segunda-feira, 22 de março de 2021

As Espias do Dia D. Ken Follett. «Dieter não tinha nenhum pudor de recorrer à tortura quando julgava necessário, mas preferia dobrar seus interrogados com métodos mais subtis, os mesmos que usara com Stéphanie»

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«(…) Alguns minutos antes, o alemão dera um susto em Flick ao pedir a ela que o fotografasse ao lado da companheira, com o castelo ao fundo. O pedido fora feito com delicadeza, um sorriso simpático e apenas um leve sotaque. Para Flick, era um martírio ter de lidar com aquela distracção num momento tão importante, mas uma recusa poderia levantar suspeitas, ainda mais sendo ela, supostamente, uma moradora da região que não tinha nada para fazer além de bebericar seu vinho na varanda de um bar. Assim sendo, ela respondera exactamente como uma francesa legítima teria feito, isto é, trazendo ao rosto uma expressão de frieza e indiferença antes de aquiescer. Aquele era um momento absurdo, um momento de pânico: a agente secreta britânica fotografando o oficial alemão e sua mariposa, ambos sorrindo, enquanto o sino da igreja contava os segundos para a explosão. O alemão agradecera e se oferecera para lhe pagar um drink. Flick havia recusado com firmeza: nenhuma francesa podia beber com um alemão a menos que estivesse preparada para ser chamada de pu… O homem assentira de forma compreensiva e ela voltara para o lado do marido.

Embora parecesse estar num dia de folga e não desse a impressão de estar armado, portanto não representasse perigo imediato, o oficial despertara em Flick uma incómoda sensação de desconfiança. Reflectindo melhor naqueles últimos instantes de calma, ela chegara à conclusão de que o homem definitivamente não estava ali a turismo. Percebia-se nele um permanente estado de alerta, uma prontidão que não combinava com alguém que estava ali apenas para admirar arquitectura. A mulher talvez fosse o que parecia ser, mas ele, não. Ele era outra coisa. Antes que ela pudesse definir o quê, o sino parou de tocar. Michel terminou sua cerveja e secou a boca com as costas da mão. Ele e Flick se levantaram. Procurando aparentar naturalidade, dirigiram-se para a porta do bar e lá ficaram, abrigando-se sem chamar a atenção.

 

Dieter Franck havia notado a moça na varanda do bar assim que chegara à praça. Sempre notava as moças bonitas. Aquela em particular era uma bela amostra de sex appeal. Os cabelos eram de um louro acinzentado, os olhos, verde-claros e o sangue decerto tinha algo de alemão, o que não era raro naquela parte da França, tão próxima à fronteira com a Alemanha. O vestido que cobria o corpo miúdo não era lá muito diferente de um saco de linhagem, mas a moça acrescentara à composição uma echarpe amarela que, apesar do algodão barato, lhe dava um charme tipicamente francês. Ao abordá-la, ele havia percebido aquela centelha de medo que os franceses costumavam exibir diante dos algozes alemães; mas depois, imediatamente depois, notara uma expressão muito mal disfarçada de afronta que despertara seu interesse. Ela estava acompanhada de um homem boa-pinta e um tanto indiferente que decerto era o marido. Dieter solicitara a foto apenas porque queria falar com ela. Era casado, tinha dois filhos lindos em Colónia e hospedava Stéphanie no apartamento que mantinha em Paris, mas nada que o impedisse de abordar outra mulher na rua. Mulheres bonitas eram como os quadros impressionistas que ele coleccionava: possuir um não o impedia de desejar outros tantos.

As francesas eram as mulheres mais lindas do mundo. Mas tudo na França era bonito: as pontes, os bulevares, até mesmo os aparelhos de jantar feitos de porcelana. Dieter adorava as boites parisienses, o champanhe, o foie gras, as baguetes quentinhas. Adorava comprar suas camisas e gravatas na famosa Charvet defronte ao hotel Ritz. Ficaria feliz em poder morar em Paris para sempre. Ele não sabia onde havia adquirido gostos tão refinados. Seu pai era professor de música, a única forma de arte em que os alemães, e não os franceses, eram os mestres absolutos. Mas Dieter não tinha a menor vocação para a aridez da vida académica do pai e deixara a família horrorizada ao decidir entrar para a polícia, um dos primeiros universitários na Alemanha a fazê-lo. Por volta de 1939 já chefiava o Departamento de Investigações Criminais da polícia de Colónia. Em Maio de 1940, quando os tanques do general Heinz Guderian atravessaram o rio Mosa na altura de Sedan e abriram caminho de forma triunfal através da França até ao canal da Mancha em apenas uma semana, Dieter cedera a um impulso e se candidatara a um posto no Exército. Em vista da sua experiência na polícia, imediatamente fora colocado na inteligência. Falava francês fluente, além de um pouco de inglês, e por isso fora incumbido de interrogar os inimigos capturados. Tinha um talento especial para a tarefa e sentia um grande orgulho sempre que conseguia extrair alguma informação que contribuía para a vitória do seu país em alguma batalha. Sua eficiência chegara aos ouvidos de ninguém menos do que o marechal de campo Erwin Rommel, no norte da África.

Dieter não tinha nenhum pudor de recorrer à tortura quando julgava necessário, mas preferia dobrar seus interrogados com métodos mais subtis, os mesmos que usara com Stéphanie. Esperta, elegante e sensual, Stéphanie fora proprietária de uma chapelaria que vendia chapéus femininos dos mais chiques de Paris, e também dos mais caros. Mas tinha uma avó judia. Já havia perdido a sua loja e passara seis meses numa prisão francesa quando, prestes a ser transferida para um campo na Alemanha, fora resgatada por Dieter. Ele poderia ter estuprado a chapeleira se quisesse. Na certa era o que ela esperava de um oficial alemão. Ninguém teria erguido a voz para protestar, muito menos exigido algum tipo de punição. Mas, em vez disso, ele alimentara a moça, comprara roupas novas para ela, lhe dera o quarto extra que tinha no apartamento, tratando-a com carinho e respeito até que, certa noite, após um jantar de foie de veau com uma garrafa de La Tache, ele a havia seduzido deliciosamente no sofá da sala, diante das chamas de uma lareira». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Ken Follett, Literatura, II Guerra Mundial, 

