quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Lisboa e os Descobrimentos. 1415-1580. A invenção do Mundo pelos Navegadores Portugueses. Carlos Araújo. «… chegou à embocadura do rio Zaire (Abril de 1483) e aí instalou o seu primeiro “padrão”. Foi encontrada, a 150 Km de embocadura do Zaire, gravada num rochedo: “Aqui chegaram os navios do ilustre rei de Portugal, JoãoII de Portugal”»

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A exploração marítima registará então um esplendor jamais atingido…

Cem anos gloriosos
Um século de navegações e de descobertas. Cronologia da expansão portuguesa
«(…) Após nova pausa, as viagens de descobrimento prosseguem, durante o decénio de 1450-1460. Dois italianos ao serviço do Infante, Ca' da Mosto (Cadamosto) e Uso di Mare (Usodimare), assim como o português Diogo Gomes, exploram os estuários e as ilhas daquilo a que se chamava os Rios da Guiné, na Guiné-Bissau dos nossos dias. Por fim, em 1460, Pedro Sintra descobre a Serra Leoa. Foi esse, digam o que disserem, o ponto extremo atingido até à morte do Infante (1460).

Da Serra Leoa até às imediações do Cabo (1460-1486)
O desaparecimento do Infante implicou uma interrupção de alguns anos. O rei Afonso V, que reinava desde 1438, interessava-se mais pelo Marrocos do que pela Guiné. Alcácer Ceguer havia sido conquistada em 1458. Em 1471, foi a tomada de Arzila, em breve seguida pela ocupação de Tânger e Larache. E por causa do Marrocos é que Afonso V ficou com o cognome de Africano. Mas a outra África, a Negra, estave muito atrás do Magrebe, na ordem das suas preocupações. Entregara a responsabilidade das navegações a seu irmão, o infante Fernandor governador da Ordem de Cristo e mestre de Santiago. Tendo autoridade sobre todas as ilhas e terras descobertas, o infante Fernando era então o verdadeiro sucessor do infante Henrique. Contudo, não se interessava pela Guiné em maior grau que o seu irmão. Assim, a coroa portuguesa descarregou sobre os ombros de particulares a responsabilidade directa da exploração da costa de África, para lá da Serra Leoa. Através de um contrato assinado em Novembro de 1469, o rei concedia e um certo Fernão Gomes, rico mercador de Lisboa, o direito de navegar e de comerciar nessa região, ficando o mesmo Fernão Gomes com o encargo de descobrir cem léguas de costa por ano (cerca de seiscentos quilómetros), durante cinco anos, e de pagar ao rei uma renda anual de 200 000 reais. Posteriormente, o prazo foi prolongado para seis anos.
Fernão Gomes cumpriu os seus compromissos. Confiou o comando dos seus navios e marinheiros experimentados, como João Santarém, Pêro Escobar, Soeiro Costa, Fernando Pó, Lopo Gonçalves e Rui Sequeira. Estes exploraram todo o contorno do golfo da Guiné, assim como as ilhas, desde a Serra Leoa até ao cabo de Santa Catarina, localizado a 2º ao sul do equador (perto de Port-Gentil, no actual Gabão). Em 1474, Afonso V confiou ao seu filho mais velho, o príncipe João, que lhe iria suceder em 1481, à direcção económica e política da expansão portuguesa. Mas vê-se então, durante vários anos, manifestar-se a rivalidade entre Portugal e Castela. O tratado de Alcáçovas (1479), que põe cobro à guerra da Sucessão, em Castela, acerta essas querelas. Delimita zonas de influência, como o fará alguns anos mais tarde o tratado de Tordesilhas. Uma cláusula reserva então, para Portugal, o golfo da Guiné. Quando, em 1481, João II sobe ao trono, a política de expansão recomeça de novo, mas com maiores ambições. João II nutre um grande desígnio, que se vai desvendando pouco e pouco, e que consiste em dobrar a ponta meridional da África, para chegar à India.
Uma das primeiras decisões tomadas pelo novo monarca, a partir de 1481, foi a de mandar construir, sob a direcção de Diogo Azambuja, o forte de São Jorge da Mina, na costa do golfo da Guiné, a oeste da actual localidade de Cape Coast (no Gana). E todos os materiais deveriam ser transportados de Portugal para lá. Em breve, sob a protecção da fortaleza, começou a nascer uma localidade que, em 1486, recebeu o estatuto de cidade. Este ponto de apoio estratégico, na região em que se efectuava uma boa parte do comércio do ouro africano, iria permanecer sob a soberania portuguesa até 1637. João II confiou a Diogo Cão a tarefa de prosseguir a exploração da costa, para além do cabo de Santa Catarina. É a partir desse momento que os navegadores portugueses ganharam o hábito de levar com eles padrões, que colocavam em certos pontos, para assinalar a sua passagem . Era o nome que se dava a pilares de pedra, tendo ao cimo uma cruz ou o brasão português, com uma inscrição. Diogo Cão realizou duas viagens. No decurso da primeira (1482-1483), chegou à embocadura do rio Zaire (Abril de 1483) e aí instalou o seu primeiro padrão (num lugar que ainda se chama Ponta do Padrão), enviando então emissários ao rei do Congo. De facto, foi encontrada, a 150 Km de embocadura do Zaire, perto das cataratas de Ielala, gravada num rochedo, uma inscrição em português arcaico: Aqui chegaram os navios do ilustre rei de Portugal, JoãoII de Portugal. Lê-se a seguir diversos nomes, incluindo os de Diogo Cão, Pêro Anes e Pêro Costa. Prosseguindo a sua viagem, Diogo Cão atingiu depois, a 28 de Agosto de 1483, o cabo do Lobo (hoje, cabo de Santa Maria, em Angola), a l3º 26’ de latitude sul. E não foi mais além. Regressou então a Portugal, trazendo consigo alguns negros. Chegou a Lisboa em Abril de 1484.
Temos aqui um episódio lamentável. Para além do cabo do Lobo, ponto extremo da sua viagem, Diogo Cão julgou ver a costa a encurvar-se rumo a sueste. E, fazendo dos seus desejos realidades, acreditou ter atingido a ponta meridional da África. A passagem para o oceano Índico estava ao alcance da mão! Comunicou ao rei esta notícia sensacional, mas falsa. E, no ano seguinte (1485), o embaixador português em Roma, Vasco Fernandes Lucena mencionou-a num discurso público. Imagine-se o descontentamento do rei, mais tarde, ao saber a verdade». In Lisboa e os Descobrimentos. 1415-1580. A invenção do Mundo pelos Navegadores Portugueses. Coordenação de Carlos Araújo, Paul Teyssier, Terramar, Memórias, Lisboa, 1992, ISBN 972-710-063-5.

Cortesia de Terramar/JDACT

Muçulmanos. Cristãos. Judeus. Toledo. Séculos XII-XIII. « Parafraseando o título de uma obra célebre, ‘os árabes invadiram mesmo a Espanha’. Vieram em grande número, em muito maior número do que outrora se imaginava, da longínqua Arábia e do Norte de África»

