quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Poesia. Gloria Victis. Não-Poemas. Carlos Garcia Castro. «Por mais que digam o amor em versos, por mais que o cante, róseo, a poesia, por mais que o chorem, ébrios, os poetas, por mais que tu pareças madrepérola, por mais que os dois sejamos um no outro uma avalancha abalançar de engenho, hábil momento, prontidão expedita»

jdact e cortesia de raulladeira

Cabeça de cã
A minha idade é já de senador.
Classicamente quer dizer sou velho.
Pouco me falta para o descuido inapto,
assim se diz da hora de morrer.
Tanto me faz pensar como sentir.
Prezo o direito de não ter pudor
da minha liberdade sem pachorra,
sem explicações e outras atenções
para as grandes frases ditas em poemas.
A vida é natural sem literatura,
nem dela mais precisa um ser comum,
que é o que a morte faz de todos nós.
Por isso prezo o meu descuido inapto,
quer tenha feito ou não qualquer poema.
O mesmo se dirá dum canastreiro,
quer tenha feito ou não muitas canastras.
Tanto me faz. Não tenho é mais pachorra
praa as grandes frases ditas em poemas.
A minha idade é já de senador,
classicamente quer dizer sou velho,
esclarecido então para o tal descuido
de ser poeta ou ser um canastreiro.
2005


Celebração
Pareces mas não és de madrepérola.
Pouco me interessam já tais fantasias
que fazem do amor escrita em papel
às ordens dos poetas, não de ti.
Versos de amor são sempre longitude,
traçadas geografias, medições
que eu próprio também fiz, como num mapa,
a toponímia azul, mas de aparência.
Dizer de amor em versos não é prático,
por mais inteligentes que eles sejam.
Não é de versos que o amor se faz:
nunca o amor se fez a escrever versos
(embora os necessite para os seus mitos),
não se reparte só duma só parte.

Por mais que digam o amor em versos,
por mais que o cante, róseo, a poesia,
por mais que o chorem, ébrios, os poetas,
por mais que tu pareças madrepérola,
por mais que os dois sejamos um no outro
uma avalancha abalançar de engenho,
hábil momento, prontidão expedita
(noutras camas se deita quem não ama)
 - nunca preciso desse amor em verso,
escrita em papel sem mais que o pensamento.
O amor em ti comigo é mais exacto,
sem fantasias, porque tem lugar.

 - Lugar das competências mais vulgares,
lugar todos os dias alegrias
onde lá estamos, tu - mulher e espírito
dum homem que dispensa a poesia.

Pena que tenho, lucidez de hormonas,
de aqui ficarem dados estes versos
 - agora que não servem já para nós.
1999

In Carlos Garcia de Castro, Gloria Victis. Não-Poemas, Edições Sempre-em-Pé, colecção Universos/Poesia, 2007, ISBN 978-972-8870-14-0.

Cortesia de Sempre-em-Pé/JDACT

Rumor Branco. Almeida Faria. «Mas eis que já formigas os homens passam constantemente na rua. Já Lisboa se afogou no nevoeiro. Se tu ao menos um sorriso visses descansavas. Não. Nada que não sejam portas e janelas. Mudo entardecer. Discreto. Nas praças autocarros»

