terça-feira, 26 de novembro de 2013

Duas Irmãs para um Rei. Isabel de Castela e Maria de Castela. Isabel Guimarães Sá. «Bernáldez escreveu uma crónica do duplo reinado, de título: Historia de los Reys Católicos don Fernando y doña Isabel. Esta, ‘apesar de algumas observações mordazes no que respeita a Portugal e aos seus protagonistas, que podem ser verdadeiras’, peca por trocar nomes e datas…»



Isabel, a Católica/jdact

As Fontes. Vários cronistas espanhóis e também alguns italianos
«(…) Com Afonso Palencia (1423-1492) estamos perante um humanista de grandes estudos, e uma longa permanência em Itália, Florença e depois Roma. Como tantos outros homens de letras do seu tempo, era um converso, ou seja, procedia de uma família judia convertida ao cristianismo. Cresceu e foi educado em casa do antigo rabi de Burgos, Pablo de Santa María, também converso, então bispo da cidade. Foi secretário latinista de Henrique IV, mas em 1468 declarou-se a favor do rival deste, Afonso, irmão de Isabel, a Católica. Tornou-se cronista oficial desta última, cargo que exerceu entre 1475 e 1480, ano em que, segundo o seu próprio testemunho, foi destituído pela rainha. Ao contrário de quase todos os outros cronistas, não se coibia de criticar Isabel, a Católica. Continuou a trabalhar até à morte depois de ser exonerado na sua obra monumental, as Décadas em que narra os acontecimentos desde finais do reinado de João II de Castela até ao ano de 1481. A sua crónica é importante para a história de Portugal pelos episódios relativos à guerra de sucessão espanhola, sobretudo as hostilidades compreendidas entre a Batalha de Toro (1476) e os tratados de paz de Alcáçovas-Toledo (1479); é também uma das raras vozes dissonantes em relação a Isabel I que podemos encontrar na cronística do período.
Fernando del Pulgar (1436-c. 1492), por sua vez, é um dos cronistas mais conhecidos do reinado de Isabel e Fernando. Nascido em pleno coração de Castel a, na terra do mesmo nome, perto de Toledo, foi conselheiro de Isabel, a Católica, e nomeado cronista real em 1482, em substituição de Afonso Palencia. A rainha tê-lo-ia visto como um cronista mais adequado à nova etapa de consolidação do poder, em que era preciso sanar as feridas da guerra e não continuar a denegrir Henrique IV e os seus partidários, conforme Palencia vinha fazendo na sua crónica. Como este último, Pulgar também tinha origem judaica, sendo um converso como tantos outros altos funcionários da corte nesta época. Embora um autor de propaganda régia, presenciou muitos dos acontecimentos narrados, e a sua crónica é uma das mais citadas na historiografia. António Nebrija traduziu para latim e publicou a primeira edição da Cronica de los Reys Católicos em seu nome, tal como a versão em castelhano de 1565. Pulgar só surgiu como verdadeiro autor na edição de 1567. O lugar de Pulgar como cronista oficial foi ocupado em seguida por Alonso Santa Cruz (c. 1505-1567).Cartógrafo, historiador e professor, escreveu uma obra com o mesmo título do seu antecessor: Cronica de los Reys Catolicos. Fê-lo muito depois de as suas principais personagens estarem mortas: Isabel morreu um ano antes de ele nascer e Fernando faleceu em 1516.
Outro cronista importante é Andrés Bernáldez (c. 1450-1513), um homem da Igreja, também conhecido por cura de Los Palacios, paróquia da região de Sevilha onde exercia o seu ministério. Ao contrário de outros cronistas como Pulgar ou Palencia, era cristão-velho e hostil aos conversos. Foi capelão de Diego Deza, o homem que tinha a seu cargo a educação do príncipe Juan, herdeiro do trono espanhol; Deza ficou conhecido também por ser amigo de Cristóvão Colombo, e um dos intermediários deste junto dos Reis Católicos. Bernáldez escreveu uma crónica do duplo reinado, de título idêntico às que já referi: Historia de los Reys Católicos don Fernando y doña Isabel, sempre no tom laudatório que se esperava de um cronista. Esta, no entanto, apesar de algumas observações mordazes no que respeita a Portugal e aos seus protagonistas, que podem ser verdadeiras, peca por trocar nomes e datas com demasiada frequência. Tal como muitos dos seus congéneres, presenciou algumas das coisas que relata, ou ouviu falar delas através de informações em primeira mão.
Lorenzo Galíndez Carvajal (1472-1525) era jurista, e foi catedrático em Salamanca, tendo passado ao conselho dos Reis Católicos, que lhe haveriam de encomendar uma compilação de leis e pragmáticas reais, hoje perdida. A carreira deste homem ilustra muito bem o cuidado com que os Reis Católicos orquestraram a escrita da história que lhes dizia respeito: foi encarregado de emendar e corrigir as muitas e por vezes contraditórias crónicas do reinado de Fernando, o Católico, e seus antecessores, afirmando-se como censor e juiz, da cronística referente à Casa de Trastâmara. Pelo lado aragonês, temos outro cronista célebre, Jerónimo Zurita (1512-1580), nomeado cronista-mor de Aragão em 1548. Escreveu a Historia del Rey don Fernando el Católico. De las empresas y ligas de Italia e os Anales de la Corona de Aragón, publicados entre 1562 e 1580. Embora não seja contemporâneo dos tempos que narramos, é um historiador na acepção moderna do termo, porque conhecia bem os arquivos e as obras dos outros cronistas». In Isabel Guimarães Sá, Rainhas Consortes de D. Manuel I, Isabel de Castela, Maria de Castela e Leonor de Áustria, C. de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4710-6.

Cortesia de CL/JDACT

Duas Irmãs para um Rei. Isabel de Castela e Maria de Castela. Isabel Guimarães Sá. «Os cronistas mais próximos de Isabel, Juan de Flores, Mosén Diego Valera, Fernando del Pulgar e Andrés Bérnaldez, escreveram em castelhano e não em latim, o que denota o cuidado de chegar a um público…»

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As Fontes. Vários cronistas espanhóis e também alguns italianos
«(…) Apresentemos em primeiro lugar a dinastia régia da qual provinham as nossas duas rainhas de Portugal: os Trastâmaras. Em comum com a de Avis, portuguesa, uma origem ilegítima, porque começada num bastardo de Afonso XI de Castela, Henrique II, que chegou ao trono em 1369 depois de uma luta fratricida com o meio-irmão Pedro, que matou. Um ramo da família ocuparia o trono de Aragão em 1412, e o ponto máximo da dinasú seria o ano de 1469, em que as duas linhas se uniriam através do casamento de Isabel, a Católica, com Fernando de Aragão. Mas, hélas, este seria o último Trastâmara, uma vez que a herdeira do trono, Joana de Castela e Aragão, era casada com um Habsburgo (ou Áustria) e a sucessão passou para o filho mais velho do casal, o nosso bem conhecido Carlos V assim mudando a casa reinante no trono de Espanha. A historiografia recente tem-se debruçado sobre o papel político desempenhado pelos cronistas, ressaltando o seu enfeudamento aos propósitos dos seus amos. Ana Isabel Carrasco Manchado analisou-os enquanto agentes de propaganda régia ao longo dos anos iniciais do reinado de Isabel, a Católica (1474-1482), que ascendera ao trono de forma questionável, e o assegurara depois de uma guerra civil. Richard Kagan, por seu turno, incidiu sobre todos os cronistas das coroas que entretanto incorporaram a moderna Espanha, muito embora focando sobretudo os que trabalharam de Carlos V em diante. Estes estudos confirmam o que já tínhamos intuído: que nenhum dos cronistas escreveu de forma neutra (se é que semelhante coisa existe), e que muitas vezes omitem ou distorcem os acontecimentos de forma a cumprir objectivos políticos. Dessa forma, a fiabilidade das crónicas é relativa, e todo o cuidado é pouco quando são consultadas. Mas uma vez mais, não posso ter a pretensão de ter passado as afirmações dos cronistas por um crivo rigoroso. A maior parte das vezes limito-me a acreditar neles, sobretudo quando não detecto razões óbvias para mentirem. Um trabalho seguro teria de ter tido um prazo de execução mais dilatado. Outro escolho me esperava na leitura dos cronistas espanhóis: o seu elevado número, quando comparados com os disponíveis para Portugal neste período. Foi-me impossível conhecê-los a todos com a profundidade que teria desejado; sobretudo, detectar repetições ou diferenças narrativas substanciais entre eles. À semelhança dos cronistas portugueses, notará que os seus homólogos espanhóis, conheciam os reis de perto, acompanhando a sua corte itinerante pelas vastidões dos reinos de Castela e Aragão. Poucos escreveram sem essa experiência directa dos acontecimentos, e, talvez com a excepção de Jerónimo Zurita, cronista da Coroa de Aragão, não fizeram intensas consultas documentais. Eram gente que partilhava emoções, sentimentos e interesses com a corte dos dois reis, e que presenciara de perto os acontecimentos, ou ouvira narrativas destes, mexericos e até boatos. Informação e contrainformação fervilham nestas crónicas, e deambulei por elas como por labirintos traiçoeiros. Mas passemos agora a apresentá-los.
Os cronistas mais próximos de Isabel, Juan de Flores, Mosén Diego Valera, Fernando del Pulgar e Andrés Bérnaldez, escreveram em castelhano e não em latim, o que denota o cuidado de chegar a um público tão vasto quanto possível. Comecemos pelo mais velho de todos eles: Mosén Diego Valera (1412-1488), que escreveu, entre outras obras, a Crónica de los Reys Católicos, que abarca os anos entre 1474 e 1488, e narra as guerras contra Portugal e Granada. O autor lutou na Batalha de Toro e desempenhou cargos importantes ao longo dos reinados de João II de Castela, Henrique IV e dos Reis Católicos. Viajou por toda a Europa em missões diplomáticas, incluindo a Dinamarca, Inglaterra, Borgonha e França. Viveu em ambientes variados e presenciou acontecimentos importantes ao longo da vida, que, para Isabel del Val Valdivieso, lhe conferiram um ponto de vista privilegiado sobre os acontecimentos narrados». In Isabel Guimarães Sá, Rainhas Consortes de D. Manuel I, Isabel de Castela, Maria de Castela e Leonor de Áustria, C. de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4710-6.

Cortesia de CL/JDACT

Transição de Macau para a Modernidade. 1841-1853. Maria T. Lopes Silva. «[...] a medição dos navios ou por outra o direito de ancoragem que lhes pertence e a pouca decente dependência em que se está e sempre se esteve dos Mandarins»

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Macau na conjuntura político-económica de Extremo Oriente, 1841-1844
Da guerra do ópio ao Tratado de Nanquim. Macau, uma cidade disputada por três impérios
«(…) De facto, o superintendente britânico na China, Charles Elliot, pediu várias vezes ao longo do conflito ao governador de Macau que concedesse aos ingleses licença para residirem na cidade e fazerem a partir daí as suas transacções comerciais. O governador Adrião Acácio Silveira Pinto, conhecedor da fragilidade do poder da Coroa portuguesa em Macau, não quis descontentar nenhum dos beligerantes e acabou por consentir inicialmente proteger as vidas e propriedades dos súbditos britânicos, [...] menos no que diz respeito à contravenção das Leis do Imperador da China sobre o ilegal tráfico do Ópio. Elliot, satisfeito com a resposta, pensou logo em levar mais longe as suas pretensões e, por isso, apressou-se a pôr à disposição de Silveira Pinto o dinheiro do tesouro britânico, que ele considerasse necessário, para levar a cabo a defesa de Macau e da Taipa, tanto pelo lado marítimo como terrestre. Ao que parece, o governador de Macau deve ter percebido as segundas intenções do superintendente inglês e recusou a proposta. Perante a insistência dos ingleses, Silveira Pinto comunicou-lhes então que estava na disposição de manter a mais severa e restrita neutralidade enquanto as autoridades chinesas não pusessem em prática as suas ameaças. Por sua vez Elliot, ao ver que o governador de Macau se mantinha firme nas suas convicções, recomendou a lord Palmerston que ordenasse a ocupação de Macau. Desconhecemos as directrizes que o Foreign Office terá dado a este respeito ao seu representante na China. Ao certo só sabemos que entre Agosto de 1839 e Fevereiro do ano seguinte verificaram-se pelo menos duas tentativas britânicas de ocupar Macau. Independentemente de estas decisões terem ou não sido tomadas em Londres, o seu conteúdo já era suficiente para relembrar às autoridades portuguesas de Macau e Lisboa que o estatuto deste território permanecia  indefinido e que o interesse que os britânicos tinham nele se mantinha intacto.
Mesmo depois de ultrapassados estes dois períodos críticos, Silveira Pinto ainda escreveu ao ministro da Marinha e Ultramar que o verdadeiro objectivo de Elliot continuava a ser [...] introduzir alguma força inglesa na Cidade com o aparente fim de proteger o Estabelecimento escondendo o real que era o estabelecerem-se eles mesmos aqui. Apesar disso, em meados de 1840, quando começaram a chegar os reforços militares vindos da Índia, os britânicos partiram à conquista de outros portos do Império situados mais a norte. Este deslocar do conflito em direcção ao Norte teve uma dupla consequência para Macau: a cidade perdeu a sua importância política e recuperou temporariamente a supremacia económica porque, devido à estagnação comercial de Cantão, as mercadorias que se destinavam ao Império Chinês começaram a passar outra vez por lá. Em consequência do aumento do movimento do porto de Macau, os cofres da Fazenda Pública e de muitos particulares encheram-se de novo rapidamente. No entanto, o apogeu económico-financeiro e a diminuição da pressão britânica sobre o Estabelecimento não devem ter feito esquecer a Silveira Pinto uma outra problemática que começou a acentuar-se no final da década de 1830: o não reconhecimento da soberania portuguesa em Macau por parte das autoridades chinesas. A importância deste assunto justifica que nos detenhamos agora sobre ele. Em primeiro lugar, cabe aqui referir que Silveira Pinto, poucos dias depois de ter chegado a Macau, apercebeu-se logo daquilo a que chamou a singularidade do Estabelecimento e, por isso, recomendou ao Governo de Lisboa ser [...] essencialmente necessário que o governador nomeado para esta cidade seja dotado de muita prudência e ao mesmo tempo de muita energia.
Ora, foi precisamente esta prudência e energia que Silveira Pinto começou por usar com os britânicos e que depois aplicou também às suas relações com os chineses. Não obstante, o governador nunca deixou de defender que Portugal é o verdadeiro senhor de Macau e [...] tem legítimo domínio nele [e] nem a isto pode obstar a ideia de foro. Partindo destes princípios básicos, no mês de Maio de 1839, Silveira enviou para Lisboa algumas propostas de reformas que foram tomadas em linha de conta alguns anos mais tarde. De entre as alterações sugeridas contava-se então o [...] foro que todos os anos se paga e de que já se poderia estar livre se aqui tivesse havido mais patriotismo, e se não se tivessem desperdiçado ocasiões importantíssimas de se tornarem independentes, [...] a medição dos navios ou por outra o direito de ancoragem que lhes pertence e a pouca decente dependência em que se está e sempre se esteve dos Mandarins».

In Maria Teresa Lopes Silva, Transição de Macau para a Modernidade, 1841-1853, Orientalia, Fundação Oriente, 2002, ISBN 972-785-035-9.

Cortesia da FO/JDACT

Transição de Macau para a Modernidade. 1841-1853. Maria T. Lopes Silva. «Depois da extinção da Companhia Inglesa das Índias Orientais, no ano de 1833, o Governo britânico nomeou no ano seguinte uma comissão para superintender aos negócios britânicos na China»

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Macau na conjuntura político-económica de Extremo Oriente, 1841-1844
Da guerra do ópio ao Tratado de Nanquim. Macau, uma cidade disputada por três impérios
«O primeiro conflito anglo-chinês, que decorreu entre 1839 e 1842, vulgarmente designado por guerra do ópio, acelerou o processo de transformações político-económicas que já se faziam sentir no Extremo Oriente pelo menos desde os finais do século XVIII. A cidade de Macau, que foi durante vários séculos o ponto obrigatório de passagem dos europeus que pretendiam entrar na China, começou a ser cobiçada pelos comerciantes britânicos, devido à sua localização estratégica, sobretudo a partir dos finais do século XVIII. O Império Britânico encontrava-se desde esse período numa fase de grande prosperidade, pelo que tinha necessidade de procurar novos centros consumidores. Ora, foi precisamente a partir dessa época que os mercadores britânicos passaram a ir com maior frequência ao porto de Cantão e ambicionaram mesmo possuir um ponto de apoio no Sul da China, para lhes facilitar o contacto com os outros portos do Celeste Império. Por isso, à medida que o comércio do ópio começava a representar a possibilidade de os ingleses reverterem a seu favor a balança comercial, que antes lhes era desfavorável, intensificaram as suas descargas no porto de Cantão e cresceu neles o desejo de possuírem Macau. Deste desejo nasceram duas tentativas britânicas de ocupar a cidade, uma em 1802 e outra em 1808, sempre com o falso pretexto de defenderem a cidade dos ataques franceses. Em ambos os casos as ambições britânicas não se concretizaram devido à oposição das autoridades de Macau, que estavam conscientes de que só podiam continuar a manter o Estabelecimento se respeitassem o poder chinês que, logicamente, era contra a presença de estrangeiros na cidade. Aliás, é bem provável que as autoridades chinesas tenham ajudado os portugueses a resistir às pretensões britânicas.
Mas se este espírito de colaboração existiu ao nível político-militar, o mesmo já não se pode dizer a respeito do comércio do ópio. Desde 1789 que o Governo chinês proibira por várias vezes a sua introdução no Império mas, apesar disso, este comércio tornou-se cada vez mais florescente e passou até a constituir a base de sustentação das finanças públicas e privadas de Macau. Aliás, a necessidade crescente desta droga levou mesmo os ingleses a estabelecerem um depósito volante na ilha de Lintim, no ano de 1823, chegando até a depositar alguma em Hong Kong. No entanto, os acontecimentos posteriores mostraram claramente que este facto não fez com que eles abandonassem as suas pretensões sobre Macau. Além disso, esta alteração provocou a diminuição das receitas públicas do Estabelecimento, pois os comerciantes da cidade passaram a enviar as suas mercadorias directamente de Damão para Lintim e até o Governo de Goa colaborou neste negócio.
Depois da extinção da Companhia Inglesa das Índias Orientais, no ano de 1833, o Governo britânico nomeou no ano seguinte uma comissão para superintender aos negócios britânicos na China. Para chefiar esta comissão foi escolhido lord Napier, que tinha como principal missão forçar a entrada de ópio no Império e, se possível, encontrar um ponto de apoio terrestre para os comerciantes britânicos. À semelhança do que já tinha acontecido anteriormente, a sua preferência recaía sobre Macau que, para o governo de Londres, continuava a ser território chinês. No entanto, Napier morreu pouco tempo depois sem ter alcançado os seus objectivos em Cantão e Macau e foi a partir de então que começou a ganhar consistência a ideia de se resolver o problema da introdução do ópio na China pela força das armas. Numa tentativa desesperada de evitar a entrada de estrangeiros noutros pontos do Império, o governo de Pequim investiu Lin, no início de 1839, no cargo de alto comissário imperial em Cantão e deu-lhe como principal missão acabar com o tráfico do ópio. Cerca de dois meses depois, mais precisamente no dia 10 de Março, Lin chegou a Cantão e, a partir desta altura, acelerou-se todo o processo de transformações político-económicas que temos vindo a referir e que permitiu às autoridades de Macau e aos comerciantes locais reflectirem sobre o estatuto deste Estabelecimento. Por ordem de Lin, as autoridades chinesas começaram logo por prender alguns comerciantes estrangeiros em Cantão, sobretudo britânicos, e só os libertaram depois de eles lhes terem entregue todo o ópio que possuíam. O passo seguinte foi a sua expulsão da cidade, ainda no mês de Março de 1839, e o refúgio que encontraram de imediato foi a cidade de Macau. Foi desta forma que o pequeno Estabelecimento português começou a ser mais uma vez alvo da cobiça dos comerciantes e das autoridades britânicas, desta feita com consequências mais profundas». In Maria Teresa Lopes Silva, Transição de Macau para a Modernidade, 1841-1853, Orientalia, Fundação Oriente, 2002, ISBN 972-785-035-9.

Cortesia da FO/JDACT

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Vida Breve. Poesia. Filomeno Almeida Borges. «A felicidade é uma deusa esquiva e tumultuosa que mal se deixa tocar pelos dedos vacilantes de quem a quer dominada e cativa…»

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«Há na tua boca o frio das palavras
feridas pelo gelo do vento. Responde-me,
que eu não posso ficar sem uma voz
que seja o rasto e o eco do que eu digo,
que seja o timbre do que eu canto.
Emudecida, deixas-me assim entregue
a este duplo e aterrador exílio:
o do coração e o da terra, indefeso,
a ver-te subir, alada e leve,
até ao céu onde se perdem os nomes
da glória dos deuses e dos santos.
Se um dia voltares, que seja
pela fímbria das Praias da neblina
onde tudo se agiganta e se desfaz.

Eu nunca proporcionei felicidade àqueles que amei
porque nunca soube o que é ser feliz.
Será, talvez, este adormecimento dos sentidos
que apazigua em mim as dores ancestrais e ferinas,
que me põe no sono o bálsamo das noites sem temores.
A felicidade é uma deusa esquiva e tumultuosa
que mal se deixa tocar pelos dedos vacilantes
de quem a quer dominada e cativa.
Ela que tudo tem para dar, para partilhar,
outra coisa não fez senão recusar-me
o consolo de uma concha de água
nas horas delirantes e embravecidas da sede.
Nunca mais lhe dedicarei preces nem oferendas,
porque o meu tempo não serve para conjugar
os verbos em que ela se corporiza e ganha voz»

Parte de um poema de Wencelau de Moraes, in ‘O Profeta do Orvalho' de José Jorge Letria

Amigo! Que estejas em paz.

Um abraço para o Fernando José
JDACT

O Lago Azul. Factos pouco conhecidos do destino de algum sangue real português. Fernando Campos. «Conheço-me por demais violento às vezes, provoco cataclismos, naufrágios, desbordamentos de rios das suas madres, aludes e levas de terras que tudo arrastam, casas, pessoas, sem olhar a piedade»

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«(…) Gosto de me roçar brando pelo lume das águas ou cursar forte impelindo a violência do temporal. Há largo mar por onde correr. Vagas, ondas, ondinhas, cavo-as, encrispo-as, encrespo-as, encristo-as, adondo-as, amacio-as, borbulho-as e marulho-as, espraio-as espumantes por areais ocres, bege-acinzentados. Acende-se a tempestade e em ira as estoiro contra a penedia, lhes rodopio surbiões de voragem, malícia minha, lhes adoço e amaino fúrias, bondade minha, por todos os oceanos, rios e lagos do mundo. Gosto de as soprar e, com elas, as ondas do tempo e os farrapos e cuspinhos das vidas dos mortais. Vou e venho, a entretecer laços e histórias, enredos entrançados de sucessos, aqui e acolá, além, agora, ontem, amanhã, que tudo é hoje... Em Portugal soalheiro e rendido ao inimigo junto ao mar Oceano; nas brumas da Holland, da Nederland, da Friesland, da Zeeland, o povo aguerrido, espinhado contra o inimigo comum, nas bordas do mar do Norte. Agora corro a Leipzig,aafiar o ouvido a novas línguas e falares, como é meu gosto, a vertê-los em português que sempre é idioma escorreito que corre o mundo como eu, e a divertir-me nas bodas do príncipe de Orange, Willem de Zwijger, Guilherme o Taciturno. Casa com Anne, filha de Mauritz eleitor de Saxe. Na comédia da vida dos homens nasce-se uma vez, morre-se uma vez, mas pode casar-se e descasar-se várias vezes. Estas são as segundas núpcias do Taciturno, aos vinte e oito anos, e não há-de ficar por aqui.
Anne de Saxe é uma maria-rapaz, soldadesca e arrogante, amiga da sem-vergonhez e da bebedice, descortês para com os seus e os outros. Foi um engano ter nascido mulher e foi o casamento do príncipe uma desilusão. No entanto, dessa aliança vão nascer um filho e duas filhas. Segui-los-ei adiante. Neste momento passeio-me pelas mesas dos convivas. Sete dias de comezaina e bebezaina. Se os seis mil duzentos e noventa e dois cavalos comeram treze mil e seiscentas medidas de aveia, para alimentar os seis mil duzentos e noventa e dois cavaleiros, muitos deles com suas mulheres e filhos, gastaram-se quatro mil moios de trigo, beberam-se três mil e seiscentos grandes garrafões de vinho e mil e seiscentas pipas de cerveja. Dia e noite rodaram em enormes espetos vitelos e leitões, todos os dias traziam pescadores peixe fresco, monteiros e falcoeiros peças de caça e volateria, moleiros e caseiros farinha, ovos, méis, para as guloseimas. Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Ora aí está o busílis. Os homens apartaram-se em religiões, seitas, bandos e cada um, do alto dos púlpitos ou das homilias dos altares, se arroga a palavra de Deus... A boda acabou, os convivas dispersaram-se e aqui vem, saído do seu castelo de Breda, o jovem estatúder Guilherme de Orange e Nassau a caminho de Bruxelas, a assistir à assembleia dos cavaleiros do Tosão de Ouro. Entretanto...
Conheço-me por demais violento às vezes, provoco cataclismos, naufrágios, desbordamentos de rios das suas madres, aludes e levas de terras que tudo arrastam, casas, pessoas, sem olhar a piedade, a justiça, à ternura das crianças, à fraqueza dos velhos, ao êxtase dos amantes. Ainda me recorda daquela terrível noite de dezoito para dezanove de Novembro, vai mais de um século volvido. A inundação de Saint Elisabeth, nos arredores de Dordrecht! Soprei a doze nós, era furacão e aproveitei-me da maré alta do mar do Norte. Afogaram-se cem mil neerlandeses... Cego me criou a natureza, mas sem culpa. A violência, porém, dos humanos contra outros humanos supera as minhas iras, se é que se podem chamar iras, termo da linguagem dos homens, às forças naturais que me regem. Supera as feras dos bosques, a fome dos peixes das águas. O leão saciado não mata nem o abutre. Não causa morticínios. Mas os homens espantam-me. Matam pelo fogo, pela água, pelo ferro, pelo sufoco, por mil e uma invenções de tortura adrede criadas para prolongar a dor daqueles a que chamam inimigos, hereges e por aí fora. Com náusea perpasso e assisto à crueldade humana, tamanho o meu furor. Não. Não esperarei por aquele dia medonho no vale de Josafá. Não aguardarei o toque das trombetas do Juízo Final. O dia da ira é hoje, é agora, é já.
A mim, a mim todo o instrumental, toda a orquestração de que sou maestro, as percussões, os sopros, os dedilhados, o roçar, o deslizar das crinas dos arcos nas cordas da natureza. Requiem por todas as vítimas, por todos os mártires sem resplendor na cabeça nem peanha nos altares, sem lugar reservado pelos doutores de todas as religiões e seitas na luz perpétua dos paraísos, por aqueles que ousaram pensar de outra maneira e foram amarrados à pira do fogo, pendurados da forca da ignomínia, estrangulados no garrote, estirados no potro, afogados na fossa, assados na chapa, degolados no patíbulo, escorchados vivos». In Fernando Campos, O Lago Azul, Difel, Algés, 2007, ISBN 978-972-29-0874-0.

Cortesia de Difel/JDACT

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «A Selva de Pedra, como ficou conhecido esse imenso conjunto de prédios, viria a ser, enfim, um dos maiores exemplos desta política pública de ‘renovação urbana’»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Questão
«(…) Os primeiros a serem contemplados pelas obras da Cruzada São Sebastião residiam nos casebres de duas favelas contíguas situadas às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, a Praia do Pinto e a Ilha das Dragas, de onde sairiam, a partir de 1957, para morar no recém construído Bairro São Sebastião do Leblon. O terreno sobre o qual foram erguidos os prédios pertencia à União, e foram cedidos pelo então presidente Café Filho após acordo definido com Dom Helder Câmara. Composto por dez prédios, com sete andares cada e sem elevadores, o Bairro abrigaria 916 famílias em apartamentos conjugados com cozinha e banheiro, de 18m2, ou com sala, cozinha, banheiro e um ou dois quartos numa área de, respectivamente, 24 e 36 metros quadrados. O terceiro conjunto foi construído já no início dos anos 1970 no terreno anteriormente ocupado pelos casebres da favela da Praia do Pinto, logo após esta ter sido definitivamente extinta, em 1969, por um incêndio sobre o qual pesam diferentes versões. O Projecto Praia do Pinto, nome com que foi registado por uma autarquia da Secretaria de Planeamento do Estado da Guanabara, contemplaria 40 prédios de 13 a 17 andares, com 2.251 apartamentos, dispostos em quatro pequenas ruas terminadas, em cul-de-sac, numa praça central. Cada unidade teria entre 90 e 100 metros quadrados, divididos em sala, cozinha, banheiros e três ou quatro quartos. A estimativa era que a densidade demográfica do local seria significativamente aumentada para 1.182 habs./ha., índice justificado, segundo os autores do projecto, por sua inserção em um grande vazio demográfico cujo aproveitamento seria destinado à construção de clubes, praças, supermercados e outros equipamentos que reduziriam a densidade relativa a 343habs./ha.. A Selva de Pedra, como ficou conhecido esse imenso conjunto de prédios, viria a ser, enfim, um dos maiores exemplos desta política pública de renovação urbana, coetânea da política de erradicação de favelas e beneficiada pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), órgão criado pelo governo federal, na década de 1960, para financiar também as obras previstas no âmbito da política de remoções.
Em cada um desses conjuntos encontramos moradores sempre dispostos a contar e recontar histórias que ressaltam a importância do lugar onde vivem. No Jornalistas, velhos profissionais gostam de lembrar que aqueles prédios, os primeiros a serem feitos em toda a orla de Ipanema e Leblon, resultaram do prestígio que a imprensa gozava junto a Getúlio Vargas. Na Cruzada, como é hoje chamado o Bairro São Sebastião do Leblon, a memória dos moradores guarda nítida a imagem da favela, das visitas de Dom Helder Câmara e do incêndio de 1969. Na Selva de Pedra, aqueles com os quais conversamos eram membros de famílias de militares e vieram transferidos de outros estados da federação. Suas lembranças são repletas de episódios da mudança, da mobilização ansiosa de pais e irmãos e da adaptação das rotinas no bairro em que muitos sequer sabiam correctamente onde se localizava. Memória pessoal e memória social ou, como denomina Halbwachs, memória autobiográfica e memória histórica se apoiam mutuamente e, no caso desses relatos, contam a história de um bairro pela óptica dos dramas vividos por seus moradores para nele permanecerem ou se estabelecerem. Segundo dados do censo demográfico do IBGE, em 2000 a população do Leblon era de 46.670 habitantes distribuídos em 18.004 unidades residenciais, das quais 50% eram ocupadas por até duas pessoas e quase 60% de seus responsáveis ganhava mais de 15 salários mínimos. Além disso, cerca de 75% dos responsáveis possuíam curso superior e apenas 967 pessoas não eram alfabetizadas, sendo que 468 tinham entre cinco e nove anos. O apartamento, como já podemos supor, é a unidade residencial que predomina no bairro e em toda a Zona Sul da cidade. No Leblon são 17.447 unidades deste tipo, e, do total de domicílios, 12.320 são propriedade de seus residentes. A maior parte dos responsáveis por cada unidade domiciliar tem entre 40 e 69 anos, e o número daqueles com mais de 70 anos é superior aos que estão entre os 20 e 39 anos. Nesse universo os 2.957 moradores do Bairro São Sebastião são percebidos como uma população de baixa renda e de baixa escolaridade, constituída maioritariamente por jovens e negros, exercendo serviços de baixa qualificação e apresentando índices de até 60% de desemprego. Diferentemente do entorno, o número de netos e bisnetos residindo junto com o responsável pelo domicílio é significativo. A preponderante presença de filhos e o baixo índice de cônjuges habitando com o responsável segue, contudo, as taxas registadas nas demais unidades do Leblon. Estamos na Zona Sul é constatação frequente quando comparam o Bairro e a sua localização com as favelas da cidade. Para muitos destes moradores do Leblon, o objecto de comparação do seu local de moradia continua sendo a favela. E isto resulta de factores que em nada equivalem à questão da regulamentação fundiária ou outro critério legal através do qual se tenta definir favela. O Bairro, afinal de contas, é um conjunto habitacional, e o termo ocupa lugar bem definido tanto no histórico das políticas de habitação quanto nas biografias da maioria de seus moradores. O significado da sentença estamos na Zona Sul não se esgota, porém, no plano comparativo. Indica ainda os custos de se viver sobre o metro quadrado mais caro da cidade e o reconhecimento de um estilo de vida predominante ao qual se deve aderir». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «O Leblon era um bairro parado ainda... porque não tinha água! Eu carreguei muita água aqui no Leblon, não tinha nada. Aqui, onde estão esses prédios, era circo, era parque de diversões... eram circos grandes, três picadeiros»


