quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cristina da Costa Vieira: Viagem pelo universo feminino de «A Esmeralda Partida» de Fernando Campos. O romance histórico como ponto de fuga

Com a devida vénia a Cristina Maria da Costa Vieira, na sua Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros, Viagem pelo universo feminino de «A Esmeralda Partida» de Fernando Campos. O romance histórico como ponto de fuga, publico algumas frases alusivas ao tema.

Cortesia de wook
Edição/reimpressão: 2006, Páginas: 301,Editor: Difel, ISBN: 9789722906142,
Colecção: Documento e Ensaio
Cristina da Costa Vieira 
Abordar a temática feminina num romance histórico cuja diegese é cronotopica-mente localizável no século XV português pode parecer algo contra-producente, devido à invisibilidade a que a mulher está votada enquanto sujeito histórico desta época: com efeito, considera-se ser o Quatrocentos a última centúria da Idade Média, pese embora a artificialidade de determinadas balizas temporais. 1453, ano da queda de Constantinopla às mãos dos Turcos Otomanos, é entendida pelos historiadores como uma data convencional para o gradual Outono da Idade Média em que o reinado de D. João II se insere. O Renascimento que se lhe seguiu representa, em vários aspectos, ou uma continuação ou um agravamento da condição feminina. Fernando Campos em «A Esmeralda Partida» dá conta de como na época do monarca que viria a ser cognominado de Príncipe Perfeito e seria responsabilizado, pelos historiadores portugueses, pela entrada de Portugal na Modernidade5 coabitavam dois tipos de mentalidade: a medieval e a renascentista.
A exclusão das mulheres da historiografia, particularmente da medieval, apassi-vará o seu real peso histórico. Basta apreciar que personagens assumiram o verdadeiro protagonismo nos pergaminhos históricos. Ora, segundo Linda Hutcheon, o acesso ao passado é inteiramente textualizado, ou seja, o conhecimento histórico só existe enquanto texto e depende de textos (o que não equivale, obviamente, a negar a existência do passado). Consequentemente, não estando nem documentada nem publicitada a História da mulher, esta acaba por ser marginalizada. Ninguém melhor do que Cassandra se tornou símbolo mítico da voz feminina profética desprezada, da voz sem texto, como explorou Christa Wolf no romance histórico Kassandra (1984). Fernano Campos em A Esmeralda. Partida, coloca precisamente na voz de uma mulher (D. Filipa, tia materna de D. João II e de D. Joana) a problemática da participação do género feminino enquanto agente activo da História e da absoluta necessidade da preservação de documentos escritos para memória da posteridade: «Destruíram os inimigos do Infante D. Pedro quanto havia de documento que viesse mostrar aos vindouros o que se tinha passado... Ai, meus filhos! Por vezes um tudo nada, assalto e pilhagem de arquivos, destruição de chancelarias, supressão de testemunhos nem que seja de carne e osso, um ápice e nunca mais se saberá pelos séculos adiante o que aconteceu de verdade. Por isso vos quero transmitir estes factos, antes de a minha voz se consumir na fogueira do tempo como um papel a arder no incêndio do paço.  É desta forma que D. Filipa expõe o que viria a ser teorizado por Hegel como a diferença entre as res gestae (os factos) e a historia rerum gestarum (a historiografia dos factos).
 
Cortesia de ichigonotabi
Ora, o mérito de Fernando Campos está em não ter passado em silêncio essa percentagem da humanidade que de um modo até há bem pouco tempo insuspeito influenciou os destinos dos povos, como aquele em que se movimentou D. João II e seus mais directos ascendentes. Christiane Klapisch-Zuber11 alerta para o facto de, paradoxalmente, as mulheres da Idade Média, a quem era negada a palavra, com frequência serem escutadas com respeito, nomeadamente abadessas de mosteiros famosos e esposas ou viúvas pertencentes a famílias reinantes. Como será analisado, o universo feminino tem em A Esmeralda Partida, uma importância estrutural muitíssimo relevante (mais do que em qualquer outro romance histórico deste autor), evidenciando aspectos originais, donde a opção por esta obra. Não é, assim, despropositado, num romance histórico em que a mulher sai do seu habitual silêncio e ocultação enquanto personagem da História, abordar a temática feminina, mesmo quando o protagonista de tal romance - D. João II - pertence ao género masculino. "Género" e não "sexo", porque entendemos que a distinção homem / mulher não radica apenas numa diferença biológica.

Por outro lado, embora o recurso a outras disciplinas como a Linguística, a História e a Psicologia fosse não só inevitável como profícuo, tal interdisciplinaridade característica da teoria narrativa desde 1970 não eclipsou a perspectiva fundamentalmente literária desta dissertação, não só por se enquadrar num mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros, de orientação literária, mas também por ser o nosso objecto de análise uma obra literária, não redutível a uma realidade histórica e/ou psicológica. Julgamos ter empreendido uma viagem fascinante pelo conhecimento, fugindo a lugares comuns. Procuramos, por fim, evitar cair quer numa atitude de vitimização da mulher, quer numa ginecomania que atribui a responsabilidade de qualquer facto relevante a mulheres astutas exercendo a sua irresistível influência sobre homens débeis.
O romance histórico desde que foi plasmado na sua fase clássica seria assim uma narrativa que finge ser registo histórico. Donde a definição tradicional de romance histórico como género híbrido, porquanto ele seria uma espécie de fruto de um casamento contra natura resultante do desaparecimento da fronteira tão guardada entre ficção e História, ou se quisermos, seria resultado da junção - quanto mais conseguida melhor - entre enunciados referenciais e enunciados não referenciáveis. Este é um dos maiores topoi do discurso dominante sobre um género "oximórico", cheio de falsas pistas, e que reenvia para um preceito da estética clássica: atingir a articulação harmoniosa dos contrários. Este hibridismo inerente ao romance histórico já foi alvo de críticas que Manzoni expôs e com as quais, curiosamente, concordou: alguns criticam o romance histórico porque o autor não distingue o factual do verosímil, falhando numa fiel representação da História; outros criticam-no porque o autor opera tal distinção, destruindo assim a unidade da obra. Estas posições são, isoladamente, do ponto de vista de Manzoni, correctas, mas apresentam duas condições irreconciliáveis, pelo que previu para este gé-nero o que, felizmente, não se concretizou: uma vida curta. Amy Elias soube sintetizar muito bem o pensamento do autor de / Promessi Sposi: o romance histórico teria uma morte anunciada porque é um género «hopelessly contradictory».

Podemos agora aventar algumas considerações concernando o primeiro ponto a resolver nesta tentativa de definição do romance histórico, a saber, o isolamento de características semântico-pragmáticas e estilístico-formais que o distingam dos outros subgéne-ros romanescos. Este é um dos busílis da questão.
Evidentemente, a D. Leonor de A Esmeralda Partida, é diferente da D. Leonor, personalidade histórica. Na transposição do relato do historiador para o romance histórico, qualquer personagem se metamorfoseia em personagem ficcional. A D. Leonor de A Esmeralda Partida, como personagem referencial, continua a ser fictícia, ao mesmo nível diegético de personagens não referenciais, isto é, completamente saídas da imaginação de Campos. Porém, introduzida na ficção, D. Leonor continua a evocar a figura histórica, que tem essa propriedade, não negligenciável, chamada existência. É para nós inegável haver uma "référence fictionnelle" , a par de uma "référence réelle", para o mesmo objecto (neste caso, D. Leonor). Deste modo, o referente do romance histórico é distinto do referente simulacral do romance realista. Trata-se de uma diferença fundamental para a aceitabilidade do romance histórico como um subgenera romanesco.

Assim, se D. Filipa e Garcia de Resende, enquanto narradores, destacam nos seus relatos, sobretudo, o vector político, aqueles têm, todavia, a preocupação de não olvidar os geógrafos, cartógrafos, cosmógrafos, matemáticos ou então os simples livres-pensado-res, enfim, os sábios de toda uma nova geração de humanistas que rodeavam os Infantes D. Pedro e D. Henrique e o Rei D. João II. Mas entre estes mestres que servem aos Infantes e sobretudo ao Príncipe Perfeito uma "multidão de mapas" e sem os quais a empresa dos Descobrimentos focada ao longo da narrativa não seria possível (donde o seu relevo diegético) quantas personagens femininas se encontram? Nenhuma. E este dadonarrativo é estruturalmente exigido por um tipo de romance histórico documental , ou seja, está em perfeita consonância com os dados historiográficos da época: uma época que, regra geral, excluía a mulher do saber letrado .

