sábado, 19 de fevereiro de 2022

Julia Navarro. O Sangue dos Inocentes. « Fostes criado no nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo eclesiástico...»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Se não vos incomoda, desejaria ficar na tenda, afirmou Julián. Sinto-me mal. Quem sabe o sono me sirva de ajuda. Direi ao médico que vos volte a examinar, disse frei. Não! Rogo-vos! Não suportaria outra sangria! Um pouco de sopa e um pedaço de pão para molhar no vinho serão os melhores dos remédios. Estou muito cansado, frei Pèire... Creio que tem razão, intercedeu Fernando. O melhor que podemos fazer pelo meu bom irmão é deixar que repouse. Não há nada melhor do que um bom sono reparador. Quanto a vós, dom Fernando, esperam-vos para partilhar o jantar com meu senhor Hugues des Arcis e o resto dos cavaleiros. Não me demorarei mais de um minuto, o tempo que tardareis em trazer o caldo e o vinho com pão ao bom Julián. Com passo diligente, frei Pèiré voltou a sair da tenda, preocupado pela palidez do irmão Julián. Que Deus o perdoasse, mas acreditava ter visto a morte reflectida no rosto dele. Sinto ter-vos causado pesar, disse Fernando, quando ficaram de novo sós. Não vos preocupeis. Sim, preocupo-me porque vos aprecio, e quer gosteis quer não, somos meios-irmãos. Isso não vos deveria afligir. Sois filho de um nobre senhor da vila de Aínsa. E de uma criada de vossa casa. De uma jovem bela e encantadora que não teve outra opção senão entregar-se ao seu senhor. Não fui eu que ditei as regras, nem estou de acordo com elas. Mas vós sabeis tão bem quanto eu que os senhores têm filhos fora do matrimónio. Tivestes sorte, porque minha mãe nunca abandonou os filhos bastardos, nem tão-pouco as suas mães. Procurou dar a todos uma posição e colocou um especial empenho no vosso caso. Fostes criado no nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo eclesiástico...

Mas sou um bastardo. Somos todos iguais perante os olhos de Deus. No dia do Juízo Final não vos perguntarão pelo momento nem pela circunstância do vosso nascimento, apenas por aquilo que fizestes nesta vida. Julián, aterrado, começou a tossir convulsivamente enquanto Fernando tentava em vão fazê-lo beber água. Acalmai-vos e bebei água! Mas, que vos está a acontecer? O juízo de Deus..., sei que irei para o inferno. O frade tremia e as lágrimas deslizavam-lhe pelas faces. A angústia e o medo converteram o escrivão da inquisição numa criança. Mas, Julián, qual a vossa culpa para que vos sintais assim? Vossa mãe, é ela a culpada do meu sofrimento! Calai-vos! Como vos atreveis a dizer tamanha barbaridade! As lágrimas inundaram o rosto do frade que, por entre fortes convulsões, caiu no austero catre onde dormia. Fernando não sabia que fazer. Sentia pena ao ver o estado de Julián, a quem sempre quisera e protegera, e que preferia ao resto dos seus irmãos. É uma sorte que tenha vindo connosco o cavaleiro Armand. É um físico bom e no Oriente aumentou os seus conhecimentos. Pedir-lhe-ei que vos visite e vos dê um remédio para o mal que vos apoquenta. Agora tenho de ir. Amanhã, voltarei para vos ver. Fernando saiu da tenda, intrigado pelo sofrimento de Julián. Preocupava-o, mais que o padecimento físico do irmão, saber que tinha a alma apoquentada.

Julián permaneceu um bom bocado encolhido no catre. Nem sequer se mexeu quando frei Pèire lhe levou a sopa, o pão e o vinho. Preferiu fingir que estava a dormir para não ter que se confrontar com outra conversa acerca do seu calamitoso estado de saúde. Quando deixou de ouvir os passos de frei Pèire, sentou-se para molhar o pedaço de pão no vinho de sabor áspero que algumas vezes lhe conseguia levantar o ânimo. Bebeu de uma só vez a sopa e voltou a estender-se, à espera que se desvanecessem os ruídos do acampamento para acudir ao pedido de dona Maria. O homem que lhe entregara a mensagem da senhora esperá-lo-ia no exterior do acampamento para o conduzir através dos penhascos até ao lugar onde se devia encontrar com ela. Não soube quanto tempo passara quando ouviu um ruído perto da tenda. Sentou-se sobressaltado, consciente de que adormecera. Conseguiu levantar-se a muito custo e serviu-se de um copo de água, que bebeu com sofreguidão. De seguida, enxaguou o rosto, vestiu o hábito amarrotado, e saiu silenciosamente da tenda. Sentia que as pancadas do coração podiam despertar o acampamento que nesse momento estava tranquilo, iluminado pelas chamas das fogueiras que tentavam aliviar o frio intenso daquela noite de Inverno». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

 JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros, 

O Sangue dos Inocentes. Julia Navarro. «… somos filhos obedientes da Igreja, pediram os nossos serviços por isso aqui estamos. Outra coisa é aquilo que faremos. Deus seja louvado!»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Um dos camponeses da zona, que fornece o senescal com o queijo das suas cabras, conseguiu entrar na minha tenda para me entregar a carta de dona Maria. As suas instruções são precisas: quando a noite cair, devo abandonar o acampamento e caminhar até à entrada do vale. Ali alguém me levará pelas passagens secretas que sei conduzirem a Montségur. Se Hugues des Arcis soubesse da sua existência pagar-me-ia bem pela informação, ou talvez me mandasse castigar por não lhas ter revelado há mais tempo. A tarde torna-se eterna. Oiço passos, quem será? Estais bem, Julián? Frei Pèire alarmou-me ao dizer que estáveis com febre. O frade levantou-se de um salto e abraçou o homem alto e robusto que acabava de entrar na tenda sem autorização. Era o irmão. Por um instante, sentiu-se melhor, como quando era criança e se sentia protegido pela figura imponente de Fernando, o qual era capaz de derrubar com um soco qualquer pessoa que se aproximasse. Mas era sobretudo o olhar sereno e confiante que desarmava os seus adversários, e fazia com que os  amigos se sentissem seguros. Fernando, vós aqui? Que alegria! Quando chegastes? Há apenas uma hora que chegámos ao acampamento. Chegaram? Sim, eu com mais cinco cavaleiros. O bispo de Albi, Durand de Belcaire, pediu ajuda ao grão-mestre. O nosso irmão Arthur Bonard é um engenheiro hábil, tal como o bispo.

Há já dias que chegaram os reforços que o bispo enviou ao nosso senhor Hugues des Arcis. Mas não sabia que também tinha pedido ajuda ao Templo. É um homem de Deus aquele que gosta da guerra, já que é capaz de imaginar todos os tipos de máquinas e artefactos para destruir o inimigo. Presumo que terá outras virtudes..., respondeu Fernando com um sorriso. Oh, sim! Discursa aos soldados quase melhor do que o senhor Des Arcis. Bem, não está nada mal para um bispo, troçou Fernando. Dizei-me, os templários querem acabar com os bons homens? Ouvi rumores de que não gostam de perseguir cristãos. Fernando demorou a responder. De seguida, suspirou e disse em voz baixa: Não façais caso dos rumores. Isso não é uma resposta. Não confiais em mim? Claro que sim! Sois meu irmão! Bem, dar-vos-ei uma resposta. Os cristãos eram adversários poderosos, demasiados para perder energias a combater entre nós. Que dano causam os bons homens? Vivem como verdadeiros cristãos, e dão testemunho de pobreza. Mas renegam a Cruz! Não vêem Nosso Senhor nela. Consideram a Cruz como um símbolo, como o lugar onde foi crucificado. Mas não sou teólogo, sou um simples soldado. E também monge. Cumpro com Deus como me manda a Santa Madre Igreja, embora isso não signifique que não possa pensar. Não gosto de perseguir cristãos. Nem vós nem aqueles que pertencem à vossa Ordem, replicou Julián. E vós, gostais de ver mulheres e crianças a arder nas fogueiras?

