segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina. José Augusto França. «O ministro Carvalho, e chamemos-lhe desde já Pombal, pelo título por que ficou na história, embora só recebesse o marquesado em 1770, depois de ter sido feito conde de Oeiras em 1759, desde logo também pensou no futuro da cidade martirizada»


jdact e cortesia da wikipedia

O Terramoto. Seus Efeitos e Medidas Tomadas
«A cidade ficara em parte arrasada pelo sismo e em maior parte foi devastada pelo fogo. Dois terços das ruas ficaram inabitáveis, ou só três mil casas das vinte mil existentes, após o incêndio. Das quarenta igrejas paroquiais, trinta e cinco desmoronaram-se, arderam, ou ficaram em ruínas, só onze conventos dos sessenta e cinco existentes ficaram habitáveis, embora com danos, nenhum dos seis hospitais se salvaram do fogo e trinta e três residências das principais famílias da corte ficaram destruídas. O número dos mortos e dos feridos cresceu de boca em boca. O Núncio calculou quarenta mil mortos, outros falavam em setenta ou noventa mil, o futuro marquês de Pombal reduziu o cálculo a seis ou oito mil, mas os números mais fidedignos da época anunciam de doze a quinze mil, e, finalmente, concluiu-se terem perecido uns dez mil habitantes, em plena catástrofe ou por seu efeito.
Entre eles, só oito fidalgos, porque a corte não regressara ainda a Lisboa, afirma-se que o rei, estando em Belém, nunca se deu conta, visualmente, do alcance da tragédia, o tempo continuava bom para habitar o campo, e o próprio povo terá sido em grande parte poupado pela hora matutina do acontecimento, nove e quarenta da manhã, pois, mais tarde, nas missas concorridas desse dia de Todos-os-Santos, teria conhecido muito mais vítimas dentro das igrejas desmoronadas. Fora, afinal, feliz a desgraça, comentou-se na altura…
Perdas materiais, incomensuráveis. Todos os cálculos que vieram a lume avançam números incontroláveis mas cuja importância significa bem o prejuízo que a fazenda nacional e privada sofreu, e logo a própria corte, com o seu paço devastado e as suas riquezas perdidas. Para o país, já empobrecido pelo estado da sua agricultura, do seu comércio e duma indústria inexistente, a ruína da capital em que se concentravam as suas forças, com dez por cento da população, foi calamitosa. No momento da catástrofe, o pânico tomou conta dos lisboetas: todos se refugiavam nos pontos menos atingidos e ali acampavam como podiam, ou fugiam para mais longe, fora de portas.
  • Com as suas ruas alastradas de mortos, e cobrindo com as suas ruínas a outro maior número de cadáveres, justamente havia de temer que pela corrupção destes se seguisse ao terramoto o flagelo da peste.
Era preciso enterrar os mortos e tratar dos vivos, e logo nos dias seguintes à tragédia se tomaram providências para sepultar os cadáveres, se pôs ao cardeal-patriarca a questão de os poder lançar ao mar, se exortaram os párocos a fazer voltar os seus clientes fugidos, em breve proibidos de abalar sem passe, se controlou a entrada de mantimentos na cidade e o seu rateio, eximindo-os de impostos e fixando preços para evitar toda a especulação, se chamou à cidade regimentos da província para manter a ordem e prender salteadores que se aproveitavam da situação e eram prontamente justiçados em forcas levantadas em quatro pontos da cidade.


Medidas urgentes e indispensáveis que foram produzidas pelo único dos ministros capaz de enfrentar a conjuntura: Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra à subida do rei José I ao trono e que, em Maio de 1756, tomaria conta da pasta doReino. A sua longa ditadura até 1777 começou nesses dias de aflição em que a sua competência se comprovava. A seu lado, na execução das primeiras medidas, encontravam-se o duque de Lafões, Regedor das Justiças, o marquês de Alegrete, presidente do Senado camarário, e o de Marialva, Governador das Armas.
Muitos socorros chegaram então ao reino, ofertas e promessas de cortes estrangeiras e do Brasil. Víveres de Inglaterra, materiais de construção de Hamburgo aportavam em barcos carregados, e também dinheiro. O comércio de Lisboa ofereceu ao rei, que o aceitou em 2 de Janeiro, um imposto de quatro por cento sobre os direitos que incidiam nas mercadorias despachadas na alfândega, e esse seria o contributo que permitiria reconstruir as estruturas públicas da capital.
O ministro Carvalho, e chamemos-lhe desde já Pombal, pelo título por que ficou na história, embora só recebesse o marquesado em 1770, depois de ter sido feito conde de Oeiras em 1759, desde logo também pensou no futuro da cidade martirizada. O desentulhamento das ruas, a drenagem das águas estagnadas, a balisagem das parcelas destruídas, a acomodação dos escombros para nivelamento dos sítios, a medição e tombo das praças, ruas, casas e edifícios públicos, com exacta descrição de cada bairro, foram providências de Novembro e Dezembro, e logo a 3 de Dezembro se determinava que nenhuma construção se fizesse para além dos limites antigos da cidade que, aliás, envolviam muitos sítios meio rústicos.
Proibição sem apelo e que foi agravada por novo diploma, em 30 do mesmo mês, que impedia toda e qualquer construção enquanto o inventário das propriedades não estivesse terminado. Daí que, em 12 de Fevereiro seguinte, um decreto mandasse demolir as casas edificadas contra o estipulado, e que, em 8 de Outubro de 1760, essa demolição fosse extensiva a barracas de grande porte que entretanto tinham sido erguidas dentro dos limites urbanos anteriormente estabelecidos, ficando só aquelas que existissem fora de tais limites. Na verdade, logo após o terramoto começaram a surgir pela cidade barracas, por vezes de grande acabamento, e de pedra e cal, em dois andares e lojas, que não se diferençavam duma nobre propriedade, e que, sendo nove mil levantadas em seis meses, chegaram a representar um novo hábito residencial a que não era estranho um novo luxo. Por outro lado, o decreto de 30 de Dezembro aludia a planos para cada bairro que já estavam encomendados e que em breve seriam publicados. Assim, simultaneamente, pretendia-se impor uma regularização programada à nova cidade em gestação, e impedir que os trabalhos anunciados fossem de antemão prejudicados por soluções de urgência que tenderiam naturalmente a criar uma habituação, numa desordem urbana semelhante à da cidade antiga». In José Augusto França, A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina, Director da Publicação António Quadros, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Minerva do Comércio, Instituto Camões, 1986.

Cortesia de I. Camões/JDACT

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Falso Cego. «Versão de Carreiras. Concelho de Portalegre. Recolhida por D. Maria Tavares Transmontano e publicada no seu livro “Os Transmontano no Alentejo”. Ensinar o cego além para a estrada. Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado, que eu não sou o cego, sou seu namorado»

Cortesia de wikipedia

O Falso Cego
Era meia noite quando o ladrão veio.
Bateu três pancadas à porta do meio.
Abram-me essa porta, também o postigo,
emprestem-me um lenço que já venho ferido.
Então se já vem ferido, pode-se ir embora,
que a minha portinha não se abre agora.
Levante-se minha mãe da cama a dormir,
venha ver o cego que está a pedir.
Se está a pedir, dá-lhe pão e vinho.
Se ele não quiser, siga o seu caminho.
Não quero o seu pão, nem quero o seu vinho.
Só quero que a menina me ensine o caminho.
Vai-te minha filha, faz-te bem mandada,
ensinar o cego além para a estrada.
Venha minha esposa, ponha-se ao meu lado,
que eu não sou o cego, sou seu namorado.

Poema recolhido por Maria Tavares Transmontano, in ‘Os Transmontano no Alentejo”

Cortesia de Ruy Ventura/JDACT

O Soldadinho Novo. «Versão de Carvalhal, freguesia do Salvador da Aramenha. Concelho de Marvão. Recitada por D. Maria Josefa Baptista, nascida em 1919. Recolhida por Ruy Ventura. “Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim? Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi. Se és a minha amada, beija-me agora aqui»

Cortesia de wikipedia

Soldadinho Novo

Adeus soldadinho novo que tão triste andas na guerra.
Ou te lembra pai ou mãe ou alguém da tua terra.
Não me lembra pai nem mãe, nem ninguém da minha terra,
só me lembra a minha amada, que era uma linda donzela.

Toma lá este cavalo, vai a tua amada ver,
mas no fim de sete meses há-des mo cá vir trazer.
Soldadinho, de contente, no cavalo s' amontou.
Chegando lá muito adiente, o Diabo o incuntrou.
Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem.

Não te espantes cavalo branco, cavaleiro que nele vem,
aqui tens a tua amada, que t' amou com grande bem.

Onde vás ó soldadinho, por que vás todo a termer?
Deixa-me lá ó diabo, vou a minha amada ver.
Tua amada já é morta. Já é morta, bem na vi.
Dá-me os sinais que levava, que me quero fiar em ti.
Levava vestido d' ouro, camisa de carmesim.

Os padres qu' àcompanhavam não tinham conto nem fim.
Forem a abrir a cova cá no centro do jardim,
a enxada era de prata, o cabo de marafim.
Mas seja o que Deus quiser, eu p'ra diente sempre vou.
A meio da sua jornada, um nuvraceiro s' armou.
Não t' espantes cavalo branco, cavalheiro que nele vem.

Aqui tens a tua amada que t' amou com grande bem.
Se tu és a minha amada, porque não olhas p'ra mim?
Os olhos com qu' eu te via já de terra os enchi.
Se és a minha amada, beija-me agora aqui.

Os lábios com qu' eu te beijava, já a cor deles perdi.
Vai-t' imbora, vai-t' imbora, vai-t' imbora amor eterno.
Já sinto por mim puxar lá das cordas do Inferno.
Eu hei-d' ir àquele outêro, eu àquele outêro hei-d' ir.
Tanta vez t' hê-de bradar, até que m' há-des acudir.

Com amizade.
Cortesia de Ruy Ventura
Publicada no suplemento cultural Fanal, do jornal O Distrito de Portalegre, nº 1/JDACT

FCG. Damião de Góis. Elisabeth Feist Hirsch. «Passaram-se, contudo, quase dez anos antes que Góis fosse aceite como pensador e historiador. Os primeiros anos como secretário da Casa da Índia foram atarefados e não lhe deixavam vagar para ocupações de carácter humanístico»

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«Os anos passados na actividade diplomática foram indubitavelmente significativos para o desenvolvimento pessoal de Góis. Portugal, devido ao seu isolamento geográfico no canto ocidental da Europa, não lhe poderia ter dado uma tão ampla compreensão das forças históricas que iriam produzir um novo mundo europeu. Através da paciente observação e da investigação dos países da Europa que conheceu, aprendeu a apreciar novas perspectivas em muitos campos da actividade humana. Ganhou também uma maior compreensão do cerne da sua própria existência. Não há dúvida de que, sem a experiência diplomática, as realizações intelectuais de Góis teriam assumido um carácter bastante diferente.

Formação Intelectual e Espiritual de Góis
Uma vez em Antuérpia, intensificou-se extraordinariamente, em Góis, o desejo de aprender. Se as actividades comerciais da cidade não reservavam grandes surpresas para o recém-nomeado diplomata da casa real de Lisboa, as oportunidades culturais que ela oferecia excediam, sem sombras de dúvida, tudo quanto ele conhecera no passado. A economia florescente de Antuérpia atraía muitos homens célebres, e a proximidade da Universidade de Lovaina levava a essas paragens acolhedoras os mais distintos humanistas com demoradas estadias. Quando Góis assumiu o seu posto, a memória de Thomas More, de Dürer, e, sobretudo, de Erasmo, que tinha estado em Antuérpia havia pouco tempo, estava bem viva nos círculos que frequentava. Se Góis já tinha em alto apreço o nome de Erasmo quando estava na sua terra natal, a obra e a personalidade do humanista holandês tornaram-se-lhe muito mais reais na Flandres. Ficou a dever o conhecimento íntimo de Erasmo, que então adquirira, à sua associação com Cornelius Grapheus, poeta e conhecido humanista, que foi um dos mais chegados de Góis durante o tempo que ele permaneceu na Flandres.
Grapheus tinha grande estima por Erasmo e Góis passou a nutrir um profundo respeito pelo celebrado humanista. Todavia, passar-se-ia quase uma década antes que Góis fizesse qualquer esforço para conhecer pessoalmente o grande Erasmo. Na qualidade de representante dum poderoso rei português que Erasmo conhecia, e que esperava que viesse a ser seu patrono, Góis poderia ter proposto um encontro, na altura que quisesse. A razão dessa reserva pode ter sido o desejo de se fazer notar por Erasmo, na sua qualidade de humanista, por mais modesto que fosse
Passaram-se, contudo, quase dez anos antes que Góis fosse aceite como pensador e historiador. Os primeiros anos como secretário da Casa da Índia foram atarefados e não lhe deixavam vagar para ocupações de carácter humanístico. Quando se preparava finalmente para começar um estudo intenso da língua e da literatura clássica, Góis pediu a Cornelius Grapheus para ser seu professor. A escolha reflectia o espírito do próprio Góis. A sua chegada a Antuérpia tinha coincidido com o regresso de Grapheus à cidade, depois de um ano na prisão, em Bruxelas, como uma das primeiras vítimas da Inquisição (maldita), estabelecida havia pouco na Flandres. Quando os dois homens se conheceram, já as actividades de Grapheus lhe tinham custado o cargo de secretário de Antuérpia. É pouco provável que Góis desconhecesse a ousada crítica feita por Grapheus à Igreja Católica, ou a sua subsquente aprovação de Lutero, ou ainda as suas relações de amizade com Dürer (suspeito como religioso), durante a visita do artista a Antuérpia. Sendo Góis um diplomata que servia um rei mui católico, a sua amizade por um homem que tinha dado como presente de despedida a Dürer o devastador panfleto O Cativeiro da Bobilónia pode parecer deveras surpreendente; porém isso deve ser interpretado como um sinal da inquietação espiritual de Gois e do carácter perscrutador do seu temperamento religioso.
Embora seja muito possível que no início da associação com Grapheus, Góis se deliciasse com ele especialmente como companheiro de música (ambos dominavam vários instrumentos), passou a interessar-se mais por outros talentos do amigo, à medida que os laços entre eles se tornavam mais fortes. Num longo poema dedicado ao seu patrono Grapheus descrevia com manifesto prazer como tinha guiado [Góis] até ao cume sagrado da alta montanha das musas. Revelava surpresa pelo facto de Góis, que já era conhecido pelo seu talento musical, se tornar um estudante de latim tão aplicado, e comparava os seus esforços com os de Catão em relação ao grego». In Elisabeth Feist Hirsch, Damião de Góis, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1967.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT

Poesia. Portalegre. O Tarro. Garcia de Castro. «Já se lá vai para namorar sentado, escandalizar - de amor, ou posição que, embora vaga para fazer convites, é necessário para sonhar política: há sempre um caso para contar no ‘Tarro’!»

jdact

Tarro - Café-restaurante
O ‘Tarro’ fica na cidade nova
e quase sempre resplandece ao sol.

 - Para ir ao ‘Tarro’ é preciso um estilo.

À noite, na esplanada ao pé do lago,
lá onde voga um par de cisnes negros
no mesmo tom credencial dos bens
que ali se dão a consumir sorrisos,
crianças sociais de bicicleta
prosseguem o à-vontade de mostrar
como se é, se está ou se parece.

Comercial, seu nome de Café,
de Restaurante, de Snack-Bar - O ‘Tarro’
não é concisamente um edifício,
vale um desejo e faz como um perfume
quando se expande e torna indiscrição.

Ia dizê-lo a víscera da Cidade...

desta cidade de ambições solúveis,
bela amante que se dá e foge!
Ali palpita na leveza a forma
do mal por bem dizer grandezas mínimas.

Já se lá vai para namorar sentado,
escandalizar - de amor, ou posição
que, embora vaga para fazer convites,
é necessário para sonhar política:

há sempre um caso para contar no ‘Tarro’!

Lá estão à porta adolescentes vários,
contemplativos, a fumar porquês,
nos automóveis dos rapazes ricos,
motor e chapa, as vibrações da alma.

Somos do ‘Tarro’! andamos a estudar!
Nas escolas, no Colégio, no Liceu,
e os nossos pais, os transigentes, pagam,
dão-nos vontades de até ir para a Tropa.
São bons estes degraus para nos sentarmos
a conversar e a discutir justiça,
são bons para nos ouvirmos em silêncio,
pasmados de remorso e de preguiça.

A certa hora habitual conjunta,
quase só vêm os senhores doutores,
tanto os que o são de conhecida fé,
como os da fama pessoal, ambígua.

Então se evolam os odores do ‘Tarro’!

Lembram as missas de solene incenso
as cigarrilhas do vapor lustroso
que os gestos dignifica e os sapatos...

 - Ninguém lhe escapa ao gozo, se lá entra.

Daí que este retrato, esta paisagem,
banal decerto na Província magna,
não nos aperta, é como num museu.
Aqui, porém, cá dentro, em Portalegre,
onde inocência, pequenez, vaidade,
incrível, genial contradição
da sua urbanidade e vocativo,
são a virtude vegetal dos pombos,
- isso já custa, quase faz um perigo,
diria o acidente de um juízo:

 - olhar o passarinho, e ver-lhe as penas
como se elas e a cor do seu verniz
logo soubessem às carninhas mansas.

Poema de Garcia de Castro
, in ‘Os Lagóias e os Estrangeiros’, 1992

JDACT

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dança. Angela Isadora Duncan. «… rejeitou as regras do balllet clássico e criou um estilo próprio de dançar, com túnicas esvoaçantes e pés descalços. Em busca do reconhecimento do seu estilo revolucionário foi para Londres (1898) e consolidou a fama quando fez a primeira exibição em Paris (1902). Depois percorreu quase toda a Europa…»


(1877-1927)
S. Francisco, USA
Cortesia de wikipedia


«Bailarina norte-americana nascida em San Francisco, Estados Unidos, considerada pioneira da dança moderna ao romper com os dogmas do ballet clássico, fazendo da improvisação e da espontaneidade as principais características de seu modo de dançar, criando uma nova escola de dança. A segunda dos quatro filhos do poeta Joseph Charles e da pianista Dora Gray Duncan. Morou em Chicago e, depois, em Nova York, onde a sua maneira de dançar, com os pés descalços, vestida com túnica leve e tendo por cenário apenas uma cortina azul, não despertou entusiasmo. Com um treino técnico incipiente, Isadora rejeitou as regras do balllet clássico e criou um estilo próprio de dançar, com túnicas esvoaçantes e pés descalços, a sua marca. Não muito afeita a casamentos viveu maritalmente com designer teatral Gordon Graig e Eugene Singer, dono das máquinas de costura do mundo de então.


Em busca do reconhecimento do seu estilo revolucionário foi para Londres (1898) e consolidou a fama quando fez a primeira exibição em Paris (1902). Depois percorreu quase toda a Europa, onde fez sucesso e apresentou-se nas principais capitais europeias, na Grécia e na Rússia (1904). Devido à morte repentina dos dois filhos, Deirdre e Patrick, afogados no rio Sena (1913), levou a retirar-se temporariamente de cena. Depois da primeira guerra mundial (1920) foi para Moscovo, onde se casou (1922) com o poeta soviético Serguei Iessnin, separando-se dois anos depois. Yesenin suicidou-se (1925) e ela estabeleceu-se na França, passando os seus últimos anos em Nice, na Riviera francesa, onde morreu acidentalmente, sem fortuna e esquecida, enforcada pela própria echarpe, que se enrolou nas rodas do automóvel que dirigia. Escreveu The Dance (1909) e postumamente foi editado o The Art of the Dance (1928)». In Wikipédia.




Cortesia de Wikipédia/JDACT

Os Teatros de Lisboa: Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Mongini tinha gosto pela poesia, era grande amador das letras, cultivava-as como recreio, e estimava muito os que se distinguem com talento fazendo profissão delas. Na manhã do dia em que partiu, fez versos aos seus amigos de Lisboa»

A grande Alboni
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NOTA: De acordo com o original