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A Chegada dos Cristãos. O Refluxo do Islão Espanhol
«(…) 1050. Já1á vão mais de trezentos anos e um país completamente transformado. A Espanha é muçulmana; ou antes, os dois terços meridionais da Espanha, a sul de uma linha que vai de Lisboa a Navarra. A norte, a Espanha fria, húmida, miserável, abandonada aos cristãos que, com guarnições e expedições periódicas, operações de polícia e de pilhagem bem como militares, se instalaram nas montanhas do lado de lá de uma vasta no man's land quase vazia, que garante a segurança de Al-Andalus, a Espanha meridional, rica, povoada e cultivada. Entre as duas, uma fronteira militar juncada de cidades fortificadas: Badajoz, Toledo, Saragoça; complementada por uma estrada, que permite aos exércitos que sobem do sul socorrer rapidamente qualquer ponto ameaçado. Al-Andalus é, antes de tudo, uma civilização agrícola, uma agricultura rica, onde a irrigação, as culturas hortícolas e os pomares parecem desempenhar um grande papel; é também uma civilização urbana onde a tradição árabe fez reviver as cidades quase mortas dos visigodos: Córdova, em primeiro lugar a capital, admirada pelos viajantes; Sevilha, a mercantil, Almeria, Granada, Valência, Saragoça e Toledo, reduzida a um papel de segundo plano mas que faz grande figura se comparada com os pobres povoados do país cristão... Al-Andalus é o comércio, com os Francos amantes de ouro e de produtos de luxo, mas sobretudo com Túnis, com Alexandria. Al-Andalus, enfim, é para os cristãos do norte, o país da prata e do ouro, o país onde circulam os dinares, essas moedas que têm o peso da lei cujo uso a Europa quase perdeu.
Todavia, nem tudo é fácil na Espanha muçulmana, a começar pela sociedade que carece de homogeneidade. O Islão é tolerante e não obrigou os cristãos a converterem-se. Na religião muçulmana, o clero exerce o seu ministério, os mosteiros funcionam, ensina-se teologia, especula-se sobre as relações entre o Filho e o Pai, e o culto continua... É certo que sem poder manifestar-se no domínio público. Mas o estatuto jurídico do cristão coloca-o num estado de inferioridade flagrante: paga um imposto especial, não tem direito a casar com uma muçulmana, e estão sempre prontos a declará-lo convertido, ao mínimo sinal que dê, sem possibilidade de arrependimento. Salvo raras excepções, são sobretudo os postos de comando que lhe são vedados. Por outro lado, as conversões são numerosas, e a comunidade cristã enfraquece todos os dias. Em breve chegará o tempo em que os cristãos do sul, apanhados entre uma vaga fundamentalista muçulmana e a expansão dos seus correligionários do norte que lhes chamam, talvez com desprezo, moçárabes, vão ter de renunciar à sua especificidade. Entretanto, sentem-se cada vez mais constrangidos e, quando podem, emigram para as terras cristãs.
O mesmo não se poderia dizer dos judeus. São numerosos, sobreviventes das perseguições visigóticas ou imigrantes vindos um pouco de todo o lado, atraídos pela tolerância que lhes é demonstrada e pelo crescimento das cidades. O seu estatuto é semelhante ao dos cristãos, e o seu papel aumenta na administração. Em certos Estados, no século XI, alguns deles desempenharão o papel de verdadeiros primeiros-ministros. O direito coloca o muçulmano no vértice da pirâmide social e a prática ainda mais. Pois, parafraseando o título de uma obra célebre, os árabes invadiram mesmo a Espanha. Vieram em grande número, em muito maior número do que outrora se imaginava, da longínqua Arábia e do Norte de África (ainda se faz a distinção entre árabes e berberes). Os convertidos de origem cristã, que estão colocados numa posição inferior à dos muçulmanos de origem, fizeram o resto. O Islão é maioritário. Mais ainda, a cultura é muçulmana: a organização social, os modelos familiares, as estruturas de pensamento são muçulmanas. Também o árabe é a língua das ciências e das artes; ciências e artes que, desde o século X, brilham nas cortes e nas cidades. As artes plásticas, a arquitectura, desenvolveram-se e oferecem monumentos que entraram no património universal, como a grande mesquita de Córdova; a poesia, na mais pura tradição oriental, produz obras-primas. O pensamento especulativo experimenta um impulso notável nas escolas jurídicas, e até, sob o grande al-Hakam II, que reúne em Córdova, na segunda metade do século X, uma magnífica biblioteca, as matemáticas e a astronomia». In Louis Cardaillac, Tolède, XII-XIII, Éditions Autrement, Paris, 1991, Toledo XII-XIII, Muçulmanos. Cristãos, Judeus, O Saber e a Tolerância, Terramar, Lisboa, 1996, ISBN 972-710-144-5.

Cortesia de Terramar/JDACT

Sevilha. Século XVI. De Colombo a D. Quixote. Entre a Europa e as Américas. Carlos Araújo. «A poesia encontrou também terreno fértil, com uma primeira escola poética, fundada pelo aprazível Gutierre Cetina, o divino Fernando Herrera e o jocoso e popular Baltasar del Alcázar»

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Arquitectura e festas
«(…) A impressão que Sevilha produzia nos seus visitantes devia-se, em grande parte, ao frenesim de construção que se apoderou da metrópole. Os equipamentos civis (Câmara Municipal, Palácio da Justiça), económicos (Casa da Contratação, Lonja, Alfândega, Palácio da Moeda), religiosos (Catedral, igrejas e conventos), de ensino (colégios universitários, escolas da Companhia de Jesus), de assistência (hospitais), privados (casas e palácios) e de divertimento (corrales de teatro) exigiram a construção de uma nova cidade que se sobrepôs ao património medieval, como simbolicamente o pináculo renascentista da Giralda se sobrepôs ao grande minarete herdado dos Almóadas. A história de Sevilha foi, de certa maneira, a história do nascimento de uma cidade, cujos alicerces mergulhavam no passado romano e muçulmano. Os Sevilhanos inventaram ainda os seus modos próprios de expressão colectiva. Claro que os conquistadores castelhanos trouxeram com eles modelos culturais já elaborados e bem afirmados, mas aqui, no crisol de uma estrutura social particular e sob o calor de novas influências culturais, transformaram-se num produto dotado de traços singulares, características específicas que se cristalizaram numa evidente originalidade. Não tardou a haver em Sevilha uma maneira especial de viver a Paixão de Cristo nas ruas, de celebrar com um ardor singular a Festa do Corpo de Deus, de exprimir, de uma maneira ao mesmo tempo subversiva e respeitosa das normas, o desejo reprimido de transformação social, de escrever a sua própria história religiosa, celebrando santos particulares, de expandir a sua alegria através de fórmulas originais. Houve talvez uma maneira sevilhana de exprimir a angústia do pecado ou de praticar a caridade, de sentir a morte ou de viver o amor, numa cidade caracterizada pela veemência dos seus pecadores arrependidos, que se redimem ao serviço dos pobres, ou pela audácia dos seus sedutores, que desafiam a morte e os próprios avisos do Além.

Um fervilhar cultural
A alma de Sevilha penetrou nos escritores e artistas de todo o género que, ao longo do século XVI, ilustraram a cidade com o seu talento. Assistiu-se ao florescimento de uma plêiade de humanistas, e eruditos, entre os quais poderemos citar os nomes de Benito Arias Montano, Gonzalo Argote Molina, Alonso Morgado, Pedro Mexía, Luis Peraza, Sebastián Fox Morcillo ou Juan Mal-Lara. Ao lado destes, trabalharam cientistas: médicos, como Bartolomé Hidalgo Agüero, Simón Tovar ou Nicolás Monardes, economistas, como o dominicano Tomás Mercado, ou cosmógrafos, como Pedro Medina ou Martín Cortés. Muitos destes constituíram bibliotecas consideráveis, como a de Hernando Colón (o filho do Almirante), que ascendia a vinte mil volumes. Muitos publicaram as suas obras na nascente tipografia sevilhana, que se dinamizou muito depressa e que era representada pelo alemão Jacobo Cromberger, primeiro editor de Erasmo na cidade, mas também por sábios, que se fizeram impressores, como Monardes. Esta dinâmica tipografia sevilhana serviu de modelo à americana, a qual recebeu os seus primeiros equipamentos, enviados de Sevilha, em 1539. A propósito, recorde-se que a primeira farmácia do Novo Mundo também partiu de Sevilha em 1514. Muitos destes homens frequentaram também os cenáculos que animaram o debate sevilhano, como a academia fundada pelo conde de Gelves na sua casa de Sevilha, e que reunia o dramaturgo Juan de la Cueva (criador, com Lope de Rueda, do teatro sevilhano), o erudito Gonzalo Argote Molina, o cónego Francisco Pacheco, o humanista Juan Mal-Lara (fundador, por sua vez, de uma escola de Gramática e de Humanidades) e o poeta Fernando Herrera.
A poesia encontrou também terreno fértil, com uma primeira escola poética, fundada pelo aprazível Gutierre Cetina, o divino Fernando Herrera e o jocoso e popular Baltasar del Alcázar. Poetas do Renascimento, serão substituídos por uma nova geração que fará a transição para o estilo barroco e cuja carreira literária decorrerá no século seguinte: será o caso, entre outros, dos ilustres Francisco Rioja, Juan Arguijo e Rodrigo Caro. Sevilha foi o foco ideal de expansão das arres plásticas, cuja verdadeira idade de ouro começou no século XVI e se prolongou até aos últimos clarões do barroco. A febre de construção que se apoderou da cidade exigiu o concurso de importantes arquitectos, que vão de Diego Riaño (a sacristia dos Cálices) a Juan Herrera (a Casa Lonja) passando por Martín Gaínza (a sacristia principal) e Hernán Ruiz II (a Giralda). Os edifícios exigiam uma obra escultórica digna da sua sumptuosidade, a qual foi executada por mestres notáveis, italianos primeiro (Domenico Fancelli, Pietro Torrigiano), espanhóis depois (Juan Bautista Vázquez, Jerónimo Hernandez, precursores do genial Juan Martínez Montañés, o grande escultor sevilhano da época barroca).
A pintura não foi menos brilhante: a obra-prima gótica de Alejo Fernández (A Virgem dos Navegadores, símbolo da nova Sevilha marítima e americana) abre caminho à Renascença nórdica de Pedro Campaña e Hernando Esturmio e à influência da Renascença italiana em pintores, como Luis Vargas, Pedro Villegas ou Alonso Vázquez, antes de uma última geração (Francisco Pacheco, Francisco Herrera, Juan las Roelas) preparar a transição para o esplendor da escola sevilhana do barroco, com Velázquez, Zurbarân e Murillo». In Sevilha, Século XVI, De Colombo a D. Quixote, Entre a Europa e as Américas., O coração e as riquezas do Mundo, coordenação de Carlos Araújo, Carlos Martínez Shaw, Terramar, Lisboa, 1993, ISBN 712-710-073-2.

