segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Cemitério de Praga. Umberto Eco. «No ano passado, entrou para nosso hospital um certo Louis. Caso interessante, precisava Bourru. Apresentava paralisia, anestesias, contraturas, espasmos musculares…»

jdact e wikipedia

(…) Não duvidamos delas, confirmava Burot. É a técnica do hipnotismo em si que..., Bourru e Burot me explicaram os vários sistemas de hipnose, desde aqueles ainda charlatanescos de um certo abade Faria esse nome dumasiano me deixou de orelha em pé, mas sabe-se que Dumas saqueava crónicas verdadeiras até os já científicos do doutor Braid, um verdadeiro pioneiro. Agora, dizia Burot, os bons magnetizadores seguem métodos mais simples. E mais eficazes, esclarecia Bourru. Diante do enfermo, faz-se oscilar uma medalha ou uma chave, pedindo-lhe que a olhe fixamente: no arco de um a três minutos as pupilas do indivíduo têm um movimento oscilatório, o pulso cai, os olhos se fecham, o rosto exprime uma sensação de repouso e o sono pode durar até vinte minutos. Convém acrescentar, corrigia Burot, que depende do indivíduo, porque a magnetização não resulta da transmissão de fluidos misteriosos como queria aquele bufão do Mesmer, mas de fenómenos de auto-sugestão. E os ascetas indianos obtêm o mesmo resultado olhando atentamente a ponta do nariz; ou os monges do monte Athos, fitando o próprio umbigo.

 

Nós não acreditamos muito nessas formas de auto-sugestão, complementava Burot, embora não façamos outra coisa senão pôr em prática intuições que foram próprias de Charcot antes que ele começasse a ter tamanha fé no hipnotismo. Estamos nos ocupando de casos de variação da personalidade; isto é, de pacientes que um dia pensam ser uma pessoa e outro dia, outra, e as duas personalidades se ignoram reciprocamente. No ano passado, entrou para nosso hospital um certo Louis. Caso interessante, precisava Bourru. Apresentava paralisia, anestesias, contraturas, espasmos musculares, hiperestesias, mutismo, irritações cutâneas, hemorragias, tosse, vómito, ataques epilépticos, catatonia, sonambulismo, dança de São Guido, malformações da linguagem... Às vezes se acreditava um cão, completava Burot, ou uma locomotiva a vapor. E também tinha alucinações persecutórias, restrições do campo visual, alucinações gustativas, olfativas e visuais, congestão pulmonar pseudo-tubercular, cefaleias, dor de estômago, prisão de ventre, anorexia, bulimia e letargia, cleptomania... Em suma, concluía Bourru, um quadro normal. Pois bem, nós, em vez de recorrermos à hipnose, aplicamos uma barra de aço sobre o braço direito do enfermo, e eis que nos apareceu, como por encanto, um personagem novo. Paralisia e insensibilidade desapareceram do lado direito e se transferiram para o lado esquerdo». In Umberto Eco, O Cemitério de Praga, Biblioteca Digital, Editora Record, tradução de Joana Melo, 2011, ISBN 978-850-109-284-7.

Cortesia de ERecord/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Literatura, Escrita, Narrativa,

O Leopardo. Tomasi di Lampedusa. «O Príncipe foi raspar um pouco de líquen dos pés da Flora e pôs-se a passear de um lado para o outro»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Maio. 1860

«(…) Quando os camaradas sonolentos o vieram tirar (sim, haviam-no arrastado pelos ombros até à carreta, o que fez com que a estopa do boneco saísse outra vez para fora), foi acrescentado ao rosário da tarde um De Profundis pela alma do desconhecido. E, como a consciência das senhoras ficou satisfeita com isto, não mais se voltou a falar no assunto. O Príncipe foi raspar um pouco de líquen dos pés da Flora e pôs-se a passear de um lado para o outro. O sol poente projectava-lhe a imensa sombra sobre os canteiros fúnebres. De facto, não se havia falado mais no morto e, no fim de contas, os soldados são soldados precisamente para morrer em defesa do Rei. A imagem daquele corpo estripado voltava-lhe, porém, muitas vezes à memória, como para pedir que lhe desse paz pelo único meio possível para o Príncipe: superando e justificando o seu derradeiro sofrimento com uma necessidade geral. À sua volta pairavam outros espectros ainda menos atraentes que aquele; porque morrer por alguém ou por qualquer coisa está certo, é da própria natureza das coisas; mas era preciso saber ou, pelo menos, ter a certeza que as pessoas sabem porque ou por quem se morre.

Era isto o que perguntava aquela face desfigurada e era exactamente neste ponto que as coisas começavam a confundir-se na névoa. Mas é evidente que ele morreu pelo Rei, caro Fabrício, ter-lhe-ia respondido, se o Príncipe o tivesse interrogado, o seu cunhado Málvica, aquele Málvica escolhido sempre como porta-voz da multidão de amigos. Pelo Rei, que representa a ordem, a continuidade, a decência, o direito e a honra. Pelo rei que, sozinho, defende a Igreja e impede o desmembramento da propriedade, objectivos finais da seita. Magníficas palavras estas que se referiam a tudo quanto era caro ao Príncipe no mais íntimo do seu coração. Qualquer coisa porém soava falso ainda. Sim, o Rei; até aqui tudo estava bem; conhecia-o, pelo menos o que tinha morrido há pouco; o actual era apenas um seminarista vestido de general e, para dizer a verdade, não valia grande coisa. Mas isso não é raciocinar, rebatia Málvica; um determinado rei pode não estar à altura da função mas a ideia monárquica permanece válida na mesma. Também aquilo estava certo; mas os reis que encarnavam uma ideia não podiam ou, pelo menos, não deviam descer, através dos tempos, abaixo de um certo nível; senão, meu caro cunhado, também a ideia sofre com isso. Sentado num banco, ali estava ele contemplando, inerte, a devastação que Bendicó ia operando nos canteiros. De vez em quando, o cão levantava para ele os olhos inocentes, como a pedir-lhe um louvor pelo trabalho realizado: catorze cravos despedaçados, meia sebe arrancada, um rego obstruído. Parecia mesmo um ser humano! Chega, Bendicó, anda cá. E o animal acorria, poisava-lhe na mão o focinho sujo de terra, ansioso de mostrar-lhe que a tola interrupção do belo trabalho cumprido lhe havia sido perdoada. Oh! Aquelas audiências, aquelas muitas audiências que o Rei Fernando lhe havia concedido, em Caserta, em Capodimonte, em Portici, em Nápoles..., no inferno!

Ao lado do camarista de serviço, que o guiava tagarelando, com o bicorne debaixo do braço e os mais frescos ditos napolitanos nos lábios, percorria-se intermináveis salas de arquitectura magnífica e de um mobiliário desagradável (exactamente como a monarquia bourbónica), enfiava-se em corredores sujos e pequenas escadas vacilantes e chegava-se a uma antecâmara onde muita gente esperava: caras fechadas de esbirros, caras ávidas de suplicantes recomendados. O camarista desculpava-se, fazia-o transpor o obstáculo daquela gente vulgar e conduzia-o a uma outra antecâmara, a que era reservada às pessoas da Corte: um pequeno compartimento todo azul e prata dos tempos de Carlos III; após uma breve espera, um criado batia levemente à porta e chegava-se à Presença Augusta.

