segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Com certeza que ouviste falar dos tumultos com os cristãos… Não se fala de outra coisa! Parece que se tomaram de razões durante o culto a Mitra»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Nasceste no dia de Osíris! Entre o frio e o calor! Pairaste entre a vida e a morte, a minha e a tua! Prepara-te, meu filho, para esta vida incerta, de tristezas e venturas! Valéria e as jovens ajudantes sorriam de ternura. Não fora ainda tempo de o azar bater à porta da velha parteira. Continuaria afamada na arte de ajudar o nascimento de crianças e animais, porque assistia também às parições das cabras, ovelhas e vacas da villa, para melhor apurar a sua sabedoria. Por estes dias, iremos a Iria Flavia, ao templo de Ísis, agradecer-lhe os bons augúrios do parto!, rematou a dona da casa, antes de encostar a cria ao peito para a primeira refeição. No calor do quarto, recomposta dos esforços físicos e distante dos temores iniciais, Priscila não imaginava as pressas e aflições com que haveria de correr da Villa Aseconia até Iria Flavia, em busca do colo de Ísis. Muito menos lhe passava pela cabeça que um homem sem escrúpulos lhe rondava o quarto, tomado por um torpe sentimento.

Bracara Augusta (Braga)
Por sua vez, em Bracara Augusta, Lucídio Danígico Tácito tratava dos negócios, desconhecedor dos auspiciosos acontecimentos na sua villa. Fora chamado, dias antes, à capital da Galécia para clarificar o cadastro da sua propriedade, na revisão que o fisco laboriosamente operava em tempos de carestia para os cofres do Estado. Aproveitara também para transportar produtos das colheitas para a sua domus bracarense. Desafortunadamente, o carro partira duas rodas numa rua da cidade, caindo no buraco da calçada, que a infindável intempérie havia gerado e tapado com água, iludindo o condutor. Lucídio pretendia que fossem os artistas da sua casa a proceder à reparação. Pediu, assim, ao irmão para mandar um escravo a cavalo à villa com ordens para que o viessem buscar no carro novo que oferecera à esposa. Quando voltasse aos seus domínios, ele próprio providenciaria a escolha de bons carpinteiros para enviar à capital e não mais se esqueceria de consultar o velho adivinho surdo, a fim de se assegurar do momento adequado para uma viagem sem chuva. A tormenta daqueles dias não mostrava ares de amainar. Lucídio, um homem alto, vigoroso e de intensos olhos azuis brilhando no rosto fino, era um abastado proprietário rural da classe senatorial dos clarissimi, o que lhe garantia a protecção do império. A sociedade romana, emparedada em classes estanques, praticamente impedia o movimento ascendente dos cidadãos. Mas a deusa Fortuna fora-lhe generosa, fazendo-o nascer no berço da alta aristocracia provincial hispânica.
Décadas antes, necessitando de pecúlio para a guerra e de deslumbrar o povo com o fausto imperial, o imperador Diocleciano decidira criar uma novidade tributária: a avaliação da contribuição fundiária em caput ou jugum, unidade fiscal ligada à capacidade produtiva de cada propriedade. Já viste como vão os tempos, meu irmão?! Onde param os valores do império que tão longe levaram os romanos?! Sabino, o irmão mais velho de Lucídio, comia com vagar um naco de pão com queijo, oriundo da sua villa, no sul da Galécia, junto à foz do Tamaca. Ambos mantinham residência na capital da província, para estarem mais próximos do poder público curial e do governador. A casa, com as termas e jardins, fora herança de um tio rico e sem filhos, construída numa área abandonada que este comprara à cidade. Tens razão! O império anda desvairado e nem os velhos deuses nos valem! Com certeza que ouviste falar dos tumultos com os cristãos… Não se fala de outra coisa! Parece que se tomaram de razões durante o culto a Mitra». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Chamar-te-ás Prisciliano, em homenagem à tua mãe e aos sacrifícios que me causaste ao nascer!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A Villa Aseconia era herança de Lucídio, uma das muitas propriedades da família espalhadas pela Galécia. Após o casamento, o marido de Priscila mandara remodelar o quarto do casal, decorando-o com um belo conjunto de mosaicos que compunham uma formosa Vénus rodeada de um séquito de Nereides, por entre golfinhos, cavalos-marinhos e outros animais aquáticos. Lucídio Danígico Tácito fizera esta escolha pessoal em sinal de evocação da paixão com que Priscila o tocara. Mas, naquele momento, ninguém tinha tempo ou discernimento para apreciar a preciosa relíquia do talento hispano-romano. O nascimento de Prisciliano foi um acto sofrido quer para a mãe quer para o bebé. A criatura não tomou consciência do momento, não saberia nunca explicar os custos e as demoras por que passara desde que a sua frágil cabeça alcançou a luz e respirou pela primeira vez o ar quente do quarto materno, naquela manhã de tormenta. O desespero fora tanto como o de sua mãe. Um rosto choroso espreitou o mundo por debaixo da abertura do alto cadeirão. A parteira afanava-se nos trabalhos, porque o corpo era grande de mais para uma via tão estreita. Os gritos de ambos misturaram-se no ar, ultrapassaram portas, janelas e paredes, sobrepondo-se às pesadas bátegas da chuva, e ouviram-se nas várias dependências da villa. Os criados pararam os trabalhos. Uns reuniram-se em volta das lareiras, invocando os jovens Lares protectores da Villa Aseconia, outros espreitaram de novo os voos dos pássaros procurando adivinhar o destino, ao passo que os restantes o faziam perscrutando, seguindo a boa tradição augúrica, as vísceras de animais que, como exímios especialistas, tinham sempre à mão para as urgências. E era o caso. As mulheres refugiaram-se aos pés de um pequeno oratório, situado num recanto da zona onde viviam os colonos, para invocarem Juno Lucina, a deusa protectora da gravidez e do parto.
Mas não foi a um áugure, ou a qualquer dos ilustres habitantes do panteão romano, que Priscila recorreu no momento de todas as verdades. Salva-nos, Ísis, rainha dos céus! Ajuda-nos, ó mãe dos deuses! Num ímpeto final, expeliu a criatura acompanhada de um líquido transparente, matizado de sangue. A mãe, rasgada, derramava-se em lágrimas de alívio. Cá está! É um rapaz! Um rapagão, minha senhora! Valéria exibia o petiz, depois de o ter depositado no chão, inspeccionado detalhadamente, de o ter lavado e aconchegado numa manta de seda, enquanto Priscila recuperava das dores. Tomou-o, por fim, delicadamente, pelas mãos e amorou-o, sem pressa. A criança acalmara-se, entretanto, e abriu os olhos como que a adivinhar o mundo novo onde viera desaguar, sem o haver escolhido. Ao redor, as escravas encostavam-se às paredes, presas no momento. Só a chuva galaica carpia, lá fora. Os criados, informados do sucesso do parto, acenderam velas e receberam uma refeição reforçada como benesse pelos bons auspícios que ali se geraram. Os olhos da jovem mãe eram o espelho do seu mundo interior. Brilhavam de alegria, alívio e emoção. Mas, no íntimo, surtia-lhe uma névoa de preocupação que não conseguia discernir. Chamar-te-ás Prisciliano, em homenagem à tua mãe e aos sacrifícios que me causaste ao nascer!, sentenciou Priscila, cerimoniosa. Gaio Danígico Prisciliano. Apertou-o levemente contra o peito, deleitada». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «Ao entrarem no túmulo desta terceira Meresanq, um choque! Uma visão única, um conjunto esculpido que, tanto quanto sabemos, só existe nesta morada eterna»

Cortesia de wikipedia e jdact

Hetep-Heres, a mãe de Queops
O tesouro da rainha, mãe do rei
«(…) Se o estranho túmulo de Hetep-Heres, espécie de relicário que lembra o túmulo de Tutancámon, abrigava os chamados canopos destinados a receber as vísceras da rainha, ignoramos por que razão a múmia foi deslocada, supondo que alguma vez tenha estado no sarcófago. Será que uma alteração do programa arquitectónico levou os construtores a escavar outro túmulo para a rainha? Será que consideravam Hetep-Heres como uma faraó, dispondo assim de uma sepultura para o seu corpo mumificado e outra para o seu ser luminoso? Talvez novas escavações em Dahxur e Gize nos tragam respostas. Esperemos que um fotógrafo ponha o pé no lugar certo...

