quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ciência e Saúde: Aquecimento global pode obrigar as autoridades autárquicas, das regiões da faixa costeira, a repôr a areia das praias, diz cientista. O seu preenchimento protegerá edifícios nas orlas urbanas

Cortesia de caiobapucrs
A frase mais ouvida nos últimos anos, repetida vezes sem conta é a seguinte: «As cidades localizados nas regiões do litoral precisam de se preparar para comprar areia. Muita areia».
Segundo o investigador Dieter Muehe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a elevação do nível dos mares pelo aquecimento global pode obrigar os municípios a reporem as praias «engolidas» pelos oceanos.
De acordo com Muehe, esse tipo de intervenção, comum em locais em que o mar causa muita erosão, pode tornar-se cada vez mais necessária nas praias urbanas, pois nelas a areia não pode recuar em direcção ao continente com a subida do nível do mar, já que na maior parte dos casos há muros ou ruas na beira da água. Este investigador utiliza como exemplo a Praia da Macumba, no Rio de Janeiro, em 2007 e em 2009.

Cortesia de Dieter Muehe
Segundo Muehe, construções à beira mar impedem que a areia recue em direção ao oceano, tornando as praias urbanas mais fáceis de serem «engolidas» pelo mar. O investigador, autor do estudo «Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro», 2007, é considerado um dos maiores especialistas no estudo do litoral.
Cortesia de mavba
Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), da ONU, o aumento da temperatura do planeta pode causar um aumento entre 18 e 59 cm no nível do mar até 2100. A previsão destes dados, apesar de ser preocupante, é considerada modesta por muitos especialistas.

Além de garantir a área usada pelos banhistas, preencher novamente as praias poderia proteger as construções localizadas na faixa costeira, segundo o investigador da UFRJ. Ele afirma, «se não for feito o aterramento, os muros que cercam as praias acompanham a erosão e o mar vai começar a atingir os prédios», palavras utilizadas durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Cortesia de rauljungmann
Devolver a areia às praias, contudo, não será tarefa simples. Será necessário avaliar de onde tirar areia, atendendo a que vai ser colocada, tem que ser parecida com a original, avisa Muehe. A matéria-prima usada na construção, por exemplo, seria muito grossa, além de elevado custo. Uma possível fonte de areia de boa qualidade é a que fica próxima às praias, no fundo do mar, explica. Uma área em que a areia pode ser retirada é a plataforma continental, mas não pode ser em profundidades maiores do que 10 metros, pois ficaria muito próximo à costa, e também não pode ficar muito longe, pois aí a areia começa a juntar lama e carbonato. Outro problema, explica o especialista, é que a obra teria que ser refeita de tempos em tempos, já que as ondas tenderão a levar a areia de volta para o mar.

Cortesia de oprofeta
Muehe conta que não é apenas o aumento do nível do mar que pode interferir no desaparecimento de algumas praias. Com o aquecimento global, pode haver mudança de direcção dos ventos, quebrando o equilíbrio natural de transporte de sedimentos no mar. Outro factor que pode diminuir a areia nas praias é a construção de barragens nos rios, já que elas impedem as grandes enchentes, responsáveis por levar terra para o mar. Em situações específicas, de acordo com Muehe, a elevação dos oceanos pode causar o aumento da faixa de areia. É o que pode acontecer se as ondas atingirem falésias e nos penhascos à beira mar. Nesse caso, a erosão poderá desgastar as rochas e aumentar a disponibilidade de areia.

Cortesia de G1/Iberê Thenório/JDACT

State of Climate 2009: Analisou 10 indicadores climáticos e comprovou que o planeta está numa fase de aquecimento e que a actual década será a mais quente, tendo como base os dados registados desde 1870

Cortesia da NOAA
Relatório conclui que o aquecimento global é um facto!
Mais de 300 cientistas de 48 países contribuíram para o State of Climate 2009, que analisou 10 indicadores climáticos e comprovou que o planeta está em fase de aquecimento e que a actual década será a mais quente, tendo como base os dados registados desde 1870.
As evidências neste relatório demonstram, claramente, que a Terra está em fase de aquecimento.

Derretimento dos glaciares, temperaturas mais altas em terra e nos oceanos, aumento dos níveis dos mares e menor cobertura de neve foram alguns dos indicadores estudados por mais de 160 grupos de pesquisa à volta do mundo para chegar a uma única conclusão. O planeta está em aquecimento.


Cortesia de worldwatch
Os autores do State of Climate 2009, coordenado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), não entraram no mérito se o aquecimento global é devido à acção humana ou não, mas são enfáticos ao dizer que não há dúvidas de que o fenómeno está a acorrer e em ritmo acelerado. As evidências neste relatório demonstram claramente que a Terra está em aquecimento e que não há mais espaço ou tempo para desconfianças, afirmou Tom Karl, director da NOAA.
Comparando as medidas actuais com os dados observados desde 1870, os cientistas conseguiram perceber uma tendência constante na subida das temperaturas. Um aumento que teve o seu ritmo acelerado nas últimas décadas.

Os anos da década de 80 foram os mais quentes em mais de um século de observação, mas ficaram pouco tempo em primeiro do ranking, pois logo foram ultrapassados pelos anos da década de 90. Agora é a vez dos dez primeiros anos do século XXI estabelecerem um novo recorde.

Num primeiro momento, o aquecimento de um quinto de grau por década pode parecer pouco, mas se considerarmos que  ocorreu um aumento da temperatura de 1°C acima da média dos últimos 50 anos, isso já leva a considerações mais vastas e muito preocupantes. São factos que afectam o planeta. Chuvas fortes associadas a fenómenos adversos vão sendo cada vez mais frequentes e com períodos muito curtos no campo temporal. As ondas de calor são mais comuns e intensas, explica o relatório.

Cortesia de democracyinaction
O State of Climate 2009 enfatiza que a sociedade desenvolveu-se por milhares de anos sob um estado climático e que agora um novo ciclo, isto é, um novo conjunto de condições advrsas está em formação. Essas condições irão pôr em risco cidades costeiras, infraestruturas, suprimento de águas, saúde pública e agricultura.

Para chegar a estas conclusões, grupos de cientistas analisaram 10 elementos fundamentais para estudar o comportamento climático de uma região. Observando esses indicadores foi possível perceber que os sete factores que deveriam subir num cenário mais quente subiram, e os três indicadores que deveriam diminuir, vieram a registar uma diminuição.

Os 10 indicadores observados foram:
  • Aumento da temperatura sobre a terra;
  • Aumento da temperatura sobre os oceanos;
  • Maior calor nos oceanos;
  • Aumento na temperatura na troposfera;
  • Aumento da Humidade;
  • Aumento da temperatura na superfície dos oceanos;
  • Aumento do nível dos oceanos;
  • Menos gelo flutuando nos oceanos;
  • Menor cobertura de neve;
  • Diminuição dos glaciares.
Pela primeira vez, uma análise agrupa dados do alto da troposfera/estratosfera até às profundezas dos oceanos. Essas informações vêm de centros de pesquisas de todos os cantos do planeta e foram obtidos através de imagens de satélite, estações meteorológicas, dados climáticas, navios e balões. Todo esse trabalho aponta para uma única conclusão. O mundo está em aquecimento, explicou Jane Lubchenco, da NOAA.

Cortesia de inhabitat

Cortesia da NOAA/JDACT

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Energia verde acessível: Esqueçam os subsídios às tecnologias ineficientes ou a possibilidade de tornar os combustíveis fósseis demasiado caros para serem usados. Em vez disso, devemos financiar a pesquisa básica que vai tornar a energia verde demasiado barata e fácil de resistir

Cortesia de comunesanmartinobuonalbergo
O cepticismo público sobre o aquecimento global pode estar a crescer, mas o consenso científico está mais sólido do que nunca. As alterações climáticas provocadas pelo homem são reais e nós continuamos a ignorá-las. Mas se esta questão é clara (e devia ser) existe uma outra questão igualmente grande e importante que permanece em aberto:
  • o que fazer?
Uma solução que surge cada vez com maior frequência parece, certamente, sensata. O mundo devia cortar drasticamente a quantidade de gases com efeito de estufa que emite para a atmosfera todos os dias. Em concreto, dizem-nos que o objectivo devia ser uma redução de 50% nas emissões globais de dióxido de carbono até meados do século. Até os seus apoiantes admitem que alcançar este objectivo não vai ser fácil - e estão certos. De facto, estão tão certos que estão errados. Permitam-me que explique.

Cortesia de dreamstime
«A nossa dependência dos combustíveis que emitem dióxido de carbono é enorme. É esmagadora. Apesar de toda a conversa sobre energia solar, eólica e outras fontes de energia verde muito promovidas, elas representam apenas 0,6% do consumo mundial de energia. A maioria da energia renovável resulta da queima de madeira e de biomassa dos habitantes do Terceiro Mundo. Os combustíveis fósseis representam mais de quatro quintos do consumo mundial de energia. Assim, para reduzir as emissões globais de CO2 até meio do século, temos, obviamente, que começar a obter muito mais energia de fontes que não emitem carbono».

