terça-feira, 6 de março de 2018

Idade Média. Umberto Eco. «Gradualmente, as trincheiras defensivas transformam-se pouco a pouco em fossos cheios de água que podem ser atravessados por uma ponte levadiça. … na Idade Média não existiram castelos fabulosos»

Cortesia de wikipedia

A Idade Média não é uma época de castelos torreados como os da Disneylândia
«(…) Uma vez reconhecidas as luzes dos tempos escuros, será conveniente restabelecer as suas sombras nos casos em que a vulgata dos meios de comunicação nos tem apresentado uma Idade Média oleográfica, povoada de castelos imaginados pelo romantismo (e por vezes reconstruídos, em vez de restaurados), e como os vemos, enfim (e idealizados) em miniaturas muito tardias (do século XV) como em Très Riches Heures du Duc de Berry. Este fabuloso e espampanante modelo de castelo medieval corresponde mais aos famosos palácios-castelos do Loire, que são da época renascentista. Quem hoje procura na internet artigos sobre o castelo feudal encontra esplêndidas construções com ameias atribuídas (quando o artigo é honesto) aos séculos XII ou XIV, quando não são reconstruções modernas. Com efeito, o castelo feudal consiste numa estrutura de madeira erguida numa elevação do terreno (ou num aterro propositadamente preparado, a mota) e rodeada por uma trincheira defensiva. A partir do século XI, para maior protecção em caso de cerco, são construídas muralhas em volta da elevação e, com frequência, simples paliçadas a delimitar o corte onde, perante o ataque inimigo, podiam refugiar-se os camponeses do território com os seus animais. Os normandos construirão no interior da muralha um torreão ou torre de menagem que, além da sua função defensiva, servia de residência para o senhor e para a guarnição. Gradualmente, as trincheiras defensivas transformam-se pouco a pouco em fossos cheios de água que podem ser atravessados por uma ponte levadiça. Mas é uma evolução lenta. Resumindo, na Idade Média não existiram castelos fabulosos.

A Idade Média não ignora a cultura clássica
Embora tendo perdido os textos de muitos autores antigos (os de Homero e dos trágicos gregos, por exemplo), conhecia Virgílio, Horácio, Tibulo, Cícero, Plínio, o Jovem, Lucano, Ovídio, Estácio, Terêncio, Séneca, Claudiano, Marcial e Salústio. O facto de existir memória destes autores não significa, naturalmente, que fossem do conhecimento de todos. Um destes autores podia, por vezes, ser conhecido num mosteiro com uma biblioteca bem fornecida e desconhecido noutros locais. Havia, no entanto, sede de conhecimento e, numa época em que as comunicações pareciam tão difíceis (mas, como vamos ver, viajava-se muito), os doutos procuravam por todos os modos obter manuscritos preciosos. É célebre a história de Gerberto d’Aurillac, que depois será Silvestre II, o Papa do ano 1000, que promete a um seu correspondente uma esfera armilar se ele lhe arranjasse o manuscrito da Farsália de Lucano. O manuscrito chega, mas Gerberto acha-o incompleto e, não sabendo que Lucano deixara a obra por terminar, porque fora convidado por Nero a abrir as veias, envia ao correspondente apenas metade de uma esfera armilar. A história, talvez lendária, poderia ser simplesmente engraçada, mas revela que também naquela época estava muito desenvolvido o amor à cultura clássica. O modo como eram lidos os autores clássicos está, contudo, vergado aos desígnios de uma leitura cristianizadora, como é exemplo o caso de Virgílio, lido como um mago capaz de fazer vaticínios e que na Écloga IV teria previsto o advento de Cristo.

A Idade Média não repudiou a ciência da Antiguidade
Uma interpretação com raízes nas polémicas positivistas do século XIX defende que a Idade Média rejeitou todos os achados científicos da Antiguidade Clássica para não contradizer a letra das Sagradas Escrituras. É verdade que alguns autores patrísticos tentaram fazer uma leitura absolutamente literal da Escritura no ponto em que diz que o mundo está feito como um tabernáculo. Por exemplo, no século IV, Lactâncio (nas Institutiones Divinæ) opõe-se com base nisso às teorias pagãs da rotundidade da Terra, até porque não podia admitir a ideia da existência das regiões antípodas, onde as pessoas teriam de andar de cabeça para baixo. Ideias análogas tinham sido defendidas por Cosmas Indicopleustes, um geógrafo bizantino do século VI que, pensando também no tabernáculo bíblico, na sua Topografia Cristiana, descrevera minuciosamente um cosmo de forma cúbica, com um arco a cobrir o pavimento plano da Terra». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Idade Média. Umberto Eco. «… uma mulher bonita tem, segundo Guinizelli, um rosto de neve tingido de escarlate (para mais tarde falar das claras, frescas e doces águas)»

Cortesia de wikipedia

A Idade Média não tinha só uma visão sombria da vida.
«(…) Segundo Isidoro Sevilha, os mármores são belos por causa da sua brancura e os metais pela luz que reflectem, e o próprio ar é belo e é ær, æris porque provém do esplendor do aurum, do ouro (e, como o ouro, resplendece mal é tocado pela luz). As pedras preciosas são belas por causa da sua cor, porque a cor não é mais do que a luz do Sol aprisionada e matéria purificada. Os olhos são belos quando luminosos e os mais belos são os olhos azuis. Uma das principais qualidades de um corpo belo é a pele rosada. Nos poetas, este sentido da cor cintilante está sempre presente: a erva é verde, o sangue é vermelho, o leite é branco, uma mulher bonita tem, segundo Guinizelli, um rosto de neve tingido de escarlate (para mais tarde falar das claras, frescas e doces águas), as visões místicas de Hildegarda de Bingen mostram-nos chamas rutilantes e a própria beleza do primeiro anjo caído é feita de pedras refulgentes como um céu estrelado, para que esta inumerável turba de centelhas, resplendecendo no fulgor de todos os seus ornamentos, encha de luz todo o mundo.
Para fazer penetrar o divino nas suas naves, que de outro modo seriam escuras, a igreja gótica é rasgada por lâminas de luz que entram pelos vitrais, e é para acomodar estes corredores de luz que o espaço para as janelas e rosáceas se alarga, as paredes parecem anular-se num jogo de contrafortes e arcobotantes, e toda a igreja é construída para facilitar a irrupção da luz pelas aberturas praticadas na estrutura. Os cronistas das Cruzadas pintam naus com auriflamas que esvoaçam ao vento e brasões multicoloridos a cintilar ao sol, o jogo dos raios solares nos elmos, nas couraças, nas pontas das lanças e as flâmulas e estandartes dos cavaleiros em marcha ou, no caso dos brasões, as combinações de amarelo com azul, alaranjado com branco ou rosado, rosado com branco ou preto com branco; e as miniaturas mostram-nos cortejos de damas e cavaleiros vestidos com as mais esplendorosas cores.
Na origem desta paixão pela luz estavam ascendências teológicas de remota fonte platónica e neoplatónica (o Bem como sol das ideias, a simples beleza de uma cor dada por uma forma que domina a escuridão da matéria, a visão da divindade como lume, fogo, fonte luminosa). Os teólogos fazem da luz um princípio metafísico e nestes séculos desenvolve-se, sob influência árabe, a óptica, com as reflexões sobre as maravilhas do arco-íris e os milagres dos espelhos. Por vezes, estes espelhos aparecem, liquidamente misteriosos, no terceiro canto da Divina Comédia, que outra coisa não é senão um poema da luz que de modos vários cintila em todos os céus do paraíso para terminar nas fulgurações da Rosa Mística e na insuportável visão da Luz Divina. A gente da Idade Média vivia em ambientes escuros, florestas, câmaras de castelos, compartimentos estreitos mal iluminados pelas lareiras, mas uma civilização deve ser julgada não só pelo que é mas também pela maneira como se representa; de outro modo, teríamos de ver no Renascimento apenas os horrores do saque de Roma, as guerras, os homicídios e as destruições perpetrados pelos senhores, ignorando aquilo que hoje dele sabemos ao vê-lo como o século das Fornarine rafaelescas e das igrejas florentinas.
Em suma, os chamados tempos das trevas são iluminados pelas fulgurantes imagens de luz e cor dos apocalipses moçárabes, das miniaturas otonianas, dos sumptuosos livros dourados ou dos frescos de Lorenzetti, Duccio ou Giotto. E basta ler o Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, para descobrir uma Idade Média plena de alegria hílare e sincera perante um mundo iluminado pelo irmão Sol». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