jdact

I Fragmento
«Uma voz existe intersticial. Há trevas à tua volta e tu não és. Serás  um dia. Por sobre este vazio orbe a luz pesa milénios em sua ansiada ausência e à superfície dos rios invisíveis o presente galopa arrepiadamente. Se fosses verias que sem ti o globo é cego minha desde já assemelhada imagem. Fazes falta. O mundo não está ainda completado. Para ele serás demasiado alto. A escuridão é aterradora fria sem fim é desolada assim sem ti. Neste hoje do princípio dos séculos não farei mais nada. O futuro continuará ao rés das águas que não são vogando. Amanhã daqui a muita espera quando a claridade brotar já sobre a crosta da terra convulsiva criarei um firmamento para o qual possas olhar constantemente sua altura aspirando e as fontes serão vistas que eram por cima do firmamento do céu e pelo solo em volta separá-las-ei com grave gesto. Nesses mares que durante séculos de séculos tombarão da névoa imóvel te poderás lavar purificar-te conhecer a tua face. Depois haverá cores e uma tarde virá e a manhã e tudo é bom. Logo ao seguinte dia o húmus se tornará das ervas que dão semente e de árvores verdes com frutos. Se fosses tinhas frutos e sementes para comer. Poderias sentir no ar o cheiro deles. Podias. Mas não chegou a tua hora ainda.
Haverá dia e noite quando estrelas e luzeiros houver o grande e o pequeno. Depois os animais. Pelas águas os peixes e répteis das águas começarão de se mover e aves nascerão que voem sobre o espaço debaixo do claro da tarde. Ruídos formas e volumes novos. Eis que é chegado o sexto dia há sonhos aguardado o sexto dia. É dos selváticos e domésticos animais a vez e répteis hão-de iniciar o seu tremendo rastejar na terra já semelhantes teus que nascerás varão e fêmea para uma longa vida de tão breve. Não desesperes porém porque serei contigo. Eu te abençoo debaixo deste sol te ordeno que cresças te multipliques e as galáxias habites sujeitando-as. Contempla a natureza que boa ou má para ti foi inventada e vive nela. Sê. Agora uns seculares instantes vou descansar quase secreto. Mas eis que já formigas os homens passam constantemente na rua. Já Lisboa se afogou no nevoeiro. Se tu ao menos um sorriso visses descansavas. Não. Nada que não sejam portas e janelas. Mudo entardecer. Discreto. Nas praças autocarros. Um banal buzinar como balões a rebentar. Que pressa fornicadora em cada movimento. Imenso foi o tempo. Pelos parques da cidade um vento se desata. Roxo seria o céu se acaso fosse visto. Porém não é. Desiste. Antes repara na janela defronte onde há bem pouco ainda aquela feminina fininha figura com um de comoestápassoubemmuitoobrigada sorriso te sorriu. Não olhas. Aguardas e não chega. Teu quarto que teu não é mas da cloaca citadina porque se aluga à hora está pesado de presenças passadas espasmos idos móveis altos despidos cheios de pó. Mole é contudo a espera e tu jazes no chão. Desejas com todo o corpo o que não sabes ainda. Dos automóveis o volume rápido aumenta desde baixo. Deves pensar que o amor a amizade mesma se tornou exigente. Exige doação. Assalta sem que contudo mate. vivifica. Por isso te faz livre. Passos na escada vacilante enganam. Do quarto ao lado secas gargalhadas. Não as repeles. São parte do cenário embora como estas pervertidas. É ela ou não ainda? O soalho está pegajoso e sujo deve estar de pés e esperma sobressaltadamente derramado. Manchas no tecto de humidade escura. Um espelho sobre a cama espelha coitos futuros. Não olhes que te vês e terás medo de te ver confuso. Nesta já noite de Novembro rolam automóveis e a chuva penetra um pouco pela janela aberta. Descem passos na escada. Desatendes. Magoa-te as costelas a dureza. Mesmo assim permaneces durante os dez minutos que deves ter passado deitado dez minutos nem tanto apenas cinco e tu pensando que eram dez talvez vinte minutos meia hora. É ela quem sobe firmemente é ela. Sem bater entrou correu beijou-te a testa os olhos e a boca o lábio inferior dela no superior da tua boca um instante de paz. Pôs-se de pé para se deitar de bruços sobre a cama a sua face transversal à tua: hoje não posso problemas de fêmea. Auto-irónica riu e tu sorriste: que chatice. Também o dia pouco consentia. Um no outro sorriram: tive saudades tuas. Respondeu: e eu. E na verdade. não bem saudade mas presença sobre a pele palpável». In Almeida Faria, Rumor Branco, Editorial Caminho, 4ª edição, Lisboa, 1992, ISBN 972-21-0746-1.

Cortesia de Caminho/JDACT

Do Japão para o Alentejo. A Embaixada Tenshö em Vila Viçosa no ano de 1584. Tiago Salgueiro. «O Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa, foi um dos lugares visitados por quatro jovens vindos do Japão no século XVI. Se só por si esta notícia teria tido impacto pelo momento em que ocorreu e por constituir um encontro multicultural no contexto nacional…»

