quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Para sul, a umas dez léguas, avista-se a sombra enevoada da ilha também chamada Cauda. Esta ilha e o Porto Seguro são sítios afamados pela passagem de Paulo de Tarso…»

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«Com a nuvem cimeira saturada de água, o cano deixou de sorver, despegou-se da superfície das águas e foi-se recolhendo pelo ar, aproximando-se de nós. Alguns, vendo aquilo chegar-se, entraram em pânico. A gritaria era atordoadora, a fuga para a escada da coberta infrene, os atropelos incontrolados, os desmaios frequentes. A coisa passou com um ruído cavo, um impetuoso torvelinho de vento e chuva que nos deixou descompostos e encharcados, mas tudo isto tão rápido que num instante pareceu acordávamos de um pesadelo, ao vermos tudo quieto, sossegado e calmo, lá muito ao longe uma sombrazinha de negra nuvem com um apêndice pendurado, que fugia, desaparecia, se esfumava. Do fenómeno restava-nos ainda uma surpresa: sobre o tabuado do convés centenas de peíxinhos prateados ainda davam ao rabo e abriam a boca na respiração da agonia. Muito nos alegrou uma tão grande e inesperada pescaria e tão sem trabalho, pois não comíamos havia três dias. Mas não estavam terminadas as nossas provações. Ia a nau a orça ao longo da ilha, logo que nos achámos com bonança procurámos porto onde recuperar e descansar, vimos boiando nas ondas alguns cadáveres de marinheiros que as vagas haviam arrastado pela borda fora durante a tempestade. Muito perturbados ficámos todos à vista deles e eu mais que ninguém ao reparar num que, mais perto do barco, estava de borco com a cara alagada na água e os braços estendidos, inchado. Vestia uma camisola de lã que eu conhecia muito bem. Pérides!, murmurei comovido.

Meu companheiro rezava e eu, como pagão, recordei o verso de Virgílio: Nudus in ignota, Palinure, iacebis arena ... Tocava a trombeta da nau. Era o patrão que mandava que nos juntássemos todos. Rezámos pelos mortos três padre-nossos e três ave-Marias, e cantámos o Salve Regina, dando graças por estarmos livres de tão graves perigos. Mas como a vida continua e era necessário refazermos as forças do corpo, daquele peixe que a tromba marítima para nós havia pescado fez-se uma saborosa caldeirada de que todos comemos gostosamente.

O Breviário

Assim outrora na alta Creta se diz que o Labirinto tinha um intrincado caminho de paredes cegas e um ancípite dolo de mil ruas; falseava os sinais de romper saída um errar sem retorno e sem emenda.

Apoiado na borda da amurada, escrevo uma breve nota: Dezanove de Dezembro. Nove horas da manhã. Tomamos porto a sul da ilha de Càndia. Critas! Critas!, bradava um marinheiro, para que os passageiros se preparassem para desembarcar. Frei Zedilho, a meu lado, observa: Estais a ver como eles dizem o nome da ilha? Critas ! Só os Gregos lhe chamam assim. Ainda hoje entre os latinos dizem Creta, se não lhe querem chamar Cânàia. Estamos a aportar num lugar de nome Cauda Leonis, que quer dizer cauda de leão, muito perto de um outro porto, o Porto Seguro, procuradíssimo dos barcos que vêm de Chipre e de Alexandría. É com grande alegria que tripulantes e passageiros vemos a terra aproximar-se e enquanto os primeiros se entregam já à faina do recolher as velas e do ruidoso levantar de âncoras, todos os outros nos amontoamos na amurada, na expectativa de podermos sair em terra firme.

Para sul, a umas dez léguas, avista-se a sombra enevoada da ilha também chamada Cauda. Esta ilha e o Porto Seguro são sítios afamados pela passagem de Paulo de Tarso, em condições de tempestade e de naufrágio. O lugar em que estamos aportando é abrigado, resguardado de um lado por umas ilhotas ou sirtes, do outro pela costa áspera, montuosa, com espessas matas de ciprestes.

A recreação e alívio do enfadamento recentemente passado são motivo mais que sobejo para todos desejarmos sair, mas quando nos preparamos para o fazer eis do nosso barco começam a salvar com alguns tiros cinco outras naus que também se encontram recolhidas no porto, duas delas francesas de Marselha e as outras três da Esclavónia. Respondem-nos estas com suas salvas e logo acode em batéis a gente, que sobe a bordo da nossa a nos ajudar. Outra espécie de ajuda recebemo-la já quase sol-posto de um mosteiro que fica a duas pequenas léguas daqui e que, ouvindo as salvas de tiros, enviou dois caloiros a trazerem ao patrão da nau refresco de pão mole, verdura e fruta de espinho, da qual há muita na ilha. São de todos nós recebidos com muito gasalhado e mostras de amizade e de que sua visitação nos é extremamente grata. Despedindo-se de nós, prometem-nos tornar ao domingo seguinte para nos levarem a visitar o mosteiro». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

 Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Literatura, A Arte da Escrita, História,

A Casa do Pó. Fernando Campos. «(Sífonas!), murmurava calmo a meu lado um oficial de bordo, ao mesmo tempo que alguns peregrinos latinos (um monstro!, um monstro!), bradavam em alta gritaria»

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«Afoitava-me eu, de vez em quando, a rastejar até à escada que dá para o convés e, embora a portinhola estivesse fechada por mor da água não entrar, espreitava pelas frestas o que ia lá fora. As ondas varriam o barco vergastando-o ruidosamente de um bordo ao outro e ora subiam tão alto que nos parecia estarmos no profundo, vendo-nos de todos os lados cercados delas como de muros, e logo se abriam até aos abismos, perturbado o nosso entendimento. Três dias com suas noites nos durou esta cruel tormenta e todo este tempo andámos pairando ao mar, fugindo da terra sem no entanto a perdermos de vista e procurando tomar porto em qualquer sítio da ilha sem o conseguirmos, porque o não havia naquela parte e a força do vento contrário, que zunia e chorava no cordame, não consentia que o fôssemos procurar a outro lado. Andando assim com tanto trabalho e perigo, esperando a misericórdia divina que continuamente ínvocávamos com todas as veras das nossas almas, ao tempo que parecia querer a tempestade abonançar quebrou-se-nos o traquete da gávea.

Causou-nos o acidente grande temor, logo acrescentado por um estranho ruído, como de um sorver gigantesco acompanhado de angustiados suspiros, silvos e uma espécie de mugido, e tanto mais estranho quanto os balanços da nau haviam sossegado. Abri a portinhola e saí ao convés, acompanhado já timidamente por alguns companheiros. Seguimos o olhar dos marinheiros, que especados tinham um ar de espanto. O céu começava a limpar-se de nuvens que corriam ao longe, desfazendo-se, mas não muito afastado do barco passava-se um extraordinário fenómeno. De uma nuvem escura e carregada que pairava nos ares saía um como fino cano de vapor que rodopiava em si mesmo e, ondulando como uma cobra pelo espaço, vinha pousar nas ondas e delas, com aquele fragoroso ruído e resfolegar, chupava a água do mar. Parecia animado de uma misteriosa vida e consciência, e o pavor que infundia era tal que muita gente começou a gritar. Um dragão ! Um dragão!, exclamavam alguns tripulantes de nação grega, enquanto os nossos franciscanos, que eram moços muito novos e inexperientes, cheios de terror, de olhos esbugalhados, abraçados uns aos outros não sabiam coisa que dizer senão: O demónio! É o demónio!