A pergunta de Fernando provocou-lhe náuseas. Que Deus os guarde no Seu seio!, exclamou Julián, enquanto se persignava. A Igreja garante que estão no inferno, asseverou Fernando em tom de troça. Não nos aflijamos e conformemo-nos com a situação. Nem a vós, nem a mim, agradam as mortes dos inocentes. Quanto ao Templo.., somos filhos obedientes da Igreja, pediram os nossos serviços por isso aqui estamos. Outra coisa é aquilo que faremos. Deus seja louvado! Desse modo, estais aqui mas como se não... Qualquer coisa parecida. Tende cuidado, Fernando. Encontra-se entre nós frei Ferrer, que vê heresia até no silêncio. Frei Ferrer? Devo confessar-vos que as notícias que ouvi dele são inquietantes. Porque está aqui? Dirige a nossa ordem e jurou fazer justiça, ao mandar para a fogueira os assassinos dos nossos irmãos. Referi-vos aos dominicanos assassinados em Avignon? Assim é. Chegaram a essa cidade em busca de hereges. Acompanhavam—nos oito escrivães que foram vítimas de uma emboscada. Raimundo de Alfaro, o administrador do conde de Toulouse em Avignon, autorizou o seu assassinato. Mas isso não está provado, contestou Fernando. Duvidais, senhor?, ouviram nas suas costas.

Julián e Fernando voltaram-se, surpreendidos. Frei Ferrer acabava de entrar na tenda e ouvira as últimas palavras. Fernando não se alterou, apesar do olhar carregado de reprovação com que o inquisidor o observava. Vós sois...? Frei Ferrer, respondeu o dominicano, e perguntava-vos se duvidais da cumplicidade de Alfaro no assassinato dos meus dois irmãos. Não existem provas de que isso tenha acontecido. Provas?, trovejou frei Ferrer. Sabei que Alfaro alojou os meus irmãos na torre de menagem do castelo, onde ninguém lhes pudesse prestar socorro, longe de qualquer olhar. Sabei também que foram assassinados a meio da noite por um destacamento de hereges saído daqui, de Montségur, este ninho de iniquidade que Deus destruirá. A Igreja não perdoará esta afronta. Esses a que chamam Bons Cristãos são um bando de assassinos. Julián olhava-o aterrorizado e incapaz de se mover. Fernando avaliou o dominicano e decidiu que seria um erro entrar em conflito com ele. Ignoro os pormenores do ocorrido. Se dizeis que foi assim, então que seja. Frei Ferrer cravou os olhos em Julián, que parecia prestes a desmaiar. Frei Pèire insistiu que não vos viesse ver porque necessitais de repousar, mas faltaria à piedade e à caridade se não me preocupasse convosco. Vejo que estais acompanhado, e visitar-vos-ei noutra altura. Frei Ferrer saiu com a mesma rapidez com que os surpreendera. Vamos, não vos assusteis, vi-vos empalidecer, riu-se Fernando. É vosso irmão em Deus. Vós.., vós não o conheceis, murmurou Julián. Não gostaria de estar no lugar dos hereges. Receio que algo que falta a este frei Ferrer seja a compaixão». In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

 DACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros,

O Sangue dos Inocentes. Julia Navarro. «Está muito enfermo, a gota quase que o impede de andar, e sofre de espasmos no coração. A mais velha das minhas irmãs trata dele com devoção. Já sabeis que dona Marta enviuvou…»

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Languedoq meados do sécalo XIII

«(…) Presumo que sabeis que vossa mãe continua em Montségur, acompanhada pela mais nova de vossas irmãs. Fernando assentiu com uma expressão séria e preocupada. Evocar a mãe, dona Maria, causou-lhe uma dor repentina no peito. Nunca a sentira muito próxima, apesar de lhe querer mais até do que ao próprio pai. Enérgica e inquieta, não prodigalizara demasiadas carícias entre os filhos, por muito que quisesse a todos e os protegesse, procurando-lhes um futuro. Eu..., bem..., vi-a nalgumas ocasiões, confessou Julián. Não é de estranhar, o castelo nunca esteve incomunicável. Sabemos que alguns dos seus homens sobem e descem por passagens secretas que apenas eles conhecem. Minha mãe enviou-me uma carta não há muito tempo. Escreveu-vos?, perguntou Julián, assustado. Só a senhora se poderia atrever a fazer algo assim! Não vos preocupeis. Minha mãe é inteligente e não nos colocou em perigo. Recebi a missiva através de um pajem da casa de minha irmã Marian. Já sabeis que seu esposo, dom Bertran d'Amis, serve o conde Raimundo, de modo que Marian recebe notícias frequentes de minha mãe. Agora que estou aqui tentarei visitá-la, não sei bem como..., talvez me possais ajudar. Nem sequer o deveis tentar! O meu senhor Hugues des Arcis matar-vos-ia, e o bispo excomungar-vos-ia.

Saberei encontrar um modo, meu bom Julián. Tentarei convencê-la a abandonar Montségur ou, pelo menos, que o permita a minha irmã Teresa, que mal deixou a infância. Mais tarde ou mais cedo, o castelo será conquistado e..., bem, vós sabeis tão bem quanto eu: não haverá piedade para os cátaros. Tentarei convencê-la, devo-o a meu pai, ao nosso pai. Julián baixou a cabeça envergonhado. Doíam-lhe as entranhas ao saber-se um bastardo de dom Juan de Aínsa. Vamos, Julián, não vos quero ver abatido! Julián sentou-se e serviu-se de um jarro de água que bebeu com sofreguidão sem o oferecer a Fernando. Este esperou em silêncio até que o irmão reencontrasse o sossego antes de prosseguir. Estivestes com dom Juan?, perguntou Julián num fio de voz. Há muitos anos, de regresso a este país, consegui desviar-me e passar por Aínsa para visitar nosso pai. Estive apenas dois dias com ele, mas foi o suficiente para nos inteirarmos um do outro. Continua a amar minha mãe tanto como no dia em que a desposou e o destino dela angustia-o. Pediu-me que a salvasse, a ela e à minha irmã mais nova. Prometi-lhe que faria o impossível para que abandonasse Montségur, embora ambos saibamos que minha mãe não deixará o castelo, que defrontará a própria morte porque não teme nada nem ninguém, nem sequer Deus.