Idade Média. Umberto Eco. «É verdade que a Idade Média está cheia de tímpanos de igrejas românicas repletos de diabos e suplícios infernais e que vê circular a imagem do Triunfo da Morte»

Cortesia de wikipedia

Bárbaros. Cristãos. Muçulmanos
«(…) Sem a invenção do leme axial e os aperfeiçoamentos do velame, Cristóvão Colombo não poderia ter chegado à América. Portanto, o acontecimento que, por convenção, dá início à era moderna e encerra a Idade Média nasce na própria Idade Média. Por causa deste conjunto de inovações técnicas depois do ano 1000, os historiadores têm falado de uma primeira revolução industrial. O que ocorre é uma revolução das artes e ofícios, mas capaz de pôr termo ao mito das idades das trevas. Com efeito, depois do ano 1000 florescem cada vez mais centros urbanos dominados por grandes catedrais; a tradicional divisão da sociedade em clero, guerreiros e camponeses, que caracterizava a alta Idade Média, dissolve-se com o nascimento de uma burguesia citadina dedicada aos ofícios e ao comércio e, do mesmo modo que a poesia estava relacionada desde o século XII com trovadores laicos, um intelectual como Dante é já plenamente o modelo do escritor moderno. Nas novas línguas vernáculas nascem algumas das maiores obras-primas da literatura de todos os tempos, da poesia trovadoresca aos romances do ciclo bretão, da Canção dos Nibelungos ao Cantar de Mio Cid e à Divina Comédia. Nasce a Universidade e, quer na Faculdade das Artes quer na Faculdade de Teologia, ensinam e escrevem grandes mestres como Abelardo, Alberto Magno, Roger Bacon e Tomás de Aquino. A actividade de cópia e miniatura dos manuscritos muda-se dos mosteiros para as ruas próximas das universidades recém-nascidas; os artistas já não trabalham apenas para igrejas e conventos, mas também para os palácios comunais, onde representam cenas da vida urbana. Formam-se os Estados nacionais europeus e reafirma-se, ao mesmo tempo, a ideia do império. Para terminar, convém recordar um facto que tende a ser esquecido: também faz parte da Idade Média aquele século de renascimento que foi o décimo quinto. É certo que podia convencionar-se pôr termo à Idade Média muito antes do descobrimento da América, talvez na invenção da imprensa, ou até antes, colocando o século XV, e, como acontece noutros países, o próprio século XIV de Giotto, Petrarca e Boccaccio, no Renascimento (que, por outro lado, a historiografia mais recente tende a considerar já consumado na morte de Rafael, ou seja, em 1520). Mas ao falar-se de renascimento depois do ano 1000, também podia fazer-se terminar a Idade Média na morte de Carlos Magno. Bastava chegar a acordo quanto aos nomes. Se, porém, a Idade Média é a era que as subdivisões escolares querem, então fazem parte da Idade Média filósofos como Nicolau Cusa, Marsílio Ficino e Pico della Mirandola e, se quisermos ser rigorosos, Ariosto, Erasmo de Roterdão, Leonardo e Lutero nascem na Idade Média.

A Idade Média não tinha só uma visão sombria da vida.
É verdade que a Idade Média está cheia de tímpanos de igrejas românicas repletos de diabos e suplícios infernais e que vê circular a imagem do Triunfo da Morte; que é uma época de procissões penitenciais e, por vezes, de uma nevrótica expectativa do fim, que os campos e os burgos são percorridos por bandos de mendigos e de leprosos e que a literatura tem, por vezes, a alucinação das viagens infernais. Mas, ao mesmo tempo, a Idade Média é a época em que os goliardos celebram a alegria de viver e é, acima de tudo, a época da luz.
Exactamente para desmentir a lenda dos tempos escuros, é conveniente que se pense no gosto medieval da luz. Além de identificar a beleza com a proporção, a Idade Média identificava-a com a luz e a cor, e esta cor era sempre elementar: uma sinfonia de vermelho, azul, ouro, prata, branco e verde, sem esbatidos nem claros-escuros, em que o esplendor é gerado pelo acordo geral em vez de se fazer determinar por uma luz que envolve as coisas por fora ou de fazer escorrer a cor para fora dos limites da figura. Nas miniaturas medievais, a luz parece irradiar dos objectos». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 5 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna…»

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O castigo maternal
«(…) Quando terá o cardeal chegado ninguém sabe ao certo, mas poucos terão conseguido reconhecer os traços do seu rosto. A sua estada terá sido muito breve, entrando em Coimbra num dia e saindo nessa mesma noite. Posto o encontro com o rei e a renovada recusa em libertar dona Teresa, quando todos dormiam, percorreu o cardeal as ruas, excomungando toda a terra e seus habitantes, pondo-se, de seguida, em fuga, a galope no mesmo cavalo em que chegara, protegido por quatro cavaleiros e levando ouros, pratas e animais. Cedo na alvorada, o rei foi informado do temível mistério lançado sobre o País e, dispensando qualquer auxílio da corte ou das suas tropas, lançou-se ele próprio na perseguição a esse infame cardeal. Poucas horas depois, conta-se, tê-lo-á alcançado e obrigado a parar, cerca do lugar da Vimieira, perto de Poiares. Com uma mão agarrou-lhe o colarinho e com a outra desembainhou a espada, ameaçando cortar a cabeça do clérigo. Os cavaleiros preveniram-no, então, de que, se o matasse, ninguém em Roma já duvidaria de que era mesmo herege. Mas Afonso Henriques só aceitou poupar-lhe a vida na condição de que aquele descomungasse tudo quanto havia antes excomungado e que deixasse ali todo o ouro, prata e animais que levava. O cardeal tudo aceitou de pronto, por entre os tremores do frio e do medo. E, por fim, o rei pousou a sua pesada espada e despiu-se por completo, mostrando todas as feridas e cicatrizes que lhe marcavam o corpo grande. E disse: cardeal, como eu sou herege, bem se mostra pelos sinais das minhas feridas: estas em tal peleja, e estas em tal cidade ou vila que tomei, e todas por serviço de Deus, contra os inimigos da nossa fé. E para esta tarefa levar avante vos tomo este ouro e prata, porque estou com muita falta deles, e me são necessários para mim e para os meus.
E o cardeal seguiu o seu caminho para Roma, logo depois de el-rei lhe ter voltado as costas e partido de regresso a Coimbra. Muitos anos mais tarde, senhor de um reino muito mais extenso e poderoso, já casado e pai de vários filhos, chegaria um dia trágico para Afonso Henriques. Não contava o rei com o poder e a estratégia de Fernando II, rei de Leão, nem que existisse um pacto com o governador da cidade, cercando-o em Badajoz, entre o castelo e a sua orla, os mouros e os leoneses. Numa certamente hábil manobra, Afonso ainda conseguiu escapar-se ao cerco, mas, quando saía a cavalo da cidade, embateu com uma perna no pesado cabo do ferrolho de uma das portas, mal colhido ao abrir, e caiu violentamente ao chão, ficando ferido com gravidade. A sua perna, partida no momento do choque, foi desfeita depois, quando o cavalo, de igual modo ferido, não mais resistiu e tombou por terra, pelo lado em que ambos sangravam. El-rei não conseguia sequer erguer-se e nem com ajuda dos seus foi possível transportá-lo. O herói de São Mamede e Ourique e Santiago e Lisboa, seria feito prisioneiro de Fernando, o seu genro. Dois meses passados e postos alguns acordos, o rei seria libertado, mas o povo nunca esqueceria a maldição rogada por dona Teresa. Afonso, filho, prendeste-me e deserdaste-me: a Deus peço que preso sejais vós, e porque pusestes minhas pernas em ferros (...), com ferros sejam as vossas quebradas.
De modo algum cessaria a actividade de Afonso Henriques com este acidente, mas a verdade é que a sua mobilidade física ficaria, para sempre, muitíssimo afectada e, aos 60 anos, abandonava o campo de batalha, não mais se voltando a envolver em confrontos militares, e ponderava, talvez pela primeira vez, no problema de encontrar quem lhe sucedesse e coroasse, no baptismo do Mediterrâneo, Portugal. Afonso I pereceu aos 76 anos, a 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, depois de um penoso calvário de invalidez, tranquilo e, como em todos os outros dias do mundo, sem qualquer receio do futuro. Jaz o seu corpo de gigante no mesmo túmulo que o de sua esposa, a rainha dona Mafalda. Entre o dia de sua nascença e o de sua morte, estendeu-se o reino do Mondego até às primeiras milhas dos Algarves. Liderou Portugal ao longo de 57 anos, 45 dos quais com o título de rei, naquele que foi o mais longo reinado da nossa História». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido»