jdact

«É possível imaginar hoje um encontro de culturas no século XVI? Talvez esse exercício seja mais fácil de efectuar, depois da leitura atenta do presente livro. O fascínio e o mistério devem ter sido elementos fundamentais no contacto mantido entre os embaixadores Japoneses e o duque de Bragança, Teodósio II. E desse encontro que iremos falar nas próximas linhas. A história dos Quatro Legados da Era Tenshô e a sua passagem por Vila Viçosa sempre exerceu um elevado fascínio. Os seus nomes, os locais por onde passaram nesta localidade e relação que mantiveram com Teodósio II despertaram, um grande interesse na recolha de informações mais detalhadas que permitissem compreender as razões da presença na bela Callipole dos jovens japoneses. O trabalho resulta dum conjunto de investigações desenvolvidas no Museu-Biblioteca da Casa de Bragança sobre a visita dos embaixadores Japoneses à corte do duque Teodósio II. Com este objectivo, foram analisadas duas obras essenciais para a interpretação dos motivos que terão estado na origem da visita a Vila Viçosa, nomeadamente o Diálogo sobre a missão dos embaixadores japoneses à Cúria romana da autoria de Duarte Sande e o Tratado dos embaixadores japões que foram do Japão a Roma no ano de 1582, de Luis Frois.
Constituindo duas obras de referência sobre esta temática, o objectivo definido na análise que foi desenvolvida baseou-se na identificação dos possíveis motivos que estiveram na origem na deslocação a Vila Viçosa e na forma como foram recebidos pelo duque de Bragança Teodósio II. O relato magistral da viagem, escrito pelo padre Luís Frois e o diálogo composto em Macau pelo padre Duarte Sande, sob inspiração de Alessandro Valignano, serviram de base a inúmeros livros e artigos e inspiraram também estas linhas.
A investigação desenvolvida ao longo de quase dois anos de trabalho tentou apurar os factos que terão estado na origem da visita dos embaixadores Japoneses à corte sediada em Vila Viçosa. Terá sido uma mera visita de cortesia? Terá havido objectivos políticos, religiosos ou económicos neste inusitado encontro cultural? Que interesses poderão ter tido como consequência uma recepção digna de monarcas ou altos representantes estatais?
A pesquisa que foi efectuada origina várias hipóteses, no sentido em que a corte brigantina, fortemente influenciada por valores humanistas, teria todo o interesse em promover e explorar este encontro cultural entre duas civilizações distintas. O que é incontornável é o facto de que Vila Viçosa se encontra em igualdade de circunstâncias com outras grandes capitais europeias, como local escolhido pelos Jesuítas para enaltecer os valores cristãos e humanistas do duque de Bragança e a sua importância no contexto ibérico. Entendemos que não terá sido por mero acaso ou por razões de carácter logístico que a corte de Teodósio II foi escolhida como ponto de passagem para a comitiva japonesa.
O facto dos duques de Bragança procurarem, nas suas estratégias, visar, sobretudo, a consolidação e a manutenção das posições sociais e políticas entretanto adquiridas no espaço nacional, também poderá justificar a vinda dos ilustres visitantes japoneses a Vila Viçosa. Durante este período histórico em concreto, são notórias as tentativas de D. Catarina, viúva do 6º duque, João I, em conseguir obter, junto do seu primo Filipe II de Espanha, I de Portugal, direitos régios juridicamente alienáveis, tais a perseguição de bens simbólicos, o jogo de alianças matrimoniais e dos privilégios de tratamento, de modo a garantir um estatuto social impar para a Casa, não só no contexto português, mas também no ibérico.
Não é fácil encontrar uma resposta objectiva sobre este tema. O que é um facto concreto é que os embaixadores japoneses ficaram, segundo todas as crónicas, absolutamente surpreendidos pela riqueza e pela opulência da Casa de Bragança, manifestada materialmente através do seu Paço Ducal e do seu conteúdo decorativo. Na realidade, o Paço era um lugar institucional de promoção e consolidação de poder. A importância de Vila Viçosa, com a presença dos duques e da sua corte desde 1502, é atestada pela nova carta de foral dada por Manuel I em 1512 e que classificava a Vila como um dos lugares principaes do reino». In Tiago Salgueiro, Do Japão para o Alentejo, A Embaixada Tenshö em Vila Viçosa no ano de 1584, A Jornada Espiritual dos 4 samurais japoneses na Callipole de quinhentos…, Chiado Editora, 2012, ISBN 978-989-697-670-5.

Cortesia de Chiado E./JDACT

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina. José Augusto França. «Manuel da Maia, então à beira dos oitenta anos, nascera em 1677, tinha atrás de si uma longa carreira de engenheiro militar, dirigira a “Aula de Fortificações”, e servira os dois reis anteriores, sobre problemas de melhoramento da capital, cuja planta traçara em 1718»


jdact e cortesia da wikipedia

Os Programas de Manuel da Maia
«Entretanto, através do Regedor das Justiças, Pombal recebia, em 4 de Dezembro de 1755, a primeira parte dum longo memorial, ou dissertação em que o general Manuel da Maia, engenheiro-mor do Reino, estudava várias hipóteses da reconstrução de Lisboa. Documento da maior importância que revela o interesse posto pelo ministro nesta questão, que seria fundamental no seu consulado, revelando, ao mesmo tempo, as possibilidades nacionais de reacção técnica, e estética, ao magno problemaque se desenhava.
Manuel da Maia, então à beira dos oitenta anos, nascera em 1677, tinha atrás de si uma longa carreira de engenheiro militar, dirigira a formação de muitos outros na Aula de Fortificações, e servira os dois reis anteriores, não sem se debruçar sobre problemas de melhoramento da capital, cuja planta traçara em 1718. Maia discute no seu texto, prolongado, em 16 de Fevereiro e em 31 de Março de 1756, por mais duas partes, cinco hipóteses urbanísticas, propõe modelos arquitectónicos, avança observações de ordem técnica e prática. As cinco hipóteses que o velho engenheiro-mor prevê podem classificar-se em duas ordens:
  • Na primeira, vemos reedificar-se a cidade tal como era dantes, melhorada apenas pelo facto de serem novos os edifícios, mas vemos também alargarem-se as ruas para melhor serventia e maior formosura do conjunto, e vemos ainda, de acordo com uma prevenção constante de Manuel da Maia, reduzir os edifícios reconstruídos à altura de dois pisos sobre as lojas;
  • Na segunda ordem de programas encontramos duas ideias radicais. Arrasar o que restava da cidade velha, na sua parte central, ou baixa, mais danificada pelo terramoto, e planificá-la com inteira e conveniente liberdade ou abandonar a Lisboa antiga ao seu destino, deixando os proprietários dos prédios derruídos agir à sua vontade, e edificar outra, completamente nova, para os lados de Belém, aliás menos flagelados pela catástrofe, ideia que, de resto, andava no ar e teve eco numa correspondência da altura para o Journal Étranger de Paris.
Prós e contras Maia aponta para cada uma das suas cinco sugestões. A primeira, de prontíssima execução, evitava problemas na repartição das propriedades sinistradas e que eram reintegradas na nova edificação, mas construir em altura, como dantes, era esquecer os perigos sempre presentes dos tremores de terra, e o mesmo defeito cabia ao segundo programa. O terceiro excluía-o; mas seria possível levá-lo a efeito, perante a reclamação dos proprietários lesados pelo menor teor habitacional dos seus novos prédios reduzidos em altura? E também haveria que atender à remoção do entulho excedente, problema que não existiria nas hipóteses anteriores. O defeito maior do quarto programa, da cidade baixa renovada, seria compensar justamente os proprietários trocando-lhes terrenos. E é a última hipótese que, sobretudo, sorri ao engenheiro-mor:
  • nenhum problema com os escombros, com discussões de valor das propriedades destruídas, e o gosto de criar uma cidade realmente nova, sem o pesadelo de velhas recordações, num local de grande beleza e maior solidez, onde haveria a possibilidade de construir sem impedimentos e mais rapidamente.
De resto, alargando as ruas ou diminuindo a altura dos prédios no sítio antigo, Lisboa ia forçosamente estender-se até ao novo sítio. Acrescia que, embora em muito menor escala, idêntica solução se dera em outras localidades, com a formação de Vilas Novas e abandono das antigas. Defeito, só um, embora de talhe: a distribuição dos terrenos pelos antigos proprietários da cidade, com equivalências de localização e outras. Se bem que a sua opção parecesse feita, Manuel da Maia deixava, porém, a decisão ao rei, ou a Pombal, mediante a escolha que se viesse a fazer da localização do palácio real.
Ela comandaria a determinação do programa, situasse-se ele em Belém ou cerca de S. João de Bem-Casados, sítio que também achava recomendável, como aliás já achara em 1719. A primeira parte da dissertação termina com considerações técnicas, relativas à altura dos dois andares em que se insiste, ao nivelamento e aumento de cota do solo, e pergunta-se se se devem ou não formar arcadas nas ruas principais. Mas, sobretudo, Maia interroga-se sobre a possibilidade de ir para a frente com os seus planos, ele que tanto tinha visto em tempos passados, vendo sempre abortar, por inércia e interesses poderosos, ideias de renovação…» In José Augusto França, A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina, Director da Publicação António Quadros, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Oficinas Gráficas da Minerva do Comércio, Instituto Camões, 1986.

Cortesia de I. Camões/JDACT

Estudos sobre a Ordem de Avis. Séculos XII-XV. Maria Cristina A. Cunha. «Apenas chegou até nós mais uma doação afonsina aos freires eborenses, de alguns bens igualmente situados em Évora e em Santarém. É contudo possível que, além da defesa de Coruche, lhes tivesse sido confiada a guarda do castelo de Évora»


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«Um novo avanço das tropas muçulmanas ocorrido em 1191 provocou a queda de Alcácer, Palmela e Almada, tendo os castelos destas duas últimas localidades sido destruídos. Seguiu-se a perda, por parte dos cristãos, de Silves, que entretanto havia sido reconquistada com auxílio dos Cruzados. Para a Ordem de Santiago, a situação era extremamente desfavorável: a perda dos castelos significava a amputação de uma parte considerável do seu território no nosso país. Será neste contexto que o monarca Sancho faz, em 1193, a doação de bens em Santarém, acima referida:
  • a Ordem precisava de rendimentos que lhe permitissem prosseguir as actividades militares e o consequente restauro das fortalezas. Também a doação feita em 1194 da casa e herdade de Santos, em Lisboa, deve ser enquadrada nestes termos, não sendo contudo de excluir a importância das relações pessoais entre o próprio mestre de Santiago, Sancho Fernandes, ou mesmo Soeiro Rodrigues, comendador-mor de Portugal e o monarca.
Após uma primeira fase de implantação da Ordem de Santiago em Portugal, os mestres castelhanos não demonstraram um grande interesse pelos territórios aqui situados, o que permitiu uma progressiva autonomização da comenda-mor portuguesa, que não sendo independente de iure o era de facto relativamente a Uclés. Se por um lado esta situação pode estar relacionada com a desconfiança de Afonso Henriques, que acabámos de enunciar, também acreditamos que a atitude dos mestres de Santiago em Castela relativamente ao ramo português da Ordem poderá ser explicada pelas dissensões internas que, por um motivo ou outro, abalaram a milícia após a morte de Pedro Fernandes.
Para além da Ordem de Santiago, ou mais concretamente da comenda-mor sediada em Portugal, Afonso Henriques contou também com uma outra milícia, esta de fundação nacional, criada pela mesma altura, e que se veio a ligar à Ordem de Calatrava, do reino de Castela: referimo-nos à Milícia dos Freires de Évora, chamada Ordem (de S. Bento) de Avis depois de 1211 após a doação do lugar assim chamado por Afonso II. A Milícia de Évora terá surgido entre Março de 1175 e Abril de 1176 num contexto de avanço almóada e do abandono por parte de Geraldo Sem Pavor das hostes cristãs. Não sabemos se a ideia da criação da milícia partiu do próprio monarca, que na altura não podia contar com o apoio dos templários que tinham já a incumbência da defesa das fortalezas da linha do Tejo, ou se dele apenas terá partido a sugestão do seu primeiro mestre, Gonçalo Viegas de Lanhoso. É possível que a atitude de Afonso Henriques seja comparável às dos reis de Leão e Castela que, algum tempo antes, tinham fundado instituições semelhantes em Calatrava e Uclés. Tendo sido ou não co-fundador da Milícia, Afonso Henriques outorga-lhe, em Abril de 1176, o castelo de Coruche e umas casas e vinhas no alcácer velho em Évora, bem como umas casas em Santarém. Os motivos aduzidos na doação são a utilitatem christianis et defensionem regni, o que aponta desde logo para a colaboração dos cavaleiros de Évora nas actividades militares do monarca.
Não é certo que Afonso Henriques tenha apoiado incondicionalmente a nova milícia:
  • apenas chegou até nós mais uma doação afonsina aos freires eborenses, de alguns bens igualmente situados em Évora e em Santarém. É contudo possível que, além da defesa de Coruche, lhes tivesse sido confiada a guarda do castelo de Évora. Foi preciso esperar por 1187 para que a Milícia de Évora recebesse os castelos de Alcanede e de Juromenha, este quando fosse conquistado, bem como a vila de Alpedriz.
A posse destes domínios significa que nos dez primeiros anos da sua existência, a Milícia de Évora se desenvolveu, em termos humanos, o suficiente para poder assegurar a manutenção destas praças. Por esta razão, não deixa de ser estranho o reduzido número de diplomas régios relativos aos cavaleiros durante este período. Cabe então perguntar que vantagens terá trazido à confraria dos freires de Évora o facto de Gonçalo Viegas, ex-pretor de Lisboa e, portanto, homem de confiança do rei, ter sido o seu primeiro mestre». In Maria Cristina A. Cunha, Estudos sobre a Ordem de Avis, séculos XII-XV, Faculdade de Letras, Biblioteca Digital, Porto, 2009.

Cortesia da Faculdade de Letras do Porto/JDACT

Os Pilares da Diferença. Relações Portugal-África séculos XV-XX. Isabel Castro Henriques. «A Angola do século XIX apenas existe como unidade política e territorial, social e económica no imaginário das autoridades coloniais portuguesas e por extensão europeias»

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Presenças. Fronteiras e espaços angolanos
«É que, apesar do discurso colonial centrado na inexistência de fronteiras e de espaços organizados africanos, os documentos do século XIX mostram de forma inequívoca a existência de uma gestão dos espaços e das fronteiras nas nações africanas, mesmo se não dispondo do aparelho científico, técnico e cartográfico que hoje apoia essas noções, e permite medir, integrar ou excluir. As estruturas políticas africanas organizam-se em função de um território e as suas balizas são conhecidas e controladas de forma cerrada. A existência de relações, de natureza diversa, internações africanas, a curta e a longa distância, sublinha o facto de as fronteiras não impedirem mas antes estimularem a afirmação e a consolidação das complementaridades.
O mesmo é dizer que, durante séculos, as populações africanas se mostraram capazes de assegurar a criação e a modificação, quando tal era necessário, das suas formas de gestão, tendo estruturado os seus Estados, quer dizer espaços politicamente definidos, geridos por instituições de carácter político, servidas por especialistas da função política, como podemos ver em vários exemplos de nações angolanas, como é o caso dos lundas, dos imbangalas e, mais tarde, dos quiocos. Para apenas referir as três nações que fornecem os exemplos deste trabalho, de um vasto espaço socializado, feito de complementaridades, mas balizado e nacionalmente gerido, que se estendia, antes da dominação colonial, para a África central a partir do centro-norte-leste do país angolano do século XX.

A maneira como os portugueses escrevem sobre os africanos e reagem perante eles, no século XIX, é o resultado de uma longa acumulação de juízos de valor negativos e de uma sedimentação de preconceitos, que condicionam não somente as relações mas também os projectos portugueses. Podemos dizer que as condições de produção dos textos se inscreve, por um lado, num longo processo de relações entre os portugueses e os africanos, mas também no quadro mais preciso do tempo. O que quer dizer que estas condições só podem ser explicadas através de uma análise que cruze estrutura e conjuntura, a onga duração e os acontecimentos bem definidos no tempo.
A Angola do século XIX apenas existe como unidade política e territorial, social e económica no imaginário das autoridades coloniais portuguesas e por extensão europeias. Este espaço, situado a sul do Equador, que se estende, na visão europeia, do Atlântico para a África central, define-se através da presença de diferentes unidades políticas africanas que mantêm entre elas longas relações históricas complexas. Estas unidades, estas nações africanas, cujas estruturas económicas, sociais, religiosas e políticas eram de natureza diversa, desempenhavam funções bem definidas e ocupavam posições diferenciadas num sistema hierárquico regional. As relações inter-africanas influenciavam directa ou indirectamente as estruturas políticas e comerciais portuguesas, situadas na costa atlãntica nas regiões de Luanda (1576) e de Benguela (1617), desde os finais do século XVI e princípios do século XVII respectivamente. Os portugueses conservam teoricamente o monopólio europeu das relações com as populações desta região africana; o que significa que a maioria dos documentos relativos a este espaço da África encontra-se em escrita portuguesa, e que as condições da sua produção devem ser compreendidas no quadro das opções políticas e económicas portuguesas». In Isabel Castro Henriques, Os Pilares da Diferença, Relações Portugal-África séculos XV-XX, Caleidoscópio, Ciências Sociais e Humanas, Estudos de História, 2004, Centro de História da U. de Lisboa, ISBN 972-8801-31-9.