Cortesia de fondosypantallas
Podemos fazer isso? De acordo com a Agência Internacional de Energia, isto é o que é preciso para alcançar o objectivo de reduzir as emissões em 50% até 2050:
  • 30 novas centrais nucleares;
  • 17.000 moinhos de vento;
  • 400 centrais de biomassa;
  • Duas centrais hidroeléctricas da mesma dimensão da barragem das Três Gargantas na China;
  • 42 centrais a carvão e gás com tecnologia de captura de carbono que ainda está por desenvolver.
Esta lista não descreve o que precisaríamos de construir entre hoje e 2050, mas o que precisaríamos de construir todos os anos até 2050! Mais, mesmo que o conseguíssemos fazer (o que é obviamente impossível), o impacto na temperatura global só seria perceptível em 2050. De acordo com os mais conhecidos modelos de economia ambiental, todas estas infra-estruturas acabariam por reduzir a temperatura global em apenas um décimo de um grau centígrado (um quinto de um grau Fahrenheit), e evitariam o aumento do nível do mar em apenas um centímetro.
Não é um resultado muito eficiente. De facto, o custo estimado destes projectos - cerca de 5 biliões de dólares anualmente até 2050 - são tão grandes face aos possíveis benefícios que não faz sentido sequer chamar-lhe uma solução.
Cortesia de rinconsolidario
Felizmente, existe uma forma melhor e mais inteligente de lidar com o aquecimento global. E se, em vez de gastarmos biliões de dólares a tentar construir um número impossível de centrais eléctricas - ou, muito provavelmente, condenar milhões de pessoas em todo o mundo a continuarem na pobreza ao tentarmos tornar os combustíveis fósseis demasiado caros para serem usados - nos dedicássemos a tornar a energia verde mais barata?
Actualmente, os painéis solares são demasiado caros - cerca de 10 vezes mais do que os combustíveis fósseis em termos do custo unitário por energia produzida - que apenas os ocidentais bem-endinheirados, bem-intencionados (e, normalmente, bem-subsidiados) podem dar-se ao luxo de instalar. Mas imaginem onde poderíamos chegar se conseguíssemos melhorar a eficiência das células solares por um factor de dez - por outras palavras, se pudéssemos tornar os painéis solares mais baratos do que os combustíveis fósseis. Não teríamos que forçar (ou subsidiar) ninguém para deixar de queimar carvão ou petróleo. Todos - incluindo os indianos e os chineses, iriam mudar para alternativas mais baratas e limpas - e os objectivos de emissões globais seriam, automaticamente, alcançados.
Podemos alcançar este milagre tecnológico nos próximos 20 a 40 anos? Numa palavra, sim. O preço da energia solar tem vindo a cair nos últimos 30 anos - cerca de 50% em cada década - e poderíamos acelerar esta queda ainda mais com grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
Quão grandes? Se estivermos disponíveis a dirigir apenas 0,2% do PIB mundial (cerca de 100 mil milhões de dólares por ano) para a pesquisa e desenvolvimento da energia verde, acredito que poderíamos alterar radicalmente as regras do jogo não só na energia solar mas também numa ampla variedade de outras tecnologias de energia alternativa.

Esta fé no potencial do progresso tecnológico surpreende alguns activistas ambientais, que a consideram ingénua e mesmo ilusória. Mas é real? Pensem num dos milagres dos tempos modernos - o computador pessoal. Estes aparelhos não se tornaram produtos domésticos porque o governo norte-americano subsidiou a compra ou forçou a subida dos preços das máquinas de escrever e das calculadoras. O que aconteceu foi que o governo norte-americano, em grande parte devido à corrida espacial, investiu muito dinheiro na pesquisa e desenvolvimento na área da física e da engenharia electrónica. Os avanços alcançados permitiram não só que Neil Armstrong chegasse à Lua em 1969, mas também tornaram possível que a Apple introduzisse o primeiro Mac em 1976 e a IBM apresentasse o primeiro PC cinco anos mais tarde.

Cortesia de wellnessclub
Podemos fazer o mesmo com a energia verde. Esqueçam os subsídios às tecnologias ineficientes ou a possibilidade de tornar os combustíveis fósseis demasiado caros para serem usados. Em vez disso, devemos financiar a pesquisa básica que vai tornar a energia verde demasiado barata e fácil de resistir. In JORNAL DE NEGÓCIOS, 02 Agosto2010, Bjorn Lomborg, tradução de Ana Luísa Marques.

Bjørn Lomborg é autor dos livros «The Skeptical Environmentalist» e «Cool It». Actualmente é director do Centro de Consenso de Copenhaga, e professor na Copenhagen Business School.

Project Syndicate, 2010, http://www.project-syndicate.org/
Cortesia de Jornal de Negócios, Ana Luísa Marques/JDACT

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Luzia - Luísa Grande: Uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX. Foi considerada, «O Eça de Queirós de Saias». Segundo as suas palavras, «é fácil e doce a nossa vida. Não corre mais tranquilo um rio manso»

(1875-1945)
Portalegre
Cortesia de Luísa Lopes da Silva
Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino Dias, foi uma escritora que viveu na Ilha da Madeira durante muitos anos. Embora tivesse nascido no Alentejo, Luísa Grande passou grande parte da infância na Ilha da Madeira, Quinta das Cruzes, em companhia dos avós maternos. Casou com Francisco João de Vasconcelos, de quem se divorciou aos 36 anos. O divórcio só foi possível depois da Proclamação da República, oficialmente, em 1911, aproveitando e beneficiando da Lei da República de 3 de Novembro de 1910.

Cortesia de falcaodejade
Além duma educação esmerada e de ter visitado várias cidades europeias, Luísa Grande foi uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX. Ficou considerada, «O Eça de Queirós de Saias», numa época em que as mulheres tinham extrema dificuldade em se afirmar, publicamente, como autoras literárias. Utilizando nos seus trabalhos o pseudónimo de «Luzia», Luísa Grande Lomelino Dias, só bastante tarde começou a escrever e a publicar, incentivada pela sua talentosa amiga, também escritora e investigadora, Maria Amélia Vaz de Carvalho, que foi casada com o célebre poeta Gonçalves Crespo. Contudo, depois de ter publicado o seu primeiro livro Luzia jamais deixou de escrever, mesmo após ter adoecido e ficado cega.
Deste modo divulgou entre outras obras:
  • Rindo e Chorando (1922);
  • Cartas do Campo e da Cidade (1923);
  • Os Que se Divertem – A Comédia da Vida; (1931);
  • Almas e Terras Onde eu Passei (1936);
  • Uma Rosa de Verão (1940).

Comentando a forte relação da escritora com a Ilha da Madeira, José Martins S. Conde, no livro «Luzia: O Eça de Queirós de Saias», referiu que «quando uma amiga de Lisboa lhe escreve e pergunta:
  • Quando voltas? Não te agarres. Tu és de cá, não és de lá…Luzia responde: - Eu já mal sei donde sou. Como certas plantas em todos os terrenos deito raízes. Onde chego, julgo sempre que vou ficar. Sinto-me já amadeirada. Tenho o meu lugar em todas as mesas de «bridge». Pertenço a todas as associações».

Por sua vez, Luís Peter Clode mencionou no «Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses», que «embora nascida no Continente, na cidade de Portalegre, a Ilha da Madeira era para Luísa Grande a sua terra adoptiva e onde passou a maior parte da vida». (…) Acrescentou ainda, que segundo um biógrafo da escritora «os seus livros não são uma obra de mocidade. Não há nela a inquietação, o entre abrir de sonhos, os passos irreflectidos e audazes de quem marcha na vida, supondo levar na mão um facho de triunfo. A sua obra é sobretudo evocadora para o fio de luar das suas recordações».

http://bmfunchal.googlepages.com/assim_foi_Luzia.pdf

Numa primeira carta endereçada à sua jovem amiga Maria Amélia, escrita em 4 de Abril de 1919, no Funchal, «Luzia» exaltava o clima da Ilha da Madeira: - «Chove e faz sol. O céu está cinzento, azul, cor-de-rosa, verde, doirado…Um céu inverosímil, sobre uma terra inverosímil, onde se pisam flores…E toda a Madeira rescende como o teu lenço, Maria. «Estou talvez no Paraíso… Sim, foi certamente aqui que Adão e Eva comeram aquela deliciosa maçã que tanto lhes amargou depois… «Aqui os nossos antepassados venerandos trocaram a monotonia da perfeição sem fim pela doce vida imperfeita, onde as rosas são mais belas porque se fanam, onde a hora é mais querida porque foge, onde se tem sede de eternidade porque se morre…Aqui conheceram a mortal tristeza e o mortal amor… «Por isso os madeirenses andam sempre enamorados de …seja lá do que for, que a gente afinal gosta é da ilusão» …In Rui Nepomuceno.
Animada, Luísa Grande, incitava a amiga, tentando convence-la a fazer as malas para visitar a Madeira, e afiançava: - «É fácil e doce a nossa vida. Não corre mais tranquilo um rio manso».
E sempre aguçando a sua lupa conservadora e aristocrata, mas temperada por uma fresca ironia, Luísa Grande, a «Luzia», confidenciava à amiga as transformações significativas que ia verificando no tecido urbanístico do Funchal.

Cortesia de verportalegre
Passou o resto dos seus dias a viajar entre Paris, Lisboa e Funchal.
Morre aos 70 anos de idade. 
 
Cortesia de Luísa Lopes da Silva/Rui Nepomuceno/JDACT

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os Lusíadas: Luís de Camões, Canto V

Rota de Vasco da Gama desde a África do Sul até à Índia
Vasco da Gama conta agora como foi a viagem da armada, de Lisboa a Melinde. É a narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros observaram maravilhados ou inquietos a costa de África, o Cruzeiro do Sul nos céus desconhecidos do novo hemisfério, o Fogo de Santelmo e a Tromba Marítima, e enfrentaram perigos e obstáculos enormes como a hostilidade dos nativos, no episódio de Fernão Veloso, a fúria de um monstro, no episódio do Gigante Adamastor, a doença e a morte provocadas pelo escorbuto.
Cortesia de dererummundi

"Disse então a Veloso um companheiro
(Começando-se todos a sorrir)
-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro
É melhor de descer que de subir."
- "Sim, é, (responde o ousado aventureiro)
Mas quando eu para cá vi tantos vir
Daqueles cães, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim
Fernão Veloso, estrofe 35 do Canto V

Aportados na costa africana, os portugueses fizeram contacto com os povos nativos. Este aventureiro (estrofes 30 a 36), convidado para conhecer a sua aldeia, acompanhou despreocupadamente os anfitriões. Mas, percebendo as intenções assassinas destes, «Mais apressado do que fora, vinha», perseguido por um grupo. É um episódio também humorístico, pela bazófia do português. Depois de uma escaramuça para o salvarem, os companheiros fazem troça da sua fuga apressada, depois de, com tanta confiança, ter entrado pela terra adentro na companhia dos nativos. A isto ele responde que, vendo como tantos inimigos voltavam para atacar a praia, vinha a correr só para ajudar a frota, «Por me lembrar que estáveis cá sem mim».

Adamastor
Escultura de Júlio Vaz Júnior no miradouro de Santa Catarina
Lisboa, Portugal
Podem-se considerar três partes no episódio do Adamastor: a primeira é uma teofania (estrofes 37 a 40). Chegados ao Cabo das Tormentas no meio da uma tempestade, os marinheiros avistam o titã, tão terrível que «Arrepiam-se as carnes e o cabelo A mi e a todos só de ouvi-lo e vê-lo». Aqui está o puro pavor, a ameaça iminente da aniquilação, fisicamente sentida - as carnes engelham-se, os cabelos crispam-se.
O espectáculo é envolvente, grandioso, terrificante. Este semideus maléfico, encarnação dos perigos da arriscada travessia, precede-se de uma nuvem negra, que surge rasante sobre as cabeças dos navegantes. Mas mais surpreendente ainda é a orquestração que o mar faz com este elemento aéreo «Bramindo, o mar de longe brada, Como se desse em vão nalgum rochedo». O lado maravilhoso desta aparição também é acentuado, fazendo contrastar todo o espectáculo de disformidade e gigantismo com o cenário precedente, onde são manifestos os encantos de uma noite dos "mares do Sul", «prosperamente os ventos assoprando».

Cortesia de oslusiadascoopec
Então começa a segunda parte do episódio (estrofes 41 a 48), que em termos cronológico-narrativos é uma prolepse. O Adamastor fala e, como um oráculo, vaticina o destino cruel que espera alguns dos navegadores que atravessarão os seus domínios. É uma forma inteligente de o poeta dos meados do século falar de acontecimentos do passado, mas que seriam futuros para o navegador do início do século que faz a narração.
Finalmente surge uma écloga marinha (estrofes 49 a 59), que obedece a um desenvolvimento comum a muitas composições líricas de Camões: o enamoramento (de Adamastor por Tétis, não correspondido), a separação forçada (pela titanomaquia), a traição, o lamento pelo sonho frustrado, do qual o sofredor é constante e eternamente recordado: «Enfim, minha grandíssima estatura, Neste remoto cabo converteram Os Deuses, e por mais dobradas mágoas, Me anda Tétis cercando destas águas».

Cortesia de mym
Passado mais este obstáculo, os navegadores agora enfrentam a doença, particularmente o escorbuto, e um clima a que não estão habituados. Apesar de um acolhimento cordial dos povos da África do Sul, o desânimo também aumenta por não haver quem dê notícias sobre a Índia. Até que, depois de Moçambique e Mombaça, a narrativa termina com a alegria da chegada a Melinde.

O canto encerra com a admiração dos melindanos por toda a epopeia portuguesa, e a censura do poeta pela iliteracia dos seus conterrâneos. Pela boca de Vasco da Gama, que lhe empresta legitimidade, conta como os poderosos do mundo, especialmente gregos e romanos, eram amantes das letras. E lamenta que os seus contemporâneos desprezem a língua, a poesia e o cantar e louvar de heróis e povos.


(Apresentação) (Prefácio) (O Canto V)

Cortesia wikipédia/Instituto Camões/JDACT

Luís de Camões: Líricas, parte X.

Cortesia de fraternidaderosacruz

Quando me quer enganar

Quando me quer enganar
A minha bela perjura,
Pera mais me confirmar
O que quer certificar,
Pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
Todo se rege por eles,
Imagina o pensamento
Que se faz agravo a eles
Não crer tão grão juramento.

Porém, como em casos tais
Ando já visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ela jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
Uns tais olhos como aqueles,
Deixo-me antes tudo crer,
Só pela não constranger
A jurar falso por eles.

Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

As 7 Maravilhas Naturais de Portugal: Dia 11 de Setembro é a data em que se vão ficar a conhecer as escolhidas. O nosso país antecipa-se ao resto do mundo no Ano Internacional da Biodiversidade, que se realiza em 2011

Cortesia de faceturis

Pelo segundo ano consecutivo, a Rádio e Televisão de Portugal e a New Seven Wonders promovem a imagem de Portugal. A iniciativa «7 Maravilhas Naturais de Portugal» vai gravar na nossa memória o vasto património natural que o país oferece. Este é o momento de conhecer melhor um Portugal que nos deslumbra com a sua natureza. De escolher os locais naturais que encantam..., mais. De contribuir para uma eleição única e irrepetível. Para que vote em consciência. Saiba tudo e vote numa maravilha por categoria. Contribua para a divulgação e preservação do património natural de Portugal.

Toda a informação em: http://www.7maravilhas.pt/

Os portugueses podem eleger as sete maravilhas naturais do país. Conheça os 21 candidatos. A votação pode ser feita por Internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt/#/pt/votacao), telefone (7603027) ou SMS  até ao pf dia 7 de Setembro. Os resultados finais são conhecidos a 11 de Setembro.
Ao todo estão disponíveis para votação 21 maravilhas naturais agrupadas em sete categorias. O público terá que escolher uma de cada categoria. A lista começou com 323 candidaturas.
Lista dos 21 candidatos.
Florestas e matas:
  • Floresta Laurissilva (Madeira);
  • Mata Nacional do Buçaco (Centro);
  • Paisagem Cultural de Sintra - Património da Humanidade (Lisboa e Vale do Tejo).
Grandes Relevos:
  • Paisagem vulcânica da Ilha do Pico (Açores);
  • Parque Natural da Arrábida (Lisboa e Vale do Tejo);
  • Vale Glaciar do Zêzere (Centro).
Grutas e cavernas:
  • Algar do Carvão (Açores);
  • Furna do Enxofre (Açores);
  • Grutas de Mira de Aire (Centro).
Praias e falésia:
  • Pontal da Carrapateira (Algarve);
  • Portinha da Arrábida (Lisboa e Vale do Tejo);
  • Praia do Porto Santo (Madeira).
Zonas Marinhas:
  • Arquipélago das Berlengas (Centro);
  • Ponta de Sagres (Algarve);
  • Ria Formosa (Algarve).
Zonas aquáticas não marinhas:
  • Lagoa das Sete Cidades (Açores);
  • Portas de Ródão (Centro) ;
  • Vale do Douro (Norte).
Zonas protegidas:
  • Parque Nacional Peneda-Gerês (Norte);
  • Parque Natural do Sudeste Alentejano e Costa Vicentina (Alentejo);
  • Reserva Natural da Lagoa do Fogo (Açores.
Dia 11 de Setembro é o dia em que se vão ficar a conhecer as 7 Maravilhas Naturais de Portugal, iniciativa comissariada por António Vitorino. O nosso país antecipa-se ao resto do mundo, curiosamente no Ano Internacional da Biodiversidade, que só em 2011 realiza esta iniciativa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Rosarinho Reis Catarino: Parte I: «Pintar é sentir! É viver em comunicação com a Arte!»

Banco Rothschild
Parceria com José Lara
Cortesia de Rosarinho R. Catarino

Com a devida vénia a Rosarinho Reis Catarino apresento algumas das suas pinturas.



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A Rosarinho na Quinta da Cortezia
Aldeia Gavinha
Cortesia de Rosarinho R. Catarino
Com amizade, JDACT 

Loreena Mckennitt: De ascendência irlandesa e escocesa, é conhecida pelo seu estilo de música celta eclético, com tendências do Médio Oriente

Cortesia de musicaldiscoveries




JDACT

Fascínios da Matemática: Sismos e Logaritmos

Cortesia de goodreads
Com a devida vénia a Theoni Pappas, The Joy of Mathematics, Fascínios da Matemática, editora Replicação, Lda, 1ª edição, Junho de 1998, ISBN 972-570-204-2.


Parece existir uma necessidade humana de descrever os fenómenos naturais em termos matemáticos. Talvez isto se deva ao facto de pretendermos descobrir métodos através dos quais possamos deter algum controlo sobre a natureza - possivelmente por meio da previsão. E o que se passa com os tremores de terra.
Cortesia de Theoni Pappas
À primeira vista, parece pouco usual relacionar os sismos com os logaritmos, mas o método utilizado para medir a intensidade de um tremor de terra estabelece essa relação. A Escala de Richter foi concebida em 1935 pelo sismólogo americano Charles F. Richter.

Esta escala mede a magnitude de um sismo calculando a quantidade de energia libertada no epicentro. Trata-se de uma escala logarítmica e, por isso, sempre que um valor nessa escala aumenta 1 unidade, a amplitude da curva sismográfica aumenta 10 vezes e a energia libertada pelo sismo aumenta cerca de 30 vezes. Por exemplo, a energia libertada por um sismo de magnitude 5 é 30 vezes superior à de um de magnitude 4.

Deste modo, um tremor de terra de magnitude 8 liberta aproximadamente 27 000 vezes a energia de um sismo de magnitude 5. Os graus da Escala de Richter situam-se entre 0 e 9 mas, teoricamente, não existe qualquer limite superior. Um sismo de magnitude superior a 4,5 pode causar prejuízos, mas um grande tremor de terra tem geralmente uma intensidade superior a 7. O abalo sísmico do Alasca, em 1964, por exemplo, atingiu os 8,4 na Escala de Richter, e o de S. Francisco, em 1906, chegou aos 8,1. O terramoto de Lisboa em 1755 atingiu o grau 8,6 na Escala de Richter.
Hoje, os cientistas que se especializam no estudo dos sismos pertencem ao campo da sismologia, que é uma ciência do ramo da geofísica. Concebem métodos e constroem instrumentos cada vez mais delicados com o objectivo de quantificar e prever os fenómenos sísmicos. O sismógrafo é um dos primeiros instrumentos de uso mais corrente e detecta, mede e representa graficamente, de forma automática, os sismos e as vibrações do solo.

Cortesia de Theoni Pappas

A imagem mostra  a representação de um dos sismógrafos mais antigos que se conhecem, construído na China, no século II d.C., a partir de um recipiente de bronze para vinho, com cerca de 1,8 metros de diâmetro. À volta do recipiente, existiam oito dragões, com bolas de bronze na boca. Na eventualidade de um tremor de terra, um dos dragões deixaria tombar a bola, que cairia na boca de um sapo colocado mais abaixo. O instrumento ficaria então travado, indicando desta forma a direcção do abalo sísmico.

Cortesia de Theoni Pappas/JDACT

A Portagem em 1909: O festejo da Festa dos Aventais

Portagem, Marvão
A Festa dos Aventais
Ano de 1909
JDACT
A Festa dos Aventais também era um acontecimento no Município de Marvão, nomeadamente na povoação da Portagem, junto às margens do rio Sever. Os transportes da época, o convívio no último domingo de Maio (?), alguns banhistas «afoitos», as árvores centenárias. A imagem em cima é demonstrativa da elevada afluência a esta tradição.  Recordo que é uma fotografia de 1909.

«Foi em 9 de maio de 1907, quinta-feira de Ascensão, que pela primeira vez, um grupo de pessoas, em número de 40, se lembrou de fazer um piquenique na Portagem. Para o efeito, alugou aos alquiladores (denominação das empresas de transporte de então) umas carripanas, carros e galeras, e para lá partiram de merenda aviada.
Em 1909 o grupo já contou com 100 participantes e, em 25 de Maio de 1911, com 800, sendo neste dia dado ao piquenique o nome de Merenda Democrática. Em 16 de Maio de 1912, devido aos encargos com os transportes para a Portagem, foi o local da Merenda transferido para a Serra de São Mamede, junto à Fonte Fria. Foi também a partir desta data que a referida Merenda Democrática passou a designar-se por Festa dos Aventais, devido ao facto de as mulheres, nela participantes, se apresentarem quase todas de típico avental». In José Martins S. Conde  

Com a amizade da FMG e HS.
JDACT

António Feio: Não escolhemos o assunto (...) o segredo das obras-primas está aí, na concordância do assunto e do temperamento da arte

(1954-2010)
Maputo, ex-Lourenço Marques
Cortesia de portalclassicos
António Jorge Peres Feio foi um actor e encenador português. Aos onze anos estreou-se no teatro com a peça de Miguel Torga, «O Mar», no Teatro Experimental de Cascais. Passou pelos teatros São Luiz, ABC, Aberto, Nacional D. Maria II, entre outros.
Estrou-se a encenar com o espectáculo «Pequeno Rebanho Não Desesperes» de Christian Giudicelli, na Casa da Comédia.

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.
Jorge de Sena, in «As Evidências»

Cantar do Amigo Perfeito
Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que passámos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?
Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?
Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiança
tranquila e áspera, animal e tácita,
já menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?
Também aqui, sorrindo em branda mágoa,
desfiámos, sem palavras castamente cruas,
não já sequer os íntimos segredos
que o próprio amor, porque ama, não confessa,
nem a vaidade humana dos sentidos, mas
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó amigo?
(...)
Partiste e foi contigo a juventude.
Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo,
e o terror de não ser minha estátua jacente
sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância
desmentem - palpitar de traiçoeira fénix! -
que só do amor ou só da terra haja saudade.
Em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
tu sabes que a levaste, ó meu amigo?
Jorge de Sena, in «Pedra Filosofal»


Com José Pedro Gomes, iniciou uma dupla inesquecível em 1993, com «Inox-Take 5». As «Conversas da Treta» foram talvez o rosto mais visível da carreira de António Feio, que também passou pelo cinema e pela rádio.

Cortesia do jornaldascaldas
«O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem». In Paul Valéry.
Cortesia de O Citador/JDACT

A Fortaleza de Segura: A povoação foi elevada a vila e sede de concelho em 1510, posição que desfrutou até 1836, quando foi anexada ao município de Salvaterra do Extremo. Actualmente pertence ao Concelho de Idanha-a-Nova

Cortesia de mapav
A povoação de Segura está situada num monte alto e «enfragado», junto à margem direita do rio Erges, que serve de fronteira com a Espanha, e sobre a estrada militar romana de Mérida, Alcântara, Idanha-a-Velha e Guarda. Esta povoação pertence  ao Concelho de Idanha-a-Nova e ao Distrito de Castelo Branco.

Cortesia de mapav
A primeira referência sobre o castelo de Segura data do reinado de D. Dinis quando, em 20 de Agosto de 1299, o soberano isentou os seus moradores dos impostos tradicionalmente pagos em Salvaterra do Extremo, com a condição de estes construírem um castelo. Vinte anos mais tarde, o monarca doou os domínios da vila e seu castelo à Ordem de Cristo, que aqui instituiu uma comenda, prova de que, nesta fase, Segura já se constituía em um expressivo centro regional.
Sob o reinado de D. Fernando, o soberano doou os domínios da vila e seu castelo ao Frei Nuno Martins (1376). Nesse período iniciou-se a edificação de uma barbacã, defesa que se articulava com um fosso.

Cortesia de Olga Ribeiro
Posteriormente, sob D. Manuel I, encontra-se figurado por Duarte D'Armas no Livro das Fortalezas, cerca de 1509. A povoação foi elevada a vila e sede de concelho em 1510, posição que desfrutou até 1836, quando foi anexada ao município de Salvaterra do Extremo.
No contexto da Guerra da Restauração da Independência a povoação e a sua fortificação readquiriram importância estratégica sobre a fronteira da Beira Baixa. Por essa razão, as suas defesas foram reformuladas, sendo a vila dotada de uma muralha envolvente, abaluartada.
Essa defesa foi insuficiente para deter a invasão francesa, que por essa fronteira penetrou durante a Guerra Peninsular, em 1807. Posteriormente, em 1846, foi extinto o seu governo militar, o que conduziu ao desmantelamento das defesas, absorvidas desde então pelo progresso urbano.

No início do século XX, foi erguida a Torre do Relógio, hoje referido como uma lembrança do passado militar de Segura, embora sem conexão com o mesmo. Os remanescentes do conjunto defensivo encontram-se classificados como Imóvel de Interesse Público por Decreto publicado em 8 de Maio de 1959.

Cortesia de Olga Ribeiro
O que conhecemos do antigo castelo em estilo gótico chegou-nos através da pena de Duarte D'Armas, onde pode ser identificada a sua configuração medieval. Planta oval, protegido por duas cercas, fosso e barbacã, as suas muralhas eram reforçadas por, pelo menos, seis torres. Uma sólida torre de menagem erguia-se, adossada ao perímetro interno de muralhas, dividida internamente em dois pavimentos. Por ela sabemos que essa torre de menagem sofreu significativas alterações ao longo dos séculos, bem como podemos avaliar a extensão dos troços de muralhas hoje desaparecidos.
Na época, Segura não possuía cerca e desenvolvia-se em plano inferior, na encosta a Leste do castelo. Estava organizada em torno de um eixo definido pela rua Direita, articulando as chamadas Porta de Baixo e Porta de Cima, de configuração moderna, em arco abatido. Em relação à muralha abaluartada seiscentista, chegaram-nos três baluartes associados à primitiva barbacã. Estes apresentavam guaritas nos vértices.
Cortesia de IGESPAR
A opinião do IGESPAR:
«São ainda obscuras as origens da fortaleza de Segura, não havendo notícias confirmadas acerca da sua existência até uma época bem tardia da consolidação desta linha de fronteira. Este facto não deixa de motivar uma certa estranheza, devido à posição estratégica da localidade e da atenção concedida ao extremo leste do actual Distrito de Castelo Branco nos primeiros anos da monarquia portuguesa. Com efeito, só temos conhecimento de povoamento efectivo na terceira década do século XIII, época que ultrapassa, em muito, as doações destes territórios aos Templários. Este facto sugere que Segura não terá desempenhado um papel de relevância no contexto defensivo dos primeiros tempos do reino de Portugal e só tenha entrado no domínio régio militar numa fase avançada, possivelmente já na viragem para o século XIV, depois de ter passado definitivamente para a posse portuguesa, em 1282.
A primeira referência conhecida sobre o castelo data de 20 de Agosto de 1299, data em que D. Dinis isentou os moradores da localidade de impostos tradicionalmente pagos em Salvaterra do Extremo, com a condição destes construírem um castelo. Vinte anos depois, o mesmo monarca doou a vila à Ordem de Cristo, que aqui instituiu comenda, o que prova que, por essa altura, Segura detinha já uma centralidade regional, com grande probabilidade alicerçada no seu castelo.
Da primitiva fortificação gótica é muito pouco o que chegou até aos nossos dias. A torre de menagem (que em 1505 tinha dois andares) foi substancialmente transformada nos séculos seguintes e a maior parte dos troços de muralha desapareceu, conservando-se apenas pequenas parcelas. A marca mais visível desses primeiros tempos é dada pelo urbanismo do núcleo antigo, organizado em torno de uma Rua Direita que rasga a localidade ao meio e articula as duas portas ainda existentes, a de Baixo e a de Cima, estas de configuração já moderna.
No final da Idade Média, registaram-se alguns melhoramentos. Em 1376, D. Fernando entregou-a a Fr. Nuno Martins. Pouco depois, há notícia de se ter edificado uma barbacã, que se articulava com um fosso (mencionado em 1505). Em 1509, Duarte d'Armas desenhou o castelo ainda com grande parte da sua configuração medieval. De perímetro oval, protegido por duas cercas, fosso e barbacã, tinha pelo menos seis torres, para além da de menagem, que se adossava ao circuito interno de muralhas. A povoação não estava cercada por qualquer muralha e desenvolvia-se colina abaixo, a nascente do reduto defensivo.
As grandes transformações ao núcleo medieval aconteceram no século XVII, no contexto das Guerras Peninsulares resultantes da proclamação da independência portuguesa em 1640. Nas duas décadas seguintes, Segura desempenhou um papel fundamental na defesa da raia da Beira Baixa e esse estatuto foi assegurado pela redefinição do seu sistema militar. Assim, a localidade foi integralmente cercada por uma muralha, a qual, por sua vez, era protegida por guaritas. As Portas de Cima e de Baixo permitiam o acesso ao interior da vila, datando deste mesmo período o seu actual aspecto, de arcos abatidos e, aparentemente, sem protecção lateral por torres. O castelo foi também objecto de obras, embora não se conheçam, hoje, as suas características principais, à excepção dos vestígios de três baluartes associados à velha barbacã.
Com o final da guerra, a praça de Segura viu-se relegada para um papel secundário, o que não a impediu de ser, ainda, uma importante porta de entrada em 1807, por ocasião das invasões francesas. No entanto, o declínio avizinhava-se e, em 1846, foi extinto o governo militar, diploma que precipitou o desmantelamento de grande parte das suas muralhas para diversas construções civis e privadas. No século XX, um projecto reinventivo foi responsável pela construção da Torre do Relógio, actual marco da história militar de Segura mas que já tem muito pouco que ver com o papel desempenhado por esta vila de fronteira ao longo da sua história». In IGESPAR, PAF
Cortesia de DGEMN

Cortesia de IGESPAR/CMIdanha-a-Nova/JDACT

A Palavra que dá VIDA: Ontem brindei ao viver com muitos amigos em meu redor

Mais um ano que passou! Ontem brindei ao viver com muitos amigos em meu redor. Valorizei cada momento vivido enquanto a natureza cantava segundo uma pauta muito antiga.

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa

Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Os poemas são pássaros que chegam
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mário Quintana
JDACT