Cortesia de wikipedia e jdact

A Questão
«(…) Aos olhos de outros tantos habitantes do bairro, entretanto, o investimento traria mais benefícios do que desvantagens. Para o presidente da AMA-Leblon, por exemplo, o empreendimento daria maior segurança à região. Ofereceria, além disso, uma opção de lazer e conforto diversificado em suas previstas duzentas lojas, quatro salas de cinema, um teatro, uma sala de exposições e tantas outras alternativas para o comércio e o footing interessado. O empreendimento permitiria ainda desdobramentos da política cultural da Secretaria Estadual de Cultura, ao concentrar opções e equipamentos para um lazer criativo, incorporando o antigo palco do Teatro Casa Grande aos amplos domínios do imenso shopping center. A boa expectativa era também compartilhada pela Associação Comercial do Leblon, cuja opinião em muito ia de encontro àquela que pressagiava o declínio do lazer e do comércio de proximidade no bairro. Entre as associações de moradores que se manifestavam favoravelmente, uma, em especial, não somente negligenciava o lazer, o consumo e a segurança como principais objectos de seus interesses. Suas expectativas, ao contrário, acercavam-se do trabalho e das oportunidades e garantias que poderiam advir do empreendimento. O shopping, para a Associação de Moradores do Bairro São Sebastião do Leblon (AMORABASE), sinalizava oportunidades de emprego, além de benefícios exclusivos que pensavam poderiam ser negociados com a administração e os proprietários do moderno centro comercial como parte das dívidas e obrigações derivadas de uma política empresarial de responsabilidade social.
O trabalho de campo teve início justamente no momento em que os habitantes do Leblon, portanto, discutiam a construção do mega-empreendimento comercial. O shopping, como tema das conversas, tornara-se, pois, incontornável; e logo nos primeiros dias fomos convocados para tomar parte activa nas distintas arenas nas quais se desdobravam as concorridas e inflamadas assembleias. E, neste caso, tomar parte activa significava ocupar lugares muito precisos, cooptados que fomos para irmos registando as actas das reuniões entre os moradores e os administradores do shopping. A construtora Santa Izabel, responsável pelas obras, dispunha de uma equipa de técnicos e engenheiros para conduzir as reuniões e encaminhar as demandas dos moradores do entorno. Era um momento, portanto, bastante oportuno para que pudéssemos apreender e compreender o mais plenamente possível os conflitos em curso e, sobretudo, aqueles originados em torno da tópica da própria noção de bairro e da identidade que seus diferentes habitantes reivindicavam e lhe conferiam, evidenciando o lugar ocupado por cada morador naquele complexo sistema de relações local. Como moradores da cidade, sabíamos tratar-se o Leblon de um dos mais valorizados bairros da capital. Por isto mesmo, era objecto de um acelerado crescimento e especulação imobiliária e, por sua diversificada morfologia social, despertava grande interesse sociológico.
No bairro, numa área de aproximadamente 100 mil metros quadrados, haviam sido construídos, a partir dos anos 1950, nada mais nada menos do que três grandes conjuntos residenciais que resultaram de três emblemáticas políticas habitacionais direccionadas para públicos distintos. O primeiro conjunto a ser erguido obteve recursos provenientes de um dos seis antigos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs). Além dos benefícios previdenciários e de assistência médica, essas instituições, autarquias criadas nos anos 1930, tratariam também da questão habitacional dos grupos profissionais. Ao contrário das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs), que eram sociedades civis organizadas por empresas, os IAPs estatizariam a previdência e seriam estruturados, então, pelas próprias categorias profissionais. Esses novos órgãos da previdência social se favoreceriam de uma legislação igualmente nova, a Constituição de 1934, que permitia diversificar e expandir os benefícios oferecidos pelos institutos previdenciários, o que dependia apenas da força política de cada categoria profissional. O Conjunto dos Jornalistas, como ficou conhecido o primeiro conjunto de prédios erguido no Leblon, resultou de um acordo feito entre o sindicato dos jornalistas e o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC), em 1951. Oswaldo Miranda, um de seus primeiros moradores, integrou a comitiva do sindicato encarregada de apresentar ao presidente Getúlio Vargas o projecto de financiamento da casa própria para a categoria.

[Getúlio] Achou a ideia [de financiamento por intermédio de um dos IAPs] bem razoável e conversou com o presidente do IAPC, nessa época, o [Henrique] La Rocque, que dá nome ao nosso edifício. O La Rocque era presidente do IAPC, e na época cada categoria tinha o seu instituto próprio. Depois vieram os generais, aí fundiram tudo no INSS (...). Então ele perguntou quais eram as disponibilidades de terreno. Tinha terreno em Cascadura, em Jacarepaguá... O terreno do Leblon estava um pouco embaraçado, porque o Ministério da Aeronáutica também tinha a ideia de fazer alguma coisa aqui para o pessoal da aeronáutica. E... Getúlio disse: Mas esse terreno, você pode desembaraçar. Então ficou assim, o Getúlio aprovou a ideia e determinou ao La Rocque, presidente do IAPC, que começasse o trabalho de estudos para essa ideia. Foi feito então um projecto inicial: esses blocos aqui não eram assim [voltados pro mar]. Eles eram voltados para o [morro] Dois Irmãos. Até que veio o projecto definitivo, que é esse que aqui está. Ali embaixo [sob os pilotis] ia ter um ginásio, que não foi feito... E então começou o trabalho de construção. O Leblon não era Leblon ainda. O Leblon tem a minha idade: o Leblon tem 87 anos! Nós nascemos juntos. Mas o Leblon não tinha nada! O Leblon era um bairro parado ainda... porque não tinha água! Eu carreguei muita água aqui no Leblon, não tinha nada. Aqui, onde estão esses prédios, era circo, era parque de diversões... eram circos grandes, três picadeiros.

Localizado à beira do canal do Jardim de Alah, que separa o bairro do Leblon de Ipanema e liga a Lagoa Rodrigo de Freitas ao oceano, o Conjunto dos Jornalistas, hoje Condomínio Jardim de Alah, é composto por três edifícios de 15 andares. Dois deles comportam quatro apartamentos por andar, cada um com três quartos, sala, dois banheiros e cozinha, enquanto o terceiro abrange, em cada pavimento, seis apartamentos de dois quartos, sala, dois banheiros e cozinha. O Jornalistas possui, ao todo, 420 unidades. O segundo conjunto resultou de uma associação fundada em 1955 por Helder Câmara, então arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, durante o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional. Baptizada de Cruzada São Sebastião, a iniciativa tinha como propósito precípuo urbanizar todas as favelas da capital num prazo de doze anos. Com a urbanização das favelas Dom Helder tinha em vista preservar as rotinas quotidianas dos favelados mantendo-os perto do seu local de trabalho, princípio que a política de remoção de favelas desrespeitava ao construir conjuntos habitacionais nas distantes e mal-servidas periferias da cidade». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT