sábado, 13 de janeiro de 2024

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. (…) Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la»

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Mary

«Michael revelou-se desapontado: É pouco. Depois descobriu um pequeno motivo de alegria: Olha, o Novidades! Vá lá, pelo menos temos o Cerejeira e a Igreja. Cristo está connosco. Para o animar, enumerei mais alguns títulos que me pareciam pro-ingleses: O Diário de Lisboa, o República, e os dois do Porto, o Primeiro de Janeiro e o Comércio do Porto. E as revistas... Sim, confirmou Michael. A Guerra Ilustrada e O Mundo Gráfico. São as únicas mesmo bem feitas! Na realidade, não eram revistas portuguesas: O Mundo Gráfico era americana e A Guerra Ilustrada uma tradução do original inglês. Ambas muito populares, tinham excelente qualidade gráfica. O meu amigo rematou: Metade são nossos, metade são dos nazis! Estranho país este. Mas a tua Carminho que cante obrigado, Portugal, ela que vá cantando...

Embora a censura do regime vigiasse a imprensa, a divisão de opiniões reflectia o estado do país. Em 1941, Portugal estava rachado ao meio nas suas simpatias. Famílias, povo, imprensa, círculos do poder, dividiam-se entre o partido anglófilo e o partido germanófilo, ambos em luta pela alma e pela simpatia dos portugueses. Continuámos a andar e passámos em frente do Hotel Avenida Palace. Michael não olhou para o edifício, mas encostou-se a mim, baixou a voz e disse, em tom conspirativo: Há um corredor secreto que liga o cais dos comboios do Rossio a um dos andares superiores do hotel. Assim, os alemães conseguem entrar sem terem de passar pelo controlo da polícia.

Não fazia ideia como ele sabia tais coisas, e absorvia as histórias, deslumbrado com os seus conhecimentos da vida secreta lisboeta. Vais agora ao Aviz?, perguntou. Olhei para o relógio. Eram seis e meia. Ficara de estar às sete no hotel, para me encontrar com Nubar. É melhor apanhares um táxi, sugeriu Michael. Olhei na direcção do Marquês de Pombal e observei a Avenida da Liberdade, barulhenta e tumultuosa. Dali até ao Aviz era um longo caminho. Se fosse a pé não chegaria a horas. E tu?, perguntei.

Não te preocupes. Tenho a minha faca nova. Apertámos as mãos, bem-dispostos. Ele perguntou: Já viste a nova secretária lá da Embaixada, a Rita? Não. Veio com o Ralph. Novo chefe, nova miúda. Sorri: É gira? Michael deu um sonoro assobio: Gira é pouco. Olho azul, cabelo loiro, bela poitrine! Bompernasse? Rimos. Do melhor que tenho visto nos últimos meses, afirmou. Melhor que a belga?

A belga era uma entidade mitológica para nós. Chamada Stephanie, tínhamo-la conhecido em Agosto de 1940, à porta da Pastelaria Suíça, atarantada com o calor, à procura de uma pensão. Passámos uma tarde na esplanada a conversar com ela, enfeitiçados, a olhar para aquela cara loira, para aquelas pernas enormes, para aqueles peitos volumosos. Mas, apesar de ambos a termos levado a uma pensão na Alexandre Herculano, nenhum a tinha conquistado. A belga adquirira assim um estatuto único: deusa inacessível, corpo divino, mulher belíssima, termo de comparação permanente, nostalgia de um romance nunca consumado.

Não, disse Michael, fingindo uma tristeza profunda. Melhor que a belga já não se fabrica. Rimos outra vez. Reanimado, o meu amigo rematou: Mas a Rita é uma truta! Tenho de a conhecer! Um dia destes passo por lá só para a ver! Michael aproveitou para me espetar uma bandarilha no cachaço: Vais tentar ser, uma vez na vida, o primeiro e não o último da lista?

Definitivamente, o meu caso com Mary tinha-o incomodado. Continuava a tentar desviar-me dela. Primeiro Carminho, agora Rita. Encolhi os ombros e dirigi-me para a paragem de táxis. Uns momentos depois, ouvi-o chamar: Jack! Virei-me. Deparou-se-me o seu olhar sério, a cara fechada, e uma voz preocupada, que me disse: Cuidado com o coronel…

O que se passou entre mim e Carminho? Depois de 54 anos, em frente ao Condes e à paragem onde naquela tarde de Março apanhei o táxi para o Hotel Aviz, continuo sem resposta para tal pergunta.

No dia do espectáculo por ela organizado, Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. A moda trazida pelas estrangeiras, depois de vilipendiada pela alta sociedade lisboeta, era agora imitada pelas raparigas portuguesas.

Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la. Quando, um ano antes, conhecera Carminho num jantar no Hotel Palácio, sentira-me atraído pela sua serenidade, a paz que a sua companhia me proporcionava. Carminho não era daquelas mulheres que enche uma sala. Pelo contrário: era discreta, tímida, escondia-se de qualquer tipo de protagonismo e falava pouco.

Ao mudar o penteado, parecia querer mudar de personalidade. Ficava mais bonita e desejável, mas perdia o recato e isso assustou-me. Lembro-me de que senti um forte desejo e que a tentei beijar. Naquele dia, ainda estava convencido de que sentia amor por ela. Não, aqui não, vem aí o meu pai. Carminho afastou-se, recusando o meu beijo, embora no olhar brilhante revelasse contentamento com a minha manifestação. O general na reserva Joaquim Silva entrou na sala. Os seus cabelos, completamente brancos, estavam penteados para trás, luzidios devido à brilhantina. A testa alta recuperava-lhe o porte imponente que se via nas fotografias dos seus tempos de juventude, espalhadas pela casa. Vinha vestido com a sua farda de gala, impecavelmente engomada. Era um homem vaidoso, sempre bem barbeado e perfumado». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Literatura, II Guerra Mundial, Conhecimento,

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias!»

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Mary

«A afirmação tinha um duplo sentido, pois ele andava a namoriscar uma secretária da Embaixada americana, Janice. É bonita, disse eu, enquanto passava um dedo sobre a lâmina. Cuidado, não te cortes, avisou. É tão afiada que a casca das maçãs fica fina como uma folha de papel.

Admirei a arma e depois devolvi-a ao meu amigo, que a recolocou no coldre com cuidado, guardando o conjunto no bolso interior do casaco. Deu novo gole na aguardente e pousou o copo. Baixou a voz:

Os alemães andam a queixar-se cada vez mais ao capitão Lourenço. A semana passada, um padre do Barreiro foi chamado à PVDE. Acusaram-no de fazer sermões contra a Alemanha. Reflecti. Se eles chegavam ao ponto de perseguir padres, fazer o mesmo ao coronel Bowles era fácil. Michael afastou-se do balcão e eu segui-o. Quando saímos para a rua, perguntou-me: E como vai a Carminho?

Michael nunca antes me perguntara por Carminho. Estaria a fazê-lo apenas porque se sentira enciumado com o meu caso com Mary? Ou estaria a tentar proteger-me, recordando-me a minha noiva oficial para me afastar de uma relação com Mary, que comportava riscos, devido às imprudências do coronel? Fomos ontem ao cinema, a Carminho, a irmã e eu. Fomos ver a estreia de Rebecca, do Alfred Hitchcock. Estavam lá o Lawrence Olivier e a mulher, a Vivien Leigh, que vieram de propósito cá para fazer publicidade ao filme. Michael não ficou impressionado. Era comum, naqueles tempos, virem a Lisboa muitos famosos de Hollywood. A mando da censura, os jornais davam enorme destaque às suas estadas, com o óbvio propósito de distrair a população. Ela tem andado bastante ocupada - continuei. Organizou uma festa para as vítimas do ciclone, e conseguiu que alguns estrangeiros participassem. Até a Josephine Baker cantou!

Os artistas estrangeiros não podiam actuar em Portugal, tal como os refugiados estavam impedidos de trabalhar. Porém, o general na reserva Joaquim Silva, pai de Carminho, era amigo de Salazar, e movera as suas influências. Assim, uma excepção foi concedida, e o público ouviu a voz de Josephine Baker, uma célebre cantora da Broadway, que fugira de Paris depois de ter sido acusada de espionagem pela Gestapo. E viva Salazar, ironizou Michael.

Como correu bem, continuei, a Carminho quer organizar mais espectáculos. Falou com umas pessoas do jornal O Século, e formaram uma comissão. Do Século? Esse é dos nossos, comentou Michael, entusiasmado. Sabes o que se passou lá? Contou-me que um dos jornalistas enchera as instalações de emblemas da RAF e bandeirinhas portuguesas e inglesas, com o ámen do director. Para o meu amigo, era uma pequena mas saborosa vitória. Acrescentei que a comissão já tinha uma canção pronta, um hino para os espectáculos:

O título é: Obrigado, Portugal! Michael estacou de repente: Obrigado, Portugal? Obrigado, Portugal, porquê? Abri os braços: Então não estamos a receber bem os refugiados? Michael abanou a cabeça, desagradado: Jack, não me insultes. Não repitas a propaganda de Salazar. Ripostei: Propaganda? Ora essa, então não somos o único país da Europa onde eles podem viver em paz e sossego? Paz sim, mas sossego?, irritou-se Michael. Aos judeus, colocam-lhes um J no passaporte e, se puderem deixam-nos na fronteira! Aos refugiados, quando não os podem mandar imediatamente para o navio, a caminho do Brasil e da América, enviam-nos para as praias! Para a Ericeira, para a Costa de Caparica, para a Figueira da Foz. Pelo menos apanham sol, e tomam banhos de mar!, exclamei.

Michael recomeçou a andar, indignado: E os que ficam por aqui são depenados! Até para irem à casa de banho nos cafés têm de pagar! Os donos das pensões cobram-lhes fortunas, e os senhorios pedem um dinheirão por um quartito! Já para não falar num apartamento mobilado! Infelizmente, era verdade. Muitos portugueses lucravam com a situação dos refugiados. Às vezes, mal chegavam às fronteiras, compravam-lhes a preços insultuosos as jóias, os casacos, até as roupas. Obrigado, Portugal, repetiu Michael, com desdém. E os vistos, e os bilhetes? Há imensos que são enganados pelas agências: pagam mais de 50 contos pelos bilhetes e pelos vistos e ficam a ver os navios partir sem eles!

Suspirou fundo. Estávamos a passar em frente de um quiosque, a caminho dos Restauradores. Michael parou e observou os jornais. Olha para isto! Vês como os nazis são fortes neste país? Repara nisto, e apontou com o dedo para as bancas. O Sinal, A Voz, A Acção é tudo deles! A Esfera também! O Diário de Notícias e o Diário da Manhã, a mesma coisa, tal como aqueles ali, e apontou para o Diário Popular e o Jornal de Notícias, resmungando: Tudo boche. E nós, o que é que temos? Apontei noutra direcção: Bem, temos o Anglo Portuguese News! E não disseste que O Século era dos nossos?» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Literatura, II Guerra Mundial, Conhecimento,

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Casamento de Sonho. Domingos Amaral. «Hoje, também os pais sofrem disso, e ficam tão ou mais desesperados do que as mães, pois perderam a capacidade de imaginar o mundo sem os filhos, e nesse vazio nasce-lhes uma perturbação…»

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Prólogo

Rafael, Dezembro de 2012

«Como dois noivos numa festa de casamento, valsando ao som do Danúbio Azul, a economia e o amor movem-se juntos e ao mesmo ritmo. Se a música acelera, em crescendo, a economia puxa pelo amor e há mais casamentos românticos e filhos a nascer. Mas, quando o par abranda, é porque a economia se retraiu primeiro e o amor logo a segue, murchando também.

Se na economia crescem os rendimentos, no amor crescem os rebentos; mas, se na economia nascem as dívidas, no amor nascem as dúvidas, ninguém mais pensa em procriar e multiplicam-se (terrível costume!) as separações dolorosas e as acesas disputas sobre dinheiros e patrimónios.

Para a maior parte dos seus amigos e para as respectivas famílias, a separação de Leonardo e Constança justificou-se com essa racionalidade fria e foi a queda da economia que precipitou o desmoronar do amor, como se o final daquele casamento não passasse do resultado lógico de uma equação matemática.

Houve quem tenha dito que o casal entrou em rotura devido à desgraça das empresas de Leonardo, ou porque Constança não se soube adaptar ao fim dos luxos, coisas assim. Na mágoa dorida e raivosa dela, e até na escandalosa infidelidade dele, foram sempre encontrados motivos financeiros de justificação, como se a degradação geral das emoções e dos desejos de ambos, os seus conflitos abertos, as suas abismais decepções ou os seus erros vulgares fossem meras consequências do desarranjo geral da economia do país e do mundo, e não existisse uma causa mais profunda, um pecado original mais impuro e imundo, que explicasse tantos e tão perturbadores estragos.

Rafael, amigo de ambos e que neste momento está sentado na cadeira de um avião, sabe que esse segredo antigo existe e mancha aquela história de amor; sabe que o falhanço daquele casamento não se explica apenas culpando a economia pela destruição do amor. Contudo, é o único que o sabe e por isso tem uma narrativa alternativa, diferente da dos outros familiares e amigos, e por isso também é o único que, além de se sentir triste, se sente culpado. Sentado a seu lado está o seu melhor amigo, Leonardo, que nem fala. Não sorri à hospedeira, não olha sequer pela janela do avião, que vai descolar em breve da pista do aeroporto da Portela. A sua imaginação espiritual encontra-se contaminada pela incerteza, teme as consequências de um acidente no Brasil e teme pela mulher (ou ex-mulher?, como defini-la, se eles se separaram, mas nunca se divorciaram?). Mais do que isso, teme pela saúde dos seus filhos, e reza em silêncio.

Já Rafael recorda muito e culpa-se. Ao longo da viagem até Salvador, criará dentro do coração a certeza de que podia ter evitado o que se passou, o que se está a passar e até o que se virá a passar, que ele ainda não sabe o que é, mas que irá acontecer. Sente que, se tivesse contado o segredo que conhece mais cedo, talvez o destino de todos fosse diferente. Ambos estão atormentados. E, no entanto, ainda ontem à noite os dois alimentavam esperanças de que as coisas se começassem a compor no casamento de Leonardo. Ainda ontem, a vida dele parecia prestes a terminar uma volta inteira sobre si própria, como se ele viajasse num cesto de uma roda gigante, que agora o trazia de volta ao ponto de felicidade original de onde partira.

Durante o voo para o Brasil, Rafael irá recordar o ciclo de vida daquele casamento: o mito da felicidade inicial, a festa fantástica na quinta de Constança, o nascimento dos filhos, as primeiras decepções e desavenças e depois a rotura, a separação, e aquela fuga imprevisível de Constança para o Brasil, com o seu novo amor; que deixou Leonardo a morrer de saudades dos filhos durante o ano inteiro de 2012. Um homem sem filhos é um homem amputado, e assim viveu Leonardo mais de trezentos dias. Era como se existisse nele aquela angústia antiga e milenar, perante a ausência dos filhos, que na história da humanidade fora quase sempre prerrogativa das mães. Hoje, também os pais sofrem disso, e ficam tão ou mais desesperados do que as mães, pois perderam a capacidade de imaginar o mundo sem os filhos, e nesse vazio nasce-lhes uma perturbação próxima da loucura, uma saudade trágica e doente, que os desequilibra.

Depois, de surpresa, nascera a reaproximação entre o casal. Nos últimos tempos, à medida que se aproximava o Natal de 2012, Constança mudara. Muitas vezes, é isso que concluiu Rafael, as mulheres veem a vida através dos olhos dos homens que amam. Enquanto ela amou João, o outro, o que a levou para o Brasil, para ela Leonardo era um traste, um patife, um crápula. Quando o outro a começou a abandonar, lá longe, no Brasil, logo o anterior amor, o marido (ou ex-marido?), recuperou as suas renovadas cores». In Domingos Amaral, Casamento de Sonho, Casa das Letras, 2014, ISBN 978-972-462-237-8.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Ele adorava a minha avó... Coração negro, rosas negras, comentou Salvador. Uma homenagem a um amor perdido... E triste, disse eu. Mas é bonito. Morrer de amor é bonito, sentenciou Salvador»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Sentado neste duro banco de madeira, enquanto espero a morte do meu melhor amigo, concluo que não me surpreende este seu destino trágico. De certa forma, já o esperava. Os Palma Lobo que o antecederam viveram o amor sempre de uma forma dolorosa, excessiva e absoluta. Para eles, o oposto da morte não era meramente a vida, mas sim o amor. Sem amor, a vida parava, perdia o seu sentido. Sem amor, a criação do mundo parava, e só lhes restava morrerem. Foi assim com o bisavô, o avô ou o pai de Salvador, e será assim com ele. Conheço as histórias dos quatro homens Palma Lobo, e sei que é uma mentira quando me dizem que já ninguém  morre de amor. Morre-se de amor hoje, como se morreu de amor no passado.

Nessa mesma tarde, Salvador levou-me à biblioteca do monte de Grândola. Era uma sala nos fundos da casa, cujo nome de biblioteca era pomposo de mais. Tratava-se apenas de uma assoalhada pequena e escura, que cheirava a mofo e só dispunha de uma pequena janela, e onde várias teias de aranha eram testemunhas do esquecimento a que o local era votado. Havia estantes a ocuparem as quatro paredes, armários antigos de mogno com longas portas e, embora existissem muitos livros, não era propriamente um local de leitura, mas antes uma espécie de depósito de tralhas velhas.

Quatro gerações da família Palma Lobo tinham arrumado ali os seus livros preferidos de forma displicente. Nas prateleiras descobriam-se enciclopédias degradadas, monografias variadas, bíblias e colecções de revistas antigas, romances de capas duras, livros de história ou infantis, autores portugueses e estrangeiros. Tudo desarrumado, sem ordem, misturando o antigo com o recente, o envelhecido com o bem conservado. Salvador mandou-me ignorar as estantes e desatou a abrir os armários, rodando grandes chaves nas fechaduras.

Sabes que esta foi a única sala onde os comunistas não vieram? Depois do 25 de Abril, a herdade funcionara como UCP (unidade colectiva de produção) entre o Verão de 1975, data em que fora ocupada pelos comunistas e pelas tropas do MFA, e 1985, quando os Palma Lobo tinham conseguido reavê-la. Um a um, o meu amigo foi retirando caixotes dos armários, colocando-os em cima de uma pesada mesa de carvalho, no meio da sala. Eram de cartão e de várias cores, e ele começou a abri-los, investigando o seu interior. A certa altura parou, a examinar uma fotografia. Olha, este era o meu bisavô. Passou-me o pequeno rectângulo de cartão. Era um exemplar envelhecido, do princípio do século XX. Em fundo sépia, baço de antiguidade, um medalhão oval cinzento esbatido revelava a imagem de um homem de chapéu e camisa pretos. De feições arredondadas, testa alta, sobrancelhas finas e um bigode cortado rente, o que mais impressionava na fotografia era o seu ar infinitamente triste.

Foi depois de a minha bisavó morrer, disse Salvador. No verso estava a data da fotografia, escrita a negro numa caligrafia miudinha: Fevereiro de 1916. Ele morreu uns meses mais tarde, em Maio desse ano. Roberto Antunes Palma Lobo, o primeiro da família a transportar aquele nome, apresentava um olhar sem brilho, abatido, como se a vida lhe custasse a viver. A boca estava fechada, as bochechas descaídas e sem ânimo e uma aura escura rodeava os seus olhos. Era como se aquela alma permanecesse em sofrimento, quase cem anos passados.

Parece muito triste, comentei. Nunca recuperou da morte de minha bisavó. Depois mostrou-me outra fotografia: Repara na diferença... Passou-me um rectângulo de cartão um pouco maior que o anterior. Era datado de 1912 e, no mesmo tom sépia e acinzentado, apareciam três pessoas: o bisavô, com o mesmo chapéu negro na cabeça, mas desta vez de camisa branca; a bisavó, com um ar sorridente e orgulhosa; e um rapazito de cinco anos, também ele muito risonho.

É a minha bisavó, Josefina Cardoso Libério Palma Lobo. E o miúdo é o meu avô Álvaro. Salvador sorriu e acrescentou que aquela fotografia devia ter sido tirada em Lisboa, pois eles só tinham comprado a herdade de Grândola em 1913. Foi depois do tal problema político que o meu bisavô teve em Lisboa. Deve ter ficado mesmo zangado, para mudar de vida e passar a viver no Alentejo... A bisavó de Salvador era uma mulher bonita, com feições finas, uns olhos negros grandes e um cabelo preto apanhado atrás num carrapito. Parecia feliz, bem como o miúdo. Mas o que mais me surpreendeu foi a mudança de expressão na cara do bisavô Roberto. Era como se fosse um ser diferente. O seu olhar era vivo e brilhante, estava sorridente e orgulhoso no seu papel de marido e pai. Quatro anos mais tarde, fotografado sozinho, era um homem completamente derrotado pelas sombras, um viúvo em solidão.

Ele adorava a minha avó... Coração negro, rosas negras, comentou Salvador. Uma homenagem a um amor perdido... E triste, disse eu. Mas é bonito. Morrer de amor é bonito, sentenciou Salvador». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor, 

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «Sabes onde hai água? O rapaz respondeu: Há uma fonte numa rua, ali por detrás daquelas casas... Fazendo uma careta assustadora, o salafrário ameaçou-o novamente: Se my mientes, te arranco el corazón com los dientes...»

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«Dos vários personagens que conheci naqueles estranhos dias, o rapaz foi curiosamente o primeiro que vi. Cruzámos os nossos destinos logo na primeira manhã, e quando falei com ele já sabia o que tinha feito, a coragem que revelara. Hoje, tenho pena de não o ter elogiado. Talvez as coisas tivessem sido diferentes, talvez tivesse olhado para mim com outros olhos. Mas não foi assim e não há nada que possa fazer para mudar a história. O rapaz estava ainda próximo da arruinada Igreja de São Vicente de Fora quando se deu o terceiro abalo. Embora determinado a procurar a irmã, não lhe fora fácil atravessar aquele descalabro. Não existiam ruas, nem casas, nem prédios onde antes tinham existido. Quando a nuvem de poeira levantou, viu no meio daquela irrespirável bruma o Castelo de São Jorge e mais em baixo a Sé, e foi assim que se orientou em direcção a sua casa, próxima da Igreja da Madalena.

Naquelas circunstâncias, andar era difícil: havia fendas inesperadas e fundos precipícios no terreno; as ruas apresentavam-se impedidas, atulhadas de pedras. Demorou a aproximar-se do Castelo e das suas muralhas. Os mortos atapetavam o chão, em posições complexas, semelhantes a estátuas esculpidas por desvairados. As pessoas corriam, atarantadas, como as crianças perdidas, aos berros.

O rapaz prosseguiu, determinado. Próximo da Graça, uma pequena multidão observava o Rossio, em baixo, e a colina oposta, do Bairro Alto. Nada era como tinha sido. A cidade abatera, como que deitando-se no chão, e nem os seus edifícios mais simbólicos haviam escapado. Na praça, o Hospital de Todos-os-Santos era o único que parecia intacto, mas ao seu lado tanto o Convento de São Domingos, como o Palácio da Inquisição, haviam sido fortemente atingidos.

Na encosta do Castelo de São Jorge e mesmo em Alfama, o rapaz também só via desolação, e perguntou a si próprio o que teriam feito para merecer tal castigo, mas não encontrou razão. Por isso, cessou de procurar motivos e continuou a descer para a Sé, e com ele desciam muitas pessoas que tinham subido para as festas em São Vicente de Fora e agora regressavam às suas casas. Eram já pessoas diferentes, mudadas para sempre, partidas por dentro, cheias de mágoa e desespero e medo do futuro. Tinham ido encontrar-se com Deus naquele feriado e haviam sido massacradas de uma forma inimaginável.

Ao passar perto da Sé ouviu tiros. Deviam ter fugido prisioneiros do Limoeiro e os soldados tentavam abatê-los, foi a sua conclusão, e decidiu ter precaução, receando ser apanhado no fogo cruzado dos confrontos. Algumas casas tinham ficado intactas, bem como a Sé, que, orgulhosa, apenas mostrava os flancos danificados.

Foi então que, mesmo à sua frente, viu três homens a saírem de uma casa. Arrastavam um desgraçado, provavelmente o proprietário. Atiraram-no ao chão e deram-lhe um tiro, abatendo-o. O rapaz escondeu-se atrás de um monte de pedras e ficou a observar. Um dos homens, mais alto do que os outros dois, parecia ser o chefe. O seu cabelo e as suas barbas eram negros e dos seus olhos e dos seus gestos emanava uma energia maligna. Vasculhou os bolsos do proprietário e retirou um relógio. Depois, os três bandidos reentraram dentro da casa e ouviram-se mais gritos, seguidos de um silêncio mais assustador do que o barulho.

O rapaz aproveitou o momento e recomeçou a andar, mas foi surpreendido pelo regresso abrupto do homem mais alto, que se dirigiu ao morto. O rapaz sentiu medo. O grandalhão observou-o, enquanto vasculhava as roupas do defunto. Sorriu quando encontrou uma chave e depois perguntou ao rapaz: Qué passa? O rapaz não respondeu, mas percebeu que o ladrão era espanhol. Um dos seus companheiros saiu também de casa, trazendo uma mulher pelos cabelos, que implorava: Não, não, por favor, não! O  homem enorme olhou para o rapaz e riu-se, e depois perguntou: Hay visto una mujer morrer? O rapaz respondeu: Sim. A minha mãe. O energúmeno soltou uma gargalhada e perguntou-lhe: Como hay morrido tu pobre madre? O rapaz contou-lhe: Morreu lá em cima, em São Vicente de Fora, na igreja. Executando uma mímica maldosa, o bisonte benzeu-se e murmurou: Paz à su alma... Pero, esta vai gozar mucho más que tu madre... Aproximou-se da mulher, agarrou-a pela nuca e depois ordenou ao seu subordinado: Leva-la!!!

O outro riu e acatou a ordem, mas antes aconselhou-o, apontando na direcção do rapaz: Matá-lo. Muertos no hablam con soldados... O homem mais alto deu nova gargalhada, aproximou-se do rapaz e perguntou: Chico, quieres morrer? O rapaz disse que não. O matodonte agarrou-o pelo cachaço, levou a mão ao cinto e empunhou uma faca, que depois lhe encostou à garganta. A mi me gustan los chicos... Apesar do medo, o rapaz disse: Eu só queria água... O cafageste, ao ouvir falar em água, pensou uns segundos.

Sabes onde hai água? O rapaz respondeu: Há uma fonte numa rua, ali por detrás daquelas casas... Fazendo uma careta assustadora, o salafrário ameaçou-o novamente: Se my mientes, te arranco el corazón com los dientes... Não, gemeu o rapaz, é verdade, há água ali. O Cão Negro libertou-o e ordenou: Vien. Entraram os dois dentro de casa. No meio da sala, em cima de um sofá, a mulher estava deitada de costas, com as saias levantadas, e um dos outros espanhóis, já com as calças a meio dos joelhos, preparava-se para penetrá-la.

Ei cabrón, gritou o Cão Negro. O companheiro voltou-se para trás, aflito, e riu nervosamente. Ei, Cã Niegro, también tenemos derecho... O chefe ergueu-lhe o punho à frente dos olhos e perguntou: Quien manda? Tu. Entonces, sou yo lo primero. O Cão Negro baixou as calças enquanto o outro se afastava um pouco. O rapaz assistiu aos seus actos. A mulher chorava; e depois do chefe veio o homem que ele afastara, e depois o terceiro homem praticou o mesmo acto, sempre com ela a chorar. O rapaz não podia fazer nada e quando aquilo acabou estava com medo que o quisessem a ele, mas nenhum dos três o quis. O Cão Negro proclamou que ela ainda aguentava outra rodada geral, e todos se riram muito e só depois se lembraram do rapaz, e o Cão Negro mandou-o procurar um jarro, ou uma panela grande, para ir buscar água à fonte, acompanhado por um dos espanhóis». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, O Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2010, ISBN 978-972-461-986-6.

 

Cortesia de CdasLetras/JDACT

 JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Terramoto de 1755, Conhecimento,

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Casou três vezes. Como eu... Bebeu um gole do seu whisky e continuou: Diz-se que as duas primeiras mulheres endoideceram. Era do género torturador... Passavam as passas do Algarve com ele e estoiravam os fusíveis»

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Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Foram todos homens invulgares, contou-me o meu amigo. Passaram por Moçambique, Angola, Lisboa, Alentejo e Brasil. A vida deles é uma epopeia à espera de ser revelada.

Entusiasmado com a empreitada, insistiu comigo, e prometeu que me abriria as bibliotecas da herdade de Grândola e da casa de Lisboa, onde eu iria certamente descobrir cartas, diários, fotografias antigas, registos, um infindável material para a narrativa. Além disso, falou-me ao bolso. Pago-te bem, meu velho. Propôs-me uma avença mensal de mil euros e ofereceu-me também as viagens aos locais onde o bisavô nascera, o avô vivera e o pai morrera.

Vais primeiro a Maputo, onde nasceu o meu bisavô! Ficas no Polana, é um óptimo hotel. Sorri, divertido com a excitação dele. Depois, vais a Angola, onde o meu avô teve negócios nas minas. Não conheço Angola. Ele nem me ouviu. - Por fim, acabas no Brasil, para tirar a limpo a morte do meu pai. Dizem que se suicidou, mas não sei se acredito.

Fiquei estarrecido, paralisado a olhar para ele, como um coelho ofuscado pelos faróis de um carro numa noite escura. Sempre ouvira dizer que o pai de Salvador se matara com um tiro nas têmporas, numa ruela escura do Rio de Janeiro. Mas o teu pai não... - balbuciei. A mim também sempre me disseram isso, mas... Salvador deu uma baforada. Depois, levou um dedo à boca, molhou-o com cuspo e passou o dedo no charuto, para enrolar melhor a folha de tabaco.