«Aqui, dizem ellas, n'este camarim, esteve a famosa Novello, e depois a Castellan, e a Tedesco, e a Volpini, e a infeliz Pascal-Damiani que quebrou uma perna uma noite e nunca mais se levantou da cama senão para se tratar de um ataque de loucura, e a Giovanoni, e a Fricci, e a cantora por excellencia, a priveligiada, a maravilha, que o Ruas nos trouxe. Um prodígio! A voz mais argentina e fresca! Uma voz de rapaz a pairar com uma voz de rapariga… na mesma guela! A grande, a gorda, a rara Alboni!
N'aquelle, esteve a Pareppa e a Bianchi, e a Uberti, e a Dorr, e a Lablache, e a Lotti…
A força suave! O poder fácil! A delicadesa vigorosa! Nem fadiga nunca, nem esforço. Um pouco fria, diziam; mas tão elegante e tão formosa! Qual fria! Não seria um brazeiro, estamos d'accordo; mas não seriam talvez os frialões os que mais se queixavam da frieza d’ella? Os ladrões, por via de regra, são quem mais gosta de gritar Aqui d'El-rey!
N'aquelle, o segundo do lado da escada, estiveram a Gazzaniga, e a Bendacci, e a Massini, e a Carlota Marchisio, voz de soprano purissima, a Norma das feias. Quando ella appareceu em Lisboa com sua irmã Barbara, houve um quarto de hora de surpreza. Pareciam… dois homens! Dois homens feios! Dois homens feios, vestidos de mulher! Mas a voz era tão agradável ao ouvido, que… fazia fechar os olhos. Permittiu-se-lhe, á famosa Carlota, uma das maiores temeridades, sem pestanejar de pasmo. Uma noite, na Somnambula, quando menos se esperava, appareceu de loira! Este povo é muito hospitaleiro!
E a Borghi-Mamo, a voz com mais talento e com mais alma que tem acordado no nosso tempo os eccos de S. Carlos. E estremecem as velhas costureiras, como se avistassem ao longe as sombras da gloria na névoa do passado e na poeira dos camarins. Ha artistas que nunca mais esquecem. Uns, pelo sublime. Mongini, por exemplo.


Mongini que teve entre nós todas as glorias; primeiro as do amor, e no fim, por um momento, as do ódio. Nas recitas finaes da ultima estação que fez em Lisboa, Mongini recusou-se a cantar, porque a ameaça publica rugia por ahi contra elle, accusando-o de pouco amável para com Portugal, por não haver querido cantar a opera dum portuguez, O Arco de Santa Anna, de Francisco Sá Noronha. O grande tenor partiu de Lisboa como que dando a entender que não tornaríamos a ouvir aquella voz deliciosa, cuja limpidez nocturna fazia sonhar com o luar, a banhar-se no orvalho que cae em pérolas sobre as flores! Tantas festas, tanto applauso, tantos triumphos, tanto phrenesi de enthusiasmo, ahi está no que deu tudo isso, num capricho! Tudo se quebra n'este mundo; é essa uma das melancholias mais profundas da existência humana.
Por maior génio, esplendor, mocidade e gloria, que tenha um homem, lá chega a hora em os mesmos que o proclamavam inimitável teem gosto em o amargurar. Talvez assim deva ser, para que todos tenham o seu dia; e toque a cada um passar por baixo da luz que brilha, como a onda pelo rastilho do luar antes de ir perder-se na immensidade escura...
Mongini tinha gosto pela poesia; era grande amador das lettras, cultivava-as como recreio, e estimava muito os que se distinguem com talento fazendo profissão d'ellas. Na manha do dia em que partiu, fez estes versos aos seus amigos de Lisboa:

Addio agli amici
In mezzo a voi da gelide contrade
Men venni, or son sei anni sconosciuto;
Tali mi deste prove di bondate
Che ringragiai il Ciei d'esser venuto.

Ognor crescente si fu in voi l’affetto
Giammai conobbi il duol glammai l'affanno;
Voti formai d'amor, per voi nel petto
Che per andar di tempo non moranno.

Le Auguste Maestá pien di clemenza
Mi vollero onorar con distinzione,
Eterna serberó riconoscenza,
Ossequio, servitu e devozione.

Amici addio, giunto é omai l'istante
Ne so ove mi chiama il mio destino;
Che l’artista, per sua vita errante
Un limite non ha nel suo cammino.

Ma se varcassi l’Oceano intero,
Questa terra per me sacra, un sospiro
S'avrebbe dei mio cor, che dal pensiero
Imille affetti suoi non si svaniro.

Se spietata una nube di dolore
Volle offuscar tant'anni di contento,
L'abblio la sperda, per quel tanto amore
Di voi in mezzo a cui grande mi sento!

Amici miei, anche una volta addio!
Sull’ ali del pensier, vi giunga ardente
Dai patrii lidi il saluto mio
II saluto deir uom riconoscente.


Querido artista! Não consentiu a morte que elle voltasse a Portugal e que o publico lhe tornasse bem sensivel que aquelle momento de ódio á despedida ainda havia sido também, de algum modo, amor!
In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de Livraria Editora Mattos Moreira, 1874/Bordalo Pinheiro
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O Livro de Cale. Monge Negro. Carlos Cordeiro. «Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados. Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou: - Quem está aí?»

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Floresta de Sobressalto
«Pelas vestes, os cadáveres seriam cristãos. Entre o dever de enterrar os corpos e o ressentimento que dele se apossava, o monge optou por confiar os corpos à sua morada eterna e encomendar as almas a Deus. Porém, os elementos revelaram-se adversos e mostraram toda a sua repulsa através de um dilúvio que se abateu, novamente, sobre o lugar. Com uma fúria insana, a força da torrente de água impeliu os corpos outeiro abaixo, exigindo a Bernardo toda a sua força e destreza para não ser também arrastado. A borrasca, conforme surgiu, assim se extinguiu. Mas, o cenário traduzia o estado caótico do solo e da flora. De onde estava, Bernardo apenas conseguia vislumbrar uma débil luminosidade, ao longe, no vale. Montou Lucus e afastou-se do pesadelo.

Recontro em Mofatra
O céu descobrira-se momentaneamente, deixando o luar incidir numa velha ponte romana, aparentemente reconstruída havia pouco. A claridade do lugarejo tornara-se mais forte, à medida que Lucus se aproximava. Entre as raras tochas acesas, destacava-se uma no que parecia uma habitação antiga, mas sólida. Foi para lá que Bernardo voltou a montada, afagando-lhe o dorso, na tentativa de o acalmar e de aliviar a sua dor. Porém, os afagos não lhe revelaram a ferida que rompia o bojo do cavalo.
O monge também estava ferido. Sentia agora a dor. Talvez as ramagens ou as rédeas o tivessem fustigado. Todavia, os cortes eram demasiado finos e perfeitos, como que infligidos por gumes afiados. Contudo, a chuva, que, entretanto, voltara a cair e que lhe escorria pelo corpo, aliviava-lhe o sofrimento. Cautelosamente, Bernardo aproximou-se da aldeia. Com excepção de uma ou outra tocha, onde bruxuleavam ténues chamas, pouco mais estava iluminado do que uns passos em redor. Sossego, a não ser uma vozearia de chusma, abafada e indefinível, que envolvia o ambiente.
Devagar, mas com firmeza as patas de Lucus iam esmagando, com um bater surdo e ritmado, os dejectos que se arrastavam na rua principal. Atento, Bernardo procurava a origem da assuada. Prosseguiu, acalmando o cavalo que continuava a dar mostras de cansaço e dor. O barulho tornava-se mais audível, à medida que Lucus se aproximava da mansão. Bernardo já sonhava descansar abrigado. Pouco chovia. Estalagem, lia-se numa tabuleta que balouçava, fustigada pelo vento. Avelha tabuleta, que parecia não se aguentar ali por muito mais tempo, abanava com um ruído lúgubre. Sendo pobre, a casa era uma das maiores e melhores do lugar. O granito que, apesar de antigo, parecia firme, sustentava um telhado de madeira alto e largo, que cobria os dois andares, sendo o último, mais recuado.
Bernardo contornou a casa, tentando ver se se tratava de um local seguro. Pretendia deixar Lucus na cavalariça. Deteve-se junto de uma abertura, ladeada por dois pilares de madeira. Entrou num telheiro, apeou-se e amarrou o cavalo a uma trave. Alguns movimentos e relinchos abafados fizeram-no olhar para as outras montadas, apenas percebidas como silhuetas de corcéis árabes. Com movimentos demorados e rigorosos, Bernardo tirou as luvas, sacudiu a capa, pegou no bornal e olhou novamente na direcção dos relinchos. Os animais estavam agitados e fatigados. Surgindo do nada, ao lado de Bernardo, uma voz grave e rouca vociferou: - Quem está aí? Mostrai-vos ou a vossa vida termina agora!! O monge voltou-se e respondeu, para sossegar o homem: - Nada receeis! E gente de Deus!
De súbito, uma ponta de lança gelou-lhe o pescoço, apertando-lhe a jugular. - De que duvidais? - atirou Bernardo, seca mas prudentemente, olhando o homem pelo canto do olho, identificando-lhe o físico e possível ameaça. Fernando, homem atarracado e corpulento, mostrou-se. Lento e pesadão, mas com um olhar vivo na face bochechuda, insistiu: - Esta noite não é, de boa jornada e quem dela surge ou é salteador ou assaltado! - Tendes razão, homem de Deus! Quem é quem, agora? - perguntou ironicamente Bernardo, a avaliar a postura do oponente.
O estalajadeiro ficou confuso. Mudou de lugar, tentando garantir uma melhor posição de ataque. Bernardo perdeu a esperança de convencer o homem e deitou as mãos à lança. Atónito, Fernando viu-se sem poder atacar, ao verificar que a lança se havia ancorado no poderoso braço de Bernardo. Este olhava-o nos olhos, ao mesmo tempo que lhe encostava a espada ao pescoço. Fernando debateu-se, por instantes. Depois, arregalou os olhos e franziu a testa, estupefacto, ao identificar o cunho da espada do oponente. Com a voz tolhida, esforçou-se: - Senh... Senhor! Desculpai-me... pelo santo nome de Deus - desculpou-se, ainda gago de temor. - Não vos reconheci o prestígio na figura. Castigai-me ou desculpai-me, senhor de... - Nem mais uma palavra! Calai-vos, pois não quero o meu nome pronunciado nem a minha presença assinalada - disse-lhe Bernardo, agastado, libertando lentamente o homem, surpreendido, também, por ter sido reconhecido tão rapidamente.
Fernando afastou-se, deferente. Encostou a lança à parede e olhou cabisbaixo para Bernardo, que exigiu, peremptório: - O vosso nome! Que sabeis de mim? – Fernando… nobre senhor - hesitou o estalajadeiro. – Fernando Dias, tal como meu pai... honrado por ter combatido ao lado do conde Nuno. A minha consideração a quem conserva o seu cunho... - Estou elucidado, Fernando! A minha saudação a quem descende de tão digno companheiro de meu pai - respondeu Bernardo para, depois, reclamar um aposento ao estalajadeiro. - Vinde, acompanhai-me - disse o homem, subserviente.
 - Mostrai-me outra entrada que não a comum - exigiu Bernardo. - Mas, senhor, como quereis...? Entrar pela janela? Lá, no alto? -Tereis uma alternativa, decerto! Ou não hospedais gente que passa o tempo a utilizar esse estratagema? - Há... tenho... não sei é se… para vós... a dignidade... - Deixai-vos de juízos quanto à minha condição! Mostrai-me a passagem, homem!» In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

O Livro de Cale. Carlos Cordeiro. «Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso»


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Floresta de Sobressalto
«Não havia descanso no difícil ensejo de escapar. Mas, um pensamento surgiu, singular, a lembrar-lhe o crucifixo de madeira! Porém, alheou-se rapidamente da ideia, ao escutar por perto o silvo de um apetrecho, que rompia o ar, na sua direcção. Esquivou-se ao acaso. Lucus relinchou de esforço e de dor. A nova investida, Bernardo respondeu de imediato. Tentou apoderar-se da arma uma e outra vez. Em vão. À sua direita, era, então, mais notória, a presença de outros cavaleiros. Escapou-se de um ramo, desviou-se de arbustos, evitou um calhau. Protegeu-se da chuva, puxando a capa para o rosto. Não sossegou. Segurando-se a Lucus com todas as suas forças, espevitou-o até à exaustão, sentindo o esforço do animal. Subitamente, sentiu o crucifixo balançar no seu peito, animando-lhe a memória. Pegou nele de imediato e puxou-o para si, fazendo-o soltar-se do fio. Olhou de soslaio, ergueu o braço e arremessou-o com ganas na direcção dos perseguidores...
Pareceu eterno aquele momento suspenso e, no instante seguinte, após uma explosão, uma aura de energia com impressionante ardência envolveu e asfixiou tudo em seu redor. As coisas perderam forma, imiscuindo-se num espaço indistinto. Sem saber onde estava, Bernardo, mesmo cego de esforço, revoluteou a montada ao encontro dos oponentes. O alarde da refrega tornou-se confuso. De forma lenta, mas precisa, o monge levou a mão à espada. O tempo abrandara, o espaço parecia exíguo, tudo se envolvia num sono sem sonho que tardava em passar. Apenas o olhar de Bernardo, louco de temor e pleno de fúria, se cravara em todas as direcções, procurando pontos de referência. Tudo à volta era confuso e baço. Um vazio sagrado abafara as presenças demoníacas que, imperceptíveis, soltaram queixumes de agonia, parecendo afastar-se precipitadamente. Longe, os espectros desapareciam num declive. Pouco depois, a chuva regressaria, impiedosa e torrencial.
Bernardo recuperou lentamente a serenidade, tentando perceber o quê ou quem o havia provocado com tanto fulgor e de forma tão singular e, talvez, fantástica. Ao guardar a espada, perguntou-se de onde viriam as faúlhas que o haviam perseguido durante o frenético galope e se não teria visto qualquer objecto metálico por perto... Indagou-se, mas não teve resposta. Voltou a cobrir o corpo com a capa, protegendo-o da tempestade, ao mesmo tempo que levava a mão ao peito, tentando inquirir a alma, qual guia místico. Mas não obteve qualquer resposta nem indício inteligível. Ainda duvidava da realidade. Tentou reconhecer um ínfimo pormenor, que denunciasse os infernais agressores, mas não recordava mais do que silhuetas fluidas e mórbidas. Porém, que semelhança assustadora com a sua própria imagem. Inquietava-se. Porquê figuras tão obscuras e sinistras? Porque não vira o cintilar de uma lâmina?, perguntava-se.
Tocou no seu corpo. Não tinha feridas, mas faltava-lhe algo no peito. O medalhão, a dádiva de Henrique, tinha desaparecido. Contudo, o crucifixo, ofertado por Orlando, havia cumprido a sua missão. O seu efeito, porém, apenas seria verificado, quando Bernardo, ao tentar orientar-se, fez Lucus recuar e deparou com três cadáveres, meio ocultos por arbustos, perto de uma vala. Com um misto de espanto e horror, descortinou os corpos despedaçados, mercê da deflagração provocada pelo objecto que lhes havia arremessado. Percebeu então que o risco que correra tinha sido real. Apesar de se assemelharem a sombras ou espectros, os agressores eram, na verdade, homens de carne e osso. Se, antes, a fúria dos elementos lhe havia sugerido estar sob um prenúncio espiritual, agora, perante aquele testemunho, sabia que o ódio profano dos homens também lhe enredava o destino». In Carlos Cordeiro, O Livro de Cale, O Monge Negro, 1060-1089, Publicações Europa-América 2010, ISBN 978-972-1-06140-8.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

Salvaterra. Jean Lartéguy. Leituras. «Sebastião e Baptista tinham conseguido fugir da herdade, Fontugne, feito prisioneiro e deportado, passara um ano em Dachau. Do campo de concentração retinha na lembrança sensações confusas de fome e fadiga»

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Sebastião Josc. 1 de Dezembro de 1965
«Ventos gelados varriam o planalto, fazendo bailar a neve em pó e perseguindo no céu, com uivos, as nuvens negras. Num cabeço, junto de um túmulo rodeado por uma grade de ferro enferrujada, quatro homens abriam uma cova com o auxílio de uma picareta. A terra gelada saltava em lascas duras, nas quais vinha embater a pá de ferro. Às vezes, um dos homens praguejava, outro tossicava ou batia com os pés para se aquecer. Tinham-se reunido ali o doutor Sebastião Josc, maire de Salvaterra; Manuel, seu administrador; Fontugne, pastor da herdade de Cabres, e Baptista Pons, cuja mãe era proprietária da Estalagem dos Quatro Caminhos.
À esquerda, a uns trezentos metros, no nível inferior, no cruzamento da estrada alcatroada e de três caminhos de terra batida, erguia-se essa estalagem, edifício construído em cimento, de reboco amarelado e coberto de telha marselha. Em frente ficava a quinta dos Puech, que fora incendiada, e onde vinte e quatro guerrilheiros, entre os quais uma mulher, Natália, haviam sido cercados e massacrados, há já vinte anos, a 18 de Janeiro de 1944.
Do outro lado da estrada, para perpetuar esta recordação, erguia-se uma memória em cimento, com a cruz da Lorena e uma caveira. O vento, a neve e a chuva haviam apagado os nomes inscritos na placa de calcário mole, fixada sobre um dos lados do monumento. Sebastião, Baptista e Fontugne encontravam-se com eles naquelas estranhas guerrilhas que não haviam sido baptizadas nem com o nome de uma vitória, nem de um guerreiro, mas simplesmente com a matrícula: 147, número de código de uma vasta operação que jamais fora executada.
Passados vinte anos, lembravam-se às vezes dum rosto, dum gesto, da maneira como algum deles puxava as calças, como outro enrolava os cigarros ou chamava o cão. Sebastião e Baptista tinham conseguido fugir da herdade, Fontugne, feito prisioneiro e deportado, passara um ano em Dachau. Do campo de concentração retinha na lembrança sensações confusas de fome e fadiga. Quando regressara, sem ter compreendido nem aprendido o que quer que fosse, entregara-se com alívio ao seu antigo mester de pastor.
Manuel não estava com eles quando a herdade foi atacada. Pertencia a um grupo F. F. I. dos Cévennes, que não fizera senão umas três ou quatro ligações com os homens a quem chamavam ao sul do Aigoual os soldados de Londres. Quando a cova estivesse terminada, sepultariam nela o que fora chefe desta Missão 147, o ex-coronel Lourenço de Portailles, que nunca pusera os pés em Salvaterra antes de, em 20 de Outubro de 1943, aí ser largado de paraquedas, mas cujo nome desde há séculos já, naquele local, era odiado por rodos os protestantes.
Na estalagem, o corpo esperava, estendido numa grade de madeira. Velavam-no mulheres vestidas de preto, umas lendo o livro dos Salmos, outras passando o rosário. Em volta do cadáver, que não pertencia nem a umas nem a outras, tornavam a encontrar-se velhos ódios religiosos e políticos, que o tempo e a miséria não tinham extinguido completamente. - É verdade - perguntou Manuel - que foi preciso separar à coronhada Lourenço e Natália, ele vivo e ela morta? Atirou com a pá e Sebastião estendeu-lhe a mão para o ajudar a sair da cova. Fontugne substituiu-o. – Düeno...
Manuel tratava às vezes o médico por düeno, patrão, mas ao mesmo tempo, com ostentação, dava-lhe tratamento de tu, para mostrar a todos que se mantinha um ser livre. - Düeno, é verdade que tu e Pabanel casaram Lourenço e Natália antes de saírem a correr da herdade, debaixo de uma chuva de balas, e que foi neste local que a atingiram? E apontou para o grande pórtico que se erguia, isolado, no meio das paredes enegrecidas e arruinadas». In Jean Lartéguy, Sauveterre, Press de la Cité, 1966, Salvaterra, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia de L. Bertrand/JDACT

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A Profecia. Histórias Secretas de Reis Portugueses. Alexandre Borges. « Nascida com a ambição de ser a encarnação da Jerusalém celeste, forneceu a grande formação intelectual de alguns dos homens mais influentes do seu tempo. O conde Henrique estava bem ciente da influência dos cluniacenses, ou não fosse ele próprio sobrinho de um…»

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A Profecia. D. Teresa e o rei Afonso Henriques
«Ah, sim. Diziam que era um gigante de quase dois metros de altura. Que o próprio Jesus Cristo lhe apareceu um dia, posto na cruz e rodeado por uma corte de anjos, garantindo-lhe a vitória. Que a espada com que venceu quase todos os exércitos que enfrentou pesava cinco quilos. Ou 15, consoante os livros. E que eram precisos três homens para lha tirar. Lamentavelmente, 400 anos depois, convencido dos poderes sobrenaturais da relíquia do antepassado, o rei Sebastião tê-la-á pedido e perdido num desastroso dia de Agosto em Alcácer Quibir, de modo que nunca saberemos de que era feita. Dizem também que, ainda adolescente, se armou a ele mesmo cavaleiro. Sozinho, com o metal das armas a ecoar, ouvimos ainda, pela Catedral de Zamora, e que enfrentou a mãe. E todos esses múltiplos requintes lendários culminam num episódio: o confronto entre um filho e a mulher que o pôs no mundo. Ter-lhe-ia batido. Tê-la-ia prendido e posto a ferros. Um caso de violência doméstica que perdoamos piedosamente, tendo em vista os fins e a má personalidade que, por instinto, atribuímos à progenitora. É um mundo de homens, de névoas e fantasmas medievais. Temos dificuldade em ver claramente por entre eles. Mas reconhecemos nele o caos inicial donde nasceu o nosso mundo.
Tudo isto se conta sobre Afonso Henriques. E acerca de tudo isto não se sabe onde traçar a fronteira entre a verdade dos factos e a verdade da memória colectiva de um povo precisado de heróis, como todos os outros. E essa é a beleza da História. Das múltiplas histórias de um cavaleiro que fundou um dos mais antigos estados-nação do mundo. Um rei violento e autoproclamado, que, pelo caminho, maltratou a mãe, ou um guerreiro iluminado por Deus, que, por pouco, não foi considerado santo?
As dúvidas começam logo no nascimento. Que pode ter sido em Guimarães ou em Coimbra ou em Viseu. Não se sabe bem em que mês. Provavelmente em 1109. Mas também há quem diga que foi baptizado por Geraldo de Moissac, segundo arcebispo de Braga, depois da recuperação da arquidiocese, e futuro São Geraldo. Mas esse morreu em Dezembro de 1108, depois de expressar um último desejo: comer fruta. O pormenor é importante porque, ao que se diz, quando os companheiros abriram a porta do quarto paru lhe mostrar que ,lá fora, em pleno Inverno, nada haveria a não ser neve e algumas castanhas eventuais espalhadas pelo chão, terão contemplado um cerco de árvores carregadas dos mais variados tipos de frutos. De modo que é preciso escolher:
  • ou Afonso nasceu em 1108 e perdeu o pai aos quatro anos, ou em 1109 e perdeu o pai aos três. Duma forma ou doutra, mal teria idade para se recordar dele, mas seria sempre mais próximo do espectro desse pai morto do que da mãe de carne e osso, ali viva ao lado dele.
Henrique de Borgonha era um nobre que tinha participado na Reconquista Cristã. Combatendo ao serviço de Afonso VI, recuperou terras aos muçulmanos e, pelos feitos bélicos, o rei de Leão e Castela ofereceu-lhe duas coisas: a mão da filha bastarda D. Teresa e o Condado Portucalense. Ao agora conde Henrique cabia governar o território, continuando a prestar vassalagem a Afonso VI. Mas a verdade é que, entre castelos e catedrais, pareciam correr outros anseios. Poder temporal e poder espiritual não andavam longe naqueles dias. A religião desempenhou um papel na formação da identidade dos povos, sobretudo quando se estava na ressaca de trezentos anos de ocupação árabe. A organização territorial desenhava-se sobre a rede cristã de paróquias e dioceses e, a pouco e pouco, uma fronteira impunha-se a traço cada vez mais grosso: a que separava o Minho da Galiza, isto é, a zona de influência da Sé de Braga e a de Toledo. Em 1102, a coberto da noite, o bispo de Compostela, Diogo Gelmirez, percorre igrejas e capelas minhotas e rouba os corpos dos santos locais. A razão oficial era a necessidade de os proteger de saques e profanações; a verdadeira acabar com a concorrência que os santos de Braga faziam às relíquias de Santiago. A batalha pelas romarias de peregrinos ficou definitivamente desequilibrada a favor da Galiza, mas a guerra ainda ia a meio.
A Abadia de Cluny era, por essa altura, o espírito que emanava de França com o projecto de reformar a Igreja. Nascida com a ambição de ser a encarnação da Jerusalém celeste, forneceu a grande formação intelectual de alguns dos homens mais influentes do seu tempo:
  • casos de Bernardo, bispo de Toledo,
  • Geraldo, de Braga,
  • ou o próprio papa Pascoal II.
O conde Henrique estava bem ciente da influência dos cluniacenses, ou não fosse ele próprio sobrinho de um, o abade e futuro São Hugo. A cidade de Braga, que D. Teresa recebera do pai como dote de casamento, foi doada pelos condes aos arcebispos, em sinal de uma amizade duradoura e frutuosa, ainda hoje, os corpos de Henrique e Teresa repousam numa capela respeitosamente chamada dos reis, na Sé de Braga. Depois de duas viagens a Roma, o arcebispo conseguiria junto do papa a vitória tão procurada pela Igreja como pelos condes portucalenses: a recuperação da primazia de Braga, com a permissão do leitor, servimo-nos de outro ainda hoje: ainda hoje, o arcebispo de Braga usa o título Primaz das Espanhas. A ressurreição da importância da cidade no contexto da cristandade europeia implicava uma consequência política: a autonomia face a Toledo, a autoridade de convocar os concílios regionais, jurisdição própria sobre os seus domínios». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Letras, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.

Cortesia C. das Letras/JDACT

O Príncipe. Nicolau Maquiavel. Introdução de José Barreiros. «Descobri que para ler este pequeno livro e entender a complexidade que se esconde por detrás da sua vulgar linguagem importaria conhecer o seu autor, retirá-lo do imaginário colectivo…»

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Jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel. In Villari

Maquiavel, o prisioneiro do maquiavelismo
«Encerro este texto de apresentação na véspera de terminarem os cinquenta e oito anos da minha vida, a idade com que morreu Niccolò Machiavelli. E encerro-o lembrando um pensamento seu: numa cidade corrupta, as repúblicas não podem manter-se nem recriar-se. Por isso, ele terá escrito o Príncipe. Por causa disso, a História amaldiçoou-o, condenando-lhe o nome, como se através da desconsideração pública lhe ferisse o coração da honra. Vejamos como.
Este exercício, porque trivial, é um começo necessário. Consulte-se um dicionário da língua portuguesa, uma enciclopédia, para maior alcance: Maquiavel deu origem, pelo menos no nosso léxico, ao substantivo maquiavelismo e ao adjectivo maquiavélico. É uma escalada que, começando com um nome de pessoa, termina num qualificativo de sentido pejorativo. Veja-se, por exemplo, a Enciclopédia Luso-Brasileira:
  • Maquiavelice, acção ou dito maquiavélico; astúcia, ronha, manha, ardil. Maquiavelismo, sistema político que assenta na astúcia, na perfídia e que foi exposto por Maquiavel.
NOTA: A Enciclopédia consigna mesmo a forma verbal maquiavelizar, ilustrando a ideia. O Dicionário de Moraes regista o mesmo sentido. O editado em 2001 pela Academia das Ciências de Lisboa diz que o maquiavelismo é o comportamento político desleal, desprovido de boa-fé ou o comportamento do que tem falta de escrúpulos, do que ludibria e prejudica, para conseguir o seu objectivo.

Só a um homem de excepção sucede um tal azar. A causa disso foi um livro que ele nunca chegou a publicar, editado em 1532, sete anos após a sua morte, precisamente este livro escrito por quem sofreu a malignidade da Fortuna, como ele descreveu a fatalidade do seu percurso. Esta apresentação é a narrativa de uma tragédia existencial, O Príncipe visto como um produto de amargura, de grandeza agónica, de desespero, mas também, nas sucessivas interpretações que concitou, um espelho das doridas contradições sociais, políticas e religiosas dos vários séculos de História durante os quais a obra sobreviveu até chegar, como um clássico, aos nossos dias. Tudo convergiu para que o acaso não pudesse gerar diferente destino. A verdade do escrito é a do efeito que produziu.
Descobri que para ler este pequeno livro e entender a complexidade que se esconde por detrás da sua vulgar linguagem importaria conhecer o seu autor, retirá-lo do imaginário colectivo, que ora o transformou numa espécie de cortesão alcoviteiro de tiranos, com eles partilhando os arminhos do poder, ora em republicano desprezado pela República, amigo do povo e dele seu discreto defensor, e ir buscá-lo ao momento de exílio, res perdita, sofrido o desemprego, sujeito à prisão e à tortura, o dia gasto em convívio com gente boçal, a noite esgotada em fantasias delirantes em companhia dos Antigos, a dura modéstia do quotidiano e a ânsia de obter qualche cose dos de Medici ou do papa, um de Medici também, algo que lhe devolvesse o sentido de utilidade e algum rendimento, como nos tempos idos em que era o secretário da Segunda Chancelaria da cidade de Florença.

NOTA: Duas notas interessantes. Primeira, para referir que o de, sempre minúsculo, é a abreviatura de dei, antes da consoante, e de degli, antes da vogal, para fazer referência à família de que se trate. Segunda, que, por falar em papas, os de Medici deram origem a três. O próprio papa Pio IV pretendeu ser membro da família, sem o ser!

Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer». In Nicolau Maquiavel, O Príncipe, Introdução de José António Barreiros, tradução a partir do original de Maria Jorge Figueiredo, Editorial Presença, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-23-3951-3.

Cortesia de E. Presença/JDACT

Leituras. O Homem que Viajou Sòzinho. Virgil Gheorghiu. «Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais»

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«Sei que tudo te há-de correr bem - disse a mãe de Traian Matisi. - Estou certa que tudo te há-de correr bem. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Com a mão direita segurava o rebordo da carruagem prestes a partir. Agarrava-a como se a-quisesse deter. Com a mão esquerda limpava as lágrimas quando lhe chegavam aos lábios. - Não tens razão nenhuma para chorar – disse Traian depois de ter arrumado a mala na carruagem. - Chorar para quê, se tens a certeza de que me vou sair bem? A carruagem, atrelada a dois cavalos, estava parada diante da escada da casa.
Traian, envergando o seu primeiro trajo civil, partira para a Universidade, em Bucareste. Todos os seus, à volta da carruagem, assistiam à partida: o pai, o padre de Isvor, direito, magro, apertado na sotaina. - Estava calado. Junto dele estavam as três irmãs e Nicolau, o irmão de Traian. Também calados. - Bem sabes que hei-de vir de tempos a tempos a casa - disse Traian. Pôs uma mão protectora no ombro da mãe, que o fitou cara a cara. Enquanto olhava para o filho, os olhos dilatavam-se-1he, interrogadores e assustados.
 - Pois claro que volto sempre nas férias a casa - disse Traian, vendo o medo invadir os olhos enevoados de lágrimas da mãe. - Voltas? Sério? - perguntou ela, incrédula, com uma voz hesitante. Depois de fazer a pergunta, a mãe de Traian desatou a soluçar. - Não queres acreditar que volto? - disse ele; e apertou-lhe com mais força o ombro. - É por isso que estás a chorar? Porque julgas que não volto? - Acredito que voltas - disse ela. As lágrimas - deslizaram-lhe de novo até aos lábios e limpou-as com a mão esquerda. Depois continuou:
  • Acredito que voltas. Mas tenho medo que voltes tarde de mais. É só isso. Que voltes tarde de mais. Quando eu já cá não estiver.
A mãe de Traian Matisi desprendeu a mão da carruagem; agora deixava-a partir. Dissera ao filho tudo o que tinha a dizer-lhe. Toda a sua angústia. Deu um passo atrás para deixar partir a carruagem. Traian voltou-se, interrogador, para o pai. O padre estava imóvel. As três irmãs de Traian também. Junto da escada deu com o olhar do Solitário.
Era um cavalo serrano, um pouco maior do que um poney, que, um belo dia, chegara ao pátio do padre de Isvor, onde espinoteava em liberdade, partilhando da vida das crianças, das galinhas, dos patos e dos outros animais domésticos. O Solitário olhava agora para Traian com os mesmos olhos indagadores, fixos e um pouco inquietos, com que o olhavam todas as pessoas reunidas à volta dele. - Mas para quê, esta despedida trágica? – disse Traian. - Como se eu fosse para o fim do mundo...
A voz tornou-se-lhe enérgica. Continuou:
  • Não vou, nem para o fim do mundo, nem para a guerra. - Vou pura e simplesmente para a Universidade. Mas para que servem essas lágrimas? Mamã, não chores mais!
Traian Matisi beijou a mão ao pai, que lhe deu um beijo na testa. Beijou a mão da mãe. A mãe deu-lhe um beijo na testa também. Beijou as irmãs, na face direita. Para beijá-las tinha de se curvar, que as três eram mais pequenas do que ele. Puseram-se, cada uma por sua vez, nos bicos dos pés e beijaram também Traian na face direita. Nicolau, o irmão de Traian, tinha dez anos. Recebeu com gravidade o beijo na face direita. - Agora, adeus! - disse bruscamente Traian. - Adeus! Até às férias do Natal. Antes de saltar para a carruagem encontrou de novo os olhos inquietos do cavalinho, do Solitário, que olhava fixamente para ele.
 - Também queres que te diga adeus? - perguntou Traian.
Traian beijou rapidamente o cavalinho na testa, entre os olhos. Depois saltou para a carruagem. Grigore, o criado que o levava à estação, enxotou com o chicote os patos, os gansos e as peruas que se tinham instalado debaixo do carro. Depois subiu para o pé de Traian e chicoteou os cavalos. - Volta, como prometeste! - disse a mãe de Traian. Fora mais para si mesma que falara, quando a carruagem largou. No mesmo instante ouviu-se a voz de Nicolau, que parodiava a recomendação materna ao irmão que partia: - Ó defunto, não voltes tarde de mais!
A alcunha de defunto, lançada naquele momento por Nicolau, provocou o riso das crianças. Traian também riu. O padre sorriu, a mãe de Traian sorriu por entre as lágrimas. E até Grigore. Todos riam quando a carruagem deixou o pátio do padre de Isvor. As irmãs e o irmão tinham posto a Traian a alcunha de defunto. Traian era o filho mais velho do padre. Durante as férias, passava os dias a ler na varanda da casa. As irmãs e Nicolau tinham posto ao irmão mais velho o nome de defunto para se vingarem de ele nunca brincar com eles. Tinham decidido que só um morto, um defunto podia ficar imóvel todo o dia, com a cabeça metida entre os livros». In C. Virgil Gheorghiu, O Homem que Viajou Sòzinho, tradução de Vitorino Nemésio, 4ª edição, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia da L. Bertrand/JDACT