A enigmática Meresanq
Uma grande linhagem
Os nomes de Quéops, Quéfren e Miquerinos celebrizaram-se graças às suas três pirâmides erigidas no planalto de Gize. Esta prodigiosa quarta dinastia (cerca de 2613-2498 a.C.) viu nascer estes gigantes de pedra, verdadeiros centros de energia espiritual, raios de luz petrificados que permitiam à alma real ascender aos céus para se juntar às divindades e guiar os humanos sob a forma de estrela. Os baixos-relevos das sepulturas desta época mostram-nos um Egipto próspero, cuja riqueza se baseia numa administração rigorosa e eficaz, numa agricultura diversificada, numa criação desenvolvida e num artesanato de excepcional qualidade. Entre as altas personalidades da corte houve três mulheres com o mesmo nome, Meresanq, que parecem formar uma linhagem. Duas possíveis traduções para este nome notável: ou Ela ama a vida ou a Viva (uma deusa, provavelmente Hator) ama-a. Seja qual for a solução, o relacionamento directo de uma linhagem feminina com o conceito essencial de vida sublinha uma vez mais o papel proeminente da mulher na civilização do Antigo Egipto. Não sabemos nada acerca da primeira Meresanq; foi talvez a mãe do faraó Snefru, fundador da quarta dinastia e construtor de duas colossais pirâmides na estação de Dachur. A segunda Meresanq parece ter sido filha de Quéops. A terceira reserva-nos uma magnífica surpresa.
Numa das ruas de sepulturas do planalto de Gize, a leste da pirâmide de Quéops, abre-se a estreita porta de uma bela e grande morada eterna escavada na rocha para Meresanq III. A sepultura fora preparada por uma rainha de nome Hetep-Heres, como mãe de Quéops, mas que não devemos confundir com ela, existe uma dificuldade insuperável em estabelecer as genealogias egípcias! Esta Hetep-Heres era a filha de Quéops; tinha, pois, o nome da sua mãe e era muito dedicada à sua filha Meresanq, a terceira com o mesmo nome, e certamente esposa do rei Quéfren. Ao entrarem no túmulo desta terceira Meresanq, um choque! Uma visão única, um conjunto esculpido que, tanto quanto sabemos, só existe nesta morada eterna. Brotando da pedra, uma confraria formada por dez mulheres de pé, de idades compreendidas entre a adolescente e a mulher madura. (dois grupos distintos: o primeiro formado por três mulheres, encabeçadas pela superior e o segundo por sete, quatro adultas e três mais jovens, por ordem decrescente de estaturas). Quando penetramos pela primeira vez neste lugar que nos enfeitiça, temos a impressão de que estas mulheres estão vivas, que os seus olhos nos contemplam e que continuam a proferir as frases rituais indispensáveis ao bom andamento do mundo. E à medida que permanecemos neste lugar de uma rara força, a impressão confirma-se. Intimamente ligadas à rocha, estas estátuas foram animadas por magia e contêm ainda o ka, o poder imortal que faz delas estátuas da Luz.
Como Meresanq tinha acesso à Casa da Acácia, podemos supor que está representada na companhia das irmãs da confraria, e que a transmissão se faz da mais antiga à mais nova, passando por etapas intermédias. De resto, duas delas abraçam-se: a mais velha pousa o braço esquerdo sobre os ombros da sua discípula, a qual passa o braço pela cintura da sua iniciadora. Um profundo sentimento de comunhão desprende-se deste grupo de dez mulheres unidas para sempre pelos laços de uma mesma experiência de eternidade; contemplando-as no silêncio da capela, compreendemos a verdadeira dimensão das egípcias. A mãe, Hetep-Heres, é igualmente representada com a sua filha Meresanq em diversos episódios rituais, durante os quais a mais velha ensina a sua sabedoria à mais nova; é assim que as duas mulheres exploram os pântanos de barco para colherem flores de lótus. Não se dedicam apenas ao culto das divindades, também preservam o perfume da primeira aurora, quando a vida nasceu da Luz. Durante este passeio de barco, a mãe revela à filha o segredo do lótus, a partir do qual se desenvolveu a Criação». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.
                                                                                                                            
Cortesia de EASA/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «A ausência de superestrutura e a dissimulação propositada do jazigo levavam a crer no carácter secreto da sepultura. Mas porquê este segredo?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Hetep-Heres, a mãe de Queops
O tesouro da rainha, mãe do rei
«(…) O equipamento que levou para o Além era notável: baixela em ouro, um dossel em madeira e cadeirões revestidos a ouro, uma cama e a sua cabeceira, colares, cofres, recipientes de cobre e de pedra, pulseiras de prata com incrustações de cornalina, lápis- lazúli e turquesa, um pequeno cofre de madeira dourada contendo dois rolos para guardar estas jóias. Obras-primas como as bandejas e as taças de ouro, ou o pote de cobre, demonstram o génio dos artífices do Antigo Império. A peça mais extraordinária é por certo a liteira, descoberta em peças soltas e depois montada e exposta no Museu do Cairo, com outros elementos deste tesouro de uma espantosa perfeição, que só por si revela o requinte da corte de Snefru e de Quéops, o seu amor pela sobriedade e pela pureza das linhas. Importante pormenor: estas maravilhas criadas para a eternidade, e não para o mundo passageiro dos humanos, estavam destinadas aos paraísos do Além onde vive a alma de Hetep-Heres. Graças aos adornos, a sua beleza permanecerá inalterável; graças à preciosa baixela, poderá celebrar um banquete perpétuo.
A magnífica liteira da mãe de Quéops é um símbolo associado à sua função. De facto, a rainha do Egipto possuía os espantosos títulos de lite ira de Hórus e de liteira de Set; também se chamava a Grande que é uma liteira. Aparecia assim como o suporte em movimento dos deuses Hórus e Set, os irmãos inimigos que se reúnem e apaziguam na pessoa do faraó. Assim como Ísis é o trono de onde nasce o rei do Egipto, a rainha é a liteira que permite ao monarca deslocar-se, e portanto estar em acção.
Os títulos da grande dama informam-nos acerca das suas tarefas rituais: mãe do rei do Alto e Baixo Egipto, companheira de Hórus, superiora dos talhantes da Casa da Acácia, para a qual tudo o que ela formula se realiza, filha do deus, do seu corpo, Hetep-Heres.
A Casa da Acácia está associada ao mistério da ressurreição, ao qual todas as rainhas estiveram ligadas. Mas debrucemo-nos por um instante sobre o título de mãe do rei, que será utilizado até à última dinastia. Dizemos título porque é certo que a expressão não designa obrigatoriamente a mãe carnal de um faraó. A filiação corporal é proclamada, mas é impossível afirmar a existência de laços familiares mais concretos. A mãe do rei tinha o direito de transmitir ao futuro faraó a energia constantemente produzida pelo universo divino; por isso está muitas vezes presente ao lado do monarca durante os grandes ritos e encarna a continuidade dinástica. Presta-se culto à mãe do rei na sua qualidade de origem espiritual da monarquia. O leito de ressurreição de Hetep-Heres, admiravelmente confeccionado, servia não só para o eterno repouso da grande rainha mas também para a sua perpétua união com o princípio criador para que gerasse o rei.

Nota: Uma das palavras que serve para indicar a liteira, betes, é também o nome de um dos ceptros utilizados pela rainha e que lhe permite, nomeadamente, consagrar um edifício transformando-o em centro de produção de energia sagrada.

A arqueologia deve ser rigorosa e científica, mas é praticada por homens e mulheres que inevitavelmente interpretam os factos em função dos seus conhecimentos e do seu nível de consciência. No início do século XX, sábios reconhecidos como o alemão Erman consideravam a religião egípcia como um monte de tolices; recentemente, Jan Assmann, outro egiptólogo alemão, demonstrou que o pensamento egípcio, mais preocupado com o conhecimento do que com a crença, constitui uma dimensão espiritual insubstituível e insubstituída. Por muito arqueólogo que fosse, Reisner não se contentou com o estudo objectivo da sepultura da rainha Hetep-Heres. A ausência de superestrutura e a dissimulação propositada do jazigo levavam a crer no carácter secreto da sepultura. Mas porquê este segredo?
E Reisner pôs-se a imaginar. Sendo esposa de Snefru, construtor de duas grandes pirâmides na estação de Dachur, Hetep-Heres teria sido aí enterrada para ficar perto do marido. Infelizmente, talvez os ladrões tivessem saqueado a sua sepultura, lançando Snefru num profundo desespero. Este teria, pois, decidido retirar os despojos da sua esposa do túmulo de Dachur a fim de a esconder para sempre no jazigo secreto de Gize, mas a múmia destruiu-se provavelmente durante o transporte e ninguém teria ousado anunciá-lo ao rei. Eis o motivo por que a sepultura secreta de Gize estava vazia! Se sublinhámos as hipóteses, foi porque esta trágica história só existiu na imaginação de Reisner. Infelizmente, foi por vezes recopiada como uma verdade histórica...» In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.
                                                                                                                            
Cortesia de EASA/JDACT

domingo, 11 de fevereiro de 2018

As Egípcias. Christian Jacq. «O nome da legítima ocupante do local era Hetep-Heres, que provavelmente significa “o faraó é plenitude graças a ela”. Uma grande personalidade, visto que era esposa do faraó Snefru»

Cortesia de wikipedia e jdact

Merit-Neit, a primeira faraó do Egipto?
Uma rainha ao leme
«(…) As escavações arqueológicas revelaram várias sepulturas de mulheres das primeiras dinastias: rainhas, mães de reis ou personalidades da corte; estas descobertas provam o respeito pela mulher e ao mesmo tempo a sua eminente posição nas altas esferas do Estado. Uma destas rainhas, esposa do último faraó da segunda dinastia (cerca de 2700 a.C.), merece especial menção: Ny-Hepet-Maat, o leme pertence a Maat, considerada como a antepassada da terceira dinastia. Embora nada saibamos a seu respeito, o seu nome é revelador. Se por vezes referimos o carro do Estado, os egípcios preferiam dizer o navio do Estado, pois o Nilo era o rio nutriente e a grande via de circulação. O facto de uma rainha ser considerada o leme, demonstra que é capaz de orientar correctamente o barco. É sobretudo assimilada à deusa Maat, a base da civilização egípcia. Podemos traduzir a palavra Maat por Ordem, desde que nela incluamos as ideias de ordem universal, de harmonia cósmica, de eterno equilíbrio do universo, de justiça celeste que inspira a justiça humana, de rectidão, de solidariedade entre os seres vivos, de verdade, de justa repartição dos deveres, de coesão social, de sabedoria. Maat tem na cabeça uma pluma, a rectriz, que permite dirigir o voo das aves; é também ela que inspira a acção quotidiana do faraó. De facto, o seu primeiro papel consiste em colocar Maat no lugar da desordem e da injustiça, lutando contra os defeitos inerentes ao ser humano: o esquecimento, a preguiça, o desinteresse pelos outros, a teimosia cega e a avidez. O faraó deve dizer e fazer Maat, para que o Estado seja o reflexo justo da harmonia cósmica. Por isso, como Assmann demonstrou, o faraó, súbdito de Maat e servo do seu povo, não pode ser um tirano e deve proteger o fraco contra o forte e combater as trevas, é o vínculo que assegura a coesão entre os humanos, o vínculo entre a comunidade dos homens e os poderes criadores. Foi esta concepção grandiosa e efectiva que permitiu que a instituição faraónica durasse três milénios. Para o historiador, a rainha Ny-Hepet-Maat, como Merit-Neit, não passa de uma sombra fugaz; mas, graças aos seus nomes, estas mulheres encarnam a grandeza da aventura egípcia e fornecem-nos a chave para a sua decifração. O facto de Maat ser uma deusa e de as rainhas do Egipto serem as suas encarnações terrestres significa que confiavam à mulher a mais vital das responsabilidades.

Hetep-Heres, a mãe de Queops
No dia 2 de Fevereiro de 1925, a equipa do arqueólogo americano Reisner procedia à exploração do planalto de Gize, no grande cemitério real situado a leste da fenomenal pirâmide de Quéops (cerca de 2589-2566 a.C.), muitas vezes chamada a Grande Pirâmide. Aí se encontram também três pequenas pirâmides de rainhas cujas capelas de culto, abertas sobre a face oriental, dão para uma alameda. Nesse dia, o fotógrafo da expedição decide instalar-se na extremidade setentrional da alameda para tirar fotografias. Como qualquer bom profissional, prepara cuidadosamente o material e assenta o tripé de maneira a estabilizá-lo, uma operação mil vezes repetida, um acto rotineiro. Mas desta vez encontrou um pequeno obstáculo, pois um dos pés enterrou-se numa cavidade. O técnico deparou-se então com uma camada de gesso. Tratava-se, evidentemente, de uma obra humana, uma espécie de ardil destinado a imitar o solo rochoso. Os escavadores encontraram uma trincheira rectangular obstruída por pequenos blocos de calcário que escondiam uma escada prolongada num túnel que conduzia a um poço, também obstruído por pedras. A excitação aumentou: tratar-se-ia de uma sepultura inviolada? A quem pertenceria?
Depois de desobstruírem o poço, os escavadores acederam a um nicho contendo ânforas, o crânio e as patas de um touro embrulhadas em redes: uma oferenda que mitigaria a sede do proprietário da sepultura, que também dispunha do poder criador do touro. A 8 de Março de 1925 chegou-se à câmara funerária, uma pequena sala talhada na rocha. Uma sala... inviolada!

O tesouro da rainha, mãe do rei
A 25 m da superfície do solo encontrava-se, pois, uma sepultura secreta a que nenhum salteador tivera acesso. A presença de um sarcófago levava a crer que haviam descoberto uma múmia, mas estava vazio. Passada a decepção, contemplaram os múltiplos objectos contidos na sepultura, cujo exame exigiu 1500 páginas de notas e 1700 fotografias. O nome da legítima ocupante do local era Hetep-Heres, que provavelmente significa o faraó é plenitude graças a ela. Uma grande personalidade, visto que era esposa do faraó Snefru e a mãe do construtor da Grande Pirâmide». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.
                                                                                                                            
Cortesia de EASA/JDACT

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Vemo-la desencostar-se devagar sem deixar de se fitarem, as mãos tremem-lhe agarradas ao fato, agarradas à boca. Recua debaixo do olhar seco da outra. Será uma acusação?»