(Sífonas!), murmurava calmo a meu lado um oficial de bordo, ao mesmo tempo que alguns peregrinos latinos (um monstro!, um monstro!), bradavam em alta gritaria. O que quer que fosse, um fenómeno físico, sem dúvida, continuava a beber a grandes tragos nas ondas do oceano, a engrossar olhos vistos e, de transparente que a principio era, a tornar-se negro e a tornar mais negra a nuvem que em cima engordava. Que quer dizer sífonas?, perguntei eu ao oficial, depois de procurar com os olhos a ver se via Pérides e não o encontrando.

Sífonas quer dizer sifão, cano que chupa água. É um fenómeno atmosférico muito frequente nestes mares e de que já os antigos gregos, Aristóteles nos seus Meteoros, Arato-falavam. Chamavam-lhe antigamente (síphon). A tromba marítima!. traduzi eu, recordando leituras de recentes relatos portugueses sobre as coisas do mar. É perigoso? Por vezes é, e a embarcação pode correr grave risco. Há casos em que se tenta cortar o cano a tiro de canhão, mas quase sempre sem efeito. No caso presente parece que não vai haver novidade». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «Você é fruto desse ultraje, sussurrou. Por isso... por isso o chamam de nazareno. Porque seu pai era um sacerdote cristão. É minha culpa... Mãe e filho se olharam durante longos instantes»

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«Era de estatura mediana, magro, ágil e musculoso. Acabava de recolher as últimas azeitonas de uma velha oliveira que resistia ao frio da serra, resguardada e retorcida bem ao lado do terraço em que cresceria o trigo. Fizera-o à mão. Subira na árvore, sem varejá-la, e colectara inclusive as olivas que tinham ainda uma tonalidade roxa. O sol temperava o ar frio que vinha de Sierra Nevada. Ele teria gostado de ficar ali para arrancar as ervas daninhas, para depois ir para outro terraço, onde supunha que o humilde Hamid estivesse trabalhando as poucas terras que possuía. Nos terraços, quando estavam os dois a sós, trabalhando ou percorrendo as serras em busca das excelentes ervas com que o homem preparava seus remédios, ele o chamava Hamid em vez de Francisco, o nome cristão com que havia sido baptizado. A maioria dos mouriscos usava dois nomes: o cristão, e o muçulmano para dentro de sua comunidade.

Hernando, no entanto, era simplesmente Hernando, ainda que no povoado amiúde zombassem dele ou o insultassem chamando-o de nazareno. Instintivamente, o rapazinho diminuiu a marcha ao recordar seu apelido. Ele não era nenhum nazareno! Chutou uma pedra imaginária e prosseguiu para casa, situada nas redondezas do povoado, num lugar onde acharam espaço suficiente para construir um telheiro onde estabular as seis mulas com que seu padrasto transportava mercadorias pelos caminhos das Alpujarras, mais uma sétima: a Velha, a sua preferida. Fazia cerca de um ano que sua mãe se vira obrigada a explicar-lhe a razão de tal apelido.

Certa manhã, ao amanhecer, ele havia ajudado seu padrasto, Brahim, José para os cristãos, a aparelhar as mulas. Feito o seu trabalho, despedia-se da Velha com uma carinhosa palmada no pescoço quando um forte tapa na orelha direita o derrubou no chão, alguns passos adiante.

Cão nazareno!, gritou Brahim, em pé, iracundo. O rapazinho sacudiu a cabeça para recuperar-se e pôs a mão na orelha. Atrás de seu padrasto, pareceu-lhe ver sua mãe desaparecer cabisbaixa e entrar em casa. Você pôs uma cincha ruim naquele animal!, bramou o homem ao mesmo tempo que apontava para uma das mulas. Pretende que tropece ao longo do caminho e não possa trabalhar? Você não passa de um inútil nazareno, cuspiu nele, um bastardo cristão.

Hernando havia escapado de gatas dos pés do padrasto e se havia escondido num canto do telheiro, no meio da palha, com a cabeça entre os joelhos. Assim que o martelar dos cascos da récua anunciou a partida de Brahim, Aisha, sua mãe, reapareceu no telheiro e se dirigiu para ele com uma limonada na mão. Está doendo?, perguntou-lhe, abaixando-se e acariciando-lhe o cabelo. Por que todos me chamam de nazareno, mãe?, soluçou levantando a cabeça dentre os joelhos. Aisha fechou os olhos diante do rosto coberto de lágrimas do filho. Tentou enxugá-las com uma carícia, mas Hernando virou a cabeça. Por quê?, insistiu.

Aisha suspirou profundamente; depois anuiu e se sentou sobre os calcanhares, na palha. Está bem, você já tem idade suficiente, cedeu com tristeza, como se o que iria fazer lhe custasse um grande esforço. Você tem de saber que há cerca de catorze anos, um ano antes de você ter nascido, o cura do povoado em que eu vivia quando menina, na ajerquía almeriense, me forçou... Hernando teve um sobressalto e calou seus soluços. Sim, filho. Eu gritei e me opus, como exige nossa lei, mas pouco pude fazer então diante da força daquele depravado. Ele me abordou longe do povoado, num campo, no meio da manhã. Era um dia ensolarado, recordou com tristeza. Eu era apenas uma menina!, gritou de repente. Ele me arrancou a roupa de um só puxão. Derrubou-me e... Antes de continuar, a mulher voltou à realidade e se defrontou com os olhos do filho, imensamente abertos e cravados nela: Você é fruto desse ultraje, sussurrou. Por isso... por isso o chamam de nazareno. Porque seu pai era um sacerdote cristão. É minha culpa...

Mãe e filho se olharam durante longos instantes. As lágrimas voltaram a correr pelo rosto do rapazinho, mas desta vez por causa de uma dor diferente; Aisha lutou contra seu próprio choro até que compreendeu que lhe seria impossível contê-lo. Então deixou cair o copo de limonada e estendeu os braços para o filho, que se refugiou no meio deles.

Ainda que a jovem Aisha tivesse salvado a honra com seus gritos, assim que a gravidez se tornou evidente, seu pai, um humilde arrieiro mourisco, consciente de que não podia evitar a vergonha, procurou ao menos uma forma de deixar de presenciá-la. Encontrou a solução em Brahim, um jovem e bem-apessoado arrieiro de Juviles com que amiúde se encontrava no caminho e a quem propôs o casamento com sua filha em troca de duas mulas como dote: uma pela mocinha, outra pelo ser que trazia no ventre. Brahim hesitou, mas era jovem, pobre e necessitava de animais. Além disso, quem sabia sequer se aquela criança chegaria a nascer? Talvez não passasse dos primeiros meses de vida... Naquelas inóspitas terras, eram muitas as crianças que morriam na mais tenra infância». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

 Cortesia de Bertrand E/JDACT

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

A Mão de Fátima. Ildefonso Falcones. «… pele bastante mais clara que a morena verde-escura de seus congéneres. Suas feições, contudo, eram similares às dos demais mouriscos de sobrancelhas espessas, apesar de que nelas se destacavam uns grandes olhos azuis»

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«Ó Misericordioso, insistiu um terceiro. E de repente, finalizada a oração cristã, voltou a impôr-se a áspera voz do sacerdote. Seu nome seja louvado, pôde-se ouvir naquele dia de uma das últimas fileiras. A maioria dos mouriscos permaneceu imóvel, rígida e firme; alguns arrostavam o olhar do beneficiado Salvador, mas eram majoritários os que escondiam o seu; quem havia ousado louvar o nome de Alá? O beneficiado abriu caminho aos empurrões entre as fileiras, mas não pôde assinalar o sacrílego. No meio da missa, com o padre Martín sentado e vigilante, o sacristão e o beneficiado, um com o livro e o outro com um cesto, esperavam para receber os óbolos dos presentes: moedas de blanca, pão, ovos, linho...