O gabinete privado era pequeno e pretensiosamente simples; nas paredes caiadas um retrato do Rei Francisco I e outro, de aspecto azedo e colérico, da actual Rainha; por cima do fogão, uma Madona de Andrea dei Sarto parecia espantada de ver-se rodeada por litografias coloridas representando santos da terceira ordem e santuários napolitanos. Em cima de uma mesa, com a lamparina acesa em frente, um Menino Jesus de cera; sobre a secretária modesta, papéis brancos, papéis azuis, papéis amarelos; toda a administração do Reino chegada à sua fase final, a da assinatura de Sua Majestade (D. G.). Por detrás desta barreira de papelada, o Rei, já em pé para não ser obrigado a levantar-se; o Rei com o seu carão gordo e mortiço entre umas suíças loiras e que vestia uma casaca militar de tecido grosseiro donde brotavam, em cascata roxa, umas calças tufadas. Dava um passo em frente com a mão direita já virada para o beijo que depois recusaria». In Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, 1958, Dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-467-6.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

Vingança em Paris. Steve Berry. «Depois, não muito distante dali, lutara contra os mamelucos num glorioso conflito que havia chamado de a Batalha das Pirâmides»

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«Quando Napoleão Bonaparte morreu no exílio, em 1821, levou para o túmulo um poderoso segredo. Como general e imperador, roubara incontáveis riquezas de palácios, tesouros nacionais, e até dos Cavaleiros de Malta e do Vaticano. Os britânicos que o capturaram nos seus últimos dias de vida, tinham a esperança de obter a informação de onde estaria escondido o tesouro. Mas ele nada lhes disse e no seu testamento não deixou nenhuma menção. Ou será que deixou? É isso que Cotton Malone vai tentar descobrir ao mergulhar numa busca desesperada pelo lendário tesouro perdido de Napoleão». In Sinopse

 Agosto de 1799

«O general Napoleão Bonaparte desmontou do cavalo e ergueu o olhar até à pirâmide. Outras duas jaziam próximas, em sucessão, mas aquela era a mais grandiosa das três. Que grande prémio pela sua conquista! No dia anterior, a viagem do Cairo em direcção ao sul, passando por campos margeados por canais de irrigação lamacentos e enfrentando uma breve trilha de areia soprada pelo vento, fora tranquila. Duzentos homens armados lhe fizeram companhia, pois era uma atitude imprudente aventurar-se sozinho nos confins do Egipto. Cerca de 1 quilómetro antes, havia-se separado do seu contingente e montado acampamento para passar a noite. O dia novamente tinha sido árido e escaldante, por isso esperara pelo anoitecer para a sua visita. Desembarcara em terra firme havia cinco meses, próximo a Alexandria, com 34 mil homens, mil armas de fogo, setecentos cavalos e 100 mil cartuchos de munição. Avançara rapidamente para o sul, conquistando o Cairo, já que o seu objectivo era abalar quaisquer resistências pela rapidez e surpresa. Depois, não muito distante dali, lutara contra os mamelucos num glorioso conflito que havia chamado de a Batalha das Pirâmides. Esses antigos escravos turcos haviam governado o Egipto por quinhentos anos e proporcionavam uma tremenda visão: milhares de guerreiros, em vestimentas coloridas, montados em garanhões exuberantes. Ainda era capaz de sentir o cheiro da cordite e o estrondo dos canhões, de ouvir o estalido dos mosquetes e os gritos de morte dos homens. Os integrantes das suas tropas, muitos deles veteranos da campanha italiana, lutaram bravamente. E, com apenas duzentas baixas no lado francês, capturara, virtualmente, o exército inimigo inteiro, ganhando controle total do baixo Egipto. Um repórter havia escrito que um punhado de franceses havia subjugado um quarto do globo. Não era bem verdade, mas soava maravilhoso.

Os egípcios tinham-lhe dado a alcunha de Sultão El Kebir, um título de respeito, disseram. Durante os 14 meses em que vinha governando a nação como comandante-chefe, descobrira que, como os homens que amavam o mar, ele amava o deserto. Amava, também, o estilo de vida egípcio, no qual o carácter contava muito mais do que as posses. Acreditavam, também, na providência. Assim como ele. Bem-vindo, general. Que noite magnífica para uma visita!, bradou Gaspard Monge no seu costumeiro tom animado. Napoleão tinha apreço pelo belicoso geómetra francês, filho de um mascate, abençoado com um rosto largo de olhos profundos e um nariz carnudo. Apesar de instruído, Monge sempre carregava rifle e cantil e parecia ansiar tanto pela revolução quanto pela batalha. Era um entre os 160 estudiosos, cientistas e artistas, savants, como a imprensa os havia rotulado, que tinham viajado com ele desde a França, já que viera em busca não só da conquista como também do aprendizado. Seu modelo espiritual, Alexandre, o Grande, fizera o mesmo ao invadir a Pérsia. Monge já havia viajado com Napoleão pela Itália, ajudando a supervisionar a pilhagem do país; logo, confiava nele. Até certo ponto.

Você sabe, Gaspard, que quando eu era criança, queria estudar ciências. Durante a revolução em Paris assisti a várias palestras de química. Mas, infelizmente, as circunstâncias fizeram-me um oficial do Exército. Um dos trabalhadores egípcios levou o cavalo para longe dali, mas só depois de Napoleão pegar uma bolsa de couro. Ele e Monge estavam sozinhos agora, com a poeira luminosa dançando ao redor da grande pirâmide. Há alguns dias, disse, fiz uns cálculos e concluí que essas três pirâmides possuem pedras suficientes para construir uma muralha de 1 metro de espessura e 3 de altura ao redor de Paris. Monge pareceu ponderar a declaração. É possível que isso seja verdade, general. Sorriu diante da evasiva. Falou como um matemático desconfiado. De modo algum. Apenas acho interessante a maneira como vê essas construções. Não em relação aos faraós ou às tumbas neles contidos, ou mesmo à assombrosa engenharia utilizada na sua construção. Não. Vê-as em termos associados à França. É difícil, para mim, evitá-lo. É no que mais penso». In Steve Berry, Vingança em Paris, 2011, Livros d’Hoje, 2012, ISBN 978-972-204-916-0.

Cortesia de Ld’Hoje/JDACT

domingo, 9 de agosto de 2020

A Inquisição. Michael Baigent e Richard Leigh. «… fique devidamente horrorizado ao saber da verdadeira identidade do seu prisioneiro. Não é isso, porém, que acontece»

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«Quando o século XV dava lugar ao XVI, Jesus voltou. Reapareceu na Espanha, nas ruas de Sevilha. Nenhuma fanfarra saudou o seu advento, nem coros de anjos, nem especáculos sobrenaturais, nem extravagantes fenómenos meteorológicos. Ao contrário, ele chegou de mansinho e sem ser visto. No entanto, vários passantes o reconheceram, sentiram uma irresistível atracção para ele, cercaram-no, amontoaram-se à sua volta, seguiram-no. Jesus andou com toda modéstia entre eles, um suave sorriso de inefável misericórdia nos lábios, estendeu-lhes as mãos, concedeu-lhes a sua bênção; e um velho na multidão, cego de infância, milagrosamente recuperou o dom da visão. A multidão chorou e beijou o chão a seus pés, enquanto crianças jogavam flores à sua frente, cantavam e erguiam as vozes em hosanas. Nos degraus da catedral, um préstito em prantos conduzia para dentro um caixãozinho aberto. No seu interior, quase escondida pelas flores, jazia uma criança de sete anos, filha única de um cidadão importante. Exortada pela multidão, a mãe enlutada voltou-se para o recém-chegado e implorou-lhe que trouxesse de volta à vida a menina morta. O cortejo fúnebre parou, e o caixão foi deposto aos pés dele nos degraus da catedral. Levanta-te, donzela! Ele ordenou em voz baixa, e a menina logo se pôs sentada, olhando em volta e sorrindo, os olhos arregalados de espanto, ainda a segurar o buquê de rosas brancas que fora colocado nas suas mãos.

Esse milagre foi testemunhado pelo cardeal e Grande Inquisidor da cidade, quando passava com o seu séquito de guarda-costas um velho, de quase noventa anos, alto e empertigado de estatura, com urna cara enrugada e olhos muito fundos, nos quais, no entanto, ardia ainda um brilho de luz. Tal era o terror que ele inspirava que a multidão, apesar das circunstâncias extraordinárias, caiu em deferente silêncio e abriu-se para dar-lhe passagem. Tampouco alguém ousou interferir quando, por ordem do velho prelado, o recém-chegado foi sumariamente preso pelos guarda-costas e levado para a prisão. Esta é a abertura da Parábola do Grande Inquisidor, de Feodor Dostoiévski, unia narrativa mais ou menos independente, de vinte e cinco páginas, embutida nas oitocentas e tantas de Os Irmãos Karamazovi, romance publicado pela primeira vez em fascículos numa revista de Moscovo em 1879 e 1880. O verdadeiro significado da parábola está no que vem depois do draniático prelúdio. Pois o leitor espera, claro, que o Grande Inquisidor fique devidamente horrorizado ao saber da verdadeira identidade do seu prisioneiro. Não é isso, porém, que acontece.