jdact

A Imobilidade
«(…) Um silêncio brusco entrecortado pelos passos dela. A mulher detém-se no cimo da escadaria de pedra velha, carcomida. A imobilidade dos seus olhos adere às paredes, ao chão, à pedra, à noite imobilizada entre as suas pernas. A escada contorna uma curva, lá em baixo. Desce. Mas por enquanto, daqui, vemo-la ainda quieta, o gesto detido perto das ancas, ambas as mãos abertas coladas ao fato, ambos os punhos cerrados colados aos lábios. Sabemos que olha, que olha assim as casas: as portas estreitas das casas, as janelas pequenas escuras. Sabemos e sentimos o seu horror, um terror que lhe escapa sem ruído e nos envolve cá em baixo, enquanto a esperamos. Desce. Daqui vemo-la descer e hesitar perante cada porta, como se pretendesse entrar ou como se tivesse que entrar e tentasse fugir no último momento ao sentir o bafo húmido daqueles buracos sombrios lamberem-lhe a pele, os braços nus. Desce. Vemo-la descer esquecida da nossa presença aqui, esquecida dos seus passos demorados atrás de nós, alheia, a pegar-se àquelas paredes, àquelas casas, a toda aquela pedra imemorial, secular, presa de um terror, de um medo informe, crescente, sempre que se cruza com alguém daqui, sempre que o seu olhar se perde dentro dos fétidos buracos escancarados das janelas. Ei-la que pára ainda. Não a chamamos. Aguardamo-la tomados em parte pelo seu pavor, pregados a um silêncio quase louco no centro deste calor sem perdão que hoje percorre a cidade, principalmente esta parte da cidade, nascida como que espontaneamente na encosta suave de uma colina. Sem nos movermos, sem nos cansarmos, vemo-la descer, hesitar, olhar crispada para dentro das casas, ambas as mãos abertas coladas ao fato, ambos os punhos cerrados colados aos lábios, esquecida da nossa presença, sem se pensar observada: esquecida de tudo, tomada apenas por um pânico intenso. Os saltos largos dos seus sapatos brancos têm na pedra carcomida um som em desequilíbrio constante e o azul lavrado do fato de seda natural, leve, solto, repercute-se estranhamente na cor cinzenta das paredes. Não é um contraste: é estranho como não é um contraste mas sim uma afirmação, ali. Apenas uma mulher. A mulher desce a escadaria de pedra secular e é como se tivesse estado sempre lá através dos anos. Passa os dedos de demoradamente como se apalpasse um corpo de homem novo, adormecido, e o quisesse apenas sentir sem o acordar. Desce. Sem saber que se afastou de nós, nem que a esperamos, olha como se reconhecesse algo, como se temesse a memória ou o futuro, como se se previsse ali para sempre e não pudesse fugir. Move as pernas como num sonho, devagar, devagar, devagar: os cabelos pesando na claridade dos olhos, devagar, devagar, os dedos devagar pelas paredes num tactear brando, estonteado, devagar..., devagar..., devagar..., estonteado. Olha-mo-la suspensos dos seus gestos, do seu voltear demorado à medida que desce para o largo onde a esperamos emudecidos, extáticos, abrangidos pelo seu terror, pelo seu medo sem memória. Ali. A mulher desce, tropeçando por vezes como se tivesse bebido, mas logo se equilibra encostando-se à pedra cinzenta, enegrecida das casas, ao umbral de uma porta, e deixa cair a cabeça sobre um dos ombros descobertos pela alça estreita do vestido. Daqui vemos o volto que se vai aproximando dela; através da sombra acastanhada do buraco que a porta escancara, descobre, vai-se aproximando trôpego, curvado, um pouco curvado apenas, menos do que nos parecera ao princípio, afinal. Ela ainda não o viu, talvez tenha os olhos fechados, cansada. A mulher, no limiar do portal, olha-a como nós, sem qualquer surpresa. Fixa-lhe apenas o vestido, os sapatos, os braços nus, o pescoço encoberto, os cabelos, o vestido, a boca, o vestido. Sem idade, olham-se. Há quanto tempo teria aberto os olhos? Desencosta-se, devagar. Vemo-la desencostar-se devagar sem deixar de se fitarem, as mãos tremem-lhe agarradas ao fato, agarradas à boca. Recua debaixo do olhar seco da outra. Será uma acusação?» In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «… tentando ultrapassar no tempo a marca profunda deste em tudo; a cabeça derrubada devido ao peso da abundância dos cabelos enrolados perto da nuca, quase soltos, quase livres»

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O Sono
«(…) Perto da balaustrada onde me encosto, recebendo no rosto a aragem dormente que se levantou há pouco e parece mover as pregas transparentes da túnica de pedra, da túnica transparente da mulher que resguarda os seios com as mãos: uns seios de pedra numas mãos de granito, ossudas, distendidas. E ela, sem a olhar, encosta a cabeça às
suas pernas frias, imóveis. Vejo-lhe daqui o tecido branco, leve, do fato esvoaçando brandamente em redor do seu corpo. Leve. Demoro-me já no terraço enorme, a gozar o enorme silêncio da madrugada sobre o sono dos outros, entrecortado ou profundo, que ainda permanece intacto; um silêncio que o deslizar dos seus pés descalços não desfaz, nem o esvoaçar do meu fato negro somente preso no pescoço, quebra de encontro à estátua que não olho e da qual apenas sinto o contacto na pele da minha nuca descoberta. Lá em baixo o jardim é um universo vazio. O buxo, aparado rente, delineia as áleas. A mulher entreabre os olhos. Vejo-a tremer no seu fato branco, tão leve; quase transparente. Encostada à balaustrada cinzenta de pedra trabalhada, olho o portão de grades, lá no fundo, fechado. E a mulher entreabre os lábios, pouco-a-pouco. Há na sua voz um acento febril, imperfeito, às vezes apático mas sempre febril.

O Tempo
A saia de brocado bordado a pequenas pérolas, o corpete justo igualmente de brocado, bordado a ouro geometricamente em redor dos seios pequenos, brancos, junto ao decote grande, profundo. O pescoço esguio, um pouco inclinado, sustenta uma cabeça pequena quase derrubada parece que devido ao peso dos cabelos negros, enrolados, abundantes, perto da nuca, dando a impressão constante de se irem desmoronar, soltar-se e correrem pelas costas: quentes, livres, numa alegria espontânea, até às ancas ou mesmo mais abaixo já nas coxas encobertas, certamente de pele tão branca como a do pescoço, quase mármore ou quase areia; e as mãos, uma solta sobre o brocado bordado da saia comprida, pesada, a roçar o chão ao de leve, a outra na borda do tampo de uma mesa de madeira trabalhada ou talvez seja apenas o efeito do tempo sobre a pintura que dê essa impressão e que pelo contrário ela seja lisa, brilhante: também nos olhos, melhor, no olhar vago, existe uma nebulosidade, um vácuo, provavelmente devido à tinta deteriorada ou a qualquer mancha de luz, a qualquer brilho, a qualquer sombra de ramo de qualquer árvore do parque, projectada através das enormes janelas em determinados pontos da sala, sabe-se lá se até ao negro dos seus cabelos, inclinada sobre o quadro que segura a aproximá-lo dos olhos.
Inclinada, disse eu, a erguê-lo do chão por de trás da arca desconjuntada, as pernas de encontro aos pregos amarelos agora ferrugentos da arca, as pernas já magoadas a sustentarem, a equilibrarem o corpo. Aproximou mais o quadro enquanto se ia endireitando, aproximou-o mais para logo o afastar num movimento brusco, repelindo-o para melhor conseguir ver a mulher ou apenas repelindo-o instintivamente? Encosta-o à parede por detrás da arca com a moldura suja, estragada, a ver-se-lhe o dourado aqui e além. Deixa-o no chão. O olhar vago, nebuloso, adquire um brilho novo... Endireita-se sem deixar de fitar a mulher, a boca apenas um risco mais pálido na palidez do rosto. Durante segundos conserva as mãos estendidas como se fosse tornar a erguê-lo; a pedra facetada do anel brilhando na penumbra, pesando na mão direita, os dedos tensos. Vê a saia bordada a pequenas pérolas dissimulando as pernas, o pescoço derrubado e aquele ar alheio, um completo vácuo, uma completa e total indiferença escondida numa frieza contradita pela humidade da boca. Deixa os braços caírem de maneira cortante como se quisesse rasgar a enorme quantidade do tempo, tempo secular, profundo, mudo, que as separa..., e é assim que a fita: como se através de todo aquele tempo sem movimento algum, sem memória, do qual não tem conhecimento, do qual ninguém lhe falara, pretendesse entrar, mergulhar e unir-se a ela tal como uma pele, uma pele quase mármore, quase areia, a sua pele de anémica escondida num tom de sol, sol absorvente, lá fora gorduroso ou seco, conforme as horas do dia. E eram os olhos de tal maneira claros que se diluíam perante uma luz mais forte, que se intensificavam, velados na obscuridade, repletos sempre de um vácuo que recusava qualquer aproximação. Fitava-os, todavia fitava-os, tentando destruir a barreira mole, peganhenta da indiferença, tentando ultrapassar no tempo a marca profunda deste em tudo; a cabeça derrubada devido ao peso da abundância dos cabelos enrolados perto da nuca, quase soltos, quase livres». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Primeiro sinto o seu olhar preso no meu corpo, depois na minha cara. Por instinto ergo as mãos até à boca como para abafar um grito»

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O Silêncio
«(…) De olhos fechados, sentia dos outros os passos moles na areia. Encolhia-se por dentro até eles passarem e depois, com alívio, entreabria as pálpebras para vê-los já ao longe, quase sempre devagar a afastarem-se ainda e ainda, certamente até lá diante onde estavam as barracas, para aí se deixarem cair na sombra sob os toldos. E ela via-os através da neblina crispada do calor, uma espécie de hálito ou cortina. E logo era o silêncio: o silêncio côncavo do mar. A praia. Sentava-se inundada de sol, os olhos cerrados, encostava a cara aos joelhos erguidos e ficava assim sem pensar, numa dormência boa, anestesiada pelo calor. Os braços à volta das pernas eram um cordão bronzeado, brilhante de suar, e os cabelos, apanhados ao acaso e presos por ganchos ao alto da cabeça, escapavam-se e colavam-se-lhe ao pescoço, até mesmo à cara: húmidos, baços. Foi assim que a vi, olhei-a e tive a sensação nítida que adormecera. A pele do corpo era lisa, toda ela igualmente queimada pelo sol, sem manchas. A cara só então a descobriu, de súbito. Ainda mais devagar continuei pelo risco que o mar deixava na areia, um traço cravejado de pequenas pedras e conchas partidas, pequenos búzios e algas esgarçadas de um verde profundo. Olho-a: à medida que me aproximo atraso o passo, mais e mais. Com os braços em redor das pernas e o olhar vazio pregado no mar, parece antes uma estátua qualquer de qualquer fonte ou jardim, qualquer museu. Hesito. Há dias que hesito, acabando por continuar sempre sem nunca lhe falar. Naquela sua atitude ostensiva de fuga existe uma tal apatia que estremeço e irresistivelmente paro; hoje finalmente. Primeiro sinto o seu olhar preso no meu corpo, depois na minha cara. Por instinto ergo as mãos até à boca como para abafar um grito. Será o ódio que lhe obscurece de maneira tão singular a cor raiada da íris? (Sem mover um músculo, sem mostrar qualquer curiosidade, imóvel, ela olha-me.) Sim, é apenas o calor; como é apenas o calor que lhe faz descerrar os lábios quando à noite aparece no terraço do hotel, de ombros sempre nus, onde ele apoia o braço firme a roçar o amarelo esbatido do fato, ou quando na grande sala de jantar as mãos lhe tremem sobre a toalha branca. Imóvel; olho-a. Deixo as mãos sobre a boca e estremeço como se um súbito vento se tivesse levantado para me contornar o corpo. Sem nenhuma surpresa perante a minha atitude, ela deixa os olhos nos meus. O que talvez me apavore, o que me enche de uma vontade louca de gritar sem conseguir ir-me embora, nem de lhe contar o que afinal tenho de urgente para dizer, é a tamanha indiferença daquela mulher, a tamanha apatia. De olhos fixos, duros, nos seus, vê-a hirta, o grito suspenso agarrado pelos dedos. Contraída, espera que continue, que se afaste como os outros, mas à medida que o tempo passa compreende a diferença; retrai os dedos entrelaçados nos joelhos. Recorda-se agora perfeitamente: a mulher que à noite aparece no terraço, de vestido branco ou talvez amarelo muito claro, esbatido, os ombros sempre nus onde ele apoia o braço firme. O olhar vago não se lhe detém em nada e os dedos que lhe vê tremer neste momento sobre a boca tremem todas as noites sobre a toalha branca, ansiosos, quase enlouquecidos. Ou será o calor? A pergunta que faço, nauseada, enquanto ela me fixa, os braços à roda das pernas.

O Sono
Há na sua voz um acento febril. Às vezes apático mas febril. Encostada à balaustrada de pedra cinzenta, granitada, vejo-a de perfil, no seu vestido branco, leve, movido pela aragem morna que se levantou lá em baixo no jardim sobre o qual se debruça, encostando os quadris magros ao peitoril áspero, sem temperatura, somente grosso ao tacto e de um odor acre, sempre acre, em qualquer estação do ano. Demoro-me, já no terraço enorme. Demoro-me a vê-la mover-se no seu vestido negro quase transparente; a mover-se em redor da enorme figura de pedra, sem a olhar: uma mulher amparando nas duas mãos abertas os peitos nus, ofertados, firmes. Vejo-a..., é uma estátua como tantas lá em baixo no jardim, mas a única aqui, no terraço». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa América, colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «… escorregando e caindo sobre o chão de mármore da Casa de Deus por causa dos próprios excrementos, que sujavam e maculavam o edifício mais glorioso da cristandade no Oriente»

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Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) Tu não precisas de entender coisa nenhuma, retorquiu, num tom algo exasperado, apenas tens de agir de acordo com o que a Igreja te impuser! Não te cabe perguntar qual é a vontade do Senhor! Não era minha intenção... Então basta de filosofias absurdas! A fé é a maior virtude de que um homem se pode gabar! Tem fé e concentra-te em servir a Nosso Senhor Jesus Cristo. Nada mais interessa. E ninguém te pede que penses! Vê se aprendes de uma vez que a humildade, virtude muito necessária, te deve levar apenas a obedecer ao que te ordena o teu superior! O silêncio daquele amanhecer nefasto contrastava com o ruído dos dias anteriores, em que, em ambos os campos, se podia ouvir o martelar constante dos que fabricavam as máquinas da morte. Não havia vento quando os barcos zarparam da margem ocidental do Bósforo para cruzarem o Corno de Ouro e se aproximarem o mais que lhes fosse possível da muralha que defendia a cidade. Em poucas horas, os gritos dos homens que se viam diante de uma morte dolorosa, as ordens dos comandos militares, que tentavam controlar as manobras das suas tropas, o tilintar das espadas, o sibilar das flechas e o choque dos projécteis contra a muralha envolveram todo o horizonte com o seu estridor.
Assisti àquela batalha cruel do outro lado do Corno de Ouro, a salvo das flechas e dos artefactos lançados pelos hereges gregos contra os bravos que levavam a Cruz gravada no peito. Naquele dia, transformei-me num espectador mudo e cobarde de um tremendo e real espectáculo de morte, destruição, sangue e sofrimento. Passadas horas de uma angústia pesada, chegou a tarde e, com ela, a vitória dos latinos, que nos abriu as portas da cidade. O abade Martín fez-nos sinal para que o seguíssemos para embarcarmos num navio que nos levasse à outra margem. Já era possível aceder, com alguma segurança, à Princesa das Cidades, como eu já tinha ouvido alguns chamarem à grandiosa Constantinopla. Caminhámos pelas ruas, e o que nelas vi horrorizou-me tanto que será impossível apagar essas imagens da minha memória até ao dia em que o Senhor me chame à sua presença. Os latinos, os mesmos que, no dia anterior, tinham recebido o sacramento da penitência, confessando os seus pecados, e tornado a hóstia sagrada, os mesmos que levavam por bandeira a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, agiam como se uma loucura tornada fervorosa em nome da causa santa lhes tivesse transtornado a consciência. A gula da pilhagem e a embriaguez do sangue e do poder da espada estavam a levar ao saque total da cidade e ao massacre das gentes que nela moravam. A crueldade mais brutal estendia-se a todo o lado; anciãos assustados e indefesos caíam diante das patas dos cavalos, que lhes passavam por cima, trucidando-lhes os corpos fracos e cansados; os filhos eram arrancados dos braços das mães e atirados ao chão, perante o horror dos rostos maternais. Toda a gente era vítima da barbárie e eu limitava-me a olhar atónito, absorvido pelo horror, incapaz de impedir sequer uma daquelas mortes! Como que numa loucura colectiva, foram profanados lugares sagrados, espalhados objectos de culto e espezinhadas todas as imagens sagradas, sem escaparem, sequer, as imagens de Jesus Cristo e da Sua Mãe Santíssima. Ao passar diante da Igreja de Santa Sofia, pude ver as bestas de carga, ajoujadas com o saque, escorregando e caindo sobre o chão de mármore da Casa de Deus por causa dos próprios excrementos, que sujavam e maculavam o edifício mais glorioso da cristandade no Oriente». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «Custa-me a entender, padre, repeti eu várias vezes, abanando a cabeça com o olhar perdido na massa humana que ia assentando no acampamento erguido em Gálata»

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Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) As ruas da cidade encontravam-se repletas de corpos mutilados, cobertos de sangue, com feridas profundas provocadas pelo golpe certeiro da espada. Eu caminhava lentamente, cambaleando, mergulhado na embriaguez que me provocava aquela loucura desenfreada. Seguia com dificuldade a figura firme do abade Martín, que abria caminho por entre aquele marasmo de morte e crueldade. A manhã rompera clara e o céu abria-se, aos meus olhos, pintado de um azul intenso. Nada me fazia prever os acontecimentos que se seguiram e de que fui testemunha obrigada e horrorizada. Tínhamo-nos levantado de madrugada, respondendo à chamada do abade. Bernardo e eu dormíamos ao pé da sua cama, no abrigo que os soldados tinham preparado para nos acomodar havia mais de um mês. A ofensiva estava preparada e os homens tinham-se confessado e comungado no dia anterior. O abade Martín, a quem, desde que chegara ao acampamento, erguido diante das muralhas da cidade sitiada, tinha sido atribuído o comando de todos os clérigos que participavam da expedição, terminara os seus deveres a altas horas da noite, entregue à difícil missão de reconfortar as almas dos homens, conscientes de que enfrentavam uma morte terrível e impiedosa. Os sermões dos clérigos para animar as tropas para o combate tinham-se concentrado na afirmação de que os gregos da cidade de Constantinopla eram traidores e hereges, chegando a compará-los com os judeus. Ao ouvirem estes discursos, os corações enalteciam-se e a convicção de que Deus estava connosco ia aumentando à medida que as prédicas se estendiam naquele ambiente rarefeito por uma calma tensa. Os homens tinham sido obrigados a jurar, sobre relíquias sagradas, que, tanto durante a batalha como depois, procederiam de forma honesta e cristã, respeitando os adversários e, sobretudo, os cidadãos que se vissem envolvidos no combate. Foram obrigados a jurar que não cometeriam violações e que respeitariam os monges e os sacerdotes, a não ser que agissem em defesa própria, e foi-lhes proibido invadir igrejas ou mosteiros. O castigo para os que não cumprissem aquele juramento era a excomunhão, chegando-se, inclusivamente, a ameaçá-los com a execução, nos casos mais graves. Mas depois de os latinos controlarem a cidade, os meus olhos viriam a constatar que aquele juramento, feito perante o sagrado, se revelaria sem sentido.
Tanto os cavaleiros como os soldados a pé tinham de se lembrar que os inimigos que iam enfrentar também eram cristãos, apesar de serem considerados apóstatas. Eu não compreendia muito bem o contrassenso de lutarmos contra irmãos de fé, em vez de lançarmos as nossas torças contra o muçulmano, que continuava senhor da Terra Santa, mas o abade explicara-me alguns dias antes que, desde 1054, os gregos tinham renegado a autoridade do papa de Roma, e isso fazia deles hereges. É fácil, Umberto, disse-me, com um ar paciente, os homens devem seguir os desígnios de Deus, e é o próprio Cristo que exige que nos vinguemos destes inimigos da nossa fé. Portanto, os santos guerreiros da Igreja são obrigados a defender as nossas crenças acima de tudo. É isso que está a fazer o exército que aqui vês, explicou, estendendo a mão na direcção do mar de homens que se movia para um lado e para o outro numa actividade frenética, ocupados nos preparativos para a batalha, que já se avizinhava. Custa-me a entender, padre, repeti eu várias vezes, abanando a cabeça com o olhar perdido na massa humana que ia assentando no acampamento erguido em Gálata». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT 

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «Ubertino dirigiu-se ao único baú que ali havia, uma caixa enorme de madeira talhada e guarnecida com tachões de metal dourado nas quinas»

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Dezembro. 1265
«(…) A qualidade de bibliotecário permitira a Ubertino retirar do cinturão do abade o chaveiro de ferro que continha duas chaves, uma que abria a porta da biblioteca, da qual já tinha uma cópia, e outra que abria o baú que se encontrava no seu interior, chave esta que, até àquele momento, só o abade possuíra. Aproveitou a tranquilidade do momento para se dirigir ao scriptorium. Entrou naquele espaço, onde copistas e iluminadores iniciavam já o seu trabalho, colocando sobre as mesas em forma de púlpito, com uma minúcia serena, os utensílios de trabalho necessários. Atravessou aquele espaço comprido, de tectos altos e janelões amplos que se abriam, de um lado, sobre a galeria do claustro e, do outro, sobre o pomar. As carteiras tinham sido colocadas perto das janelas para que os monges desfrutassem de toda a luz possível. Apesar de o silêncio ser uma regra imprescindível para uma adequada concentração dos copistas no seu trabalho, Ubertino apercebeu-se de que, naquele dia, o silêncio era ainda mais profundo, como se uma tristeza plúmbea embargasse a vontade daqueles homens dedicados a registar o saber em pergaminhos para que este perdurasse pelos tempos fora.
Ao fundo do scriptorium encontrava-se a porta que dava acesso à biblioteca, ampliada várias vezes desde que Ubertino fora nomeado librarium e, agora, com as dimensões e a solenidade adequadas para albergar o seu conteúdo único e portentoso. Ubertino abriu a porta com a sua chave e tornou a trancá-la depois de entrar, para que ninguém o incomodasse. Levava na mão uma pequena candeia com uma vela acesa, para iluminar a estreita escada que o levaria ao andar de cima. Subiu e entrou no recinto. Esperou alguns instantes, observando, à luz bruxuleante da sua vela, aquele lugar de culto ao conhecimento. Era um espaço escuro, com tectos muito altos graças a uma abóbada erigida recorrendo à técnica que se tornara tão famosa na construção de algumas catedrais que pareciam chegar ao céu. Porém, ao contrário destas, a biblioteca não tinha janelões enormes. Em lugar daquelas enormes janelas, as paredes que admirava Ubertino estavam cobertas de prateleiras de madeira, estantes que iam do chão à base do próprio arco, e de armários fechados, tudo isto servindo de zeloso regaço ao saber de todo o mundo, reunido em códices. Apenas havia três pequenas janelas na parte superior da cúpula, suficientes para deixarem passar alguma claridade, evitando, no entanto, que a intensidade da luz e as variações de temperatura afectassem o conteúdo daquele lugar sagrado.
Ubertino dirigiu-se ao único baú que ali havia, uma caixa enorme de madeira talhada e guarnecida com tachões de metal dourado nas quinas. Encontrava-se ao pé de uma carteira onde vira o abade inúmeras vezes, lendo e escrevendo sozinho, à luz de uma candeia que só ele podia utilizar. Aquele era um privilégio seu no mosteiro, porque ninguém, para além dele, podia permanecer naquele local durante mais tempo do que o estritamente necessário, e sempre com a companhia do librarium ou do seu ajudante. Ubertino acendeu a candeia de azeite que se encontrava sobre a carteira, esquecida pelo respectivo dono desde havia meses, e apagou, de um sopro, a vela que levava na mão. Em seguida, pôs-se diante do baú e acariciou-o como se de um objecto sagrado se tratasse. Introduziu a chave na fechadura de ferro e ergueu a tampa, que produziu um chio tão cortante que parecia que se abriam as portas do Universo.
Ficou a olhar para o interior, forrado com um tecido vermelho algo puído nos lados. No fundo, lá estava a bolsa de pele que vira o abade transportar em tantas ocasiões. Recordou que o ancião à levava às costas, pendurada, no dia em que o conheceu. Pegou nela e colocou-a sobre a carteira. Sentiu um calafrio, sem saber se se devia ao facto de se sentir psicologicamente abalado ou à dolorosa visão daquelas coisas que faziam já parte do passado. Meteu a mão no interior escuro e deu com um manuscrito volumoso, encadernado com uma capa simples de madeira, forrada a couro de cabra curtido de cor parda e com os cantos gastos pelo uso. Não tinha qualquer inscrição. Abriu o manuscrito com cuidado, ouvindo, assustado, os estalidos da pele e abrandou o movimento para evitar que o pergaminho se rasgasse ou estragasse. Sentiu-se algo desconcertado, porque sentiu o coração bater mais forte. A letra era miúda e muito clara e o texto estava escrito em latim culto em ambas as páginas de cada folha, para aproveitar ao máximo o espaço do couro. Sentou-se no banco de madeira, aconchegou a túnica de frade para se proteger do frio e começou a ler. A primeira folha continha a seguinte inscrição, a tinta vermelha e com letra tremida: Brisa do Oriente». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A Verdadeira História. Margaret George. «Por volta do meio-dia, quando o sol estava mais quente, tiveram de seguir por um desvio para não passarem por um poço guardado por samaritanos»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) A luz do dia inundou o lado oriental do céu e Maria acordou a pestanejar. A sua família já estava de pé e movimentava-se, dobrando as mantas e começando a desarmar a tenda. Sentia-se meio atordoada, como se não tivesse dormido. E quando empurrou o capote que a cobria, sentiu o objecto que segurava na mão. Confusa, num primeiro momento, segurou-o e examinou-o. Tinha ainda uma ligeira camada de terra, como um véu que esconde a nudez de uma bela mulher; mas, brilhando através do seu aspecto fosco, havia um rosto, um rosto de rara beleza. Um ídolo! Exactamente como dissera o seu pai: ela sabia-o, mesmo sem nunca ter visto um. E deves afastar-te dele!, tinha dito também. Em vez disso, ela não conseguia tirar os olhos dele. O objecto atraía-a, obrigando-a a olhá-lo. Os olhos sonhadores, semiabertos; os lábios sensuais, com um sorriso que era uma curva; o cabelo espesso, puxado para trás, revelando um pescoço fino como um ceptro de marfim... Marfim. Sim, era disso que aquele..., ídolo..., era feito. Era amarelado e tinha, inclusive, algumas manchas castanhas, mas era de marfim, de uma cor creme quase translúcida. Por isso é que era leve e delicado e não era pontiagudo nas extremidades. Quem és tu?, perguntou Maria, olhando nos seus olhos. Há quanto tempo estavas enterrado ali? O seu pai veio em busca dos alforges, que estavam ao seu lado e, rapidamente, ela escondeu o objecto sob o cobertor. Está na hora de partir, disse ele, bruscamente, abaixando-se. Maria reabriu os olhos, fingindo que acabara de acordar. Caminhando lentamente ao lado do burro, agora era a sua mãe que o montava, Maria tacteava a sua nova posse, que tinha enfiado na longa tira de pano que lhe servia de cinto. Sabia que o devia ter mostrado logo ao pai, mas não quis fazê-lo. Queria guardá-lo. Sabia que ele a obrigaria a atirá-lo fora e, provavelmente, com uma praga. Maria queria protegê-lo.
Por volta do meio-dia, quando o sol estava mais quente, tiveram de seguir por um desvio para não passarem por um poço guardado por samaritanos. Novamente, repetiram-se as ameaças e zombarias que os peregrinos tentaram ignorar. Foi bom terem podido servir-se dos poços onde tinham acampado. Ficariam somente mais uma noite na Samaria; teriam de encontrar somente mais alguns poços para acampar. E pensar que foram os nossos antepassados que cavaram estes poços, e agora nem temos o direito de beber deles! Queixou-se Eli. Por toda esta terra fora existem poços que, na verdade, deviam pertencer-nos! Paz, Eli, disse Natan. Talvez algum dia tudo isso volte para os seus donos legítimos. Ou talvez os samaritanos voltem para a verdadeira religião. Eli olhava em volta, com repugnância. Não conheço escritura alguma que profetize isso. Deve estar iá algures, disse Silvanus, que nessa manhã ficara próximo da família. Tudo parece estar lá. Possuem uma riqueza de promessas, desde o Messias até à questão dos poços. O problema é saber interpretá-las. Parece que Javé não quis que as suas mensagens fossem facilmente compreendidas pelos seus seguidores». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «A noite já ia alta. Maria adormecera há já bastante tempo, com um cobertor grosso debaixo dela e o seu capote cobrindo-a»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) O resto do dia foi tranquilo. Quando passavam pelos campos ou pelos vilarejos, pessoas juntavam-se e olhavam-nos, mas não gritavam com eles nem os perturbavam. O sol passou para o lado esquerdo de Maria e começou a descer para o horizonte. As minúsculas sombras sob as árvores, modestas ao meio-dia, projectavam-se agora muito para lá dos troncos, como séquitos de príncipes. À frente, a caravana começou a diminuir o passo, procurando um lugar para acampar durante a noite. Precisavam de claridade suficiente para garantir a segurança do lugar e, certamente, haveria dificuldades em relação à água. Os poços representavam sempre problemas: em primeiro lugar, tinha de se encontrar um que desse para toda a gente e, além disso, havia a possível hostilidade por parte dos donos do poço. Já tinham morrido pessoas em disputa por um poço. Dificilmente os samaritanos diriam aos viajantes que eles eram bem-vindos aos seus poços, lhes ofereceriam baldes, acrescentando: bebam à vontade e dêem água também aos vossos animais.
Os líderes do grupo escolheram uma área ampla, plana, próximo da estrada, com vários poços. O lugar era ideal, desde que fossem deixados em paz. Por enquanto, havia pouca gente por perto e os galileus ergueram as suas tendas sem problemas, deram água aos animais de carga e usaram-na para si próprios. Depois de se terem estabelecido, foram colocadas sentinelas nos limites do acampamento. A fogueira crepitava, tal como Maria gostava. Significava que o fogo tinha uma personalidade e queria falar com eles. Pelo menos, ela sempre assim o pensara. A tenda, feita de pele de cabra, era grande o bastante para toda a família, tal como ela também gostava. Era bom estar sentada em volta do fogo, saber que estavam todos no mesmo círculo.
Agora, olhando para cada um, para o seu irmão Eli, tão bonito, e para o seu outro irmão, Silvanus, não tão bonito mas fascinante, sentiu de repente o receio de que no próximo ano, por volta desta altura, um deles já estivesse casado, e que talvez até já tivesse um filho, e que não continuasse na tenda da família, mas numa tenda sua. Não gostava da ideia. Queria que tudo continuasse como era agora, com todos eles juntos, sempre e para sempre, protegendo-se uns aos outros. A pequena família, esse pequeno círculo, tão forte e reconfortante, deveria permanecer para sempre. E, ao refrescante entardecer da Primavera samaritana, parecia que isso podia ser verdade.
A noite já ia alta. Maria adormecera há já bastante tempo, com um cobertor grosso debaixo dela e o seu capote cobrindo-a. No lado de fora da tenda, as brasas de um pequeno fogo de atalaia moviam-se isenta e gentilmente, já fracas, como o respirar de um dragão. Então, de repente, ela acordou; acordou de uma maneira estranha, como se tivesse tido um sonho aflitivo. Devagar, levantou a cabeça e olhou em volta; estava tudo pouco nítido, a luz era fraca, mas ela ouvia a respiração próxima dos outros. O seu coração batia rápido, mas não se lembrava de ter tido um pesadelo. Por que estaria tão excitada?
Volta a dormir, disse a si própria. Volta a dormir. Vê, lá fora ainda está totalmente escuro. Ainda se consegue ver as estrelas todas. Mas ela estava bem acordada e excitada. Mexeu-se, tentando encontrar uma posição confortável, virou-se no cobertor e ajeitou enchumaços que lhe serviam de almofada. Quando tentava ajeitar o cobertor, as suas mãos sentiram qualquer coisa, mesmo ao lado da almofada. Era meio pontiaguda. Curiosa, apalpou-a e não parecia ser uma pedra: era alguma coisa mais pequena, mais fina, mas não era uma ponta de flecha nem uma foicezinha, nem nada de metal. Esgravatou um pouco com os dedos e pôde sentir-lhe as arestas. Mais ansiosa, pegou no lado duro da tira de couro da sua sandália e usou-a como espátula, para desenterrar o objecto. Quando acabou por o conseguir, reparou que tinha algo gravado. Era também pálido e demasiado leve para ser uma pedra. Segurou o objecto, virando-o de um lado e do outro, mas não descobriu do que se tratava. Teria de esperar até ao raiar do dia. E então, de repente, quase por milagre, adormeceu». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Verdadeira História. Margaret George. «Toda a gente tem escolha!, continuou Eli. Alguns dos membros das dez tribos eram fiéis a Jerusalém»

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A Mulher que Amou Jesus
«(…) Falsificadores dos livros sagrados de Moisés... E alguns deles cuspiam. A mãe e o pai de Maria olhavam em frente, fingindo não os ver ou ouvir, o que os irritava ainda mais. Vocês são surdos, é? Então oiçam só! E começaram a soprar num chifre de carneiro, produzindo barulhos terríveis e fazendo assobios estranhos, cavernosos. O ódio parecia vibrar no ar. Mas os galileus não olhavam nem respondiam aos insultos. Maria tremia, sobre o seu burro, quando passou à distância de pouco mais de um braço de um punhado de rufiões. Depois, felizmente, foram-se distanciando, perdendo-os de vista e, em seguida, deixando de os ouvir. Que coisa horrível, desabafou Maria, quando conseguiu falar. Por que é que nos odeiam tanto? É uma história muito antiga, disse o seu pai. E dificilmente mudará durante as nossas vidas. Mas porquê? De onde vem esse ódio? É uma história muito comprida, disse o seu pai, com amargura. Eu vou contar, disse Silvanus, emparelhando o seu burro. Conheces a história do rei David, não é verdade? E a do rei Salomão? Claro que sim, respondeu Maria, orgulhosamente. Um, foi o maior guerreiro que já tivemos, e o outro, o mais sábio. Mas não foi sábio o suficiente para ter um filho sábio, disse Silvanus. O seu filho fez com que os súbditos ficassem tão zangados que dez das doze tribos de Israel foram-se embora do seu reino e fundaram um outro, no Norte. Escolheram um general para ser o seu rei, Jeroboão.
Jeroboão. Ela já ouvira falar dele, e o que quer que fosse, não tinha sido coisa boa. Como o povo do Norte já não podia ir ao Templo, em Jerusalém, Jeroboão mandou construir novos altares, com bezerros de ouro para serem adorados. Deus não gostou e puniu-o enviando os assírios para destruir o seu país e fazer deles prisioneiros. E foi esse o fim de dez das tribos de Israel. Desapareceram na Assíria e jamais voltaram. Adeus Ruben, adeus Simeão, adeus Dan e Aser... Mas agora a Samaria não está vazia, disse Maria. Quem são aquelas pessoas mal-educadas que gritavam connosco? Os assírios trouxeram pagãos para colonizar estas terras!, gritou Eli, que ouvia a conversa. Juntaram-se aos poucos judeus que tinham ficado para trás e deram origem a essa horrível mistura da fé pura de Moisés com o paganismo. Uma coisa terrível! Contorceu o rosto com repugnância. E não digas que eles não tiveram escolha! Maria encolheu-se. Não pretendia dizer isso.
Toda a gente tem escolha!, continuou Eli. Alguns dos membros das dez tribos eram fiéis a Jerusalém. Por isso não foram punidos nem enviados para a Assíria. Foi o que a nossa família fez. Nós éramos, e somos!, da tribo de Neftali. Mas fomos sempre fiéis! Tinha levantado o tom de voz e parecia furioso. E devemos continuar a ser fiéis! Sim, Eli, respondeu Maria, submissamente. E questionava-se como se faria isso. Ali, ao longe, apontou em direcção ao Sul, no monte Gerizim, eles praticam rituais heréticos! Ele ainda não respondera à sua pergunta, por isso ela reformulou-a. Mas por que é que eles nos odeiam? Silvanus inclinou a cabeça na direcção do irmão. Porque nós os odiamos
e o demonstramos». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

História do Novo Nome. Elena Ferrante. «O que estava acontecendo? O que teria ocorrido? Minha amiga puxava para si o braço do marido com ambas as mãos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Por fim, numa noite de Novembro, exasperada, saí levando a caixa comigo. Não aguentava mais sentir Lila acima e dentro de mim, mesmo agora que eu era muito estimada, mesmo agora que tinha uma vida fora de Nápoles. Parei na ponte Solferino olhando as luzes filtradas por uma neblina gélida. Apoiei a caixa no parapeito, empurrei-a devagar, devagar, um pouco a cada vez, até que caiu no rio quase como se fosse ela, Lila em pessoa, a se precipitar, com os seus pensamentos, as suas palavras, a maldade com que restituía golpe após golpe a cada um, seu modo de apropriar-se de mim como fazia com qualquer pessoa ou coisa ou evento ou sabedoria que se aproximasse: os livros e os sapatos, a doçura e a violência, o casamento e a primeira noite de núpcias, o retorno ao bairro no novo papel de senhora Raffaella Carracci.
Eu não conseguia acreditar que Stefano, tão gentil, tão apaixonado, tivesse presenteado Marcello Solara com um sinal da Lila criança, a marca de seus esforços nos sapatos que tinha inventado. Esqueci Alfonso e Marisa conversando entre si com os olhos brilhantes, sentados à mesa. Não dei mais atenção às risadas bêbadas de minha mãe. A música murchou, a voz do cantor, os casais que dançavam, António, que saíra ao terraço e, vencido pelo ciúme, parava além da vidraça, fixando a cidade violácea, o mar. Até a imagem de Nino desbotou enquanto saía da sala como um arcanjo sem anunciação. Agora eu via apenas Lila falando ansiosamente ao ouvido de Stefano, ela palidíssima no no vestido de noiva, ele sem um sorriso, uma mancha esbranquiçada de incómodo que descia da fronte aos olhos como uma máscara de Carnaval sobre o rosto aceso. O que estava acontecendo? O que teria ocorrido? Minha amiga puxava para si o braço do marido com ambas as mãos. Puxava com força, e eu, que a conhecia a fundo, sentia que, se tivesse podido, ela o teria arrancado de seu corpo e atravessado o salão carregando-o acima da cabeça, gotas de sangue sobre a cauda, e se serviria dele como de uma clava ou mandíbula de asno para arrebentar a cara de Marcello com um golpe certeiro. Ah, sim, ela teria feito isso, e só de pensar o meu coração batia furioso, a garganta ressecava. Depois extrairia os olhos dos dois homens, descolaria as suas carnes dos ossos da face, os morderia.
Sim, sim, eu senti que queria, queria que acontecesse. Fim do amor e daquela festa insuportável, nada de afagos numa cama de Amalfi. Arrasar imediatamente qualquer coisa ou pessoa do bairro, fazer um massacre, escaparmos eu e Lila, ir embora para longe, descendo juntas com alegre desperdício todos os degraus da abjecção, sozinhas, em cidades desconhecidas. Pareceu-me o justo resultado daquele dia. Se nada podia nos salvar, nem o dinheiro, nem um corpo masculino, nem os estudos, tanto melhor destruir tudo de uma vez. Em meu peito cresceu a raiva que era dela, uma força minha e alheia que me encheu do prazer de perder-me. Desejei que aquela força se expandisse. Mas me dei conta de que também estava amedrontada. Só em seguida compreendi estar condenada a ser quietamente infeliz porque sou incapaz de reacções violentas, porque as temo, prefiro ficar imóvel cultivando o rancor. Lila, não. Quando deixou o seu lugar, ergueu-se com tal decisão que fez a mesa tremer, os talheres nos pratos sujos, derrubando uma taça. Enquanto Stefano se apressava mecanicamente em deter a língua de vinho que corria para o vestido da senhora Solara, ela saiu a passos rápidos por uma porta secundária, puxando a cauda cada vez que se enroscava». In Elena Ferrante, História do Novo Nome, 2011, Relógio d’Água, 2015, ISBN 978-989-641-544-0.

Cortesia de Rd’Água/JDACT