A Segunda Dama. Irving Wallace. «Uma vez no átrio decorado com requinte, o ar condicionado proporcionou-lhe alívio imediato e novas energias»

jdact

«(…) No momento em que saiu do prédio de apartamentos em Georgetown, Guy Parker pressentiu que não estava nos seus dias. Quando Washington D.C. se apresentava quente e húmida, não havia em todo o mundo cidade mais sufocante, com efeito, ao entrar no beco, para se dirigir à garagem, já tinha o corpo inundado de transpiração. Havia manchas de suor das axilas até à cintura e a camisa colava-se à pele como uma vasta ligadura adesiva. Depois de abrir a porta do seu novo Ford, despiu o casaco de seersucker, aliviou a gravata de malha e instalou-se ao volante. Em seguida, dobrou o casaco, pousou-o no banco de trás e colocou o gravador em cima. Depois de ligar o motor e abandonar o beco, acelerou e seguiu, o mais rapidamente possível, em direcção ao Hotel Madison, onde devia comparecer para almoçar, às 13.30. Não queria chegar atrasado, porque o seu convidado era uma pessoa muito atarefada e lhe fazia um favor. com efeito, nas duas vezes anteriores que combinara almoçar com George Kilday, este cancelara o encontro no último momento, em virtude de uma reportagem urgente. Uma hora antes, Guy Parker telefonara-lhe para a redacção do Angeles Times em Washington e obtivera confirmação de que não faltaria. Assim, estava resolvido a ser pontual, por se tratar na verdade de um favor. O outro nada tinha a lucrar com a entrevista, ao passo que ele obteria inegáveis benefícios. Constava na cidade, pelo menos entre os membros do Quarto Estado, que Parker arrecadaria meio milhão de dólares do (nota: a Tecido indiano de linho, com riscas brancas e azuis) adiantamento do editor à Primeira Dama pela sua autobiografia (os outros quinhentos mil destinar-se-iam a obras de caridade). Kilday poderia ter todos os motivos para sentir inveja e revelar escasso espírito de cooperação, mas, ao invés, demonstrara que era uma pessoa atenciosa, um veterano que gostava de ver os escritores mais novos triunfar.

Parker alcançou o Madison cinco minutos antes da hora estipulada e, pegando no gravador e casaco, confiou o carro ao porteiro. Uma vez no átrio decorado com requinte, o ar condicionado proporcionou-lhe alívio imediato e novas energias. Passou rapidamente diante da Recepção sem se deter e dirigiu-se ao café despretensioso. Ao transpor a entrada, viu uma empregada acompanhar Kilday a uma mesa e acercou-se com prontidão, acenando cordialmente, gesto que o outro retribuiu. Não conhecia bem Kilday, mas falara com ele umas seis vezes nos últimos dois anos e meio, quando Parker fora um dos redactores dos discursos do Presidente, conquanto se limitassem, a trocar breves impressões sobre política.

Por conseguinte, conhecia-o pouco, pessoalmente, à parte o facto de ser um jornalista respeitado pelos colegas pela persistência e rigor com que investigava os temas das reportagens. Parker ignorava a existência de um elo entre Kilday e a Primeira-Dama, até ao dia em que a própria Billie o mencionara, quando conversavam acerca do período após a formatura dela em Vassar, com uma classificação distinta em jornalismo. Antes da aposentação do pai, trabalhara na agência publicitária que se ocupava da negociação das invenções do progenitor. Billie obtivera colocação numa firma de relações públicas de Nova Iorque e, mais tarde, fora sua representante em Londres durante uma curta temporada. A seguir, regressara a Los Angeles determinada a escrever um romance, que rasgara quando ia a meio.

Pouco depois, conseguiu um lugar no Los Anjeles Times?, perguntara Parker. Não foi bem assim. Na realidade, tive o meu primeiro emprego numa folha insignificante de Santa Mónica, por um salário que nem merece a pena referir. No entanto, o dinheiro não interessava. De facto, não me fazia falta. Em todo o caso, proporcionou-me acesso a muitos acontecimentos e locais que, de contrário, não conheceria. Um dia, o editor incumbiu-me de uma reportagem sobre um centro de reabilitação de drogados e, em vez de proceder em obediência à rotina, entrevistando o director, acudiu-me uma ideia inspirada por uma passagem que lera numa biografia de Nellie Bly. A que tentou bater o recorde de Júlio Verne da volta ao mundo em oitenta dias?» In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

JDACT, Irving Wallace, USA, Rússia, Literatura, A Arte,

domingo, 21 de março de 2021

Poesia. Jacques Brel. «Le cœur du bonheur. Ne me quitte pas. Ne me quitte pas. Ne me quitte pas. Ne me quitte pas moi, je t'offrirai…»

Cortesia de wikipedia e MariaGadú

Ne Me Quitte Pas

«Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Moi, je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est, paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas?
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Mais
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas»

Poema de Jacques Brel, in Warner Chappell Music France

Cortesia de WCMFrance/JDACT

JDACT, Poesia, Jacques Brel, Bélgica,  

Irving Wallace. A Segunda Dama. «E agora, decorrida mais de uma hora, tinha consciência de que a conferência de Imprensa chegara ao fim. Nora e Laurel encontravam-se de pé, ladeando-a…»

jdact

«(…) A seguir, entrara na panela de pressão. Houvera um longo almoço na Sala de Jantar da Família oferecido às mulheres dos dirigentes da maioria e minoria no Senado e Casa de Representantes, assim como às de vários chefes de comissões importantes. Depois, recebera os vencedores de um concurso de pintura patrocinado por uma associação nacional de deficientes, após o que o próprio Ladbury, acabado de chegar de Londres, aparecera para a prova preliminar dos vestidos que ela esperava usar na União Soviética e Inglaterra. Sem uma pausa, auxiliada pela criada pessoal, Sarah Keating, imergira na busca de um velho livro de recortes dos tempos da universidade de que Guy Parker necessitava para fonte de consulta da autobiografia que escrevia em seu nome. Logo em seguida, descera a escada apressadamente e dirigira-se ao Jardim das Rosas. Fazia uma tarde de Agosto cálida e, no ambiente aprazível, recebera a delegação das Escuteiras e respectivas chefes, no intuito de distribuir os prémios às que haviam prestado serviços notáveis à comunidade com menos de cinco minutos disponíveis, acompanhara Nora à Sala Oval Amarela do primeiro piso, onde os representantes da Imprensa tomavam chá, enquanto a aguardavam.