Cortesia de Terramar/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria da Graça Ventura. «En 1508, Américo Vespucio fue nombrado primer Piloto Mayor de la Casa de la Contratación, encargándosele la confección de mapas sobre el Nuevo Mundo y el examen de cuantos quisieran ir como pilotos»

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As Rotas
La Carrera de Indias: Inconvenientes y Ventajas del Sistema Español de Comunicaciones Transatlánticas
«(…) Al mismo tiempo que se restringió el número de puertos habilitados, se concentró también la salida de las embarcaciones en dos convoyes anuales protegidos por barcos de guerra. Este sitema quedó perfectamente reglamentado en los años sesenta del siglo XVI. En los meses de Abril o Mayo salía la flota de la Nueva España com destino a Veracruz. En Agosto lo hacía la de Tierra Firme, cuyo destino incial era Cartagena de Indias. Esta segunda expedición esperaba en Cartagena hasta que llegaba la noticia de que desde el puerto del Callao, en el litoral del Pacífico, había salido otro convoy protegido por la denominada Armada del Mar del Sur, que custodiaba laplata extraida de la mina del Potosí en el Alto Perú. El intercambio entre los ricos metales potosinos y los tejidos que transportaba la flota de Tierra Firme se realizaba en una espectacular feria que tenía lugar en el istmo de Panamá, el cual servía de intermediario terrestre entre los convoyes que navegaban por el Atlántico y el Pacífico. Los peruanos dejaban su plata en la ciudad de Panamá y, desde allí, algunos trechos a lomos de mulas y otros enbarcazas fluviales, los tesoros eran transportados a Nombre de Dios o a Portobelo, ambos en el litoral Atlántico, donde acudían las naves de la flota de Tierra Firme para realizar una breve pero rica y bulliciosa feria.
Los barcos salidos desde Sevilla no navegaban directamente hasta el Pacífico. Esta circunstancia constituyó otra de las máximas estratégicas del sistema de comunicaciones transoceánicas españolas. La Corona trató de considerar el Pacífico, al menos en las proximidades de las costas americanas, como un océano cerrado, una especie de descomunal lago hispánico y para ello nada mejor que procurar que los navegantes, incluidos los propios españoles, olvidasen las rutas de acceso a aquellas aguas. A este planteamiento estratégico se unía, desde luego, la peligrosidad del paso a través del estrecho de Magallanes, que había hecho fracassar alguna de las primeras expediciones que se dirigieron directamente desde España a las Molucas. En resumidas cuentas, uno de los principios básicos del sistema fue que la comunicación entre las posesiones españolas del Pacífico y la metrópoli siempre se hizo a través del intermedio del continente americano. Ya hemos descrito como se enlazaba el Peú con Sevilla. De manera parecida, aunque con distancias enormemente superiores, las Filipinas mantenían una comunicación periódica con México a través de pequefros convoyes que enlazaban Manila con Acapulco. Desde allí las mercancías orientales pasaban por tierra a Veracruzy partían en la flota de Nueva España hacia Sevilla. Con todo ello se había creado una red de comunicaciones que adquiría un caracter realmente planetario y que solo tenía parangón con la que la corona Portuguesa había confeccionado para unir sus posesiones en extremo Oriente con Lisboa.
Este tremendo esfuerzo requería en primer lugar la creación de organismos, tanto públicos como privados, capaces de administrar una maquinaria tan compleja, y, en segundo lugar, contar con embarcaciones y tripulantes expertos y capaces de llevar a la práctica las órdenes recibidas. El organismo público más importante fue la Casa de la Contratación de Sevilla. Creada en 1503 por los Reyes Católicos, fue inicialmente una oficina destinada a gestionar el envío de embarcaciones, cobrar los impuestos reales, y dirigir la política migratoria de la Corona. Por ser una institución estatal se emplazó en dependencias del alcazar real, donde se le habilitaron unas casas contruidas sobre un antiguo palacio musulmán, cuya entrada se abría a una pequeña plaza cercana al rio y no lejos del puerto fluvial».
Inicialmente, el cuerpo de funcionarios de la Casa de la Contratación fue muy reducido, pero poco a poco, a medida que se confirmaba la extensión de las tierras americanas, se le fue añadiendo personal hasta contar con más de cien personas en la plantilla, lo que, en aquellos tiempos, significaba un importante nucleo burocrático. Al mismo ritmo crecieron sus competencias. De su primitiva misión, esencialmente de caracter ejecutivo, pasó a ejercer de tribunal de justicia para todos los pleitos relacionados con el tráfico comercial, naval y migratorio. Pero, sobre todo, la Casa de la Contratación fue conocida en el mundo por constituirse en un importantísimo centro de investigación y enseñanzas náutico-geográficas. En 1508, Américo Vespucio fue nombrado primer Piloto Mayor de la Casa de la Contratación, encargándosele la confección de mapas sobre el Nuevo Mundo y el examen de cuantos quisieran ir como pilotos. La labor cartográfica de la Casa se centró en la confección de los famosos Padrones Reales, que eran mapas resúmenes realizados con las informaciones entregadas por los navegantes y que luego servían, a su vez, como fuente para confeccionar las cartas náuticas. De su primitiva función como simple tribunal para examinar la competencia de los pilotos, la Casa pasó a crear una verdadera escuela de náutica, donde profesores de cosmografía y matemáticas impartían cursillos que, con una duración de entre tres y seis meses, resultaban obligatorios para cualquiera que quisiese graduarse como piloto de la Carrea de Indias». In Pablo Emílio Perez-Mallaina, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria da Graça Ventura. «En pocas palabras: la dura y desconocida realidad geográfica del Nuevo Mundo, junto con la falta de incentivos económicos, se encargaría de descorazonar a muchos de los posibles invasores»

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As Rotas
La Carrera de Indias: Inconvenientes y Ventajas del Sistema Español de Comunicaciones Transatlánticas
«(…) Los colonos eruropeos asentados en América apreciaban especialmente las ropas de calidad. Con ellas pretendían equipararse en presencia a los nobles del Viejo Mundo y distinguirse todavía más de las masas indígenas. Como otros muchos nuevos ricos los colonos amaban el lujo y, por ello, las bodegas de los barcos transportaban como carga principal telas finas que alcanzaban en América precios elevadísimos. Los vinos y el aceite andaluces eran también muy apreciados en América, pues, como la mayoría de las colonias españolas se situaban en zonas tropicales, su agricultura no era capaz de producirlos. Los colonos pagaban materialmente a precio de oro estos alimentoes que, a través del paladar, les hacían añorar sus tierras de origen. Finalmente, se enviaban dos metales muy importantes que escaseaban en América: hierro (en planchas, clavazón o herramientas) y mercurio, que se empleaba en la industria minera para favorecer la extracción de plata por el sistema de amalgama. En general, puede decirse que sólo productos que alcanzaban altísimos precios en los mercados de ambos continentes tenían la posibilidad de ser objeto de comercio en la Carrera de Indias. La larga duración de los viajes, el gran número de tripulantes, los intereses de los préstamos y las cuotas de los seguros convertían los costos del transporte en sumas muy elevadas, que solo permitían el tráfico rentable de algunas pocas y preciosas mercancías.
Toda la estrategia que presidió la orgunizaciónde la Carrera de Indias estuvo destinada a combatir a dos enemigos igualmente temibles: los corsarios y los contrabandistas. Los primeros eran la punta de lanza con la que otras potencias europeas pretendían disputar a la monarquía hispana sus pretendidos derechos a la exclusividad en los mares y tierras del Nuevo Mundo. Los segundos fueron inicial y fundamentalmente súbditos españoles dispuestos a escamotear las riquezas americanas a los funcionarios que debían cobrar los impuestos. Para combatir a ambos la Corona estableció un sistema que concentraba en pocos puntos el tráfico mercantil, permitiéndo defenderse mejor contra los enemigos y vigilar de manera más fácil a los posibles defraudadores. En general puede decirse que solo los súbditos españoles estaban capacitados para comerciar y navegar a las Indias, aunque durante el reinado del emperador Carlos V, el resto de los vasallos del vasto imperio tuvieron bastantes facilidades para conseguir excepciones a esta regla. Las mercancías no tenían por qué ser producidas en España, pero si debían pertenecer a un comerciante español y haber sido importadas legalmente, lo que significaba que debían pagar impuestos a la entrada de España, a la salida hacia las Indias y a la entrada en el continente americano. En suma, la Corona española no hizo sino practicar la teoría económica más en boga en el momento: el mercantilismo, tendente a defender la industria nacional mediante el monopolio y las restricciones, y a enriquecer las arcas del Estado desviando hacia el país la mayor cantidad posible de metales preciosos.
Como es natural, las restantes potencias europeas lanzaron duros ataques contra este sistema porque las privaba de los tesoros del Nuevo Mundo. No se trataba de una pugna a nivel de teoria económica, sino una simple diputa de intereses, lo cual quedó demostrado cuando, tras la der rota política y militar española, se vio como los antiguos detractores del sistema de monopolio hispánico, practicaban un tipo de economía colonial tan excluyente para los demás paises como lo había sido el español. Para facilitar la protección de las rutas marítimo-mercantiles, asi como el cobro de los impuestos, la Corona decidió concentrar la defensa en aquellas tierras que fueran capaces de producir el metal estrategico por excelencia: la plata. Como por una aparente paradoja del destino las regiones productoras de la mayor cantidad de metales preciosos (México, Colombia y Peú) coincidían con las áreas más densamente pobladas en la época prehispánica, la decisión parecía doblemente lógica. Los estrategas españoles consideraban que el resto de las regiones no era necesario defenderlas con la misma intensidad, pues, al no hallarse en ellas productos que fuera rentable exportar a Europa, los resultados económicos de las expediciones atacantes no compensarían los enormes gastos realizados para organizarlas. Al igual que los ejercitos rusos han confiado en el general inviemo para derrotar a los posibles invasores, los colonos españoles y los estrategas de la metrópoli confiaban en la desinformación que los extranjeros tenían sobre la situación americana y esperaban tener a su lado al general distancia y al general desconocimiento. En pocas palabras: la dura y desconocida realidad geográfica del Nuevo Mundo, junto con la falta de incentivos económicos, se encargaría de descorazonar a muchos de los posibles invasores.
Por todo ello, la defensa se concentró en unos pocos puertos, que fueron los únicos habilitados de manera permanente para el comercio trasatlántico. En España fue Sevilla, tal y como hemos visto. En América, Veracruz se constituyó en la puerta de entrada de todo el subcontinente norte, mientras que Cartagena de Indias lo era de toda Suramérica. En el viaje de vuelta, tanto los buques procedentes de Veracruz como los de Cartagena de Indias se reavituallaban en la Habana, antes de iniciar el definitivo salto del océano. La navegación directa desde España al resto de los puertos americanos no estaba totalmente prohibida, pero se veía mediatizada por la consecución de permisos especiales difíciles de obtener». In Pablo Emílio Perez-Mallaina, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «… e não fes enquanto viveu só sim fes huma abóbada na fonte e da mesma encaminhou pera a sua orta pro cano fichado ágoa da mesma sem ficra pera os moradores desta villa pesageiros ágoa alguma nem chafariz nem tanque como tinha de obrigasão…»

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A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Na verdade, o vereador Agostinho Gusmão Pais pretendia que a fonte se situasse junto à entrada principal da vila, ou seja, sensivelmente onde hoje se situa a Fonte das Bicas, para melhor servir os regimentos do exército que Passassem por Borba:
  • E logo pello dito Agustinho Gusmão Pais foi dito que à vista de ser (sic) ter prensipiado a obra sem o seu pareser, mandou buscar oficiais que bem o entendião para que se não desemcaminhase a fonte pondo-se em lugrar (sic) donde não fica semndo de utillidade assim ao povo como aos pasageiros respeitando respeitando [repetição] o uso da ágo[a] assim par o povo como para a gente millitar em ocazião das ágoas, digo, da pasagem do[s] exzersytos. E visto pellos oficiais diserão a elle por sertidão xurada aos santos Avangelhos por elle o dizer o dito Agostinho Pais Gusmão, a qual mestraria sendo nesesário que no sítio que elle detriminava que à vista da porta principal na continua pasaxem ficava a fonte em milhor sítio de hobra de mais durasão e otillidade do povo e com menos custo.
Assim, constatamos que a localização da fonte não era muito distinta entre os vários pontos de vista, devendo a polémica residir em rivalidades e discórdias pessoais dentro da Câmara. Como os outros membros da Câmara tinham a maioria dos votos, recusaram a argumentação do referido vereador, e a Fonte dos Finados acabou por ser construída em frente à Igreja Matriz. A primeira referência à nova fonte com o nome de Fonte dos Finados surge em 1733, na licença que a 2 de Maio a Câmara Municipal deu a Joana e António Passos para extraírem barro das barreiras das estradas, excepto:
  • na barreira do Rosio entre a muralha e a Fonte dos Finados sem prejuízo da muralha e estrada.
Esta pequena nota documental, além de nos dar a informação de que a muralha ainda existiria no seu alçado Este, hoje desaparecido, dá-nos a toponímia desta fonte, antecessora da Fonte das Bicas. O nome Finados significa mortos, defuntos, e a razão para a aplicação deste nome reside no facto, em nosso entender, de se localizar em frente à Igreja Matriz e ser associada aos inúmeros funerais que se desenrolavam na sua envolvência. Na transição da Fonte dos Finados para a Fonte das Bicas teve papel fundamental o episódio que se passou com Francisco Morais Barreto e com sua mulher, Catarina Matilde. Francisco Morais Barreto conseguiu, em época incerta, um alvará régio que lhe permitia encanar para as suas propriedades as sobras das águas da Fonte dos Finados. Em troca, teria de a reconstruir, tornando-a mais útil à população, já que ficaria com infra-estruturas para os animais poderem beber e para os populares poderem lavar a roupa, actividade que provocava a destruição das outras fontes da vila que não estavam preparadas para esta utilização. Assim, a nova fonte seria constituída por:
  • huma arca de abóbada e seu chafaris com três bicas e hum tanque grande pera beberem as bestas e seu lavadouro tudo na froma (sic) que se isprime na escretura de contrato que juntara.
Note-se que a tipologia definida se assemelha à actual Fonte das Bicas. Tal como o monumento que podemos hoje admirar, esta nova Fonte dos Finados seria constituída por três bicas, na parte destinada ao consumo humano, um tanque para consumo animal e lavadouro. Contudo, o referido Francisco Morais Barreto, enquanto viveu, não construiu uma fonte nova, mas cobriu a antiga com uma abóbada e encaminhou toda a água para as suas propriedades, ficando a fonte seca:
  • e não fes enquanto viveu só sim fes huma abóbada na fonte e da mesma encaminhou pera a sua orta pro cano fichado ágoa da mesma sem ficra pera os moradores desta villa pesageiros ágoa alguma nem chafariz nem tanque como tinha de obrigasão (...) pondo projuízo aos moradores deste povo e pasageiros pera lhe faltarem ágoa.
Perante este facto, a Câmara notificou a viúva do referido Francisco Morais Barreto a construir a nova fonte, como estava contratado. Caso o não fizesse, a Câmara iria demolir, às custas da viúva». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

A amizade de AMG e MM
Cortesia de Colibri/JDACT

Viagem ao Fundo das Consciências. A Escravatura na Época Moderna. Maria do Rosário Pimentel. «Como resultado do entusiasmo geral, constituiu-se o primeiro ‘agrupamento comercial de particulares’, hoje conhecido pela designação de “Companhia de Lagos”. Dispondo de tantos navios ‘vergonhosa coisa seria tornar para Portugal sem avantajada presa’»

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Os Descobrimentos e o Tráfico de Escravos
«(…) Como resultado do entusiasmo geral, constituiu-se o primeiro agrupamento comercial de particulares, hoje conhecido pela designação de Companhia de Lagos. Lançarote, almoxarife do rei em Lagos, depois de reunir 6 caravelas bem armadas, foi o primeiro a pedir licença ao Infante para se deslocar à terra donde vinham aqueles mouros. Sob a sua chefia, partiu de Portugal a primeira grande expedição com o objectivo exclusivo e declarado de apresar escravos. Não iam com o fim de travar relações com os indígenas, mas para os aprisionar. O nauta era agora também um caçador de escravos e o valor económico a estes conferido era por demais evidente. A expedição partiu de Lagos em 1444 e, na ilha das Garças, Lançarote, ao falar aos companheiros da missão de que tinham sido mandatados por Deus e pelo Infante, exortou-os a levar para o reino uma presa bem maior do que todas as anteriores. Dispondo de tantos navios vergonhosa coisa seria tornar para Portugal sem avantajada presa. Segundo Zurara, a expedição regressou a Lagos com 235 cativos que aí foram expostos em mercado. Porém, Diogo Gomes, que fez parte desta expedição, aumentou o número para cerca de 650. A sua partilha, a primeira a que o infante Henrique assistiu, ficou imortalizada em patético relato na Crónica do Descobrimento e Conquista de Guiné. Criaturas na maior miséria, debilitadas pela fome e tormentos da viagem, eram extraídas dos navios. Uns eram de razoável brancura, outros pardos e outros negros. Repartidos em lotes ao sabor do acaso, uns conservavam-se cabisbaixos, chorando, outros gemiam dolorosamente de olhos fixos no céu, outros ainda, no desespero da sorte obscura, feriam-se ou lamentavam-se segundo o costume da sua terra, e as crianças, engrossando o coro trágico, constantemente fugiam para os pais. Perante tal visão, qual seria o coração, por duro que ser podesse que não fosse pungido de piedoso sentimento, vendo assim aquela campanha? Mas à luz da consciência cristã, tudo isto podia ser perfeitamente justificável, uma vez que, embora por um caminho de sacrifício, estes indivíduos eram conduzidos à salvação:
  • Ó tu, celestial Padre [...] eu te rogo que as minhas lágrimas nem sejam dano da minha consciência, que nem por sua lei daquestes, mas a sua humanidade constrange a minha que chore piedosamente o seu padecimento.
Em 1445, Antão Gonçalves com 3 caravelas rumou para o cabo Branco. Na ilha de Arguim, tomou de noite um mouro negro e sua filha, tendo sido aconselhado por estes a atacar uma aldeia em terra firme, onde acabou por fazer 25 cativos. Ali recolheram João Fernandes, deixado por uma expedição anterior, com o fim de aprender a língua e tomar conhecimento directo com a terra. Por seu intermédio, negociaram com um chefe mouro a compra de 9 negros e um pouco de ouro em pó. Ao voltarem ao cabo Branco, assaltaram ainda uma aldeia de azenegues, onde apresaram 55 indígenas. As incursões não se faziam somente ao litoral saariano; simultaneamente continuaram a realizar-se constantes correrias ao arquipélago das Canárias. Em Zurara, colhemos exemplos significativos da frequência com que os navegadores portugueses aí se dirigiam, no intuito de fazer escravos. Da grande expedição de 1445 à Guiné, desgarraram-se as caravelas de Tavira e Picanço que, ao encontrarem o navegador Álvaro Gonçalves Ataíde, lhe propuseram ir à ilha de Palma, a fim de cobrar alguma presa daqueles canários. Depois da concordância geral, para lá se dirigiram e, com a ajuda de alguns naturais, apresaram num só dia l7 canários (guanches). No entanto, João Castilha, capitão da caravela de Álvaro Gonçalves Ataíde, achando que a presa era pequena para assim tornar ao reino, conseguiu a anuência de todos para se apoderarem de 21 daqueles indígenas que os ajudaram, fazendo-os ir traiçoeiramente às caravelas. Porém, à sua chegada ao reino, o Infante não reconheceu esta presa feita tão ardilosamente e, depois de bem tratar os indígenas, mandou-os de novo para a sua terra. Também Álvaro Dornelas se dirigiu à ilha da Palma onde, com a ajuda dos guanches, aprisionou 20 naturais da ilha.
Não foram só os portugueses que navegaram até àquelas ilhas com o fim de fazer escravos. Desde muito cedo que Castela se havia envolvido nesse tráfico. Segundo os historiadores espanhóis, os castelhanos navegaram para as Canárias e comerciaram em escravos negros desde os primeiros anos do reinado de Henrique III (1390-1406). Manuel Fernández Alvarez na obra La Sociedad española del renscimento, salienta que as Canárias constituíram um centro de aprovisionamento de escravos, não só para a coroa de Aragão mas, sobretudo a partir do século XV, também para Castela. E Vitorino Magalhães Godinho, no artigo Guanches, inserido no Dicionário de História de Portugal, refere que nos começos do século XIV, os canários deveriam ultrapassar o número de 80 000, para em 1424 estarem já reduzidos a 60 000, número que baixaria para metade nos dois últimos quartéis do século XV, devido aos numerosos assaltos escravistas a que estavam sujeitos. Só na ilha de Ferro, em 1402, foram feitos cerca de 400 cativos». In Maria do Rosário Pimentel, Viagem ao Fundo das Consciências, A Escravatura na Época Moderna, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-75-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagem ao Fundo das Consciências. A Escravatura na Época Moderna. Maria do Rosário Pimentel. «Mas ao verem as presas, feitas ‘em tão breve tempo e com tão pequeno trabalho’, as vozes discordantes vacilavam e, em surdina, ‘louvavam o que antes publicamente doestavam’. Crescia a cobiça…»

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O Tráfico de Escravos na Época Moderna. A pouca originalidade do tráfico
«(…) Na Época Moderna, o problema consistia essencialmente no estabelecimento de um comércio regular de escravos entre o continente africano, a Europa e, posteriormente, a América, através do Atlântico. A novidade portuguesa foi precisamente a deslocação do comércio do Mediterrâneo para o Atlântico e a consequente concorrência às actividades comerciais das repúblicas italianas. A exploração dos territórios coloniais, obrigou a uma intensificação do emprego de mão-de-obra escrava, como meio de superar o baixo índice populacional, o que tornou necessário o envio constante de escravos africanos a bom preço, sem passarem pelos entrepostos comerciais muçulmanos e italianos. Para o homem da Época Moderna a escravatura desses povos não era uma aberração, mas, pelo contrário, uma condição perfeitamente justificável à luz do direito, da religião e até das concepções que foram surgindo sobre a natureza humana. O facto de a escravidão sempre ter existido no mundo mediterrânico, associado à influência do Direito Romano e ao pensamento cristão, que admitiam e justificavam este tipo de domínio, levou à sua aceitação como facto normal e a encarar da mesma forma o tráfico de cativos.
O direito do mais forte, a salvação das almas e o pretexto de civilizar foram os novos fundamentos que o mundo moderno, sucessivamente, utilizou para justificar a redução do homem à condição de escravo e este, à sua mais simples expressão de instrumento vivo de trabalho, no dizer de Perdigão Malheiro. Será, segundo Caio Prado Júnior, o esforço muscular, sob a direcção e açoite do feitor e procurar-se-á nele não a humanidade do homem, mas a sua animalidade. Será o pária social. E será assim que, ao longo dos séculos, após os Descobrimentos, o irão aproveitar, em larga escala, para exploração dos seus domínios, não só os portugueses, mas todas as potências coloniais europeias.

Os Descobrimentos e o Tráfico de Escravos
Quando, em 1436, Afonso Gonçalves Baldaia se preparava para mais uma viagem ao longo da costa africana, o infante Henrique recomendou-lhe que procurasse capturar alguns naturais, para se poderem obter informações acerca daquelas terras e das gentes que as povoavam. Porém, foram em vão os esforços de Afonso Gonçalves para satisfazer os desejos de Henrique. Mais feliz foi Antão Gonçalves, guarda-roupa do Infante que, em 1441, foi por ele incumbido de ir ao rio do Ouro buscar azeite e peles de lobos marinhos. Conhecendo o desejo de seu amo de contactar com gentes daquelas terras, ultrapassou o mandato recebido e, com o intuito de lhe agradar, embrenhou-se pela terra dentro, cerca de três léguas, com nove dos seus homens escolhidos entre os mais capazes, conseguindo capturar dois habitantes. Antão Gonçalves trazia agora para o reino os primeiros indígenas da região. Porém, isso não significava para Nuno Tristão, navegador português, que na altura andava também por aquelas paragens, que não fosse importante trazer outros, porque além da sabedoria que o senhor infante por eles haveria, seguir-se-lhe-ia proveito da sua serventia ou rendição. Nestas últimas palavras de Nuno Tristão, é clara a intenção de adquirir nas terras africanas um suplemento de braços para os trabalhos agrícolas em Portugal, o que, aliás, não sendo novidade, vinha na sequência da utilização do mouro, dos guanches e, por vezes, de um ou outro branco, como escravos.
Com o intuito de fazer mais apresamentos, desembarcaram os dois capitães e, dissimuladamente durante a noite, acometeram de novo os indígenas, aprisionando 10. Regressados a Portugal, foram recebidos com louvores e, o infante Henrique, vendo os cativos que lhe traziam, deu mostras do seu contentamento, não pela quantidade dos que vinham, mas pela esperança que tinha dos outros que podia haver. Um dos cativos de Antão Gonçalves, que se dizia descendente dos chefes da sua tribo, pedia insistentemente ao navegador para o levar de regresso à sua terra natal onde, em troca da liberdade, lhe daria 5 ou 6 mouros negros. Convencido Antão Gonçalves, de novo rumou em direcção ao sul e trocou este e outro africano por dez negros entre mouros e mouras de terras desvairadas. A esta segunda viagem de Antão Gonçalves, sucedeu outra de Nuno Tristão em 1443. Desta vez, os portugueses alcançaram as ilhas de Arguim e das Garças, cerca de vinte e cinco léguas além do cabo Branco, onde apresaram 29 indígenas. Estes primeiros resultados da empresa do Infante foram de facto entusiasmantes. Muitos haviam-no censurado pelos enormes gastos despendidos com o envio de navios para paragens de onde nada lhes parecia advir, a não ser a perda total dos navios e fazendas. Mas ao verem as presas, feitas em tão breve tempo e com tão pequeno trabalho, as vozes discordantes vacilavam e, em surdina, louvavam o que antes publicamente doestavam. Crescia a cobiça, em especial quando viam as casas dos outros cheias de servos e servas, e suas fazendas acrescentadas».

In Maria do Rosário Pimentel, Viagem ao Fundo das Consciências, A Escravatura na Época Moderna, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1995, ISBN 972-8047-75-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A Voz. Aniversário. Maria Callas. «Sob a leve tutela de deuses descuidosos, quero gastar as concedidas horas desta fadada vida. Nada podendo contra o ser que me fizeram, desejo ao menos que me haja o Fado dado a paz por destino»

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Fado. Gisela João. «Amo o que vejo porque deixarei qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, do amar, mais que ser, amo o haver tudo e a mim»

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Ensaios Camilianos. Óscar Lopes. «… rapta de Vila Real para o Porto a jovem e órfã Patrícia Emília, de quem teve outra filha; mas também dera em breve se enfastiou. Esse rapto valeu-lhe alguns dias de prisão. Sobrevêm as lutas patuleias, em que, segundo conta, teria episodicamente participado na guerrilha miguelista de Mac Donnell»

Cortesia de armandoalves e jdact

Estudos
Camilo Castelo Branco
«Uma personalidade domina a segunda geração romântica e pode considerar-se como o seu representante típico e superior, quer pelo temperamento, quer pelo caudal da sua obra e pelo extenso público a quem interessou: Camilo Castelo Branco (n. Lisboa, 1825-03-16 – f. 1890-06-01). A persistência dos morgadios e de velhos preconceitos de classe em Portugal, particularmente na região de Entre Douro e Minho, até passante de meados do século XIX, relaciona-se com alguns dos seus aspectos arcaicos, relativamente à evolução das literaturas inglesa e francesa suas contemporâneas. Mas o seu inconformismo define-se também, biográfica e literariamente, numa antipatia já tipicamente romântica em relação ao espírito burguês, ao brasileiro, ao titular do Constitucionalismo, e na ânsia de um casamento por amor. Essa antipatia exprime-se pela caricatura, pelo traço grosso, pois Camilo nem supera ideologicamente o seu meio, nem pode profissionalmente dirigir-se a um público actualizado, e tem portanto de adaptar-se de algum modo aos preconceitos morais, religiosos, estéticos, ideológicos em geral, mais difundidos. Daí, profundas contradições e oscilações entre um idealismo e um materialismo, ambos moralizantes; daí um estilo frequentemente azedo, sarcástico, sobretudo o auto-sarcasmo daqueles mesmos tipos morais e estéticos que quer idealizar na sua obra. Tal sarcasmo dava-lhe a ele, e ao seu público, a ilusão de vencer os conflitos, sociais e intimamente seus, do real e do ideal; embora também possa considerar-se uma forma de resignação e conformismo.
No entanto, a sua obra traz até, nós o palpitar humano das províncias nortenhas no seu tempo, com uma vida que nenhum outro ficcionista voltou a captar. É o nosso grande mestre da narrativa densa, rápida, de objectividade inteiramente persuasiva, nas melhores páginas que escreveu.

Vida e Carácter
A acidentada vida passional de Camilo Castelo Branco foi a mais importante fonte da própria novela camiliana, a tal ponto que um dos seus biógrafos, Alberto Pimentel, imaginou O Romance do Romancista por uma simples montagem de textos da sua autoria. Filho natural, órfão de mãe quando tinha um ano e de pai desde os dez anos, recebe a partir daí uma educação provinciana e irregular, entre parentes transmontanos, primeiro junto de uma tia de Vila Real, depois na casa de uma irmã mais velha, em Vilarinho da Samardã, e na de outro parente em Friúme (Ribeira de Pena). É a dois padres de aldeia que deve os princípios da instrução literária, de modo que, tirante algum estudo de Francês, pode dizer-se que a sua adolescência se formou culturalmente ao contacto dos clássicos portugueses e latinos, da literatura eclesiástica, e do viver aldeão no ar livre e na aventura. Com efeito, a experiência de uma fuga, de muitas jornadas pelas regiões mais sertanejas de Trás-os-Montes, de várias viagens (por vezes acidentadas) a Lisboa, de caça montês, de amores bravios, o conhecimento íntimo da gente serrana obtido na companhia de padres e de um cunhado médico, tudo isso se filtra na sua obra, através de um estilo e de uma concepção de vida que, sobretudo até, cerca de 1857, parecem prolongar muito do pré-romantismo setecentista. Em 1841 celebra-se o seu casamento, que em breve esquecerá, com Joaquina Pereira, de quem teve uma filha que morreu com cinco anos. Entre 1843-46 intenta, primeiro no Porto e depois em Coimbra, tirar um curso de Medicina, que não levará a cabo mas que lhe deixará uma erudição superficial em drogas e descrições patológicas. Sobreexcitado e aventureiro em matéria de amores, conta-nos, entre outras coisas estranhas, que foi buscar um esqueleto para estudos médicos aos despojos mortais inumados de Maria do Adro, uma das suas amadas. Pouco antes de enviuvar, rapta de Vila Real para o Porto a jovem e órfã Patrícia Emília, de quem teve outra filha; mas também dera em breve se enfastiou. Esse rapto valeu-lhe alguns dias de prisão. Sobrevêm as lutas patuleias, em que, segundo conta, teria episodicamente participado na guerrilha miguelista de Mac Donnell.
A partir de 1848 desenrola-se a fase das primícias literárias, com a sua vida fixada, em geral, no Porto. Camilo pertence então à roda dos leões do Café Guichard e ao ambiente que caracterizou O Romantismo sob a Regeneração. Escreve sátiras anticabralistas e antieclesiásticas, folhetos de cordel, publica as primeiras poesias, e as suas primeiras novelas surgem no folhetim do Eco Popular e de O Nacional. Estreara-se pouco antes como autor num palco de Vila Real com o drama Agostinho de Ceuta».

In Óscar Lopes, Ensaios Camilianos, Fundação António de Almeida, Greca Artes Gráficas, Porto, 2007, ISBN 978-972-8386-69-6.

Cortesia da F. António de Almeida/JDACT

Uma Arte de Música. Outros Ensaios. Óscar Lopes. «… apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há seis séculos ardiam em fidelidade castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmadas por uma Europa estranha»

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Uma Arte de Música e Outros Ensaios. Palavras de Auto-Explicação
«Antes da notícia de me ter sido atribuído este Prémio Jacinto Prado Coelho, da Associação dos Críticos Literários Portugueses, confesso nunca me ter ocorrido que isso viesse a dar-se. Porquê? Talvez porque tenha dificuldade em me ver como crítico ou ensaísta, ou talvez porque tenha uma dificuldade, mais geral ainda, em simplesmente me ver. Valha-nos aquela anedota de um doido a quem perguntaram como é que ele podia entregar-se à mania de ser Napoleão, com madeixa na testa e mão no colete. A resposta foi mais ou menos a seguinte: … ora essa! Porque é que eu não hei-de ser Napoleão? Pois o próprio Napoleão não tinha a mania de ser Napoleão? Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguista ou político, assim como nunca me revelei num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pela consciência das limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e que fixa, essas nossas imagens.
Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente o texto participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso mais espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência na comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmadas por uma Europa estranha, uma Europa muito diferente daquela que, no canto III d'Os Lusíadas avança, em 15 estrofes, desde os Urais até onde a terra acaba e o mar começa, ao passo que a nova Europa vem só para cá, do Oder e tem talvez a capital na Califórnia.
Não sou especialmente crítico, mas é possível que este Prémio tenha o efeito de acelerar a publicação de bastantes textos inéditos, dispersos ou de qualquer modo inacessíveis, numa altura em que as obrigações profissionais me imporiam a concentração num estudo de grupo, um estudo pouco notório e algo ascético das estruturas de comunicação peculiares, ou genéricas, da língua portuguesa. É certo que, se desde há pouco mais de 15 anos estudo de preferência as estruturas semânticas e pragmáticas e não as estruturas poéticas ou narrativas, isso se deve a factores externos, como a proibição, entre 55 e 74, de ensinar Literatura no Liceu; no entanto, suponho que certos interesses fundamentais se mantiveram. Não é apenas apaixonante, em si mesmo, tentar apreender a álgebra da comunicação verbal, sobretudo a daquelas palavras, ou operadores, graças aos quais todas as nossas mais diversas maneiras de pensar e agir, mesmo as que são cientificamente mais sofisticadas, se conjugam com os dados mais radicais da comunicação (o eu e tu, o agora ou não, o aqui ou não, o assim ou de outro modo), mas suponho ainda que, para a apreensão mais fina da poesia, não será indiferente o facto de, por exemplo, a palavra isto, nos seus mais óbvios usos em português, exigir que o contexto desambigue entre os 76 principais tipos diferentes de localização espacial que comporta; ou (ainda outro exemplo) não será indiferente para a poesia reparar-se que o agora, ou o presente, de um enunciado funciona tão elasticamente que, numa mesma frase, pode referir-se a dois ou mais intervalos diferentes, todos ligados ao mesmo acto de enunciação, mas tendo em vista diversos objectivos de práxis verbalizada». In Óscar Lopes, Uma Arte de Música e Outros Ensaios, Oficina Musical, Binográfica, Porto, 1986.

Cortesia de Oficina Musical/JDACT

domingo, 1 de dezembro de 2013

Joana. A Louca. Rainha Joana I de Espanha. Linda Carlino. «A história de Joana decorre entre 1496 e 1555, sobretudo em Espanha, mas também nos Países Baixos e brevemente em França e em Inglaterra. Passa-se no período em que o rei Fernando de Aragão e a rainha Isabel de Castela, os Reis Católicos…»

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Casamento
«(…) Era o entardecer de meados de Outubro. Um ou dois dos cortesãos de Joana jogavam xadrez, outros jogos de cartas, enquanto outros preferiam conversar. Os músicos tocavam uma das suas baladas preferidas. Flautas e uma viola de gamba acompanhavam dois cantores, enchendo a sala com a sua rica melodia. Sentada, enquanto escutava aquela terna história de amor não correspondido, deixou passear o olhar pela sala, uma das mais belas da mansão Berthout Mechelen. Encontrava-se ali havia seis dias e, durante esse tempo, a sua disposição e a da sua corte vinham a melhorar levemente. Um ar de expectativa substituíra o desânimo anterior. A espera e a incerteza terminariam em breve. Os pensamentos de Joana passaram da música aos maravilhosos acontecimentos dessa manhã. Margarida trouxera óptimas novidades: Filipe deveria chegar nesse dia à noite. Viria vê-la no dia seguinte e o seu casamento seria abençoado oficialmente na catedral daí a dois dias. Filipe ia chegar Vê-lo-ia no dia seguinte! Ficara tão entusiasmada que abraçou e beijou Margarida. As duas haviam-se tornado quase como irmãs. Sorriu ao recordar-se da animada conversa sobre os respectivos casamentos e de como tinham tentado vencer-se uma à outra no louvor dispensado aos respectivos irmãos. Joana sentia-se inquieta, pois sabia que não fora totalmente honesta com a futura cunhada. Não podia e não iria contar-lhe tudo sobre João.
Engoliu em seco, recordando-se das palavras que proferira e do que deixara por dizer. Referira a gaguez de João, mas não mencionara o facto que costumava perturbar os que o conheciam, sendo muito embaraçoso para os que não o conheciam. Porém, o pior de tudo, ficara muito longe da verdade em relação aos seus outros problemas de fala, para já não falar da sua timidez, do facto de o lábio inferior se estender tanto para além do superior, já de si defeituoso, que fazia com que... não, tivera o maior cuidado em evitar tudo isso, dizendo apenas que tinha uma voz indistinta e uma forma de falar muito desajeitada. Desculpou-se com a firme crença de que, assim que Margarida o conhecesse, logo descobriria como era uma pessoa maravilhosa, que era tudo o que interessava. Seria amada e protegida por uma pessoa delicada e compassiva. A sua nova vida junto dele compensá-la-ia inteiramente por todos os anos passados em França à espera de um casamento que acabara por não ter lugar, seguidos pelo longo período em que ficara detida e fora tratada pouco melhor que uma prisioneira, antes de lhe ser permitido regressar a casa. Como noiva do anjo, seria também alvo do amor e afeição da rainha Isabel.
Após afastar os remorsos, recostou-se no assento, sendo imediatamente acometida por outro. Ainda não escrevera para casa e já haviam passado três meses desde que partira de Espanha. Deveria fazê-lo em breve, mas não enquanto escutava as suas canções preferidas. O tambor, o tamborim e as flautas baixo e tenor tocavam agora uma alegre canção sobre uma jovem que guardava cabras e a quem os jovens pastores atormentavam.

Oh, menina que guardas as cabras
Com as saias pelos joelhos,
diz, bela menina das belas meias,
que gostas de nós, pobres pastores.

Acompanhou a música, marcando alegremente o ritmo com os dedos nos braços da cadeira. A música esmoreceu. Os cortesãos mais próximos da porta haviam sido os primeiros a ouvir os passos apressados e aflitos que se aproximavam, e as vozes alteradas, cada vez mais próximas. Fradique, de espada desembainhada, foi o primeiro a chegar-se à porta. O medo regressara e espalhara-se pela sala. Foram bruscamente recordados de que não passavam de estrangeiros numa terra estranha e que a sua senhora ainda não casara com o governante. Joana ficou sentada, tensa e aterrorizada. Pensava apenas na detenção de Margarida em França, quando o seu contrato de casamento fora quebrado. Iria este casamento dar em nada? Seriam aqueles sons ameaçadores o bater das botas dos soldados? As portas foram abertas bruscamente e Fradique, embainhando a espada, ajoelhou-se. - Fradique, almirante de Castela, Senhor. - Reconhecera-o dos inúmeros retratos que vira e não através da figura molhada e suja de lama que lhe estendia uma luva enlameada para que a beijasse. - Bem-vindo, dom Fradique. Na verdade, calorosas boas-vindas para todos. Muito me agrada recebê-los nas minhas terras e espero que a vossa estada seja agradável. - Fez sinal a Fradique e aos restantes que se levantassem e entrou na sala, procurando com o olhar. Os cortesãos olharam para o almirante em busca de uma explicação, mas este encolheu os ombros, abanou a cabeça, ergueu o olhar para os céus e murmurou para o camareiro-mor de Joana: - Parece impossível! Desafiou todas as regras do protocolo. Esperemos que se demore muito pouco, visto ter decidido dispensar uma audiência formal. Quantas vezes desde a nossa chegada tenho agradecido o facto de a rainha Isabel não se ver obrigada a testemunhar uma tal impertinência da parte deste jovem arrogante? Digo-vos que o sinto no âmago que é intenção dele insultar-nos com todos os seus actos. Joana ouvira as boas-vindas de Filipe. Ouvira-lhe a voz, forte e confiante, calorosa e enérgica. Qual seria o aspecto do dono de uma tal voz? Que pensaria dela? Entrou em pânico, pois chegara o momento do encontro e ela não estava preparada». In Linda Carlino, “That Other Joana”, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

Goa Antiga e Moderna. Frederico Diniz D’Ayalla. «Não gasta o sabão importado da Europa, porque conhece o uso das folhas de ‘saboeira’, condimenta o caril com as folhas da ‘árvore do caril’, conhece a célebre ‘raiz de João Lopes’ como o melhor tónico; anda quase sempre munido de um pedaço de ‘pau-de-cobra’…»

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Goa
«(…) Não sucede já o mesmo em Salcete, se excluirmos os brâmanes, classe abastada e inteligente, e a cujos principais membros cabe um lugar singular nesta história. Com o poder de uma inteligência mais casuística que sólida, guiados por uma constante ideia, têm eles podido, apesar da sua inferioridade numérica, impor-se aos seus conterrâneos e ainda à metrópole, onde eles disputam lugares aos europeus nos variados ramos da actividade social. A singular apatia e desmoralização dos habitantes de Salcete têm a sua explicação no facto de estarem expostos às incursões do ramo dravídico e nas constantes perseguições religiosas, que acabaram por os tornar tímidos e desconfiados. Onde, porém, a raça se conserva mais pura é exactamente onde o catolicismo e a civilização europeia pouco imperaram. Ainda que semi-selvagens, possuem um fundo moral e religioso superior aos conversos. As Novas Conquistas, virgens em natureza e civilização, são mais domínios independentes, feudatários, que nossos. Vivendo em uma região acidentada, em campos encastelados por altas serranias, cortada de profundos vales, encristada de imponentes despenhadeiros, sombreada por densas metas, regada de esteiros de água que inundam seus formosos arecais, acordada pelo fragoso despenhar das cascatas, pelo rugir do tigre e dos uivos do chacal, os seus habitantes conservam com ciúme os seus hábitos tradicionais. Em rudes govoles, o gouly, pastoril e nómada, como que embalado pelo mugir do seu rebanho, a sua única riqueza, sem ambições, mas feliz à sombra do sumptuoso docel da árvore gralha.
Quase sempre em frente do pobre casebre, mesmo no centro do anganam, mão religiosa cultiva o pimpol entre cujos ramos nasceu Vishnu. O habitante do território das Novas Conquistas é um exímio conhecedor de plantas úteis e medicinais. Muitas vezes desce ele às vilas como curandeiro ou garopeiro e então vende mezinhas ou diverte as turbas. Não gasta o sabão importado da Europa, porque conhece o uso das folhas de saboeira, condimenta o caril com as folhas da árvore do caril, conhece a célebre raiz de João Lopes como o melhor tónico; anda quase sempre munido de um pedaço de pau-de-cobra, enfim, é um digno precursor se não mestre de Garcia da Orta. Com efeito, a Natureza aí é de prodigiosa exuberância, e o hindu nutre não sei que amor santo pelas plantas. Ao lado das medicinais brotam aí a champaca, dedicada a Vishnu, e cujas flores são muito apreciadas pelas gentias, como ornato de cabeça; o jasmineiro, o mogarim, e a linda trepadeira clitorea ternatea. A prodigalidade do reino vegetal corresponde à do reino animal. Ao romper da alva lindos pássaros saúdam o astro benfazejo, espalhando pela ramaria a música alegre dos seus trinos. Mal douram o horizonte os primeiros raios do sol, e o orvalho cai, gota a gota, no solo alastrado de odoríferas flores, saltitam de ramo em ramo o pássaro-do-sol, o bulbul sultana, o papagaio-de-cabeça-azul, o engole-vento, o gaivão-dos-palmares, o pássaro-alfaiate, o mainato-religioso e uma infinidade de aves, qual delas a mais rica na plumagem e mais festeira no gorjeio vibrátil, modulado, ligeiro como o acordar do dia oriental.

Debaixo de um céu rubro; o gouly descalço e a cabeça descoberta, como um herói, pastoreia por vastas campinas o seu rebanho. Fatigado pelo calor, deita-se sobre a fresca relva, e erguendo as pernas em posição vertical brinca com os pés ao som da flauta pastoril. Vem descendo pela encosta uma manada de búfalos. Sobre o dorso, de rosto para trás, sentam-se os pastores com as pernas cruzadas, como ídolos levados em charolas; outros deitam-se de barriga para o ar e soltam gritos estrídulos em sinal de recolher aos seus companheiros. Nas aldeolas esperam-nos as goulinas, raparigas fortes e esbeltas, com os seus grandes brincos pendentes da orelha e o colo cheio de contas e missangas, como os seus ídolos. Enquanto os pastores tiram do langotim e repartem entre si os carandams e churnams que colheram no mato, a família prende o gado às estacadas e junta a bosta com que se asseia o chão da casa e o canteiro do sagrado pimpol. Muitas vezes estes hebreus indianos formados em tribo desarmam a choça, fazem em feixe os bambus, as mulheres atam os filhinhos por detrás das costas, e lá vão carregando a casa toda por esses íngremes trilhos escolher outro sítio mais cómodo. Mas não é só o gouly, pacífico e pensativo, vindo às vilas vender o lounim, que habita essas regiões, sobre as quais a nossa influência tem sido nula. Novas Conquistas, para os imaginosos, é um ninho de salteadores. De tempos a tempos, fortes quadrilhas de salteadores têm trazido em constante sobressalto os povos de Goa. Os salteadores das Novas Conquistas, porém, não são, como se se supõe, uns celerados por índole ou profissão. A maior parte das vezes não é só a fome ou o espírito de aventura, que lhes arma os braços. Há no fundo dessa vida semibárbara profundos dramas humanos». In Frederico Diniz D’Ayalla, Goa Antiga e Moderna, Ésquilo edições e multimédia, Revisão de Adalberto Alves, 2011, ISBN 978-989-719-001-8.

Para Ofélia e Álvaro José, que estejam em paz!
Cortesia de Ésquilo/JDACT