quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O Amor nos Tempos de Cólera. Gabriel García Márquez. «Almoçava quase sempre em casa, fazia uma sesta de dez minutos sentado na varanda do quintal, ouvindo em sonhos as canções das criadas debaixo da copa das mangueiras…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Permanecia uma hora no seu gabinete, preparando a aula de clínica geral que ministrou na Escola de Medicina todos os dias de segunda a sábado, às oito em ponto, até à véspera da sua morte. Era também um leitor atento das novidades literárias que lhe mandava pelo correio o seu livreiro de Paris, ou das que lhe despachava de Barcelona seu livreiro local, embora não acompanhasse a literatura da língua castelhana com tanta atenção quanto à francesa. De qualquer forma nunca as lia pela manhã e sim depois da sesta durante uma hora, e à noite antes de dormir. Ao deixar o gabinete fazia quinze minutos de exercícios respiratórios no banheiro, defronte da janela aberta, respirando sempre para o lado em que cantavam os galos, que era onde estava o ar novo. Depois tomava banho, cuidava da barba e engomava o bigode num ambiente saturado de água-de-colónia da legítima de Farina Gegenüber, e se vestia de linho branco, com colete e chapéu mole, e botinas de cordovão. Aos oitenta e um anos conservava o jeito despreocupado e o espírito festivo de quando voltou de Paris, pouco depois da epidemia grande do cólera morbo, e o cabelo bem penteado com o repartido no meio continuava igual ao da juventude, salvo pela cor metálica. Tomava café em família, mas com um regime pessoal: uma infusão de flores de absinto maior, para o bem-estar do estômago, e uma cabeça de alho cujos dentes descascava e comia um por um, mastigando-os com método em fatias de pão caseiro, para prevenir os sufocos do coração. Só em raras ocasiões não tinha depois da aula algum compromisso relacionado com as suas iniciativas cívicas, ou com suas milícias católicas, ou com as suas promoções artísticas e sociais.
Almoçava quase sempre em casa, fazia uma sesta de dez minutos sentado na varanda do quintal, ouvindo em sonhos as canções das criadas debaixo da copa das mangueiras, ouvindo os pregões da rua, o fragor de motores com o fedor de óleos da baía, cujos eflúvios esvoaçavam por dentro da casa nas tardes de calor como um anjo condenado à podridão. Depois lia durante uma hora os livros recentes, em especial romances e estudos históricos, e dava lições de francês e de canto ao louro doméstico que há anos era uma atracção local. Às quatro saía para visitar os doentes, depois de tomar uma grande caneca de limonada com gelo. Apesar da idade, resistia à ideia de receber os pacientes no consultório, continuando a atendê-los nas respectivas casas, como sempre tinha feito, desde os tempos em que a cidade era tão doméstica que se podia ir a pé a qualquer lugar. Desde que voltara da Europa pela primeira vez andava no landô familiar com dois alazões dourados, mas quando este se tornou imprestável trocou-o por uma vitória de um cavalo só, e continuou a usá-la sempre com certo desdém pela moda, nessa época em que as carruagens começavam a desaparecer do mundo e as únicas que ainda perduravam na cidade só serviam para levar turistas a passeio e coroas ao cemitério. Embora se negasse à reforma, estava consciente de que só o chamavam para atender a casos perdidos, mas considerava que isso também era uma forma de especialização. Era capaz de saber o que tinha um doente só pelo seu aspecto, e cada vez desconfiava mais dos medicamentos comerciais e via com alarme a vulgarização da cirurgia. Dizia: o bisturi é a prova maior do fracasso da medicina. Achava que dentro de um critério estrito todo o remédio era veneno, e que setenta por cento dos alimentos correntes apressavam a morte. De qualquer maneira, costumava dizer em classe, a pouca medicina que se sabe só a sabem alguns médicos. Dos seus entusiasmos juvenis tinha passado a uma posição que ele mesmo definia como um humanismo fatalista: cada qual é dono da sua própria morte, e a única coisa que podemos fazer, chegada a hora, é ajudá-lo a morrer sem medo nem dor. Mas a despeito dessas ideias extremadas, que já eram parte do folclore médico local, seus antigos alunos continuavam a consultá-lo mesmo quando já eram profissionais estabelecidos, pois reconheciam nele o que então se chamava olho clínico». In Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera, 1985, Publicações dom Quixote, 2002, ISBN 978-972-200-032-1.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 6 de agosto de 2019

As Escolas de Ruy Jervis Athouguia no Bairro de Alvalade. Mónica Queiroz e Vitória Pinheiro. «… vai desde o palacete de luxo à moradia medíocre passando pelo prédio de rendimento mais incaracterístico o que, segundo a mesma autora conduziu a uma grande variedade volumétrica e de cérceas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura Portuguesa do século XX
«O espólio do arquitecto Ruy Athouguia ingressou no Arquivo Municipal de Lisboa em Junho de 2000, após a derrocada do seu ateliê, um antigo palácio setecentista, situado na Rua de São Pedro de Alcântara, em Lisboa. Este, não resistindo ao duro Inverno de 1999-2000, ruiu colocando em risco a integridade da documentação e, consequentemente, a sua preservação. Em resultado da situação, o arquitecto entregou, a titulo de depósito, o seu espólio à guarda do Arquivo Municipal, não só para ser alvo de restauro, como para ser estudado, inventariado, acondicionado e, futuramente, dado à consulta, num contributo para o estudo do Urbanismo e da Arquitectura Portuguesa do Século XX.
Inicialmente, efectuou-se um primeiro levantamento da documentação existente e uma contagem da totalidade dos documentos, que foram sujeitos a uma limpeza e acondicionamento prévio. Actualmente, procede-se à análise e inventariação de toda a documentação, com vista, por um lado, à elaboração de um Plano de Classificação e, por outro, à catalogação, informatização e acondicionamento. Ruy Jervis Athouguia, visconde de Athouguia, nascido em Macau em 1917, licenciou-se, em 1948, em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto. Os seus primeiros trabalhos, encomendas particulares, são pedidos de amigos e familiares que vêm nele um arquitecto que se distancia das tendências nacionalistas da época e que privilegia a modernidade, o requinte, a ordem e que, por isso, opta por soluções de economia e aproveitamento inteligente do espaço.
Estes primeiros trabalhos constituem uma aprendizagem necessária e importante para a tarefa que mais tarde se lhe impõe na cidade de Lisboa. Trabalha como profissional liberal e na Câmara Municipal de Cascais durante 4 anos, tendo realizado trabalhos importantes como o Bairro dos Pobres da responsabilidade da Santa Casa de Misericórdia de Cascais. Durante o seu percurso profissional realiza diversos trabalhos de arquitectura habitacional, moradias, prédios de rendimento e bairros económicos, dos quais se destaca a Célula 8 do Bairro de Alvalade, em 1949-55, designada como Bairro de São João de Deus e, mais tarde conhecido como Bairro das Estacas, com Formosinho Sanches e Maurício Vasconcelos, que mereceu um prémio na bienal de S. Paulo, de 1960. Foi, ainda, distinguido, por este trabalho, com o Prémio Municipal de Arquitectura, em 1954.
Foi autor, juntamente com Alberto Pessoa e Pedro Cid, do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian (1960-69), projecto cujo valor foi reconhecido em 1975, com a atribuição do Prémio Valmor ao conjunto do projecto arquitectónico (sede, museu, auditórios, salas de exposições e de conferências e enquadramento paisagístico).

Enquadramento Histórico
Durante o século XX realizaram-se em Lisboa inúmeras obras de arquitectura e urbanização, motivadas pela necessidade de crescimento e de modernização da cidade, em virtude do aumento populacional causado pelo desenvolvimento da indústria e do comércio. Esta célere renovação urbana e tecnológica do inicio do século dá origem à abertura de dois eixos viários essenciais para o desenvolvimento da cidade: a Av. António Augusto de Aguiar e a Av. Almirante Reis. É também nesta altura, sobretudo na década de trinta, que tem origem o crescimento de uma construção de gosto dúbio que na opinião de Ana Tostões, vai desde o palacete de luxo à moradia medíocre passando pelo prédio de rendimento mais incaracterístico o que, segundo a mesma autora conduziu a uma grande variedade volumétrica e de cérceas (...) imageticamente agravada pela profusão dos eclectismo decorativos. Era, pois, evidente a necessidade de construção de novos equipamentos arquitectónicos.
Estes anos 30 trinta são considerados a década de ouro das obras públicas, expressa na construção de escolas, teatros, bairros sociais, gares marítimas (Alcântara, Rocha do Conde de Óbidos), igrejas e na abertura de vias de comunicação modernas (o viaduto Duarte Pacheco e a ligação à Auto-Estrada do Estoril, a Avenida da Índia, a Avenida Infante D. Henrique, a Avenida do Aeroporto e as circulares de Lisboa), ultrapassando mesmo, nalguns casos, as necessidades da época e, perspectivando um desenvolvimento futuro da cidade. Esta necessidade de construir de forma sistemática dá origem, na expressão de Ana Tostões, ao advento da linguagem modernista portuguesa apoiada nas novas técnicas e materiais industrializados o que vai, claramente forçar a ruptura de linguagem com os padrões passados, acertando curiosamente com o projecto de modernização e eficácia produtiva que o estado novo quis viabilizar a partir de finais dos anos 20 (é a partir do Congresso Nacional de Arquitectura, em 1948, que se sente emergir, segundo os vectores que ensaiámos caracterizar, uma nova geração e, em paralelo, uma vontade colectiva de mudança, de recusa consciente e mais teoricamente alicerçada, da arquitectura do estado novo)». In Mónica Queiroz e Vitória Pinheiro, As Escolas de Ruy Jervis Athouguia no Bairro de Alvalade, Arquitectura Portuguesa do século XX, Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa, 1ª Série, nº 7.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Os Lactários Municipais (1925-1927). Ana Brites. «Os lactários portugueses encontram o seu modelo de funcionamento em instituições similares, surgidas na mesma época por toda a Europa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Contextualização e abordagem histórica
«Os lactários municipais surgem numa época em que o Estado desempenhava um papel proeminente na organização da assistência aos indigentes, pelo que os lactários enquadram num conjunto de iniciativas levadas a cabo, desde o final do século XIX, pela monarquia. Recorde-se por exemplo o papel da rainha dona Amélia e da duquesa de Palmela no auxílio aos tuberculosos, na criação das cozinhas económicas (destinadas à alimentação de pobres e mendigos), dos bodos, e na dinamização dos cuidados de higiene e de saúde a prestar aos indigentes. Deve-se igualmente à rainha dona Amélia a criação, em 1903, do primeiro lactário, situado no Largo do Museu da Artilharia. Segue-se, em cooperação com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o lactário de S. José, uma iniciativa da Associação Protectora da Primeira Infância, fundada em 1901 com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa que nesse mesmo ano concedeu um donativo monetário para a construção das instalações daquele organismo.
Os lactários portugueses encontram o seu modelo de funcionamento em instituições similares, surgidas na mesma época por toda a Europa. Veja-se o caso dos Kindermilch, lactário modelo subsidiado por certas edilidades alemãs, nomeadamente a de Berlim, para distribuição de leite de qualidade às crianças desvalidas; os Infant Milk Depots, em Londres e outras cidades inglesas, leitarias municipais para fornecimento de leite pasteurizado às crianças; ou as Gouttes de Lait, instituições francesas subsidiadas por várias edilidades, como as de Paris, Lion ou Brest, cuja missão era de distribuir leite pasteurizado e controlado laboratorialmente (estas instituições não eram responsáveis pela produção, apenas pela distribuição).

Os Lactários Municipais
Os lactários municipais são entidades orgânicas, directamente dependentes do pelouro de Instrução e Assistência, tendo sido criados em 1925, mediante proposta do vereador responsável do pelouro, Alexandre Ferreira, que no seu relatório de actividades de 1925, o vereador afirmava: propuz a esta câmara a criação de Lactários Municipais, proposta que mereceu o voto unânime da edilidade portuguesa. Em nenhuma outra acta de sessão de Câmara, deste ano e anteriores, se encontra registada uma proposta específica para a criação de um Lactário Municipal, pelo que é este o momento em que o assunto é, pela primeira vez, objecto de debate. Todavia, em sessão de Câmara de 22 de Outubro de 1924, o vereador Alexandre Ferreira havia já lançado para a mesa de trabalho a proposta de criação de um Estábulo Municipal cujo objectivo era fornecer leite na cidade em vários postos lactários à população infantil e a outros adultos doentes, segundo as prescrições médicas. Estes estábulos municipais seriam instalados nos subúrbios de Lisboa e teriam o número de vacas indispensável à produção do leite consumido nos postos lactários.
No final dessa sessão de 22 de Outubro, o mesmo vereador terminava a sua apresentação afirmando sêr necessário combater a mortalidade infantil, que aumentava em Lisboa. A Câmara Municipal têm o dever de cuidar da alimentação lactea das creancinhas, que definham devido á péssima qualidade e falsificação do leite que se vende na cidade. Conclue por declarar que era preciso olhar para o futuro das creanças. Não tendo sido encontrada, como foi já referido, nenhuma outra proposta apresentada anteriormente em acta de Sessão de Câmara e, considerando que o vereador Alexandre Ferreira, no seu relatório de actividades de 1925, afirmava que o propósito dos Lactários Municipais é o de fornecer leite puro de vaca a crianças até à idade de desmamamento, isto é, até aos 18 meses de idade, tendo a preferência, na admissão, os filhos dos indivíduos mais necessitados, e verdadeiramente indigentes, conclui-se que, com a proposta de 22 de Outubro de 1924, que criava os Estábulos Municipais, terão também sido instituídos, em estreita articulação, os referidos lactários, tendo em vista o fornecimento de leite às crianças pobres de Lisboa». In Ana Brites, Os Lactários Municipais (1925-1927), Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa, 1ª Série, nº 7.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Concelho de Lisboa durante a Idade Média. Homens e Organização Municipal (1179-1383). Miguel Gomes Martins. «… et almotazaria sit de concilio et mittatur almotaze per alcaidem et per concilium ville. Este concilium era um órgão restrito onde se encontrava representada…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A realização de alguns estudos, por um lado, sobre diversas figuras e famílias da cidade de Lisboa e, por outro, acerca da composição social e organização de algumas das suas instituições monástico-conventuais e colegiadas, mas também do cabido da Sé ou da alcaidaria da cidade, muitos dos quais com uma importante componente prosopográfica, tem permitido a recolha de elementos preciosos, embora, ainda insuficientes, para a elaboração de uma imagem de conjunto das elites da Lisboa Medieval. No entanto, parece-nos que estamos a trilhar o caminho correcto, sendo já possível, graças a estes trabalhos, reconstituir vários percursos biográficos e identificar algumas das linhagens que, através dos seus membros mais destacados, se fizeram representar nos vários universos de prestígio da Lisboa Medieval, nomeadamente nos órgãos concelhios da cidade, ponto de partida, mas também de convergência, dos trajectos de muitas dessas figuras.
Ainda que a Lisboa Medieval tenha sido, nos anos recentes, objecto da atenção de um número crescente de investigadores, o estudo da administração municipal lisboeta, pelo contrário, não tem suscitado o interesse da comunidade científica. Em consequência, a imagem que hoje temos da organização concelhia lisboeta continua ainda profundamente marcada pelos estudos clássicos de Marcelo Caetano e de Maria Teresa Campos Rodrigues e que permanecem tão actuais como na altura da sua publicação, em 1951 e 1968, respectivamente. Nesse sentido, com este trabalho procuraremos conhecer um pouco melhor os homens que davam corpo ao concelho lisboeta, identificando personagens e os seus trajectos no seio desta instituição e, ao mesmo tempo, articular os dados coligidos com uma análise da estrutura orgânica e funcionamento dos órgãos municipais, entre 1179, data da outorga de foral à cidade, e 1383, ano da morte do rei Fernando I.
Para isso a nossa pesquisa incidiu, sobretudo, na documentação do Arquivo Municipal de Lisboa-Arquivo Histórico (AML-AH). Mas se, por um lado, os dados recolhidos neste acervo permitiram compreender, ainda que com inúmeras lacunas, a organização concelhia lisboeta, por outro, revelaram-se manifestamente insatisfatórios para uma reconstituição, que se pretendia tão detalhada quanto possível, dos elencos municipais. Tornava-se, por isso, absolutamente necessário recorrer a outros conjuntos documentais relativos a Lisboa, nomeadamente a alguns dos fundos provenientes de instituições monástico-conventuais, que se encontram à guarda do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT). No entanto, o levantamento que efectuámos nesta documentação recaíu, ainda que nem sempre de forma exaustiva, apenas nos fundos de maior dimensão e onde, à partida, se encontraria um maior número de informações. Nesse sentido, temos plena consciência que este trabalho não é mais que uma primeira tentativa de abordagem de um tema, até agora, praticamente inexplorado e que deixa ainda muito por desvendar. As pistas ficam, no entanto lançadas.
Mas o resultado que agora se apresenta, é também fruto das referências e indicações que, gentilmente, nos foram transmitidas pelos colegas e amigos Mestres Isabel Branquinho, Maria Filomena Andrade, João Luís Inglês Fontes, José Augusto Oliveira, Luís Filipe Oliveira, Luís Miguel Rêpas e, sobretudo Mário Sérgio Farelo, a quem, mais uma vez, muito agradecemos. Por isso, este trabalho é, também, deles.

O Concelho e os homens-bons
As primeiras referências às instituições municipais de Lisboa, surgem expressas, ainda que de forma lacónica, no foral de 1179, concedido à cidade por Afonso Henriques: et almotazaria sit de concilio et mittatur almotaze per alcaidem et per concilium ville. Este concilium era um órgão restrito onde se encontrava representada, exclusivamente, a aristocracia dos homens-bons que, em assembleia, decidia os destinos da cidade e, anualmente, escolhia os magistrados concelhios. Além de actuar como tribunal para resolver as contendas entre os vizinhos, esta assembleia ocupava-se de todas as questões que dissessem respeito à cidade e aos seus moradores, tais como a gestão das águas e dos pastos comuns, para além de outras matérias que podiam ir do urbanismo aos assuntos económicos. De acordo com Gérard Pradalié, o título de bonus homo terá sido, durante largos anos um apanágio dos cavaleiros (trata-se, em princípio, de cavaleiros não-nobres, cavaleiros-vilãos, isto é, dos estratos superiores do grupo a que genericamente chamamos povo; este autor aventa mesmo a hipótese de, no século XII, cavaleiros e bonishomines serem sinónimos, de certa forma, à semelhança do que sugere José Mattoso: acumulação de indícios acerca da superioridade social dos cavaleiros no âmbito do concelho leva a admitir como normal a vigência de um costume tacitamente aceite de reservar para eles as magistraturas (José Mattoso); todavia, não deixa de ser possível que alguns desses cavaleiros fizessem parte dos estratos inferiores da nobreza, pois não chegaram até nós quaisquer indicações que apontem para o afastamento dos nobres da gestão concelhia; pelo contrário, as informações que possuímos, ainda que datem de períodos posteriores, apontam para uma presença nos órgãos municipais de figuras de clara extracção nobre), indivíduos cuja fortuna, que assentava essencialmente em bens fundiários, obrigava, a partir de um limite que para o caso de Lisboa não é conhecido, à posse de cavalo e de armas». In Miguel Gomes Martins, O Concelho de Lisboa durante a Idade Média, Homens e Organização Municipal (1179-1383), Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa, 1ª Série, nº 7.

Cortesia de AMLisboa/JDACT

O Conflito entre Afonso IV e o infante Pedro (1355-1356). Sara Loureiro. «É sobejamente conhecido o relacionamento amoroso que, desde cedo, envolveu Pedro e Inês de Castro e do qual nasceram João, Dinis e Beatriz»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O presente trabalho tem como objectivo a publicação de um dos inúmeros documentos medievais do Arquivo Municipal de Lisboa: o traslado dos acordos firmados entre Afonso IV e o infante Pedro, datado de 17 de Janeiro de 1356. Apesar de ter sido já publicado, a justificação para uma nova edição prende-se, por um lado, com o facto de a primeira conter algumas imprecisões e, por outro, com a necessidade de dar a conhecer uma fonte essencial para a compreensão do período conturbado que marcou a fase final do reinado de Afonso IV.
Trata-se de um traslado em pública forma elaborado pelo tabelião Vasco Eanes, datado de 17 de Janeiro de 1356 e composto por 11 fólios de pergaminho, estando o fólio 11 verso em branco. Nestes fólios estão trasladados seis diplomas elaborados entre 5 de Agosto de 1355 e 11 de Janeiro de 1356, todos eles referentes às avenças entre Afonso IV e o infante Pedro, herdeiro do trono, no âmbito da procura de uma solução pacífica para o conflito armado que os opunha e que tinha sido desencadeado em 1355 com o assassinato de Inês de Castro.
O infante Pedro casou em 1328, por promessa, com dona Branca, filha de Pedro, (filho de Sancho IV) e sobrinha do rei de Castela, Afonso XI. Apesar de ter chegado a vir para Portugal, dona Branca foi repudiada, alegadamente devido à sua debilidade física e mental. Em 28 de Fevereiro de 1336, em Évora, o herdeiro do trono português volta a casar, por procuração, com dona Constança Manuel, filha de Juan Manuel, duque de Peñafiel, neto de Fernando III, O Santo, e sobrinho de Afonso X, a mesma que havia sido repudiada por Afonso XI para se unir com dona Maria, filha de Afonso IV. Aquele matrimónio, que ligava o herdeiro da coroa de Portugal a um dos cabecilhas da oposição nobiliárquica a Afonso XI foi visto pelo monarca castelhano como um perigo para a segurança do seu reino, profundamente fragilizado por um clima de constante guerra civil, na qual uma intervenção militar portuguesa podia fazer pender os pratos da balança a favor dos revoltosos. Como tal, aprisionou dona Constança Manuel em Toro impedindo-a, assim, de se juntar a Pedro, o que, aliado ao tratamento dado por Afonso XI à rainha dona Maria, filha de Afonso IV, e ao apoio explícito de Portugal à revolta nobiliárquica liderada por Juan Manuel e por Juan Nunez Lara, deu origem à guerra luso-castelhana de 1336-1338. A assinatura de pazes, conseguida graças à mediação papal e do rei de França, permitiu a formação de uma aliança militar entre os dois reinos, até então desavindos, materializada na campanha vitoriosa do Salado, em 1340; solucionou ainda, em teoria, a situação de desprezo a que era votada a rainha dona Maria; e possibilitou, finalmente, a vinda, a 7 de Julho de 1340, de dona Constança Manuel para Portugal.
Entre os membros do séquito que acompanhava a mulher do infante Pedro encontrava-se, como sua dama, Inês Perez de Castro, sem dúvida a predilecta de dona Constança, pois foi madrinha do seu primeiro filho, Luís, nascido em 1340, mas que acabou por morrer um ano depois. Pertencente a uma poderosa família galega, Inês de Castro era filha bastarda de Pedro Fernández de Castro, dito da Guerra, camareiro-mor de Afonso XI de Castela e primo direito do futuro rei de Portugal, e de uma dama de nome Aldonza Suárez Valadares (este era um dos motivos para o impedimento do casamento entre Inês de Castro e o infante Pedro, ou seja, por ser comadre de Pedro, madrinha do infante Luís, para além dos laços familiares que os uniam; Inês de Castro era sobrinha do infante Pedro, pois ela era filha do primo co-irmão de Pedro. dona Beatriz e dona Violante Sanchez eram irmãs, filhas do dito rei Sancho, mesmo que não fossem da mesma mãe; dona Violante era filha de Sancho com dona Maria Afonso, mulher de Garcia D’Uzeiro; esta Violante foi mãe de Pedro de Castro, que se chamou da Guerra; dona Inês de Castro era filha deste, logo era sobrinha do infante Pedro por parte de pai; estes impedimentos foram referenciados na argumentação do doutor João das Regras).
É sobejamente conhecido o relacionamento amoroso que, desde cedo, envolveu Pedro e Inês de Castro e do qual nasceram João, Dinis e Beatriz. Esta era, por motivos óbvios, uma situação que nada agradava a Afonso IV que acabou por obrigar dona Inês a retirar-se para Castela, onde se conservou até à morte de dona Constança, em 1348-1349. Porém, logo que a princesa faleceu, Pedro fez regressar Inês de Castro, com quem passou a viver maritalmente. O infante procurou mesmo casar-se, pelo que em 1351, tentou obter do papa uma bula de dispensa de parentesco. Talvez este facto tenha alarmado ainda mais Afonso IV, bem como a alta nobreza cortesã, nada interessada na interferência dos poderosos Castros castelhanos no jogo de influências local. Além disso, temiam que os filhos bastardos de Pedro requeressem a legitimidade para herdar o trono português, pondo em causa a sucessão do herdeiro legítimo, Fernando. Os Castros, por seu lado, tinham apostado seriamente nessa relação, pois estavam em rebelião contra Pedro I de Castela, no trono desde 1350, e tentavam, também, prometendo-lhe a coroa castelhana, obter o apoio político e militar do infante e futuro rei». In Sara Loureiro, O Conflito entre Afonso IV e o infante Pedro (1355-1356), Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa, 1ª Série, nº 7.

Cortesia de AMLisboa/JDACT

O Jornal 57. História e Memória. Álvaro Costa Matos. «Esta conhece nesta altura uma evolução não menos importante, quer pela consolidação de muitas revistas e jornais, quer pela dinâmica provocada pelo aparecimento de novas publicações periódicas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O jornal 57 surge num ano, 1957, que, no que à imprensa periódica diz respeito, foi um ano historicamente importante. Hoje é até reconhecido pelos especialistas como um ano de viragem, em grande medida protagonizada pelo Diário Ilustrado, que aparece em finais de 1956. Se isto é verdade para a chamada imprensa de referência, para os principais jornais diários portugueses, também o é para a imprensa literária. Esta conhece nesta altura uma evolução não menos importante, quer pela consolidação de muitas revistas e jornais, quer pela dinâmica provocada pelo aparecimento de novas publicações periódicas, ao ponto de se detectar uma efervescência cultural de certo modo atípica, num país sujeito a um regime autoritário, autocrático, que fazia da censura à liberdade de expressão uma das suas traves-mestras. Estas revistas, por sua vez, representavam movimentos políticos, literários, estéticos ou mesmo filosóficos, sendo, portanto, da maior importância conhecê-las para uma melhor contextualização da época que aqui nos interessa, e que enquadra o nosso jornal, o 57.
A Vértice era o órgão por excelência do Neo-Realismo. Representava a militância, a literatura de compromisso, da arte empenhada. Protagonizou importantes tomadas de posição no plano cívico e político, congregando, desde o início (Maio de 1942), uma parte considerável da oposição democrática ao regime, atitude que manteve até 1974. Mas além da Vértice tínhamos a Serpente, de 1951, e as Notícias do Bloqueio, também criada em 1957, e que durou até 1961, ainda que estas duas publicações já representassem a segunda vaga neo-realista. O Globo (1943-1959), o conjunto de cinco números Unicórnio, Bicórnio, Tricórnio, Tetracórnio e Pentacórnio (1951-1956), de José Augusto França, a Anteu (1954) e a Pirâmide (1959) veiculavam as propostas estético-literárias do Surrealismo, movimento que tenta verter para a cultura portuguesa o compromisso com a fealdade, como arma contra a cultura burguesa e as suas formas de censura estética, moral, etc. A Panorama (1941-1973), a Atlântico (1942-1959), ambas editadas pelo Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), a Cidade Nova (1941-1961), o Esmeraldo (1954-1956), a Ocidente (1935-1971; 1977-1995) e a Cidadela (1956-1957) defendiam o regime ou um sistema de valores condizente com os do regime: patrióticos, nacionalistas, conservadores e católicos. Algumas destas revistas, como vimos, são mesmo editadas por instituições do Estado Novo. A Ocidente, com a direcção de Manuel Múrias, foi uma apoiante incondicional do salazarismo (não agradável), defensora de um nacionalismo activo, exacerbado, fortemente empenhado, a par da apologia (supremacia) da cultura ocidental sobre todas as outras. A Tempo Presente, revista portuguesa de cultura, que saiu de 1959 a 1961, representava o fascismo puro e duro (maldito), situando-se assim à direita do próprio regime. Segundo Eduardo Lourenço, era o texto fascista em ambiguidade, traduzindo um fascismo nostálgico, duvidoso do regime de Salazar, crítico da decadência das suas instituições e da decrepitude ideológica e política dos dirigentes do Estado Novo. Nas suas páginas, assumiam-se como (…) universalistas, hierarquizadores, totalitariamente compreendentes, intolerantes para o erro, ultrapassantes e dinâmicos. À esquerda do regime tínhamos, além da Vértice, já aqui referida, a Seara Nova, que surge em 1921, ligada à esquerda progressista, republicana, liberal, a Rumo, dos católicos, e a revista O Tempo e o Modo, publicada entre 1961 e 1977, adepta de uma democracia cristã e de um socialismo humanista, isto até à saída de António Alçada Baptista, em Fevereiro de 1969. A partir daqui a revista sofre uma profunda reorientação, no sentido maoísta, e que se traduz também numa oposição mais tenaz ao regime. Depois, existia ainda um conjunto de revistas que testemunhavam o incremento que os estudos filosóficos conheciam nesta altura, tanto dentro como fora da universidade. São disso exemplo, a Revista Portuguesa de Filosofia, da Faculdade de Filosofia de Braga, talvez a mais importante, a Revista Filosófica (1951-1958), fundada e dirigida por Joaquim Carvalho, a Revista da Faculdade de Letras, de Lisboa, a Colectânea de Estudos, Itinerarium a partir de 1955, dos Franciscanos, e a revista Filosofia (1954-1961), órgão do Centro de Estudos Escolásticos de Lisboa. O interesse pelos temas filosóficos em geral, e especificamente portugueses, este ambiente verdadeiramente filosófico, talvez explique o aparecimento do último jornal deste breve inventário, o 57, órgão do Movimento 57, por sua vez inserido no movimento mais amplo da Filosofia Portuguesa. É sobre este jornal que agora nos vamos deter, ou melhor, sobre a sua história e memória». In Álvaro Costa Matos, O Jornal 57. História e Memória, 2008, Coordenador da Hemeroteca Municipal de Lisboa e Investigador do Centro de Investigação Média e Jornalismo, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft. Sébastien Joachim. «Este projecto parte de uma aposta: uma vez admitido o postulado de uma função cognitiva da Literatura e das Artes, haverá possibilidade de investigar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A despeito da nova filosofia da infância que preconizam os filósofos J-F. Lyotard, Gilles Deleuze e Giorgio Agamben, as crianças com as quais deparamos no quotidiano continuam a ser uma incógnita na segunda Modernidade, no segundo pós-guerra. O filósofo Alain Renaut aponta este facto sem imputá-lo totalmente, como Hannah Arendt (La crise de la culture) à extensão à Infância da Declaração dos Direitos Humanos. Este projecto parte de uma aposta: uma vez admitido o postulado de uma função cognitiva da Literatura e das Artes, haverá possibilidade de investigar no plano da literatura comparada certas narrativas autobiográficas suficientemente ricas na sua forma-conteúdo para sugerir mediante modelos de infância imaginária hipóteses fecundas para a compreensão da infância em construção nos nossos tempos. Temos escolhido para cumprir essa tarefa, ao lado da brasileira Lya Luft, a escritora francesa Nathalie Sarraute e o ficcionista canadense Jacques Ferron. Fomos estimulados a testar aquele postulado pela ideia de Literatura Aplicada defendida desde 1990 pelo professor Pierre Bayard. Para além do citado Alain Renaut, termos como apoio teórico cientistas sociais como Jean-Pierre Kaufmann, François Singly, Claude Dubar para interrogar a identidade infante e adolescente assim como o processo de socialização e principalmente dois filósofos: Paul Ricoeur, sua narratologia e sua Hermenêutica fenomenológica;Jean-Jacques Wunemburger e sua Mitodologia. Está prevista um efeito multiplicador dos resultados através de colóquios e publicações anuais» In Resumo

«Eric Deschavanne et Pierre-Henri Tavoillot, dois professores de Filosofia da Sorbonne, depois de invalidar certas declarações de Philippe Áriès sobre o desconhecimento da infância na Idade Média, contesta igualmente a afirmação de que teria havido uma radical Invenção desta categoria social nos tempos modernos. Eles alertam também quanto à ambivalência das conquistas da nossa Modernidade a favor das crianças, conquistas estas que se iniciaram com o Cristianismo. Pois o triplo ganho em humanização, liberação e individualização pagou-se paradoxalmente a um preço muito alto. Temos hoje mais dificuldade a entender o que é a criança, o que é a sua identidade. É irrecusável que a promoção das crianças ao estatuto integral de indivíduo humano livre abriu uma caixa de Pandora, não mais sabemos o que é o adulto, o que é o fim da infância como fase da vida, nem as características de adulto. Entramos na era do Jeunisme /jovenismo, uma ideologia da juventude que repudia qualquer suspeita de ultrapassagem de uma praia da vida eternamente jovem, que comanda que devamos entrar na onda da última moda. O jeunisme que se experimenta principalmente por aqueles que teriam chegado no fim da adolescência está alicerçado numa gaya ciência para além do bem e do mal, cujo leme é: juventude além de tudo! É uma nova mentalidade que se instala. Nós a identificamos pelo jeito de pensar (se a palavra pensar não fosse desusada), de se vestir, pelo hybris pela exuberância que caracteriza os gestos, os movimentos, os encontros festivos e barulhentos, enfim pela maneira extravagante, arrogante, anti-adulto de estar-no-mundo. Essa epidemia já contaminou aqueles, Homens e Mulheres que, uns tempos atrás, hasteavam bem alto a bandeira do adulto. O amadurecimento virou uma balela. Os pequenos observando o comportamento das gerações anteriores. deram uma resposta à altura: decidiram permanecer crianças, com privilégios de gente grande. Um estranho mito de Peter Pan domina a mentalidade dos 7 a 50 anos. Perdemos a especificidade da criança; perdemos consequentemente a possibilidade de educar. Neste novo rumo das coisas, a situação da infância se complica junto ao caos que se deu nas outras fases de existência privadas de referência. Sem aderir nem à nostalgia de um hipotético outrora mais equilibrado, nem a um progressismo radical, examinaremos a questão da identidade criança nos diferentes meios de actuação, nos diferentes lugares de socialização, à luz da ficção autobiográfica, com a bússola da Mitocrítica e da Narratologia. Utilizaremos também certos recursos da Filosofia e das Ciências Humanas». In Sébastien Joachim, A invenção da infância nas narrativas autobiográficas de Lya Luft, Anais do IV Colóquio Internacional Cidadania Cultural, diálogos de gerações, 2009, Editora Eduepb, 2009, ISBN 217-6590-1.

Cortesia de EEduepb/JDACT

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «Aliás, segundo parece, Leonor exprimiu a sua própria vontade, declarando que só se casaria com a majestade imperial e cesárea»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) Não foram, porém, estes agentes, mas justamente os da facção contrária, que vieram a concretizar a aliança com o Império. Nem foram tão-pouco aquelas as peças jogadas. Em vez de Joana e Ladislau serão Leonor e o próprio imperador Frederico III a entrarem em cena. Em Julho de 1448, o infante Pedro deixa o regimento do reino a Afonso V e retira-se para o seu ducado de Coimbra. Ora, por cartas da rainha de Aragão de 14 de Outubro de 1448, que recomendava aos reis e rainhas de Castela, Portugal e Navarra e ao duque e duquesa de Coimbra os embaixadores de Frederico III a Portugal, o barão austríaco Jorge Volrestorf e o cónego de Augsburg Ulderico Riedrer, sabemos que o próprio imperador tinha em vista contrair matrimónio com uma infanta deste reino, que se afamava com a expansão ultramarina e avultava cada vez mais nas rotas comerciais. Mas as rédeas da acção estariam já em poder do rei e rainha de Aragão, os adversários do infante Pedro, que se concertavam com o principal parceiro deste jogo de alianças, o irmão da infanta, o rei de Portugal, Afonso V. Afonso, o Magnânimo, rei de Aragão e de Nápoles, apadrinha este matrimónio tendo em vista a segurança das suas possessões italianas, sempre ameaçadas por França e pelo Papado, e o reforço do seu poder no reino de Aragão. Não menos, como já foi notado, se assume, em grande parte, como o tutor dos filhos de sua irmã, em especial de dona Leonor, a quem diz amar, não como uma sobrinha, mas como filha. O monarca português, se bem que talvez preferisse a união de uma das suas irmãs com o Delfim da França, não negligenciaria, como outra hipótese possível, o reforço dos seus laços com Aragão e a creditação do seu poderio e prestígio pela união da casa de Portugal com o Império. Para, alguns anos mais tarde, em 1455, sedimentar ainda mais as suas redes de apoio peninsulares ao casar a sua irmã Joana com Henrique IV de Castela.
Entretanto, no reino português, os acontecimentos precipitam-se. Agudizam-se as facções opostas do duque de Coimbra e do duque de Bragança, manobrando este intensamente na corte, junto do monarca. Cresce a tensão e o ódio entre partidos rivais. O desenlace será o enfrentamento militar entre a hoste régia e a de Pedro, no campo de Alfarrobeira, que terá, como epílogo, a morte do infante, em Maio de 1449. Os seus partidários serão considerados traidores, vendo os bens confiscados. A tristeza e a dor toldariam os ânimos de alguns portugueses. Nada melhor para que Afonso V se impusesse, acima de tudo e de todos, que oferecer ao reino um magno e prestigiado acontecimento. A semente estava lançada com a prévia embaixada do imperador da Alemanha. O fruto amadurecido colher-se-á com muita alegria por dentro de um elaborado cerimonial e uma ostentatória pompa. Os esponsórios de dona Leonor de Portugal com Frederico III, imperador da Alemanha, serão, a todos os títulos modelares, segundo os cânones civis e eclesiásticos. Para servirem de exemplum legitimador do rei de Portugal e dos Algarves e senhor de Ceuta e do imperador, rei dos Romanos.
O casamento assumia-se, nestes finais da Idade Média, como uma união sacramental que devia decorrer sob a benção da Igreja. Acto de vontade dos nubentes, em que, no pleno uso da liberdade, tão cara a estes alvores da modernidade, se lhes exigia o respectivo consentimento. Comummente aceite era já então a ideia de que a plena efectivação do matrimónio ocorria só com a sua consumação. Mas as uniões régias exigiam mais delongas e não excluíam sequer o consensus, no verdadeiro sentido da palavra no direito romano, o acordo dos progenitores, que, como vimos, verdadeiramente o ditava. E depois havia de ser formalizado o contrato nupcial, com a especificação das doações que em tal ocasião eram devidas. Tudo conhecemos, com pormenor, nos esponsórios de Leonor com Frederico III. Talvez fruto da primeira embaixada alemã a Portugal, as ideias clarificaram-se. Arredou-se do pensamento afonsino a hipótese do casamento da irmã com o herdeiro da França e prefigurou-se a união com o Imperador da Alemanha. Aliás, segundo parece, Leonor exprimiu a sua própria vontade, declarando que só se casaria com a majestade imperial e cesárea. Nas Cortes de Santarém de 1451, o monarca consultou as forças sociais do reino sobre este enlace, que foi aceite, sendo outorgados à coroa, para a sua despesa, dois pedidos e meio e uma dízima e meia. Parte então para Nápoles, em Junho, o procurador do soberano, João Fernandes Silveira, pois, aí, segundo a vontade do imperador, seria acordado o contrato nupcial, sob os auspícios de Afonso, o Magnânimo. Reúne-se, então, com os procuradores de Frederico III, Eneas, bispo de Trieste, Jorge Vollesdorff, barão do ducado de Áustria, seus conselheiros, e Miguel Phullendorf, seu secretário. O contrato virá a ser outorgado a 10 de Dezembro de 1450, na presença de autoridades ilustres, como o duque da Calábria e de Clèves e os embaixadores das repúblicas de Veneza e Florença». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

domingo, 4 de agosto de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «O herdeiro virá a ser o seu terceiro rebento, Afonso, que é ainda menor quando recebe o reino, em 1438. Cabendo a tutoria da criança e a regência do reino…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) Esta estratégia política, que o próprio movimento expansionista impulsionava, abriu os membros da linhagem aos mais variados caminhos por entre os meandros da política dos reinos da cristandade. Assim a diáspora dos herdeiros do infante Pedro, o Condestável e Mestre de Avis, Pedro, veio a ser, por alguns anos, rei de Aragão; João, pelo seu casamento com a rainha de Chipre, Catarina de Lusignan, tornou-se príncipe de Chipre; já Jaime ascenderá a cardeal de Santa Maria in Portico; e dona Beatriz unir-se-á a Adolfo von Kleve. Por sua vez, o infante João, Mestre de Santiago, e sua mulher Isabel, filha do conde de Barcelos e duque de Bragança e de dona Brites Pereira, descendente de Nuno Álvares Pereira, serão os pais da infanta Isabel que desposará João II, rei de Castela, de quem nascerá Isabel, a Católica.

Situemo-nos, porém, agora, na linhagem do sucessor ao trono joanino, Duarte I. Teve este monarca, do seu matrimónio com Leonor de Aragão, quatro filhos e quatro filhas. O herdeiro virá a ser o seu terceiro rebento, Afonso, que é ainda menor quando recebe o reino, em 1438. Cabendo a tutoria da criança e a regência do reino, por vontade de Duarte I, expressa no seu testamento, à viúva dona Leonor de Aragão, esta situação política não foi bem aceite. Temiam-se uns quantos desta rainha estrangeira, que podia defender mais interesses outros externos e menos os de Portugal, e não viam com bons olhos a educação do príncipe entregue a uma mulher. Decidiram, então, os grandes do reino e a burguesia lisboeta entregar a regência do reino e a tutoria do herdeiro ao seu tio mais velho, o infante Pedro. Que será regente de 1439 a 1448, para, no ano de 1449, já afastado da corte, vir a acabar os seus dias em trágicas circunstâncias. Esta contextualização política é fundamental para nos aproximarmos de dona Leonor, a futura esposa do imperador alemão.
Nasceu a infanta em Torres Vedras, a 18 de Setembro de 1434. Ficou órfã de pai aos quatro anos e um ano depois viu-se sem mãe, quando esta, ao exilar-se para Castela, a deixou doente em Almeirim. O regente assume, então, as rédeas do seu destino e entrega-a a uma aia, dona Guiomar Castro. Mais tarde, após a morte da mãe, em 1445, terá vivido em casa própria, com as suas irmãs Catarina e Joana. Este conjunto de infantas era riqueza a ser potencializada em conjugada e hábil política matrimonial. Concertam-se neste propósito os dois tios das infantas, a duquesa de Borgonha e o regente Pedro. A Borgonha conhecia dois suseranos, o rei de França e o Imperador da Alemanha. Buscou com eles alianças matrimoniais que a favorecessem. Projectou então a duquesa o casamento da sua sobrinha Leonor com o herdeiro do trono da França e oferecia a mão da sua outra sobrinha, Joana, ao pequeno Ladislau, neto do imperador Segismundo, ao serviço de quem Pedro lutara contra os turcos, e que Frederico III havia tomado sob a sua tutela. Esta estratégia matrimonial serviria também os objectivos políticos do regente Pedro, que, hostilizado e hostilizando os infantes de Aragão, se aliava a Castela e assim alargaria os seus apoios a França e ao Império». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A Rainha D. Beatriz e a sua Casa. Vanda Lisa L. Menino. «… partio se daly ho iffante pêra Coinbra e levou dahy a molher e os filhos pêra hum lugar que chamom Alcanizes, que he em Castela…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Vanda Lisa Lourenço Menino

«(…) Para além dos nobiliários medievais e da hagiografia, as crónicas ocupam um lugar de destaque. No século XIV, a crónica régia surge como uma narração de acontecimentos, através de um texto lógico e temporal, normalmente cingido a uma unidade de tempo político, ou seja, os seus limites são um reinado. A crónica régia aparece, assim, como um género historiográfico oficial. Em todo o caso, gostaríamos de assinalar que nenhuma das crónicas compulsadas oferece um capítulo independente dedicado à rainha dona Beatriz. Todos os textos de narração histórica que se debruçam sobre a centúria de Trezentos são, geralmente, tardios. A excepção é a Crónica Geral de Espanha de 1344, redigida, também ela, por Pedro Afonso, conde de Barcelos, bastardo do rei Dinis I e irmão de Afonso IV. Posterior à redacção do Livro de Linhagens, a Crónica Geral de 1344 constituiu um novo empreendimento literário de Pedro Afonso. Neste caso, o conde surge também como um narrador que dá testemunho de alguns factos e acontecimentos dos quais é contemporâneo e, por vezes, espectador de muitos deles ou até mesmo interveniente activo em variadas situações. Podemos afirmar que escrevia, muitas vezes, como testemunha directa, sendo as suas lembranças a base de toda a narrativa.
Infelizmente, as informações relativas à rainha dona Beatriz são muito escassas. No essencial, referem-se, numa perspectiva de troca de mulheres, ao casamento dos dois filhos legítimos de Dinis I, Afonso e Constança, com dois dos filhos legítimos de Sancho IV de Castela, Beatriz e Fernando, respectivamente:

e, despois que hi forom ajutado, casou el rey dom Fernando de Castella com a iffante dona Costança e levoua cõsigo. E el rey dom Denis trouxe cõsigo a iffante dona Beatriz, irmãa del rey dom Fernando, que era filha del rey dom Sancho e da reynha dona Marya, sua molher, por esposa do iffante dom Affonso, seu filho primeyro.

A Crónica de Portugal de 1419 é de autor desconhecido, mas, devido a informação textual, sabemos que começou a ser redigida em 1 de Julho de 1419, por iniciativa do infante Duarte, filho de João I, ou seja, foi iniciada seis décadas após a morte de dona Beatriz. Alguns autores defendem que o infante teria entregue esta missão ao seu escrivão dos livros, Fernão Lopes, que, na altura, acumulava este cargo com o de guarda-mor dos arquivos do reino, a Torre do Tombo. Não nos debruçaremos sobre a polémica autoria desta crónica porque é um assunto que ultrapassa os objectivos deste nosso trabalho. Esta narrativa pretendia ser uma história geral de Portugal que inicia o seu relato com o conde Henrique, pai de Afonso Henriques, e termina com Afonso IV. A presença de dona Beatriz nesta crónica é, também, escassa, dispersa e circunstancial. Vamos encontrar mais informação sobre esta infanta na parte relativa ao governo de Dinis I, do que propriamente durante o reinado do seu marido.
Naquele, a infanta surge como uma mulher que o marido procurava proteger da guerra que iria travar contra Dinis I e, por isso, a colocou em Alcanices, onde a deixou ao cuidado de Fernão Martins Fonseca juntamente com escudeiros da sua confiança, antes de iniciar o confronto armado contra seu pai:

partio se daly ho iffante pêra Coinbra e levou dahy a molher e os filhos pêra hum lugar que chamom Alcanizes, que he em Castela, que tinha Fernão Martinz Fonsequa, e leixou a hy com alguns escudeiros e tornou se pêra Coinbra.

Uma parte muito significativa do reinado de Afonso IV seria ainda narrada, já no século XVI, por Rui Pina, na Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal. Nomeado pelo rei Manuel I cronista-mor do reino e guarda-mor da Torre do Tombo, Rui Pina vai exaltar os feitos dos monarcas, cujo relato se inicia com Afonso Henriques e culmina com o governo de Afonso IV. Em relação à história dos reis da primeira dinastia, Rui Pina teria utilizado os manuscritos anteriores, os quais retocou e aperfeiçoou segundo o seu próprio estilo. Para este cronista o rei é a figura dominante, sendo secundário tudo quanto não esteja ligado ao monarca. Aqui, dona Beatriz aparece como irmã do rei Fernando IV de Castela, como mulher de Afonso IV, como rainha de Portugal e como mãe. É, pois, sempre nestas quatro perspectivas de irmã, de mulher, de rainha e de mãe, que vai sendo mencionada ao longo da Crónica». In Vanda Lisa L. Menino, A Rainha D. Beatriz e a sua Casa (1293-1359), Tese de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, FCSHumanas, 2012, Wikipedia.

Cortesia de UNL/FCSH/JDACT

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «Enalteceu-se graças a uma propaganda política suportada por ritos, cerimoniais, crónicas, poesias, retratos e túmulos, representações simbólicas do prestígio, feitos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) A dinastia de Avis, que tem a sua matriz fundacional na escolha, que não sucessão, de um rei, para mais um bastardo, procurou legitimar-se no ser e parecer. Entreteceu-se pelos laços de família, cultivou-se nas letras e ciências, engrandeceu-se por valorosos feitos guerreiros, santificou-se pela moral e bons costumes e até mesmo pelo martírio. Os actos fundamentaram, desde a raiz, essa árvore genealógica de ilustres vergônteas. O rei João I o os infantes de Avis, a Ínclita Geração, assumem-se e representam-se com uma família unida, santa e culta. Ela se fez ao mar e conquistou Ceuta, como mais tarde Arzila e Tânger, cristianizando o Norte de África. Esforçou-se por povoar e humanizar espaços virgens e selvagens, como os das ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. Afrontou mitos e lendas e sulcou o oceano Atlântico, aproveitando-se das riquezas que a África lhe oferecia e, agigantando-se, deu a conhecer ao mundo uma estrada marítima para a Índia. Perenizou-se pela escrita em obras sobre a montaria e equitação ou sobre a moral e valores da nobreza. Santificou-se no exemplum de uma família unida e devota, na morte redentora pela pátria de um dos seus infantes e na santidade monástica de uma das suas princesas. Imortalizou-se pela arte, reunindo-se, depois da morte, num mesmo panteão dinástico, o mosteiro da Batalha, penhor de uma memória régia plurissecular. Enalteceu-se graças a uma propaganda política suportada por ritos, cerimoniais, crónicas, poesias, retratos e túmulos, representações simbólicas do prestígio, feitos, valores e imorredouro poder da realeza. Enfim, redimensionou-se e ancorou-se no variegado xadrez político da cristandade, graças a uma ponderada e sábia diplomacia. Diplomacia orquestrada com diversos meios e agentes, mas superiormente dirigida pelo jogo político das alianças matrimoniais.
Um casamento entre as famílias nobres era, como se sabe, um acto de estratégia familiar e patrimonial, de transmissão e valorização da linhagem e de resguardo ou engrandecimento da riqueza herdada. Mas entre as famílias régias era, para além de tudo isso, e predominantemente, um acto político Com as uniões matrimoniais buscavam-se os aliados, no intuito de um reforço do poder político, que se queria firmado no interior de um reino, mas maximamente projectado na constelação internacional das realezas. Um casamento, mais do que qualquer outro acto diplomático, unia partidos ou casas reais, não apenas pelo vínculo político, mas pelo vínculo de sangue, dos herdeiros e das heranças. Matrimónio fértil era, pois, laço político indestrutível, para o bem, numa conseguida aliança, ou para o mal, se os objectivos se malograssem. Acto talvez só remediável com uma nova aposta de consórcio matrimonial por entre outras casas reinantes.
Ponderadamente, o rei fundador de Avis pensou as estratégias matrimoniais da sua linhagem. Antes de mais planeou a sua própria, consorciando-se com dona Filipa de Lencastre, revivificando a sua preferencial aliança com a Inglaterra, para se fortalecer, também por essa via, face ao poderio castelhano. Os infantes diversificaram, porém, a rede internacional de apoios ao escolherem as suas noivas. O herdeiro do trono, Duarte, congraçou-se com outro tradicional aliado de Portugal, o reino de Aragão, matrimoniando-se com dona Leonor. O infante Pedro também aí, ainda que em facção rival, buscou a sua noiva, unindo-se a dona Isabel, filha do conde de Urgel. A infanta dona Isabel comprometer-se-á com o duque de Borgonha, Filipe, o Bom, facilitando ao reino português as relações económicas, diplomáticas e artísticas com muitas casas reais europeias. Finalmente a filha ilegítima de João I, dona Brites, protagonizará dois matrimónios internacionais, um com o conde de Arundel e outro com o barão de Irchenfield. A casa de Avis viu-se, assim, enlaçada, pelo sangue, com a coroa inglesa e aragonesa e com o ducado da Borgonha, entre outros». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

A Filha do Papa. Luís Miguel Rocha. «De repente, sentiu um objecto metálico encostar-se à sua cabeça e escutou um ruído mecânico que ouvira tantas vezes na casa de campo da família, quando o pai carregava as armas para a caça…»

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«(…) Destrancou a porta, acendeu a luz e estacou. O contraste com o resto do quarto era evidente. Parecia que alguém deixara a janela aberta e a corrente de ar espalhara papéis por todo o lado. Em cima da secretária, no chão, na cadeira. Por trás da secretária estava afixado um painel cheio de recortes de jornais, fotografias, um pequeno mapa do norte de Itália ao centro, com indicadores de várias cores cujo significado desconhecia, outro da Europa no topo superior direito. O que significava aquilo tudo? Concentrou-se nas fotografias para ver se conhecia alguém. Fita adesiva vermelha ligava duas das fotografias…, dois homens. Um bem mais velho que o outro. O mais velho vestia um fato preto e saía de um carro grande e preto, ladeado por dois homens de uniforme que pareciam polícias, o outro tinha um aspecto jovem e moderno. Essas duas fotografias estavam encimadas por um recorte do L’Arena com uma notícia antiga, datada de 1983. Atropelamento e fuga matam padre em Verona, na Via Carlo Cattaneo. O artigo trazia um retrato do malogrado padre a fitar a objectiva como se estivesse a posar para um documento oficial. Bernarda não reconheceu nenhum dos homens, e aproximou-se do painel para o observar com mais atenção.
De repente, sentiu um objecto metálico encostar-se à sua cabeça e escutou um ruído mecânico que ouvira tantas vezes na casa de campo da família, quando o pai carregava as armas para a caça, e fechou os olhos apavorada. Nunca ouviu dizer, sussurrou-lhe o monsenhor Lucarelli ao ouvido, que a curiosidade matou o gato, irmã Mia Gustaffsen?

John Scott preferiria estar na sala de espera do consultório da doutora Pratt M.D., em Nova Iorque, do que ali onde estava. À apreensão e à paranóia juntara-se o pânico, ingrediente essencial para os arrepios e suores frios que tentava esconder a todo o custo. A audiência com o Secretário de Estado da Santa Sé, na Cidade do Vaticano, em pleno coração romano, estava marcada para aquela segunda-feira às dez e meia da manhã. Não deixava de registar de forma sinceramente inesperada que o ramalhete de sensações e sentimentos que o preenchiam, segundo o método da doutora Pratt M.D., a sua psiquiatra, era muito mais negativo que positivo, facto estranho, já que se encontrava em terras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pretensamente um lugar de paz e amor. Estava sentado em frente a uma estátua do Nazareno, numa versão violenta, golpeado no ventre, nas mãos e nos pés, num visível esgar de sofrimento inconcebível. Ao lado, outro santo, São Judas Tadeu, de tamanho inferior, pois nada nem ninguém podia cobiçar as alturas de Jesus. O santo, bem a propósito, era aquele a que se devia recorrer em caso de desespero e nas causas perdidas, predição ou coincidência, num mundo onde nada acontecia por acaso.
John segurava um dossiê castanho encostado ao peito, como se nele guardasse um segredo muito valioso. A sua mais recente investigação levara-o ali, a uma audiência com o número dois do Vaticano, Tarcisio, um Salesiano de Piemonte, conhecido pela sua frontalidade, se bem que muitas vezes confundida com arrogância. Quarenta e sete minutos depois de ter chegado e trinta e dois depois da hora marcada, John foi convidado a entrar no gabinete por um jovem de batina preta. Um homem alto e imponente veio recebê-lo com um meio sorriso e indicou-lhe uma cadeira, em frente a uma enorme secretária, onde se sentar. Tarcisio foi cordato o suficiente, não demasiado, e sentou-se no cadeirão que estava de costas para uma parede onde dominava uma imagem do Papa Bento XVI a fitar austeramente a ampla sala. John não se lembrava de alguma vez ter entrado num gabinete com tanto fausto, e era um homem que se podia dar ao luxo de dizer, embora nunca o fizesse, que já entrara duas vezes na sala oval da Casa Branca e uma no Primeiro Edifício, mais conhecido como Senado, no Kremlin. A maioria das paredes estava coberta por estantes que iam do chão ao tecto, repletas de livros, pastas, incunábulos, visivelmente inventariados para que ninguém se perdesse nos meandros de séculos de informação. Havia ainda um sofá de pele castanho de três lugares e uma janela que dava para o pátio de São Dâmaso, a entrada oficial do palácio medieval, parte integrante do Palácio Apostólico. Uma porta na parede oposta à da secretária dava para outra divisão que John não conseguiu identificar por estar fechada». In Luís Miguel Rocha, A Filha do Papa, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-004-411-2.

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O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Desconhecem-se as razões ou os precedentes que levam grande parte dos directores-gerais das inúmeras agências secretas estatais espalhadas por esse mundo afora a temerem e acatarem qualquer directriz…»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Ao ouvir o nome, Lorenzi começou a chorar copiosamente, de alegria, que fique bem claro. A menina sueca e os pais olhavam para ele, um padre tocado pela emoção do momento, como eles. Sou o secretário do novo papa. A multidão manifestou-se alegremente, e ainda mais quando Felici anunciou que o nome escolhido era o de João Paulo I. Quase ninguém havia alguma vez ouvido falar em Luciani. Tudo que importava era que tinham um novo papa, nada mais, até verem a figura de Albino Luciani aparecer na sacada, vestido de branco, a sorrir. Um sorriso que penetrava o interior das pessoas, que despertava a alma para um estado letárgico de júbilo caloroso, uma efervescência de humanidade, benquerença e paz. Depois de Giovanni Battista Montini, o lúgubre Paulo VI, aparecia na varanda aquele homem, sorrindo como uma criança cheia de sonhos. Após entoar a bênção Urbi et Orbi, o sol voltou a brilhar na noite.

Desconhecem-se as razões ou os precedentes que levam grande parte dos directores-gerais das inúmeras agências secretas estatais espalhadas por esse mundo afora a temerem e acatarem qualquer directriz traçada por esse idoso de tez enrugada, que firma o andar com o auxílio de uma bengala encimada por uma cabeça de leão dourada. Todas as especulações são aceitáveis; porém, podem não passar de ficção perto da verdade. E esta, embora não esteja ao dispor de ninguém, excepto do próprio, é sustentada por um fator inabalável e inquestionável: a CIA apoia todas as suas decisões, chegando até mesmo a emprestar efectivos e divisões inteiras para patrocinar a organização liderada por aquele frágil idoso de expressão dura. Claro que tudo isso funciona por dedução. Se a grande e mais ou menos prestigiada Central Intelligence Agency bate continência a um homem desses, dispondo-se a ajudá-lo e a colocar seus agentes à disposição dele, não é necessário fazer mais perguntas sobre o sujeito.
Assistindo-o de perto, há sempre um homem impecavelmente vestido num casaco negro Armani, cujo nome também se desconhece, gozando da mesma incógnita nominal do velho. Onde um estiver com certeza estará o outro, salvo raras excepções em que o assistente tenha de ir pessoalmente encaminhar alguns assuntos ou eliminar outros, quando é imperativo que mais ninguém o faça. Quanto ao velho, é costume vê-lo perambulando pelos extensos jardins da sua villa ou pela cidade, não se especifica que villa nem que cidade, por motivos que se subentendem; é gente muito influente essa de quem se fala para que provoquemos sua ira. Há muito não sai do solo italiano nem visita outras fronteiras. Tempos houve em que permanecia mais fora da pátria do que desejava; hoje em dia, isso acabou, pois pode dar-se a esse luxo. As novas tecnologias também ajudam a tomar isso possível, embora não dispense mão-de-obra de confiança nos locais em que tem interesses. Tanto melhor, porque nada se assemelha aos ares da sua terra, da sua amada Itália, da sua cidade e villa em particular, por muito que já tenha viajado por esse mundo afora.
Nesse dia, encontramos o velho sentado na esplanada exterior da sua villa, com os olhos postos no Corriere della Sera e no horizonte longínquo. Dali pode contemplar um mar de terra verde a perder de vista, que vai muito além das terras da sua propriedade, até desaparecer por trás de uma colina onde o sol mergulha, conferindo um tom alaranjado crepuscular que tenta combater, em vão, a penumbra que ganha terreno a cada segundo que passa. Podia ter sido uma empregada zelosa, mas não; as luzes do jardim se acenderam devido à presteza dos vários sensores fotoelétricos espalhados pelo local, que fizeram todo tipo de cálculos para os quais estão programados e chegaram à conclusão de que a iluminação não era suficiente para quem quer que estivesse ali. A princípio activam as lâmpadas lentamente, em harmonia com o pôr-do-sol, uma transição contínua e amistosa, o sol a se esconder por trás da colina, ao fundo, e as lâmpadas a fortalecerem cada vez mais seus filamentos até o máximo. O mais absorto nem reparará que a noite se espraiou e tornou conta do céu, uma vez que a luz que ilumina o jornal permanece favorável à sua leitura. Mas o velho reparou. Não que não consiga ler o jornal, isso não está em questão, mas o mar de terra verde transformou-se numa profundeza escura, salpicada de pirilampos pequenos, alguns móveis, outros fixos. Nenhuma luz artificial tem poder para iluminar o mundo. Talvez só a da fé o faça, mas de modo espiritual. Sorri ao pensar nisso. Ultimamente sua linha de raciocínio descamba muito para o lado da espiritualidade. Pode começar com algo bem material; contudo, mais cedo ou mais tarde, acaba por roçar o espiritual, sabe-se lá por quê. É a idade pedindo clemência pelos pecados da vida. Mas ele não é homem de se vergar e pedir piedade, tampouco é clemente para com os outros. A vida humana tem apenas o valor da conveniência. Assim que essa acaba, deixa de ter utilidade, não importando a raça, o credo ou a idade. E o mesmo diz respeito a ele, apesar da sua longevidade. Quis Deus que vivesse tantos anos e enfrentasse tantos perigos, dúvidas e frustrações. Foi tudo obra Dele, todo o sofrimento por que passou e ainda passa». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

Em Torno de Hilda Hilst. Nilze Maria A. R. S. Busato. «Se há uma disputa que mexe com os nervos entre os leitores de Hilda Hilst é saber se ela é mais poeta ou mais prosadora, ou, de outra maneira, se foi mais longe literariamente na poesia ou na prosa de ficção»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Difícil separar essa carga erótica do próprio percurso poético da palavra na sua obra. Provavelmente é ela que, sub-repticiamente, habita o tom elevado e sublime com que a sua lírica invade os versos de Da morte. Odes mínimas ou dos versos de Poemas malditos, gozosos e devotos. Há em Hilda Hilst uma premência por atingir um alvo sublime, que se deposita num horizonte mítico. A sua palavra, no conjunto da sua obra, carrega esse work in progress, ou seja, um roteiro poético que vai desreferencializando os signos que aponta, nomeando-os de formas diferentes, exponenciando-os como figuras. Que o leitor se entenda nessas sendas. Que o leitor mesmo se enlace e se desenlace e que se lance à leitura dos roteiros que por ora se oferecem à descoberta dos espaços percorridos pela linguagem pela autora brasileira. A literatura é um mal. Opera aos poucos uma metamorfose. Na mente. Na linguagem. No quotidiano das palavras. Acentua os limites. Enfatiza os horizontes. Organiza o caos. Demoniza. E pergunta com a ingenuidade dos que não sabem e têm fome pela voz de uma de suas personagens, América, na peça A possessa: eu digo as coisas que penso. Só isso. Se elas são más não sei. Muitas vezes eu nem sei quem sou. Mas penso que não há mal nenhum em perguntar o que não se entende. [...] Assim é que começam as coisas. Com as perguntas.
Em torno de Hilda Hilst também pergunta. E ousa responder. Mas está no gesto da ousadia toda a fortuna da vida. Mais uma lição que a escritora, poeta e dramaturga soube ensinar na sua vida dedicada à literatura. Este livro é a tarefa e o aprendizado. Que o leitor desfrute sem limite.

Hilda Menor. Teatro e crónica
Se há uma disputa que mexe com os nervos entre os leitores de Hilda Hilst é saber se ela é mais poeta ou mais prosadora, ou, de outra maneira, se foi mais longe literariamente na poesia ou na prosa de ficção. Por outro lado, pouca atenção tem sido dada até agora, mesmo pelos seus mais fiéis leitores, aos textos que produziu nos dois outros géneros, aparentemente mais frutos de ocasião em sua escrita do que de engajamento sistemático e consequente. Falo naturalmente do teatro e da crónica. Em relação à crónica, o desinteresse parece até mais compreensível: Hilda se limitou a escrever para um único jornal, de circulação apenas regional, durante um período bem determinado (1992-1995). A publicação em livro desse material apenas aconteceu, e ainda parcialmente, em 1998, por iniciativa da editora Nankin, de São Paulo. O conjunto delas só foi editado em 2007, pela editora Globo. A rigor, portanto, sua circulação ampla é muito recente. No que toca ao teatro, parte da história é semelhante: as suas oito peças também foram escritas num período bem determinado, mais precisamente de 1967 a 1969. À excepção da única peça mais conhecida, O verdugo, todo o material ficou inédito em livro até 2000, quando foram lançadas quatro das peças pela editora Nankin. A edição do conjunto integral das peças novamente ocorreu apenas na edição da Globo, em 2008.
Há diferenças, contudo: o teatro de Hilda foi escrito num período em que era ele o género que mais contundentemente catalisava a produção e a recepção cultural de época. Ele poderia ter ficado conhecido e ter sido muito mais montado e debatido do que realmente foi. Nada mais diverso do que se dá com a crónica, cujo lugar cultural, tanto no jornal como no cenário literário brasileiro sempre foi secundário. Mesmo Rubem Braga, o mais celebrado dos cronistas brasileiros do século XX, ressentia-se dessa situação de relativo desdém pelo género, mesmo que em geral o negasse. Além disso, há um dado bem curioso e importante a ser anotado aqui. Conquanto o teatro propriamente dito de Hilda Hilst esteja praticamente esquecido, a dramaturgia sobre a sua obra em prosa não teatral cresce sistematicamente! E, a julgar pela volúpia com que jovens dramaturgos têm se lançado sobre sua prosa, esse crescimento promete ser muito maior. É como se o teatro de Hilda apenas alcançasse o seu ponto de realização na prosa e como se o que produziu directamente como teatro não chegasse lá». In Nilze Maria Azevedo Reguera Susanna Busato, Em Torno de Hilda Hilst, Editora UNESP, 2015, ISBN 978-856-833-469-0.

Editora UNESP/JDACT