E agora, decorrida mais de uma hora, tinha consciência de que a conferência de Imprensa chegara ao fim. Nora e Laurel encontravam-se de pé, ladeando-a, e ela ergueu-se do sofá com prontidão para murmurar palavras de agradecimento aos presentes e despedir-se. Quando a sala se esvaziou, Billie pemaneceu de pé, sem energia. O sorriso formal, longamente congelado nas feições pálidas clássicas, converteu-se numa expressão rígida. O dia crucial chegara ao fim, mas faltava ainda uma coisa. Havia um derradeiro acto a efectuar. Empertigando-se, abandonou a sala só, seguiu pelo extenso corredor em direcção ao elevador e entrou na cabina. Minutos depois, encontrava-se na Ala Oeste, rumo à Sala do Gabinete. Embora raramente se sentisse apreensiva ou nervosa, acudiam-lhe ambas as emoções naquele momento. O espaçoso aposento cheirava a couro e fumo de charuto. Como previra, eles achavam-se lá, os cinco, sentados na extremidade mais próxima da mesa de mogno, olhos ainda cravados nos écrans dos dois monitores de televisão, os quais apresentavam imagens da Sala Oval Amarela que ela acabava de abandonar.

O mais corpulento do grupo, de tronco maciço como um barril, general Ivan Petrov, chefe do KGB, pôs-se de pé imediatamente, com um sorriso de satisfação no largo rosto eslavo. Ah, Vera Vavilova! Acercou-se dela e beijou-a nas faces com formalidade. Foi extraordinária, minha amiga. Uma interpretação sem a mínima falha. Os meus parabéns! Atrás dele, os outros o coronel Zhuk, Alex Razin e dois homens que não conhecia tinham-se levantado igualmente para a felicitar. Obrigada articulou ela, sentindo o coração voltar a palpitar normalmente. Muito obrigada. Terminou, pois, o ensaio geral volveu o general Petrov. Fez uma pausa para a observar com curiosidade. Pensa que está preparada? Creio que sim foi a resposta firme.

Muito bem. Ele pegou no boné. Vamos ao Kremlin informar o Primeiro-Ministro. Quando saíram da Sala do Gabinete, ela seguiu-os e acompanhou-os com o olhar, enquanto entravam na limusina e abandonavam a falsa Casa Branca, atravessando o portão no muro elevado, aberto por guardas do KGB. Olhando através do espaço, avistou as distantes cúpulas e agulhas douradas no interior do Kremlin e o perfil de Moscovo. Mais três dias, após cerca de três duros anos, reflectiu. Por fim, Vera Vavilova sorriu para consigo. Desta vez, um sorriso autêntico. Sim, estava preparada». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

JDACT, Irving Wallace, USA, Rússia, Literatura, A Arte,

sábado, 20 de março de 2021

Poesia. Luísa Sobral e Buba Espinho. «Não há no mundo cara mais linda do que a tua. Estou de abalada, vou para as terras de Espanha…»

Cortesia de wikipedia

Roubei-te um beijo

«Roubei-te um beijo
Não querias dar
Estou muito triste
Mas por ti não vou chorar

Não vou chorar
Não vou sofrer
Estou muito triste
Mas por ti não vou morrer

Estou de abalada
Vou para as terras de Espanha
Tu não me queres
Aqui mais ninguém me apanha

Ninguém me apanha
Já cá não está quem sofria
Meu lindo amor
Tu hás de chorar um dia

As tristes lamurias do rouxinol
Em seminhalma
Do nascer ao pôr do sol
Ao por do sol
à luz da lua
Não há no mundo
Cara mais linda do que a tua

Estou de abalada
Vou para as terras de Espanha
Tu não me queres
Aqui mais ninguém me apanha

Ninguém me apanha
Já cá não está quem sofria
Meu lindo amor
Tu hás de chorar um dia

Robei-te um beijo
Foi por…»

Poema de Buba Espinho, in Musixmatch

Amor pelos Dois

«Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi p’ra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada pra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não só ter paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

Poema de Luísa Sobral, in Universal Music Publishing Group

Cortesia de wikipedia/UMPGroup/JDACT

JDACT, Luísa Sobral, Buba Espinho, Poesia, 

sexta-feira, 19 de março de 2021

A Segunda Dama. Irving Wallace. «… explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar»

jdact

«Sentada ali, ela começou a sentir-se melhor. A provação estava quase no fim. O mobiliário Luís XVI da Sala Oval Amarela fora disposto de outro modo. Ela instalava-se, empertigada, alerta, no meio do sofá listado, de costas para a janela arqueada e extensão de relvado ao sul, enfrentando pelo menos vinte repórteres femininos e quatro masculinos da Casa Branca, na sua maioria em cadeiras dobráveis, todos impacientes. Colocara-se entre Nora Judson, sua secretária de Imprensa e amiga, e Laurel Eakins, secretário de entrevistas, o que resultava amparador e confortável. Mas o peso recaíra nela. Desde que se tornara Primeira-Dama, apenas concedera quatro conferências de Imprensa em dois anos e meio. Aquela, a instâncias do marido (mais aparições em público podem ser vantajosas para ambos), era a quinta. Em virtude do seu longo silêncio, a Imprensa comparecera com uma sobrecarga de perguntas.

Embora não se houvessem registado soluções de continuidade nos últimos sessenta minutos, as interrogações tinham-se revelado, na sua maioria, fáceis e frívolas. Era verdade que se sujeitava a uma dieta de baixo nível de hidratos de carbono? Tencionava reatar as lições de ténis? Interviria activamente na campanha do marido para as primárias? O Presidente confiava nela e consultava-a em questões de Estado? Que livros lera ultimamente? Tinha uma opinião formada sobre a moda feminina actual? Ladbury, de Londres, continuava a ser o seu costureiro preferido? Qual fora a sua reacção às recentes sondagens públicas que a consideravam a mulher mais popular no mundo de hoje? E assim sucessivamente, sem pausas.