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O castigo maternal
«(…) Na transição de 1127 para 1128, penetra, pela primeira vez, no território comandado por dona Teresa e Fernão Peres Trava, conquistando os importantes castelos de Neiva e Feira. As tropas maternais pedem tréguas, mas as tentativas de negociação saem goradas dos encontros de Vila Nova de Paiva.É, portanto, pouco depois que se dá a batalha de São Mamede, ganhando esse nome ao lugar em que ocorreu. Contam os relatos que aos nossos dias chegaram que não se terá a mesma arrastado pelo tempo nem feito correr demasiado sangue ou levantado, sequer, muitas dúvidas acerca daquele que seria o seu vencedor. Senhor, já, de um maior e melhor apetrechado número de tropas, derrotou com relativa facilidade Afonso Henriques o exército de dona Teresa e Fernão Trava. É posto o embate que nasce o mito. Como terá castigado o pouco piedoso príncipe os vencidos daquela batalha, ainda que se tratassem de sua mãe e respectivo esposo? Tê-los-á castigado sequer? Os historiadores não encontram provas que atestem a veracidade da tese segundo a qual Afonso bateu em dona Teresa e, depois, a deixou a ferros num cárcere em Coimbra, desconhecendo-se o destino traçado a Fernão Trava. Contudo, não sobreviveram, de igual modo, provas que sustentem o contrário; aliás, investigando não encontraremos na História qualquer relato que indicie uma resposta de Trava ou de dona Teresa, o que seria tanto mais estranho quanto ambos sabiam, perfeitamente, dos desejos expansionistas do futuro Afonso I. Teriam ficado aquietados na sua liberdade, aguardando e assistindo como meros espectadores ao progresso do aventureiro jovem, nada tornando a encetar para o demover de tais acções? Parece estranho, como estranhos parecem a coincidência que teria hora mar cada para os últimos anos de vida do rei, tal como veremos adiante, e o episódio do Bispo Negro.
Resta, assim, espaço lógico para o sentido lendário. Sabemos que dona Teresa entrou para um convento na Galiza naquele mesmo ano, onde viria a falecer passados mais dois, isto é, em 1130. Mas, antes disso, teria o filho colocado a mãe a ferros. Colérica, tê-lo-á amaldiçoado com as seguintes palavras: Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou meu pai, e afastaste-me de meu marido. A Deus peço que preso sejais vós, assim como eu me vejo agora. E porque puseste ferros em minhas pernas, que vos ajudaram a trazer e a criar com muitas dores do meu ventre a fora dele, com ferros sejam as vossas pernas quebradas, e praza a Deus que assim seja.
Afonso prosseguiu a sua missão, independentemente de estas ou outras profecias terem sido alguma vez proferidas, sem qualquer sinal de remorso ou arrependimento. Estava mais confiante do que nunca nas suas capacidades, bem como na dedicação daqueles que o seguiam, e principiava a estender os seus braços bem para lá das muralhas do castelo que ficaria poeticamente conhecido como o berço de Portugal. Não se sabe se, em alguma manhã, o rei terá despertado durante o assalto dos fantasmas daquela maldição, mas o povo temia que, um dia, anjos nefastos de Deus se abeirassem dos seus lugares, a fim de lhes soprar a profetizada excomunhão do seu senhor. É do meio desta nuvem fria e difícil de investigar que surgiria o Bispo Negro, para sobressalto dos mais supersticiosos e teste à firmeza do jovem rei. Haviam chegado a Roma as notícias do sucedido em São Mamede e em Coimbra, bem como os lamentos e maldições de dona Teresa. E, agora, a Igreja enviava um homem a quem chamavam de bispo e cuja tez negra foi estranhada no condado. Chegava debaixo de moderado segredo, com o objectivo claro de concretizar não só a excomunhão de Afonso Henriques, mas a de todo o território portucalense, caso não se aceitasse libertar dona Teresa do cárcere.
Tendo chegado a solo português, rapidamente se espalhou entre os populares a notícia da chegada do bispo e os intentos por detrás daquela deslocação. O bispo visitou o rei e apresentou-lhe as cartas do Santo Padre, mas de pronto lhe respondeu Afonso que ordem de ninguém o faria alterar o juízo sobre o que seria mais favorável ao seu reino. E assim sendo, ao cair da noite, o bispo excomungava toda a terra e preparava-se para fugir. Mal chegando tal agouro aos seus ouvidos, deslocou-se o rei à Sé, onde estavam reunidos todos os cónegos e vários outros homens de Igreja e, perguntando se ali havia algum bispo, todos se afastaram, quedando-se um, o estrangeiro de pele negra. Uma vez sozinhos naquele lugar, bradou-lhe o rei que, se ele era bispo, lhe celebrasse uma missa. Respondeu o bispo que não havia sido ordenado bispo e que não o poderia fazer, ao que Afonso reagiria de modo ainda mais autoritário, dizendo-lhe que ele próprio o ordenava bispo naquele instante, repetindo-lhe que lhe celebrasse uma missa. Tomado pelo medo, vestiu Martim Suleima os paramentos de bispo e tratou de satisfazer os desígnios de el-rei. De novo, as notícias correriam até Roma e o Papa, convicto da heresia de Afonso, enviava, agora, um cardeal com a missão de lhe ensinar a Fé». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 4 de março de 2018

Histórias Secretas de reis portugueses. Alexandre Borges e Hugo Rosa. «Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito»

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O castigo maternal
«Está protegida pelos séculos a verdadeira história do primeiro rei português. Aquele que tenha sido e aquilo que tenha feito Afonso Henriques jamais poderá ser trazido à luz do dia no esplendor da real decorrência dos factos. Dele se diz que era um gigante de quase dois metros de altura, que fez nascer um reino à força quase exclusiva da sua imensa bravura, que incendiou batalhas à frente das suas tropas, empunhando uma espada imensa que Sebastião I pediria emprestada e faria consigo desaparecer, mais de 400 anos depois, na infame jornada de Alcácer Quibir. De tudo isto, que será verdade? Que pormenores foram gerados apenas pelo imaginário colectivo de um país necessitado de heróis? Ter-se-á o jovem nobre tornado Afonso I pela dinâmica de um processo que o levou a bater em dona Teresa, a própria mãe? Será este somente um rodapé ficcional acrescido ao texto verídico pela voz popular? É talvez, hoje, impossível discernir. Resta-nos juntar os pedaços da lenda aos da História e perscrutar, senão a verdade, pelo menos um sentido que atravesse os mistérios de um tempo iniciático, envolto nas trevas comummente atribuídas às memórias medievais.
Afonso perdeu o pai bem antes de se poder aperceber do que esse acontecimento implicava para o seu próprio destino. O conde Henrique falecia contava o filho três inofensivos anos, ficando o Condado Portucalense entregue ao arbítrio da esposa, dona Teresa. O passar dos anos e o crescimento da criança a fazer-se homem revelaria uma dona Teresa não tanto em sintonia com o desejo do marido defunto de fazer o condado descer pelas terras dos sarracenos, mas antes em aproximá-lo da Galiza. Ao jovem de 11 anos deparava-se, sobretudo, um outro dado que não podia compreender: a mãe parecia ter esquecido, rapidamente, a memória do pai e, depois de outros envolvimentos, perdia-se de amores por Fernão Peres Trava, um nobre galego com o qual, se não casou, terá, pelo menos, passado a viver maritalmente em Coimbra, numa relação classificada de incestuosa pelas tábuas de valores da época, tendo em conta o anterior relacionamento de Teresa com Bermudo, outro membro do clã Trava, irmão do seu novo esposo.
Estávamos em 1121. A ira avolumava-se dentro do infante, que sentia, não se sabe se nos genes, se no resto difuso de uma recordação efectiva, o ímpeto de prolongar os anseios paternos. É neste percurso que se dirige sozinho, no dia de Pentecostes, à Catedral de Zamora, território leonês, e se arma cavaleiro, ainda adolescente, acabado de completar 16 anos, a maioridade política de então, num gesto elucidativo do seu carácter destemido e solitário, inspirado no que haviam feito outros futuros monarcas da História, à espera da ordem de ninguém para avançar quando quer que o decidissem fazer. Subiu ao altar de São Salvador e colocou sobre o seu corpo as armas militares que de lá retirou. Não o fizeram o seu pai morto, a sua mãe apartada, o arcebispo de Braga, possivelmente o inspirador de tal acto. Uma espada, um escudo, um elmo, um cinto, uma loriga.
A distância entre mãe e filho agravava-se, até que, pouco tempo mais tarde, no Verão de 1127, decidiam-se descongestionar os seus poderes e concordava-se que Afonso governasse até ao Douro, a partir de Guimarães, e dona Teresa daí ao Mondego, com sede na mesma cidade em que vivia com Ferrão Peres Trava. Mas era claro para qualquer um deles que tal não bastaria para assegurar a paz eterna entre as partes e já as classes sociais tomavam partido por uma ou outra das facções. A tensão acumulava-se e Afonso nada fazia por evitá-la. Estávamos quase em 1128 e chega aos ouvidos de Afonso VII, rei de Leão e Castela, o rumor de que o príncipe granjeava já mais poder do que aquele que alguma vez se esperaria em tão pouco tempo, escapando ao domínio da mãe e desejando fazer frente à sombra castelhana. Apercebendo-se da gravidade que constituía o conhecimento de tal afronta e do cerco que já se montava em torno do castelo de Guimarães, apressou-se o aio Egas Moniz em viajar até àquele território para falar ao rei Afonso VII, tentado dissuadi-lo de qualquer intuito de anular o constrito círculo em que ordenava Afonso Henriques. Explicou que tal não passava de uma perigosa mentira, que Afonso nada mais nutria por Leão e Castela de que uma imensa admiração e respeito e que, como prova disso mesmo, ali se deslocaria para beijar a mão ao senhor de tão grandioso poderio militar.
Contudo, de regresso ao Castelo de Guimarães e confessando a sua acção, teve Egas Moniz de se curvar, pela primeira vez, diante da fúria do infante. O orgulho do jovem Afonso jamais se poderia compadecer de semelhante cobardia e, ainda que tenha perdoado ao seu amado aio, negar-lhe-ia, liminarmente, qualquer hipótese de, alguma vez, vir a corresponder a tal promessa. Pelo contrário, tornar-se-ia ainda mais feroz e célere nos seus objectivos de expansão e preparava-se, desde logo, para o seu primeiro combate, um confronto difícil e inqualificável que, mais do que uma questão bélica e política, colocava frente a frente um filho e uma mãe». In Alexandre Borges e Hugo Rosa, Histórias Secretas de reis portugueses, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-663-2
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Cortesia de OdoLivro/JDACT

Arez da Idade Média à Idade Moderna. Ana Santos Leitão. «Seja o caso de Luís, filho de Manuel I, que foi Prior do Crato a partir de 1528, sucedendo-lhe, após a sua morte, seu filho natural, António»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)
As Ordens Religiosas
A política de defesa e colonização que possibilita o aparecimento dos importantes senhorios das Ordens Militares determina também que a sua acção se desenvolva no centro sul do território português em largos espaços que organizam quase completamente marcas nas formas de povoamento. A implantação das Ordens Militares no espaço português e peninsular pode considerar-se um fenómeno emergente de uma necessidade paralela à que determinara a própria criação, ao longo do processo de defesa do Santo Sepulcro. Com efeito, a sua instalação na península ibérica está intimamente ligada ao processo de reconquista e povoamento do território, tendo os seus membros significado um apoio fundamental para os primeiros reis, na recuperação e manutenção de espaços em nome da cruz que derrubava o crescente. Instituições então indispensáveis como dispositivo militar, a pouco e pouco enriquecidas por doações e privilégios, elas viriam a transformar-se, ao longo do tempo e com a estabilização dos vários reinos, em verdadeiras casas senhoriais, que careciam de organização e apeteciam a quantos pensavam que delas podiam beneficiar. A partir do séc. XV instala-se uma nova prática económica, social e política, tendo de se olhar para o lugar histórico das Ordens Militares sob outra perspectiva, cuja relevância estrutural, não cessa de se revestir de fundamental alcance na vida colectiva portuguesa.
Desde muito cedo, vemos a família real comprometida com o governo das Ordens, que passou a ser privilégio de príncipes e infantes. Por exemplo, o infante Henrique foi governador da Ordem de Cristo. João que deteve igual cargo na Ordem de Santiago e Fernando o malogrado infante de Fez que foi, ele próprio mestre da Ordem de Avis, tal como o fora seu pai. A Ordem de Cristo, ela coube em herança ao filho adoptivo de Henrique, seu sobrinho Fernando, filho de Duarte I e irmão de Afonso V. E esta ordem jamais saiu dessa família, tendo chegado a Manuel I, após a morte de seu pai, de seu irmão mais velho, e de Diogo, apunhalado às mãos de João II. A Ordem de Cristo continuava nas mãos do rei, que a recebera com os ducados de Viseu e Beja, por morte de seu irmão. Seria João III que em 1551, viria a conseguir legalizar essa identidade preconizada por João II, ao obter do papa Júlio III a bula, de 30 de Dezembro de 1551, a partir da qual recebia a administração dos mestrados de Avis e Santiago, unindo-as à Coroa, juntamente com o de Cristo, de que Manuel I já era grão-mestre. No entanto, importa referir que a decisão tomada não se aplicou igualmente a todas as Ordens. A milícia sediada no Crato seguiu um caminho diferente, não sendo, naturalmente incorporada na coroa. A dependência directa da casa-mãe, instalada na ilha de Malta a partir de 1530, terá impedido o rei português de lhe dar o mesmo destino das restantes Ordens Militares, que em Portugal constituíam instituições autónomas. Contudo, a preocupação com o poderio da Ordem do Hospital era também uma realidade. Isso terá levado João III a entregar o respectivo Priorado a descendentes régios. Seja o caso de Luís, filho de Manuel I, que foi Prior do Crato a partir de 1528, sucedendo-lhe, após a sua morte, seu filho natural, António. Esta era, em Portugal que detinha menos poder económico. Na Chancelaria de Manuel I, também se pode verificar que em termos de Documentação das Ordens, se observa num estudo que foi elaborado, a partir dos 47 Livros da Chancelaria de Manuel I, que fica muito clara a esmagadora maioria de documentos relativos à Ordem de Cristo, que se traduziu em cerca de 45% da produção total, seguindo-se a Ordem de Santiago com 31%, depois a Ordem de Avis com 18% e finalmente a Ordem do Hospital apenas com 5%. Sendo que em relação aos registos das mesmas Ordens, a Ordem de Cristo ficou com clara vantagem e o grosso dos registos em cada uma das Ordens se refere a benefícios directos, intrínsecos à Ordem. Seguem-se as cartas de mercê ou privilégios e, logo depois os ofícios. Um número igualmente significativo é o das legitimações, que são seguidas, ainda que de muito longe, pelas Comendas e Aforamentos. Em todos os casos a liderança é da Ordem de Cristo». In Ana Santos Leitão, Arez da Idade Média à Idade Moderna, Tese de Mestrado, Edições Colibri, Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, CM de Nisa.