Uma situação análoga estende-se a toda uma série de ofícios que implicam o domínio da escrita, como escrivãos, secretários, "doutores de leis", cronistas-mor, iluministas e copistas. No entanto, a exclusão do universo feminino em relação ao universo cultural é uma opção do autor e não tanto o fruto de uma contingência documental no que concerne os dois últimos casos: efectivamente, recentes pesquisas historiográficas revelaram a existência de uma mão de mulher por detrás de muitos manuscritos, correndo silenciosa nos mosteiros femininos medievais8. Apesar disso, as iluministas e as copistas surgem preteridas a favor dos iluministas e dos "irmãos copistas de São Domingos, (...) de Alcobaça ou do cartório de Santa Cruz" no relato de Resende.

Esta opção narrativa, que compromete significativamente a intersecção entre os universos feminino e cultural, acompanha, de forma parcelar, o domínio dos mestres-professores. O povo considerava perigoso para os Infantes que estes fossem educados "sob a tutela de mulheres" por um receio que não radica apenas na sua possível efeminização. Retirá-los da roda das mulheres e colocá-los sob a tutela de mestres-professores homens era, no relato de Resende, a única via para uma cuidada educação dos mesmos de forma a que atingissem o estado conveniente para um príncipe. Resende salienta esta atitude educativa no que concerne os casos dos Infantes D. Afonso (posteriormente o Rei Africano) e D. João, seu filho (o nosso D. João II). Todas as matérias , desde as sete artes liberais (o trívio e o quadrívio) até à poesia, às armas, à cavalaria, à falcoaria e ao xadrez, são ministradas por preceptores. O esmero que D. Afonso V tem na educação do filho varão implica o recrutamento de mestres sábios, nunca de alguma mestra (que as havia). Tia Filipa, ela própria uma figura culturalmente notável para a época, é, no romance, uma espécie de tutora dos sobrinhos na ausência deD. Afonso V, completando a sua educação com sábios conselhos, mas essa acção parece restringir-se aos momentos passados em família, já que é ao jantar, por exemplo, que tia Filipa admoesta e ensina o sobrinho. Ou seja, não tem o mesmo carácter institucional dos preceptores, ainda que todos os ensinamentos da tia viessem posteriormente a valer ouro para D. João II.
 
A viagem pelo universo feminino de A Esmeralda Partida, de Fernando Campos, chega assim ao seu termo. Tivemos o romance histórico como ponto de fuga: fuga, porque se apresenta simultaneamente como pretexto para um outro tema e um objectivo; fuga, porque resiste a uma cabal definição; fuga, porque também nós andá(a)mos, tal como o fotógrafo do conto A Caminho de Monsaraz', à procura de uma meta, quem sabe inatingível. O estudo empreendido permite-nos concluir da inquestionável condição de romance histórico documentado de A Esmeralda Partida: romance, porque se dá como ficção; histórico e documentado, para adoptarmos a tipologia de Joseph Turner, porque, como romance, revela intertextualidades com a História estruturalmente pertinentes para a intriga, isto é, ostenta uma ligação directa às fontes historiográficas, não incorrendo em incongruências, inverosimilhanças ou anacronismos factuais ou linguísticos, à semelhança dos seus outros romances históricos, também aqui evocados.

Contudo, a relação da narrativa com a História é problematizada ao longo da obra, para o que contribui de forma inequívoca o seu universo feminino. Centrando-se na vida de uma personagem referencial de primeiro plano, D. João II, Fernando Campos não faz uma evocação romântica da governação da Casa de Avis, mas traça uma possível biografia do monarca, que não escamoteia as imperfeições do Príncipe Perfeito, o que desde logo a diferencia da perspectiva oficial da História. Uma biografia onde diversas mulheres provocam em D. João II os mais variados "pecados": a sanha (casos da irmã, a Princesa Santa Joana, e da viúva Catarina da Costa); o receio e a desconfiança (como a Infanta D. Beatriz e a Rainha Isabel de Castela); a raiva e possivelmente uma tentativa de homicídio (sobre a própria esposa, D. Leonor); o amor (por Ana de Mendonça); o estranhamento e a inquietude (a velha da Fonte Coberta)... Não há lugar numa versão oficial para triângulos amorosos ou suspeitas de envenenamento, muito menos quando algumas dessas suspeitas recaem sobre personalidades referenciais de primeiro plano, como o são a fundadora das Misericórdias ou D. Manuel I. Também nessa versão não há lugar para a solidão do mando, quando as mulheres da vida de D. João II já não lhe estão próximas ou não o podem acompanhar mais de perto. Aqui há esse espaço. De modo que A Esmeralda Partida se distancia do romance histórico clássico: esta é uma crónica subjectiva, a que não está registada nos documentos oficiais.
Por outro lado, Fernando Campos desconstrói a crença ingénua na possibilidade de recuperação da verdade histórica através de múltiplos recursos, entre os quais salientámos a disparidade de focalizações e a multiplicidade de narradores, embora subordinados a um único narrador extradiegético, Garcia de Resende, que, deste modo, na qualidade de personagem, obvia a uma focalização omnisciente. Resende e D. Filipa, narradora intradiegética privilegiada, assumem, acima de qualquer outro narrador, um tipo de discurso característico da metaficção historiográfica pós-moderna, pois reconhecem que o acesso ao passado só é possível mediante textos e memórias, que ambos querem conservar (embora cada um com as suas próprias motivações), e que não há verdades únicas mas diferentes versões do mesmo facto histórico. Se D. Filipa ainda se assume dogmaticamente como detentora da verdadeira versão, Resende não escamoteia a sua própria incapacidade de transcrever uma verdade absoluta e a permanência de muitas dúvidas de que talvez nunca se vislumbre a resolução. Diversas figuras anónimas, entre as quais ganham protagonismo as mulheres do povo, apresentam a sua própria versão, menos canónica da História, mas que se poderá aproximar mais da verdade, censurada e proibida.

Entrevimos, desta forma, várias razões para integrar A Esmeralda Partida no conjunto dos romances históricos pós-modernos: pelas reflexões historiográficas que semeiam a narrativa e lhe transmitem, por um lado, a rejeição da crença ingénua numa verdade histórica absoluta (ou seja, a relatividade da História) e, por outro, a morte da referencialidade (no sentido de que o passado histórico é textualizado e o seu acesso é sempre mediatizado através de textos). E romance histórico pós-moderno, também pelo arrojo em oferecer uma biografia não oficial de uma personagem referencial de primeiro plano na História de Portugal, onde o universo feminino se entrecruza de uma forma poderosa e determinante, retratado e por nós analisado nos seus mais diversos ângulos, assumindo por vezes aspectos originais e pós-modernos (destaque-se, por exemplo, o encontro paratáctico entre o Infante das Sete Partidas e a pequena Olga).

Num romance onde o autor transcende a História, a mulher surge não relegada às sombras dos pergaminhos esquecidos no pó, mas como força mo(a)triz da História e d(est)a história. Clio e Calíope não olvidaram aqui as suas congéneres humanas, em que Fernando Campos se inspirou e que metamorfoseou num universo feminino por vezes perturbante, mas sempre fascinante.
Cortesia Cristina da Costa Vieira/ Editor: Difel, ISBN: 9789722906142/JDACT

Frei Amador Arrais: Os Diálogos. «Quis usar de estilo comum e vulgar, que serve para todo o género de gente, e deixar muitas cousas que são das escolas e dos entendimentos nelas exercitados»

(1530-1600)
Beja
Cortesia de correioalentejo
Frei Amador Arrais, foi um religioso e escritor português do século XVI.
Eleito bispo de Portalegre em 1581, teve papel de relevo na construção da Sé Catedral e contribuiu para o resgate dos prisioneiros de Alcácer Quibir.

Cortesia de flickr
Devido a um litígio que manteve com o cabido da Diocese, resignou ao bispado de Portalegre e retirou-se, em 1596, para o Colégio do Carmo de Coimbra. Sendo considerado um dos prosadores clássicos portugueses mais significativos, escreveu uma vasta obra, de onde se destacam os «Diálogos» de 1589, começados pelo seu irmão, o Doutor Jerónimo Arrais, que morreu sem os concluir. Aqueles consistem em simples conversas ao pé de um doente, que é sucessivamente visitado por dez amigos (um médico, um pregador, um fidalgo, legistas, etc.). As personagens discursam sobre assuntos históricos e preocupações políticas, ao longo dos quais, por vezes, os interlocutores se limitam a reforçar entre si as opiniões comuns.
Frei Amador Arrais optou por escrever estes «Diálogos» em português para que pudessem ser bem divulgados entre os naturais.

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa
No diálogo Da Gente Judaica refere: «E tenho por melhor linguagem a nossa portuguesa que a de Itália, porque em menos palavras contém mais conceitos e com menos rodeios e mais graves termos descobre o que se pretende, além de conservar manifestos vestígios da antiga língua latina, que foi uma das três do mundo mais esclarecidas».
Recorrendo a um estilo equilibrado e sóbrio, encontramos, no entanto, na obra de Frei Amador Arrais as comparações, as citações, as imagens e as referências a personagens bíblicas que revelam uma vasta erudição. Manifesta uma grande preocupação na construção do período, na arrumação das ideias e das palavras, tendo um grande domínio da linguagem.

Bula de promoção de D. Frei Amador Arraiz a Bispo de Portalegre (…)
Manuscrito, 30/10/1581
Frei Amador Arrais, com a devida vénia para a Fundação Calouste Gulbenkian, Série HALP n.º 25 – Julho de 2003. A «visão» dos Profs. António José Saraiva e Óscar Lopes sobre este religioso e escritor português do século XVI.

«Não pode deixar de sentir um grande desnivelamento quem passa da leitura da Imagem da Vida Cristã aos Diálogos (1.ª edição 1589) de Frei Amador Arrais, da Ordem dos Carmelitas Calçados, nascido em 1528 e falecido em 1600, após ter desempenhado importantes cargos eclesiásticos, entre eles o de bispo de Portalegre. Se aquela ainda conserva algo do impulso humanístico, estes cingem-se ao critério da Contra-Reforma. Os Diálogos foram começados, segundo declara Frei Amador, por seu irmão, o Doutor Jerónimo Arrais. Não são propriamente arquitectados como debates entre teses opostas, ao modo da Imagem, mas por simples conversas à beira de um doente, que é sucessivamente visitado por dez amigos (um médico, um pregador, um fidalgo, legistas, etc.), limitando-se por vezes os interlocutores a reforçar entre si as opiniões comuns. A erudição clássica constituída por exemplos, anedotas, ditos de filósofos, é nestes diálogos simples excrescência, exterior ao pensamento do autor. O interesse da discussão rasteja, chegando a discutir-se se devem merecer preferência os santos nacionais ou os santos estrangeiros.

Cortesia de evora.net
Amador Arrais não é já um humanista, mas um catequista com a memória recheada de preceitos da cadeira de Retórica. A sua prosa limita-se a ser correcta e acessível, evitando o conceptismo barroco; o próprio autor declara: «quis usar de estilo comum e vulgar, que serve para todo o género de gente, e deixar muitas cousas que são das escolas e dos entendimentos nelas exercitados».
Sob este aspecto, preludia a melhor prosa dos autores religiosos seiscentistas que, apesar do arcaísmo ou ingenuidade da sua ideologia relativamente à mais evoluída cultura europeia, apresentam um progresso literário na medida em que, para se dirigirem a um público leitor mais largo, assimilam a disciplina gramatical e os recursos estilísticos clássicos ao uso das formas correntias do idioma. Mas está por averiguar a originalidade literária da obra: páginas inteiras e seguidas são, sem aviso ao leitor, transcritas ipsis verbis dos Panegíricos de João de Barros.
O que pode interessar neste livro é o testemunho de certa problemática típica da época. O Diálogo terceiro é uma extensa diatribe contra os Judeus, em que se lhes censura a consabida ânsia de lucro usurário. Pelo contrário, o Diálogo quarto faz a glorificação dos rasgos cavaleirescos e cristãos da história portuguesa, na qual o autor tanto admira a dilatação da fé de Cristo pela pregação como pela espada. A cobiça e usura, sobretudo da gente judaica, seriam os responsáveis pela decadência portuguesa, até mesmo (o que raia o absurdo) pelo desastre de Alcácer Quibir. Por outro lado, Arrais defende a subordinação do poder político aos preceitos da religião, dentro de uma tendência teocrática. Nestes moldes de nítido recorte sociopolítico se articula o regimento do bom Príncipe com que termina a primeira parte da obra, a mais concreta e significativa. Os diálogos que consideraremos como formando uma segunda parte da obra constituem um tratado moral, onde se dão, por exemplo, regras precisas sobre o testamento, a maneira de suportar a agonia, etc». In Quatro Escritores da Prosa Doutrinal Religiosa, Profs. A. J. Saraiva e Oscar Lopes
(Quatro Escritores da Prosa Doutrinal Religiosa)
FCGulbenkian/wikipédia/JDACT

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mariana Alcoforado: As suas cartas de amor são a paixão sublime não correspondida. Um facto que perdura no tempo e tem despertado interesse no mundo

(1640-1723)
Beja
Cortesia de macarrao2
Mariana Alcoforado nasceu na cidade de Beja e foi uma freira portuguesa do Convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja. É considerada a autora das cinco Lettres Portugaises (As Cartas Portuguesas) dirigidas a Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint-Léger, oficial francês que lutou em solo português sob as ordens de Frederico de Schomberg, durante a Guerra da Restauração.

Convento onde Mariana Alcoforado morava, hoje um museu regional
Cortesia wikipédia
Já no testamento materno Mariana fora nomeada monja do Convento da Conceição. Sem nenhuma inclinação mística, ela estava, pois, destinada à vida religiosa, sorte idêntica à de muitos homens e moças da época, encerrados em mosteiros por mera decisão paterna.

Cortesia de Roberto Macedo Alves
Os amores com Chamilly, a quem vira pela primeira vez do terraço do convento, de onde assistia às manobras do exército, deve ter ocorrido entre 1667 e 1668. Mariana pertencia à poderosa família dos Alcoforados, e o escândalo provavelmente alastrou-se. Temeroso das consequências, Chamilly saiu de Portugal, pretextando a enfermidade de um irmão. Prometera mandar buscá-la. Na sua espera, em vão, escreveu as referidas cartas, que contam uma história sempre igual:

  • esperança no início;

  • seguida de incerteza;

  • a convicção do abandono.
Esses relatos emocionados fizeram vibrar a nobreza de França, habituada ao convencionalismo. Além disso, levaram, para a frívola sociedade, o gosto acre do pecado e da dor, pois, ao virem a lume, divulgaram a informação de que as compusera uma freira.

Réplica da janela de onde Alcoforado falou com Chamilly
Cortesia de wikipédia
Seguiram-se as Respostas. Entretanto, todas as outras publicações são apócrifas. Rousseau, por achar as cartas belas demais para serem ideadas por uma mulher, negava-lhes a autenticidade, o mesmo sucedendo com Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco. Pelas boas obras e pelos sacrifícios com o tempo se reabilitou, Mariana chegou à posição de abadessa e morreu já idosa, aos oitenta e três anos de idade.
Na hipótese de não serem autênticas, ignora-se por que as Cartas, escritas em francês, possuem acentuados vestígios de sintaxe portuguesa. Especula-se que provêm de tradução literal de cartas escritas em português, ou então compostas por alguém que, conhecendo o idioma francês, não o dominava a ponto de redigi-lo com absoluta perfeição. E na biblioteca dos Alcoforados acharam-se inúmeros livros em francês, indício provável de que eles tinham conhecimento da língua e servido, ao menos para leitura.

«Estas cartas de amor são a sua paixão sublime não correspondida, que perdura no tempo e tem despertado o interesse de todo o mundo. Desde a edição princeps de Claude Barbin, datada de 4 de Janeiro de 1669, com o título de “Lettres Portugaises Traduites en François”, até hoje, sucederam-se centenas de edições em diferentes idiomas, poemas, peças de teatro, filmes, obras de interpretação plástica e musical. O Museu Regional de Beja conserva ainda a grande janela gradeada através da qual a religiosa viu tantas vezes passar aquele que a encantava e que num dia especial a destacou com o seu olhar e lhe fez sentir os primeiros efeitos da sua infeliz paixão». In Roberto Macedo Alves
Cortesia de wikipedia/Roberto Alves/JDACT

Infanta D. Maria: Uma Princesa solteira, embora bem revelada na brancura da sua pele e no azul celeste dos olhos

(1521-1577)
Cortesia de arqnet
Com a devida vénia para Portugal Dicionário Histórico.
A Infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel e de sua terceira mulher, D. Leonor, irmã de Carlos V, nasceu no Paço da Ribeira em Lisboa.
Perdeu o seu pai no dia 13 de Dezembro de 1521, tendo ela apenas dois meses de existência. Ausentando-se também sua mãe para Espanha, em 1523, deixando-a ainda no berço. Recebeu a primeira educação de D. Elvira de Mendonça, camareira-mor da rainha D. Leonor, sendo depois entregue aos cuidados de sua tia D. Catarina, irmã de sua mãe, quando chegou a Lisboa em 1524 para casar com o rei D. João III.
A Infanta D. Maria era dotada de rara inteligência e de excelente memória. Entre os seus professores, distinguiram-se a sua aia Luísa Sigeia, doutíssima senhora, natural de Toledo, que lhe ensinou letras humanas e a língua latina; sua irmã Ângela Sigeia com quem aprendeu a tocar alguns instrumentos, com especialidade os mais usados no culto divino como a harpa e o órgão, e Frei João Soares de Urró, da ordem dos eremitas de Santo Agostinho, depois bispo de Coimbra, que a iniciou nas divinas letras.

Quando completou 16 anos de idade, o rei, seu irmão, organizou-lhe casa própria e separada do paço real, composta de damas e fidalgos da mais selecta nobreza do reino, sendo tratada com grandeza igual à das rainhas, só com a diferença do título. A Infanta D. Maria, pelas amplíssimas heranças que lhe deixaram seu pai e sua mãe, foi a princesa mais rica que, abaixo das rainhas, houve no seu tempo na Europa. Foi senhora de grande número de cidades, vilas e outras terras, juros e jurisdições em França, Espanha e Portugal, e de riquíssimas jóias, baixelas, armações, e tapeçarias da rainha sua mãe. D. João III concedeu-lhe muitas mercês e privilégios, como consta de alguns documentos existentes no Arquivo Real, como seja:
  • uma carta com data de 26 de Janeiro de 1545, em que se lhe concedem de padrão de juro e herdade 5.000$000 reis, em virtude da contrato feito com o mesmo rei D. João III, que se acha inserto;
  • duas cartas, expedidas à mesma infanta, de privilégios, e jurisdição delas em data de 2 de Novembro do mesmo ano;
  • a 1.ª no Livro da Chancelaria do dito rei a fol. 25 e a 2.ª no Livro 43, fols. 9 verso, e 14 verso.
No seu paço particular criou a Infanta D. Maria uma verdadeira universidade de senhoras ilustres em todo o género de ciências e artes, de que foi especial protectora, pois não só se encontrava quem se desse à lição dos livros, e tocasse destramente diferentes instrumentos, mas quem com o pincel e com a agulha procurasse nos primores da pintura e lavor virtuosa emulação, e seguisse todos os outros louváveis exercícios, aos quais juntava com tal reverência e edificação a prática dos actos de piedade em todo o género de virtudes, pela direcção de Frei Francisco Foreiro, seu confessor, da ordem de S. Domingos, que parecia mais um mosteiro de religiosas reformado, do que paço real.

Pela fama da sua grande instrução e de muitas virtudes, alguns dos maiores príncipes da Europa a pretenderam para esposa, como foram:
  • o Delfim de França, filho de Francisco I;
  • o duque de Orleães, irmão do mesmo Delfim, a quem o imperador Carlos V prometera a investidura do ducado de Milão, ou do condado de Flandres. Não se efectuando nenhum destes casamentos, pelo falecimento destes príncipes antes deles se realizarem;
  • o príncipe Maximiliano filho do rei Fernando de Hungria, rei dos romanos, e depois imperador, enviou a Portugal um embaixador pedindo a mão da infanta;
  • Filipe II, rei de Espanha, apenas enviuvou da rainha Maria de Inglaterra, também a requestou.

D. João III
Cortesia de palma1
Dizem que a principal razão porque nenhum destes casamentos se realizou foi a pouca vontade de D. João III, porque naquele tempo os cofres reais achavam-se exaustos, e era dificultoso satisfazer à infanta D. Maria o muito que importava a sua legitima e o valor do dote, e arras da rainha D. Leonor, sua mãe, que tinha de levar consigo para quem casasse com a infanta. Diz-se que era possuidora de grande beleza, «bem revelada na brancura da sua pele e no azul celeste dos olhos». Muito culta, soube proteger as artes, graças à grande fortuna que a mãe lhe deixou. 
Conservou-se, portanto, a Infanta D. Maria sempre solteira, consagrando-se ao serviço de Deus. No ano de 1558, tendo já falecido D. João III, para satisfazer aos desejos de sua mãe, que desejava ansiosamente vê-la depois duma separação de 37 anos saiu de Lisboa acompanhada de grande número de fidalgos e de muitas damas suas e da rainha D. Catarina, sua tia, indo a Elvas e dali a Badajoz, onde a rainha D. Leonor veio encontrá-la, com sua irmã, a rainha de Hungria e muitos grandes de Espanha.
Em Badajoz demoraram-se 20 dias, realizando-se então muitas festas públicas. D. Leonor desejava ardentemente que sua filha não voltasse para Portugal, oferecendo-lhe todas as riquezas e estados que possuía, mas a infanta, lembrando-se do juramento que prestara de voltar ao reino, resistiu a todas as súplicas de sua mãe. D. Leonor ficou tão pesarosa que, poucos dias depois deste encontro, faleceu.

Igreja de Nossa Senhora da Luz
Cortesia de pbase
A infanta D. Maria continuou em religiosos exercícios. Edificou à sua custa, em 1575, a igreja e a capela-mor do convento de Nossa Senhora da Luz, da ordem de Cristo, situado no largo da Luz. (V. Portugal, este vol. pág. 596). Também fundou no lado fronteiro, um hospital, que se concluiu em 1618, já muito de pois do falecimento da infanta, e para o qual deixara avultados rendimentos.
Os seguintes conventos foram igualmente fundados pela infanta D. Maria:
  • Santa Helena do Calvário em Évora;
  • Nossa Senhora dos Anjos, de capuchos arrábidos, junto a Torres Vedras, em cuja vila também teve um palácio;
  • S. Bruno e o de Santo Cristo dos Milagres, de Santarém;
  • Deixou em testamento com que se edificasse um mosteiro para as comendadeiras da ordem de S. Bento de Avis, que se construiu em Lisboa com a invocação, que ela ordenara,
  • Nossa Senhora da Encarnação, que ainda hoje existe.
Fundou a igreja paroquial de Santa Engrácia, de Lisboa, e fez muitas obras piedosas noutras casas religiosas, como no convento da Graça, da ordem de Santo Agostinho, onde mandou construir uma capela dedicada a Nossa Senhora, cuja imagem foi primorosamente coberta de prata lavrada.

Igreja do Convento da Graça
Cortesia de Pedro Lopes
No mosteiro de S. Bento, que estava em construção, mandou fazer uma grande imagem deste santo, que foi colocada no altar-mor, adornando também a sua capela e a de outros altares. Por intervenção do embaixador de Portugal na Cúria Romana obteve uma relíquia do mesmo santo, que era uma parte da que existia no mosteiro de S. Paulo, de Roma.

Dispôs ainda em vida de muitas das suas riquezas, e no seu testamento, feito em 17 de Julho de 1577, determinou muitas obras de caridade por todo o reino, grandes socorros para pobres, viúvas, donzelas, órfãos, enfermos, remissão de cativos, muitas casas para abrigo dos peregrinos, dotes para casamentos de órfãs, etc.
Todos os anos vestia 9 mulheres no dia de Nossa Senhora da Encarnação, e outras tantas no dia da Natividade. Na sexta-feira de Paixão vestia 33 pobres. Determinou também muitos sufrágios anuais e muitas missas quotidianas. A seu sobrinho, o rei D. Sebastião deixou, além de outros legados, uma rica tapeçaria de panos de Tunis, que a infanta, em honra de seu tio, o imperador Carlos V, e do infante D. Luís, seu irmão mandara fazer a Flandres.
Não estando concluída ainda na ocasião do seu falecimento, a capela de Nossa Senhora da Luz, no convento deste título, que ela destinara para seu jazigo, mandou que a depositassem provisoriamente no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas, onde efectivamente foi depositado o seu corpo na casa do capítulo, junto ao da rainha D. Leonor, mulher de D. João II, celebrando-se exéquias com grande pompa, a que assistiram o rei D. Sebastião, o cardeal D. Henrique e toda a corte. Quase 20 anos depois, em 30 de Junho de 1597, por determinação de Filipe I, de Portugal, procedeu-se à trasladação do corpo da infanta D. Maria para o seu jazigo na igreja da Luz.
Cortesia de Manuel Amaral
«A Musa de Camões recua até ao séc. XVI, para a Lisboa de onde partem as caravelas que descobrem o mundo e chegam as especiarias que maravilham a Europa. No paço real vive a mais bela e rica princesa da cristandade: a Infanta D. Maria. Nas ruelas tortuosas aventura-se o mais talentoso poeta da época: Luís de Camões. Mas Lisboa não tem só encantos. A Infanta, invulgarmente culta e graciosa, retratada por pintores e cantada por poetas, vive asfixiada por uma corte que conspira para que não case nem leve o dote mais cobiçado da Europa. E Camões, invejado pelo talento único e odiado por maridos cujas mulheres cantou e encantou, é um desafortunado que até El Rei pretende exilar para longe. Um dia os seus olhares cruzam-se. Tão diferentes de nascimento e posição, as suas almas desencantadas parecem gémeas. Uma deseja atenção, a outra anseia por uma musa, ambas encontram o amor. Trazendo à vida uma época gloriosa e personagens fascinantes, Maria Helena Ventura conta- -nos a história de um amor único e impossível, que aos olhos da lei era crime e aos da Inquisição era pecado». In A Musa de Camões de Maria Helena Ventura
JDACT

Ana Sofia Varela: Uma voz bonita do Fado. A musicalidade alentejana (Serpa) permanece constante

Cortesia de cronicasdaterra



Jose Pinto Peixoto: Um génio. Capítulo V

Cortesia da Associação Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto

O Professor Doutor José Pinto Peixoto nasceu na Beira Interior a 8 de Novembro de 1922 e faleceu em Lisboa em 6 de Dezembro de 1996. Foi um dos mais destacados geofísicos e meteorologistas portugueses. Dos seus trabalhos destacam-se os estudos da circulação global da atmosfera e em particular do ciclo global da água na atmosfera. Em 1946 ingressou no Serviço Meteorológico Nacional, actualmente com a designação de Instituto de Meteorologia, I. P..
No Massachussets Institute of Technology (MIT) trabalhou com Victor Staar, Edward Lorenz, Barry Saltzman e Abraham Oort, cientistas de mérito reconhecido no estudo da circulação global da atmosfera. Esta colaboração com a equipa do MIT manteve-se desde 1956 e até ao momento da sua morte.
Os seus ensinamentos foram «aroma» para toda a minha vida profissional. Como homenagem para o amigo Professor JPP publico algumas «sebentas».

A colaboração com Abraham Oort está na origem do livro «Physics of Climate» (1992), considerado uma obra notável, sendo JPP aclamado como o mestre dos mestres da climatologia nacional. Foi um Professor convidado de universidades estrangeiras de mérito indiscutível e publicou uma vasta obra científica em revistas nacionais e estrangeiras. Foi Presidente da Academia das Ciências de Lisboa.

JDACT/com a colaboração de AA.
(Meteorologistas_Capítulo V)

Luís de Camões: Líricas, parte VI

Cortesia de portuguesferrol
Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

A Matemática: Parte IV. Proporcionalidade

Em cima, na imagem, encontram-se duas mãos, que representam a multiplicação de 9 por 4. Como é que isso se faz? Contar pelos dedos, hoje em dia já não é uma regra, o avanço tecnológico «não permite», dizem, tal atrevimento. No entanto, em «eras» referentes ao passado, por exemplo na Idade Média, na Universidade ensinava-se como efectuar, com os dedos, cálculos longos e por vezes complexos. Se as adições são perceptíveis e por isso mesmo, evidentes, já o mesmo não se pode dizer das multiplicações.
Vejamos, então, como se faz a multiplicação representada em cima que, curiosamente, era a mais fácil de todas, a multiplicação por nove: Enumeramos os dedos das duas mãos abertas, começando pelo dedo mindinho da mão esquerda. Dobramos o dedo correspondente ao número pelo qual queremos multiplicar nove (neste caso, n = 4). Deste modo, dobramos o dedo número quatro. Que obtemos? O valor 9 x 4. À esquerda do dedo dobrado há tantas dezenas quantos os dedos (neste caso 3 x 10 = 30) e à direita do mesmo dedo dobrado há tantas unidades quantos os dedos (neste caso 6). Que se faz agora? A seguinte adição: 30 + 6 = 36. De facto, 9 x 4 = 36.

Experimentem com outro qualquer dedo.

Com a colaboração do amigo Armando Araújo, um «notável» em Artes Gráficas, continuo a publicar algumas noções de Matemática.
(Proporcionalidade)
JDACT/Com a colaboração de AA

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Casa Museu José Régio: O ambiente em que viveu José Régio. Uma colecção de arte sacra, de arte popular e de artesanato

O Museu José Régio ou Casa-Museu José Régio em Portalegre está instalado na casa onde viveu o escritor José Régio durante 34 anos. É um museu simultaneamente biográfico e etnográfico, pois além de escritor, José Régio era um ávido coleccionador. José Régio é o pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, um professor, poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, fundador da revista literária Presença e colaborador da revista literária Seara Nova. Foi professor de Português no então Liceu Nacional de Portalegre (actual Escola Secundária Mouzinho da Silveira), de 1928 a 1967. Um dos seus poemas mais famosos é a Toada de Portalegre, no qual menciona a casa onde actualmente funciona o museu: «vivi numa casa velha, grande, tosca e bela à qual quis como se fosse feita para eu morar nela». In José Régio, Toada de Portalegre
Cortesia da CMPortalegre
No museu respira-se o ambiente em que viveu José Régio, portalegrense de adopção. O quarto e a sala de trabalho do poeta encontram-se tal e qual ele os deixou.

O edifício data dos finais do século XVII e terá sido um anexo do Convento de São Brás, do qual ainda existem alguns vestígios, nomeadamente da capela. Serviu como quartel-general aquando da Guerra Peninsular (vulgo invasões francesas) e muito mais tarde foi uma pensão. Quando José Régio se hospedou na pensão quando chegou a Portalegre, começando por alugar um quarto modesto, mas à medida que o tempo foi passando e as suas necessidades de espaço foram aumentando, foi ocupando mais quartos, acabando por se tornar o único hóspede.

Além das suas actividades literárias, José Régio foi um grande coleccionador, principalmente de arte sacra, arte popular e artesanato. Em 1965 vendeu as suas colecções à Câmara Municipal de Portalegre com a condição desta adquirir a casa, restaurá-la e transformá-la em museu, ficando ele com o usufruto até à sua morte. Tal não aconteceu, pois José Régio viria a falecer em 22 de Dezembro de 1969, enquanto que o museu só abriria a 23 de Maio de 1971.
Antes de morrer, o escritor voltou para a sua terra natal, Vila do Conde, onde também conseguiu abrir um museu na sua própria casa.

Cortesia da Casa Museu de José Régio em Vila do Conde
O espólio do museu resultou do gosto de José Régio pelas antiguidades e pelo coleccionismo que segundo diz, nasceu-lhe cedo por influência do seu avô, mas foi no Alentejo que se ampliou e desenvolveu. A região era fértil para essa actividade, e rapidamente se espalhou que havia um professor do liceu que comprava coisas velhas. Começou por ser um passatempo, mas depressa se transforma numa actividade regular, quase um vício.
Entre o vasto número de objectos destacam-se os de arte sacra, quer de origem conventual, quer de origem popular e o artesanato local de cariz simultaneamente utilitário e decorativo. Para além de algumas obras conventuais e um um oratório, juntou uma extensa colecção de Cristos nas mais diversas apresentações e representações, a maior parte em madeira, Santo Antónios, santos chatos (com as costas achatadas), os reis da casa de David (representação da ascendência de Jesus), barros de Portalegre e mobiliário rústico. Na sua quase totalidade, estas peças eram produzidas por mestres iletrados, mas com certo jeito natural e muito talento manual. Os Cristos faziam parte do enxoval das noivas, em tempos idos. Os barros de Portalegre são fortemente expressivos nas suas cores intensas e formas simultaneamente poderosas e graciosas, adequadas à intensidade sensitiva de quem vivia muito próximo da natureza.
Há também uma colecção assinalável de faianças, sobretudo pratos de Coimbra denominados «ratinhos», trazidos pelos migrantes sazonais que vinham do norte para fazer as ceifas no Alentejo, e que os trocavam por roupa e tecidos antes de voltarem a suas casas. O termo «ratinho» era o nome a esses migrantes pelos alentejanos, pois as suas silhuetas nos campos faziam lembrar ratos, por vestirem normalmente de cinzento e estarem constantemente curvados.

Cortesia da Casa Museu, os gatos de lareira (Fernando Galhano) e cadeiras
Aos locais adquiria os estanhos, os cobres, os ferros forjados, e outras curiosidades do artesanato alentejano, como marcadores de pão e bolos, chavões ou pintadeiras (para marcar o pão nos fornos comunitários), dedeiras ou canudos (protecção dos dedos dos ceifeiros) e trabalhos em chifre, como as cornas (recipientes para azeitonas) e os polvorinhos. Estes objectos eram principalmente obra de pastores, daí serem usualmente designados de "arte pastoril", e são apontados como representando a psicologia dos próprios autores — se tivessem à mão um pedaço de madeira, de cortiça, cana ou chifre, dele faziam surgir pintadeiras, dedeiras, polvorinhos (recipientes para pólvora), tarros e tarretas (recipientes em cortiça), com inscrições, datas e nomes.

Cortesia da Casa Museu
Retrato de José Régio, óleo sobre tela, de mestre Ventura Porfírio, 1958

De destacar ainda um quadro de um amigo de Régio, Ventura Porfírio, em que o poeta aparece retratado no seu escritório, outro quadro que representa Portalegre no fim do século XIX e uma extensa colecção de almofarizes. O museu tem duas cozinhas. Uma delas tem exposta a colecção de pratos "ratinhos" e peças em ferro, como suportes dos espetos. O ferro forjado foi bastante utilizado para as formas dos mesmos suportes (nas cozinhas) e para a decoração de portas e janelas, aliando a arte à funcionalidade. Na outra cozinha estão os trabalhos pastoris.
Além do espólio descrito, a Casa-Museu possui um variado acervo literário dividido entre a própria casa, as reservas e o centro de estudos.
Devido à falta de espaço, nem todas as peças estão expostas, nomeadamente as colecções de numismática e medalhística, e parte das colecções de escultura, faiança, trabalhos pastoris, ferros forjados e registos. As colecções expostas estão distribuídas por 17 salas de exposição permanente e por uma sala de reservas, ocupando os dois pisos do edifício.

No pf dia 31 de Maio, o Serviço Educativo do Centro de Artes do Espectáculo associa-se às Comemorações dos 80 anos da chegada de José Régio a Portalegre. A vida e Obra de José Régio.
Cortesia de wikipédia/CMPortalegre/JDACT

Navio-Escola SAGRES: A 3ª Viagem de Circum-Navegação. Acapulco, México, de 22 a 27 de Maio

Cortesia da Marinha Portuguesa
12MAI2010 - 114º Dia – Guayaquil!

A navegação continuou ao longo do dia 3 de Maio sobre a influência de uns Alíseos fracos de SE. Aproveitámos para navegar a motor de forma a ir baixando a média necessária para cumprir o ETA a Guayaquil. Fizemos um treino de homem ao mar ao final da manhã, após os serviços. Como correu bem, não foi preciso repetir. Há um sem número de pequenas falhas que podem ocorrer, desde a protecção individual de cada um dos intervenientes na manobra de recolha até à rapidez com que se retira o homem da água e se entrega à equipa médica. Fazemos diariamente briefings para que cada um cumpra com a sua parte e, sempre que possível, fazemos um treino a sério com o nosso Óscar - um boneco que temos para o efeito. Havia um certo stress futebolístico entre os pró e os anti-Benfica pois ambos pressentiam ainda alguma hipótese de sucesso nos seus desejos relativamente ao campeonato. Íamos estar atracados durante os jogos em que tudo se decidiria e esperávamos conseguir vê-los de alguma forma.
Posição actual do Navio-Escola
Acapulco, México
Cortesia da Marinha Portuguesa
Há apostas interessantes de Sportinguintas e Portistas. Antevendo a ordem natural das coisas os “anti” propunham-se pagar uma garrafa do melhor néctar da barca se o Braga fosse campeão. Não tiveram o gosto de pagar, foi no entanto uma boa forma de cultivar a sã rivalidade. Para além disto discutiam-se os resultados do torneio espontâneo que se realizou na Base Naval de Callao e as peripécias do porto acabado de visitar. Havia junto ao navio quatro campos de futebol que eram invariavelmente ocupados pela guarnição após a concessão de licenças. Muitos aproveitaram também o espaço para umas corridinhas. No dia 4, após verificação de que a média rondava os 5 nós e com um vento nos 10 a 15 nós de popa, parámos a máquina e caçámos todo o pano. O efeito de brisas e Sulada, em conjunto com os Alíseos, tem feito variar a nossa velocidade entre os 3 e os 9 nós. A Sulada é equivalente à nossa Nortada. O Sol aquece a massa continental, provoca uma depressão térmica e a circulação atmosférica correspondente, no sentido dos ponteiros do relógio, reforça o vento na componente Sul.
O Planeamento
Cortesia da Marinha Portuguesa
Esta seria uma boa explicação, não fora o facto de estarmos tão perto do equador e o efeito de Curiollis ser quase inexistente. O que parece estar a passar-se é que o vale depressionário que existe ao longo da costa se cava mais com a baixa térmica em terra, aumentando o gradiente de pressão e, com ele o vento. É esta baixa latitude que inibe o efeito de Curiollis que nos protege dos Ciclones Tropicais. O Curiollis é responsável por inúmeras coisas a que não ligamos mas que têm a sua importância. Tudo o que se desloca sobre a terra tem tendência a sofrer uma força para a direita no hemisfério Norte e para a esquerda cá no Sul. Os sedimentos dos rios deslocam-se para as margens direitas a N e para as esquerdas a S. O Tejo e o Douro têm praias nas suas margens direitas e margens profundas nas esquerdas. Os ciclones tropicais rodam no sentido horário no Sul e ao contrário no Norte. Navegámos calmamente, sem o ruído do motor e com um balanço muito fraco pois já quase não se sente o mar de fora. À tarde apareceram três baleias piloto que nos acompanharam durante alguns minutos. Já houve quem aproveitasse o Sol envergonhado e fizesse um pouco de praia. Apesar de a latitude estar já abaixo dos 5º, a corrente Sul de Humbolt mantém o controlo do clima e temos o ar e a água do mar a apenas 20ºC. Os dias por cá têm 12 horas de luz e outras tantas de escuridão. As noites têm sido escuras até ao nascer da lua que tem sido a meio da noite. No dia 3 à hora de jantar, o mar foi invadido por centenas de pequenas embarcações de pesca que nos passaram tangentes na noite escura enquanto pescavam à nossa volta com movimentos sinuosos.



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Imagens de Guayaquil
Cortesia da Marinha Portuguesa
Não conseguimos identificar o tipo de arte de pesca. Bastava apontar uma luz a uma ou outra que se aproximava excessivamente e ela desviava-se apontando também uma luz a mostrar que nos estava a ver. A nossa excêntrica cumpriu um programa que lhe preparámos para que a sua experiência fosse mais completa e fez nessa noite o quarto da alva, i.e., das 04:00 às 08:00. Depois subiu ao Traquete e apreciou o espectáculo das velas a empurrar o navio sem o ruído do motor. Fundeámos no dia 6 logo pela manhã na foz do Rio Guayaquil aproveitando para fazer as beneficiações necessárias para a estadia no porto. Aproveitámos também para colocar a Baleeira do Comandante na água, aparelhada para navegar à vela. Temos duas iguais, o que permite fazer competições do tipo match racing mas este ano ainda não tínhamos tido oportunidade de as utilizar. Jogando com o vento fraco e a corrente de maré, fomos até ao Gloria de manhã e até ao Simón Bolivar e ao Cuahutemoc durante a tarde. Os três navios maiores, os gémeos Esmeralda e JS Elcano, e o Libertad avançaram nessa manhã para o porto de águas profundas, mais afastado do centro de Guayaquil. Aproveitando o facto de estar um grupo de 6 navios juntos, o Comandante do Guayas convidou os restantes Comandantes e Navegadores para almoçar. Quando lá chegámos percebemos que o almoço era em nossa honra, a primeira de várias simpáticas manifestações de despedida e gestos de amizade com que fomos brindados nesta nossa estadia. Entretanto avisaram-nos que o Capitão do Porto de Bolívar, o mais próximo daquele fundeadouro, nos convidava para jantar. Navegámos 15 milhas nas velozes lanchas que nos foram buscar e, ao chegar a terra, fomos levados para um local onde estava o Governador, o Comité organizador do evento “Guayaquil a toda Vela”, vários jornalistas e patrões de alto mar. Até Pierina Correa Delgado, a irmã do Presidente da Republica estava presente. Aquilo que pensamos que ia ser um jantar descontraído afinal era uma conferência de imprensa de apresentação do evento, com muitos discursos, uma tapas e muita bebida que recusámos por ser tarde e a nossa subida do rio Guayas começar logo às 5 da manhã.
Assim que nos pareceu menos indelicado, solicitámos o regresso a bordo onde chegámos à meia-noite. Madrugámos e navegámos rio acima até ao local onde prestaríamos honras ao Presidente da Republica, embarcado numa fragata. O Rio tem apenas três locais que inspiram maiores cuidados e que nos obrigaram a escolher uma janela de maré para passar com altura de água suficiente. Percorremos 60 milhas de margens com mangais altos e algumas aldeias de pescadores a espaços com casas lacustres. O rio Guayas, o maior rio a desaguar no Pacífico, é um rio de cor barrenta, com muita vegetação e alguns troncos a flutuar, em tudo semelhante ao que nos é dado a conhecer do Amazonas. A moldura humana nas margens começou a fazer-se sentir na aproximação final à cidade. Havia várias bandeiras de Portugal devido às várias empresas de pesca de arrasto de camarão por que passámos, maioritariamente pertencentes a Portugueses que aqui se instalaram nos anos 50 e que fizeram fortuna na pesca, constituindo-se como uma comunidade com um nível de vida relativamente alto. Às 13 horas, prestámos as devidas honras com os Vivas ao Presidente. Com os navios da frente a parar para inverter o rumo no estreito rio, criou-se um stressante harmónio para os pilotos embarcados mas tudo se resolveu sem problemas e seguimos para o nosso cais que se situava 5 km a Sul do centro. A cidade tem uma marginal espectacular chamada Malecón 2000, construída com dádivas da população, onde se situa o cais permanente do navio da casa, o Guayas. A nossa atracação não foi fácil porque havia várias pessoas da organização a ditar diferentes ordenamentos dos navios no cais e bordo de atracação. A isto somou-se a dificuldade acrescida de o cais ser pequeno para os três navios para lá escalados: O Europa, a Sagres e o Glória. Como a maré estava prestes a virar decidimos cumprir com o que ficou acordado na reunião de largada do último porto. Terminámos a manobra às 15.00 e pouco depois já íamos a caminho da cidade numa viatura com condutor, segurança e oficial de ligação, e com dois batedores de mota a abrir caminho no trânsito da cidade. Seria sempre assim. Em todas as nossas deslocações diurnas tínhamos os nossos batedores. Apresentámos cumprimentos ao Comandante Geral da Marinha às 16:00 no Clube Naval e meia hora depois ao Governador, outra meia hora e fomos ao Prefeito e depois ainda ao Alcalde que terminaram com uma Conferência de Imprensa. Sempre com jornalistas a cobrir os eventos e com muitos discursos em que o do Presidente do Comité Organizador foi um denominador comum. No total dos 4 dias ouvimos 7 discursos seus. Ainda houve um lançamento filatélico alusivo ao evento em que cada navio figura na colecção. Neste porto não foi possível juntar as entidades todas num só local para abreviar a apresentação de cumprimentos e troca de lembranças porque estávamos em presença de várias cores partidárias que não quiseram perder o seu protagonismo. A noite terminou com uma festa de guarnições no Malecon 2000. O segundo dia no porto começou com a deposição de coroas de flores na “Columna de los Próceres”, uma coluna de mármore e bronze, muito trabalhada, inaugurada em 1918 para celebrar as pessoas que contribuíram para os movimentos independentistas de 9 de Outubro de 1820. Andemos um pouco para trás. Este território, tal como o do Peru, também foi habitado por culturas com um assinalável nível de desenvolvimento desde há mais de 9000 anos. Os Incas, que se começaram a expandir em 1450 e ocuparam esta zona cerca de 50 anos depois, foram o povo que os primeiros espanhóis a chegar encontraram em 1526. Pizzarro chegaria em 1532, poucos dias após a capitulação de uma das facções da guerra de sucessão do Imperador inca Huayna Capac e espalharia o terror que levou à derrota destes que a venderem caro ao incendiarem a cidade de Quito. O colonialismo espanhol instalou-se em 1532 sob o governo de Lima, Peru e, em 1739 passou para o vice-reinado da Colômbia. O trabalho, essencialmente agrícola e com gado levou ao florescimento de uma classe média crioula que começa a tentar tornar o pais independente de Espanha. Crioulos e espanhóis desagradados com a usurpação do poder em Espanha na sequência da invasão de Napoleão que o entrega a um seu irmão, organizam Juntas fiéis ao Rei deposto. Após várias peripécias, em 10 de Agosto de 1810 estabelecem a primeira Junta Nacional em Quito, um governo com autodeterminação, embora sob a presidência do representante da coroa. Em Outubro de 1820 a junta patriótica existente em da região de Guayaquil proclama a independência de qualquer poder espanhol. A independência do país foi ganha em 1822 com a ajuda do libertador venezuelano Simón Bolivar atacando por Norte e o argentino San Martin atacando por Sul, que se encontraram precisamente em Guayaquil. Bolívar criou a Grande Colômbia, composta pela actual Venezuela, Colômbia e Equador, e tinha o sonho de unificar a América do Sul mas ao fim de 8 anos o Equador saiu e pouco depois os outros dois países também se separaram. Saímos da Praça da Independência e desfilámos, os Comandantes e as autoridades, acompanhados por uma banda, até ao monumento a Bolívar e San Martin que celebra o abraço entre os dois Generais. Aí tirámos a foto de Comandantes e seguimos para o tradicional desfile de tripulações. As ruas estavam repletas de assistentes. Seguiu-se o almoço a bordo da Sagres com a presença dos Comandantes para uma despedida mais formal, troca de contactos e lembranças e acerto de pormenores sobre possíveis encontros futuros para recordar a experiência que vivemos juntos e que nos marcará para sempre. Quem assistia à chegada dos convivas pensaria estarmos perante uma cerimónia de altíssimo nível por estes chegarem com os tais batedores e seguranças. Nessa tarde ainda recebemos a bordo o Comandante Geral da Marinha que fez questão de nos visitar e agradecer a presença da Sagres em representação de Portugal neste que é o maior evento comemorativo do bicentenário da Junta Nacional ao qual todas as autoridades e entidades estão a dar a maior atenção. Jantámos no distintíssimo Club de la Unión com a mais alta sociedade, autoridades e entidades locais, enquanto no Clube Naval decorria uma festa para Oficiais e Alunos. O Domingo iniciou-se com um pequeno-almoço oferecido pelo Comandante ao Cônsul de Portugal e um conjunto de convidadas da comunidade portuguesa. Era o Dia da Mãe e as senhoras ficaram encantadas quando lhes oferecemos para recordação o poster autografado do navio e o CD do concerto da fadista Marisa ao Vivo em Lisboa. Seguiu-se um Campeonato de Futebol entre tripulações. Mas ao meio dia o navio estava em polvorosa pois iniciavam-se os jogos que iriam decidir a Iª Liga que fomos acompanhando via rádio e através dos sites desportivos da internet. Obtido o melhor resultado para a maioria da guarnição, aproveitámos para ir conhecer um pouco da cidade. O Malecon 2000, o Palácio Municipal, o antigo bairro Las Peñas, zona dos artistas, com casas de mais de 400 anos, os parques com Iguanas e Árvores enormes, a Catedral, o Mercado de Artesanato, o Museu Marítimo e o Cerro de Santa Ana com o seu farol e capela. À noite, participámos no “Festival de la Noche Gastronómica Ecuatoriana”, oferecido no Centro Cultural Simón Bolivar a grande parte das tripulações, com fogos de artifício e com a actuação da cantora Beatriz Gil Parra que deu um óptimo espectáculo, e outros artistas, assim como uma breve peça de teatro sobre aludindo a Bolívar. Como o próximo porto é Cartagena das Índias, na Colômbia, fizemos a reunião de preparação da largada e apresentação do porto seguinte a bordo do Glória. Esta foi precedida de um pequeno-almoço de Comandantes para mais uma despedida em que fomos todos presenteados com uma típica balalaica colombiana e nos fizemos fotografar com ela. Ao longo destes meses os nossos amigos colombianos insistiram muito para que fossemos a Cartagena, diz-se que será o melhor porto do evento. No entanto, contrariamente às outras duas voltas ao Mundo da Sagres, não praticaremos o Canal do Panamá. Não se pode ter o melhor de dois mundos, a nossa rota está traçada. Almoçámos no Parque Histórico de Guayaquil situado na moderna cidade de Samborondón, na margem oposta do Guayas. A convite do Alcalde local, visitámos um esplêndido parque e assistimos a um espectáculo de música e danças locais. À tarde ainda houve tempo para uma rápida compra de souvenirs e à noite veio a maior das surpresas. Uma recepção da Casa de Portugal que reuniu a maioria dos portugueses e os seus jovens descendentes e respectivos amigos. De repente estávamos nos jardins de uma bonita e grande casa envolvidos num ambiente jovem com artistas convidados e com os saudosos portugueses ávidos de uma foto e dois dedos de conversa. Levámos uma salada de bacalhau e pastéis de nata por sabermos as dificuldades locais em encontrar aqueles acepipes. Havia muito camarão, não fosse a pesca do arrasto desta iguaria a principal actividade dos portugueses no Equador que a chegaram a colocar no segundo lugar das exportações. A filha do Engº António Marques Firmino, Cônsul Honorário de Portugal, foi Miss Equador em 2005 e tem uma empresa de organização de eventos que se esmerou e conseguiu uma festa como temos tido poucas. Cantou-se fado, tocou-se música e dançou-se muito. Esta foi mais uma confirmação da experiencia que temos tido de que as pequenas comunidades portuguesas podem ser muito acolhedoras. Para o final da manhã de ontem, Dia da Largada, estava prevista a visita do Presidente da Republica do Equador, Rafael Correa, que já tinha estado marcada duas vezes e foi sempre cancelada. Desta vez disseram-nos que viria ao cais mas que só visitaria o navio colombiano. Considerámos que tal seria inaceitável para um navio do Estado Português e exigimos uma explicação aos organizadores do evento. Resultou pois o Presidente Correa chegou ao cais e dirigiu-se logo à Sagres onde cumprimentou os portugueses que estavam a bordo para uma visita privada da comunidade e, numa conversa muito animada, comentou o quase incidente de não nos visitar e a importância que Portugal tem para o Equador. Agradeceu a nossa presença e elogiou-nos como os melhores marinheiros de sempre, falou da recente passagem pela Cimeira Ibero-americana do Estoril e anunciou, perante os jornalistas que o acompanhavam, que vai colocar uma Embaixada em Lisboa. Oferecemos-lhe uma garrafa de Vinho da Madeira por ser esta a zona de proveniência da maioria da comunidade lusa, uma réplica de um astrolábio para navegar nos tempestuosos mares da política e um CD da Marisa que reconheceu da actuação em Belém durante a cimeira. O Presidente Correa é alinhado com o Presidente Hugo Chaves e as relações com a Colômbia não têm sido as melhores. Daí a importância da sua visita ao navio colombiano, sendo uma demonstração de boa vontade para a melhoria das relações. O Equador é um país rico em petróleo, produtos agrícolas e produtos do mar. As suas bananas, café e cacau são exportadas para todo o mundo e a actividade turística, em que o arquipélago das Galápagos é o ex-líbris, está muito desenvolvida. De facto no Equador, em termos de orografia e paisagem existem os apelidados quatro mundos, para além das Galápagos, há a zona costeira com boas praias, alta montanha dos Andes e, no interior, a Floresta Amazónica. Esta designação que demarca quatro zonas completamente distintas também se aplica à gastronomia, bem rica por sinal. Há ainda um grande número de pobres a que não é alheia a antiga governação do país, as lutas internas entre os conservadores de Quito e os liberais de Guayaquil, e as guerras com o Peru que tiveram mais um ponto alto em 1995 e com quem ainda há fronteiras em disputa. Após uma grave crise financeira, o Sucre, que se tinha desvalorizado mais de 500%, foi substituído pelo dólar americano, moeda oficial do país. Apesar de tudo, a cidade pareceu-nos a mais organizada e o povo o mais feliz e mais simpático dos últimos portos visitados. É o clima tropical! Largámos às 14:30. À vela, aproveitando o facto de o vento estar do lado do cais e a corrente ser contrária. Uma manobra simples mas muito apreciada pelo publico em geral, mas de cardápio para os poucos que sabiam de vela e a compreenderam. Tínhamos o Glória a 3 metros da popa e caçámos primeiro pano latino avante para ir abrindo de proa até a corrente começar a entrar pela amura de dentro. Depois caçámos gáveas baixas e papa-figos para vencer a corrente, folgando a amarração que dizia para ré e, quando a amarração que dizia para vante começou a folgar foi o sinal de que já tínhamos andamento para não descair com a corrente. Continuámos a folgar tudo até largar completamente tocando a sereia e acenando com a mão gigante. Pouco depois metemos máquina para avançar mais rapidamente rio abaixo tendo chegado ao pacífico às 22:00. Ainda no rio, após terminada a faina de largada, realizou-se uma cerimónia há muito prometida. Convocaram-se os benfiquistas para o convés, com os seus respectivos cachecóis e içou-se a respectiva bandeira ao som do hino. Apareceram também cachecóis de outras cores –azuis-, e cantou-se o hino em sã camaradagem. Esta manhã já realizámos o nosso último desfile naval, em Salinas, a todo o pano porque temos tempo para chegar a Acapulco. Os nossos companheiros dos últimos três meses despediram-se no rádio. Houve tiros de salva do navio Argentino que fez questão de se aproximar, muitos toques de sereia e muita nostalgia. Na Sagres terminámos um ciclo desta viagem. Muito cansativo mas muito gratificante pelas amizades, pela troca de experiencias, pelo que nos é permitido aprender uns com os outros e respeito granjeado. Esta nostalgia, agravada pelo facto de largarmos de um porto onde também fomos muito bem recebidos e pelo facto de já estarmos há 114 dias fora de casa faz com que precisemos rapidamente de uma dose de adrenalina. O clima já é tropical e vamos recuperar as nossas competições de Futeconvés. Amanhã passamos a Linha do Equador, desta vez sem as pesadas penalizações do Rei Neptuno, e estaremos de volta ao Hemisfério Norte. É dia 12 de Maio e o Papa Bento XVI está em Portugal. A bordo, uma boa parte da guarnição organizou uma “Procissão das Velas” com a nossa Virgem del Rozário de Pozo de que já aqui falámos. À meia-noite, num lindo andor percorreu o navio todo, pelos exteriores e interiores enquanto nos altifalantes se ouviam cânticos. Um momento de paz e introspecção único, a navegar à vela, com todo o pano e apenas a 50 milhas da linha que junta os dois hemisférios. Chegamos a Acapulco - México no dia 22! Até breve! In Diário de Bordo, Pedro Proença Mendes, Cte do NRP SAGRES

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