Cortesia de Caleidoscópio/JDACT

Os Pilares da Diferença. Relações Portugal-África séculos XV-XX. Isabel Castro Henriques. «Tornar passivas as presenças angolanas nos documentos portugueses tem como corolário o desinteresse pela existência e pela articulação histórica das “nações” angolanas, a recusa em aceitar os seus territórios, as suas fronteiras, os seus espaços de controle e de influência»

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Presenças. Fronteiras e espaços angolanos
«Estas presenças angolanas descritas nas fontes em língua portuguesa foram reduzidas a uma existência lisa, sem intervenção no processo histórico angolano, situação resultante dos conceitos e preconceitos que caracterizam o longo percurso intelectual português para silenciar a voz do Outro , negar-lhe qualquer autonomia histórica e transformá-lo em simples resíduo da sua própria História. A operação histórica agora fundamental assenta não na recusa desses documentos, mas na sua re-leitura e re-classificação, para os transformar em fontes indispensáveis à elaboração da História de Angola. Trata-se de despir os documentos das suas roupagens lusocêntricas e preconceituosas, resultantes de leituras marcadas pelas ideologias e pelos sistemas culturais portugueses e de pôr em evidência as presenças criativas e dinâmicas angolanas. Por outras palavras, devolver aos angolanos o papel de actores centrais do seu processo histórico, de agentes e fazedores da História de Angola.
Tornar passivas as presenças angolanas nos documentos portugueses tem como corolário o desinteresse pela existência e pela articulação histórica das nações angolanas, a recusa em aceitar os seus territórios, as suas fronteiras, os seus espaços de controle e de influência. O que quer dizer que esta rejeição da história das nações que, no final do século XIX, viriam a integrar o espaço da Angola de hoje, não é mais do que a maneira de decidir a coisificação dos homens africanos, que a longa duração da escravatura e do tráfico negreiro tornava evidente, fornecendo aos europeus as provas consideradas indiscutíveis para impor essa classificação dos homens e das mulheres africanos.
A fronte ira não pode deixar de ser considerada como uma espécie de metonímia dos espaços e dos territórios. Os homens estabelecem relações particulares com os ecosistemas e estas devem permitir a definição dos sistemas políticos. Os homens criam e ocupam o espaço, tal como não podem deixar de inventar o território que os une, fornecendo-lhes um suporte físico que, contendo-os, os explica, graças ao trabalho, assim como ao conhecimento que permite classificar e por isso gerir. A fronteira é inseparável do espaço, tal como está directamente ligada ao território.
Quer dizer que a fronteira define o espaço ou o território onde os homens se integram, pelo que a sua criação, reforçada pelo seu reconhecimento, implicam não só contabiliar a História, mas estudar as condições que lhe dão origem e permitem o funcionamento. Recusar espaços e fronteiras africanos é recusar o sistema de relações que os homens vão inventando ao longo da sua própria sedimentação histórica. As fronteiras existentes em África são reveladoras de, pelo menos, dois sedimentos históricos.
  • O primeiro foi criado pelas próprias escolhas e invenções políticas africanas;
  • O segundo, que procurou quase sempre desconhecer o primeiro, depende essencialmente da presença estrangeira, isto é, das decisões europeias e mais ainda das operações levadas a cabo pelos europeus após a Conferência de Berlim (1884-1885).
Raramente, as fronteiras modernas respeitaram ou as fronteiras anteriores ou os interesses específicos das populações ou das estruturas políticas africanas. Todavia, a situação é frequentemente ambígua, pois que as potências coloniais procuraram utilizar em seu proveito seja as instituições políticas africanas, seja as fronteiras que definiam as nações africanas, os seus conflitos e as suas complementaridades». In Isabel Castro Henriques, Os Pilares da Diferença, Relações Portugal-África séculos XV-XX, Caleidoscópio, Ciências Sociais e Humanas, Estudos de História, 2004, Centro de História da U. de Lisboa, ISBN 972-8801-31-9.

Cortesia de Caleidoscópio/JDACT

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Confronto do Olhar. O Encontro dos Povos na Época das Navegações Portuguesas. Séculos XV e XVI. António Luís Ferronha e Luís Albuquerque. «As cartas destinadas à pilotagem decerto se iam “gastar” pelo uso que os pilotos delas faziam. Talvez seja um fragmento de um planisfério de Luís Teixeira, c. 1585, que está no Museu de Marinha de Lisboa»


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Breves considerações sobre o outro na cartografia portuguesa
«Dos dois séculos considerados sobreviveram algumas dezenas de cartas de viárias oficinas de cartógrafos, e muitas delas, a dos Reinel e as do Homem, entre outras, provenientes de verdadeiras escolas familiares, como era entÍio ainda corrente entre os oficiais de uma determinada arte, no sentido grego da palavra. Na sua quase totalidade apresentam-se essas ciìrüas ricamente iluminadas, motivos muito variados: homens, animais, plantas, castelos, um ou outro templo, rosas-dos-ventos, navios.
As mais simples serão talvez as do atlas anexo ao Livro de Marinharia de João de Lisboa, anónimo e não datado, mas datável de meados do século; mas até essas têm os topónimos requintadamente escritos a vermelho e a castanho-escuro, ostentam grande número de bandeiras, representam convencionalmente algumas cidades em esbocos de bom recorte e têm todo o litoral pintado a azul. É claro que não eram cartas com estes acabamentos luxuosos que passavam às mãos dos pilotos; elas terão sido antes plepgadas para satisfazer o pedido de algum erudito endinheirado ou de algum nobre curioro, é caso do planisfério de Cantino e por isso o cartógrafo se esmerou nesses pormenores de belo efeito mas absolutamente desnecessários para a navegação. As cartas destinadas à pilotagem decerto se iam gastar quase sempre pelo uso que os pilotos delas faziam, sendo por isso presumível que muito poucas chegassem aos nossos dias; talvez a única nessas circunstâncias seja um fragmento de um planisfério de Luís Teixeira, c. 1585, que está no Museu de Marinha de Lisboa.
No entanto, do ponto de vista que nos interessa tomar ao redigir estas linhas, são exactamente as cartas sobreviventes as que mais nos interessam. O cartógrafo transpunha para o desenho por via de regra as informações recolhidas de pilotos e navegadores e esses dados são por isso de grande significado para se ter uma ideia de como alguns homens do mar desse tempo, e os viajantes embarcados em naus e caravelas por aqueles marcadas viam os novos mundos que se lhes deparavam, sabiam e pensavam a vida ou os costumes dos novos povos com que estabeleciam contactos, localizavam, e ès-vezes mal ou muito defeituosamente, cidades que por tradição se tinham tornado importantes, etc.

Nos relatos de viagens de vários tipos os autores têm uma tendência a compaginar o que vêem com o conhecido, ou, seja, com o europeu e, sobretudo, com o português. É assim que Álvaro Velho, suposto autor da Relação (e não diário) da primeira viagem de Vasco da Gama, compara Melinde a Alcochete; que Tomé Pires diz, de um povo Oriental, que usava escrita de números como a nossa, quando, afinal, nós é que a usávamos como eles!, e assim por diante. Quer dizer: nesses escritos procurava-se descortinar a semelhança do novamente visto com o visto ou conhecido. Na cartogfafia, os autores dos desenhos agem preferentemente ao contrário: é o novo, o imprevisto e até o insólito que de preferência assinalam. Isto é, enquanto nos relatos escritos os autores estão atentos às convergências, e por vezes apenas superficialmente apreendidas, como é o caso de a trindade do hinduísmõ ser tomada pela cristã, no caso da cartografia os autores de mapas iluminados prestam sobretudo atenção a confrontos ou a diferenças, embora às vezes com fantasia». In Luís de Albuquerque, Breves considerações sobre o outro na cartografia portuguesa, O Confronto do Olhar, O encontro dos Povos na época das Navegações Portuguesas, séculos XV e XVI, Editorial Caminho, 1991, ISBN 972-21-0561-2.

Cortesia de Caminho/JDACT

Quando Éramos Órfãos. Kazuo Ishiguro. «O que estás a esconder na manga? Vamos, desembucha! Olha que tenho os meus métodos para te fazer falar! Mas eu não lhe revelei nada e passado pouco tempo consegui pô-lo de novo a discutir filosofia, poesia ou qualquer coisa desse género»