Cortesia de EColibri/JDACT

Arez da Idade Média à Idade Moderna. Ana Santos Leitão. «É evidente que, pela fortuna das armas, essas fronteiras seguras podem transformar-se em frentes de combate. Mas o espaço organizado estava atrás de uma zona militarizada»

Cortesia de wikipedia e jdact

O conceito de Fronteira
«(…) Evidentemente que existem problemas fronteiriços entre reinos cristãos, mas terão, quanto a nós, de ser colocados em categorias não idênticas, já que estamos perante grupos que reconhecem entre si certas semelhanças. A zona de separação entre Estados, no período da Reconquista, não é pois uma linha estável e de paragem duradoura, mas sim um momento de paragem temporário por falta de condições para uma maior penetração em território hostil. É igualmente uma região onde, devido á indefinição, os dois poderes interferem. De qualquer forma, existe também um outro conceito que terá de ser aqui introduzido: o de fronteira segura, isto é, o da faixa bem definida e organizada, do ponto de vista político, social e económico, pelo menos teoricamente, a salvo de qualquer investida. As comunidades de fronteira são grupos sempre em risco, e que têm de obedecer a regras muito precisas para poderem sobreviver em ambiente hostil, nem por isso deixam de ser lugares onde as pessoas vivem o seu quotidiano familiar, e não estão dependentes apenas de migrações de novos militares para crescerem demograficamente, e para se renovarem. No período da Reconquista, a definição das áreas de fronteira eram fundamentais. Por definição queremos significar a clara divisão do espaço fronteiriço em subsistemas defensivos, o que passava por uma organização e planificação, não sendo fruto da soma de experiências empíricas. Só com esta protecção de rectaguarda podem as comunidades pensar em movimentos expansionistas. É evidente que, pela fortuna das armas, essas fronteiras seguras podem transformar-se em frentes de combate. Mas o espaço organizado estava atrás de uma zona militarizada de defesa avançada, actuando assim, e em simultâneo, como um espaço de organização de defesa em profundidade já que os vazios intercalares entre comunidades primitivas, tiveram como herdeiros umas zonas de marcas que limitavam os territórios mediante sectores mais ou menos incultos, cuja importância espacial se encontrava em proporção inversa à densidade demográfica geral. As guerras levadas a cabo pelas comunidades cristãs de fronteira não eram expedições de conquista em larga escala, mas sim raids (numa classificação assente no vocabulário técnico militar, que evidentemente teve conotações diferentes ao longo da História) com o fim de fustigar o inimigo, roubar-lhe e/destruir-lhe as riquezas, capturar mão-de-obra que iria substituir, em parte e em certas regiões, aquela que era agora empregue em tarefas de guerra. Essas comunidades que recebiam, em certos momentos, privilégios dos monarcas, viviam sobretudo do saque, complementando a sua actividade económica com o pastoreio e a caça, nos locais onde as condições eram propícias, e desenvolvendo nos tempos de acalmia, um comércio entre os dois lados da fronteira, muito embora tal fosse, em teoria, proibido. Para as terras que constituíam a defesa avançada, as actividades bélicas não teriam finalidade, numa primeira fase, o povoamento, no sentido que se dá tradicionalmente a este conceito, e que implica a sedentarização de famílias de colonos, o arroteamento de terras e a constituição de comunidades rurais (e mais tarde, se se proporcionasse, de comunidades urbanas). O movimento povoador acontecia nos territórios de fronteira, mas em zonas afastadas do limes.
Nos territórios limítrofes entre as duas formações essa seria, se as condições ajudassem, a tarefa para uma segunda fase, quando o território estivesse seguro. A agricultura que era praticada de início não ia mais além de um pequeno aro rural à volta de um ponto fortificado. Permite-nos, por isso, colocar em dúvida a amplitude do movimento de presúria realizado por estas populações, no sentido que mais comummente se dá a este conceito: o de apropriação de terras em ou junto do território inimigo. Estes grandes movimentos seriam levados a cabo pelo rei ou pelos nobres, em seu nome que, depois de segurar militarmente a região, distribuíam a terra aos novos colonos, ou permitiam que nelas se instalassem. A presúria levada a cabo pelos vilãos seria a ocupação de terra já conquistada, mas sem dono, pondo-a em valorização pelo trabalho agrícola, ou então pequenos avanços para terras limítrofes, desertas de gentes». In Ana Santos Leitão, Arez da Idade Média à Idade Moderna, Tese de Mestrado, Edições Colibri, Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, CM de Nisa.

Cortesia de EColibri/JDACT

sábado, 3 de março de 2018

Arez da Idade Média à Idade Moderna. Ana Santos Leitão. «Na Idade Média, a linha de fronteira não existia. Era, portanto, um espaço amplo, como foi referido, de contornos indefinidos»

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«(…)
O conceito de Fronteira
A partilha das áreas territoriais constitui um fenómeno historicamente evolutivo, em função dos processos de desenvolvimento sócio-económico, cultural e cientifico-tecnológico das comunidades politicamente organizadas, revestindo modalidades diferenciadas, graus de precisão variáveis e significados específicos. Os mares e oceanos, os desertos, os grandes rios, as montanhas, são elementos físicos naturais que ao longo da história da humanidade, constituíam barreiras mais ou menos estanques, mais ou menos permeáveis, para os movimentos humanos, que só a técnica, com toda a sua capacidade de dominar a natureza, permitiu vencer. Estas mesmas características físicas da geografia condicionaram as populações na sua adaptação ao meio, nas suas actividades, nas suas migrações, na sua organização de grupo, na formação de civilizações e culturas e no seu interrelacionamento. Com o andar dos tempos, estas fronteiras naturais seriam apropriadas pelo homem político para exercerem o papel de fronteira entre regiões e grupos diferenciados, contribuindo para o enraizamento e desenvolvimento das suas peculiaridades, e de sentimentos de identidade de antagonismo, com respeito a elementos estranhos e exteriores ao próprio meio. Historicamente consideradas mais seguras, mesmo quando prevalecia a tendência ofensiva, como aconteceu com a política expansionista francesa da Idades Média e da Idade Moderna, junto aos Alpes, ao Reno e aos Pirinéus, estas fronteiras naturais deram fundamento à doutrina geopolítica dos confins naturais de Haushofer, na Alemanha do princípio do séc. XX, que atribuía aos factores geográficos uma função determinante na história política da humanidade. No tocante aos grandes rios, a sua função de fronteira natural é basicamente indicativa, sem esquecer que eles serviram de importantes meios de comunicação e vias de transporte comercial ao longo de séculos. Não obstante esse aspecto, os grandes rios, até pela sua fisionomia aberta, têm servido de obstáculo a acções ofensivas, obrigando-as a deterem-se nas suas margens. Também as montanhas irão representar uma barreira física até serem apropriadas pelas populações que, conseguindo adaptar-se a essas especiais condições de vida, aí se estabeleceram. Com a evolução das técnicas do povoamento, também a sua função de fronteira se tornaria eminentemente convencional. A ideia de fronteira, enquanto significado de limite ou delimitação concreta de um espaço territorial, terá surgido, historicamente da necessidade estabelecerem definirem e resolverem os seus direitos de propriedade. Com o passar dos tempos, esta ideia transferiu-se para os planos político, jurídico e institucional de comunidades mais amplas territorializadas, interpretada como domínio do totem, do soberano e do Estado. A palavra Fronteira, pelo menos na documentação que consultámos, apenas aparece em meados do séc. XII. Se o termo não exprime uma intenção organizativa, já indica uma preocupação militar sobretudo defensiva.
Derivado de frons, que significa a parte da frente de um acampamento ou de um exército, o lado exposto ao inimigo. Mas podemos mesmo arriscar que se detectará aqui uma intenção ofensiva. Contudo, não queremos com isto significar que não houvesse, antes da utilização do termo fronteira, uma preocupação de organização, prevenindo ataques externos, e a criação daquilo a que podemos chamar, guardadas todas as distâncias, e sabendo que incorremos em anacronismo, zonas e distritos militares, hierarquizados. Na Idade Média, a linha de fronteira não existia. Era, portanto, um espaço amplo, como foi referido, de contornos indefinidos, ora em expansão, ora em situação de defesa ou contenção, dependendo apenas das decisões tomadas, das capacidades internas de cada um dos grupos. Expansão, se havia necessidade de espaço vital, mas se está presente a ideia de que a comunidade tinha capacidade demográfica suficiente para criar grupo ou grupos de colonossoldados, cuja missão seria ocupar o espaço vazio e, se possível, expandir-se para além desses confins. Defesa, se existia medo ou respeito (militar) pelo vizinho ou se a comunidade se encontrava ameaçada por uma agressão exterior. Aliás, estes dois momentos podem ser observados nas lutas de expansão e conquista peninsulares, e em ambos os contendores em presença». In Ana Santos Leitão, Arez da Idade Média à Idade Moderna, Tese de Mestrado, Edições Colibri, Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, CM de Nisa.

Cortesia de EColibri/JDACT

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão»

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«(…) Ao longo dos cerca de trinta anos em que ocupou o cargo de cronista-mor, Zurara surge como autor de quatro textos distintos, orientados segundo o propósito de contar uma nova etapa na história do reino, isto é, o que a historiografia convencionou chamar o processo de expansão, mas que os homens de Quatrocentos conceberam como as guerras de Marrocos ou a descoberta de novas terras. Ao mesmo tempo, existia uma espécie de projecto contínuo no que toca à redacção da crónica geral do reino, como fica patente em várias partes das obras aqui em análise: como na cronyca do Regno he contheudo, como na coronica gerall do rregno mais largamente podeys achar ou como mays compridamente acharees na cronica do Regnado deste Rey dom Affomso [V]. Enquanto cronista-mor, Zurara estaria encarregado de ir reunindo materiais e provavelmente de ir redigindo o que seria a crónica geral do reino, mesmo que esta, tanto quanto se sabe, não tivesse visto a luz do dia senão já no século seguinte pela mão de Rui Pina. Essa função primordial seria executada em simultâneo com a feitura do conjunto de textos em análise neste artigo, sobre os quais é possível detectar algumas indicações acerca das fontes reunidas pelo autor e do tratamento que lhes terá dado. Creio aliás, como tentarei demonstrar, que uma parte delas poderá ajudar a explicar a forma de algumas das crónicas.
A primeira tipologia consiste nos testemunhos orais, dos quais Zurara faz explícita menção em várias passagens da sua obra. É o caso da importância dos testemunhos dos infantes Henrique e Pedro sobre a conquista de Ceuta e também de outros depoimentos que hoje se apresentam anónimos, mas de quem o cronista diz ter recebido avisamento. No caso da elaboração da Crónica de D. Duarte de Meneses é bem possível que o peso dos testemunhos orais tenha sido ainda mais significativo, uma vez que Zurara esteve cerca de um ano no Magrebe (partiu em 1467, tendo tido certamente a oportunidade de entrevistar muitos dos que conheceram e acompanharam o capitão de Alcácer nas suas lides bélicas. Essa estadia podia até ter permitido o contacto com algum tipo de documentação que não se encontraria na Torre do Tombo ou noutras instituições com sede em Lisboa e que albergavam arquivos potencialmente interessantes, como é o caso da Casa de Ceuta. Numa passagem da crónica em honra de Duarte Meneses, Zurara alude à estratégia utilizada pelo capitão para controlar as aldeias dos vales contíguos a Alcácer. A certa altura, Duarte logrou que essas aldeias lhe pagassem tributo, especificando o cronista que os moradores de uma determinada terra ao tempo que eu screuya esta storea eram trezentos casados e mais os que pagauam tributo. Sabendo que se trata de um mero indício que apenas permite avançar suposições, é pelo menos lícito colocar a possibilidade de Zurara ter consultado uma espécie de arrolamento desses vizinhos, talvez guardado no paço do capitão de Alcácer, local a partir de onde se exercia a autoridade sobre as terras em redor da praça. O mesmo se diga relativamente a uma passagem da crónica dedicada a Pedro Meneses. Reportando-se às despesas efectuadas pelo capitão aquando da estada na cidade dos infantes Henrique e João, Zurara afirma que achou per seus lyvros, isto é, provavelmente um registo contabilístico da casa de Pedro Meneses, que a despesa com carnes e dádivas subiu a 6756 dobras.
As fontes mencionadas mais frequentemente são, porém, escritos já compilados e trabalhados, e nos quais Zurara se baseou para elaborar a sua redação. É o caso de referências anónimas como aquelles que os feitos de Çeepta escreverão, ou alguuns screuerom em seus scriptos. Noutros casos, Zurara indica autores ou materiais específicos. Na Crónica da Guiné refere por três vezes huu Affomso cerueira que esta estorya primeiramente quis ordenar, enquanto na Crónica de D. Duarte de Meneses cita um livro dos feitos de Fernando Noronha, não aclarando, contudo, a utilização que dele terá feito. Seja como for, esta última e pequena referência deve sublinhar a evidência de que muito do que foi escrito na época não chegou até ao presente. É por isso plausível admitir a existência de outros textos, nomeadamente de proveniência nobiliárquica, que circulariam e podiam ter sido conhecidos e utilizados pelo autor em questão, mas cuja existência é totalmente obscura para a crítica moderna». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

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sexta-feira, 2 de março de 2018

As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. Miguel Aguiar. «Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras…»

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«No capítulo 46 da Crónica do conde Duarte Meneses, depois de cerca de trinta páginas onde se descrevem os episódios que tiveram lugar durante o cerco muçulmano a Alcácer Ceguer, Gomes Eanes Zurara apresenta uma lista com os nomes daqueles que se a este cerco uyerom pera seruyr deos e seu Rey. O cronista realça trinta e três homens que se terão destacado, aí se encontrando, naturalmente, o illustre e muy famoso caualleyro dom Duarte de meneses, mas também outros indivíduos pertencentes a linhagens da média e alta nobreza de corte (Vasconcelos, Melo, Távora, Ataíde, Sousa, Noronha, entre outros). Depois de arrolados estes nomes, Zurara sublinha que na defesa da praça também participaram outros nobres homeens e gente, dispensando-se do trabalho de explicitar a sua identidade por nom causar fastyo. A lista é o corolário de um ciclo da narrativa em que se descrevem os principais acontecimentos que marcaram o assédio que a segunda praça portuguesa no Magrebe sofreu, decorria o ano de 1459. Aí são perceptíveis as dificuldades em aguentar a pressão muçulmana, mas também em gerir as tensões inerentes à própria composição da guarnição. Por isso, e como não podia deixar de ser, o capitão Duarte Meneses é amplamente elogiado. Personificando a autoridade na cadeia de comando e a encarnação da indispensável virtude da prudência, Duarte vai fazendo a sensível gestão dos egos e ímpetos bélicos dos fidalgos sob o seu comando, sem deixar, contudo, de dar provas da sua fortaleza, outra virtude essencial, ao desafiar o comandante inimigo para o combate. Ao longo destas páginas são também relatadas as façanhas individuais dos fidalgos portugueses: nas muralhas, nos combates travados na barreira erguida diante da praça, o lugar onde mais onradamente se podia combater, e também nas rápidas surtidas a cavalo fora das muralhas, organizadas sobretudo para destabilizar as forças inimigas ou para atingir determinados objectivos estratégicos.
Os relatos de enfrentamentos militares, cercos, expedições navais, cavalgadas sobre aldeias inimigas, preenchem quase totalmente as diversas obras de Zurara, a ponto de se ter dito que as suas obras convertiam a crónica geral do reino na crónica dos cavaleiros da Távola redonda da corte. Mas o que explica esta aparente devoção do autor pelos modelos narrativos de pendor cavaleiresco? Haverá razões que expliquem os repetitivos e estereotipados capítulos que descrevem façanhas mais ou menos reais de forma grandiloquente? De que forma se podem entender e enquadrar estas obras? O objectivo essencial deste artigo é analisar a produção cronística de Zurara de acordo com o contexto em que foi elaborada, com os objectivos que terão presidido à sua feitura e com os materiais de que o cronista dispôs. Por isso, começarei por me referir sumariamente às diversas obras por si assinadas, aos seus objectivos práticos, à sua relação com a chamada crónica geral do reino e também às fontes que Zurara terá utilizado, procurando demonstrar que todos estes aspectos são fundamentais para compreender o conteúdo e o estilo das obras em questão. Depois, o objectivo é analisar as obras de Zurara enquanto discurso sobre a cavalaria em Portugal no século XV. Ao realçar as perspectivas do cronista e sua relação com aquele que seria o sistema de valores que caracterizava a ideologia cavaleiresca nesta época, procurarei contrapor o discurso de Zurara com outros testemunhos coevos. Uma ideologia que, como se tentará demonstrar, tinha também implicações práticas, cuja tradução, no caso das crónicas assinadas por Zurara, se reflecte nomeadamente no seu carácter didáctico e de exempla, fazendo delas uma espécie de espelhos de nobres, mais à frente desenvolverei este conceito. Por fim, o derradeiro ponto a considerar nesta linha de inquérito é o papel desempenhado por este conjunto de escritos enquanto elementos de propaganda ao serviço de um dos desígnios constantes no reinado de Afonso V: a expansão ultramarina e a cruzada.