A minha mãe morreu convencida de que ele dera um tiro na cabeça. Mas não tenho a certeza... Há coisas estranhas. Dava-se com malta pesada, era advogado dos bicheiros... Olhou para mim, muito sério: Tu és jornalista, sabes investigar. Já passaram mais de vinte anos! Pode ser que alguém te conte a história verdadeira da morte do meu pai... Fiquei em silêncio por momentos, mas Salvador não me deixou muito tempo para pensar no assunto. Bom, mas isso é o fim da saga. Não se começa pelo fim, não é? Primeiro, tens de investigar o meu bisavô.

O bisavô, Roberto Antunes Palma Lobo, era natural de Moçambique. Filho de um contrabandista, o seu turbulento nascimento ocorrera em obscuras circunstâncias, vagamente pecaminosas, à espera de serem desvendadas. A mãe dele, minha trisavó, morreu ao dar à luz o filho. E o pai dele, o meu trisavô, morrera nove meses antes, assassinado. Nove meses antes... Deixou a suspeita impregnar o meu cérebro. Fez uma pausa, deu uma nova baforada no charuto e, com um sorriso malandro, acrescentou: Há quem duvide de que o meu trisavô fosse o pai da criança... Mas a minha trisavó nunca abriu a boca...

Com uma pompa fingida, abriu os braços: Vais finalmente revelar o pecado original dos Palma Lobo! Confesso que, por esta altura, qual peixe atraído pelo isco, estava prestes a morder o anzol. Salvador ia tecendo a sua teia, fascinando-me com as antigas lendas dos Palma Lobo. Depois, há também a política. O meu bisavô foi deputado, no início da República. Por pouco tempo. Houve uma escandaleira qualquer e abandonou o cargo. Retirou-se aqui para Grândola, para a herdade que acabara de comprar. E aqui morreu. Dizem que de tristeza... O meu melhor amigo deu mais uma passa no charuto e examinou o horizonte. Parecia emocionado.

À nossa frente, estendiam-se hectares de campos verdes, carregados de oliveiras e sobreiros. Ao longe, junto a uma pequena elevação, dezenas de vacas castanhas pastavam, lentas e pachorrentas, os rabos a abanarem para afastar as moscas. Sabes porque é que esta herdade se chama Monte das Rosas Negras? Eu não sabia.

Foi o meu bisavô que a baptizou. Passou os últimos anos da vida a tentar produzir rosas negras ali atrás, numa estufa que construiu. Apontou para lá. Mandava-as vir de Itália... Nasceu-lhe na cara um sorriso melancólico, e suspirou fundo. Era como se sentisse um elo de ligação entre o seu coração e o do bisavô, como se ele compreendesse e se identificasse com aquele homem do seu sangue que não conhecera. As rosas eram uma homenagem à minha bisavó. O meu bisavô adorava-a, paixão à séria! Mas, coitado, ela morreu muito nova. Foi tal o desgosto que foi morrendo aos poucos, a plantar rosas negras, consumido pela saudade...

O melancólico mas bonito romantismo deste episódio caçou-me definitivamente. Olhei em volta e a herdade pareceu-me diferente depois de conhecido o motivo do seu nome. Rosas Negras... Negras como o coração destroçado de um homem. Ficámos calados uns momentos, cada um com as suas emoções e as suas meditações. Depois, o meu amigo começou a falar no avô. Álvaro Libério da Palma Lobo era, segundo o seu neto, um verdadeiro pirata. Do piorio... Amigo de bandidos, ladrões de gado, com fama de aldrabão nos negócios, era um traste com as mulheres. Casou três vezes. Como eu... Bebeu um gole do seu whisky e continuou: Diz-se que as duas primeiras mulheres endoideceram. Era do género torturador... Passavam as passas do Algarve com ele e estoiravam os fusíveis. Deu uma gargalhada, bem-disposto. Senti-o orgulhoso do carácter excessivo do avô, como se isso lhe desse a confiança para ser, também ele, um quebra-cabeças para as mulheres que tinham o azar de sucumbir aos seus encantos.

A minha avó teve mais sorte do que as outras, só o aturou uns anos. Casaram a seguir à guerra, em mil novecentos e quarenta e seis, e ele morreu uns anos depois, em mil novecentos e cinquenta e quatro. Salvador deu uma nova gargalhada: Morreu a fornicar, empoleirado numa camponesa, ali no celeiro. Apontou para o local, um dos casões agrícolas que estavam agora queimados pelo fogo. Era um patife. Danado, meio doido, mas com olho de águia para os negócios. O pior era os sócios. Metia-se com gente enxertada em corno de boi... Observou o chão, como que a procurar na tijoleira do alpendre as razões que tinham levado o avô a buscar a fortuna em tão más companhias. Sorri.

Havia semelhanças entre o avô e o neto. Salvador sempre tivera tendência para ser obscuro nas negociatas e duvidoso em algumas amizades. De há uns anos para cá, dava-se com um perigoso inglês, chamado Conrad. Um duro, traficante de cocaína. Que te parece, perguntou Salvador, empolgado e divertido, a cara aberta num enorme sorriso. Aceitas a minha proposta? Dá um óptimo livro, uma coisa à sul-americana, estás a ver? A odisseia dos Palma Lobo...» In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor,

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Morreram todos cedo. Bisavô, avô, pai, Salvador. Nomes diferentes mas o mesmo sangue e muito em comum. Mulherengos, piratas, excessivos, todos marcados pela loucura e pela tortura da paixão»

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Prólogo

«São agora dez e meia da noite de um domingo quente de Agosto, e estou no corredor do hospital à espera de más notícias. O banco de madeira onde me sento é duro, e doem-me as costas, pois já estou aqui há várias horas. Lá dentro, na sala dos cuidados intensivos, o meu melhor amigo, Salvador Palma Lobo, está mal, e há qualquer coisa na sua cara que me mete medo. Tem tubos enfiados na boca, nas narinas e nas veias, e os médicos dizem que já não está vivo, mas que também ainda não está morto.

Ao lado da sua cama, numa máquina cinzenta, há uma linha electrónica, verde e nervosa, um sinal de que o seu coração continua a bater. É um electrocardiograma permanente, que sobe e desce sem parar, como uma irónica metáfora da vida de Salvador. Eufóricas subidas, picos íngremes, e depois vertiginosas descidas, fundões abruptos. Uns atrás dos outros, sem pausas, uma montanha-russa de emoções, uma narrativa extraordinária que agora está a chegar a um prematuro fim.

Dou por mim a pensar que só podia ser assim com um homem Palma Lobo. Morreram todos cedo. Bisavô, avô, pai, Salvador. Nomes diferentes mas o mesmo sangue e muito em comum. Mulherengos, piratas, excessivos, todos marcados pela loucura e pela tortura da paixão.

Ao longo da tarde deste domingo quente de Agosto passaram por cá alguns amigos de Salvador, duas das suas ex-mulheres, Sara e Marina, e uma tia velha, irmã da avó de Salvador. Joana não apareceu, mas também não a esperava. Não houve visitas de mais familiares porque Salvador não tem mais família. Nem pai, nem mãe, nem irmão. Morreram antes dele. E, apesar de ter casado três vezes, também não tem filhos.

Aqueles que cá estiveram consideram que ele se matou de abusos. Nos últimos tempos bebia de mais, disse Lourenço; drogava-se de mais, disse Marina; tomava remédios de mais, disse Rui. Sara, que o conhecia melhor do que os outros, diz que foi a doença mental que o consumiu, tal como aconteceu ao irmão Luís antes dele. É possível que todos tenham razão, mas não penso como eles. Para mim, Salvador está mesmo a morrer de amor. Com a excepção da tia velha, os outros não acreditam. Dizem-me que já não existem paixões impossíveis e fatais, que isso são coisas do passado. Mas só o dizem porque não conhecem, como eu conheço, a história de Salvador e de Joana e as espantosas biografias dos Palma Lobo que o antecederam. Só a tia velha de Salvador me compreendeu.

É possível, disse ela, o Salvador era um rapaz muito romântico. Ela ia continuar a falar, mas nesse momento o meu telemóvel tocou. Era Joana. Queria saber se era verdade o que ouvira dizer. Disse-lhe que sim, mas não lhe revelei que ele está a morrer de amor por causa dela. Estás no hospital?, perguntou. Sim. Já cá estiveram o Lourenço, o Rui, a Marina, a Sara.

Houve um curto silêncio do outro lado da linha. Joana e Sara odeiam-se. E tu, perguntei eu, nunca mais te vi. Estou fora de Lisboa... Quem é que te contou do Salvador? Uma amiga. As notícias corriam depressa. Achas que ele vai morrer?, perguntou Joana. Será que ela ainda o ama? Será que ela alguma vez o amou? Sim, amou, amou à maneira dela, amou o que podia e o que sabia. Joana é uma rapariga muito nova, tem o quê, vinte e dois, vinte e três anos? Perguntei-lhe: Que idade tens? Ela deve ter estranhado. Porquê? Nada, disse eu. Curiosidade. Vinte e três. Pois, era o que eu pensava.

Não quis responder à pergunta dela. Não gostava de falar na morte do Salvador a não ser para lhe dar uma causa e com a Joana não podia falar disso. A culpa não é dela. Aconteceu assim, apenas isso. Estás feliz? Não era esta a pergunta que queria fazer. O que queria era saber se ela tinha namorado. Joana é um ser muito especial. Todos os homens que a conheceram a desejaram, nem que tenha sido só por um dia ou uma noite. Qualquer um podia endoidecer com ela. Há mulheres assim. Eu amei-a assim que a vi. Acho que ainda a amo, mas nunca tive coragem para lho dizer.

Salvador teve coragem e por isso ela amou Salvador, embora por pouco tempo. Depois deixou-o e ele nunca mais foi o mesmo. Está tudo bem comigo, respondeu ela. Joana nunca falava muito sobre si. O Salvador vai morrer apaixonado por ti. Ela ficou em silêncio, talvez constrangida. Depois disse que voltava a falar e desligou. Tenho a certeza de que não virá ao hospital. Talvez ainda se sinta culpada. A tia velha de Salvador olhou para mim e perguntou: Ele gostava dessa rapariga? Eu sorri e confirmei com um aceno de cabeça: Muito. É ela o motivo do desgosto?

Olhei para a senhora e sorri e voltei a abanar a cabeça. É de família. Os desgostos estão-lhes no sangue. Ao ouvi-la, senti que eu e aquela senhora de setenta anos, bonita e distinta, éramos cúmplices, depositários únicos de um código secreto, pois só nós sabíamos que os desgostos de amor e a morte estão no sangue dos Palma Lobo. Sei isso hoje, melhor do que ninguém.

Passei o meu último ano a investigar a história da família Palma Lobo. Enquanto Salvador, o último dos Palma Lobo, se autodestruía com drogas e álcool e loucura e se afundava na mágoa e na tristeza a caminho do fim, eu corria o mundo à procura das histórias dos seus antecessores. Enquanto, em Lisboa ou no monte de Grândola, Salvador se matava devagar, eu viajava até Maputo, até Luanda, até ao Rio de Janeiro, em busca do fio das vidas do seu pai, do seu avô e do seu bisavô.

Sentado neste banco duro, com dores nas costas, dá-me para pensar na estranha ironia deste destino paralelo. Eu a ressuscitar os mortos Palma Lobo e o meu melhor amigo a preparar-se para ir ter com eles. Dá-me para pensar se Salvador não planeou tudo isto desde aquele dia em que me convidou para almoçar na sua herdade de Grândola, e me fez aquele surpreendente desafio.

Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

Foi há coisa de um ano. Lembro-me bem, pois os barracões agrícolas da herdade de Grândola ainda estavam negros, carbonizados pelo fogo que ocorrera semanas antes, na noite da dramática festa de anos de Salvador, onde o amor dele e de Joana se estragou para sempre.

Almoçámos ensopado de borrego, e no final do repasto, já de charuto aceso, o meu amigo lançou-me um desafio: Quero que escrevas a história dos Palma Lobo.

Eu estava na altura desempregado, a revista onde escrevia tinha encerrado as portas, e só conseguia alguns trabalhos como free lancer. Sabendo disso, Salvador tentou convencer-me a escrever um livro sobre os três homens Palma Lobo que o tinham precedido. Desde o seu bisavô, o primeiro da estirpe, até ao pai, que morrera no Brasil, passando pelo avô, um louco formidável». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

 Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor,

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Quando fez aquele inesperado e mórbido anúncio, estávamos, eu, ele e mais dois amigos, num barco, a caminho do Algarve. Tínhamos partido de Lisboa na véspera, a bordo de um belo iate a motor…»

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Prólogo

«Duas horas antes do grave acidente que o atingiu, Salvador Palma Lobo anunciou aos amigos que estava a morrer de amor. Tenho a morte na garganta, a querer sair, e o coração negro, como uma gruta sem luz. Há um ano que o sol deixara de nascer dentro dele, há um ano que o sangue lhe adoecera de tristeza nas veias. Desde que perdera Joana, morrer lentamente havia sido o seu destino.

Quando fez aquele inesperado e mórbido anúncio, estávamos, eu, ele e mais dois amigos, num barco, a caminho do Algarve. Tínhamos partido de Lisboa na véspera, a bordo de um belo iate a motor, emprestado por Conrad, um amigo inglês de Salvador. No sábado à noite, navegávamos próximo de Sines. Ao longe, na costa, erguiam-se as grandes chaminés das refinarias, e uma sarça flamejante volteava no alto de uma delas, chicoteando o ar com a fúria irregular das suas labaredas. Mais adiante, os contornos cinzentos da enorme central eléctrica feriam o céu, como se fossem espigões tubulares desejosos de magoar as abóbadas. Na linha da terra, as luzes das estradas estendiam-se, como uma tiara de diamantes laranja.

A nossa primeira noite no mar fora de excessos, de bebidas misturadas e, no caso de Salvador, de muita droga. No sábado, apesar do intenso calor, o meu melhor amigo não tomara banhos no mar nem largara a sua omnipresente garrafa de whisky. Quando nos falou em amor e morte estava exausto, parado e sério, e muito pálido, como se tivesse envelhecido cem anos de repente. O seu habitual sorriso, com a boca aberta e a língua de fora, como um cão grande e feliz, desaparecera. Tinha os olhos raiados de sangue e as olheiras escuras e o cabelo desalinhado e a barba por fazer.

Quando me via assim, ressacado, a minha mãe costumava dizer: Pareces um bicho.

Naquele momento, Salvador parecia um bicho. Um animal selvagem, sujo e esgotado e abatido. Não eram só a amargura ou as substâncias fortes que o deixavam naquela profunda prostração, mas também o calor, o imenso bafo quente pousado sobre nós. Era Agosto e uma vaga de calor pesada e pastosa caíra sobre Portugal como uma maldição bíblica. De dia, as temperaturas haviam chegado aos quarenta e cinco graus, e mesmo ali, na noite do mar, estava tão quente como no inferno.

Rui e Lourenço, quando ouviram falar em amor e morte, sorriram, para disfarçar o alarme sentido, e proclamaram que nos nossos tempos já ninguém morria de amor e já não existiam Romeus e Julietas. Para mais num homem! Os homens não sofrem desses males, declararam, isso é coisa de mulheres, disseram a rir. Só eu não me ri.

Por mais que me digam que já ninguém morre de amor, não acredito. Conheço a história de Salvador Palma Lobo.

É certo que ninguém sabe para o que nasce uma pessoa, mas eu sei que mais cedo ou mais tarde isto lhe iria acontecer, pois no caso dele a palavra desgosto é destino, o amor e a morte estão-lhe nos genes. A hereditariedade marca-nos, como o ferro de uma ganadaria. Os nossos pais e avós e bisavós são os únicos deuses que conhecemos pelo nome próprio. Os Palma Lobo morreram todos de amor. O bisavô, o avô, o pai, e agora Salvador. Quatro gerações de machos, uma original linhagem masculina de que Salvador é o último exemplar.

Mas para morrer de amor é preciso primeiro morrer. Duas horas depois daquele anúncio soturno, o pré-aviso de Salvador confirmou-se. Subitamente, deixou cair a garrafa de whisky e teve um ataque. Como se  tivesse levado um coice de um cavalo invisível, esticou-se num espasmo, para cima e para trás, e depois dobrou-se, tombando para a frente, até cair finalmente no convés, com estrondo, no meio dos cacos de vidro da garrafa partida. Foi tudo demasiado rápido.

Num momento falávamos e no momento seguinte ele estava no chão, em posição fetal, a espumar baba da boca e a revirar os olhos, o corpo a estremecer com violência, como se tivesse muita febre ou muito frio. Durante breves segundos, Lourenço, Rui e eu pensámos que ele estava a brincar, mas depressa o pânico se apoderou de nós. O nosso amigo estava mesmo a morrer à nossa frente, e aquela não era a morte romântica e teórica de que ele falara antes, mas uma morte concreta, física e assustadora. Chamámos a ambulância pela rádio e regressámos a terra depressa, o barco com os motores no máximo, e atirámos os pacotes de droga pela borda fora, com medo da polícia. Atracámos no porto de Sines, angustiados, e a equipa de emergência médica subiu a bordo, com desfibriladores e tubos e garrafas de oxigénio e urgência, envolvendo o nosso amigo. Transportaram-no para o cais numa maca e depois enfiaram-no numa ambulância, na qual só eu o pude acompanhar. Às primeiras horas da madrugada de domingo, Salvador dava entrada num hospital de Lisboa, nos cuidados intensivos, e a sua morte, anunciada pelo próprio umas horas antes, tornava-se lentamente uma realidade». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

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Os Abutres do Vaticano. Eric Frattini. «Apesar de tudo, as fugas continuaram e na terça-feira, 24 de Abril de 2012, o Sumo Pontífice ordenou a criação de uma Comissão Cardinalícia de Investigação…»

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Os Abutres do Vaticano

O início de tudo

«Os Sclvicos de Informação da Gendarmaria do Vaticano puseram-se de imediato em movimento, bem como os Serviços de Inteligência da Santa Sé. 'Iodos os agentes tinham e mesma ordem: descobrir quem se encontrava por detrás da fuga de documentos privados. O padre Federico Lombardi denunciou publicamente e existência de um Wikileaks no coração da Santa Sé com o intuito de desacreditar a Igreja, dado que as fugas de documentos privados do Vaticano aos meios de comunicação italianos mostravam claramente os duros confrontos entre os departamentos da cúria, as lutas de poder entre bertonianos e diplomatas no seio da Secretaria de Estado, a corrupção no IOR, o mau gasto e o esbanjamento em secções da Governação, tentativas para assassinar o Pepa, etc.

Contudo, apesar de todos os comentários, editoriais e títulos dos principais meios de comunicação social acerca dos documentos revelados, Bento XVI saiu em defesa do seu número dois, o cardeal secretário de Estado Tarcísio Bertone. Os documentos exibidos no programa de Nuzzi tentavam apresentar Bertone e o seu aliado, o cardeal Giuseppe Bertello, o todo-poderoso chefe da Governação do Estado da Cidade do Vaticano, como opositores acérrimos das novas orientações cle Bento XVI no sentido da cooperação financeira com as autoridades monetárias internacionais, com o objectivo de o Vaticano entrar na 1ista branca do Conselho de Europa, na qual se encontram todos os Estados que combatem o branqueamento de capitais, a evasão fiscal e o financiamento de terrorismo.

Apesar de tudo, as fugas continuaram e na terça-feira, 24 de Abril de 2012, o Sumo Pontífice ordenou a criação de uma Comissão Cardinalícia de Investigação, presidida pelo cardeal espanhol Julian Herranz, um homem da Opus Dei. A primeira reunião do comité decorreu na sexta-feira, 27 de Abril e, nessa mesma reunião, ficou estabelecido o calendário de trabalho e o método operacional para encontrar os culpados das fugas. Na terça-feira, 1 de Maio, realizou-se uma reunião de altos cargos da AISI (Âgência de Informação e Segurança Interna), dos Serviços de Inteligência italianos e uma representação da Entidade, o Serviço Secreto do Vaticano, e da Gendarmaria. No encontro, os italianos informaram os seus homólogos do Vaticano de que a fuga provinha do círculo muito, muito próximo do Sumo Pontífice». In Eric Frattini, Os Abutres do Vaticano, 2012, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-598-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Eric Frattini, Vaticano, Literatura, Conhecimento, Religião,

sábado, 6 de janeiro de 2024

Os Abutres do Vaticano. Eric Frattini. «Rapidamente, a máquina do Vaticano pôs-se em movimento para contrariar o golpe desferido à imagem da Santa Sé pelo canal de televisão. O padre Federico Lombardi expressou a sua amargura pela difusão…»

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Os Abutres do Vaticano

Paolo Gabriele. Anjo ou Demónio

«Santidade. Já são horas, dizia Paolo Gabriele todas as manhãs, às seis e meia, para acordar o Sumo Pontífice. Assistia-o de seguida na missa das sete, servia-lhe o pequeno-almoço às oito, o almoço à uma e meia e o jantar às sete e meia. Ao cair da noite, acompanhava Bento XVI no seu passeio diário pelos jardins do Vaticano, escolhia a menta perfumada para a infusão papal, dava-lhe os medicamentos receitados pelo médico do Vaticano e, por volta das nove da noite, ajudava-o a despir-se e a deitar-se.

Boa noite, Paoletto, dizia o Sumo Pontífice.

Boa noite, Santidade, respondia o fiel mordomo.

Foi este o dia-a-dia do mordomo papal, durante trezentos e sessenta e cinco dias por ano, até quarta-feira 23 de Maio de 2012. Nesse dia, oito agentes da Gendarmaria do Vaticano, sob ordens do seu comandante em chefe, Domenico Giani, entraram num apartamento da Via da Porta Angelica, no mesmo edifício onde residia a mãe de Emanuela Orlandi, a adolescente desaparecida em 1983. Giani tocou à campainha e esperaram. Pouco depois, a esposa de Paolo Gabriele abria a porta.

Senhora Gabriele, trazemos um mandato de detenção para o seu marido e um mandado de busca, anunciou Giani abrindo passagem aos guardas para o interior da residência do mordomo do papa.

Poucos minutos depois, o próprio Gabriele chegava ao apartamento, alertado pela mulher. O mordomo não teve tempo para dizet fosse o quc fosse. Dois guardas do Vaticano aproximaram-se dele, puxaram-lhe as mãos para trás das costas e algemaram no. Em seguida, foi transportado num veículo Fiat Brava preto com matrícula SCV para o quartel-general do corpo da Gendarmaria do Estado da Cidade do Vaticano, no Palácio do Tribunal, na Praça de Santa Marta. De que me acusam? De que me acusam?, repetia Gabriele, uma e outra vez, aos agentes que o tinham detido.

O início de tudo

Para ficar a conhecer os motivos que levaram à detenção de Paolo Gabriele, um romano de quarenta e dois anos, casado, com três filhos e que era um dos homens mais próximos do Sumo Pontífice, é necessário retroceder até quarta-feira 25 de Janeiro de 2012. Nessa noite, o canal de televisão privado La7 transmitiu no programa Gli Intoccabili, dirigido pelo jornalista Gianluigi Nuzzi, um especial sobre o Wikileaks do Vaticano». O jornalista apresentava à audiência a carta enviada por monsenhor Carlo Maria Viganò ao papa, na qual este denunciava a corrupção e a má gestão na Governação do Estado do Vaticano.

Rapidamente, a máquina do Vaticano pôs-se em movimento para contrariar o golpe desferido à imagem da Santa Sé pelo canal de televisão. O padre Federico Lombardi expressou a sua amargura pela difusão de documentos privados num comunicado, advertindo os dirigentes do canal La7 das possíveis acções legais por parte do Estado do Vaticano» In Eric Frattini, Os Abutres do Vaticano, 2012, Bertrand Editora, 2013, ISBN 978-972-252-598-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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O Mundo Sem Nós. Alan Weisman. « Ao tornarmo-nos numa verdadeira força da natureza, já o fizemos. Entre os artefactos de fabrico humano que durarão mais tempo depois de desaparecermos está a nossa atmosfera refeita»

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O Mundo imediatamente antes de Nós

Um interlúdio Interglacial

«I)urante mais de um milhão de anos, placas de gelo avançaram e recuaram a partir dos pólos, encontrando-se por vezes no equador. As causas têm a ver com a deriva continental, com a órbita levemente excêntrica da Terra, o seu eixo vacilante, e as alterações no dióxido de carbono da atmosfera. Durante os últimos milhões de anos, estando os continentes basicamente onde os vemos hoje, as eras glaciais sucederam-se de forma bastante regular e duraram mais de cem mil anos, com períodos de degelo durando em média doze mil a vinte e oito mil anos.

O último glaciar deixou Nova Iorque há onze mil anos. Em condições normais, o próximo glaciar a cobrir Manhattan poderá chegar a todo o momento, apesar de ser cada vez menos provável que chegue à tabela. Muitos cientistas pensam hoje que o actual intervalo antes do próximo acto glacial vai durar muito mais tempo, porque conseguimos adiar o inevitável enchendo o nosso cobertor atmosférico com insolação extra. As comparações com bolhas antigas no núc1eo de gelo da Antártida revelam que há mais CO2 no ar, hoje, do que em qualquer altura dos últimos 650 mi1 anos. Se as pessoas deixarem de existir amanhã e nunca mais mandarmos para o ar uma molécula de carbono, aquilo que pusemos em movimento terá ainda de se extinguir.

Isso não acontecerá rapidamente, pelos nossos padrões, apesar de os nossos padrões estarem a mudar porque nós, Homo sapíens, não nos preocupámos em esperar que a fossilização entrasse no tempo geológico. Ao tornarmo-nos numa verdadeira força da natureza, já o fizemos. Entre os artefactos de fabrico humano que durarão mais tempo depois de desaparecermos está a nossa atmosfera refeita. Assim, Tyler Volk não vê nada de extraordinário em ser um arquitecto que ensina Física Atmosférica e Química Marítima na Faculdade de Biologia da Universidade de Nova Iorque. Acha que tem de recorrer a todas estas disciplinas para descrever como é que os seres humanos transformaram a atmosfera, a biosfera e o subsolo em algo que, até agora, só os vulcões e as placas continentais que colidem entre si tinham conseguido.

Volk é um homem magro com cabelo negro ondeado, e olhos que se transformam em meias-luas quando reflecte. Inclinando-se para trás na sua cadeira, estuda um cartaz que quase ocupa todo o placard do seu escritório. Retrata os oceanos e a atmosfera como um só fluido, com camadas de densidade cada vez maiores. Até há cerca de duzentos anos, o dióxido de carbono da parte gasosa superior dissolvia-se na parte líquida de baixo a um ritmo constante, que mantinha o mundo em equilíbrio. Hoje, com os níveis atmosféricos de CO2 altíssimos, os oceanos precisam de se reajustar. Mas, por serem tão grandes, diz ele, isso leva tempo.

Digamos que deixa de haver quem queime combustíveis. A princípio, a superfície do oceano absorverá rapidamente o CO2. À medida que se satura, o processo abranda. Perde algum CO2 para organismos fotossintetizantes. Lentamente, à medida que os oceanos se misturam, ele afunda-se, e a água mais antiga, não saturada, vem das profundezas para o substituir». In Alan Weisman, O Mundo Sem Nós, Estrela Polar, Oficina do Livro, 2007, 2008, ISBN 978-972-892-977-0.

 Cortesia de EstrelaPolar/OficinadoLivro/JDACT

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A Aldeia das Almas Desaparecidas. Richard Zimler. «Penso muitas vezes que ela nunca se sentia confortável na companhia de outros adultos, e que nós, as crianças do mundo, éramos o seu refúgio»

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A Floresta do Avesso. A magia segreda-me ao ouvido

«Quando tinha três dias de idade, a magia veio ter comigo na ponta dos pés, tomou-me nas suas mãos grandes e calosas e murmurou-me ao ouvido orações orvalhadas com odor a coentros. Eram sussurros em castelhano na sua maioria, mas condimentados com frases de som gutural numa língua que, quando tinha cinco anos, me foi revelada como sendo a falada por Jesus e os seus apóstolos.

Quando fecho os olhos, agora, vinte e um anos mais tarde, a intimidade daquelas palavras provoca-me arrepios. E apercebo-me de que uma parte de mim continua a ouvir as vozes quentes e amortecidas da minha infância, mesmo quando só há silêncio à minha volta.

A feiticeira que me pegava com as suas grandes mãos parecia-me um ser poderoso e gigantesco. Mas na realidade era uma curandeira de cinquenta e um anos, de vulto frágil e ossudo, muito coxa e com espessas cicatrizes roxas nos pés, tão horríveis de se ver que me faziam chorar quando olhava para elas. Com doze anos, eu já era mais alto do que ela.

A avó Flor.

Tínhamos acabado de regressar do meu baptismo na igreja da aldeia, e ela pôs-se a mascar folhas de coentros, num esforço para manter a compostura. Ao longo de toda a cerimónia permanecera de pé junto à porta da entrada, passando os dedos pela gola de pele do casaco de inverno, desejando não sentir o coração tão apertado pelo medo.

Penso muitas vezes que ela nunca se sentia confortável na companhia de outros adultos, e que nós, as crianças do mundo, éramos o seu refúgio.

Adonai era um nome dado a Deus no Antigo Testamento e uma das poucas palavras que a minha avó sabia na língua da Bíblia. Nas orações que me segredou ao ouvido naquele dia, arrastou lentamente as suas três sílabas. Para manter aquela figura doce e fugidia do Senhor na minha boca por mais uns momentos, dizia-me, sempre que voltava a contar-me aquela história.

Depois de a avó Flor ter invocado Adonai para abençoar a cerimónia que estava prestes a iniciar, encostou os lábios à minha barriga e soprou ruidosamente, para me fazer rir; a seguir, baixou-se e depositou-me no nosso velho tapete de pele de ovelha, e a luz alaranjada da lareira envolveu-me no seu calor reconfortante». In Richard Zimler, A Aldeia das Almas Desaparecidas, A Floresta do Avesso, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-580-6.

 Cortesia PortoEditora/JDACT

JDACT, Richard Zimler, Literatura, Cultura, Século XVII,