Somente os pobres estavam isentos de fazer donativos;no caso dos mais endinheirados, não fazê-los por três domingos implicava receber a correspondente multa. Andrés anotava detalhadamente quem e o que doava. Quando soou a de morrer, como chamavam a sineta que anunciava a consagração, os mouriscos se ajoelharam de má vontade entre as demonstrações de piedade dos cristãos-velhos. A de morrer soou no momento em que o sacerdote, de costas para os fiéis, elevava a hóstia; voltou a se fazer ouvir quando, também de costas, ergueu o cálice. O sacerdote se preparava para dizer as palavras sacramentais quando, de repente, zangado com os murmúrios que agitavam a igreja, se virou para os fiéis com semblante furioso. Seus cães!, gritou. A imprecação salpicou de saliva o sagrado vaso. Que são esses murmúrios? Calem-se, hereges! Ajoelhem-se como devido para receber a Cristo, o único Deus!

Você! Seu indicador apontou para um velho da terceira fileira. Levante-se! Não está idolatrando o seu falso Deus. Olhem! Levantem os olhos quando lhes for oferecido o Santíssimo Sacramento!

Seu olhar fulminou outros dois mouriscos antes de continuar. Depois, homens e mulheres foram em silêncio comer a torta. Muitos deles tentariam manter a pasta de trigo na boca ensalivada até poder cuspi-la em casa; todos os mouriscos, sem excepção, fariam gargarejos para livrar-se de seus restos.

As pessoas deixaram a igreja após lhe terem benzido com a paz; uns, os cristãos, a receberam com devoção: outros, a grande maioria, zombavam fazendo o sinal da cruz ao contrário, afirmando em silêncio a unicidade de Deus e escarnecendo da Trindade, que tinham de invocar ao fazer o sinal da cruz. Os mouriscos se apressaram a voltar para casa para cuspir a torta. Os poucos cristãos do povoado se aglomeraram às portas da igreja para conversar, alheios aos insultos que seus filhos gritavam contra a velha, que por fim havia caído da escada e estava no chão, encolhida e intumescida, com os lábios azulados, respirando com dificuldade. No interior do templo, o padre e seus ajudantes prolongaram o castigo do penitente, e não cessaram de recriminá-lo por suas culpas enquanto recolhiam os objectos de culto e os levavam do altar para a sacristia.

Os mouriscos se lançaram à rebelião, é verdade, mas são os cristãos-velhos que os levam ao desespero, com sua arrogância, suas defraudações e a insolência com que se apoderam de suas mulheres. Os próprios sacerdotes se comportam do mesmo modo. Como toda uma aldeia mourisca se tinha queixado diante do arcebispo de seu pastor, mandou-se averiguar o motivo da queixa. Que o levem daqui, pediam os paroquianos... senão que o casem, pois todos os nossos filhos nascem com olhos tão azuis como os dele.

Francés de Álava, embaixador da Espanha na França, a Felipe II, 1568: Juviles era o lugar principal de uma taa composta por uma vintena de aldeias distribuídas pelos escabrosos contrafortes de Sierra Nevada. De todas as suas terras, um quarto dos marjales era de regadio e o restante de sequeiro. Cultivava-se trigo e cevada; contava com mais de quatro mil marjales de vinha, oliveiras, figueiras, castanheiros e nogueiras, mas sobretudo amoreiras, o alimento dos bichos-da-seda, a maior fonte de riqueza da região, ainda que a de Juviles tampouco alcançasse o prestígio de que gozava a seda de outras taas das Alpujarras.

Naquelas alturas, mais de mil varas acima do nível do mar, os mouriscos, sofridos e laboriosos, cultivavam até o pedaço de terra mais abrupto que pudesse proporcionar algo de seara. As encostas da montanha, ali onde não assomava a rocha, escalonavam-se através de pequenos terraços encravados nos lugares mais recônditos. Naquele dia, com o sol já a pino, voltava a Juviles, procedente de um daqueles terraços, o jovem Hernando Ruiz, um rapazinho de catorze anos de idade, de cabelo castanho-escuro apesar da pele bastante mais clara que a morena verde-escura de seus congéneres. Suas feições, contudo, eram similares às dos demais mouriscos de sobrancelhas espessas, apesar de que nelas se destacavam uns grandes olhos azuis». In Ildefonso Falcones, A Mão de Fátima, 2010, Bertrand Editorial, Grandes Romances, 2010, ISBN 978-972-252-226-7.

Cortesia de Bertrand E/JDACT

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Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. « Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento»

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26 de Março de 2021

«A minha mãe vira-se para mim, entro nos seus olhos, são olhos verdadeiros. A nata já solidificou sobre o leite fervido. Os olhos da minha mãe, limpos, o seu rosto, esta é aquela juventude que ficará aqui, teremos de avançar sem ela, teremos de continuar, não poderemos deter-nos por nada, nem sequer por aquilo que mais importa, pela única coisa que importa. Ainda estamos sozinhos na cozinha, a minha mãe ainda não preparou as canecas, ainda não misturou o leite, ainda não as adoçou, ainda não chamou as minhas irmãs, ainda não sabe o que vai acontecer ao meu pai, faltam tão poucos anos, ainda não envelheceu, a minha mãe ainda não envelheceu. A minha mãe, os seus olhos jovens e limpos e eu com nove anos, o meu Rui, pode deixar que eu falo com o meu Rui, eu com nove anos, a querer poupá-la de tudo, a querer resolver tudo, a querer segurar-lhe nas mãos e, na hora certa, a querer sussurrar-lhe aos ouvidos: não tenha medo, mãe; não tenha medo, mãe; sou o seu Rui, estou aqui.

Estava escondido atrás das ramas e das flores de um loendro. Com os joelhos pouco dobrados, espreitava o motorista. As flores exageravam no cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, tingiam o ar com um perfume doce, grosso, meloso. O sol começava a aquecer e, também por isso, o perfume apurava o açúcar.

Tomou uma posição mais justa, endireitou-se, mas não quis aparecer logo, precisava de dar mais alguns minutos. Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano, já era a segunda vez que tinha essa lembrança naquele dia. Mas logo a seguir olhou na direcção de Espanha, o olhar atravessou a vedação do estádio, lançou-se no começo da estrada. Os campos de oliveiras certinhas, que cobriam uma e outra berma, chegaram da imaginação, ou da memória, em algum desses lugares os observava também.

Pareciam malucos, os pardais, enrolavam-se em tropelias a baixa altitude, desafiavam o sol, sabiam que, a qualquer momento, podiam entrar pelas copas das árvores e descansar as asas e os bicos. Porque começou a saturar-se de esperar, voltou a dobrar ligeiramente os joelhos e voltou a espreitar o motorista entre duas pernadas do loendro.

Lá continuava ele, intrigado, encostava-se e desencostava-se da porta do automóvel, cumprimentava um transeunte, bom dia, trocava frases avulsas com os bombeiros que davam um passo fora do quartel.

Na primeira hora da manhã, quando o senhor Rui chegou de fato de treino, sapatilhas atadas com largos laços, o motorista ficou logo com duas palavras presas na garganta. A rotina é uma forma de lógica; por isso, durante o caminho para o estádio, poucos minutos em ruas sem trânsito, o motorista franziu a cara e calculou há quantos anos o patrão não começava o dia com aquela ginástica. Não alcançou um número certo. Em vez de concluir esse raciocínio, dedicou-se a pequenos sinais, gestos ou sugestões, espécie de pequenas perguntas ocultas, discretíssimas. Mas o patrão, senhor Rui, optou por olhar para o lado, ignorar o rosto metediço no espelho retrovisor e restantes códigos.

No estacionamento, puxado o travão de mão, quando o motorista se ofereceu para acompanhá-lo, recebeu logo resposta negativa, o senhor Rui levantou a palma da mão e agitou-a. E prescindiu de outras palavras, apenas um certo tom, cara sisuda. Às vezes, fazia falta esse rigor. E afastou-se em linha recta, na medida do possível, para o circuito de manutenção. Nos pensamentos, quase ofendido, parecia-lhe que aquele interesse desafiava as suas competências e respondia a acusações que não tinham sido realmente feitas. Era a idade, cismou que a desconfiança do motorista nascia do tema da idade. Os novos têm a arrogância do que desconhecem, bamboleiam-se todos manientos, carregados de presunção, sem repararem que levam um céu de pedra suspenso sobre a cabeça, nuvens esculpidas. Está mesmo ali, bastaria um movimento de pescoço para enxergá-lo, mas ficam de olhos turvos quando dirigem a vista para certas lonjuras, conforme olhos de peixe morto, ganham a mesma capa de cegueira.

Influído por esse despique, passou diante das bilheteiras do estádio do Campomaiorense, quatro buracos quadrados numa parede, e entrou no circuito de manutenção. Seguia de queixo erguido, acompanhava os passos com movimento atlético de cotovelos ao longo do corpo mas, de repente, os artelhos tomaram outra decisão. E, logo os dois ao mesmo tempo, lançaram uma pontada que lhe apanhou os calcanhares, o peito dos pés, articulações, tendões, músculos. Só teve tempo de se encostar ao vulto do loendro e serenar. Pensou numa cadeira ou num banco, mas aquela sombra já era de valor. Fechou os olhos, encheu os pulmões. Lembrou-se do sentinela no Quartel do Trem, a hora de sair, licença, e o sentinela lá estava, sempre um rapaz amedrontado, por mais que o escondesse numa cara desta ou daquela maneira, um rapaz em sentido, a cabeça a assar no capacete, os pés a ferverem nas botas, meias de fio áspero. Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento. Lembrou-se das razões porque deixou de fazer aquela caminhada, pequena derrota, mais uma». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café»

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26 de Março de 2021

«Quando entreguei o prato e o pano à minha mãe, tinha a cesta aviada com pedaços de carne acomodados em folhas de couve, pode deixar que eu falo com o meu Rui. A minha mãe explicou-me os destinatários dessas encomendas, orelha, toucinho, ossos, pés, fígado, baço. Antes de sair, passou-me a mão pelo cabelo, uma festa, como se me penteasse. Quando terminei a primeira ronda, estavam as mulheres no começo de encher as farinheiras. O cheiro avinagrado da massa das farinheiras impregnava a divisão. A seguir, com a cesta novamente carregada, as ruas de Campo Maior entardeceram, a cal recebeu diferentes amarelos, acinzentados e azuis, até cair a noite. Quando voltei da segunda ronda de distribuição, mãos agradecidas a receberem as encomendas, olhos regalados a apreciarem a carne, a textura da carne sobre a couve, a minha mãe esperava-me com a vasilha do leite, tinha essa intenção planeada desde sempre. Depois do morno do sebo e da palha, depois do olhar mal iluminado das vacas, depois das ruas, noite antes do serão, gente a voltar para casa, cheguei com o quarto de litro de leite, mais um ou dois dedos por paga de bom freguês.

Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena estava ainda esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas.

O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos da cozinha. E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar no chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era esse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta deste gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. Fixo-me nas minhas mãos de rapaz de nove anos, o tamanho e a forma dos dedos, as unhas, a pele da palma das mãos, os pulsos. Reparo nos meus braços, na proporção do meu corpo em relação ao que me rodeia, esta cozinha, a cozinha dos meus nove anos, reparo neste tempo, serão da minha infância, inverno, dia de semana, o meu irmão que ainda não chegou, um homem com dezasseis anos, as minhas irmãs, a Cremilde com onze e a Clarisse com sete, e o meu pai, que também ainda não chegou, o patrão não lhe concedeu anuência, mas que está em algum lugar, a respirar, a ver alguma coisa, quase de certeza a pensar em nós, quase de certeza a pensar que gostava de estar aqui.

E esta hora tão precisa, intensa, a minha mãe, resguardada pela luz e pela escuridão, o candeeiro de petróleo a aguentar todo o peso da noite. A minha mãe com a cintura envolta em nuvens, entorna a água sobre o coador. É café do melhor, trazido de Espanha pelo meu tio, é ouro. Vai preparar canecas de café com leite para as minhas irmãs e para mim, para o meu irmão mais tarde, a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

 JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe»

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26 de Março de 2021

«Hoje, durante toda a tarde, atravessei Campo Maior bastas vezes. Pousei o livro da segunda classe, comi um caldo e, logo a seguir, estava eu já disposto, encostado a dois breves minutos de folga, em silêncio bem-comportado. A minha mãe aceitava uma encomenda, pode deixar que eu falo com o meu Rui. Eu ali, transparente ou invisível, e a minha mãe a falar de mim, o Rui dela. Temos carne nova na mercearia, sabes e por toda a vila. O porco foi morto ontem e, àquela hora, já não estava pendurado de cabeça, preso pelas patas traseiras, tinham começado a desmanchá-lo no primeiro início da manhã, cedo, no fresco, antes ainda da minha abalada para a escola.

Pode deixar que eu falo com o meu Rui, e falaria, mas o primeiro mandado já estava capaz de ser feito. Com solene cerimónia, a minha mãe apresentou-me um prato de fêveras, coberto por um pano. E tanto o prato, como o pano, como as fêveras, pertenciam à melhor selecção.

Atravessei a praça da República e, depois, escolhi as ruas que me pareceram mais apuradas para aquele desfile. Levava o prato à frente do peito, seguro pelas duas mãos. Em cada passada, levantava o pé com firmeza, não arriscava sequer tropeçar numa ideia. Nesse rigor, cruzei-me com moços da minha idade, obrigados a decorar os mesmos rios de Angola que eu e, apesar dessa grande confiança, não nos cumprimentámos. Em silêncio, reconhecendo gravidade, ficaram apenas a seguir-me com o olhar.

Mais perto da casa do doutor, crescia o desejo de ver o meu pai, talvez calhasse a achá-lo entre uma tarefa e outra, podia mesmo coincidir com a oportunidade de um passeio no carro do patrão, do doutor, os bancos de couro, o gargalo esticado para ver a estrada depois do capô, longa carroçaria de chapa mociça, e o meu pai, compenetrado, os braços pousados no guiador, pronto para qualquer manobra. Mas, quase ao mesmo tempo, logo colado a esse pensamento, o coração desengatilhava-se a bater, tipo bombo, era o medo de encontrar o filho do doutor, medo de que andasse solto, espírito envenenado. Fiz os últimos metros nesse suplício, como se o prato de fêveras me puxasse a mim. Fui direito às traseiras, bati à porta da copa, chegou uma servente de cozinha que me desenganou logo da possibilidade de ver o meu pai, tinha acabado de sair de automóvel, tinha ido levar ou buscar a patroa, a esposa do doutor.

À espera da devolução da loiça, a ansiedade cresceu com a idealização do filho do doutor, rosto esgazeado que podia saltar-me à frente. Assim que recebi o prato enxaguado, a pingar água, o pano muito bem dobrado, quis sair dali. Nessa urgência, distingui um urro abafado, talvez o filho do doutor, trancado em algum ponto daquele casarão, ou no interior da minha cabeça.

As brasas, como pequenas almas. A cinza, quase misturada com a sombra, pó de sombra. O leite, escondido na sua cor, mas prestes a irromper de repente pelas paredes do púcaro. Tenho de evitar essa bruteza de desperdício. Tenho também de esquivar-me aos pingos súbitos que as barrigas dos chouriços largam, chuva muito lenta de gordura espessa, gordura que se desfez para atravessar os poros das tripas e, depois, aquecida por este fumo paciente, se reagrupou num pingo meloso. Não afasto o olhar do lume, estou de guarda às chamas e ao leite, mas reconheço na pele o toque da luz do candeeiro, o aroma tóxico e doce do petróleo queimado. O meu irmão ainda não chegou a casa. Não se sabe a que horas o meu pai chegará, dispensado por fim pelo doutor. As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Idade Média. Umberto Eco. «… do mesmo modo que as pausas e os silêncios que, exaltando a beleza dos sons, faziam deles emergir, por contraste, os aspetos positivos. Deste modo, era a época, e não o indivíduo isolado, que dava a impressão de estar em paz consigo mesma»

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À maneira de conclusão

«No plano teórico, a Idade Média combatia o dualismo maniqueu e, teoricamente, excluía o mal do plano da criação. Mas, como o praticava e, em qualquer caso, o experimentava no dia a dia, tinha de entrar em compromisso com a sua presença acidental. Por isso até os monstros e os caprichos da natureza eram tidos por belos, pois estavam inseridos na sinfonia da criação do mesmo modo que as pausas e os silêncios que, exaltando a beleza dos sons, faziam deles emergir, por contraste, os aspetos positivos. Deste modo, era a época, e não o indivíduo isolado, que dava a impressão de estar em paz consigo mesma.

Mas agrada-nos terminar estas páginas com, pelo menos, uma das representações que a cultura medieval, na sua distância em relação a nós, tem sempre capacidade de repor fazendo-nos acreditar que tratava dos nossos problemas.

O autor é Tomás de Aquino, santo e doutor da Igreja. Se lhe perguntassem se era permitido abortar, responderia que não, evidentemente. E do mesmo modo responderia que não se lhe perguntassem se o mundo era eterno: era a terrível heresia averroísta, e também a nós nos parece que um mundo eterno é uma hipótese de absoluto materialismo. O cristão sabe pela sua fé que o mundo foi criado por Deus, mas por outro lado Tomás de Aquino tinha elaborado cinco maneiras de demonstrar que a fé num Deus criador não repugnava à Razão, antes era por ela confirmada. No entanto, quer na sua Summa contra Gentiles quer no seu opúsculo De Æternitate Mundi, Tomás apercebe-se de que não há argumentos racionais válidos para demonstrar que o mundo não é eterno. Mas, como acredita pela fé que o mundo foi criado por Deus, argumenta com vertiginosa subtileza para provar que a eternidade do mundo (co-eterno com Deus) não contradiz que seja um acto criador da vontade divina.

Perante o problema da origem da vida, Tomás comportava-se com a mesma adamantina honestidade (sem, provavelmente, se interrogar quanto à importância do tema nas polémicas sobre o aborto). A discussão era antiquíssima e surgira com Orígenes, que afirmava que Deus criara as almas humanas logo nas origens. Esta opinião fora imediatamente contestada, e até à luz da expressão do Génesis (2,7) segundo a qual o Senhor formou o homem com a poeira do chão, instilou-lhe no nariz um hálito de vida e o homem tornou-se uma alma viva. Portanto, segundo a Bíblia, Deus cria primeiro o corpo e insufla-lhe depois a alma. Mas esta posição suscitava problemas com a transmissão do pecado original. Tertuliano defendia que a alma do pai se transmite de pai para filho pelo sémen. Posição logo julgada herética, porque presumia uma origem material da alma.

Quem se via embaraçado era Santo Agostinho, que tinha de enfrentar os pelagianos, que negavam a transmissão do pecado original. Por isso, ele apoiava, por um lado, a doutrina criacionista (contra o traducianismo corporal) e, por outro, admitia uma espécie de traducianismo espiritual. Mas todos os comentadores acham bastante contorcida a sua posição. Tomás de Aquino será decididamente criacionista e resolverá a questão da culpa original de um modo muito elegante. O pecado original é transmitido pelo sémen como uma infecção natural. (Summa Theologica, I-II, 81,1), mas isso nada tem que ver com a transmissão da alma racional. A alma é criada porque não pode depender da matéria corporal.

Recordemos que, segundo a tradição aristotélica, Tomás entende que os vegetais têm alma vegetativa, que nos animais é absorvida pela alma sensitiva, enquanto nos seres humanos estas duas funções são absorvidas pela alma racional, que torna o homem dotado de inteligência e, portanto, de alma no sentido cristão do termo». ». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

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sábado, 16 de dezembro de 2023

Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo. Adelino Cunha. «Jorge Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista»

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O homem e o Mito

«Cunhal raramente hesitou quando teve de decidir sozinho ou apoiar decisões exemplares de terceiros na defesa deste quadro mental de disciplina colectiva. A hesitação e a dúvida não tinham lugar. Algumas das circunstâncias em que ocorreram essas correcções continuam difíceis de confirmar pelo pacto de silêncio tácito que envolve os intervenientes directos ou por serem de muito difícil reconstituição por ausência de fontes credíveis. A fronteira entre os ajustes de conta s executados no PCP e a conivência das autoridades policiais e judiciais do Estado Novo impossibilita a verificação de alguns factos políticos que foram tratados como crimes vulgares. A teologia da revolução e a determinação de Álvaro Cunhal estiveram sempre acima da vontade dos homens comuns. Quem foi este homem? Tão magro, de magreza impressionante, chupado, a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora, como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português

Este retrato delicado de Jorge Amado aproxima-se de uma certa imagem de revolucionário romântico que o próprio Cunhal gostava de projectar de si próprio. A austeridade física cavada pela dureza da vida clandestina e o perfil psicológico determinado e sacralizado de um revolucionário sabedor antecipado do caminho da História. É no romance Até Amanhã, Camaradas que Álvaro Cunhal idealiza de forma mais impressiva nas duas principais personagens masculinas alguns traços de carácter que podem ser identificados em si próprio e em alguns dirigentes do PCP. Ramos tem a franqueza e o à-vontade que quase tocam a insolência, senão fora a segurança em si mesmo. É capaz de ser extremamente duro e exigente nas relações políticas com os outros, mas revela sentimentos de ternura e compaixão em circunstâncias de maior intimidade. Vaz tem um rosto severo e impassível e destaca-se pelo comportamento ríspido e austero. É um funcionário partidário típico, que percorre o País de reunião em reunião e na preparação da luta política, indo além dos seus próprios limites físicos, alimentado por uma causa que o ultrapassa.

Quase tudo em Álvaro Cunhal parece desembocar num certo mistério biográfico. As omissões e adulterações factuais são subtis, e demasiadas vezes imperceptíveis no processo de construção exterior de um mito. A projecção modelar da sua vida pública e privada remete para a pureza dos santos e dos mártires. Um herói revolucionário portador de uma energia indefectível. Eugénia Cunhal lamenta que retratem o irmão como uma pessoa severa no trato pessoal. Considerava-o um homem cheio de ternura e que sabia mostrá-la fazendo uma festa ou dando um beijo. Sabendo dizer coisas do tipo maninha, como estás? Uma faceta que mostrava com frequência à família e aos amigos. Era um homem afectuoso por natureza.

Jorge Amado acrescenta no seu retrato os «olhos fundos e cansados, a magreza impressionante, o físico combalido pela dura ilegalidade, a fadiga de anos acumulada no corpo e as mãos ossudas, mas sempre a capacidade de ter um sorriso terno. Todo o esplendor que emana de Álvaro Cunhal representa o modelo perfeito do revolucionário.

Há uma preocupação permanente em construir uma ideologia de inspiração quase religiosa que apresenta uma mensagem de esperança e de conhecimento antecipado da História. Uma religião agnóstica com santos e mártires. Os revolucionários que entregam a sua vida em nome dos valores colectivos. Cunhal recusava o papel de líder individual, mas as suas acções remetiam aos olhos dos outros para esse heroísmo de assinatura e o mistério biográfico ajudou a desenhar o avatar revolucionário. A base do retrato físico e psíquico pincelado por Jorge Amado decorre de um encontro em Paris. Álvaro Cunhal regressava em 1948 de uma viagem à Jugoslávia e a Moscovo para recolocar o PCP na esfera de influência directa da União Soviética através da reintegração no movimento comunista. Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista». In Adelino Cunha, Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo, 2010, Saída de Emergência, 2020, ISBN 978-989-889-270-6.

Cortesia de SaídaEmergência/JDACT

JDACT, Álvaro Cunhal, Comunismo Internacional, PCP, Literatura, Adelino Cunha, Cultura, Conhecimento, O Saber,

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo. Adelino Cunha. «A convicção férrea e a dinâmica emocional controlada permitiram-lhe suportar as privações com a mesma determinação com que penalizou os que abriram brechas na couraça revolucionária»

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O homem e o Mito

«Á lvaro Barreirinhas Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913 na Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, filho de Avelino Henriques da Costa Cunhal (1887-1966) e de Mercedes Simões Ferreira Barreirinhas (1888-1971). Morreu em Lisboa no dia 13 de Junho de 2005 com 92 anos. Foi uma das maiores figuras políticas e intelectuais do século XX português e do próprio movimento comunista internacional, mas recusou escrever uma autobiografia que ajudasse a compreender essa parte significativa da memória colectiva dos Portugueses. Um livro de memórias é, em geral, uma coisa tão aborrecida; é um dicionário de factos que uma pessoa colecciona, repetiu ao longo de décadas. Álvaro Cunhal aprendeu a controlar instintivamente os mecanismos de comunicação com as massas e aperfeiçoou o seu domínio ao longo dos anos. As entrevistas foram doseadas de forma austera, tendo em consideração a sua longevidade e relevância política, e as declarações públicas surgiram quase sempre espartilhadas para revelar somente o pretendido. O homem confundiu-se demasiadas vezes com o mito nesta névoa.

O próprio PCP aceitou o mistério biográfico em nome da aversão de Álvaro Cunhal ao culto da personalidade e sintetizou a vida do expoente máximo do comunismo português numa árida nota biográfica. Álvaro Cunhal chegou a recusar que a sua fotografia fosse utilizada nas campanhas eleitorais do PCP em nome das virtudes do colectivo sobre as individualidades. O ideal comunista estava acima dos homens porque os homens podem falhar. A História escreveu-se de outra maneira porque o PCP foi durante décadas o próprio Álvaro Cunhal, mas Álvaro Cunhal era muito mais do que apenas o PCP.

A glória não está apenas na personalidade, mas no modelo de imortalidade. Os caminhos parecem por isso conduzir para a um semideserto identitário. Interrogam-me muitas vezes sobre a minha vida. Gostaria de dizer o seguinte: a minha vida é inseparável da vida de todos os comunistas de Portugal, afirmou em 1962, ao jornal Pravda, quando a sua liderança se tornara inequívoca. Existe um texto de carácter biográfico escrito por Júlio Fogaça em 1954 para responder às regras de funcionário impostas pelo movimento comunista internacional para controlo dos Quadros. Soma-se uma nota sintética actualizada após o seu regresso de Moscovo em 1974 para ser distribuída aos jornalistas portugueses por necessidades operacionais.

Por último, está publicada uma narrativa de carácter panfletário que se tentou tornar asséptica através da publicação na União Soviética. É neste texto empenhado que se encontram alguns indícios da imagem que Álvaro Cunhal aceitava projectar de si próprio, na medida em que se assumiu como fonte directa da autora. Trata-se de um insuficiente exercício biográfico escrito por Yulia Leonidovna Petrova, neta do então líder dos comunistas russos, Nikita Khrushchev, tendo por base algumas conversas soltas com o próprio biografado. Hastes sem Bandeiras teve a sua primeira publicação em 1963 na editora Pravda, mas o PCP adiou a sua reedição em Portugal e remeteu o original para a obscuridade. A tradução de Francisco Ferreira, o celebrizado Chico da CUF, importante dissidente comunista e adversário militante de Cunhal, tornou-se na fonte secundária mais utilizada para aceder ao texto original. O exercício traduz um esforço para desmistificar alguns factos do percurso de Álvaro Cunhal e, acima de tudo, pretende constituir-se como acusação contra o herói soviético. O antigo dirigente comunista tenta desmontar a imagem de Cunhal enquanto produto de marketing da velha escola soviética especializada em construir e desconstruir os líderes comunistas internacionais.

É verdade que Álvaro Cunhal se apresentou durante um importante período da história da União Soviética como um modelo de dirigente comunista e atingiu um elevado nível de reconhecimento entre os seus correligionários internacionais. Beneficiou de um estatuto que durou largos anos e que lhe permitiu viver com tranquilidade em Moscovo e em França com o apoio directo do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e circular por todos os países socialistas com considerável liberdade de movimentos. A classe dirigente reconhecia-lhe mérito político, empenho pessoal e, acima de tudo, a necessária disciplina revolucionária. Álvaro Cunhal prescindiu de uma parte da sua vida e dos afectos para se dedicar a uma causa de inspiração transcendente que exigiu submeter-se a intensos sacrifícios físicos e psicológicos. O seu percurso tornou-se numa teologia da revolução.

A convicção férrea e a dinâmica emocional controlada permitiram-lhe suportar as privações com a mesma determinação com que penalizou os que abriram brechas na couraça revolucionária. Também revelou uma profunda intolerância e desprezo para com os dissidentes intelectuais e criticou duramente os que cederam às torturas físicas por comprometerem a segurança colectiva e a moral revolucionária. A disciplina e a fidelidade tornaram-se dogmas de comportamento. Álvaro Cunhal lutou pelas virtudes do comunismo em sintonia com as orientações do movimento comunista internacional, mas as suas convicções e o seu comportamento foram muito além da conjuntura dos líderes que foram passando pela Praça Vermelha. O projecto de sociedade global e de homem novo defendido ao longo de décadas resistiu a várias tentativas externas de destruição do PCP e dos seus dirigentes e exigiu a depuração de resistências interna que se manifestaram em vários casos com contornos de violência psicológica e física». In Adelino Cunha, Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo, 2010, Saída de Emergência, 2020, ISBN 978-989-889-270-6.

 Cortesia de SaídaEmergência/JDACT

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco»

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«Tom virou-se depressa para que o homem não o visse. Agora tinha que decidir como resolver aquilo. Estava furioso o bastante para derrubar o fora-da-lei com um soco e pegar sua bolsa. Mas a multidão não o deixaria fugir. Precisaria explicar-se, não só a quem estava ali, como também ao xerife. Tom estava dentro do seu direito, e o facto de o ladrão ser um fora-da-lei significava que não teria ninguém para testemunhar pela sua honestidade; enquanto Tom evidentemente era um homem respeitável e um pedreiro. Provar tudo isso, porém, levaria tempo, talvez semanas, se acontecesse de o xerife estar em outra parte do condado; e poderia ainda haver uma acusação de romper a paz do rei, se houvesse uma briga.

Não, seria mais sábio pegar o ladrão sozinho. Era possível que o homem não fosse passar a noite na cidade, pois não tinha casa ali e talvez não conseguisse hospedagem se não pudesse, de um modo qualquer, provar ser um homem respeitável. Assim sendo, precisava ir embora antes que os portões fechassem, ao cair da noite. E havia apenas dois portões. Ele provavelmente voltará por onde veio, disse Tom dirigindo-se a Agnes. Vou esperar lá fora, junto do portão leste. Alfred cuida do portão oeste. Você fica na cidade e vê o que o ladrão faz. Conserve Martha ao seu lado, mas não deixe que ele a veja. Se precisar mandar um recado para mim ou para Alfred, mande-o pela menina.

Certo, concordou Agnes, tensa. O que devo fazer se o ladrão vier na minha direção?, perguntou Alfred, que parecia excitado. Nada, respondeu o pai com firmeza. Veja que estrada ele segue e espere. Martha irá me buscar e cuidaremos dele juntos. Alfred pareceu ficar desapontado, e Tom acrescentou: Faça o que digo. Não quero perder meu filho, como também não quero perder meu porco. Alfred aquiesceu, relutante. Vamos nos separar, antes que ele note nossa presença aqui. Vamos.

Tom saiu imediatamente, sem olhar para trás. Podia confiar em Agnes para levar a cabo o plano. Dirigiu-se rapidamente para o portão leste e deixou a cidade, atravessando a oscilante ponte de madeira onde empurrara o carro de boi naquela manhã. Bem na sua frente ficava a estrada de Winchester, no rumo leste, sempre recta, como um longo tapete desenrolado sobre colinas e vales. À esquerda, a estrada pela qual ele, e presumivelmente também o ladrão tinha chegado a Salisbury, a Portway, fazia uma curva sobre uma colina e desaparecia. O ladrão certamente iria pela Portway. Tom desceu a colina e passou pelas casas que se agrupavam na encruzilhada, tomando por fim a Portway. Precisava se esconder. Caminhou pela estrada, procurando um lugar adequado. Seguiu adiante umas duzentas jardas sem encontrar nada. Olhando para trás, viu que tinha ido muito longe: não podia mais distinguir as feições das pessoas na encruzilhada, de modo que não saberia se o homem sem lábios havia saído da cidade e tomado a estrada de Winchester. Examinou a paisagem novamente. A estrada era margeada de ambos os lados por valas, que teriam servido de esconderijo com tempo seco, mas que nesse dia estavam cheias de água. Logo depois de cada vala, a terra se amontoava. No campo, do lado sul da estrada, algumas vacas pastavam o restolho do capim. Tom notou que uma delas estava deitada na extremidade do pasto, uma elevação que dominava a estrada, e era parcialmente escondida pelo monte de terra que acompanhava a vala. Com um suspiro, refez os passos. Saltou a vala e deu um pontapé na vaca, que se levantou e foi embora. Deitou-se no lugar seco e quente que ela deixara. Puxou o capuz sobre o rosto e se acomodou para esperar, desejando que tivesse tido a ideia de comprar um pedaço de pão antes de sair da cidade.

Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco. Tom tinha um pouco de medo de se machucar, mas se preocupava muito mais em ficar sem seu dinheiro. Esperava que a mulher e a filha estivessem bem. Agnes podia se cuidar, ele sabia; e mesmo que o fora-da-lei a reconhecesse, o que poderia fazer? Ficaria apenas em guarda, mais nada. De onde estava deitado, Tom podia ver as torres da catedral. Quisera ter tido um momento para dar uma olhada por dentro. Estava curioso acerca do tratamento dado às pilastras da arcada. Normalmente eram pilares grossos, com os arcos nascendo do topo de cada um deles: dois na direcção norte e sul, para a ligação com os pilares vizinhos na arcada; e um na direcção leste ou oeste, cruzando a nave lateral». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca»

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«Uma mulher com os lábios pintados de vermelho desnudou os seios para ele, que sacudiu a cabeça e apressou o passo. Secretamente sentia-se atraído pela ideia de ir para a cama com uma estranha, à luz do dia e pagando, mas em toda a vida nunca experimentara isso.

Pensou mais uma vez em Ellen, a fora-da-lei. Havia alguma coisa intrigante nela também. Era muitíssima atraente, mas aqueles olhos fundos e intensos intimidavam.

Um convite feito por uma prostituta fez com que Tom se sentisse irritado por um momento, mas o encanto gerado pela lembrança de Ellen ainda não se dissolvera, e de repente ele teve ímpetos de correr de volta para a floresta e cair sobre ela.

Chegou no adro da catedral sem ver o ladrão. Levantou os olhos para os encanadores, que prendiam o chumbo na estrutura triangular das vigas do telhado sobre a nave.

Ainda não tinham começado a cobrir o telhado de meia-água das naves laterais da igreja, de modo que ainda era possível ver os meios arcos de apoio que conectavam a parte externa com a nave principal, escorando a metade de cima da construção. Ele os apontou para Alfred. Sem aqueles suportes, a parede da nave cederia e vergaria para fora, por causa do peso das abóbadas de pedra na parte de dentro, explicou. Está vendo como os meios arcos se alinham com os contrafortes na parede da nave? Alinham-se também com os pilares da arcada da nave, no lado de dentro. E as janelas, com os arcos da arcada. Linhas fortes com linhas fortes, linhas fracas com linhas fracas. Alfred deu a impressão de estar se sentindo frustrado e ressentido. Tom suspirou.

Viu Agnes vindo do lado oposto, e sua mente retornou ao problema imediato. O capuz de Agnes ocultava-lhe o rosto, mas ele reconheceu o queixo lançado para a frente, seu andar seguro. Operários de ombros largos afastavam-se para que passasse. Se ela esbarrasse no ladrão e houvesse uma briga, pensou ele, seria bem equilibrada.

Você o viu?, quis saber ela. Não. E obviamente você tampouco. Tom esperava que o ladrão não tivesse deixado a cidade. Certamente não iria sem antes gastar um pouco de dinheiro, que não tinha utilidade na floresta. Agnes estava pensando a mesma coisa. Ele está aqui, em algum lugar. Vamos continuar procurando. Vamos voltar por ruas diferentes e nos encontrar no mercado.

Tom e Alfred refizeram seu caminho atravessando o adro e saíram pelo portão. A chuva encharcava-lhes o manto e por um segundo Tom pensou numa jarra de cerveja e numa tigela de caldo de carne, junto à lareira de uma cervejaria. Depois pensou em como trabalhara duro para comprar o porco, viu de novo o homem sem lábios brandindo o porrete na cabeça inocente de Martha, e sua cólera o aqueceu.

Era difícil procurar sistematicamente porque não havia ordem nas ruas. Elas ziguezagueavam, de acordo com o lugar onde as pessoas tinham construído suas casas, e havia muitas curvas acentuadas e becos sem saída. A única rua recta era a que levava do portão leste à ponte levadiça. Na sua primeira pesquisa, Tom ficara próximo das rampas do castelo. Dessa vez ele examinou as cercanias indo até a muralha da cidade e retornando ao interior. Ali estavam as casas mais pobres, as construções mais mal executadas e as prostitutas mais velhas. As cercanias da cidade ficavam num nível mais baixo que o centro, e assim o lixo da região mais rica descia com a água da chuva pelas ruas até se alojar na base da muralha. Algo similar parecia acontecer com as pessoas, pois aquele distrito tinha mais do que a cota justa de aleijados e mendigos, crianças famintas e mulheres machucadas, assim como de bêbados irremediáveis. Entretanto, não se via o homem sem lábios em parte alguma.

Por duas vezes Tom localizou um homem com o mesmo porte e aparência e aproximou-se dele, só para ver que tinha o rosto normal. Terminou a busca no mercado, e ali estava Agnes esperando por ele impacientemente, o corpo tenso e os olhos faiscantes. Eu o achei!, disse entre os dentes. Tom sentiu uma onda de excitação misturada com receio. Onde? Entrou numa locanda ali, perto do portão leste. Leve-me lá.

Eles rodearam o castelo até a ponte levadiça, desceram a rua recta até ao portão leste, depois se meteram num labirinto de vielas ao pé da muralha. Tom viu a locanda um momento depois. Não era sequer uma casa, apenas um telheiro inclinado sobre quatro pilares, encostado à muralha, com um fogo alto na parte de trás, onde um carneiro girava num espeto e um caldeirão borbulhava. Era quase meio-dia e o lugar estava cheio de gente, na maioria homens. O cheiro da carne fez o estômago de Tom roncar. Ele esquadrinhou a pequena multidão com os olhos, com medo de que o proscrito tivesse ido embora durante o curto período de tempo que haviam gasto para chegar ali. Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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O Segredo de Espinosa. José Rodrigues dos Santos. «Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele?»

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Prólogo

«Os olhos castanho-escuros brilhantes do menino de oito anos estavam colados ao pano de seda vermelha e dourada que no hechal, o santuário da arca feito de madeira com duas portinholas, cobria os pergaminhos onde se inscrevia a Tora. Era como se HaShem, Ele próprio, o Nome, Deus bendito, omnipotente e omnipresente, Shaddai Todo-Poderoso, Adonai, Elohim ou qualquer outro dos Seus mil nomes, a1i estivesse à espera que O destapassem para que sobre todos lançasse o Seu olhar carregado de infinito. Misericórdia, justiça, fúria, compaixão, majestade, poder, amor, vida e morte. Ele era tudo o que havia. Tudo. O incomensurável.

O rebuliço próprio da sinagoga, entre os yehidim conhecida por esnoga, denunciava uma descontracção feita de conversas cruzadas e gargalhadas frequentes. Os correctores trocavam informações úteis para a sua actividade na bolsa, os comerciantes discutiam quando chegariam os últimos carregamentos de pau-brasil do Recife e de sal de Setúbal, e se haveria problemas com os espanhóis. Outros membros da congregação comentavam o descaramento dos tudescos em quererem vender nos seus talhos comida kosher aos portugueses, enquanto um punhado se ria com uma piada fresca que acabara de chegar de Lisboa ou de Sevilha. Os homens tinham panos brancos nos chapéus a cair-lhes sobre os ombros, os tallitot, e todos se sentavam nos seus lugares previamente marcados. Não havia nenhum que não tivesse nas mãos um Tanach, a Bíblia judaica; algumas em hebraico, a maioria em português.

O olhar do pequeno Bento desviou-se para a galeria onde se encontravam as mulheres, as cabeças cobertas por véus, muitas acompanhadas pelas filhas. Até dois anos antes tinha visto a mãe sempre ali sentada, silenciosa e atenta, a tossir ocasionalmente, mas justamente por causa dessa maldita tosse Ana Débora já não estava neste mundo. Em vez dela, viu duas meninas da sua idade sorrirem-lhe. Endireitou-se logo. Diziam-lhe por vezes que era um rapazinho de feições bonitas, o que pelos vistos atraía tantos sorrisos e olhares das meninas, mas, tímido como era, não sabia como lidar com tais atenções.

O burburinho parou bruscamente. De tão inusitado, o silêncio súbito arrancou Bento das suas deambulações pela esnoga. Os rostos de todos os congregantes voltaram-se em vagas sucessivas para a porta da rua e o menino, sentado na nave com a família, imitou-os.

Contra a luz pálida do Sol que jorrava sobre a entrada recortava-se o vulto de um homem de cabelos grisalhos revoltos, os ombros descaídos, imóvel e de cabeça baixa; dir-se-ia que tinha medo de entrar. Os olhares dos yehidim mantinham-se presos no recém-chegado, sem o convidarem mas também sem o rejeitarem; estavam simplesmente na expectativa de ver o que ele faria. Atrever-se-ia a avançar ou daria meia-volta e escapulir-se-ia?

Sentindo a súbita tensão que se instalara no santuário, Bento virou-se para o lado. Quem é?, os seus dois irmãos, Isaac um ano mais velho e Gabriel dois anos mais novo, encolheram os ombros com indiferença. Sei lá. Olhou para o adulto que os acompanhava. Quem é aquele senhor, Pai? É o Uriel da Costa. Porque está toda a gente a olhar para ele? Impacientando-se, o pai colou o indicador aos lábios. Chiu!

O pequeno calou-se e voltou a olhar para o recém-chegado. Ainda plantado no meio da entrada, Uriel da Costa respirou fundo, como se ganhasse coragem para fazer o que viera ali fazer. Recomeçou a caminhar, o corpo curvado pela derrota, os olhos intimidados no chão, internando-se na sinagoga pelo corredor central ladeado de congregantes que o observavam fixamente.

Chegou diante da bimah, a plataforma de madeira situada no centro do santuário onde habitualmente se faziam as leituras. Após uma nova hesitação, subiu-a com passos lentos e pesados, como um condenado a encaminhar-se para o cadafalso. A bimah estava deserta e os olhos de todos os yehidim encontravam-se centrados nele como se fosse o chacham de serviço. Voltando-se para a multidão, Uriel retirou do interior do casaco o papel que o chacham Saullevi Morteira, o rabino chefe, havia previamente redigido com as palavras adequadas para a ocasião. Desdobrou-o. As mãos tiritavam de nervosismo e o papel tremelicava sem cessar. Engoliu em seco ao pousar os olhos nas primeiras linhas do texto. Afinou a garganta». In José Rodrigues dos Santos, O Segredo de Espinosa, 2022, Grupo Planeta, 2023, ISBN 978-989-777-666-3.

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