Agora, uma mulher corpulenta com sotaque fanhoso do Texas formulava uma pergunta de carácter mais sério: mrs. Bradford, quanto à notícia de que estará presente na Reunião Internacional das Mulheres em Moscovo, esta semana, antes de acompanhar seu marido à Cimeira de Londres... Sim? ... , alterou o seu ponto de vista acerca da Emenda à Igualdade de Direitos ou do aborto? E pensa pronunciar-se sobre esses temas na capital soviética? Ela sentiu a secretária de Imprensa agitar-se em desconforto a seu lado, mas ignorou a advertência e declarou: pretendo discutir os dois assuntos na minha intervenção. Quanto ao meu ponto de vista, não sofreu a mínima alteração. Continuo a acreditar que a igualdade de direitos para as mulheres nos Estados Unidos há muito que devia vigorar, e cada dia que passa recebemos mais manifestações de apoio. No caso do aborto, há muitos pontos a debater por ambas as partes. Fez uma pausa à espera do suspiro de alívio da secretária, ouviu-o e continuou: no entanto, penso que não deve existir legislação alguma contra a sua prática, mas reservar a decisão, individualmente, a cada mulher nessa situação. Referir-se-á a isso em Moscovo?

Sem dúvida. Tentarei igualmente determinar, com base nos dados estatísticos à minha disposição, como pensam as mulheres dos Estados Unidos neste momento, a respeito de ambos os tópicos. Levantou-se outra repórter, alta, de ossos salientes, que se exprimiu com a inflexão bem modulada de Boston: mrs. Bradford, pode revelar-nos que mais espera discutir na Reunião Internacional das Mulheres? A mulher no mundo do trabalho americano. A mulher nas nossas forças armadas. Enfim, um largo número de tópicos. Quando regressar, apresentarei um relatório minucioso.

A editora da secção feminina do New York Times pôs-se de pé por sua vez. Consta que permanecerá três dias em Moscovo. Pode mencionar algumas outras actividades, além das reuniões, a que tenciona dedicar-se? Bem, como se trata da minha primeira visita à União Soviética, espero dispor de tempo para algumas digressões turísticas. Em todo o caso, Nora, aqui presente, está mais familiarizada com o meu programa. Olhou Nora Judson significativamente e esta apressou-se a fazer uso da palavra, de forma fluente e eficiente. Billie Bradford reclinou-se com alívio, pela primeira vez. O dia, em particular a parte da tarde, fora tão activo, que só agora se dava conta do cansaço que a invadia. Sentia-se em desalinho. Baixou os olhos para a camisola de caxemira azul-clara e saia de uma tonalidade mais escura e convenceu-se de que continuavam apresentáveis. Então, devia ser o cabelo. Penteara a longa cabeleira loura para trás, com uma fita de seda em volta do rolo, mas, como sempre, haviam-se desprendido algumas madeixas, que pendiam sobre a fronte. Com um gesto característico, tratou de as impelir para a posição conveniente.

Nora explicava, em voz firme e clara, o itinerário da Primeira-Dama em Moscovo e esta sentia-se-lhe grata. Fingindo prestar atenção às palavras da sua secretária, Billie Bradford deixou o espírito retroceder para o fim da manhã daquele dia crucial e depois avançar ao longo da tarde até ao momento presente. Antes do meio-dia, despachara toda a correspondência pessoal, em especial as cartas destinadas ao pai em Malibu e à irmã mais nova, Kit, explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

JDACT, Irving Wallace, USA, Rússia, Literatura, A Arte,

quinta-feira, 18 de março de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «… compridas velas grossas de cera maciça de abelha. Eu ouvira meu pai ordenar ao administrador de nossa fazenda, Garci Díaz, que mandasse fazer aquelas velas especialmente para a ocasião»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Estamos a caminho para nos juntarmos a navio aos exércitos da rainha Isabel de Castela e do rei Fernando de Aragão no cerco contra Granada, informou o tenente a meu pai. Entregarei este rato mendigo à primeira galé que encontrarmos no mar. Ele poderá servir como escravo até ao fim dos seus dias. O pai concordou com a cabeça, porém eu mal notei esse gesto. Passei apressadamente por ele e corri escada acima para o quarto da minha mãe. Minha tia Beatriz estava ajoelhada ao lado da cama segurando sua mão. Eu soube então que minha mãe devia estar morrendo, pois minha tia era uma freira de convento que não deixava a clausura excepto em circunstâncias extremas. Afastara o véu de freira, de modo que pude ver como suas feições se pareciam com as de minha mãe, embora minha tia fosse mais jovem. Falava com a irmã num tom de voz tranquilizador, dizendo-lhe que suas tribulações desta vida logo chegariam ao fim e que em breve encontraria o seu descanso e recompensa no céu.

Não!, falei em voz alta. Não diga isso! Mamã não pode morrer. Mas pude ver que as suas faces e as suas órbitas haviam afundado, e que, para ela, cada respiração era um sofrimento. O sacerdote local, o padre Andrés, que se encontrava de pé na extremidade da cama, tentou oferecer palavras de consolo, mas não fui apaziguada. Gritei para ele: eu fui ao santuário de Nossa Senhora das Dores para rezar e fazer uma oferenda para que tudo terminasse bem. Acendi uma vela e pedi que a mamã se recuperasse após o parto. Mas não havia ninguém no céu me escutando. Fiquei com raiva do Deus dele, por ter ignorado meus apelos por misericórdia. Do que adiantou eu ter feito aquilo?, berrei para o sacerdote. Não adiantou de nada. Nada!

O rosto do padre Andrés registou o choque provocado pelas minhas palavras, mas ele me falou amavelmente. Não deve dizer essas coisas, Zarita. É errado questionar a vontade de Deus. Minha tia Beatriz disse: Zarita, minha menina, acalme-se. Sua mãe está indo embora. Deixe-a fazer isso em paz, com palavras tranquilas de amor da sua parte. Mas eu só conseguia pensar nas minhas próprias necessidades, minha própria dor. Joguei-me atravessada ao corpo de mamã na cama, derramei lágrimas e gritei: não me deixe, mamã! Mamã! Mamã! Não me deixe!

Naquele dia, jurei vingança. Meu choque entorpecido diante da total e selvagem crueldade dos actos daquele dia foi substituído por um ódio venenoso. Antes de os soldados amarrarem minhas mãos e me arrastarem pelas ruas até ao cais, encarei friamente o rosto do homem que me tratou injustamente e jurei que jamais o esqueceria. Eu, Saulo, da cidade de Las Conchas, decidi que causaria a ruína de dom Vicente Alonzo Carbazón. Derrubaria a árvore na qual ele enforcara meu pai. Dispersaria seu gado e envenenaria seus poços. Incendiaria sua casa junto aos bens e à mobília do seu interior e os pisotearia até virarem pó. Eu destruiria a ele, sua mulher e todos os seus filhos.