A actividade do cronista-mor: entre a crónica-geral do reino e as narrativas que chegaram aos nossos dias
A actividade de Gomes Eanes de Zurara enquanto cronista-mor do reino estendeu-se entre o final da década de 1440 e o início da década de 1470. Entre 1449 e 1450, e com possíveis alterações até 1460, compôs a Crónica da Tomada de Ceuta. Apesar de ser uma obra estruturada como se de uma gesta cavaleiresca se tratasse, foi entendida pela crítica como pertencente à crónica geral do reino, sendo neste caso a peça final da narrativa dedicada ao reinado de João I. A Crónica dos Feitos da Guiné, provavelmente composta entre 1452 e 1453 (ou seja, ainda em vida do infante Henrique), e com alterações até 1464, é aquela que suscitou mais problemas eruditos e acesas polémicas entre os especialistas (discutindo-se, entre outras coisas, a hipótese de resultar de uma fusão entre um livro dedicado aos feitos do infante e uma narrativa centrada nas navegações e conquistas propriamente ditas. O texto relata as navegações e as conquistas portuguesas promovidas pelo infante Henrique ao longo da costa ocidental africana, apresentando inúmeras descrições de expedições militares, em cujos interlúdios se podem encontrar descrições geográficas ou notícias de acontecimentos marcantes como, por exemplo, o célebre episódio da primeira grande venda de escravos negros em Lagos. As duas outras crónicas compõem, juntamente com a narrativa dedicada à conquista de Ceuta, uma espécie de trilogia do Norte de África. Em primeiro lugar, a crónica do Conde Pedro de Meneses, composta entre 1458 e 1464, e, finalmente, a Crónica do conde Duarte de Meneses, começada em 1464, depois da morte do capitão de Alcácer Ceguer, e completada até 1469. Ambas apresentam um carácter híbrido, aliando a biografia dos dois exemplares fidalgos e capitães ao relato pormenorizado dos cercos, recontros e cavalgadas dos portugueses em torno de Ceuta e de Alcácer Ceguer». In Miguel Aguiar, As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

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O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia. Virgílio Lopes. «Um pequeno espigão serviria para a fixar numa empena ou janela. Nessa mesma área foi recolhido o fragmento de uma possível mesa de altar»

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O complexo religioso
«(…) Este baptistério tem algumas semelhanças técnicas e formais com exemplares da França mediterrânica, do Norte da Itália e de Cartago na Tunísia, todos datados entre os séculos IV e VII d.C.. Contudo, é no baptistério de Ljubljana (Emona, Eslovénia) que são mais notórias as semelhanças construtivas, tendo os autores que estudaram este conjunto baptismal e o pórtico anexo, situado a sua cronologia por volta do século V d.C.. Na costa italiana da Ligúria um complexo baptismal, também com elementos semelhantes ao de Mértola, é atribuível a meados do mesmo século. Associado ao espaço baptismal existe um significativo conjunto musivo, de que fazem parte várias representações mitológicas entre as quais, é de realçar no deambulatório do baptistério, um Belerofonte cavalgando o Pégaso para matar a Quimera e, no longo corredor porticado, dois leões afrontados e várias cenas de caça com um cavaleiro empunhando um falcão. Procurando os paralelos para estas representações, não podemos deixar de referir uma pequena capela perto de Hergla, na Tunísia, onde foi descoberto um mosaico em que também são representados dois leões afrontados e uma cena de caça com falcoaria, conjunto datado do século VI d. C..
Não é de excluir que tenha sido a mesma equipa de mosaístas, oriundos certamente do Mediterrâneo oriental, a executar todo este trabalho. Se a falta de paralelos bem datados inviabiliza uma cronologia segura, leituras estratigráficas e traços estilísticos permitem atribuir esta obra à primeira metade do século VI d.C.. Nessa época, a cidade de Myrtilis e os seus comerciantes, estão em contacto com todos os portos do Mediterrâneo nomeadamente com o Próximo Oriente de onde são originários vários personagens sepultados na Basílica Paleocristã do Rossio do Carmo. A organização do espaço litúrgico em torno deste baptistério assemelha-se à dos exemplares conhecidos, ou seja, o sacramento da iniciação cristã começa com o despojar das vestes, desenvolvendo-se em seguida os ritos pré-baptismais: os catecúmenos iriam em cortejo pelo pórtico entrando no baptistério pela porta oeste, donde desceriam pelas escadas ocidentais até ao interior da fonte baptismal, para subir, já baptizados, pelo lado oriental e serem recebidos pelo bispo, possivelmente na zona da abside. A procissão dos catecúmenos culminava com a Eucaristia, onde se procedia à Primeira Comunhão.
Durante a cerimónia baptismal, o compartimento existente a norte do baptistério poderia servir de sala de espera ou vestiário, onde os diversos grupos, crianças, homens e mulheres, aguardavam a sua vez para aceder ao baptistério, sentados, possivelmente, em bancos de madeira. Tendo em conta que o baptismo é um ritual anual, este conjunto arquitectónico do baptistério poderia ser utilizado, na restante parte do ano, como catecúmeno, para preparar os aspirantes a cristãos em determinados períodos, podendo até ter outras funções que não se prendessem com o sacramento baptismal.
A sul deste conjunto situa-se uma possível basílica civil, ligada ao funcionamento do forum romano, posteriormente integrado no complexo religioso, a prová-lo estão os restos de mosaicos que naquele local existiram e que apresentavam motivos idênticos aos restantes encontrados no complexo baptismal. Este espaço foi escavado por uma equipa do CAM no mesmo local onde, em finais do século XIX, Estácio Veiga teria procedido a uma intervenção arqueológica e retirado um fragmento de mosaico designado por mosaico da tartaruga. Trata-se de uma construção de planta rectangular, com uma abside semicircular orientada a oeste. Não se sabe se esta abside teria uma outra simétrica no lado leste, pois os dados arqueológicos para suster esta hipótese são inexistentes. A escavação da plataforma do antigo forum, e também a desmontagem de estruturas posteriores, sobretudo pertencentes ao bairro islâmico, onde, por sua vez, se implantaram os enterramentos medievais e modernos, tem proporcionado a descoberta de um interessante conjunto de edificações onde sobressaem a sua decoração musiva e os elementos de uma arquitectura decorativa. Aliás, o desmonte e a análise minuciosa de um bloco de opus caementicium que pertenceu, certamente, ao enchimento de uma abóbada que cobria a abside do baptistério, permitiu encontrar um pequeno fragmento de cerâmica sigillata foceana tardia, cuja cronologia vai de meados do século V a meados do século VI d.C.. Suponho, portanto, que a data de construção, ou as últimas obras realizadas nesta importante edificação, não deve afastar-se muito deste leque cronológico.
Outro elemento proveniente das campanhas arqueológicas de 1981, e que reforça a convicção da presença cristã neste edifício, é o fragmento de uma cruz pátea inscrita em círculo. Esta peça de mármore cinzento é formada por um quarto de círculo e apenas um braço que permite, no entanto, reconstituir o conjunto: uma coroa de louros simplificada, em moldura de entalhes helicoidais, que envolve uma cruz de braços iguais aberta em gelosia. Um pequeno espigão serviria para a fixar numa empena ou janela. Nessa mesma área foi recolhido o fragmento de uma possível mesa de altar, em mármore branco de grão fino, com o comprimento máximo de 30 cm, largura máxima 29 cm, espessura máxima 8 cm, reutilizada nas paredes da casa islâmica implantada na zona do baptistério. A placa retangular era envolvida por uma moldura em forma de meia cana, separada no ângulo por uma palmeta. Pelo tipo de material, e pelo local do aparecimento, penso ser provável a sua pertença ao mobiliário litúrgico. Um fragmento de pé de altar de mármore branco de grão fino que está trabalhado nas suas quatro faces com o que parece ser a base de cruzes páteas, com quatro ou cinco bases que Palol situa no século VI em que denominou como altares paleocristãos. Sendo uma forma comum em todo o Mediterrâneo, mesa de suportes múltiplos, possui paralelos em Mérida. Ou o fragmento de pia de mármore branco. Trata-se de parte de uma peça de forma semiesférica com pega lateral. O bordo é plano e apresenta uma decoração constituída por um encordoado entre dois filetes. A superfície interior e exterior apresenta-se polida. Pode tratar-se de uma pia ou almofariz. Peças semelhantes foram encontradas em Mérida e em Córdoba. Estes autores consideram este tipo de peças como tendo servido de almofariz ou moinho, contudo nada invalida que tenha sido reutilizadas posteriormente para outros fins». In Virgílio Lopes, O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

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O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia. Virgílio Lopes. «… o seguinte: aqui esta huã abobada atopida muyto boa. Os trabalhos de escavação levados a cabo pelo Campo Arqueológico»