Dom Juan encontra-se bem de saúde? Está muito enfermo, a gota quase que o impede de andar, e sofre de espasmos no coração. A mais velha das minhas irmãs trata dele com devoção. Já sabeis que dona Marta enviuvou e regressou à casa paterna com seus dois filhos, em busca da protecção de nosso pai. Dona Marta sempre foi a sua filha favorita. É a mais velha de todos nós e durante algum tempo parecia que ia ser a sua única filha, já que minha mãe não engravidava. Com excepção, claro, dos outros filhos que meu pai teve... Sim, os seus bastardos. Dom Juan amava dona Maria, mas nunca teve pejo em tomar outras donzelas. Vossa mãe era muito formosa. Sim, devia sê-lo, nunca tive o prazer de a conhecer. Os dois homens ficaram em silêncio, cada um absorto nos seus pensamentos. O ar frio e o pigarro de frei Pèire devolveu-os à realidade. Desculpai-me, dom Fernando, vinha comprovar se frei Julián se encontrava bem. Não sei se se sentirá com forças para jantar connosco ou se prefere que lhe tragamos até aqui a refeição...» In Julia Navarro, O Sangue dos Inocentes, 2007, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-182-5.

Cortesia de BertandE/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Cátaros, 

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Além do mais, ela completa com uma cotovelada descontraída, parece que nada que você fizer vai estar errado. Irmã, isso não é brincadeira. Há um preço para esse tipo de vantagem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ela rola o pequeno cavalo branco sobre o lábio inferior. É macio como manteiga. Em algum momento, talvez eu possa casar-me novamente. Eu poderia torná-la rainha, ele declara. Katherine sente gotículas de saliva perto da orelha. Está brincando, majestade, diz, forçando uma pequena gargalhada. Talvez, ele grunhe. Talvez não. Ele quer filhos. Todos sabem que ele quer filhos. Anne Bassett lhe daria muitos bebés, ou uma garota dos Talbot, dos Percy ou dos Howard. Não, não uma Howard, ele teve duas rainhas Howard e mandou ambas para o patíbulo. Ele quer filhos e Katherine não teve nada em dois casamentos a não ser um bebé morto secreto. A ideia cai sobre ela como uma bala de canhão: a ideia de fazer um filho com Seymour, o belo Seymour, um homem no auge da vida. Seria um pecado que tal homem não procriasse. Katherine se repreende silenciosamente por alimentar um pensamento tão ridículo. Mas ele se recusa a ser reprimido e fica germinando ali no fundo. Ela precisa de toda a sua força de vontade para manter os olhos afastados de Seymour, para se concentrar no jogo e agradar ao rei. Katherine vence.

O pequeno grupo de espectadores recua um pouco, como uma multidão prevendo uma grande explosão, quando ela exclama: Xeque-mate. É disso que gostamos em você, Katherine Parr, diz o rei, rindo. Os observadores relaxam. Você não nos diverte perdendo, como todos os outros que pensam que nos agrada sempre vencer. Ele segura sua mão. Você é honesta, completa, puxando-a para perto, acariciando seu rosto com dedos encerados. A sala observa e Katherine está ciente do sorriso irreverente do irmão quando o rei faz uma concha com as mãos, aperta sua boca húmida na orelha dela e murmura: Venha ver-nos em particular mais tarde. Katherine se debate em busca de resposta. Majestade, fico honrada, diz. Profundamente honrada que queira passar tempo sozinho comigo. Mas com meu marido falecido tão recentemente, eu… Ele põe um dedo sobre os lábios dela para silenciá-la, dizendo: Não precisa explicar. Sua lealdade brilha. Admiramos isso. Você precisa de tempo. E terá para ficar de luto pelo seu marido. Nisso faz sinal para que um dos seus arautos o ajude a se levantar da cadeira e, apoiando todo o peso nele, manca em direcção à porta, seguido pela sua comitiva. Katherine vê o arauto tropeçar no pé do rei. O braço do rei voa, dando-lhe uma forte bofetada no rosto, como a língua de um sapo apanha uma mosca. O barulho da conversa para.

Saia da minha frente, idiota. Quer que lhe cortem o pé por ser desastrado?, diz o rei num rugido, fazendo o pobre arauto fugir às pressas assustado. Outro toma o seu lugar e tudo continua como antes. É como se nada tivesse acontecido, ninguém comenta. Enquanto procura a irmã, Katherine pode sentir que a atmosfera da sala mudou, voltou-se para ela. As pessoas abrem espaço para ela passar, lançando elogios como flores, mas Anne Bassett e sua mãe olham de soslaio do outro lado da sala. Sua irmã é como uma ilha nesse mar dissimulado. Preciso sair deste lugar, Anne, ela diz. Lady Mary se retirou, ninguém vai se importar se você for, a irmã responde. Além do mais, ela completa com uma cotovelada descontraída, parece que nada que você fizer vai estar errado. Irmã, isso não é brincadeira. Há um preço para esse tipo de vantagem. Você está certa, diz Anne, de repente séria. Estão ambas pensando em todas aquelas rainhas infelizes. Ele só estava seduzindo. Ele é o rei…, tem o direito de fazer isso, imagino…, não é nada sério…, Katherine diz atropelando as palavras. Mas é melhor eu ficar longe da corte por algum tempo. Anne assenta com a cabeça. Vou acompanhá-la até a porta. Está quase escuro no pátio e finos flocos de neve brilham na luz das tochas debaixo das arcadas. Boa parte da neve suja está novamente congelada e os criados pisam com cuidado sobre as pedras. Um grande grupo chega, desce dos cavalos fazendo barulho, e a quantidade de pajens e arautos que aparecem para recebê-los sugere que devem ter certa importância. Katherine nota os olhos arregalados e o sorriso de desprezo de Anne Stanhope, que ela conhece desde a infância, uma menina vingativa e arrogante com quem partilhou por vezes a sala de aula real, tantos anos atrás. Stanhope desliza diante delas, de nariz empinado, empurrando o vestido de Anne com o ombro ao passar, como se não a tivesse visto, sem cumprimentar nenhuma das irmãs Parr». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

Elizabeth Fremantle, JDACT, Literatura, O Saber, 

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá…»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Toda uma cultura e sua religião pesam sobre cada muçulmano, mas o maior dos pesos recai desproporcionalmente sobre os ombros da mulher. Somos obrigadas a obedecer e somos obrigadas a viver na castidade e na vergonha por Alá, pelo Profeta e pelos pais e maridos que são nossos guardiões. As mulheres na Whitechapel Road carregam o fardo de todas as obrigações e regras religiosas que, no Islão, se concentram de forma obsessiva nas mulheres, com a mesma inexorabilidade que observam suas irmãs na África Oriental. Eu ainda sentia a dor provocada pela ideia de ter manchado o bom nome do meu pai. Por ser uma apóstata, uma descrente, por viver agora como uma mulher ocidental, eu o tinha magoado, prejudicado e até profanado com minha rebelião. Mas eu sabia também que aquilo era necessário, vital. Sahra tinha adoptado o caminho inverso. Ela não se rebolou. Magool me dissera que Sahra era muito religiosa e que usava o jilbab, um longo roupão preto que cobre o cabelo e todo o corpo além dos tornozelos e pulsos, mas não o rosto. O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá e à autoridade dos homens. O véu muçulmano, os diferentes tipos de máscaras e burcas, são gradações da escravidão mental. É preciso pedir permissão para sair de casa, e, quando saímos, somos invariavelmente obrigadas a nos esconder sob tecidos espessos. Envergonhadas do próprio corpo, suprimindo nossos desejos, sobra algum espaço na vida, por menor que seja, para ser chamado de nosso?

O véu marca deliberadamente as mulheres como propriedade particular e restrita, como não pessoas. O véu separa as mulheres dos homens e do mundo; ele as restringe, confina, educa para a docilidade. A mente pode receber um espaço tão limitado quanto o corpo, e o véu muçulmano restringe tanto a visão da mulher quanto o seu destino. Trata-se da marca de uma espécie de apartheid, reflectindo não a dominação de uma raça, mas de um género. Enquanto o carro avançava pela Whitechapel Road, senti raiva ao ver que essa submissão, ainda que não fosse promovida, era silenciosamente tolerada não apenas pelos britânicos, mas por tantas sociedades ocidentais nas quais a igualdade entre os sexos é protegida pela lei.

Do aeroporto, telefonei para Sahra e contei que tinha ido visitar o nosso pai e estava partindo de volta para os Estados Unidos. Você foi realmente abençoada com a boa sorte!, disse em somali, rindo com a brincadeira que fizera com o meu nome, Ayaan, afortunada. Desde que falou com ele pelo telefone semanas atrás, ele não parou de falar a seu respeito. Conversamos um pouco sobre a família. Tomei o cuidado de não dizer nada que ela pudesse considerar ofensivo. Perguntei à minha irmã porque o hospital tinha internado o pai sob um nome falso, e ela respondeu: Ah, este é o nome que ele usou quando pediu asilo no Reino Unido. Conversamos sobre o hospital, e Sahra me contou uma história engraçada. Quando meu pai foi levado para lá, a mãe dela disse aos enfermeiros que era esposa dele; então sua primeira mulher, Maryan Farah, foi visitá-lo, pois também morava na Inglaterra, e disse aos enfermeiros que ela era a mulher do meu pai. A equipe do hospital parecia se divertir com o número impossível de pessoas que afirmavam ser irmãos e primos dele. Eu ri. Eles devem pensar que somos todos loucos, disse Sahra. Eu disse a ela que provavelmente aquela não era a primeira vez que o hospital via uma situação do tipo.

À semelhança da mãe, cada frase dita por Sahra parecia terminar em Inshallah, é a vontade de Alá. De início, isso me pareceu um sinal de bom comportamento e de um alto grau de civilização, mas, depois de tantos suspiros de aceitação, tantas invocações da vontade de Alá e tantos pedidos pela bênção de Alá, envergonho-me de admitir que aquilo começou a me irritar. Passei a desconfiar dela; Sahra não era mais a criança feliz e saltitante que conheci em 1992». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Ayaan Hirsi Ali, Direitos Humanos, JDACT, Literatura,

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «O serviço militar era uma ocupação para toda a vida e, supostamente, bem remunerada. Ainda assim, não havia muito entusiasmo entre as camadas mais civilizadas do Império, sendo a evasão generalizada»

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Sociedade e Economia

«(…) Contudo, este valor, não inclui os limitanei, pelo que poderá eventualmente representar antes um aumento em vez de uma diminuição. Simultaneamente, devemo-nos lembrar que uma força expedicionária tinha normalmente entre dez mil e vinte e cinco mil homens, e um exército de cerca de cinquenta mil, como aquele que eventualmente terá sido accionado contra a Pérsia, era consideravelmente grande. O serviço militar era uma ocupação para toda a vida e, supostamente, bem remunerada. Ainda assim, não havia muito entusiasmo entre as camadas mais civilizadas do Império, sendo a evasão generalizada. Na altura do reinado de Justiniano, o recrutamento havia-se tornado voluntário e dependia em grande parte das províncias mais vigorosas, como a llíria, a Trácia e a lsáuria, onde a vida militar era já tradicional. Também se utilizavam muito os bárbaros, tais como os Godos, os Hunos e os Citas, que ou haviam sido criados em casa, ou tirados de tribos fronteiriças aliadas ao Império (foederati). Contudo, a lealdade destes últimos nem sempre podia ser tida como certa. No Período Inicial os comandos militar e civil estavam geralmente separados, embora na segunda metade do século VI se tivessem começado a fundir em algumas províncias mais inseguras (particularmente em África e na Itália). Havia, assim, uma hierarquia nas tropas do exército, culminando em vários magistri militum, bem como uma hierarquia civil preocupada com a justiça, com as finanças e com o funcionamento de vários serviços, tais como os postos públicos (cursus publicus), o Estado policial e o serviço secreto (magistriani ou agentes in rebus), entre outros. A administração das províncias estava nas mãos dos chefes de prefeitura pretorianos, agora destituídos da autoridade militar que detinham anteriormente, havendo descido a vicarii das dioceses e governadores das províncias. Constantinopla, como Roma, tinha uma administração separada sob a alçada de prefeitos urbanos. Dever-se-á referir que, enquanto os escalões médio e baixo dos funcionários do Estado gozavam da segurança que lhes conferia o título de posse, ao ponto da efectiva irremovibilidade, os oficiais superiores possuíam esse benefício apenas por um breve período de tempo. Alguns historiadores têm falado de um estrangulamento burocrático do Império Romano Tardio, no entanto, pelos padrões modernos, o número mínimo de funcionários do Estado era reduzido: calcula-se que ao todo não haveria mais de trinta mil a quarenta mil no Oriente e no Ocidente, conjuntamente (400 d.C.). A razão traduz-se pelo facto de serem as cidades a tratar dos seus próprios assuntos através dos conselhos municipais (curiae), compostos por proprietários locais. Estes últimos, normalmente chamados decuriões, formavam uma classe razoavelmente numerosa. Se presumirmos que haveria cerca de duzentos por cidade, o número total no Oriente terá sido perto dos duzentos mil. A sua importância para a história da civilização, todavia, ultrapassa largamente a sua força numérica, visto que a elite intelectual do Império, as profissões liberais, os escalões superiores da Igreja e uma grande parte dos cargos de função pública eram preenchidos por membros da classe dos decuriões. Havemos de considerá-los com mais pormenor. É lugar-comum da história romana do Período Tardio que a pequena nobreza municipal estava em declínio. Independentemente da tolerância relativamente a reivindicações por interesses pessoais de que os membros desta classe beneficiavam (sendo Libanus o exemplo mais frequentemente citado), o facto é que os decuriões de Constantino a Justiniano se esforçaram bastante no sentido de fugir às suas responsabilidades, que eram, de um modo geral, vistas como uma servidão. Do ponto de vista da lei, todos os proprietários que alcançavam uma reserva de propriedade estabelecida eram obrigados a servir nos conselhos, e os seus herdeiros a segui-los. Eram, colectivamente, responsáveis pelos trabalhos municipais, pela reparação dos edifícios públicos, aquedutos e fortificações, por manter as ruas e os esgotos limpos, pela organização de espectáculos, por vigiar o mercado, pela manutenção dos postos de serviço e por todos os deveres extraordinários impostos pelo Estado, tais como alojar os soldados, fazer as compras necessárias para reunir provisões, recrutar homens para o exército (quando o recrutamento era preciso), etc. As cidades, por seu lado, possuíam recursos provenientes dos impostos da terra e do mercado que faziam face às despesas necessárias. Ainda assim, os decuriões tinham normalmente de abrir os cordões à bolsa. Embora os encargos inerentes à sua função fossem respeitáveis, não admira que explorassem todas as escapatórias possíveis para os evitar. A forma mais comum de serem dispensados consistia em juntarem-se aos funcionários do Estado ou aos do senado de Constantinopla (apesar das várias leis que o proibiam), a fim de entrarem na Igreja ou de se tornarem professores no serviço público. Alguns nunca casavam para não deixar um herdeiro legítimo. Outros simplesmente fugiam. O resultado desta pressão contínua foi a ruptura da classe curial: os membros mais pobres desapareceram, enquanto os ricos ficaram mais ricos à custa dos seus vizinhos». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

 JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento, 

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «A seguir às reformas de Constantino, o exército passou a ser composto por dois organismos principais: uma força móvel de comitatenses e uma milícia de limitanei, cujos números para o Império do Oriente foram, cerca de cem mil e duzentos e cinquenta mil homens»

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Sociedade e Economia

«(…) Em teoria, a autoridade do imperador não tinha limites, excepto aqueles impostos pelas leis divinas. No capítulo pf 12 avaliar-se-á a definição ideal de imperador bizantino. No entanto, aqui, estamos preocupados com a prática, e, na prática, o imperador era um homem que habitava o palácio imperial de Constantinopla, longe dos olhares públicos, rodeado pela sua corte. Mais do que nunca, devia a sua posição a um princípio de hereditariedade mal formulado, mas respeitado; em alternativa, poderá ter sido apontado pelo seu antecessor, escolhido por um grupo influente ou pode ter ficado a dever o trono a uma rebelião bem-sucedida. Por mais estranho que pareça, o Estado bizantino nunca desenvolveu uma teoria de sucessão imperial. Um homem tomava-se imperador por vontade de Deus, a eleição era assinalada pela aclamação por parte do exército e do senado e oficializada, a partir do século V, por uma coroação religiosa realizada pelo patriarca de Constantinopla. Para quem observava de fora, este sistema parecia curiosamente instável e mal definido: alguns autores árabes acreditavam que o imperador romano devia a sua posição a uma vitória e seria dispensado se não tivesse êxito. Mas, quaisquer que fossem as circunstâncias da tomada de posse do imperador, este não poderia governar o Império sozinho. Os seus principais ministros seriam escolhidos a seu bel-prazer e o poder efectivo que os mesmos exerciam não era expresso pelos seus títulos. Alguns imperadores, os mais fortes, assumiram um papel preponderante na condução dos assuntos, enquanto outros ficavam satisfeitos se os pudessem relegar à responsabilidade de um parente ou a um ou mais oficiais do Estado. Embora se acreditasse, de um modo geral, que o imperador tinha o dever de liderar o seu exército no campo de batalha, muitos imperadores não o faziam, quer fosse por incapacidade pessoal, quer porque receavam uma rebelião na capital durante a sua ausência. Existem tantas variações, que o mais correcto é falarmos de um governo em termos do palácio imperial e não em termos do imperador. A sociedade a que o imperador presidia devia supostamente ser governada com base na ordem. As partes constituintes são descritas de várias maneiras nas nossas fontes. Às vezes encontramos um sistema tripartido: exército, clero e agricultores. Também nos é dito que o exército se situava na primeira linha da organização política, ou que as ocupações fundamentais eram a agricultura e o serviço militar, em que os agricultores alimentavam os soldados, enquanto os soldados protegiam os agricultores. Do século VI, existe uma classificação muito mais complexa da sociedade civil, na qual se distinguem dez categorias, nomeadamente: 1) o clero; 2) os juízes; 3) os senadores; 4) os financeiros; 5) os técnicos profissionais; 6) os comerciantes; 7) os artesãos e produtores de matérias-primas; 8) os servos; 9) os inválidos (ou melhor, e por outras palavras, os idosos, os doentes e os loucos); 10) os artistas (cocheiros, músicos, actores) .

Por mais interessantes que estas classificações possam ser, elas não nos revelam o funcionamento da sociedade bizantina. Antes de tentarmos construir um modelo mais realista, devíamos começar pelo Período Inicial, e considerar, por momentos, os serviços do Estado, o governo municipal, a Igreja, os ofícios e profissões urbanos e, finalmente, as actividades agrícolas. Todo o serviço imperial, quer militar quer civil, era designado pelo termo militia (strateia em grego). Dentro dele, o exército formava o maior grupo: a sua força total para o Oriente e para o Ocidente em finais do século IV era composta por seiscentos e cinquenta mil soldados. Não nos devemos surpreender com um número que poderia parecer, à partida, elevado, se tivermos em conta que estamos perante uma população total de provavelmente mais de quarenta milhões de habitantes. Porém, tratar-se-á, por outro lado, de um número efectivamente alto, considerando-se o modo como o baixo rendimento da economia bizantina do Período Tardio constituíra um fardo considerável sobre a sociedade. A seguir às reformas de Constantino, o exército passou a ser composto por dois organismos principais: uma força móvel de comitatenses e uma milícia de limitanei, cujos números para o Império do Oriente foram, respectivamente, cerca de cem mil e duzentos e cinquenta mil homens. Os comitatenses não tinham acampamentos permanentes, sendo habitualmente alojados nas cidades, onde poderiam ser chamados a desempenhar deveres policiais (o Império não tinha uma força policial regular). Alguns queixavam-se de que, como resultado, os soldados tornavam-se brandos e impunham privações insuportáveis nas cidades que não precisavam de protecção. Os limitanei, por outro lado, eram recrutados localmente entre os agricultores, os quais se encarregavam do fornecimento às guarnições militares dos fortes fronteiriços, nos períodos em que não estavam a trabalhar no cultivo dos campos. Não eram vistos como sendo particularmente eficazes. O historiador Agathias destaca que Justiniano, o maior dos conquistadores bizantinos, não tinha mais de cento e cinquenta mil homens armados espalhados pelas várias províncias, na fase final do seu reinado, quando a defesa do Império necessitaria de quatro vezes mais homens». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento,

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «Porque o que parece ter motivado os Sírios e os monofisitas egípcios não terá sido, tanto a sua crença em alguma questão da doutrina que lhes interessava, antes a sua lealdade à sua própria Igreja»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) A identidade religiosa era muitas vezes mais sentida do que a identidade regional. Tivesse a Igreja sido mais intolerante, e poderia bem ser que os diferentes grupos religiosos tivessem vivido mais pacificamente lado a lado. Mas, normalmente, havia algum bispo ou monge zeloso que incitava um pogrom, e depois iniciava-se o combate. Não é de admirar que os judeus e alguns pagãos que restavam tivessem experimentado os elementos consistentemente mais desleais do Império. No entanto, dentro da Igreja, a religião e o regionalismo coincidiram até um certo ponto, e talvez aqui resida a chave para os grupos heréticos, que irão ser descritos mais pormenorizadamente em capítulos seguintes. Porque o que parece ter motivado os Sírios e os monofisitas egípcios não terá sido, tanto a sua crença em alguma questão da doutrina que lhes interessava, antes a sua lealdade à sua própria Igreja, o seu bispo e o homem santo da sua aldeia. Sempre que um grupo cristão dissidente houvesse instalado uma base territorial de forma consolidada, todas as tentativas de se lhe impor uma uniformização levavam ao fracasso da ortodoxia imperial. No Período Inicial bizantino a ideia de Romanitas continha pouca força, o que se revelou ainda mais verdadeiro no que respeita ao Período Médio, quando a velha capital imperial havia retrocedido um pouco para o deserto cítico e a língua latina fora esquecida. Até em contextos de confronto internacional, o factor emotivo estava mais associado à identidade cristã do que à identidade romana. Com efeito, quando em 922 Romano I Lecapeno instigou os seus oficiais do exército a montar uma defesa audaz contra Simeão da Bulgária, fizeram-se votos de morrer em nome dos cristãos. E note-se que os próprios Búlgaros também se apelidavam nesta altura de cristãos. Contudo, sublinhe-se que nenhum termo novo emergiu para referir a identidade do Império como um todo. Nem tal foi muito necessário no quotidiano das populações. Quando, no início do século IX, São Gregório, o Decapolita, natural do Sul da Ásia Menor, desembarcou no porto de Ainos na Trácia, foi prontamente preso pela polícia imperial e sujeito a uma bastonada. Não se sabe bem porquê, talvez porque se parecesse com um árabe. Foi-lhe depois perguntado: Quem é você, e qual a sua religião? A resposta foi: Sou um cristão, os meus pais são tal e tal pessoa, e faço parte da crença ortodoxa. A religião e a origem geográfica constituíam o seu passaporte. Não lhe ocorreu descrever-se simplesmente como romano.

Sociedade e Economia

Diz-se que um abade do século VI se terá dirigido com estas palavras a um noviço: Se o imperador terreno pretendia nomeá-lo patrício ou camareiro, dar-lhe dignidade no seu palácio (esse palácio que irá desaparecer como uma sombra, ou um sonho), não iria desprezar rodas as suas posses e correr para ele com roda a prontidão? Não estaria disposto a passar por todo o ripo de dor e de trabalhos, até arriscar a própria vida para poder testemunhar o dia em que o imperador, na presença do seu senado, o recebesse e acolhesse no seu serviço? Poucos Bizantinos, podemos imaginar, ter-se-ão comportado de forma diferente, visto que a característica mais óbvia do Estado bizantino era o poder esmagador do governo central. Excepto as rebeliões, não havia uma força eficaz para contrabalançar esse poder excepto no atraso, ineficiência, corrupção ou simples distância. Isto permaneceu verdade até à desintegração gradual do governo central, que podemos situar aproximadamente no século XI». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

 JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento,

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Após uma viagem curta a bordo de um veículo utilitário, serpenteando por entre as vans de empresas que forneciam comida às companhias aéreas e os caminhões de combustível…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Embora eu nunca tivesse falado sobre ele com meus pais, os dois com certeza sabiam que eu já tivera meu quinhão de desilusões amorosas. Na realidade, eu às vezes desconfiava que a obsessão insistente de minha mãe com James Moselane era apenas o seu modo de consolar a nós duas. E que consolo maior poderia haver do que imaginar um futuro ideal em que eu morava na propriedade bem ao lado da sua casa, feliz para sempre?

Quando o Sr. Ludwig voltou, guardei a revista e tirei meu casaco de cima da cadeira para ele poder se sentar ao meu lado. Obrigada, agradeci ao pegar um dos cafés. O calor do copo foi uma bênção para minhas mãos nervosas. A propósito, o senhor não chegou a me dizer o nome da fundação que está pagando este nosso luxo. Ele removeu a tampa do seu café. Sou um homem cauteloso. Ele deu um golinho e fez uma careta. O que vocês, britânicos, têm contra o café? Bem, posso lhe dizer o nome: Fundação Skolsky. Açúcar?

Instantes depois, enquanto eu pesquisava freneticamente a Fundação Skolsky no Google, ouvi Ludwig dar uma risadinha e, quando olhei para cima, flagrei-o espiando descaradamente o meu celular. Não vai achar nada on-line, informou-me. O Skolsky prefere ser discreto. Coisas de bilionário. Talvez a intenção dele fosse fazer um comentário bem-humorado, mas não achei graça nenhuma. À nossa volta, o portão de embarque estava coalhado de funcionários da empresa aérea e passageiros com esperança de embarcar na frente, mas eu continuava sem saber quase nada sobre a nossa viagem. Desculpe, mas nunca ouvi falar na Fundação Skolsky, falei. A sede fica em Amsterdão, imagino... Ludwig se abaixou e pôs o copo no chão. Como eu disse, Skolsky é um homem discreto, um empresário interessado em arqueologia. Ele patrocina escavações no mundo inteiro. Encarei-o à espera de mais detalhes. Ele não deu nenhum, então me inclinei um pouco para a frente, deixando bem claro que esperava mais. Como por exemplo...?

Ludwig sorriu, mas algo na expressão predatória de seus olhos me disse que ele estava ficando irritado. Não posso dizer antes de chegarmos lá. É o protocolo da Skolsky. Fiquei tão incomodada com seu jeito desdenhoso que tive uma súbita lembrança do café intragável do aeroporto e das bem-intencionadas palavras de alerta ditas por James na noite anterior. A suposta inscrição das amazonas talvez fosse um trote..., ou coisa pior. Fora o que ele dissera. Peguei-me pensando mais uma vez em qual seria o meu papel em tudo aquilo. Estava ficando claro, e de forma bem desagradável, que Ludwig não sentia mais necessidade de cair nas minhas graças. Cheguei a desconfiar que o súbito declínio dos seus bons modos fosse um prenúncio da semana por vir. Qualquer pessoa normal prestaria atenção nesses sinais de alerta e iria embora enquanto ainda havia tempo. Mas eu não podia. O caderno vermelho da avó escondido na minha bolsa já derrotara o meu bom senso tempos antes. Está pronta?, perguntou Ludwig, pegando seu cartão de embarque. Vamos lá.

Segundos depois, descíamos a ponte de embarque. Eu ainda não sabia porque estávamos a caminho de Amsterdão, mas àquela altura tinha a certeza que seria inútil perguntar. E fiquei ainda mais desnorteada quando, em vez de subir a bordo, Ludwig parou para trocar algumas palavras com um homem de macacão e grandes protectores de ouvido de cor laranja. O homem primeiro me lançou um olhar desconfiado, depois abriu uma porta na lateral do portão de embarque e nos conduziu por alguns degraus instáveis de metal até chegarmos à pista, junto ao avião. Mesmo ali, do lado de fora, o ar estava tomado por barulho e cheiro de combustível queimado. Quando abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, me senti sufocar com a fumaça do jacto e não consegui me fazer ouvir.

Após uma viagem curta a bordo de um veículo utilitário, serpenteando por entre as vans de empresas que forneciam comida às companhias aéreas e os caminhões de combustível, paramos ao lado de outro avião. Só nessa hora, quando vi minha mala trocar de mãos e desaparecer dentro do bagageiro, me abordei de que nosso suposto voo para Amsterdão fora apenas um disfarce cuidadosamente planeado. Mas não houve tempo de questionar o Ludwig sobre a mudança no nosso destino, pois, após um controle de segurança dos mais superficiais, fomos conduzidos depressa ao avião por uma escada de fundos. Belo acessório, comentou Ludwig quando o detector de metais emitiu um bipe ao passar por meu bracelete de bronze. A senhora usa isso como arma? Ainda não, mas posso vir a usar, retruquei, tornando a baixar a manga. Ele não precisava saber que o bracelete pertencera à minha avó e que eu o havia desenterrado da minha gaveta de lingerie poucas horas antes, como um marco inicial daquela inesperada aventura. Até onde Ludwig sabia, eu aceitara viajar por causa do dinheiro e da possível glória académica; não queria que ele descobrisse quanto aquilo era pessoal para mim. Se Skolsky podia se manter discreto, eu também podia». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Poesia. Ainda Bem. «O meu coração já estava aposentado´sem nenhuma ilusão tinha sido maltratado tudo se transformou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ainda Bem

«Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você

Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava, eu não estava afim
Até desacreditei
De mim

O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão

Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio p’ra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou

Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão

Quem diria que a meu lado
Você iria ficar
Você veio p’ra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão

Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou

Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim

Ainda bem»

Poema de Arnaldo Antunes Filho e Marisa Monte 

Cortesia de MonteS e RosaC/JDACT

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O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Mas o que está acontecendo, Señor Juez? Estou em minha casa. Gostaria de saber o que estavam vendo no meu televisor»

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«(…) Seguiram-se mais filmagens nocturnas. O esquema era o mesmo, até que, numa mudança abrupta de cena, a câmera mostrava um corredor, que recebia luz de uma porta aberta, ao fundo à esquerda. Avançou pelo corredor, revelando um quadrado mais claro na parede do fundo, com um gancho por cima dele. Os três homens ficaram subitamente paralisados, porque sabiam que estavam vendo o corredor anexo à sala em que estavam agora sentados. A mão de Ramírez gesticulou nessa direcção. A câmera tremeu. O suspense crescia e aumentava a expectativa dos três investigadores quanto ao horror do que poderia se seguir. A câmera chegou ao limiar da luz, o microfone colheu uns gemidos vindos da sala, um lamento trêmulo e sofrido de alguém que devia estar em tremenda agonia. Falcón queria engolir, mas a garganta se recusava. Não tinha saliva. Mer…, disse Ramírez, para quebrar a tensão. A câmera abriu o plano e entrou na sala. Falcón estava tão abismado que quase esperava vê-los aos três ali sentados, olhando para o aparelho. A câmera começou por focar o televisor, que, com o movimento, mostrava ondas e luzes piscando, mas não sem que se pudesse notar o desempenho explícito de uma mulher mastu… e ch… o se… de um homem, cujas nádegas se apertavam e relaxavam alternadamente. A câmera abriu num plano mais largo e Falcón manteve o pestanejar acelerado dos olhos perante a confusão de sons e as imagens esperadas. De joelhos no tapete persa, olhando para a tela de televisão, estava Raúl Jiménez, com a fralda da camisa caída para os lados, as cuecas no meio da barriga das pernas e as calças atiradas num monte atrás dele. De quatro, à sua frente, estava uma jovem com longos cabelos negros, cuja cabeça hirta informava Falcón de que estava olhando fixamente para um ponto determinado, se imaginando noutro lugar. Emitia os competentes sons de estimulação. Depois, a cabeça começou a se virar e a câmera saltou bruscamente para fora da sala. Falcón se pôs de pé num repente, batendo com as pernas contra a beira da mesa. Ele estava lá, disse. Ele estava... Quer dizer, ele esteve aqui o tempo todo.

Ramírez e Calderón se sobressaltaram nos lugares com a explosão de Falcón. Calderón passou a mão pelo cabelo, visivelmente transtornado. Olhou para a porta de onde a câmera estivera filmando a sala. A cabeça de Falcón estava num torvelinho, sem saber mais o que estava vendo. Imagem ou realidade. Avançou, recuou, tentou apagar a visão que tinha na cabeça. Tinha alguém de pé na soleira da porta. Falcón fechou os olhos com força e voltou a abri-los. Conhecia a pessoa. O tempo desacelerou. Calderón atravessou a sala com uma mão esticada. Señora Jiménez, disse. Juez Esteban Calderón. Os meus sentimentos... Apresentou Ramírez e Falcón; e a Sra. Jiménez, com invulgar dignidade, avançou pela sala como se passasse por cima de um cadáver. Cumprimentou todos com um aperto de mão. Não a esperávamos tão depressa, disse Calderón. Não havia muito trânsito, disse ela. Sobressaltei-o, inspector-chefe? Falcón compôs o semblante, que ainda devia manter vestígios da anterior perturbação. O que estavam vendo? Perguntou ela, assumindo o controle da situação, habituada a fazê-lo. Olharam para a tela. Branco e com ruído de estática. Não a esperávamos... Começou Calderón. Mas o que está acontecendo, Señor Juez? Estou em minha casa. Gostaria de saber o que estavam vendo no meu televisor.

Aproveitando o facto da pressão se centrar em Calderón, Falcón pôde observar a recém-chegada. Apesar de não conhecê-la, distinguia bem o género. Era o tipo de mulher que aparecia na casa do pai, quando o grande artista ainda era vivo, para comprar um dos seus trabalhos mais recentes. Não as obras especiais que o tornaram famoso. Essas já há muito que tinham seguido para coleccionadores americanos e para museus de outras partes do mundo. Este género procurava comprar trabalhos mais acessíveis, sobre Sevilha, pormenores de edifícios: uma porta, uma cúpula de igreja, uma janela, uma varanda. Devia ser uma daquelas mulheres requintadas que, com ou sem um marido aborrecido e rico, gostavam de levar para casa um quinhão do velho». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACTLiteraturaRobert Wilson

O Cego de Sevilha. Robert Wilson. «Perguntou Ramírez. Espantosamente aborrecido, não é? Disse Falcón, sem achar que fosse, se sentindo estranhamente fascinado pela dinâmica do grupo familiar em diferentes locais»

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«(…) A gravação começava com imagens da família Jiménez saindo do Edifício del Presidente. Raúl e Consuelo Jiménez estavam de braço dado. Ela vestia um casaco de peles até aos pés e ele tinha um sobretudo cor de mel. Os rapazes estavam todos vestidos de igual, em verde e cor de vinho. Caminharam em direcção à Câmara, que se encontrava do outro lado da rua, e viraram à esquerda, para a Calle de Asunción. O filme saltava para o mesmo grupo mas com roupas diferentes, num dia de sol, saindo dos armazéns do El Corte Inglês, na Plaza del Duque de la Victoria. Atravessaram a rua em direcção à praça, que estava cheia de vendedores ambulantes de CD’s, carteiras e porta-moedas em pele. O grupo entrou no Marks & Spencer. A família foi sendo mostrada repetidamente, no meio de centros comerciais, em encontros na praia, em passeios na Plaza de España e no Parque de Marta Luisa, até dois dos três homens já estarem abafando os bocejos. Ele está nos mostrando que fez o trabalho de casa? Perguntou Ramírez. Espantosamente aborrecido, não é? Disse Falcón, sem achar que fosse, se sentindo estranhamente fascinado pela dinâmica do grupo familiar em diferentes locais. Vivia fascinado pela ideia de família, especialmente deste tipo, aparentemente feliz, e como seria ter uma; o que o levava a pensar porque teria falhado tão estrondosamente nesse campo. Uma mudança de rumo do filme fê-lo retomar abruptamente a atenção. Era a primeira gravação em que a família não aparecia em grupo. Raúl Jiménez e os filhos estavam no estádio de futebol do Bétis, num dia em que este jogava contra o Sevilla, como era patente pelos cachecóis, o derby local.