Perto da meia-noite, no interior da igreja de Nossa Senhora das Dores, situada no alto de um rochedo que contemplava o mar Mediterrâneo, a vela acesa naquela manhã por Zarita del Vicente Alonzo de Carbazón tremeluziu e se apagou. Vinte minutos depois, a vida de sua mãe também se extinguiu. Deste modo, o simples acender de uma vela deu início a uma cadeia de eventos que levaria o desastre aos envolvidos nos incidentes daquele dia.

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

Se, por um lado, meu pai, o magistrado, era respeitado na cidade de Las Conchas, por outro, minha mãe fora amada. As pessoas foram para as sacadas das casas para ver a carruagem fúnebre, puxada por quatro cavalos negros emplumados, seguir seu imponente caminho pelas ruas, e jogaram pétalas de flores quando o cortejo passou por baixo delas. Além de ser conhecida por seus actos de caridade, mamã ajudara a fundar um hospital para cuidar dos destituídos; ali, sua irmã mais nova, minha tia Beatriz, fundara uma ordem de enfermeiras religiosas. Completamente veladas, com os capelos de seus hábitos puxados para baixo, as freiras se posicionaram diante do prédio a fim de assistir ao cortejo fúnebre, e muitos dos pobres se enfileiraram em ambos os lados do caminho de terra que levava ao cemitério na colina acima da cidade. Os amigos de negócio do meu pai compareceram, assim como uma pequena parte da nobreza local. Embora fosse rico, meu pai não tinha sangue nobre, mas era respeitado pelos lordes e pelos dons, que sabiam que ele fazia cumprir as leis que os mantinham em segurança. O túmulo da família tinha sido aberto, e o padre Andrés, paramentado de preto, esperava junto ao portão do cemitério. Estava acompanhado de uma dúzia de acólitos que usavam sobrepelizes brancas sobre sotainas pretas e seguravam compridas velas grossas de cera maciça de abelha. Eu ouvira meu pai ordenar ao administrador de nossa fazenda, Garci Díaz, que mandasse fazer aquelas velas especialmente para a ocasião». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

A Caverna. José Saramago. «A região é fosca, suja, não merece que a olhemos duas vezes. Alguém deu a estas enormes extensões de aparência nada campestre o nome técnico de Cintura Agrícola…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O homem que conduz a camioneta chama-se Cipriano Algor, é oleiro de profissão e tem sessenta e quatro anos, posto que à vista pareça menos idoso. O homem que está sentado ao lado dele é o genro, chama-se Marçal Gacho, e ainda não chegou aos trinta. De todo o modo, com a cara que tem, ninguém lhe daria tantos. Como já se terá reparado, tanto um como outro levam colados ao nome próprio uns apelidos insólitos cuja origem, significado e motivo desconhecem. O mais provável será sentirem-se desgostosos se alguma vez vierem a saber que aquele algor significa frio intenso do corpo, prenunciador de febre, e que o gacho é nada mais nada menos que a parte do pescoço do boi em que assenta a canga. O mais novo veste uniforme, mas não está armado. O mais velho traja um casaco civil e umas calças mais ou menos a condizer, leva a camisa sobriamente fechada no colarinho, sem gravata. As mãos que manejam o volante são grandes e fortes, de camponês, e, não obstante talvez por efeito do quotidiano contacto com as maciezas da argila a que o ofício obriga, prometem sensibilidade. Na mão direita de Marçal Gacho não há nada de particular, mas as costas da mão esquerda apresentam uma cicatriz com aspecto de queimadura, uma marca em diagonal que vai da base do polegar à base do dedo mínimo. A camioneta não merece esse nome, é apenas uma furgoneta de tamanho médio, de um modelo fora de moda, e vai carregada de louça. Quando os dois homens saíram de casa, vinte quilómetros atrás, o céu ainda mal começara a clarear, agora a manhã já pôs no mundo luz bastante para que se possa observar a cicatriz de Marçal Gacho e adivinhar a sensibilidade das mãos de Cipriano Algor. Vêm viajando a velocidade reduzida por causa da fragilidade da carga e também pela irregularidade do pavimento da estrada. A entrega de mercadorias não consideradas de primeira ou segunda necessidades, como é o caso das louças rústicas, faz-se, de acordo com os horários fixados, a meio da manhã, e se estes dois homens madrugaram tanto foi porque Marçal Gacho tem de marcar o ponto pelo menos meia hora antes de as portas do Centro serem abertas ao público. Nos dias em que não traz o genro, mas tem louças para transportar, Cipriano Algor não precisa de se levantar tão cedo. Contudo, de dez em dez dias, é sempre ele quem se encarrega de ir buscar Marçal Gacho ao trabalho para passar com a família as quarenta horas de folga a que tem direito, e quem, depois, com louça ou sem louça na caixa da furgoneta, pontualmente o reconduz às suas responsabilidades e obrigações de guarda interno. A filha de Cipriano Algor, que se chama Marta, de apelidos Isasca, por parte da mãe já falecida, e Algor, por parte do pai, só goza da presença do marido em casa e na cama seis noites e três dias em cada mês na noite antes desta ficou grávida, mas ainda não o sabe.