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A cidade de Myrtilis
«(…) A cidade funcionava como uma placa giratória das riquezas comerciais e minerais, que atravessavam o território em carroças ou no dorso de animais e, já embarcadas, desciam até ao mar e daí aos portos mediterrâneos. No sentido inverso chegavam mercadorias exóticas, múltiplos artigos provenientes de outras paragens, bem como outras gentes, com as suas linguagens, cultos e culturas. Este constante vaivém trouxe os primeiros evangelizadores e a nova mensagem começou a florescer entre os patrícios e plebeus da Myrtilis romana, numa época em que o culto se oficializava e as várias comunidades religiosas podiam conviver simultaneamente. As referências documentais da cidade e do seu sistema de defesa são escassas e resumem-se à Crónica de Idácio que refere que Censorius comes, qui Legatus missus fuerat ad Sueuos, rediens Martyli, obsessus a Rechila in pace se tradidit. O texto permite deduzir a existência de uma fortificação importante em Mértola, em 440 que, ao ser escolhida por Censorius como refúgio, demonstra a capacidade para resistir, durante algum tempo, ao cerco de Requila. A presença sueva, referida por esta fonte, deve ter sido efémera, não tendo ficado qualquer vestígio arqueológico que o demonstre nem registo epigráfico que o ateste.

O complexo religioso
As estruturas relacionadas com o complexo religioso ocupam uma área superior a 1500 m2. A plataforma, onde está implantado o complexo religioso e o corredor porticado, é suportada por uma construção subterrânea designada por criptopórtico-cisterna. A descoberta desta construção foi feita no início do século XVI, por Duarte de Armas que anota no seu Livro das Fortalezas o seguinte: aqui esta huã abobada atopida muyto boa. Os trabalhos de escavação levados a cabo pelo Campo Arqueológico de Mértola (CAM), em finais dos anos setenta do século XX, no interior desta estrutura, que foi minuciosamente desentulhada durante cinco anos, revelaram uma galeria com um papel essencialmente estrutural, de contenção e suporte da plataforma de implantação do forum. Assim, no seu lado norte, para suportar maiores pressões numa amplitude mais vasta, o desnível era compensado por um criptopórtico de 32 metros de comprimento, com largura e alturas médias de, respetivamente, 2,70 e 5,80 metros. Equaciono, contudo, que esta galeria teve, no início, várias funções: serviu como elemento estruturante de apoio e sustentação do complexo religioso, integrou o sistema defensivo da cidade e funcionou como local de armazenamento de mercadorias, dadas as temperaturas amenas do interior da galeria durante os meses de Verão.
Nos últimos trinta anos, as escavações da Acrópole puseram a descoberto um conjunto de construções do complexo religioso. Este é constituído pela sala central, um compartimento anexo, situado a norte, uma passagem em cotovelo e um espaço que ladeia a abside; a sul e a norte é delimitado por um compartimento de planta basilical e uma galeria porticada. Este complexo baptismal implantou-se na parte noroeste da plataforma artificial onde se teria possivelmente localizado o forum da cidade de Myrtilis.
Este grande edifício, que ocupa uma área de 393 m2, de planta rectangular, continha no seu interior um baptistério octogonal implantado no centro de um tanque ou piscina rodeado por um deambulatório. Partindo do espaço central abre-se a leste uma abside de planta em arco ultrapassado onde marcas no solo indicam a possível localização de uma mesa de altar. O pavimento da galeria porticada e o deambulatório estavam cobertos por um belo tapete de mosaicos, do qual se conservam alguns fragmentos. A piscina baptismal, com um ressalto em degrau que serviria de assento, é sustentada pelo exterior por oito pequenos absidíolos. A água trazida da encosta do castelo penetrava na piscina por uma canalização de chumbo e jorrava no alto de um pequeno pináculo cravado no centro. Alguns lanços de degraus permitiam o acesso ao tanque e à pia baptismal completamente revestidos com placas de mármore e envolvidos por uma cancela». In Virgílio Lopes, O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

quinta-feira, 1 de março de 2018

O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia. Virgílio Lopes. «O urbanismo de Myrtilis foi fortemente condicionado pela situação topográfica pré-existente. A vertente virada ao rio Guadiana implicou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A história do burgo de Mértola foi, desde sempre, fortemente condicionada por dois factores que moldaram a sua ocupação e a sua importância ao longo do tempo. Em primeiro lugar, a sua localização estratégica: implantado no topo de uma elevação ladeada pelo rio Guadiana, a nascente, e pela ribeira de Oeiras, a poente, possuía excelentes condições naturais de defesa. Em segundo, o ser ponto extremo da navegabilidade do rio Guadiana: a montante da vila, o acidente geológico do Pulo do Lobo, com um desnível de catorze metros, impede a progressão de embarcações para norte, pelo que Mértola adquire importância fundamental como último porto de acostagem. Esses factores tornaram-na num importante entreposto mercantil, em permanente contacto com um vasto território interno e com o Mar Mediterrâneo. Pelo porto da cidade escoavam-se, por exemplo, o ouro, a prata e o cobre extraídos das entranhas da faixa piritosa ibérica e os produtos da agricultura das férteis terras de Beja, e afluíam as gentes de mil paragens e os mais diversos produtos e artefactos.
Estas características darão a Mértola um importante papel nos processos históricos subsequentes, pois as estradas e o rio não transportam somente mercadorias, mas também e, principalmente, as ideias e as culturas daqueles que as percorrem, influenciando as populações dos locais que visitam. Quanto maior é o número de visitantes estrangeiros, quanto mais é facilitado o contacto com eles, maior e mais marcante será a adopção de outras referências culturais, num sentido largo, e menos conservadora a sua evolução. Mértola, terra de comércio, é, sem dúvida, um local onde essa miscigenação deixou marcas relevantes. As escavações arqueológicas que decorrem na área do forum/alcáçova há mais de trinta anos têm incidido, sobretudo, nos níveis medievais e modernos, ou seja, numa necrópole que foi usada após a reconquista cristã até ao século XVII d.C. e, num plano inferior, um bairro do período islâmico. Apenas nas áreas onde este último registo arqueológico se encontra bastante destruído foi possível aprofundar a escavação, atingindo-se desta forma, os níveis mais antigos, nomeadamente o que se refere ao período paleocristão onde, no início de 2000, se exumaram restos dum grande pavimento de mosaicos.
Este excepcional conjunto musivo, sem paralelo em território nacional, vem reafirmar a importância de Mértola nos finais do Império Romano e na Antiguidade Tardia e a permanência dos contactos que esta urbe mantinha com o Mediterrâneo. Este período histórico, ainda mal conhecido, tendo em conta os poucos locais identificados e as escassas escavações a ele referentes, tem em Mértola um importante conjunto de vestígios arqueológicos, entre os quais se destacam, o complexo religioso com os seus dois Baptistérios, as Basílicas do Rossio do Carmo e do Cineteatro Marques Duque, o Mausoléu e a Torre do Rio. Estas descobertas contribuem significativamente para um melhor conhecimento de Mértola neste período, realçando a riqueza desta cidade portuária, capaz de proceder a grandes programas de obras e de desenvolver, nalgumas delas, apurados trabalhos, com acabamentos de refinada qualidade artística.

A cidade de Myrtilis
O urbanismo de Myrtilis foi fortemente condicionado pela situação topográfica pré-existente. A vertente virada ao rio Guadiana implicou que, do lado nascente e sul, se criasse uma estrutura de contenção das construções urbanas. Inevitavelmente, a topografia original levou à construção de fortes muros para suster e criar plataformas habitáveis que, simultaneamente, constituíam o sistema defensivo da cidade. A muralha actual tem um perímetro de cerca de 1.291 m e abarca uma área de cerca de 50.000 m2, ou seja, aproximadamente 5 hectares. Neste recinto são identificáveis quatro acessos que devem corresponder às portas existentes desde os tempos romanos. Na Antiguidade Tardia, Myrtilis manteve a sua importância económica e vocação mercantil. Os dados arqueológicos revelam que a actividade do porto de Mértola não decaiu, facto atestado pelas diversas importações de cerâmicas do Mediterrâneo oriental». In Virgílio Lopes, O complexo religioso e os baptistérios de Mértola na Antiguidade Tardia, Revista Medievalista, Número 23, Janeiro-Junho 2018, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT