domingo, 27 de janeiro de 2013

Grandes Reportagens de Outros Tempos. Amador Patrício. «Quando Gonçalo Mendes Vasconcelos me contou este último passo da tragédia, com a voz entrecortada de soluços, não pode prosseguir. Fecho esta carta cismando em como o desejo de reinar é coisa que não receia de cometer obras contra razão e direito...»


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(Continuação)

Drama de Sangue em Coimbra
Coimbra … de 137…
«Mas também é certo que quem seu cão quer matar, raiva lhe põe nome; e assim é que o Infante João determinou em sua vontade cedo privá-la da vida. Partiu o infante João, firme neste propósito, e dirigiu-se a Alcanhões, onde foi magnificamente recebido pelo conde de Barcelos e outros fidalgos. Jantou com a formosa D. Isabel, filha do conde Álvaro Pres Castro, depois do que houve dança, vinho e frutas. O conde João Afonso ofereceu ao Infante uma cota mui vistosa, um bulhão bem guarnecido e uma faca muito formosa que lhe tinham trazido de Inglaterra. À tarde seguiram para o Paço, acompanhados de donas, donzelas, cavaleiros e escudeiros; houve larga conversa íntima com o Infante João, o quel foi depois dormir à poisada do conde, para na manhã seguinte continuar a viagem.
Dirigiu-se a Tomar, onde o Mestre, filho de D. Maria, o convidou a jantar; porém, o Infante não aceitou o convite. Se Lopo Dias já suspeitava das intenções do padrasto, ainda mais receoso ficou depois de tão insólita recusa e despachou a toda a pressa recado para sua mãe a fim de que se acautelasse. Isto foi-me confirmado aqui pelas damas de sua companhia dela, que também me disseram que, já antes, D. Maria recebera avisos de gente da casa de El-Rei a preveni-la da desgraça que a esperava. A pobre senhora, todavia, redarguia sempre, com grande nobreza, que todas as coisas eram em poder de Deus e que aquilo que a Ele aprouvesse, isso seria. E confiada se deixava ficar, sem modificar em coisa alguma o seu viver.
Entretanto o Infante ia galopando a caminho de Coimbra, acompanhado de Diogo Afonso, Garcia Afonso do Sobrado e outros fidalgos de sua casa. Pernoitou no Espinhal, passou em Foz de Arouce, e, de Almalaguez, desceu aos olivais à beira do Mondego. Junto à ponte convocou a sua gente e disse-lhe pouco mais ou menos isto:
  •  - Consta-se que D. Maria, irmã da rainha, anda a tornar público que é minha mulher, do que tem escrituras e fidalgos por testemunhas. Disto lhe cumpria guardar segredo, por sua honra e minha. E por isso vou onde ela está, para lhe falar e praticar o que cumpre a minha honra e estado.
Todos responderam que estavam prontos a acompanhá-lo, e então recomeçaram a marcha a caminho de Coimbra. Passaram a grande ponte, ganharam a Couraça e chegaram a Sub-Ripas, quando começava a romper a manhã. Por má sorte, uma lavadeira destrancou as portas por onde logo entraram os cavaleiros, de tropel. Subiram a uma sala onde algumas mulheres dormiam. Preguntou o Infante se não havia outra entrada para se chegar aos aposentos de D. Maria; como lhe respondessem que não e as portas estivessem mui bem trancadas, ordenou que as arrombassem. Cada um fez o que mais pode, de modo que, dentro em pouco, as portas estavam quebradas.
Acordou subitamente D. Maria e, ao ver a sua câmara assim invadida por aquela gente, alçou-se do leito tão espantada e temerosa que mal se podia ter de pé. Não teve tempo para pôr sobre si vestido ou manto, nem quem lho desse, porque as damas que a acompanhavam não se podiam mover de terror. Cobriu-se então com uma colcha branca e encostou-se à parede, como quem procura defesa. Ao ver, porém, entrar o Infante, recobrou ânimo e disse:
  •  -Senhor, que vinda é esta tão desacostumada?
Lançou-lhe o Infante João em rosto o seu procedimento de ter divulgado o casamento secreto que os unia, de modo que dele chegou conhecimento ao rei, à rainha e a toda a Corte, o que seria motivo de o mandarem matar ou prender para sempre. E acrescentou que, se era sua mulher, merecia a morte, porque o atraiçoava, dormindo com outro homem. Pretendeu D. Maria justificar-se, rogou ao Infante' que a ouvisse; mas ele retorquiu-lhe apenas:
  •  - Não vim eu aqui para estar convosco em palavras! - E arrancou-lhe a colcha, de modo que todos os presentes desviaram a vista e não puderam ter-se que não chorassem pela sorte que ali mesmo a esperava.
Então o Infante agarrou-a e, brandindo o punhal que o conde de Barcelos lhe dera, cravou-lho entre o ombro e os peitos, cerca do coração. Ela só pode dizer: - Mãe de Deus!, socorrei-me e havei mercê desta minha alma. Deu-lhe novamente o Infante com o bulhão no ventre; ela invocou Jesus, filho da Virgem!, botou uma golfada de sangue, e caiu sem vida.
Quando Gonçalo Mendes Vasconcelos me contou este último passo da tragédia, com a voz entrecortada de soluços, não pode prosseguir. As donas que o ouviam, e que confirmavam o que ele ia narrando, romperam em saudoso pranto, que era de cortar o coração. Para dar por terminada a minha missão, faltava-me apenas preguntar que rumo levara depois o Infante. - Saltou logo para o seu cavalo e partiu a toda a brida em direcção a S. Paio, onde, segundo me consta, não puderam chegar com ele mais de seis. Depois, junta a companha, encaminhou-se para a Beira, onde anda a montear, à espera de ser perdoado e de que El-Rei seu irmão lhe dê a filha em casamento.
Fecho esta carta cismando em como o desejo de reinar é coisa que não receia de cometer obras contra razão e direito...» In Amador Patrício, Grandes Reportagens de Outros Tempos, ilustração de Martins Barata, prefácio de Caetano Beirão, Empreza Nacional de Publicidade, Minerva, 1938.

continua
Cortesia de Minerva/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2013

Música Clássica. Cuarteto Casals. «… a evolução da linguagem e cada descoberta ganha o seu justo valor. Isto é muito interessante e enriquecedor. Mas, com o tempo, pode resultar extenuante. Por isso, devem ser construídas a pouco e pouco, alternando-as com obras de outros autores»

cortesia de fcg


Cortesia de FCG/JDACT

Portugal e a China. Uma Ponte com 500 anos. Testemunhos de uma convivência. Instituto Camões. «Ao encetar relações comerciais com a China, os portugueses estavam a imiscuir-se definitivamente, e nos primeiros tempos em monopólio, como ocidentais, na rede de comércio regional que ligava há séculos a Insulíndia ao Sul da China»

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Portugal encontra a China
«Logo nos portos do Norte de Samatra, Sumatra, actual Indonésia, que foram escalados antes da chegada a Malaca, os portugueses terão contactado com os chineses, pelo menos, terão recebido porcelanas chinesas de presente por parte do sultão de Pedir. Por essa altura, a cidade de Malaca, na península malaia, era um centro económico transbordante de riqueza do Sueste Asiático, onde mercadorias raras e valiosas se cruzavam numa azáfama febril. Tinha tratados de suserania com a China, provavelmente reafirmados quando Zhang He e as suas expedições tinham passado por 1á.
À sua chegada a Malaca, a l de Julho de 1509, Sequeira encontrou dois ou três juncos chineses no porto. Contactou directamente os mercadores, comeu a bordo de um deles. Terá sido, de facto, o primeiro encontro luso-chinês de que há registo. Numa anónima Crónica do Descobrimento e Primeiras Conquistas dos Portugueses na Índia, manuscrito da segunda metade do século XVI existente no Museu Britânico, descreve-se o episódio, com realce para os rituais de saudação. O língua (tradutor) que acompanhava os portugueses não os entendeu, pelo que foi chamado um mouro de Malaca que sabia língua dos chins. Tanto que veio, falaram em muitas coisas, perguntando-se uns aos outros pelas coisas de seus reis e de seus reinos.
Depois, a descrição prossegue com o quadro físico destes chineses, provavelmente provenientes de comunidades ultramarinas estabelecidas em toda aquela zona ou oriundas de zonas costeiras da China do Sul:
  • São homens alvos e bem-dispostos, não têm barba, salvo no bebedouro, os olhos pequenos e os lagrimais afastados dos narizes, cabelos compridos, quase pretos e ralos [...].
Compreende-se a dificuldade de entendimento entre portugueses e chineses, neste primeiro encontro, fruto de um diálogo indirecto, feito através de um língua local, que por sua vez transmitia o que ouvia, ora aos chineses, ora ao língua que Diogo Lopes Sequeira tinha trazido consigo, e este aos portugueses. Daí que se possa perceber que o relato refira: Dizem que são cristãos. Os reinos europeus, cercados no mundo conhecido de então por um muro islâmico, ansiavam por comprovar lendas que falavam de reinos cristãos para lá desse muro, como o do Preste João. Os desejos moldavam-se à realidade. Estes chineses não eram muçulmanos, logo, eram cristãos...
Uma coisa terá aproximado, desde logo as duas partes: os portugueses tinham contactado até aí, no seu caminho para Oriente, com populações cheias de tabus religiosos do ponto de vista da alimentação. Ali, os chins mostravam-se abertos, comem toda a vianda, bebem vinho. Além disso, o cronista acha importante referir que estes mercadores, nas suas viagens, trazem consigo mulheres. Diogo Lopes Sequeira regressou a Portugal em 1510.
Certamente munido das informações sobre a força militar em presença fornecidas por Sequeira, Afonso de Albuquerque conquista Malaca no ano seguinte. Um novo e amistoso encontro com mercadores chineses e os seus juncos ocorre ao largo da cidade, com os comerciantes a ajudarem ao transporte de tropas lusas. João de Barros, nas Décadas da Ásia, diz que Afonso de Albuquerque enviou mensageiros seus à China, mas não há outras fontes que confirmem esta primeira tentativa de relações diplomáticas com o Império do Meio.


Ao certo, em 1513, o capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque, envia um oficial da coroa, Jorge Álvares, com o objectivo claro de, pela primeira vez, navegar até à China. Com um carregamento de pimenta de Samatra a bordo, chega a Tamão, hoje cientificamente identificada com Lantão uma das ilhas do delta do rio da Pérola, Zhujiang, ao largo de Hong Kong. Cartas de mercadores italianos aludem a este primeiro contacto comercial luso-chinês conhecido, referindo que os portugueses não foram autorizados a desembarcar; pois dizem que é contra os seus costumes deixar os estrangeiros entrar nas suas residências. Mesmo assim, o negócio fez-se e Álvares e companheiros venderam a mercadoria por bom preço, e dizem que é tão lucrativo levar especiarias para a China como levá-las para Portugal; pois é um país frio e fazem muito uso delas.
Ao encetar relações comerciais com a China, os portugueses estavam a imiscuir-se definitivamente, e nos primeiros tempos em monopólio, como ocidentais, na rede de comércio regional que ligava há séculos a Insulíndia ao Sul da China. No regresso, Pires levava produtos chineses para vender em Malaca, e não em Lisboa». In Portugal encontra a China, Testemunhos de uma convivência, Portugal e a China, Uma Ponte com 500 anos, Instituto Camões, Fundação Oriente, 2004.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

A Sátira na Literatura Medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a “mesura” e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar?»

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«Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como ‘eu vi quitar alguen’. Em qualquer hipótese, temos, neste serventês, a apologia de dignidade humana. Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora:

Ca vej’agora o que nunca vi
e ouço cousas que nunca oí.

Que nele haja ou não objectividade externa, isso parece-nos secundário. É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer, pois em nada acho gosto nen sei amigo de que diga ben. E no fim de cada estrofe, ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida, na velhice: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí.
É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. Esta sátira aos tempos novos, repetem-na, em prosa, os velhos de todas as gerações, mesmo simples camponeses. Os amigos morreram e os costumes são outros.
Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser contado entre os trovadores alfonsinos da corte castelhana. Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero de Ambroa e a famigerada Balteira. Pero Mafaldo, ironicamente, declara que irá mudando e mentindo. Toda a gente faz o mesmo. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso. Juro, pois, e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. Hei-de prosperar assim, como cavaleiro que sou. Que hei-de eu fazer, se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho, por caridade. Assim vai a minha vida:
  • Se minto ao meu amigo e ao meu senhor, medra o meu proveito e cresço em importância. Sempre a eterna ironia; só medram os malandros e os hipócritas.
Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora, que há-de querer, senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade?
Quem é leal ao seu amigo?
Que se fez do amor e do trovar?
Porque anda a gente triste e sem cantar?
Ainda assim, vivo por amor duma senhora a quem muito quero, dos tempos em que amor havia. Fiquem, pois, a saber porque não me vou algur esterrar, se poderia melhor mund’achar. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe, como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos. Até aqui, temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. Contudo, esse cortejo não pára na Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred Musset condenava a geração nova por ser inculta, sans gaitê et sans amour. Chateaubriand escrevia, em 1831:
  • Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore. Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria.
Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do frisson nouveau que depois faria estremecer Victor Hugo.

Afonso X e os Soldados
Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio. Ainda infante, Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo Rodrigo e dos peões todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões. Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

Macau Histórico. Edição de 1926. Carlos Montalto de Jesus. «Em Malaca, o governador, Álvaro da Gama, que segundo se dizia, invejava Diogo Pereira, deteve-o sob o pretexto de que, como filho de Vasco da Gama, era ele próprio a personalidade competente para o importante cargo de enviado à China…»

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«Segundo o relato de Mendes Pinto, em cinco horas, uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações reduziu Liampó a um monte de ruínas, uma catástrofe que custou as vidas de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses, que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarenta e dois juncos, perda que foi avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro. Vestígios da colónia foram descobertos em Ningpo, no século passado, as ruínas de um forte em Chin-hae de construção nitidamente europeia, com as armas nacionais de Portugal gravadas num portão, e o próprio templo, perto do Portão da Ponte que foi atribuído aos portugueses de 1528 como a Associação de Recepção de Estrangeiros. Nos Anais de Ningpo está registado que no vigésimo sexto ano de Kia Tsing (1548) os japoneses atacaram Ningpo e que no ano anterior tinham sido proibidas as relações com o estrangeiro, sob pena de decapitação, pelo governador provincial Chu Huan, que, por isso, se tornou tão impopular e sujeito a tantos ataques que foi destituído de todos os cargos. Por estranho que seja, nos Anais não há qualquer menção à catástrofe de Liampó, como foi narrada por Mendes Pinto.
Não obstante, à falta de uma versão autêntica no que se refere à história colonial portuguesa, o relato de Mendes Pinto sobre a catástrofe, estereótipo de quase todas as obras históricas sobre as relações da China com estrangeiros, fica como a versão não-desmentida da sorte misteriosa que teve a primeira colónia europeia na China, sem ter em conta o facto de, em 1543, uma frota pirata de trezentas embarcações ter, também, deixado Xangai em ruínas. Mendes Pinto, contudo, nada diz sobre os ataques japoneses daquela época, ataques cujas narrativas teriam tido menor impacte na China não fosse ter sido ele e os seus amigos quem, em Tanegashima, iniciou os japoneses no uso de armas de fogo, ao que se seguiu a sua manufactura, com febril actividade e maravilhosa arte. Não admira que, em Xangai, um cronista nativo atribua o sucesso japonês aos seus auxiliares estrangeiros, escravos negros e diabos brancos ao seu serviço, muito destros no uso de armas de fogo, espadas e lanças; nem que outro cronista atribua a derrota chinesa ao descontentamento provocado pela incapacidade do magistrado da cidade de fornecer, aos bravos de Kiangsi, cobras e cães para a sua ração habitual. Donde se infere que o pensamento ia primeiro para a comida e só depois, então, para as aflições da China.
Depois da destruição de Liampó os portugueses asseguraram uma base em Chicheu, perto de Amoy, por meio de pesados subornos. Também aí a mesma horrível sorte os alcançou, dois anos mais tarde segundo Mendes Pinto, em consequência de uma disputa pelos bens de um arménio morto. Um administrador oficial, Aires Botelho Sousa, com fama de homem sem princípios e ganancioso, tomou como fazenda parte dos bens e algumas mercadorias que dois comerciantes chineses diziam suas e que, como não lhes fossem restituídas, se queixaram aos mandarins, que imediatamente proibiram as relações dos nativos com os portugueses, racionando o fornecimento de provisões. Levados pela fome, passaram a região a pente fino.
Isto terminou em escaramuças que levantaram o distrito inteiro contra eles. Enquanto um exército acabava rapidamente com os portugueses uma frota deitou fogo aos seus barcos; e de quinhentos portugueses apenas cerca de trinta escaparam a uma morte atroz. Esta foi a horrível sorte das primeiras colonizações europeias na China, varridas da face da Terra pelas acções ilegítimas de alguns, como narrou Mendes Pinto e envolvendo a terrível expiação centenas de homens honestos e suas famílias. Com estas horríveis hecatombes a China queria evidentemente impedir os portugueses de frequentarem as suas costas inóspitas. No entanto nada intimidou estes esforçados navegadores.


Os proscritos dirigiam-se agora para Sanchuan. Mas, conscientes de uma instabilidade que era real, contentavam-se com visitas relâmpago. Alguns faziam tendas com as velas e os remos, outros levantavam barracas de esteiras que eram desmanchadas quando, realizado o comércio proibido, deixavam a ilha: eis quanto a comprada tolerância dos mandarins permitia. Aventurar-se até Cantão representava prisão perpétua, torturas e morte. Por precária e desencorajante que fosse a situação o intrépido missionário S. Francisco tão merecidamente chamado o Apóstolo do Oriente convenceu Afonso de Noronha, vice-rei de Goa, e enviar uma embaixada à China com o propósito de engrandecer a causa da cristandade e obter a libertação dos muitos portugueses aí prisioneiros. Foi escolhido como enviado um grande admirador e amigo do zeloso missionário Diogo Pereira, um mercador rico a expensas de quem eram os presentes levados para a corte de Pequim. Mas a caminho da China, em 1552, a missão teve um desaire:
  • Em Malaca, o governador, Álvaro da Gama, que segundo se dizia, invejava Diogo Pereira, deteve-o sob o pretexto de que, como filho de Vasco da Gama, era ele próprio a personalidade competente para o importante cargo de enviado à China e não quem tinha sido um simples servo de um nobre até há pouco. Para reforçar o impedimento, e com a justificação de que o navio era necessário à defesa do local, tiraram o leme ao barco de Diogo Pereira. S. Francisco excomungou Álvaro e sacudiu mesmo dos seus sapatos o pó de Malaca quando sem o enviado e os seus presentes, embarcou.
Doente angustiado, o destemido e abnegado aristocrata espanhol chegou a Sanchuan apenas para terminar a sua extraordinária carreira naquela solidão, enquanto esperava reunir-se com uma embaixada tributária do Sião». In Carlos Montalto de Jesus, Historic Macao, 1926, Macau Histórico, 1ª edição em Português, 1990, Livros do Oriente, Fundação Oriente, ISBN 972-9418-01-2.

Cortesia da F. Oriente/JDACT

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’. «Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas»


jdact e ilustração de joseruy

Problema que ultrapassa, de longe, a questão comum da identidade de autor, para levantar o problema mais vasto de a considerar como expressão literária de um ou de outro povo. Isto para não falarmos de um outro problema, deste dependente e igualmente apaixonante, que será o de saber se as célebres Cartas são o produto duma rebuscada elaboração artística ou o resultado de um golpe de génio, o que automaticamente se traduz na questão mais geral da superioridade da arte ou da superioridade do génio espontâneo. São, como se vê, outros tantos problemas que fazem do caso presente um tema apaixonante de controvérsia e de investigação. Sem outra pretensão que não seja a de ajudar o leitor, em apontamento sucinto, os dados do problema e os argumentos que militam a favor de cada uma das hipóteses de solução.
Embora não se saiba ainda hoje, se as Cartas foram escritas em português ou em francês, foi em francês que elas chegaram até nós numa edição datada de 1669, em que eram apresentadas pelo editor ao leitor nestes termos:
  • Consegui, à custa de muitos trabalhos e dificuldades, recuperar uma cópia correcta da tradução de cinco cartas portuguesas que foram escritas a um nobre gentil-homem que servia em Portugal. Todos os que conhecem os sentimentos do coração humano são unânimes ou em louvá-las, ou em procurá-las com tanto empenho que julguei prestar-lhes um bom serviço imprimindo-as. Desconheço em absoluto o nome daquele a quem foram escritas, bem como daquele que as traduziu; mas pareceu-me que não cairia no seu desagrado publicando-as. É difícil que não acabassem por aparecer com erros de impressão que as teriam desfigurado.
Como se vê, de acordo com esta nota, as Cartas teriam tido origem em Portugal, e em português teriam sido escritas por uma mulher apaixonada a um fidalgo francês daqueles que por estes reinos peregrinaram aquando das lutas pela consolidação da recém-restaurada independência de Portugal. Pudicamente se esconde o nome do destinatário, bem como o do tradutor. Não se esconde, porém, o nome de quem as escreveu: embora não mencionado como autor, o nome de Mariana figura no texto escrito na primeira pessoa e do texto resulta também tratar-se de uma freira residente num convento de Beja.
É claro, e alguns críticos franceses não deixam de insistir neste aspecto, que pode tratar-se apenas de artifício literário. Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou, de qualquer modo, por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas. Sem afastar a priori essa hipótese, verificamos, no entanto, que pouco a pouco, as coisas se foram esclarecendo e a situação de anonimato do destinatário e do tradutor foi destruída noutras edições: logo a edição alemã, aparecida em Colónia no mesmo ano, e, depois, a edição de F. Roger, aparecida em Amesterdão trinta anos mais tarde, davam indicações mais precisas. O título deixou de ser Cartas Portugaesas Traduzidas em Francês para passar a Cartas de Amor de Uma Religiosa Portuguesa Escritas ao Cavaleiro de C… E identificam: O nome daquele a quem estas Cartas foram escritas é o Cavaleiro de Chamilly; e o nome daquele que as traduziu é Cuilleraque». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. E-A/José Ruy/ JDACT

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Porque os contos de fadas, citando Italo Calvino, não só são verdadeiros, não constituem apenas uma explicação geral de vida, oriunda de tempos remotos: exprimem sobretudo a substância unitária de tudo…»

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Canção da Partida
[…]
quem vai embarcar, que vai degredado,
as penas do amor não queria levar…
Marujos, erguei o cofre pesado,
lançai-o ao mar

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta…
- A última, de antes do teu noivado.
[…]
Camilo Pessanha

Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«Em suma, obra notável, pela amplitude da recolha e beleza do estilo, claro, imaginoso, cingido à inventiva e ao falar do nosso povo, que reaparece numa cadeia milenar de gerações, não perde no confronto com as Fiabe Italiane (1956) de Italo Calvino, há pouco traduzidas entre nós. Pena é que as nossas fiabe não se encontrem também disponíveis numa edição correspondente à sua importância de clássico da literatura portuguesa para as crianças e os jovens. Porque os contos de fadas, citando Italo Calvino, não só são verdadeiros, não constituem apenas uma explicação geral de vida, oriunda de tempos remotos: exprimem sobretudo a substância unitária de tudo, homens, animais, plantas e coisas, a infinita possibilidade de metamorfose do que existe. E eis o que faz deles mágicos, fascinantes e ainda, por essa via, proveitosas obras de arte, que encantam e ao mesmo tempo educam.

Depois de muitos anos de investigação, Fátima Ribeiro Medeiros, mestre em Literatura Comparada pela Universidade Nova de Lisboa, acaba de publicar Do Fruto à Raiz - Uma Introdução às Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa Recolhidas e Recontadas por Ana de Casto Osório, que constitui o melhor estudo sobre a sua obra para a infância. Embora antes dela outros autores tenham já tentado aproximar a criança do conto tradicional, esse foi o grande trabalho literário da sua vida; e fá-lo numa linguagem muito cuidada mas simples, com algumas expressões que continuam na boca do povo, e um saber que se vai transmitindo de geração em geração. As suas histórias tinham como objectivo, continua Fátima Ribeiro de Medeiros, educar e alegrar as crianças.
Sobre as rescritas literárias de Ana de Castro Osório, a investigadora usa a feliz metáfora da viagem:
  • Viajar... um sonho de todos. A criança sonha com a viagem, viaja sonhando... Os contos infantis transportam-na para paragens e épocas longínquas, são pontos de passagem de um itinerário que só vai terminar quando estiver concluído, isto é, quando o leitor perceber que já é adulto. A leitura é ela própria uma viagem. Viajando de página em página, o leitor vai descobrindo o prazer do texto. Terminado o livro, terminou a viagem.
Ouçamos a própria Ana de Castro Osório sobre a sua arte de contar para as crianças:
  • A criança não gosta que a não tomem a sério e se lhe contem histórias com o ar de quem diz uma coisa sem importância, e tudo vem a seu tempo. Como detesta a imposição duma noção pedantesca da moral, que para o ser tem de ressaltar dos próprios elementos da vida e seu corolário por ela própria tirado dos factos expostos.
No entanto, há outro aspecto praticamente desconhecido da actividade da escritora. Dedicou-se durante anos à recolha de rimas da primeira infância por ela coleccionadas e comentadas, no Diário de Coimbra, onde colaborava na coluna O Lugar das Mães. Essas rimas da primeira infância, por exemplo, Lagarto pintado / quem te pintou? - Foi uma velha/ que por aqui passou; Era uma vez / um gato maltez, tocava piano, falava fancês, educam o miúdo, comenta a pedagoga, disciplinam a memória e animam a criança num jogo alegre em que toma parte directa. A missão das educadoras da primeira infância, que em toda a parte onde a pedagogia é um estudo sério são apreciadas e pagas pelo justo valor, porque é quase um dom de Deus....
Entre estas criações orais, destaca as rimas para decorar e parlendas, para os meninos cantarem Papagaio loiro / do bico doirado /, leva-me esta carta / ao meu namorado /, Ele não é frade, nem homem casado/, é rapaz solteiro, lindo como um cravo. E também para fazer rir a criança, que necessita de sentir muita alegria e boa disposição em todos que a rodeiam; e não menos importantes, as rimas de jogos e danças, porquanto na sua necessidade de movimento, de alegria e de ritmo, que a criança reclama, têm papel muito importante os jogos, tanto os de movimento como os de palavras e danças de roda, que tanto as animam colectivamente...» In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.


Cortesia da F. Oriente/Linha de Água/JDACT

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sonetos. Camões. Ciclo Idílico. 1540-1547. «Quando se vir com a água o fogo arder e misturar co dia a noite escura, e a Terra se vir naquela altura em que se vêm os Céus prevalecer»


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 Onde mereci eu tal pensamento
Onde mereci eu tal pensamento,
nunca de ser humano merecido?
Onde mereci eu ficar vencido
de quem tanto me honrou co' o vencimento?

Em glória se converte o meu tormento,
quando vendo-me estou tão bem perdido;
pois não foi tanto mal ser atrevido,
como foi glória o mesmo atrevimento.

Vivo, Senhora, só de contemplar-vos;
e, pois esta alma tenho tão rendida,
em lágrimas desfeito acabarei.

Porque não me farão deixar da amar-vos
receios de perder por vós a vida,
que por vós vezes mil a perderei.

Quando se vir com a água o fogo arder
Quando se vir com a água o fogo arder
e misturar co dia a noite escura,
e a Terra se vir naquela altura
em que se vêm os Céus prevalecer;

o Amor por Razão mandado ser,
e a todos ser igual nossa ventura,
com tal mudança, vossa formosura
então a poderei deixar de ver.

Porém, não sendo vista esta mudança
no mundo (como claro está não ver-se),
não se espere de mim deixar de ver-vos.

Que basta estar em vós minha esperança,
o ganho de minh’alma e o perder-se,
para não deixar nunca de querer-vos.

Luís Vaz de Camões, in 'Sonetos' 

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Tópicos para uma Abordagem Renovada de Os Lusíadas, na aula. Lino Moreira Silva. «E assim é, igualmente, pelos muitos factores, de forte densidade ideológico-cultural, presentes em Os Lusíadas, tais como, a pluralidade das fontes literárias e culturais, a religião, a mitologia, a ciência, a política, o conteúdo histórico-geográfico da antiguidade e da modernidade, com debate de opiniões…»

jdact e cortesia da udominho

«Poema épico escrito por Camões com o labor análogo ao das abelhas, e ligado à nacionalidade de um povo, o povo português, como nenhum outro, Os Lusíadas são uma obra cujo estudo merece uma atenção especial. Nunca será de mais salientar que se trata de uma obra de grande complexidade e de dimensão cultural muito abrangente e profunda, que reflecte um entrecruzar de vários mundos, que é preciso compreender e decifrar. Assim é, desde logo, por Os Lusíadas serem uma obra do Renascimento, uma obra global, pelo grande empenhamento que neles depôs o seu autor, e pela valia estético-literária que possuem, mas ainda pelo assunto que desenvolvem, pelas realidades que focalizam, pelos valores políticos e morais que apresentam, pelos conteúdos epocais e intemporais que veiculam, pela condição, que é a sua, de obra prima da literatura mundial.
E assim é, igualmente, pelos muitos factores, de forte densidade ideológico-cultural, presentes em Os Lusíadas, tais como:
  • a pluralidade das fontes literárias e culturais;
  • a religião, a mitologia, a ciência, a política, o conteúdo histórico-geográfico da antiguidade e da modernidade, com debate de opiniões sobre múltiplos assuntos;
  • as noções cosmográficas, etnográficas, de fauna e flora;
  • os códigos epocais, literários e culturais;
  • as particularidades de linguagem, vocabulário, organização do discurso…
Tudo isto tem a ver com o facto de Os Lusíadas seguirem a tradição da epopeia clássica, que sempre foi aproveitada, pela escola, com finalidades pedagógicas e educativas, versando e estudando, variadas áreas do saber, leitura, gramática, retórica, história, filosofia, geografia…, focalizando, nomeadamente, personagens, acção, mitologia, cultura, ideias, valores…
Assim aconteceu entre os gregos. Homero foi denominado educador da Grécia. Os seus poemas, sobretudo a Ilíada e a Odisseia, eram ditos em ocasiões festivas, por aedos e rapsodos, os poetas que declamavam poemas ao som da cítara, nas festas, celebrando os feitos dos heróis ou acontecimentos importantes, e aproveitados na escola, em lugar central, exercendo grande influência no modelo de educação.
Da cultura grega, a influência de Homero passou à cultura romana, tocando, primeiro, a elite aristocrática, dela transitando para o domínio popular.
Depois, a Eneida, epopeia do povo romano, foi igualmente aproveitada para fins pedagógicos e educativos. Através das epopeias, Grécia e Roma exerceram uma posição revolucionadora e solidária na história da educação humana, tornando-se, por essa via, a antiguidade clássica tesouro inesgotável de saber e de cultura. Pela divulgação que delas foi feita pelos romanos, as epopeias clássicas chegaram às culturas ocidentais, e assim se prolongaram, com influências nos domínios da língua, dos discursos, da religião, dos usos e costumes…, para as epopeias posteriores, que as tomaram como referência.
Assim acontece com Os Lusíadas, precisando, por isso, de ser considerados com atenção especial. Ensinar Os Lusíadas não é tarefa fácil. Os Lusíadas são, sobretudo, uma obra de que se aprende a gostar e que se aprende a ler. E estes dois aspectos aparecem interligados. Gosta-se porque se compreende, e compreende-se porque se aprendeu a ler. Nesta aprendizagem, integra-se, naturalmente, o desenvolvimento do espírito crítico do leitor. E quanto a isto, é preciso chamar a atenção para o facto de Os Lusíadas, como obra clássica que são, poderem pressionar os leitores, sobretudo os mais jovens, interferindo com a liberdade de construírem a sua leitura. Por esse facto, mesmo insistindo-se, junto dos alunos, sobre que, apesar da sua condição, Os Lusíadas são uma obra que, não só admite, mas também suscita leituras, reflexões, tomadas de posição, concordâncias e discordâncias… como qualquer outra, será de compreender, e até de esperar, por parte deles, alguma retracção.
Depois, há dificuldade em seleccionar bibliografia para o seu estudo, pela multiplicidade de autores que se aplicaram sobre ela. Mesmo assim, muitas vezes a escola acaba por aceder àquilo que tem mais disponível, por exemplo: resumos, colectâneas de colagens com referências duvidosas e em enésima mão, manuais de ensino apressadamente elaborados, e até com erros…, seguindo o caminho mais fácil, muitas vezes longe de ser o melhor.
As bibliotecas escolares, apesar do grande avanço operado nos últimos anos, continuam a não estar capazmente apetrechadas, e não existem hábitos de se protagonizarem nem promoverem, através da biblioteca, nas suas dimensões essenciais, biblioteconómica e educativa, projectos de dinamização envolvendo obras literárias. Além disso, dadas a multiplicidade e a complexidade da obra, é preciso fazer opções. Por mais que se reconheça que a abordagem de Os Lusíadas, deve ser diversificada e completa, não há tempo nem meios para que o seu estudo seja realizado numa dimensão integral. Importa, por isso, seleccionar o mais importante, desenvolvendo competências e inculcando saberes que possibilitem outras, novas e mais amplas, leituras, no futuro. Importaria que Os Lusíadas fossem uma das obras de leitura recorrente, para os portugueses. Mas isso só se conseguirá quando as gerações mais jovens tiverem acesso a uma boa preparação escolar de base, neste domínio». In Lino Moreira da Silva, Tópicos para uma Abordagem Renovada de Os Lusíadas, na aula, I Encontro Leituras em Português, Universidade do Minho, IEP, 2005.

Cortesia da Universidade do Minho/JDACT

A Morte de Camões. Quadro do pintor Domingos António Sequeira. Luiz Xavier da Costa. «Papel e desenho na sua maneira são perfeitamente análogos aos de outros desenhos e estudos de “Sequeira”, da mesma época, existentes em várias colecções, no Museu Nacional de Arte Antiga»


jdact e cortesia da aclisboa

O Quadro de Sequeira
«Entre alguns desenhos originais de Domingos António Sequeira que possuo, um se torna mais notável e estimado por que tem a lápis a seguinte indicação:


Foi-me oferecido em Viana do Castelo, há mais de catorze anos, pelo meu querido amigo e venerado colega, ali residente, Luiz Augusto Oliveira, o apaixonado e competente amador de arte, organizador tenaz da maior e mais valiosa série de peças de faiança portuguesa que até hoje se tem reunido no país, autor erudito da Exposição retrospectiva de cerâmica nacional em Vianna do Castelo no anno de 1915 - Breves estados publicada em 1920 e possuidor também de uma rica e numerosa colecção de desenhos originais de artistas nacionais e estrangeiros.
A história de tão importante e avultado conjunto de desenhos, adquirido pelo distinto ceramógrafo no Porto alguns anos atrás, acha-se resumida na seguinte carta que me dirigiu em resposta à minha inquirição a tal respeito:

Vianna, 4-5.º - 914
Meu caro…
… vou dar-te as únicas informações que tenho dos 3 colleccionadores dos desenhos, aguarelas e sanguineas que possuo, em 4.ª mão.
O primeiro foi o sr. António José da Silva, que deve ter começado a colleccionar no começo do século 19. Tenho desenhos delle, bons, datados e assignados, em 1818. Recebeu a herança, ampliando-a o sr. João Baptista Ribeiro, que já colleccionava em 1838, data da acquisição de alguns desenhos do Pillement, por elle adquiridos.
Menciona até o preço da acquisição. Depois passou tudo para o pintor portuense, ou que residia no Porto, que muito ampliou a collecção, sr. S. Romão.
A respeito d’este nada sei, apesar de ser o mais moderno. Todos elles estiveram no estrangeiro, e de lá trouxeram muitas peças assignadas e datadas.
É o que te posso informar em resumo.
…………………………………………………….

Um grande abraço do

Teu m.to am.º…
Luiz A. d' Oliveira

O desenho que possuo e a que me referi, de claro-escuros muito estudados e definidos, vigorosamente sombreados, é feito a carvão e esfumado, com toques de lápis branco, sobre um pedaço rectangular, medindo 0,248 m X 0,538 m, de papel mescla de cor parda, áspero, esteirado (vergé), com consistência de almaço grosso e a marca de água seguinte :


O papel tem uma das bordas menores por aparar, levemente esbarbada, e nele o desenho enche quase por completo uma das faces, não mostrando a outra de reverso qualquer traço ou dizer. Papel e desenho na sua maneira são perfeitamente análogos aos de outros desenhos e estudos de Sequeira, da mesma época, existentes em várias colecções, no Museu Nacional de Arte Antiga e sobretudo na riquíssima colecção Rebello Valente, do Porto, especialmente conhecida do público pelas reproduções de alguns dos seus preciosos exemplares, que em 1906 e 1907 publicou a Ilustração Portugueza do jornal O Seculo.
Durante muito tempo supus que não estava assinado pelo autor. Mas há pouco descobri que, no canto inferior da direita, feita a lápis e um pouco confundida com traços extremos do carvão, se encontra desvanecida e difícil de ver, mas bem definida e característica depois de percebida, uma das rúbricas conhecidas com que Sequeira assinou muitas das suas produções:


A estampa que acompanha este trabalho, reprodução do desenho cuidadosamente feita pela fotogravura, dispensa-me da sua longa descrição, da análise pormenorizada da sua técnica e da exposição minuciosa do estado de acabamento em que se encontra. Sobre um colchão colocado em cima de um catre de tábuas, tudo visto de escorço da direita para a esquerda do modelo e dos pés para a parte da cabeceira, onde o travesseiro se esboça sumariamente na penumbra em traços mais escuros, senta-se um indivíduo com parte do tronco e os membros inferiores cobertos pelas roupas desalinhadas do leito, que descaem lateralmente até ao pavimento. O tronco, nu da cinta para cima e levemente curvado para a frente, é visto a três quartos para a esquerda, com a perna direita um pouco flectida no joelho e quase toda apoiada de lado sobre a cama; a coxa e perna esquerdas, levantadas e dobradas em maior flexão, apoiam-se no pé cuja saliência se adivinha. Os membros superiores, magros e descarnados, levantam os antebraços e juntam as mãos para o alto em um gesto de prece fervorosa; no braço direito acentua-se fortemente a saliência bicipital e mais acima, com erros de execução, a do deltóide no ombro e a do grande dorsal; o antebraço esquerdo parece apoiar se pelo cotovelo na coxa do mesmo lado; e as mãos, apenas esboçadas, assim como as saliências claviculares, as das costelas esternais e as do pescoço, são de um individuo emaciado.

Estudo para o quadro "A morte de Camões"
Desenho de D. A. de Sequeira

Não chegou a ser esboçada a cabeça, nem o poderia ser neste papel por que sairia dos seus limites; mas, pela posição estendida do pescoço e por alguns traços existentes, adivinha-se que deveria estar levantada, com a face procurando o céu. A sombra do corpo, dura e recortada, como se a luz viesse de origem não muito elevada, da direita para a esquerda e detrás para diante, projecta-se na parede que fica do lado esquerdo, junta e ao correr do leito. Na penumbra que banha a parte inferior está indicada por dois largos traços escuros uma das cruzetas laterais que sustentam o catre e perspectiva-se a união com o solo das paredes do aposento e respectivo canto.
É primoroso o desenho e o acabamento das roupagens e dos efeitos de luz sobre elas, seu pregueamento e relevo dos membros inferiores do personagem, por elas recobertos, em contraste com o esboço sumário do tronco, mãos e membros superiores e com a nula indicação da cabeça». In Luiz Xavier da Costa, A Morte de Camões, Quadro do pintor Domingos António Sequeira, The University of Connecticut Library, Camões 173, Special Collections, Edição de 330 exemplares, sendo 30 em papel de linho, da Companhia do Papel do Prado, numerados e rubricados pelo autor, Lisboa, 1922.

Cortesia de A. C. de Lisboa/JDACT