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Londres, 24 de Julho de 1930
«Foi no Verão de 1923, no Verão em que vim de Cambridge para cá, que, apesar dos desejos da minha tia de que regressasse ao Shropshire, decidi que o meu futuro estava na capital e arrendei um pequeno andar no número l4-B de Bedford Gardens, em Kensington. Recordo-o agora como o mais maravilhoso dos verões. Depois de passar anos rodeado de colegas, tanto na escola como em Cambridge, sentia grande prazer na minha própria companhia. Apreciava os jardins públicos de Londres, o sossego da Sala de Leitura do Museu Britânico e usufruía tardes inteiras a passear pelas ruas de Kensington, gizando planos para o meu futuro, parando de quando em quando para me extasiar com o facto de aqui em Inglaterra, mesmo no meio de uma cidade tão grande, se encontrarem trepadeiras e hera cobrindo as fachadas de belas casas.
Foi num desses vagarosos passeios que encontrei inteiramente por acaso um antigo amigo da escola, James Osbourne, e, ao descobrir que morava perto de mim, lhe sugeri que me visitasse quando passasse pela minha casa. Embora nessa altura ainda não tivesse recebido uma única visita nos meus aposentos, fiz o convite com confiança, pois escolhera-os com algum cuidado. A renda não era elevada, mas a minha senhoria mobilara a casa com um gosto reminiscente de um tranquilo passado vitoriano. A sala, que recebia sol com abundância durante a primeira metade do dia, continha um sofá com uns bons anos, assim como duas confortáveis poltronas, um aparador antigo e uma estante de carvalho cheia de enciclopédias em decomposição, tudo coisas que, estava convencido, mereceriam a aprovação de qualquer visitante. Além disso, quase imediatamente após ter alugado a casa, fora a Knightsbridge e comprara um serviço de chá Queen Anne, vários pacotes de bons chás e uma grande lata de biscoitos. Por isso, quando Osbourne apareceu uma manhã, poucos dias depois do nosso encontro, encontrava-me preparado para o servir com uma segurança que nem por um momento lhe permitiu supor que era o meu primeiro convidado.
Mais ou menos nos primeiros quinze minutos, Osbourne andou agitadamente pela minha sala, felicitando-me pelas instalações, examinando isto e aquilo, olhando de vez em quando pelas janelas e admirando-se com o que quer que se passava lá em baixo. Por fim deixou--se cair no sofá e pudemos trocar notícias, nossas e de antigos amigos da escola. Lembro-me de que passámos uns momentos a discutir as actividades dos sindicatos operários antes de nos embrenharmos num longo e agradável debate sobre filosofia germânica, que nos permitiu revelar mutuamente as façanhas intelectuais que cada um de nós realizara na sua universidade. Depois Osbourne levantou-se e recomeçou a andar de um lado para o outro, ao mesmo tempo que anunciava os seus vários planos para o futuro.
 - Sabes, estou com vontade de me dedicar à edição. Jornais, revistas, esse tipo de coisas. Na verdade, gostava de escrever pessoalmente uma coluna. Acerca de política, questões sociais. Isso, claro, se não decidir dedicar-me eu próprio à política. E tu, Banks, não tens realmente nenhuma ideia do que queres fazer? Repara, está tudo ai fora à nossa espera, apontou para a janela. - Tens com certeza alguns planos. - Suponho que sim - respondi, sorrindo. - Tenho uma ou duas coisas em mente. Dir-tas-ei em devido tempo. - O que estás a esconder na manga? Vamos, desembucha! Olha que tenho os meus métodos para te fazer falar!
Mas eu não lhe revelei nada e passado pouco tempo consegui pô-lo de novo a discutir filosofia, poesia ou qualquer coisa desse género. Depois, cerca do meio-dia, Osbourne lembrou-se de súbito de que tinha um encontro para almoçar em Piccadilly e começou a pegar nas suas coisas. Só à porta, quando ia a sair, se voltou e disse: - Olha, meu velho, queria dizer-te uma coisa. Esta noite vou a uma festa. Em honra de Leonard Evershott. O magnata, como sabes. É um tio meu que a oferece. Bem sei que é um bocado em cima da hora, mas pensei que talvez quisesses aparecer. Estou a falar a sério. Há muito tempo que tencionava passar por cá, mas sabes como é, nunca calhou. É no Charingworth.
Como não respondi logo, deu um passo na minha direcção e acrescentou:
 - Pensei em ti porque me lembrei ... Lembrei-me de que estavas sempre a fazer-me perguntas acerca de eu ser bem relacionado. Oh, deixa-te de fitas! Não finjas que não te lembras! Costumavas interrogar-me implacavelmente. Bem relacionado? Que significa, ao certo, ser bem relacionado? Por isso pensei: aqui está uma oportunidade para o velho Banks ver com os seus olhos o que é ser-se bem relacionado. - Abanou a cabeça, como quem se lembra de alguma coisa, e acrescentou: - Meu Deus, eras um sujeito muito esquisito na escola». In Kazuo Ishiguro, When We Were Orphans, 2000, Quando Éramos Órfãos, Gradiva Publicações, Lisboa, 2000, ISBN 972-662-761-3.

Cortesia Gradiva/JDACT

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Canção do Palácio da Ajuda. Versão de Portalegre/Arronches, recitada por D. Jacinta Garção Cleto, nascida em 1910. «… corre a galinha ao trigo e a fama é dos pardais, albardas sem atafais e selas sem terem estribos, na praça se vendem figos p’ra contentar os rapazes, no mar andam alcatrazes…»

Cortesia de wikipedia

Canção do Palácio da Ajuda
Belo Palácio da Ajuda
palácio de grande altura
casa cheia tem fartura
não sou só eu que o digo
corre a galinha ao trigo
e a fama é dos pardais
albardas sem atafais
e selas sem terem estribos
na praça se vendem figos
p’ra contentar os rapazes
no mar andam alcatrazes
também lá andam gaivotas
menina das pernas tortas
todos lhe chamam canejos
vão-se as sezões com os desejos
e as feridas com unguento
mói o moinho de vento
e tece a teia a aranha
esta cantiga é tamanha
não tem princípio nem fim
um raminho de alecrim
que se dá aos namorados
as armas são pr’ós soldados
também são pr’ós caçadores
triste de quem tem amores
bem ligeiro tem de andar
a gaita é para tocar
o pente é para a cabeça
menina não endoideça
que se pode dar por feliz
tem um tamanho nariz
que lhe chega até ao seio
que tem mais de palmo e meio
criado com tanto vigor
que muita gente lho tem gabado
pr’á bigorna dum ferrador.

Poema recolhido e transcrito por Nicolau Saião.

Com  amizade. Cortesia de Ruy Ventura
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