A região é fosca, suja, não merece que a olhemos duas vezes. Alguém deu a estas enormes extensões de aparência nada campestre o nome técnico de Cintura Agrícola, e também, por analogia poética, o de Cintura Verde, mas a única paisagem que os olhos conseguem alcançar nos dois lados da estrada, cobrindo sem solução de continuidade perceptível muitos milhares de hectares, são grandes armações de tecto plano, rectangulares, feitas de plásticos de uma cor neutra que o tempo e as poeiras, aos poucos, foram desviando ao cinzento e ao pardo. Debaixo delas, fora dos olhares de quem passa, crescem plantas. Por caminhos secundários que vêm dar à estrada, saem, aqui e além, camiões e tractores com atrelados carregados de vegetais, mas o grosso do transporte já se efectuou durante a noite, estes de agora, ou têm autorização expressa e excepcional para fazer a entrega mais tarde, ou deixaram-se dormir. Marçal Gacho afastou discretamente a manga esquerda do casaco para olhar o relógio, está preocupado porque o trânsito se torna pouco a pouco mais denso e porque sabe que de aqui para diante, quando entrarem na Cintura Industrial, as dificuldades aumentarão. O sogro deu pelo gesto, mas deixou-se ficar calado, este seu genro é um moço simpático, sem dúvida, mas é nervoso, da raça dos desassossegados de nascença, sempre inquieto com a passagem do tempo, mesmo se o tem de sobra, caso em que nunca parece saber o que lhe há-de pôr dentro, dentro do tempo, entenda-se, Como será quando chegar à minha idade, pensou. Deixaram a Cintura Agrícola para trás, a estrada, agora mais suja, atravessa a Cintura Industrial rompendo pelo meio de instalações fabris de todos os tamanhos, actividades e feitios, com depósitos esféricos e cilíndricos de combustível, estações eléctricas, redes de canalizações, condutas de ar, pontes suspensas, tubos de todas as grossuras, uns vermelhos, outros pretos, chaminés lançando para a atmosfera rolos de fumos tóxicos, gruas de longos braços, laboratórios químicos, refinarias de petróleo, cheiros fétidos, amargos ou adocicados, ruídos estridentes de brocas, zumbidos de serras mecânicas, pancadas brutais de martelos de pilão, de vez em quando uma zona de silêncio, ninguém sabe o que se estará produzindo ali. Foi então que Cipriano Algor disse, Não te preocupes, chegaremos a tempo, Não estou preocupado, respondeu o genro, disfarçando mal a inquietação, Bem sei, era uma maneira de falar, disse Cipriano Algor. Fez virar a forgoneta para uma rua paralela reservada à circulação local, Vamos atalhar caminho por aqui, disse, se a polícia nos perguntar por que saímos da estrada, recorda-te da combinação, temos um assunto a tratar numa destas fábricas antes de chegarmos à cidade. Marçal Gacho respirou fundo, quando o tráfego se complicava na estrada, o sogro, mais tarde ou mais cedo, acabava por tomar um desvio». In José Saramago,  A Caverna, 2000, Editorial Caminho, 2014, Porto Editora

, ISBN 978-972-004-654-3.

Cortesia de ECaminho/PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, Cultura, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Recuei cambaleante pela soleira da porta enquanto os soldados executavam a sua horrível tarefa. Então um rapaz saltou de cima do muro da propriedade e correu na nossa direcção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) O corpo do meu pai estremeceu num último espasmo. Os braços caíram para os lados. Para mim, parecia que ele os estendia para me abraçar. Pulei para o pátio e corri até ele, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Pai! Pai!, gritei. Pai! Dom Vicente parou na soleira da porta da casa. Examinou-me com desdém. Eu deveria imaginar. Uma podridão como essa sempre gera mais sujeira. Suas feições se contraíram formando linhas de profunda repugnância. É melhor eliminar o fruto e a semente. Abanou a mão numa ordem para os soldados. Que o filho do mendigo dance a mesma dança. O tenente gesticulou com a cabeça para o ajudante de cavalariça. Traga outra corda, disse ele.

Zarita

Meu pai, dom Vicente Alonzo Carbazón, era conhecido na nossa cidade de Las Conchas pela severidade em lidar com criminosos, mas eu nunca tinha visto um ódio tão frio no seu rosto antes daquele terrível dia de Verão. Alertado pela agitação, ele veio à porta de nossa casa. Após ouvir de Ramón a versão deturpada dos acontecimentos, ele atingiu a boca do pedinte com tanta força que o rosto do homem se abriu como uma romã rebentando. A visão do pobre homem rastejando a seus pés pareceu inflamar em vez de aplacar a raiva de pai. Eu não sabia que ele estava enfurecido pela tristeza e perdera o controle das emoções. Pai. Pousei a mão no seu braço, mas ele a afastou e me dispensou. Então: o horror! Mandaram buscar uma corda. Olhei para Ramón, para que ele parasse com aquilo, mas ele continuava furioso por ter sido humilhado na igreja e ter precisado convocar soldados para ajudá-lo a capturar um camponês debilitado. A terrível satisfação revelada no seu comportamento me disse que não adiantava apelar para que ele detivesse o pai.

Recuei cambaleante pela soleira da porta enquanto os soldados executavam a sua horrível tarefa. Então um rapaz saltou de cima do muro da propriedade e correu na nossa direcção, soluçando e gritando pelo pai. Um dos soldados o agarrou pelo cós dos calções e o ergueu no ar. Mais um para os corvos arrancarem os olhos, gargalhou. E ouvi palavras desprezíveis vomitadas da boca de pai, que mandou o tenente enforcar o rapaz com o pai. Pai! Dessa vez, meu grito agudo chamou-lhe a atenção. O rapaz não estava na igreja. Ele não tem nada a ver com isso.

Esses ladrões e salteadores agem em bandos , disse-me o pai. Ele tentou-me fazer entrar em casa. Você é jovem e inocente demais, minha filha, para saber de certas coisas. Ele não passa de uma criança. Puxei a manga da camisa do pai. Olhe para ele. Pense no seu filho recém-nascido. Eu não tenho filho. Encarei o pai. Então notei algo que não tinha percebido antes. Ele não estava vestido de maneira apropriada, e os cabelos e a barba estavam desgrenhados. Seu irmão morreu meia hora atrás, explicou. Ah, não! Lágrimas quentes inundaram meus olhos. Minha mãe suportou nove gravidezes desde o meu nascimento, com todas elas, excepto esta última, resultando em abortos. E, agora, o bebé estava morto. Não admirava que o pai estivesse descontrolado. Pai! Pai! Lá fora, o rapaz continuava lutando e se esticando para tocar no cadáver do pai que pendia da árvore. Mas o laço de uma segunda corda foi colocado em volta do seu pescoço e o tenente jogou a longa extremidade por cima do mesmo galho. Você estará com o seu pai muito em breve, zombou um dos soldados. Ele começou a puxar a ponta da corda, e o rapaz ergueu-se no ar, as pernas chutando do mesmo modo como fizeram as de seu pai havia menos de cinco minutos. Ajoelhei-me diante do meu pai. Pense na mamã, implorei. É uma mãe bondosa e gentil para mim. Ela não iria querer que esse rapaz morresse assim como o seu próprio filho. O rosto de meu pai se contraiu, e ele colocou as mãos sobre o rosto. Sua mamã..., começou, mas não conseguiu continuar. Soluços agitaram seu corpo. Mamã? Minha respiração congelou nos pulmões. Mamã! Diga-me que nada aconteceu a ela. Por favor, pai. Diga-me que ela está viva. Ela está viva, confirmou ele, mas não por muito tempo. Ele hesitou, então gesticulou para o tenente. Já houve muitas mortes nesta casa por um dia. Pouparei a vida do rapaz, mas cuide para que ele seja mandado para onde eu nunca mais o veja. Meio decepcionados, os soldados largaram a corda, e o rapaz caiu no chão com um estrondo, onde permaneceu estremecendo, aturdido, mas vivo». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Meu coração batia forte no peito. Não! Aquele caminho levava à praia, e a água barraria seu caminho. No primeiro degrau, o jovem o alcançou e arremeteu com sua adaga»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Entretanto, ao me sentar debaixo de uma árvore na praça do lado de fora da igreja, naquele abafado dia de Verão, tinha esperanças de que meu pai fosse bem sucedido. Ao sair naquela manhã, ele me pedira que cuidasse de minha mãe, mas eu lhe desobedeci. Minha mãe tinha caído no sono, e segui meu pai enquanto ele ia atrás da moça ricamente vestida e de seu acompanhante. Calculei, como imaginei que ele o fez, que, se alguém como ela estava andando por essa área, só podia ter um destino. Devia estar indo ao santuário da Virgem Maria, que ficava no interior da igreja sobre o rochedo onde se podia contemplar o mar. E, se essa moça ia visitar uma igreja num dia não reservado à prática religiosa, então o mais provável era que tivesse uma tendência à piedade. Parecia ter a minha idade, com o mais lindo cabelo negro comprido preso em tranças e cachos por refinados pentes de casco de tartaruga. De vez em quando, o jovem nobre que a acompanhava virava-se para sorrir para ela e estender a mão para tocar-lhe o cabelo. Ela parecia uma boa moça, o rosto coberto apropriadamente por um véu, amável e devota. Tinha vindo a esta parte pobre da cidade para visitar o santuário, portanto isso devia significar que buscava algum favor especial, que tinha uma contrição ou uma súplica. Pensei, ela vai ouvir meu pai, do mesmo modo como espera que seu Deus a ouça. Eu estava errado.

A porta lateral da igreja abriu-se com um estrondo, e meu pai saiu correndo. Olhou de relance para os fundos da edificação; a parede do rochedo fechava a parte de trás, sem qualquer caminho visível. Ele virou e correu ao longo da lateral da igreja em direcção à frente desta. Imediatamente, pressenti o perigo. Levantei-me. A porta da igreja abriu-se novamente, e o jovem nobre que acompanhara a moça apareceu, seguido pela própria moça, bem mais atrás, as barras das saias apertadas nas mãos, correndo. O jovem perseguia meu pai, gritando loucamente. Assassino! Ladrão! Criminoso! Havia pouca gente por ali, mas quem estava na praça parou para olhar. Fiz um aceno com a mão. Achei que meu pai me tinha visto, mas ele se afastou com uma guinada para a direita, na direcção de uma escada que descia para o mar.

Meu coração batia forte no peito. Não! Aquele caminho levava à praia, e a água barraria seu caminho. No primeiro degrau, o jovem o alcançou e arremeteu com sua adaga. Ramón!, gritou a moça. Tenha cuidado! Meu pai não carregava arma alguma. Empurrou o homem chamado Ramón e o derrubou. Mas, ao fazer isso, ele mesmo caiu para trás e rolou pela escada. Juntamente aos outros espectadores, corri adiante para ver o que estava acontecendo. Abaixo de nós, meu pai, com dificuldade, se punha de pé. Mais alguns segundos e ele teria escapado; poderia ter encontrado outra passagem ou caminho pelo rochedo para fugir. Mas então um grupo de soldados surgiu marchando pelo quebra-mar. Do topo da escada, Ramón, seu perseguidor, gritou para o tenente no comando: prenda esse homem! Ele acabou de atacar uma moça no interior da igreja e tentou matar-me!

Os soldados avançaram atrás do meu pai, agarraram-no e, com muitos socos e chutos, levaram-no escada acima para enfrentar Ramón. Levem-no ao pai desta moça! O rosto do jovem nobre estava contorcido de raiva. Ele se chama dom Vicente Alonso Carbazón e é o magistrado local! E, assim, meu pai foi arrastado pelas ruas até à casa do magistrado e lançado ao chão da sua propriedade. Corri atrás deles, incapaz de pensar claramente sobre o que estava acontecendo, tão depressa estavam se desenrolando esses terríveis acontecimentos. No caminho, mais gente se reuniu atrás dos soldados para assistir ao espectáculo. Todos agora se aglomeravam diante do portão aberto. A moça abraçou o pai ao chegar à porta de casa. Ela fez menção de erguer o véu, mas ele segurou sua mão. Ele estava sem o casaco; e a gola da camisa, aberta. O cabelo estava desgrenhado, e seu corpo tremia enquanto falava. Que barulho é esse, exigiu raivosamente, que me perturba no momento em que mais preciso de paz? Ergueu a mão. Silêncio, rugiu. Então apontou para o jovem nobre. Você, Ramón Salazar, diga-me o que está acontecendo aqui. Senhor, dom Vicente..., este mendigo atacou sua filha na igreja do modo mais cruel. E, quando fui impedi-lo, ele tentou matar-me.

Dom Vicente deu um passo adiante e agrediu meu pai com um soco no rosto. Meu pai caiu no chão, cuspindo dentes e sangue na terra vermelha do pátio. Senhor, meu pai tentou falar, o mais nobre Dom... Dom Vicente desferiu um chuto na sua cabeça. Silêncio, seu vira-lata, vociferou. Se não tivesse assuntos mais urgentes a tratar, eu o julgaria aqui mesmo e faria cumprir imediatamente a sua sentença. Estamos em estado de guerra, lembrou o tenente que comandava os soldados. A rainha Isabel de Castela e seu marido, o rei Fernando de Aragão, têm afirmado que não tolerarão qualquer agitação civil enquanto lutam para reunificar todas as nossas províncias para que a Espanha se torne um país novamente. Um magistrado do município pode mandar que um traidor seja executado por um oficial militar sem um julgamento formal. E quem ofende, numa igreja, um homem ou uma mulher da nobreza deve ser condenado por traição. Apontou para uma árvore próxima.

