A tua casa era aqui? O rapaz contou que estava em São Vicente de Fora, com a mãe, na missa, quando o terramoto os atingiu. A igreja abatera em cima da mãe, que morrera. Salvara-se porque saíra da igreja um pouco antes, pois queria regressar a casa, à procura da irmã, que ficara para trás com o padrasto. E o teu padrasto, onde está? O rapaz baixou a cabeça, desanimado. Está morto, vi o corpo dele lá em baixo. Mas o cão está agitado, sente que ela está viva. Bufei: Não sei, isto está tudo destruído. Chamaste por ela? O rapaz chamara, mas não ouvira a voz da irmã a responder. Podem ajudar-me a procurá-la?, perguntou. Já pedi ajuda a vários homens, e ao meu vizinho, que estava aqui há pouco, mas ninguém me quis ajudar.

Olhei para Muhammed. O árabe roía as unhas, nervoso. Sabia que ele ficava assim na presença de rapazinhos, e sabia também que nós éramos prisioneiros em fuga, e que devíamos sair da cidade o mais depressa possível. O rapaz insistiu: Posso dar-vos comida, se quiserem. Descobri lá em baixo carne e pão, e uma panela com batatas cozidas. Devia ser o nosso almoço, quando voltássemos da missa.

Ao ouvi-lo falar em comida, Muhammed aproximou-se, sorridente. Santamaria, Muhammed ir ter fome. Muhammed ir comer, depois ir ajudar. Sorri e aceitei a oferta do rapaz. Então, ele desceu ao buraco e regressou com uma panela. Sentámo-nos os três a comer, saboreando o repasto. Quando acabámos, o rapaz olhou para mim: Tu és mais alto, podes chegar mais longe. Concordei e desci pelo buraco. O rapaz seguiu-me e o cão também. À minha frente, num espaço escuro e coberto de argamassa e caliça, existiam elevações irregulares de pedras e madeira. Uma trave grande impedia o avanço. O rapaz explicou: Isto é a entrada da cave. Se conseguires remover essa trave, podemos passar. Lutei com o toro até que o consegui rodar. Empurrei-o para a direita, deixando uma abertura maior por onde podia passar. Contudo, muita poeira e pedras caíram em cima de mim, do rapaz e do cão. É melhor irem lá para fora, disse eu. Isto é perigoso. O rapaz e o cão saíram. Avancei, passando pela trave, e vi-me numa espécie de corredor, mas as suas paredes estavam destruídas, e havia uma enorme quantidade de pedras no chão, que se confundiam com o tecto daquele local. Podia acontecer um desabamento a qualquer momento, mas fui avançando até onde podia. Uns metros à frente, o monte de entulho crescia, impedindo-me de continuar até ao fundo da cave. Gritei, procurando saber se estava ali alguém vivo, mas ninguém me respondeu. Ainda tentei escavar um pouco, afastar o entulho, mas depressa concluí que só avançaria se tivesse uma pá.

Dei meia volta e de repente vi um vulto deitado. Rastejei até lá. Era um homem e estava morto, mas o que me chamou a atenção foi o facto de a sua garganta ter sido cortada por uma facada. Saí e expliquei ao rapaz ser impossível ir mais longe. Convicto, ele afirmou: – Então, vou procurar uma pá e tu ajudas-me a remover a terra. Bufei de novo. Há um homem morto, lá em baixo. Foste tu que lhe cortaste a garganta? O rapaz ficou muito sério, mas disse que não, e repetiu o que já me contara: encontrara o padrasto morto, mas não sabia que ele estava com a garganta cortada. Não tenho nada a ver com isso, mas também não quero vir a ter, disse eu. O homem foi assassinado. Não vou ficar aqui para me acusarem depois. Muhammed concordou. O rapaz ficou indignado: Mas, eu ajudei-vos! Dei-vos de comer. Prometeste que me ajudavas a procurar a minha irmã! Dei dois passos na direcção dele e disse: E ajudei, fui lá abaixo. Chamei e não se ouve nada. Não vi a tua irmã e vi o teu padrasto degolado. Para mim, chega. Saímos dali e nas minhas costas só ouvia os protestos e os insultos do rapaz: Mentiroso! És um mentiroso! Vocês são uns bandidos, se vir os guardas denuncio-vos! Duas pedras aterraram próximo de mim, e virei-me para trás. Com receio, o rapaz mergulhou no buraco, seguido pelo cão. Depois, espreitou, colocando só a cabeça de fora e gritou mais uma vez: Mentiroso!» In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755, 

domingo, 2 de janeiro de 2022

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Após algum tempo, o rapaz parou, desanimado, e sentou-se no chão. Na verdade, estava tão espantado e confundido que nem sequer tinha a certeza de aquela ser a sua casa, pois nada parecia o que era dantes. Pessoas nuas ou vestidas apareciam e desapareciam…»

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«(…) Ao narrar-me este episódio, Hugh Gold agarrou-se à barriga, à gargalhada: Sim, I know! Divertidíssimo, virou-se para mim: Good lord, cos diabos, where was my cabeça, my head? Tell this ao marido da senhora Locke, to the husband? Hell, he could ask: Como senhor sabe? How do you know, capitão? O que lhe respondia, what, hell? I know porque folgar Fridays with your wife! And ela adormece, sleeps, and ressona, seu cornudo! O capitão Hugh Gold deliciava-se com o ascendente que tinha sobre o senhor Locke por cobrir a mulher dele. É sempre assim com os amantes das mulheres casadas: há aquele sentimento de superioridade sobre o outro macho que os inebria, e os faz sentirem-se mais fortes do que o enganado. Good lord, cornudo e avarento, the poor man, rematou Hugh Gold. More money than me! Mas, what the hell, cos diabos, me fu… his mulher, wife dele! O capitão Hugh Gold não conseguia parar de rir, talvez para me impressionar, ou ao meu amigo Muhammed, sem saber que, nessa noite, mais alguém o ouvia e reflectia seriamente sobre aquelas palavras.

Além de procurar a irmã, o rapaz andava também à procura do cão. Desde a noite anterior que não sabia dele, e estranhara aquela ausência. E agora, ao olhar para o que fora a sua casa, pensava no cão e no que lhe teria acontecido, e no quanto ele o poderia ajudar a procurar a irmã. O cão era muito inteligente e sabia perfeitamente o que fazer quando ele falava no nome da irmã. Por vezes, o rapaz perguntava ao cão: Onde está a Assunção? E o cão lá ia procurar a irmã e depois ladrava para avisar o rapaz de que a tinha encontrado. Portanto, se num dia normal ele era capaz disso, naquele dia tenebroso ainda seria capaz de mais. Só que o cão não estava em parte alguma, nem respondia aos chamamentos. Após algum tempo, o rapaz parou, desanimado, e sentou-se no chão. Na verdade, estava tão espantado e confundido que nem sequer tinha a certeza de aquela ser a sua casa, pois nada parecia o que era dantes. Pessoas nuas ou vestidas apareciam e desapareciam, almas perdidas a vaguearem por caminhos que julgavam que conheciam, mas agora desconheciam. Às vezes, quando passavam mulheres e crianças, o rapaz olhava os seus corpos nus e sujos e tinha vergonha por eles. Decidiu explorar os escombros, mas a enormidade do esforço que encontrou pela frente fê-lo pensar em pedir ajuda. Explicou aos caminhantes que a irmã estava dentro de casa, que poderia ainda estar viva, que precisava de a procurar. Mas ninguém sequer parava para o escutar. Algum tempo mais tarde, o rapaz encontrou um dos seus vizinhos, já de uma certa idade, que tinha o braço cheio de sangue e os olhos turvos de lágrimas, e lhe disse: Perdi a minha filha e o marido dela. Estão mortos, ali, apontou. Não sei da minha mulher. O rapaz contou-lhe a sua história e o homem benzeu-se e disse: Ninguém sobreviveu dentro destas casas... E depois acrescentou: Vem comigo, vamos para o Terreiro do Paço. Aqui ninguém nos vai ajudar. O rapaz não quis seguir o conselho do vizinho. Este insistiu: Isto está cheio de ladrões. Entram nas casas e roubam tudo e, se lhes fazemos frente, matam-nos. Não é lugar para um rapaz.

O rapaz sabia disso e contou-lhe o que se tinha passado próximo da Sé, com os espanhóis, e acrescentou: Não vou deixar que eles façam mal à minha irmã. O vizinho fez uma pausa e depois perguntou: Acreditas que ela está viva? O rapaz disse que acreditava. És um rapaz com muita fé, comentou o vizinho. Mas Deus castigou-nos, castigou os pecadores desta cidade. O rapaz garantiu que a irmã não era uma pecadora. O vizinho interrompeu-o: Ela não, mas o teu padrasto... O rapaz emudeceu. A fama do padrasto era conhecida da vizinhança. Ainda hoje de manhã, recordou o vizinho, depois de tu e a tua mãe terem saído para a missa, vi o teu padrasto a conversar com a tua irmã e pela cara dele percebia-se o que estava a dizer... Foi a vez de o rapaz o interromper: Ela nunca deixaria que ele lhe fizesse alguma coisa. Não é dessas. O vizinho confirmou com um aceno de cabeça, mas acrescentou: Mas ele é um homem forte... Não, gritou o rapaz. Ele não lhe fez mal! Se lhe fez, mato-o! O vizinho sentiu a sua raiva, baixou os olhos e disse: Lisboa está perdida... Deus castigou-nos... O rapaz, agora muito agitado, perguntou: Viu o meu padrasto depois do que aconteceu?

Não. A última vez que o vi foi aqui à porta, a falar com a tua irmã, a rir-se para ela, contou o vizinho. Depois, ela entrou em casa e fechou a porta, e ele... O rapaz interrompeu-o: Não fale do que não viu. O vizinho questionou-o: Estás a acusar-me de lançar falsos testemunhos? O rapaz respondeu: Não. Vá-se embora, se quiser, deixe-me sozinho, vou continuar à procura da minha irmã. Depois de dizer isto, o rapaz regressou ao local onde antes ficava a porta de sua casa e começou a afastar as pedras e as traves. O vizinho deu meia-volta e foi-se embora». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Se continuasse até ao Rossio, podia depois subir até Santa Marta, e o seu amigo certamente o acolheria. Sorriu, ao pensar que ainda na véspera…»

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«(…) O profetista revelou o seu acordo com a sugestão: queria dirigir-se depressa ao Terreiro do Paço, à procura de um lugar num barco. Bão bocês os dois, disse irmã Alice, e fujam prò Vrasil. Eu num cunsigo. É muito longe, a perna nã me dexa caminhar. Decidido a pôr-se a caminho, o profetista perguntou a irmã Margarida: Cê vem? Ela queria ir, mas não podia deixar irmã Alice ali, naquele estado. Abanou a cabeça: Não a deixo aqui sozinha. Vai andando, nós vamos mais devagar. Ficaram as duas a vê-lo afastar-se, a caminho da zona a que chamavam Baixa, onde antes havia tantos prédios e tantas ruas e agora só existiam ruínas e poeira. Sempre com o seu terror íntimo das chamas, irmã Margarida contou-me que já àquela hora se começavam a ver colunas de fumo negro, provenientes de pequenos incêndios. A freira mais velha comentou que o profetista não devia ter tomado aquela direcção, pois ia cruzar-se com os fogos. Um arrepio percorreu a espinha de irmã Margarida, ao lembrar-se do destino que lhe estava reservado, o de morrer numa fogueira. Benzeu-se. Tens medo do fuago?, perguntou irmã Alice, ao vê-la benzer-se. Sim.

A freira mais velha observou-a e depois tocou-lhe com um dedo no pescoço, nas marcas da corda com que ela tentara enforcar-se. Qué isto? A rapariga bonita baixou os olhos envergonhada. A outra esperou que ela falasse, mas como isso não aconteceu ofereceu voluntariamente uma história. Mê pai morreu tinha eu oito anos. Matou-se, tinha díbidas e vevia muito. Saves cumo ele se matou? Não, respondeu irmã Margarida. Atou uma corda a um carbalho grande que habia perto de nossa casa, e enforcou-se. Lemvro-me de ber o corpo dele, já morto, pendurado lá no alto, e lemvro-me de uns bizinhos nossos o terem vaixado, e lemvro-me da cara dele, e das marcas da corda no pescoço. Olhou para a rapariga: Cumo essas... Depois, sorriu e acrescentou: Tens mesmo de fugir... Determinada, fez um esforço para se levantar. Irmã Margarida deu-lhe o braço e as duas recomeçaram a caminhar. Num bamos por aquele lado, decidiu irmã Alice, apontando para os fumos dos incêndios. Num te quero mais assustada do que já tás. Irmã Margarida sorriu-lhe, com um sentimento de gratidão. Saíram do Rossio pelo canto esquerdo, como se fossem para a Sé ou para o Castelo, e a última vez que irmã Margarida olhou para trás viu ao longe as vestes brancas de dois guardas da Inquisição (maldita), que procuravam prisioneiros evadidos.

Irmã Alice era, sem dúvida, uma mulher inteligente. Conseguira afastar-se do palácio e do convento, fugindo aos guardas, e conseguira também afastar o profetista, fingindo-se incapaz de ir até ao Tejo. Depois, manipulara o medo do fogo que a rapariga sentia, um medo que ela associava à prisão, à solidão, à morte. Em pouco tempo, dominara-a, obrigando-a a acompanhá-la.

Quando recordamos uma história que se passou há um ano, tentamos colocar os acontecimentos por ordem cronológica, para que possamos olhar para o que aconteceu de uma forma lógica e compreensível. É evidente que não assisti a muitos dos factos aqui descritos, e só soube deles através dos próprios, quando me contaram, ou de terceiros. Não sei, por isso, se tudo o que conto é verdade, se aconteceu exactamente assim, mas não tenho outra forma de o fazer, pois não? Além disso, é evidente que as histórias que conto, e a forma como o faço, também transportam os meus sentimentos sobre as pessoas, sejam elas bons ou maus, e as minhas opiniões, sejam elas justas ou injustas. Mas como poderia ser de outra forma? Recorro à minha memória para ordenar as emoções e os factos, mas a minha memória não é independente de mim, das minhas ideias e dos meus sentimentos, pois não?

Quando Hugh Gold conseguiu finalmente raciocinar, pensou no que fazer a seguir, como reorganizar a sua vida. Talvez se devesse dirigir a casa do embaixador. Se continuasse até ao Rossio, podia depois subir até Santa Marta, e o seu amigo certamente o acolheria. Sorriu, ao pensar que ainda na véspera, antes de ir ter com a senhora Locke, estivera a jantar com o embaixador na casa do marquês de Marialva, no seu grande palácio, cujo pátio estava cheio de cavalariças e estrumes e onde os porcos passeavam alegremente, à solta. A fauna era vasta e colorida, criados e criaditas, frades e boticários, toureiros e brigadeiros, todos a escutarem, contentes, os fadinhos cantados no pátio e as anedotas contadas à varanda. O repasto fora suculento, numa sala aquecida pelos braseiros, e haviam saboreado os doces e os guisados com gosto. Fora um serão divertido e, no final, tanto ele como o embaixador seguiram para os encontros amorosos, com as respectivas amantes. A do embaixador era a condessa de Vila Meã, uma portuguesa cujo marido passava em Paris uma temporada, e que se sentia muito sozinha. Quanto ao capitão, fora visitar a senhora Locke, cujo marido se deitava sempre com as galinhas, pois era um comerciante avarento, que trabalhava de sol a sol. A pobre senhora há muito que não recebia mimos do marido, e ao ver o capitão pela primeira vez soltara os seus olhares, sedutores e desejosos. Apesar de, na sua actividade, se cruzar com o senhor Locke por diversas vezes, o capitão não desincentivara as investidas da senhora, bem pelo contrário. O facto de ela ser casada com o representante de uma casa concorrente era mesmo uma vantagem, pois podia dar-lhe acesso a informação útil, tanto para os seus negócios, como para partilhar com o embaixador, que gostava de saber as novidades na comunidade inglesa da cidade. Com uma natureza semelhante, o capitão e a senhora Locke caíram nos braços um do outro dois dias depois de se conhecerem. No último ano, encontravam-se, com regularidade semanal, às sextas-feiras à noite. Hugh Gold batia no postigo da janela da senhora, ela abria a porta das traseiras e conduzia-o até uma sala, que fechava à chave, não fosse o marido acordar subitamente». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755,

sábado, 1 de janeiro de 2022

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Admirava os que ajudavam os peregrinos e conheceu alguns de nós. O príncipe, estranhou: Meu pai pertencia à vossa Ordem? Gondomar abanou a cabeça, explicando que tal não era possível…»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu. Sábado de Aleluia. Abril de 1126

«(…) Depois de filhar a sua soldadeira, já o Braganção partira, Gonçalo contou que encontrara Elvira, muito melosa, também a querer folgar. Fomos para o celeiro e estava enamorada de mim! Afonso Henriques, que o conhecia bem, desmontou a gabarolice. Sois um reles mentiroso, ela não é dessas! Entretanto, uma mulher saíra das cozinhas, com um tabuleiro carregado de pão, e ofereceu-nos de comer, interrompendo aquela celeuma tola. Estávamos já a abocanhar os pães quando ouvimos uma voz cavada e funda nas nossas costas: Padeira, não ofereceis pão a quem veio da Terra Santa? Era o velho cavaleiro Gondomar, envolto no seu manto branco. Já o tínhamos visto na igreja, na véspera, e Afonso Henriques saudou-o. Bem-vindo, Gondomar, da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo. O visado, enquanto pegava num pão quente, murmurou: Em Jerusalém, no início, nem pão havia. A padeira incentivou-o a tirar mais e depois olhou para trás dele, onde outro vulto surgira, e exclamou: Meu senhor, pareceis doente, comei também! Era Ramiro, com os olhos raiados de sangue, pálido e cabisbaixo. Retirou um pequeno pão da bandeja, mas não o levou à boca. Posso trazer-vos uma fogaça ou uma broa, sugeriu a padeira. Apesar de o notar ainda transtornado, Afonso Henriques comentou: Vejo que estais melhor.

Ramiro encolheu os ombros, mas agradeceu ao príncipe: Obrigado pelas vossas palavras, ontem à noite. Ao escutá-lo, Gonçalo barafustou: Devíeis era ter-me ajudado a mim! Sois uns traidores: levo-vos à estalagem e fogem como meninas! Tive de arrasar a pipa sozinho! Nós rimo-nos, mas Gondomar fixou-o, preocupado. Assim perdeis-vos de Deus. Porque não vos juntais a nós? Gonçalo observou-o com desdém. Não vejo ninguém convosco. A não ser o Ramiro, mas, pelo que sei de ontem, esse vai a caminho de Satanás! O ancião, desiludido, confessou: Por cá, ainda somos poucos. Enquanto comia o seu pão, Gondomar contou-lhes a história dos Pobres Cavaleiros de Cristo. A princípio, haviam sido apenas nove, liderados por Hugo de Payns, um francês. Chegados a Jerusalém com a Primeira Cruzada, haviam decidido ficar, pois a vitoriosa demanda da Terra Santa gerara uma comoção generalizada nos reinos cristãos da Europa, e de toda a parte tinham avançado os peregrinos. Depois de longas viagens a pé, atravessando montanhas, vales e mares, os que não morriam pelo caminho aportavam a Jafa, e de lá seguiam, de novo a pé, pela estrada que se dirigia a Jerusalém. Os mouros, ou os bandidos, assaltavam-nos e matavam-nos, e com o passar do tempo nasceu, entre os cavaleiros da cidade, a vontade de parar aqueles ignóbeis ataques.

Havia algumas Ordens em Jerusalém, mas nós fundámos uma nova. Éramos devotos, bons combatentes, e não desejávamos riquezas, por isso rejeitámos as benesses que nos ofereceram aquando do saque das aldeias da região. Só queríamos servir a Cristo e vivíamos numa casta pobreza, relatou Gondomar. Como símbolo, haviam decidido cobrir-se sempre com o manto branco, para serem facilmente reconhecidos, fosse pelos peregrinos, fosse pelos infiéis ou pelos salteadores. E tinham como casa o velho e santo templo do rei Salomão, sendo por isso chamados de Cavaleiros do Templo, ou Templários. Temidos pelos adversários, amados pelos protegidos, ganharam prestígio e adesões. Nobres, infanções e homens do povo foram-se juntando aos nove cavaleiros originais.

Décadas depois, a Ordem já era conhecida em Roma e nas abadias da Europa, e muitos começaram a defender que não devia apenas dedicar-se a Jerusalém, mas a combater os infiéis onde quer que eles estivessem. Bernardo de Claraval desfraldou essa bandeira, e os cavaleiros da Ordem foram partindo da Terra Santa para lutarem noutros pontos da cristandade. Nesse momento, Gondomar olhou para Afonso Henriques e declarou: Vosso pai esteve duas vezes em Jerusalém, no Templo de Salomão. Admirava os que ajudavam os peregrinos e conheceu alguns de nós. O príncipe, estranhou: Meu pai pertencia à vossa Ordem? Gondomar abanou a cabeça, explicando que tal não era possível, pois a Ordem era composta apenas por homens castos, sem esposa ou filhos, totalmente dedicados a Cristo. Além disso, só se formara depois da ida do conde Henrique à Terra Santa. Contudo, o pai de Afonso Henriques era muito estimado por lá, pois era conhecida a sua fama de grande guerreiro contra os mouros». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,