Lembro-me deste dia, disse Calderón. Perdemos por 4-0, disse Ramírez. Vocês perderam, disse Calderón. Nós ganhamos. Não me diga, disse Ramírez. Por quem torce, inspetor-chefe? Perguntou Calderón. Falcón não reagiu. Não lhe interessava. Ramírez lançou um olhar por cima do ombro dele, pouco à vontade com a sua presença. A câmera voltava ao Edifício del Presidente. Consuelo Jiménez, sozinha, entrava num táxi. Plano dela pagando o táxi numa rua arborizada, esperando por instantes até que o carro partisse, antes de atravessar a estrada, e subir vários degraus de uma casa. Onde é isto? Perguntou Calderón. Ele vai nos dizer, disse Falcón. Uma série de planos mostrava Consuelo Jiménez chegando à mesma casa em dias diferentes, com diferentes roupas. Depois o número da porta: 17. E o nome da rua: Calle Rio de la Plata. Aquilo é em El Porvenir, disse Ramírez. Isto é o futuro, disse Calderón. Cheira-me que temos aqui um amante.

Plano nocturno e a traseira de um grande Mercedes Classe E com placa de Sevilha. A imagem ficou fixa por um bocado. Ele não imprime grande ritmo ao argumento, disse Calderón, que depressa tinha atingido o seu patamar de saturação. Suspense, disse Falcón. Finalmente, Raúl Jiménez saiu do carro, trancou-o, saiu da zona iluminada da rua para a escuridão. Plano de uma fogueira em plena noite; pessoas à volta das chamas crepitantes. Mulheres com saias curtas, algumas revelando cintos de ligas e os remates das meias. Uma virou, se dobrou e voltou as nádegas para o fogo. Raúl Jiménez apareceu à beira da fogueira. Encetou uma conversa inaudível. Regressou a passos largos para o Mercedes com uma mulher atrás de si, cujos saltos altos a faziam tropeçar no chão irregular. Isto é na Alameda, disse Ramírez. Apenas o mais barato para Raúl Jiménez, disse Falcón. Jiménez empurrou a jovem para o banco de trás, lhe abaixando a cabeça como se fosse um suspeito da polícia. Olhou em redor e entrou atrás dela. O plano fixou a porta traseira do Mercedes, seguindo movimentos obscuros por trás do vidro. Não passou mais de um minuto e Jiménez saiu do carro, apertou a braguilha e estendeu uma nota à jovem, que pegou. Jiménez voltou a sentar-se ao volante. O carro arrancou. Foi uma rapidinha, disse Ramírez, previsível». In Robert Wilson, O Cego de Sevilha, 2003, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-202-615-5.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACTLiteraturaRobert Wilson

O Leito Celestial. Irving Wallace. «Mas seguindo os conselhos de especialistas, Kile sempre fora um investigador sagaz, mesmo na faculdade de direito, em Columbia…»

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«(…) Seus olhos se deslocaram para uma fotografia recente, em moldura de prata, que se encontrava num canto da mesa. A esposa, Miriam, atraente nos seus trinta e poucos anos, o filho risonho, Jonny, uma fonte de alegria. Freeberg pensou na sua idade; já se aproximava dos cinquenta anos, um pouco tarde para o primeiro filho..., mas nem tanto assim. Meneando a cabeça, ele pegou as anotações e tentou se concentrar no que escrevera. Reviu tudo depressa, depois largou os papéis. Já sabia tudo de cor e não precisaria consultar as anotações quando se dirigisse aos novos suplentes sexuais. Tinha ainda quinze minutos de espera antes que os cinco aparecessem. Quase como um relaxamento, pôs-se a reconstituir os acontecimentos dos últimos quatro meses, que o haviam levado àqueles momentos. Reviveu-os no presente. Duas semanas após o telefonema inicial de Freeberg, Roger Kile concluíra suas investigações em Los Angeles, encontrando o local ideal. Só que não exactamente em Los Angeles. Kile fora informado de que nessa cidade já havia muitos terapeutas sexuais, e os lugares mais apropriados estavam sendo vendidos a preços exorbitantes. Mas seguindo os conselhos de especialistas, Kile sempre fora um investigador sagaz, mesmo na faculdade de direito, em Columbia, com um conhecimento e interesses amplos, embora fosse um advogado fiscal, encontrara a comunidade em que o amigo poderia prosperar, a uma hora de carro de Los Angeles, ao norte. O lugar chamava-se Hillsdale, uma cidade em expansão, junto à estrada litoral, perto do oceano Pacífico, com 360 mil habitantes. Havia muitos psiquiatras e psicólogos, mas nenhum terapeuta sexual. Contactos bem informados garantiram a Roger Kile que uma clínica instalada por um terapeuta sexual respeitável em Hillsdale, com uma equipa de suplentes sexuais bem treinados e profissionais, haveria de prosperar. Kile fora informado por diversos médicos que em Hillsdale havia muitas pessoas perturbadas, com disfunções sexuais. Kile procurara dois correctores bem recomendados, que logo o levaram a quatro prédios de escritórios pequenos, que pareciam ser boas possibilidades. Freeberg reconhecera o prédio perfeito de imediato, com dois andares, vazio, desocupado pouco antes por uma cadeia de lojas de roupas, no meio da Market Avenue, perto da Main Street. Tudo fora se ajustando rapidamente. Freeberg contratara um jovem e excelente arquitecto para reformar o prédio nas linhas de sua clínica de Tucson.

Depois, Freeberg voltara de avião a Tucson para liquidar a antiga clínica. Miriam cuidara da venda da casa de adobe, em estilo de rancho, conseguindo um preço igual ao que haviam pago. Foram a Hillsdale quatro vezes no período subsequente. Enquanto Freeberg supervisionava a reforma do prédio da clínica, Miriam procurava uma nova casa. Encontrara uma residência maravilhosa, de um só andar, a aproximadamente cinco quilómetros da nova clínica do marido. Freeberg começara a recrutar o pessoal necessário para a clínica. Por intermédio de um médico que tinha um consultório próximo, doutor Stan Lopez, um clínico que lhe inspirara o maior respeito, Freeberg contratara Suzy Edwards para sua secretária pessoal. Lopez vinha usando Suzy como segunda secretária em meio expediente, e sabia que ela desejava um emprego em horário integral. Freeberg entrevistara Suzy, uma ruiva séria e interessada, com cerca de trinta anos. Ela se mostrara ansiosa pelo emprego, e Freeberg já fora informado de que era uma pessoa de confiança.

Depois, ele contratara Norah Ames como enfermeira e Tess Wilbur como recepcionista. Em seguida, Freeberg enviara cartas pessoais a todos os médicos e psicólogos da região que conhecera em convenções e seminários, comunicando a abertura da Clínica Freeberg, em Hillsdale, Califórnia, oferecendo tratamento intensivo e o uso de suplentes sexuais femininos e masculinos, quando houvesse necessidade. Enquanto aguardava respostas, Freeberg iniciara a busca de suplentes sexuais. A fim de encontrar candidatos, escrevera cartas pessoais para psicanalistas em Hillsdale e terapeutas sexuais em Los Angeles, Santa Barbara, San Francisco, Chicago e Nova York. Em poucas semanas recebera vinte e três solicitações de pessoas que desejavam ser suplentes sexuais. Enquanto isso, recolhera informações a respeito de pacientes que precisavam desesperadamente daquele tipo de terapia. Com base nessas informações, concluíra que precisaria de cinco suplentes sexuais, quatro mulheres e um homem, além dos serviços de Gayle Miller, que em breve deixaria Tucson e viria para Hillsdale. À medida que as candidatas a suplente se apresentavam, Freeberg examinava-as, entrevistando cada uma pessoalmente». In Irving Wallace, O Leito Celestial, 1987, Livros do Brasil, colecção Dois Mundos, ISBN 978-972-380-576-5.

Cortesia de LdoBrasil/JDACT

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