Podemos enforcá-lo agora mesmo e encerrar aqui esse assunto. Faça isso, ordenou dom Vicente. Deu meia-volta e se preparou para entrar em sua casa. E livre-se dessa plebe no meu portão. Pai!, gritei, quando os soldados começaram a fechar as pesadas portas de madeira da propriedade. Tentei forçar a entrada, mas eles fizeram que todos recuassem agredindo-nos violentamente com a lateral da espada. Soquei a superfície de madeira; esta não cedeu. Quando ouvi o trinco ser fechado, corri em volta do muro até encontrar um local onde houvesse um apoio para o pé. Recuei alguns passos, então me lancei contra essa parte do muro e o escalei com unhas e pés até alcançar o topo. Agora conseguia ver o pátio em baixo. Um cavalariço dos estábulos recebera ordem de apanhar uma corda, e esta foi arremessada por cima da parte superior de uma frondosa árvore. A boca do meu pai estava escancarada de terror e incredulidade. Sangue escorria dos seus lábios.

Pai! A moça puxou a manga da roupa do pai. Seu pai, o magistrado, livrou-se dela com um empurrão. Vá para dentro, mandou. Você desgraçou nossa família. Pai, choramingou a moça, angustiada. Ouça-me. Esse homem não merece morrer. Mas era tarde demais. Rapidamente fizeram um laço na corda e o colocaram em volta do pescoço do meu pai, e os soldados o içaram bem alto no galho da árvore. Alguns deles riram e gracejaram enquanto faziam isso, como se fosse um desporto ver um homem chutar o vazio e desesperadamente agarrar a garganta enquanto morria sufocado. Um soldado, porém, um homem ruivo troncudo, adiantou-se e puxou com força as pernas do meu pai para acabar com a sua agonia». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quarta-feira, 17 de março de 2021

Poesia. Vários Autores. «E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada. Que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder…, p’ra me encontrar…»

Cortesia de culturagenial

Amar. Florbela Espanca

«Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p’ra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder…, p’ra me encontrar…»

Morrer de Amor. Maria Teresa Horta

«Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso»

Confissão. Charles Bukowski

«Esperando pela morte

como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo».

Poemas, in Cultura Genial

 

JDACT, Poesia, Cultura, A Arte, 

José Saramago. Objecto Quase. «Sobre outra superfície, a do córtice, acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto preciso da queda. É o hematoma»

jdact

«(…) Reparem, minhas senhoras e meus senhores, nesta espécie de ponte longitudinal composta de fibras: chama-se fórnice e constitui a parte superior do tálamo óptico. Por trás dela, vêem-se duas comissuras transversais que obviamente não devem ser confundidas com as dos lábios. Observemos agora do outro lado. Atenção. Isto que sobressai aqui são os tubérculos quadrigémeos ou lobos ópticos (não sendo aula de zoologia, a acentuação nos lobos faz-se forte no primeiro o). Esta parte ampla é o cérebro anterior, e aqui temos as célebres circunvuloções. Neste sítio, em baixo, está, evidentemente, toda a gente o sabe, o cerebelo, com a sua parte interna, chamada arbor vitae, que se deve, convém esclarecer, não vá julgar-se que estamos na aula de botânica, à plicatura do tecido nervoso num certo número de lamelas que dão origem, por sua vez, a pregas secundárias. Já falámos da medula espinhal. Repare-se nisto que não é uma ponte, mas que tem o nome de ponte de Varólio, que parece mesmo uma cidade da Itália, ora digam lá que não. Atrás está a medula alongada. Falta pouco para chegarmos ao fim da descrição, não se enervem. A explicação poderia ser, naturalmente, muito mais demorada e minuciosa, mas para isso só na autópsia. Limitemo-nos portanto a indicar a glândula pituitária, que é um corpo glandular e nervoso que nasce do pavimento do tálamo ou terceiro ventrículo. E, enfim, concluindo, informamos que esta coisa aqui é o nervo óptico, questão da mais alta importância, pois com isto ninguém ousará dizer que não viu o que neste lugar se passou. E agora, a pergunta fundamental: para que serve o cérebro, vulgo miolos? Serve para tudo porque serve para pensar. Mas, atenção, não vamos nós cair agora na superstição comum de que tudo quanto enche o crânio está relacionado com o pensamento e os sentidos. Imperdoável engano, senhoras e senhores. A maior parte desta massa contida no crânio não tem nada que ver com o pensamento, não risca nada para aí. Só uma casca muito fina de substância nervosa, chamada córtice, com cerca de três milímetros de espessura, e que cobre a parte anterior do cérebro, constitui o órgão da consciência. Repare-se, por favor, na perturbadora semelhança que há entre o que chamaremos um microcosmo e o que chamaremos um macrocosmo, entre os três milímetros de córtice que nos permitem pensar e os poucos quilómetros de atmosfera que nos permitem respirar, insignificantes uns e outros e todos, por sua vez, em comparação nem sequer com o tamanho da galáxia, mas com o simples diâmetro da terra. Pasmemos, irmãos, e oremos ao Senhor.

O corpo ainda aqui está, e estaria por todo o tempo que quiséssemos. Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já lá está dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? O velho abriu agora os olhos e não consegue reconhecer-nos, o que só a ele espanta, mas a nós não, que nos não conhece. Treme-lhe o queixo, quer falar, inquieta-se como ali chegámos, julga-nos autores do atentado. Nada dirá. Pelo canto da boca entreaberta corre-lhe para o queixo um fio de saliva. Que faria a irmã Lúcia neste caso, que faria se aqui estivesse, de joelhos, envolta no seu triplo cheiro de bafio, saias e incenso? Enxugaria reverente a saliva, ou, mais reverente ainda, se inclinaria toda para diante, prosternada, e com a língua apararia a santa secreção, a relíquia, para guardar numa ampola? Não o dirá a história sacra, não o dirá, sabemos, a profana, nem Eva doméstica reparará, coração aflito, na injúria que o velho pratica. Embargo babando sobre o velho.

Já se ouvem passos no corredor, mas temos ainda tempo. A equimose tornou-se mais escura e o cabelo parece arrepiado sobre ela. Uma passagem carinhosa de pente poderia compôr tudo nesta superfície que vemos. Mas seria inútil. Sobre outra superfície, a do córtice, acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto preciso da queda. É o hematoma.

É lá que neste momento se encontra o Anobium, preparado para o segundo turno. Buck Jones limpou o revólver e mete novas balas no tambor. Já aí vêm buscar o velho. Aquele raspar de unhas, aquele choro, é das hienas, não há ninguém que não saiba. Vamos até à janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.

Embargo

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com o lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro dos seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a ideia do casulo morno que era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos esquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,