Quando ele visita Jesus na cela, está claro que sabe muitíssimo bem quem é o prisioneiro; mas esse conhecimento não o detém. Durante o prolongado debate filosófico que se segue, o velho permanece inflexível em sua posição. Nas escrituras, Jesus é tentado pelo demônio no deserto com a perspectiva de poder, autoridade. Desde que Os Irmãos Karamdzovi foi publicado e traduzido, o Grande Inquisidor de Dostoiévski gravou-se na nossa consciência como a imagem e a encarnação definitivas da Inquisição (maldita). Podemos compreender o agónico dilenia do velho prelado. Podemos admirar a complexidade de seu carácter. Podemos até mesmo respeitá-lo (?) pelo martírio pessoal que está disposto a aceitar, sua auto-condenação à perdição, em nome de uma instituição que considera maior que ele próprio. Também podemos respeitar o seu realismo secular e a compreensão brutalmente cínica por trás dele, a sabedoria mundana que reconhece o mecanismo e a dinâmica do poder mundano. Alguns de nós bem podem perguntar se, estando na posição dele e com as suas responsabilidades não seriam impelidos a agir como ele (nunca!). Mas apesar de toda a tolerância, da compreensão, talvez da simpatia e perdão que consigamos angariar para esse homem, não podemos escapará consciência, de que ele é, por qualquer padrão moral honesto, intrinsecamente mal e que a instituição que representa é culpada de uma monstruosa hipocrisia. Até onde é exacto, representativo, o retrato pintado por Dostoiévski? Em que medida a figura na parábola reflecte com justeza a instituição histórica real? E se a Inquisição (maldita), personificada pelo velho prelado de Dostoiévski, pode de facto ser equiparada ao demónio, em que medida pode essa equiparação ser estendida à Igreja como um todo?» In Michael Baigent e Richard Leigh, A Inquisição, Edição Imago, 2001, ISBN 978-853-120-756-3.

Cortesia de EImago/JDACT

sábado, 8 de agosto de 2020

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «Ele seria usado para derrubar o avião nas águas frias em baixo, depois de transformar o vôo 45 numa bola de fogo?»

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Abatido

«(…) Comandante, o nosso tempo está-se esgotando. Ele pôs a mão na testa enquanto olhava para a superfície cintilante do lago, que reflectia os altos pinheiros e os bosques cerrados de palmeiras que o circundavam. Seu chalé era o único num raio de vinte quilómetros. Wyatt ia para lá algumas vezes ao ano para relaxar e pescar. Naquele dia, porém, não haveria pescaria. Comandante Krull, o mundo é um lugar difícil. Eu sei. Talvez os outros não compreendam o que o excesso de tensão pode fazer a um homem. Mas eu sei. Thomas Wyatt olhou mais uma vez para as páginas do fax. Nada no perfil de Krull indicava o que teria levado o piloto a perder o juízo. Ele não tinha problemas conjugais nem dificuldades financeiras. Não havia registo de abuso de álcool ou de drogas. E era isso o que tornava a tarefa de Wyatt mais difícil. Ele não tinha nada em que se apegar, nada a que recorrer para convencer o piloto de que era um amigo, talvez o único que ele tinha no momento. Era preciso ganhar a confiança de Krull mas, sem encontrar algo que o fizesse conversar, o comandante nunca o veria como um aliado. Essas eram más notícias. Eram poucas as chances de convencê-lo de alguma coisa. Comandante Krull, insistiu Wyatt, sabendo que essa era a sua última oportunidade de dissuadir o piloto de qualquer que fosse o seu plano. Dois jactos de caça F-18 estão-se aproximando da sua aeronave por trás. Um deles está prestes a se posicionar ao seu lado e sinalizar para o senhor diminuir a velocidade, descer a dez mil pés e segui-lo para um local de pouso alternativo. O senhor compreende? O silêncio foi tão vazio quanto as esperanças de Wyatt. Novamente ele olhou para o relógio. Comandante?

Oh, meu Deus!, uma mulher gritou algumas fileiras atrás de onde o passageiro do 2-K estava sentado. Ela apontava para a janela. Eles vão abater-nos! Nos últimos instantes, o nível de ansiedade dentro do airbus havia passado das preocupações sussurradas ao pânico. Agora, enquanto todos olhavam em desespero para o lado esquerdo da aeronave, o passageiro do 2-K avistou a forma esguia e ameaçadora de um jacto de caça militar. As barbatanas gémeas da cauda lembravam lâminas de faca. O nariz comprido e agudo parecia o de um insecto prestes a dar uma ferroada. Sentado dentro da cabine enflechada, o piloto gesticulava, tentando atrair a atenção do comandante Krull.

Para ter uma visão melhor do caça, o passageiro do 2-K aproximou-se mais da janela e viu algo que fez o seu pulso acelerar e a respiração ser sugada dos pulmões. Preso à extremidade de cada asa do caça via-se um pequeno míssil teleguiado azul. Ele seria usado para derrubar o avião nas águas frias em baixo, depois de transformar o vôo 45 numa bola de fogo? Pu… que pariu!, gritou um adolescente entre os passageiros. Fiquem todos calmos!, berrou a comissária de bordo tentando encobrir os gritos dos passageiros. Este é um procedimento padrão. O avião está aí apenas para nos escoltar em segurança para o local de pouso mais próximo. Porquê?, bravejou o adolescente.  Para que precisamos de uma escolta? O que há de errado em pousar no JFK? Tem mais um!, alguém gritou do lado oposto da cabine.

O segundo F-18 estava tão próximo que era possível ver o rosto do piloto. O passageiro do 2-K sentiu os joelhos fraquejarem ao mesmo tempo que afundava no assento. Tirou os óculos e fechou os olhos. Procedimento padrão?, pensou. Escoltar-nos? Se o co-piloto está morto e o comandante ameaçou atirar em si mesmo, quem vai pilotar o avião?» In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995, Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A Profecia Romanov Steve Berry. «Caíra no jardim ao fim da tarde, enquanto brincava. Em duas horas as dores haviam recomeçado»

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 2 de Outubro de 1916

«A imperatriz da Rússia levantou-se da sua vigília à cabeceira da cama quando a porta se abriu. Era a primeira vez, desde há algumas horas, que o seu olhar se desviava da pobre criança deitada. O seu amigo entrou, apressado, no quarto e ela irrompeu em lágrimas. Até que enfim, padre Grigori. Graças a Deus. O Alexei precisa urgentemente de vós. Rasputin precipitou-se para junto da cama e fez o sinal da Cruz. A camisa azul de seda e as calças de veludo tresandavam a bebida, o que atenuava o seu habitual mau cheiro, que as damas da corte descreviam como sendo igual ao de um bode. Porém, Alexandra nunca se importara com quaisquer odores, nem com os do padre Grigori. Horas antes ordenara aos guardas que o procurassem, ciente das histórias que o reputavam como amigo dos ciganos que viviam nos arredores da capital. Muitas eram as vezes em que passava lá a noite, entre bebida e prostitutas. Um dos guardas do palácio chegara a relatar que o estimado padre se passeara por cima das mesas, com as calças caídas, exibindo o seu generoso órgão, que provocava delícias nas senhoras da corte imperial. Alexandra recusava-se a acreditar nessas histórias e, prontamente, ordenara que o guarda fosse transferido para um outro posto longe da capital. Ando à vossa procura desde as primeiras horas do dia, disse ela, tentando chamar-lhe a atenção. Mas a preocupação de Rasputin centrava-se no rapaz. Ajoelhou-se junto à cama. Alexei estava desmaiado há quase uma hora. Caíra no jardim ao fim da tarde, enquanto brincava. Em duas horas as dores haviam recomeçado. Alexandra observava enquanto Rasputin puxava o cobertor para trás e examinava a perna direita do rapaz, encolhida contra o peito, grotesca de tão inchada e negra. O sangue pulsava descontroladamente sob a pele e o hematoma tinha agora o tamanho de uma pequena bola. A face lúgubre do filho não exibia qualquer cor, com excepção das duas profundas olheiras. Alexandra afagou gentilmente o cabelo castanho-claro da criança.

Graças a Deus os gritos haviam parado. Os espasmos chegavam de quinze em quinze minutos com uma regularidade mórbida. A febre alta já o deixara delirante, mas ele continuava num gemido constante de partir o coração. Num momento de lucidez o rapaz implorara a Deus que tivesse piedade dele e pediu à mãe que o ajudasse. Depois perguntou-lhe: se eu morrer, deixo de sentir dores? Alexandra não teve coragem de lhe responder. O que fizera ela? Tudo aquilo era culpa sua. Era sobejamente conhecido que as mulheres transmitiam a hemofilia, não sendo no entanto afectadas. O seu tio, o irmão e os sobrinhos haviam todos morrido por causa disso. Mas ela nunca acreditara que fosse portadora da doença. As quatro filhas em nada a fizeram pensar. Só quando o ansiado filho varão nascera, doze anos antes, descobrira a dura realidade. Antes disso, nenhum médico a alertara sequer para essa possibilidade. E alguma vez ela perguntara? Ninguém parecia disposto a revelar fosse o que fosse e, a maioria das vezes, até as perguntas directas eram evitadas com respostas absurdas. Essa era a razão porque o padre Grigori era tão especial. Os starets, velhos padres profetas, nunca escondiam nada. Rasputin fechou os olhos e aninhou-se junto ao rapaz. Migalhas de comida seca povoavam a sua áspera barba. A cruz de ouro que ela lhe oferecera pendia-lhe do pescoço e ele apertou-a com força. O quarto estava iluminado apenas por velas. Alexandra escutava-o murmurar algo, mas não entendia o que ele dizia e não se atrevia a perguntar. Embora fosse a imperatriz da Rússia, a czarina nunca afrontava o padre Grigori. Apenas ele tinha o poder de estancar a hemorragia. Através dele, Deus protegia o seu precioso Alexei. O filho do czar. O único herdeiro do trono. O próximo czar da Rússia. Contudo, isso apenas aconteceria se ele sobrevivesse. O rapaz abriu os olhos. Não tenhas medo, Alexei, está tudo bem, sussurrou Rasputin. A sua voz era calma e melodiosa, mas determinada. Apalpou o corpo suado de Alexei da cabeça aos pés. Afastei as dores terríveis que sentias. Nada mais te fará mal. Amanhã vais sentir-te bem e voltaremos a brincar juntos. Rasputin continuou a acariciar-lhe o corpo. Lembra-te do que te disse sobre a Sibéria. É uma terra de florestas e estepes imensas, tão vastas que ninguém sabe onde terminam. Tudo isso pertence ao teu pai e à tua mãe e, um dia, quando fores grande, forte e saudável, será teu. Apertou a mão do rapaz na sua. Um dia levar-te-ei à Sibéria para que vejas tudo isso. As pessoas de lá são muito diferentes das daqui. A majestade de tudo aquilo, Alexei, é algo que tens de ver. A sua voz continuava calma». In Steve Berry, A Profecia Romanov, Edições  Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-921-6.

 

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A Bicicleta que Fugiu dos Alemães. Domingos Amaral. «… sessenta minutos fora o tempo que estivera com Yves, que nunca mais vira, pois ele não regressara em Setembro. O actual chama-se Jean-Luc»

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Paris, 3 de Junho de 1940

«(…) Falta pouco para vermos os panzers às voltas ao Arco do Triunfo, vaticinou a americana. A cabeleira ruiva dava-lhe uma aura original, mas era nos olhos castanhos brilhantes, e sobretudo no seu tom de voz imperativo, que morava a confiança de alguém que perorava como se possuísse elevada experiência militar, só porque estivera algumas semanas próxima de balas e de bombas. Melhor assim, pode ser que apareçam uns alemães giros! Os homens eram o tema preferido de Polly. Aos trinta e quatro anos, e já com um divórcio no currículo, especulava constantemente sobre as capacidades sexuais deles, mesmo dos feridos que transportava na ambulância, oferecendo aos ouvintes pérolas como: olha-me o enchumaço naquelas calças!; ou este não a levanta nem com uma roldana. A Carol, a cínica e lasciva americana lembrava algumas personagens femininas de Oscar Wilde. Com os franceses não me safo!, acrescentou Polly. Duas noites antes, atrelara-se a um Paul qualquer, que lhe parecera entusiasmante, no final de um jantar bem regado a tinto, mas que na véspera já descrevera como uma valente decepção, pois brindara-a com uma incómoda falta de vigor sexual, uma arreliante maldição que a americana generalizava agora a todos os machos gauleses. Estão tolhidos de medo, rien de rien! garantira. Uma pequena desilusão privada chegava-lhe para retirar conclusões tremendas sobre a masculinidade de um povo. Curiosamente, o inverso também era verdadeiro, pois Polly descrevia os holandeses como firmes, só porque dormira com dois durante as semanas em que soara a sirene nos Países Baixos. E tu, Carol, ainda és virgem?, perguntou de súbito. A surpresa não residia no tema, mas no objecto da curiosidade, pois Polly nunca se interessara pela minha prima. Sabia que nascera em Portugal, pois alguém lho tinha dito, mas só comentara que nunca fora a Lisboa, como se isso é que fosse relevante. Completamente egocêntrica, Polly colocava sempre um repetitivo eu na sua habitual cascata de frases. Eu isto, eu aquilo, eu estive lá, eu é que sei. Falava na sua intensa experiência de guerra, babando orgulho aventureiro; no divórcio trapalhão, embora o marido a tivesse deixado muito bem; ou nos muitos parceiros íntimos que tivera. Por isso, espantada com aquele interesse, Carol demorou a reagir, o que acabou por pagar com uma provocação desnecessária. Não tens a certeza?, gozou Polly. Tanta superioridade sexual espicaçou o orgulho da minha prima, que descreveu à americana a sua primeira vez, com um finalista chamado Yves, no Verão de 1939. Após uma festa, enfiara-se no quarto alugado do rapaz, mas desse dia supostamente épico da sua vida de mulher, apenas recordava detalhes laterais, como o cheiro acre das axilas de Yves ou um relógio de cuco pendurado na parede, onde um enervante pássaro de madeira abria de rompante uma portinhola. Ouvira três cucus à entrada e quatro à saída, sessenta minutos fora o tempo que estivera com Yves, que nunca mais vira, pois ele não regressara em Setembro. O actual chama-se Jean-Luc.

Saltou para o segundo capítulo da sua vida amorosa sem pausa, não fosse Polly interrompê-la. Namorava desde Abril com um jovem moreno, de cabelo encaracolado e pele esquálida. Uma vez por mês, passavam a tarde juntos em casa dele, onde vivia sozinho, pois os pais tinham partido para Lyon, a terra de origem». In Domingos Amaral, A Bicicleta que Fugiu dos Alemães, Casa das Letras, 2019, ISBN 978-989-780-124-2.

Cortesia CdasLetras/JDACT

Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago. «A mulher informou a empregada da recepção de que era a pessoa que há meia hora tinha telefonado por causa do marido…»



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«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara»

«(…) Mantiveram-se calados até ao consultório do médico. Ela procurava afastar do pensamento o roubo do carro, apertava carinhosamente as mãos do marido entre as suas, enquanto ele, com a cabeça baixa para que o motorista não pudesse ver-lhe os olhos pelo retrovisor, não parava de perguntar-se como era possível que tão grande desgraça lhe estivesse a acontecer a ele, A mim, porquê. Aos ouvidos chegavam-lhe os ruídos do trânsito, uma ou outra voz mais alta quando o táxi parava, também às vezes sucede, ainda dormimos e já os sons exteriores vão repassando o véu da inconsciência em que ainda estamos envolvidos, como num lençol branco. Como num lençol branco. Abanou a cabeça suspirando, a mulher tocou-lhe ao de leve na face, maneira de dizer Sossega, estou aqui, e ele deixou pender a cabeça para o ombro dela, sem se importar com o que pensaria o motorista, Estivesses tu como eu, e não poderias ir aí a guiar, pensou infantilmente, e, sem reparar no absurdo do enunciado, congratulou-se por, em meio do seu desespero, ter sido ainda capaz de formular um raciocínio lógico. Ao sair do táxi, auxiliado discretamente pela mulher, parecia calmo, mas, à entrada do consultório, onde iria conhecer a sua sorte, perguntou-lhe num murmúrio que tremia, Como estarei eu quando sair daqui, e abanou a cabeça como quem já nada espera.

A mulher informou a empregada da recepção de que era a pessoa que há meia hora tinha telefonado por causa do marido, e ela fê-los passar a uma pequena sala onde outros doentes esperavam. Havia um velho com uma venda preta num dos olhos, um rapazinho que parecia estrábico acompanhado por uma mulher que devia de ser a mãe, uma rapariga nova de óculos escuros, duas outras pessoas sem sinais particulares à vista, mas nenhum cego, os cegos não vão ao oftalmologista. A mulher guiou o marido para uma cadeira livre, e, por não sobrar outro assento, ficou de pé ao lado dele, Vamos ter de esperar, murmurou-lhe ao ouvido. Ele percebeu porquê, ouvira vozes dos que ali se encontravam, agora afligia-o uma preocupação diferente, pensava que quanto mais o médico tardasse a examiná-lo, mais profunda a cegueira se tornaria, e portanto incurável, sem remédio. Mexeu-se na cadeira, inquieto, ia comunicar as suas apreensões à mulher, mas nesse momento a porta abriu-se e a empregada disse, Os senhores, por favor, passem, e dirigindo-se aos outros doentes, Foi ordem do senhor doutor, o caso deste senhor é urgente. A mãe do rapaz estrábico protestou que o direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera há mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas nenhum deles, nem ela própria, acharam prudente insistir na reclamação, não fosse o médico ficar ressentido e depois pagar-se da impertinência fazendo-os esperar ainda mais, tem-se visto. O velho do olho vendado foi magnânimo, Deixem-no lá, coitado, aquele vai bem pior do que qualquer de nós. O cego não o ouviu, já iam a entrar no gabinete do médico, e a mulher dizia, Muito obrigada pela sua bondade, senhor doutor, é que o meu marido, e tendo dito interrompeu-se, em verdade ela não sabia o que realmente sucedera, sabia apenas que o marido estava cego e lhes tinham roubado o carro. O médico disse, Sentem-se, por favor, ele próprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mão, falou directamente para ele, Conte-me lá então o que se passa consigo. O cego explicou que estando dentro do carro, à espera de que o sinal vermelho mudasse, tinha ficado subitamente sem ver, que umas pessoas acudiram a ajudá-lo, que uma mulher de idade, pela voz devia ser, dissera que aquilo se calhar eram nervos, e que depois um homem o acompanhara a casa porque ele sozinho não podia valer-se, Vejo tudo branco, senhor doutor. Não falou do roubo do automóvel». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago. «Saíram. Em baixo, no vestíbulo da escada, a mulher acendeu a luz e sussurrou-lhe ao ouvido, Espera-me aqui, se algum vizinho aparecer fala-lhe com naturalidade…»

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 «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara»

 «(…) Levantou-se, ainda perguntou, Notas alguma diferença, nenhuma, disse ele, Atenção, vou apagar a luz, já me dirás, agora, Nada, Nada, quê, Nada, vejo sempre o mesmo branco, para mim é como se não houvesse noite.

Ele ouvia a mulher passar rapidamente as folhas da lista telefónica, fungando para segurar as lágrimas, suspirando, dizendo enfim, Este deve servir, oxalá nos possa atender. Marcou um número, perguntou se era do consultório, se o senhor doutor estava, se podia falar com ele, não, não, o senhor doutor não me conhece, é por causa de um caso muito urgente, sim, por favor, compreendo, então digo-lho a si, mas peço-lhe que transmita ao senhor doutor, é que o meu marido ficou cego de repente, sim, sim, como lhe estou a dizer, de repente, não, não é doente do senhor doutor, o meu marido não usa óculos, nunca usou, sim, tinha uma óptima vista, como eu, eu também vejo bem, ah, muito obrigada, eu espero, eu espero, sim, senhor doutor, sim, de repente, diz que vê tudo branco, não sei como foi, nem tive tempo de lhe perguntar, acabo de chegar a casa e encontrei-o neste estado, quer que lhe pergunte, ah, quanto lhe agradeço, senhor doutor, vamos imediatamente, imediatamente. O cego levantou-se, Espera, disse a mulher, deixa-me curar primeiro esse dedo, desapareceu por uns momentos, voltou com um frasco de água oxigenada, outro de mercurocromo, algodão, uma caixinha de pensos rápidos. Enquanto o tratava perguntou-lhe, Onde foi que deixaste o carro, e subitamente, Mas tu, assim como estás, não podias conduzir, ou já estavas em casa quando, Não, foi na rua, quando estava parado num sinal vermelho, uma pessoa fez o favor de me trazer, o carro ficou aí na rua ao lado, Bom, então descemos, esperas à porta que eu o vou buscar, onde foi que puseste as chaves, Não sei, ele não mas devolveu, Ele, quem, O homem que me trouxe a casa, foi um homem, Tê-las-á largado por aí, vou ver, Não vale a pena procurares, ele não entrou, Mas as chaves têm de estar em algum sítio, O mais certo foi ter-se ele esquecido, levou-as sem se dar conta, Era mesmo isto o que nos faltava, Usa as tuas, depois logo se vê, Bem, vamos, dá-me cá a mão. O cego disse, Se vou ter de ficar assim, acabo com a vida, Por favor, não digas disparates, para infelicidade já basta o que nos sucedeu, Eu é que estou cego, não tu, tu não podes saber o que me sucedeu, O médico vai pôr-te bom, verás, Verei.

Saíram. Em baixo, no vestíbulo da escada, a mulher acendeu a luz e sussurrou-lhe ao ouvido, Espera-me aqui, se algum vizinho aparecer fala-lhe com naturalidade, diz que estás à minha espera, olhando para ti ninguém pensará que não vês, escusamos de estar já a dar notícia da nossa vida, Sim, mas não te demores. A mulher saiu a correr. Nenhum vizinho entrou ou saiu. Por experiência, o cego sabia que a escada só estaria iluminada enquanto se ouvisse o mecanismo do contador automático, por isso ia premindo o disparador de cada vez que se fazia silêncio. A luz, esta luz, para ele, tornara-se em ruído. Não entendia por que se demorava a mulher tanto, a rua era ali ao lado, uns oitenta, cem metros, Se nos atrasamos muito, o médico vai-se embora, pensou. Não pôde evitar um gesto maquinal, levantar o punho esquerdo e baixar os olhos para ver as horas. Apertou os lábios como se o tivesse traspassado uma súbita dor, e agradeceu à sorte não ter aparecido naquele momento um vizinho, pois ali mesmo, à primeira palavra que ele lhe dirigisse, se teria desfeito em lágrimas. Um carro parou na rua, Até que enfim, pensou, mas acto contínuo estranhou o barulho do motor, Isto é diesel, isto é um táxi, disse, e carregou uma vez mais no botão da luz. A mulher vinha a entrar, nervosa, transtornada, O santinho do teu protector, a boa alma, levou-nos o carro, Não pode ser. Não deves ter visto bem, Claro que vi bem, eu vejo bem, as últimas palavras saíram-lhe sem ela querer, Tinhas-me dito que o carro estava na rua ao lado, emendou, e não está, ou então deixaram-no noutra rua, Não, não, foi nessa, tenho a certeza, Pois então levou sumiço, Nesse caso, as chaves, Aproveitou-se da tua desorientação, da aflição em que estavas, e roubou-nos, E eu que nem o quis deixar entrar em casa, por medo, se tivesse ficado a fazer-me companhia até tu chegares, não poderia ter roubado o carro, Vamos, temos o táxi à espera, juro-te que era capaz de dar um ano de vida para que esse malandro cegasse também, Não fales tão alto, E lhe roubassem tudo quanto tenha, Pode ser que apareça, Ah, pois, amanhã bate-nos aí à porta a dizer que foi uma distracção, a pedir desculpa, e a saber se estás melhorzinho». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

Cortesia de ECaminho/JDACT

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Jesus ou o Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «Os prelados instrutores estavam encarregados de investigar se os Templários eram gnósticos, ou, o que era pior, maniqueus, dos que dividiam Cristo num Cristo superior e um Cristo inferior…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Sang de Toulouse

Data: 21 de Outubro de 1307

«Uma janela ogival, estreita e alta, apenas permite a entrada da luz do dia. Achamo-nos em uma ampla sala abobadada do velho Louvre de Felipe Augusto, que a fumaça das tochas murais obscurece ainda um pouco mais. Atrás de uma mesa de tosca madeira, uns homens vestidos com pesadas roupagens, com os rostos tensos e crispados pelo ódio, os legistas de Felipe IV, o Formoso, escutam a voz baixa e triste que se eleva de um vulto de roupas imundas e manchadas de sangue, desabado diante deles. Detrás, uns carcereiros revestidos de couro e malhas, com rosto impassível, curtido pelas campanhas. O homem que fala é um templário, chama-se Godofredo de Charnay, e foi comendador da Normandia. Hoje, depois de ter sido trabalhado duramente durante vários dias pelos verdugos do Palácio, conta as circunstâncias de sua admissão na Ordem do Templo, e toda sua juventude, apaixonada pelas façanhas guerreiras a cavalo e pelas carreiras marítimas sob o esplêndido sol mediterrâneo, acode agora a sua memória... Sem dúvida, e apesar do atroz sofrimento que lhe causam as suas pernas, que os verdugos foram lubrificando lentamente, durante horas, com azeite fervendo, negou tenazmente a sua homossexualidade, uma das primeiras acusações que lhe faziam. Sem dúvida afirmou que ignorava tudo que lhe dizia sobre a suposta adoração ritual de um gato preto, ou sobre uma misteriosa cabeça num relicário de prata. Mas quanto a renegar a divindade de Jesus, confessou, e mais, inclusive proporcionou detalhes: depois de me haver recebido e colocado o manto, trouxeram-me uma cruz em que havia uma imagem de Jesus Cristo. O irmão Amaury disse-me que não acreditasse naquele cuja imagem estava representada ali, já que era um falso profeta, não era Deus...

O comendador que impunha semelhante abjuração ao jovem Godofredo de Charnay, futuro comendador da Normandia, chamava-se Amaury de la Roche, e era o amigo e favorito de são Luis... Esta confissão de Godofredo de Charnay confirmava a de outro cavaleiro templário. A este outro, o comendador que acabava de proceder à sua recepção tinha assegurado, ao lhe ver retroceder horrorizado: não tema nada, filho. Este não é o Senhor, não é Deus, é um falso profeta... Muitas outras confissões parecidas completaram o expediente. Numa das obras mais completas que se consagraram a este processo, M. Lavocat resume as perguntas formuladas aos templários pelos inquisidores, tal como aparecem no próprio expediente: alguém se encontrava frente à conclusões de inculpação e de informação já estabelecidas (sistema muito cómodo), elaboradas por uns juristas versados na ciência das heresias infligidas à Igreja. Os prelados instrutores estavam encarregados de investigar se os Templários eram gnósticos, ou, o que era pior, maniqueus, dos que dividiam Cristo num Cristo superior e um Cristo inferior, terrestre, passivo, partidista, vivo e cativo na Matéria, cuja Organização ele constituía. Formariam parte daquelas antigas seitas chamadas libertinas dos gnósticos carpo-cratianos, nicolaístas e maniqueus? Teriam abraçado a religião de Mahoma (como pretendia a Chronique de Saint-Denys)? Ficava ainda um ponto por examinar, mas difícil de conciliar com os outros. Os irmãos do Templo consideravam Jesus como um falso profeta, como um criminoso de direito comum, que teria sido condenado e executado pelos seus crimes? Ao confirmar-se esta última hipótese, os Templários se teriam somado ao número dos assassinos de Jesus, a quem crucificavam pela segunda vez, como escrevera Felipe, o Formoso?

Nestas últimas perguntas, os inquisidores demonstravam estar perfeitamente informados. Cem anos antes, os interrogatórios aos perfeitos cátaros tinham-lhes revelado um segredo que sempre, até então, tinham ignorado, posto que era secreto da Igreja, unicamente conhecido por seus mais altos dignatários: a revelação do verdadeiro rosto de Jesus na História. Esse rosto tinha sido registado nos arquivos do Império romano. E depois de Constantino tinham-no expurgado. O judaísmo tinha-o conhecido, e na tormenta das perseguições que se abateram fazia mil e trezentos anos sobre os desafortunados judeus se conseguiu confiscar, destruir ou modificar os escritos comprometedores. Tinham-no conhecido os cátaros, e se tinha destruído esta heresia, assim como seus documentos manuscritos. Tinham-no revelado aos Templários. E agora do que se tratava era de destruir os cátaros. Aí estavam as confissões, formais, de numerosos irmãos da Ordem que sabiam... E esses beijos impúdicos que se davam, um entre os dois ombros, e o outro no vão dos rins, não estavam acaso destinados a atrair a atenção por volta de um dos segredos do Zohar, para um procedimento de acção que os cabalistas judeus denominam o mistério da Balança, que põe em acção Hochmah (a Sabedoria) e Binah (a Inteligência), os dois ombros do Antigo Dia, no mundo de Yesod (a Base dos seus rins)?» In Robert Ambelain, Jesus ou o Segredo Mortal dos Templários, 1970, Éditions Robert Laffont, Ediciones Martínez Roca, 1982, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de EMartinezRoca/JDACT

domingo, 2 de agosto de 2020

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh. «Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «(…) Ficou claro que o nosso filme sobre um pequeno mistério local começava a assumir proporções inesperadas. Paul decidiu abandoná-lo e nos engajou numa longa-metragem. Agora haveria mais tempo para pesquisar e mais tempo de cena para explorar a história. A transmissão foi adiada para a primavera do ano seguinte. O Tesouro Perdido de Jerusalém saiu em Fevereiro de 1972 e provocou uma reacção muito forte. Eu sabia que havia encontrado um assunto interessante para o grande público. Uma pesquisa posterior não significaria, portanto, auto-indulgência. Em algum momento teria que haver um segundo filme. Em 1974 eu já possuía grande quantidade de material. Paul contratou Roy Davies para produzir o meu segundo filme Crónica, chamado O Padre, o Pintor e o Demónio. Mais uma vez, a reacção do público mostrou quão fortemente a história havia impressionado a imaginação popular. Mas então ela havia se tornado muito complexa, e muito extensa nas suas ramificações. A pesquisa detalhada estava rapidamente excedendo a capacidade de uma única pessoa. Havia muitos caminhos diferentes a percorrer.

Quanto mais eu prosseguia numa linha de investigação, mais consciente me tornava da quantidade de material que estava sendo negligenciado. Nesse ponto crucial, o destino, que de início havia colocado a história casualmente em minhas mãos, agora assegurou que o trabalho não estagnaria. Em 1975, tive a grande sorte de encontrar Richard Leigh, durante um Curso de Verão em que ambos dávamos aulas de literatura. Richard é um romancista e escritor de contos, com pós-graduação em literatura comparada e um conhecimento profundo em história, filosofia, psicologia e esoterismo. Havia trabalhado durante vários anos como professor universitário nos Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. Durante os intervalos das nossas aulas, passamos muitas horas discutindo assuntos de interesse mútuo. Eu mencionei os templários, que desempenhavam um papel importante no pano de fundo do mistério de Rennes-Ie-Château. Para minha satisfação, vi que essa sombria ordem medieval de monges combatentes já havia despertado o interesse de Richard, que desenvolvera pesquisas consideráveis sobre sua história. Subitamente, meses de trabalho que eu via se prolongarem à minha frente se tornaram desnecessários. Richard podia responder à maioria de minhas dúvidas. E ficara tão intrigado quanto eu com as anomalias evidentes que eu havia encontrado. O mais importante é que meu projecto de pesquisa também o fascinava. Percebendo o significado do projecto, ele se ofereceu para ajudar-me nos aspectos que envolviam os templários. E trouxe Michael Baigent, um psicólogo que recém-abandonara uma bem-sucedida carreira em foto-jornalismo para se dedicar ao estudo dos templários, visando ao projecto de um filme. Se eu tivesse procurado, não teria encontrado dois parceiros mais bem qualificados e mais compatíveis para formar um time. Após anos de trabalho solitário, o ímpeto trazido ao projecto por dois cérebros novos foi muito estimulante. O primeiro resultado palpável de nossa colaboração foi o terceiro filme Crónica sobre Rennes-Ie-Château, A Sombra dos Templários, produzido por Roy Davies em 1979.

O trabalho realizado para aquele filme finalmente nos colocou face a face com as fundações sobre as quais todo o mistério de Rennes-Ie-Château havia sido construído. Mas, no filme, o que estávamos começando a discernir só podia ser insinuado. Sob a superfície havia algo mais chocante, mais importante e mais imediatamente relevante do que podíamos imaginar quando começamos o nosso trabalho sobre o pequeno e intrigante mistério que um padre francês provavelmente encontrara num vilarejo montanhoso. Em 1972, eu terminara o meu primeiro filme com as seguintes palavras: algo extraordinário está esperando ser encontrado..., e o será, num futuro não muito distante. Este livro explica o que é este algo, e quão extraordinária foi sua descoberta». In Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, Nova Fronteira, 1993, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

 Cortesia de NFronteira/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh. «Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 «Em 1969, quando estava de férias em Cévennes, comprei o livro de bolso Le Trésor maudit, de Gérard Sede. Era uma história de mistério, uma mistura leve e interessante de factos históricos, mistérios genuínos e conjecturas. Depois das férias ele teria sido esquecido, como todas as leituras desse tipo, se eu não tivesse tropeçado numa omissão evidente e curiosa em suas páginas. O tesouro amaldiçoado do título havia sido aparentemente encontrado nos idos de 1890 por um padre de vilarejo que decifrara alguns documentos enigmáticos desenterrados em sua igreja. Os supostos textos de dois desses documentos foram reproduzidos, mas não as mensagens secretas que estariam codificadas dentro dele. A inferência era que as mensagens decifradas haviam sido novamente perdidas. Entretanto, conforme descobri, um estudo superficial dos documentos reproduzidos no livro revelava pelo menos uma mensagem oculta. O autor certamente a percebera. Ao trabalhar no seu livro, dera aos documentos mais do que uma atenção passageira. Era claro que ele encontrara o que eu havia encontrado. Além disso, a mensagem era um excitante fragmento de prova, do tipo que ajuda a vender um livro popular. Por que o senhor de Sède não a publicara? A peculiaridade da história e a possibilidade de outras descobertas voltaram à minha mente de tempos em tempos nos meses seguintes.

Sentia-me atraído por esse quebra-cabeça mais intrigante do que os usuais e curioso pelo silêncio de De Sède. Na medida em que ia descobrindo novos e intrigantes lampejos de significados no texto dos documentos, comecei a querer dedicar mais do que momentos de folga ao mistério de Rennes-Ie-Château. No final do Outono de 1970, apresentei a história como um possível documentário para Paul Johnstone, então produtor executivo da série Crónica, sobre história e arqueologia, da BBC. Paul achou o projecto viável. Fui então enviado à França para falar com De Sède e explorar as perspectivas de um filme. Encontrei De Sède em Paris na semana do Natal de 1970. Naquela primeira reunião, fiz a pergunta que me intrigara por mais de um ano: por que você não publicou a mensagem oculta nos pergaminhos? Sua resposta surpreendeu-me. Qual mensagem? Parecia-me inconcebível que ele desconhecesse aquela mensagem elementar. Por que estaria duelando comigo? Subitamente eu me vi, relutante, a revelar o que havia encontrado. Continuamos um elíptico jogo de esgrima verbal durante alguns minutos. Então se tornou claro que ambos conhecíamos a mensagem. Repeti minha pergunta: Porque não a publicou? Desta vez a resposta de De Sède foi calculada: porque nós pensamos que alguém como você se interessaria em descobrir por si mesmo. Essa resposta, tão enigmática quanto os misteriosos documentos do padre, era o primeiro indício claro de que o mistério de Rennes-Ie-Chatêau deveria ser muito mais do que uma simples fábula de tesouro perdido.

Comecei a preparar, juntamente com meu director, Andrew Maxwell-Hyslop, um filme Crónica na Primavera de 1971. O projecto era realizar um bloco de vinte minutos para um programa. Mas, na medida em que íamos trabalhando, De Sède nos alimentava com outros fragmentos de informação. Primeiro surgiu o texto integral de uma importante mensagem cifrada, que falava dos pintores Poussin e Teniers. Era fascinante. O código era incrivelmente complexo. Fomos informados de que ele havia sido decifrado por especialistas do departamento de códigos do exército francês, através de computadores. Estudando as circunvoluções do código, convenci-me de que a explicação obtida era no mínimo suspeita. Investiguei junto a especialistas em códigos do serviço de inteligência da Grã-Bretanha e eles concordaram comigo: o código não configura um problema válido para um computador. Ou seja, era indecifrável. Mas alguém, em algum lugar, devia ter a chave. Então De Sède entregou sua segunda bomba. Urna tumba semelhante àquela do famoso quadro Les Bergers d'Arcadie, de Poussin, havia sido encontrada. Ele enviaria detalhes assim que os obtivesse. Alguns dias mais tarde chegaram fotografias». In Michael Baigent, Henry Lincoln e Richard Leigh, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, Nova Fronteira, 1993, 2015, ISBN 978-852-090-474-9.

 

Cortesia de NFronteira/JDACT

sábado, 1 de agosto de 2020

Ensaio Sobre a Cegueira José Saramago. «Não esperara pela resposta. Ostensivamente, pusera-se a recolher os restos da jarra e a enxugar o soalho, enquanto ia resmungando, com uma irritação que não procurava…»

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«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara»

«(…) Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis. Ao mover-se em direcção à sala de estar, e apesar da prudente lentidão com que avançava, deslizando a mão hesitante ao longo da parede, fez cair ao chão uma jarra de flores de que não estava à espera. Tinha-se esquecido dela, ou então fora a mulher que a deixara ali quando saiu para o emprego, com a intenção de colocá-la depois em lugar adequado. Baixou-se para avaliar a gravidade do desastre. A água espalhara-se pelo chão encerado. Quis recolher as flores, mas não pensou nos vidros partidos, uma lasca longa, finíssima, espetou-se-lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como uma criança, cego de brancura no meio duma casa que, com o declinar da tarde, já começava a escurecer. Sem largar as flores, sentindo o sangue a escorrer, torceu-se todo para tirar o lenço do bolso e, como pôde, envolveu o dedo. Depois, apalpando, tropeçando, contornando os móveis, pisando cautelosamente para não enfiar os pés nos tapetes, alcançou o sofá onde ele e a mulher viam a televisão. Sentou-se, pôs as flores em cima das pernas, e, com muito cuidado, desenrolou o lenço. O sangue, pegajoso ao tacto, perturbou-o, pensou que devia ser porque não podia vê-lo, o seu sangue tornara-se numa viscosidade sem cor, em algo de certo modo alheio que apesar disso lhe pertencia, mas como uma ameaça de si contra si mesmo. Devagarinho, apalpando levemente com a mão boa, procurou a delgada esquírola de vidro, aguda como uma espada minúscula, e, fazendo pinça com as unhas do polegar e do indicador, conseguiu extraí-la inteira. Tornou a envolver no lenço o dedo maltratado, com força para estancar o sangue e, rendido, exausto, reclinou-se no sofá. Um minuto mais tarde, por uma dessas não raras desistências do corpo, que escolhe, para renunciar, certos momentos de angústia ou de desespero, quando, se por a exclusiva lógica se governasse, todos os seus nervos deveriam estar despertos e tensos, entrou-lhe um espécie de quebranto, mais sonolência do que sono autêntico, mas tão pesada como ele. Imediatamente sonhou que estava a jogar o jogo do E se eu fosse cego, sonhava que fechava e abria os olhos muitas vezes, e que, de cada vez, como se estivesse a regressar de uma viagem, encontrava à sua espera, firmes e inalteradas, todas as formas e cores, o mundo como o conhecia. Por debaixo desta certeza tranquilizadora percebia, contudo, o remoer surdo de uma dúvida, talvez se tratasse de um sonho enganador, um sonho de que teria de acordar mais cedo ou mais tarde, sem saber, nesse momento, que realidade estaria à sua espera. Depois, se tal palavra tem algum sentido aplicada a um quebrantamento que não durou mais que uns instantes, e já naquele estado de meia vigília que vai preparando o despertar, considerou seriamente que não estava bem manter-se numa tal indecisão, acordo, não acordo, acordo, não acordo, sempre chega uma altura em que não há outro remédio que arriscar, Eu que faço aqui, com estas flores em cima das pernas e os olhos fechados, que parece que estou com medo de os abrir, Que fazes tu aí, a dormir, com essas flores em cima das pernas, perguntava-lhe a mulher.

 

Não esperara pela resposta. Ostensivamente, pusera-se a recolher os restos da jarra e a enxugar o soalho, enquanto ia resmungando, com uma irritação que não procurava dissimular, Bem o poderias ter feito tu, em lugar de te deitares para aí a dormir, como se não fosse nada contigo. Ele não falou, protegia os olhos por trás das pálpebras apertadas, subitamente agitado por um pensamento, E se eu abro os olhos e vejo, perguntava-se, tomado por uma ansiosa esperança. A mulher aproximou-se, reparou no lenço manchado de sangue, o seu agastamento apagou-se num instante, Pobrezinho, como foi que te aconteceu isto, perguntava compadecida, enquanto desfazia a improvisada atadura. Então ele, com todas as suas forças, desejou ver a mulher ajoelhada aos seus pés, ali, como sabia que estava, e depois, já certo de que a não veria, abriu os olhos, Até que enfim que acordaste, meu dorminhoco, disse ela, sorrindo. Fez-se um silêncio e ele disse, Estou cego, não te vejo. A mulher ralhou, Deixa-te de brincadeiras estúpidas, há coisas com que não devemos brincar, Quem me dera que fosse uma brincadeira, a verdade é que estou mesmo cego. Não vejo nada, Por favor, não me assustes, olha para mim, aqui, estou aqui, a luz está acesa, Sei que aí estás, ouço-te, toco-te, calculo que tenhas acendido a luz, mas eu estou cego. Ela começou a chorar, agarrou-se a ele, Não é verdade, dize-me que não é verdade. As flores tinham escorregado para o chão, sobre o lenço manchado, o sangue recomeçara a pingar do dedo ferido, e ele, como se por outras palavras quisesse dizer do mal o menos, murmurou, Vejo tudo branco, e logo deixou aparecer um sorriso triste. A mulher sentou-se ao lado dele, abraçou-o muito, beijou-o com cuidado na testa, na cara, suavemente nos olhos, Verás que isso passa, tu não estavas doente, ninguém fica cego assim, de um momento para outro, talvez, Conta-me como foi, o que sentiste, quando, onde, não, ainda não, espera, a primeira coisa que temos de fazer é falar com um médico dos olhos, conheces algum, Não conheço, nem tu nem eu usamos óculos, E se te levasse ao hospital, Para olhos que não vêem, não deve haver serviços de urgência, tens razão, o melhor é irmos directamente a um médico, vou procurar na lista dos telefones, um que tenha consultório perto daqui». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

Os Manuscritos de Jesus. Michael Baigent. «… no início do século XV, época em que havia três papas, uma trindade de pontífices unidos unicamente por um desprezo mútuo…»

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 O Tesouro do Padre

«(…) Ao longo do século XIX, cada vez mais o Vaticano ia-se tornando anacrónico. Os Estados Papais se estendiam de Roma a Ancona e até Bolonha e Ferrara, e o papa governava qual um potentado medieval. A tortura constituía prática regular nas mãos dos anónimos guardas da Inquisição (maldita) nas suas prisões secretas. Os condenados nos tribunais pontifícios viravam remadores nos galeões ou eram exilados, presos ou executados. Um patíbulo aparentando bastante uso ocupava o centro da praça de todas as comunidades. Por todo o lado espreitavam espiões, e a repressão era a regra; a modernidade vinha sendo mantida ao largo, até mesmo as estradas de ferro foram proibidas pelo papa, que temia que as viagens, bem como a comunicação entre os indivíduos, causassem danos à religião. Tudo isso acontecia contra o pano de fundo de uma Europa onde a norma era pressionar por mudanças sociais sob a forma de movimentos libertários contra o poder despótico e de encorajamento do governo parlamentarista.

A despeito da ignorância proposital, o mundo exterior ia adentrando as fronteiras fragilizadas dos domínios papais. As mudanças começavam a parecer inevitáveis. A filosofia política democrática, uma crescente consciência social e a florescente crítica aos textos bíblicos e suas incoerências faziam as convicções religiosas baquearem sob a pressão. Além disso, para horror dos católicos conservadores, o poder político do papa também estava directamente ameaçado. Tratava-se de um problema real: em 1859, logo depois de uma guerra entre a Áustria e a França, na qual as forças católicas dos Habsburgos sofreram uma derrota, a grande maioria das terras papais foi anexada ao recém-criado reino da Itália. O papa Pio IX, sumariamente rebaixado pelos acontecimentos, governava agora apenas Roma e um fragmento do campo à sua volta. E as coisas pioraram: em 21 de Setembro de 1870, até mesmo esse pequeno património lhe foi tomado pelos soldados italianos. Ao papa restou tão-somente o enclave murado da Cidade do Vaticano, de onde até hoje seus sucessores continuam a governar.

Pouco antes da perda de Roma, o papa, num aparente gesto de desespero, convocara um Concilio Geral de Bispos para sustentar o seu poder. No entanto, ao reunir esse Concilio, o papa reconhecia implicitamente as limitações de tal poder. A questão de quem segurava as rédeas há muito constituía uma ferida aberta no Vaticano. A incómoda verdade era que a legitimidade do papa não derivava do apóstolo são Pedro, dois mil anos atrás, como ele afirmava, mas de uma fonte bem mais mundana e terrena: um Concilio de Bispos que se reunira em Constance no início do século XV, época em que havia três papas, uma trindade de pontífices unidos unicamente por um desprezo mútuo, todos afirmando simultaneamente possuir autoridade suprema sobre a Igreja. Essa situação ridícula fora resolvida pelos bispos, que declararam, declaração esta reconhecida, ser detentores de autoridade legítima. Dali em diante, os papas mantiveram a autoridade graças aos bispos. Consequentemente, os primeiros dependiam, sempre que desejassem empreender uma mudança significativa, da aprovação dos últimos.

O papa Pio IX foi, porém, o que pretendeu fazer a maior das mudanças: estava decidido a ser declarado infalível, atribuindo-se assim um poder inédito sobre todos os fiéis. Sabia, contudo, que seria obrigado a usar de astúcia para alcançar tal objectivo. Por esse motivo, o Concilio Vaticano I foi convocado no final de 1869. A sua verdadeira finalidade foi mantida em segredo por um pequeno grupo de homens poderosos que incluía três cardeais, todos eles membros da Inquisição (maldita). Não houve qualquer menção à infalibilidade papal em nenhum dos documentos que abordavam os objectivos e as directrizes do concílio. Enquanto isso, os bispos se reuniram e se viram sujeitos a tácticas coercitivas. As votações não eram secretas, e o preço da crítica logo ficou evidente: a perda dos estipêndios do Vaticano era o mínimo que um bispo dissidente podia esperar». In Michael Baigent, Os Manuscritos de Jesus, Editora Nova Fronteira, 2006, ISBN 978-852-091-898-2.

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