domingo, 27 de setembro de 2015

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. «Não soprava vento e o ar estava carregado da fragrância da resina, com um toque subtil de neve derretida à mistura, um odor que sempre associei à chegada da Primavera. Não é espectacular?»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Devíamos ter dito a verdade a doña Clara, comentei, olhando para as minhas mãos. Estava outra vez a apertar muito as rédeas e, por isso, forcei-me a descontrair. Não me parece que ela vá achar apropriado termos saído por aí a deambular a cavalo. Beatriz apontou para adiante. E que interesse tem o que é apropriado? Olhai só à vossa volta! Relutante, assim fiz. O sol ia mergulhando no horizonte, enchendo o céu esbranquiçado de um vibrante brilho cor de açafrão. À nossa esquerda, Arévalo erguia-se sobre uma colina baixa, uma cidadela de tom pardo com seis torres e uma torre de menagem com ameias, adjacente a uma rústica cidade mercantil com o mesmo nome. Do lado direito tínhamos a estrada principal que ia dar a Madrid, e a toda a nossa volta, estendendo-se até perder de vista, estava Castela, um  território sem fim, salpicado de campos de cevada e de trigo, de hortas e de aglomerados de pinheiros de tronco torcido. Não soprava vento e o ar estava carregado da fragrância da resina, com um toque subtil de neve derretida à mistura, um odor que sempre associei à chegada da Primavera.
Não é espectacular?, sussurrou Beatriz, de olhos a brilhar. Assenti, admirando aqueles campos que eram o meu lar praticamente desde que me lembrava. Claro que já os vira muitas vezes, tanto da torre de menagem de Arévalo como nas nossas idas anuais com doña Clara até à povoação vizinha de Medina del Campo, onde tinha rugar a maior feira de animais de Castela. Mas, por alguma razão que não teria sabido explicar, naquele dia pareceram-me diferentes, como quando nos damos subitamente conta de que o tempo transformou um quadro que já vimos muitas vezes, escurecendo as cores, dando-lhes um novo brilho e aumentando o contraste entre claros e escuros. A minha narureza prática assegurou-me que tal impressão se devia a estar a ver a paisagem de um ponto mais alto, o dorso do Canela, em vez do da mula que costumava montar. Ainda assim, vieram-me lágrimas aos olhos e, sem aviso, recordei subitamente uma imponente sala cheia de pessoas vestidas de veludo e de seda. A imagem esfumou-se logo de seguida, apenas um fantasma do passado, e, quando Alfonso, que seguia lá mais adiante com Chacón, me acenou, esqueci de imediato que estaya sentada sobre um animal desconhecido e potencialmente traiçoeiro, e dei-lhe com os calcanhares nos flancos.
O Canela lançou-se em diante, obrigando-me a apoiar-me na curva do seu pescoço. Instintivamente, agarrei-me à sua crina, erguendo-me da sela e retesando as coxas. O Canela respondeu com um resfolegar satisfeito. Acelerou ainda mais, passando a galopar por Alfonso e levantando atrás de si um remoinho de poeira ocre. Díos Mío! ouvi Alfonso exclamar quando passei por ele a toda a velocidade. Pelo canto do olho vi Beatriz a seguir-me a toda a brida, gritando ao meu irmão e a um atónito Chacón: com que então, anos de experiência? Explodi em gargalhadas.
Era maravilhoso, tal como eu imaginava que voar devia ser, deixar para trás as preocupações das lições e do estudo, as geladas lajes do castelo, as cestas sempre cheias de roupa para cerzir e o constante resmungar preocupado por causa do dinheiro e da saúde frágil da minha mãe; ser livre, poder gozar a sensação do cavalo em movimento por baixo de mim e admirar a paisagem de Castela. Quando parei, ofegante, num cume de onde se avistava a planície, o capuz de montar caíra-me para as costas e os meus cabelos ruivo-claros estavam a soltar-se das tranças. Descendo do Canela, afaguei-lhe o pescoço suado. Ele esfregou o focinho na palma da minha mão e depois pôs-se a mastigar os espinheiros secos que espreitavam por entre as rochas. Sentei-me num amontoado de pedras ali ao pé e fiquei a ver Beatriz subir velozmente ao meu encontro. Quando ela parou, corada do esforço, comentei: afinal tínheis razão. De facto, precisávamos de exercício. Exercício?, arquejou ela, descendo do cavalo. Tendes noção de que acabámos de deixar Sua Alteza e Chacón para trás, no meio de uma nuvem de poeira? Sorri».
In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

sábado, 26 de setembro de 2015

Noites de Núpcias. Na Cama dos Reis. Juliette Benzoni. «Os fiéis vinham, por vezes, de muito longe, mesmo de muito longe para aqueles que transportavam às costas as pesadas estátuas sob o sol implacável quando o transporte por via fluvial ou pelos canais era impossível»

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A noite de Babilónia
«Os raios ardentes de Shamash, o deus-sol, despediam-se pouco a pouco de Babilónia, levando com eles o calor abrasador. Porém, havia doze dias que a capital de Nabucodonosor permanecia num estado de loucura, loucura que atingiria, naquela noite, o paroxismo porque se estava no último dia das grandes festas do ano novo, celebrado todas as Primaveras no mês de Nisan. Os heróis das festas mais importantes do ano eram Marduk, deus da prosperidade, da fertilidade e senhor dos deuses e Ishtar, deusa do Amoq filha de Sin, o deus-lua e irmã de Shamash. E quando a noite descesse sobre a cidade, Marduk possuiria Ishtar na câmara-capela dourada que coroava os sete andares multicoloridos do Entemenanki, o maior zigurate de Babilónia, o zigurate do templo de Marduk, o Esagil.
Sob os raios declinantes do Sol, as cores que tingiam cada um dos andares da torre exaltavam-se e valorizavam-se entre si. O branco de Ishtar encorujava o negro de Adar, que por sua vez estimulava o púrpura profundo de Marduk. Depois, comprimindo-se sobre o andar inferior, vinham o azul-celeste de Nebu, o laranja-brilhante de Nergal, a doçura prateada de Sin e por fim o dourado fulgurante de Shamash. Não havia nada mais belo, para um coração babilónico, do que o Entemenanki, cujo esplendor se erguia entre o imenso quadrilátero do templo e o palácio do rei, adornado pela massa verdejante dos Jardins Suspensos, maravilha do mundo antigo. A via das Procissões e o Eufrates banhavam, de um lado e outro, os três edifícios, que por sua vez ocupavam o comprimento total da cidade, desde a porta de Urash à de Ishtar, palco nos últimos doze dias de cerimónias incessantes e faustosas porque todos os outros deuses das cidades e aldeias do império de Entre-os-Rios vinham prestar homenagem a Marduk, criador, destruidor, pleno de compaixão, piedade e, por sua ordem, de benevolência para com os deuses...
Os fiéis vinham, por vezes, de muito longe, mesmo de muito longe para aqueles que transportavam às costas as pesadas estátuas sob o sol implacável quando o transporte por via fluvial ou pelos canais era impossível. Porém, a sorte de tais escravos só atraía a piedade dos cativos que, escondidos por baixo dos três andares dos fabulosos Jardins Suspensos, accionavam sem cessar as imensas noras encarregadas de içar a água do rio até às luxuriantes maravilhas construídas por capricho de uma rainha lendária... Enquanto durassem as festas, os xilofones, as flautas, os tambores, as citaras, os címbalos e os sistros escoltariam os cortejos sagrados desde o rio ou das portas da cidade até ao adro do Esagil, ritmando as danças dos sacerdotes e das cortesãs sagradas, que se sucediam sem cessar. A maré de trajes brancos, amarelos e vermelhos, enriquecidos com os famosos bordados babilónicos cujo segredo se perdeu, invadia as ruas, os pátios e a grande via das Procissões. As jóias de ouro e prata brilhavam, mas menos do que as couraças polidas dos soldados de barba negra encaracolada, mais cerrada do que o astracã, vestidos com túnicas púrpura. A cidade, febril, transbordava de cor, sufocava devido aos perfumes e aos odores das cozinhas ao ar livre e naquela última noite embriagar-se-ia de amor..., e de vinho de tâmara.
À medida que a luz declinava, os olhares viravam-se de maneira irresistível para o alto do Entemenanki onde na última capela, que parecia suspensa do céu como uma jóia, uma virgem esperava entre um grande leito de marfim cheio de almofadas de seda e uma mesa de ouro puro, os únicos móveis da câmara divina. A jovem, envolta em véus para que ninguém lhe visse a beleza, reservada apenas ao deus, chegara quando o Sol começara a sua descida para o horizonte, transportada, como a estátua da própria Ishtar, aos ombros de um grupo cintilante de sacerdotisas do Amor. A liteira depositara-a na base do zigurate, em frente da escadaria que ia dar ao primeiro andar, o branco, e que ela subira sozinha, devagar, deixando cair o primeiro véu, também ele branco, no último degrau. Em seguida a jovem subira a escadaria negra de Adar e abandonara, no último degrau, o véu negro. O púrpura caíra-lhe dos ombros ao chegar à base do quarto andar, azul como o céu de Verão e o azul à entrada do terraço onde se erguia Nergal, o cor de laranja. Em seguida fora a vez do quinto. Por fim, lá no alto, contra o céu, a noiva do deus, silhueta delicada, prateada e depois dourada, pusera os pés no último terraço onde a esperavam os sacerdotes para a conduzir à câmara nupcial, na soleira da qual ela deixara cair o último véu para entrar nua e esperar, oferecida, aquele que havia de vir». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

Beatriz e Virgílio. Yann Martel. «Mas por trás da não ficção séria encontra-se o mesmo facto e a mesma preocupação que por trás da ficção, o que é e o que significa ser-se humano, portanto por que motivo devia o ensaio ser reduzido a uma espécie de posfácio?»

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«(…) Por fim, a actividade relacionada com a promoção pessoal do seu romance acalmou e Henry regressou a uma existência na qual podia passar semanas e meses tranquilamente sentado numa sala. Escreveu outro livro, que exigiu cinco anos de reflexão, investigação, escrita e reescrita. O destino desse livro tem alguma relação com o que aconteceu subsequentemente a Henry, pelo que merece ser descrito. O livro que Henry escrevera estava dividido em duas partes, e ele pretendia que a obra fosse publicada num formato conhecido no mundo editorial como flip book, isto é, um livro com dois conjuntos distintos de folhas, ligados a uma lombada comum, de costas um para o outro e de pernas para o ar um em relação ao outro. Ao folhear um desses livros, a certa altura as páginas começam a aparecer de pernas para o ar. Nessa altura, ao virar-se o livro ao contrário, encontra-se o seu gémeo. Daí o nome flip book.
Henry escolhera esse formato invulgar porque estava preocupado com a melhor maneira de apresentar dois objectos literários que partilhavam o mesmo título, o mesmo tema e a mesma preocupação, mas não o mesmo método. Pois, na realidade, Henry escrevera dois livros: um deles era um romance, enquanto o outro era um ensaio, uma obra não ficcional. Optara por essa dupla abordagem porque sentia necessidade de recorrer a todos os meios de que dispunha para desenvolver o tema escolhido. Mas ficção e não ficção só muito raramente são publicadas num único livro. Era essa a dificuldade. A tradição afirma que as duas devem ser mantidas separadas. É assim que os nossos conhecimentos e impressões acerca da vida são ordenados em livrarias e bibliotecas: estantes diferentes, pisos diferentes. E é assim que os editores preparam os seus livros: a imaginação numa embalagem, a razão noutra. Mas não é assim que os autores escrevem. Um romance não é uma criação inteiramente insensata e um ensaio não é inteiramente desprovido de imaginação. E também não é assim que as pessoas vivem. As pessoas não separam de modo tão rigoroso o imaginário do racional nos seus pensamentos e actos. Há verdades e mentiras; essas são as categorias transcendentais, tanto nos livros como na vida. A divisão útil é entre a ficção e a não ficção que dizem a verdade, e a ficção e a não ficção que dizem mentiras. Contudo, Henry compreendeu que o costume, a maneira de pensar preestabelecida, colocava um problema. Se o seu romance e o seu ensaio fossem publicados separadamente, como dois livros, a sua complementaridade não seria tão evidente e a sinergia iria provavelmente perder-se. Tinham de ser publicados juntos. Mas por que ordem? A ideia de pôr o ensaio antes do romance parecia-lhe inaceitável. A ficção, estando mais perto da experiência total da vida, devia ter precedência sobre a não ficção. As histórias, histórias individuais, histórias de família, histórias nacionais, são o que liga os elementos díspares da existência humana num todo coerente. Somos animais de histórias. Não seria correcto colocar uma expressão tão grandiosa do nosso ser atrás de um acto mais limitado de raciocínio exploratório.
Mas por trás da não ficção séria encontra-se o mesmo facto e a mesma preocupação que por trás da ficção, o que é e o que significa ser-se humano, portanto por que motivo devia o ensaio ser reduzido a uma espécie de posfácio? Independentemente das questões de mérito, se um romance e um ensaio fossem publicados em sequência num só livro, o primeiro remeteria inevitavelmente o segundo para a sombra. As similaridades entre ambos impunham a publicação conjunta do romance e do ensaio; o respeito pelos direitos de cada um exigia uma publicação separada. Assim, após muita reflexão, Henry optou pela solução do flip book. Quanto mais pensava, mais vantagens encontrava nessa alternativa. O evento que constituía o eixo do seu livro era, e ainda é, profundamente perturbador; podia mesmo dizer-se que virara o mundo de pernas para o ar. Portanto, era mais do que adequado que metade do livro também estivesse sempre de pernas para o ar.
Além disso, se fosse publicado no formato de flip book, caberia ao leitor escolher a ordem pela qual o leria. Os leitores com tendência para procurarem auxílio e conforto na razão talvez lessem primeiro o ensaio. Os que se sentissem mais à vontade com a abordagem mais directamente emocional da ficção poderiam começar pelo romance. Fosse como fosse, a escolha pertenceria ao leitor e a emancipação, a possibilidade de escolher, ao lidar com matérias perturbadoras, é uma boa coisa. Por fim, havia o pormenor de um flip book ter duas capas. Aos olhos de Henry, a arte da sobrecapa era mais do que uma mera adição estética. Um flip book é um livro com duas portas de entrada, mas nenhuma de saída. A sua forma dá corpo à ideia de que o rema discutido na obra não tem resolução, não dispõe de uma contracapa que se possa fechar tranquilamente sobre ele. Pelo contrário, o debate nunca é terminado e o leitor é sempre levado a uma página central na qual, como o texto aparece de pernas para o ar, é forçado a compreender que não compreendeu, que não pode compreender inteiramente, mas tem de repensar o assunto de uma maneira diferente e recomeçar do princípio. Com essa ideia em mente, Henry concluiu que os dois livros deviam terminar na mesma página, ficando os dois textos às avessas separados apenas por um espaço em branco. Talvez pudesse haver um desenho simples nessa terra de ninguém entre a ficção e a não ficção». In Yann Martel, Beatriz e Virgílio, tradução de Fátima Andrade, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-234-385-5.

Cortesia EPresença/JDACT

Relicário. Douglas Preston e Lincoln Child. «Snow esperou pela sua vez para retirar as garrafas de oxigénio do depósito de aço inoxidável e em seguida aproximou-se da popa enquanto as prendia aos ombros. Ainda não estava habituado a este tipo de fato de mergulho pesado»

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Ossos velhos
«(…) Bons-dias..., disse D’Agosta. Na obscuridade que reinava sob a ponte, o rosto vermelhaço do tenente observava-os, de olhos piscos como um troglodita pálido a procurar esconder-se da luz. Dirija-se a mim, chefe, respondeu o brigadeiro enquanto prendia um batímetro ao pulso. O que foi que aconteceu? A captura deu para o torto. Afinal o tipo não passava de um mensageiro. Despejou a mercadoria pela borda da ponte. D’Agosta apontou com o queixo na direcção da estrutura superior. A seguir disparou sobre um polícia e deram-lhe cabo do canastro. Se conseguirmos encontrar o tijolo, podemos encerrar este caso de mer… O brigadeiro suspirou: se limparam o sebo ao gajo o que é que nós estamos aqui afazer? D’Agosta abanou a cabeça: como assim? Então vocês querem deixar um tijolo de heroína que vale seiscentos mil dólares no fundo do canal? Snow ergueu a cabeça. No meio das barras enegrecidas da ponte, podiam-se entrever as fachadas calcinadas dos prédios. Mil janelas sebentas olhavam para o rio morto. Foi uma pena o mensageiro ter sido obrigado a deitar tudo ao Humboldt Kill, ou seja à Cloaca Máxima, assim chamada por se parecer com o sistema central de esgotos da Roma Antiga. Chamavam-lhe Cloaca por causa da acumulação centenária de fezes, desperdícios tóxicos, animais mortos e diclorobenzenos. Um ramal do metro esforçava-se lá no alto, entre mil estremecimentos e guinchos. Por baixo dos seus pés, a embarcação vibrava e a superfície viscosa da água espessa parecia igualmente tremelicar, como um pudim de gelatina.
Tudo bem, malta, ouviu o brigadeiro dizer. Vamos lá molhar-nos! Snow afadigou-se a apertar o fato. Sabia que era um mergulhador de primeira qualidade. Crescera em Portsmouth, vivera praticamente ao lado do rio Piscataqua, e já tinha salvado umas quantas vidas humanas. Anos mais tarde, no Mar de Cortez caçara tubarões e mergulhara a mais de sessenta metros de profundidade. Apesar de tanta experiência anterior este mergulho não lhe inspirava grande confiança. Embora Snow nunca tivesse explorado esta zona, o grupo estava sempre a referir-se a ela. De todos os lugares infectos para se mergulhar na cidade de Nova Iorque, a Cloaca era o pior de todos: pior ainda do que o Arthur Kill, Hell Gate, ou mesmo o Canal de Gowanus. Certo dia, disseram-lhe que este fora em tempos um afluente importante do rio Hudson, que atravessava Manhattan de um lado ao outro, a sul de Sugar Hill, em Harlem. Mas séculos de desperdícios, construções desordenadas e consequente abandono tinham-no transformado numa fita estagnada e imóvel de porcaria: como se fosse um caixote de lixo líquido onde se pudesse despejar tudo o que coubesse na imaginação.
Snow esperou pela sua vez para retirar as garrafas de oxigénio do depósito de aço inoxidável e em seguida aproximou-se da popa enquanto as prendia aos ombros. Ainda não estava habituado a este tipo de fato de mergulho pesado e constritor de movimentos. Pelo canto do olho viu o brigadeiro a aproximar-se: Tudo pronto?, disse a voz calma de barítono. Acho que sim, chefe, respondeu Snow. E as lanternas para a cabeça? O brigadeiro ficou a olhar para ele. Estes prédios cortam toda a luz do dia. Vamos precisar de lanternas se quisermos ver um palmo à frente do nariz. Correcto? O brigadeiro esboçou um sorriso: não ia fazer diferença nenhuma. A Cloaca tem seis metros de profundidade. Por baixo disso, existem cerca de três a quatro metros de lodo em suspensão. Logo que as tuas barbatanas tocarem nele, este vai explodir como uma bomba de pó. Não vais conseguir ver nada para lá da máscara. E por baixo do lodo ainda há dez metros de lama. O tijolo vai estar enterrado algures, no meio dessa lama. Lá em baixo terás de usar as mãos para ver.
Olhou para Snow como se quisesse avaliá-lo e hesitou durante alguns instantes: Escuta, prosseguiu em voz baixa, isto não vai ser como aqueles mergulhos de treino que fizeste no Hudson. Só vieste connosco porque o Cooney e o Schultz ainda estão no hospital. Snow concordou. Ambos os mergulhadores tinham apanhado uma blastos, lastomicose, uma infecção fúngica que atacava os órgãos internos, enquanto procuravam por um corpo cravejado de balas no interior de uma limusina no fundo do rio North. Apesar das análises parasitológicas obrigatórias de oito em oito dias, não havia ano em que uma nova doença bizarra não viesse arruinar a saúde dos mergulhadores. Não há problema se não quiseres mergulhar desta vez, prosseguiu o brigadeiro. Podes ficar aqui, no convés, a dar uma ajuda com as cordas de segurança». In Douglas Preston e Lincoln Child, Relicário, O inferno fica debaixo da terra, tradução de João Barreiros, Saída de Emergência, 2009, ISBN 978-989-637-126-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

O Vaticano contra Cristo. Religiões. Tradução de José A. Neto. I Millenari. «Um mundo feito de rivalidades, cuja escala hierárquica se realiza suavemente com verdadeiras batalhas, às cotoveladas, sem excluir os golpes. Os predestinados para os primeiros níveis superiores»

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Os Pilares da Igreja
«(…) Após o esqui do papa no monte Adamello, alguns da cúria rezaram assim: … concede-nos, Senhor, a nós pobres filhos de Adão, voltar a descer comodamente o Adamello em direcção a todas as metas desejadas. Ámen e assim se esquia. Sem um sistema democrático onde exista oposição, a crítica tem um papel não facilmente controlável. Não é aceite mas é observada, não obstante o risco que implica para a dignidade pessoal, na base e no topo. É o preço que qualquer monarquia absoluta tem de pagar quando as liberdades e os modos de proceder no interior do próprio meio são calcados. O que se vive na dor é transformado numa comédia, com gozos satíricos e perdões de maledicências.

Mors Tua Vita Mea
(A tua morte é a minha vida)
No Vaticano, como noutros lugares, há os que dão caça desapiedada a irmãos monsenhores, com maldade e prazer sádicos em humilhar os antagonistas, porque mors tua vita mea. O arrivista ávido que quer queimar etapas, no momento em que esbarra com um concorrente que se vangloria de mais apoios, considera-se com as asas cortadas. Assim diminuído, começam a flanar à sua volta para lhe fazer a cama. Diz-se que o cardeal Domenico Svampa respondeu a um carreirista que lhe perguntava como fazer para subir: … quer-se inteligência e um diabo que te carregue! E o pretendente respondeu-lhe: … Eminência, eu disponho de inteligência, e o senhor dispõe do diabo que me carrega.
Oitenta por cento do pessoal em serviço resigna-se ao pensamento de não poder atingir as metas dos privilegiados; permanecem abandonados no anonimato do formigueiro. São esses, exactarnente, os abandonados pelos ardilosos, ou, pelo menos, colocados na salmoura da expectativa, aspirantes em permanente aspiração: um conjunto de resmungões de mau humor.
Os outros vinte por cento encaixa no desfiladeiro da subida ao poder, a passo de caracol, considerando-se parte eleita, sacerdócio real, conquistadores. Todavia, estes felizardos em ascensão para a liderança da Igreja, para eliminar o adversário na competição, têm necessariamente de jogar cartas encobertas até ao fim. O aspirante, à medida que se avizinhado horizonte ambicionado, refina a sua metodologia de competitividade, mistificando simultaneamente a manha, a humildade interesseira, a hipocrisia e a humildade exterior. Um mundo feito de rivalidades, cuja escala hierárquica se realiza suavemente com verdadeiras batalhas, às cotoveladas, sem excluir os golpes. Os predestinados para os primeiros níveis superiores, os que sobem a rampa, os favorecidos pela cunha oportuna do protector carismático, os pretendentes ao topo mais alto possível, são obviamente poucos e apropriam-se dos méritos dos outros atribuindo-os com desenvoltura a si próprios. Não é para eles o que o Espírito Santo deixou escrito: Não procuremos a vanglória, provocando-nos e invejando-nos uns aos outros.
Dizia V. Bukovsky: ali não haverá guerra mas haverá sempre uma tal luta pela paz que, no fim, não ficará pedra sobre pedra. Se, neste caso, se entende paz como uma arriscada dissimulação, o quietismo será uma lâmina afiada que impõe tributos à consciência e à capacidade do subalterno da cúria, comprometido na liberdade de se gerir. A indiferença do ambiente não concede espaço a gestos de solidariedade com quem sofre prepotências e discriminações. Uma espessa multidão de puritanos e cortesãos está atenta para evitar os irmãos aos quais se apontam indícios de suspeita; então, o isolamento discrimina-os e o silêncio à sua volta torna-se grave e pesado.
Quando se quer isolar alguém começa por se fazer terra queimada à sua volta e a convivência com esse alguém torna-se difícil e sufocante. Sopra um vento ligeiro, na folhagem, que ofende a dignidade da pessoa, comprimida como que por um imponderável oculto. Toma corpo uma sensação de voragem que o engole no alienante santuário da indiferença dos colegas, semelhante a uma lapidação interior, sem poupar golpes, uma intinfada, por culpas que passam em julgado sem ser provadas. Qualquer coisa começa, então, a ceder dentro deles, surgindo frustrações, suspeitando das suas próprias capacidades e de debilidades psicofísicas; começa a acusar-se de que a sua é uma pretensão nos limites da presunção e da insubordinação. Persuade-se de que está constituído em estado de fragilidade». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia CLetras/JDACT

O Exílio do Último Liberal. Sérgio L. Carvalho. «Quanto ao moço vigilante, que há muito deixara de coçar a cicatriz da testa que a linha do cabelo disfarçava, coube carregar o gancho, as gazuas, as pás, a lanterna e a corda a tiracolo…»

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«(…) Atada num molho informe, atiraram-na para dentro do caixão escalavrado que, porém, não se deslocara um palmo que fosse da sua posição original. Depois, taparam com cuidado a cova com a terra que haviam colocado sobre a tela estendida ali à beira, repuseram no lugar as pedras que haviam afastado, alisaram a superfície do solo para disfarçar a sua presença e observaram tudo uma derradeira vez até se darem por satisfeitos. Tinham razão para tal contentamento, valha a verdade, que quando a manhã chegasse ninguém poderia dizer que por ali, nessa noite, alguém estivera a retirar corpos do que era suposto ser a sua última morada. Um belo eufemismo, porventura, mas que de novo não lembrou a nenhum dos dois, tão alheios que eram à gramática como à filosofia. Ben Crouch ainda pensou em ordenar ao jovem vigilante que os ajudasse a transportar o corpo para a carroça, que uma vez mais os seus rins se revoltavam com a perspectiva de uma nova canseira. Porém, para não dar sinais de velhice ou de fraqueza, nada disse; antes lhe murmurou, à laia de piada, qualquer coisa num idioma alatinado que o rapaz não percebeu, de tal forma fora a frase proferida num tão mal-amanhado estrangeirismo. Crouch riu-se da sua fraca exibição linguística e agarrou nas pernas do cadáver enquanto Naples se afadigava com o peso do tronco e da cabeça. Felizmente o corpo pertencia a um ajudante de tanoeiro tão magro e tão leve como compete a qualquer pobre.
Quanto ao moço vigilante, que há muito deixara de coçar a cicatriz da testa que a linha do cabelo disfarçava, coube carregar o gancho, as gazuas, as pás, a lanterna e a corda a tiracolo, enquanto constatava que em torno não se via ninguém que os pudesse importunar. Mesmo assim, tremia. A noite estava fria, também é certo, o que terá contribuído para as tremuras daquele jovem ainda desabituado à humidade, à frialdade e ao fog londrinos, apesar de por ali viver havia já uns anitos. Mas a alma habitua-se mais devagar que o corpo, é bem sabido, e o fresco nevoeiro da cidade parecia que se colava a cada poro da sua pele morena à medida que a carroça atravessava Lincoln's Gate rumo à velhinha ponte de Westminster, levando os três homens consigo. Bem... os quatro. Para trás deixaram destrancado o portão de ferro do cemitério, ao lado do qual alguém rabiscara a carvão, em pleno muro, uma mensagem supostamente piedosa: o último que aqui entrou amava o próximo!
Mas a escuridão não lhes permitiu ler o que quer que fosse. Claro que ao passarem à beira de um pub de Bow Street, pertinho já das docas, sentiram a tentação de se aquecerem com bebidas quentes, lareiras acesas e coxas femininas. Porém, seguiram caminho, cientes de que o bom trabalho quer-se bem feito até ao fim e de que havia, mais adiante, quem os esperava com a justa paga do seu labor nocturno. Por isso, tudo o que levaram desse pub foi o som distante de uma melodia arrastada..., trauteada por putéfias, bêbados, trapeiros e guardas de cemitério dados a suborno.

O Teatro Anatómico
Estendido na mesa de madeira do auditório, alumiado pelos candeeiros a gás à sua volta, o corpo do ajudante de tanoeiro exibia mais claramente as marcas da sua proletária miséria: a pele gasta que a morte recente ainda mais macerava, as mãos nodosas e calejadas, os ossos que pareciam querer romper a fina carnadura, os dentes gastos e cariados, o cabelo ralo e sujo, que, aliás, fora rapado minutos antes, as unhas partidas e orladas a negro, a baixa estatura (ou neste caso, o curto comprimento), tudo nele denunciava, enfim, um ruim destino que, afinal, não terminara ainda. O doutor William White hesitou na idade do objecto que defronte de si se exibia. Assim à primeira vista aquilo parecia-lhe coisa para oscilar entre os vinte e tantos e os trinta e poucos, o que para o efeito não era importante, sendo igualmente duvidoso que, em vida, o próprio objecto soubesse com clareza o ano em que nascera. O médico ainda olhou uma vez mais para aquele rosto marcado pelas bexigas, o que o levou a fazer umas breves reflexões sobre as experiências do seu congénere Edward Jenner efectuadas uns anos antes em vacas e em homens, desse modo constatando que o progresso da medicina se faz, amiúde, por ínvios caminhos. Como, de resto, quase tudo nesta vida». In Sérgio Luís Carvalho, O Exílio do Último Liberal, Clube do Autor, Lisboa, 2012, ISBN 978-898-845-221-4.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Menina que Nunca Chorava. Torey Hayden. «Estava sob rigorosa vigilância, o que significava que teria de ser provisoriamente mantida na escola, dada a especificidade da lei; mas não tinha de me sentir obrigada a ensiná-la»

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«(…) Mas no Inverno ficavam superpovoados por aqueles que não conseguiam arranjar algo melhor para viver. Era aí que Sheila vivia com o pai. Toxicómano e com problemas de alcoolismo, o pai de Sheila vivera na prisão a maior parte da curta vida da menina. Não tinha emprego. Estando naquela altura em liberdade condicional, seguia um programa de reabilitação contra excesso de álcool e pouco mais fazia. A mãe de Sheila tinha apenas catorze anos de idade quando, após ter fugido de casa, conheceu o pai de Sheila e engravidou. A criança nascera dois dias antes de a mãe completar quinze anos. Dezanove meses depois, dava à luz o segundo filho, um rapaz. A ficha não continha muito mais informações acerca da mãe, mas não era difícil ler nas entrelinhas uma história de drogas, álcool e violência doméstica.
Por qualquer razão, deve ter ficado farta, já que abandonou a família quando Sheila tinha quatro anos de idade. Segundo o breve relatório, aparentemente, tencionara levar com ela os dois filhos, mas Sheila foi posteriormente encontrada abandonada num troço de auto-estrada, cerca de cinquenta quilómetros a sul da cidade. Da mãe de Sheila e do seu irmão Jimmie nunca mais se ouviu falar. A maior parte do dossiê relatava em pormenor o comportamento de Sheila. Em casa, o pai parecia não ter qualquer controlo sobre ela. Por diversas vezes , fora encontrada a deambular pelo recinto do campo a altas horas da noite. Já tinha um cadastro por fogos postos e, por três ocasiões, fora indiciada pela polícia por atitudes criminosas, o que constituía um feito para uma criança de seis anos de idade. Na escola, Sheila recusava-se frequentemente a falar e, por conseguinte, a ficha não continha qualquer informação sobre o que pudesse ter aprendido.
Frequentara o infantário e o primeiro ano da escola primária que ficava perto do campo de imigrantes, até se dar o incidente com o rapazinho, mas não havia relatórios de avaliação. Em vez dos habituais resultados dos testes e dos relatórios da aprendizagem, havia um rol de episódios de terror que descreviam ao pormenor o comportamento destrutivo e frequentemente violento de Sheila. No final da ficha havia um breve relatório do incidente com o rapazinho. O juiz concluiu que Sheila estava fora do controlo dos pais e que o mais aconselhável seria colocá-la numa unidade segura que melhor satisfizesse as suas necessidades. Neste caso, referia-se à unidade de cuidados infantis do hospital psiquiátrico estadual. Infelizmente, este encontrava-se cheio aquando da audiência, e Sheila teria de aguardar por uma vaga. Posteriormente, fora apensa ao relatório uma anotação que salientava a necessidade de lhe ser proporcionado algum tipo de educação, em virtude da sua idade e dos requisitos legais, mas ninguém se incomodara a propor uma solução.
Estava sob rigorosa vigilância, o que significava que teria de ser provisoriamente mantida na escola, dada a especificidade da lei; mas não tinha de me sentir obrigada a ensiná-la. Com a chegada de Sheila, a minha sala de aula transformou-se num redil. Naquela fase da minha carreira, a juventude era o meu dom mais valioso. Inflamada de idealismo, tinha a forte convicção de que não havia crianças problemáticas, mas tão-só uma sociedade problemática. A minha relutância inicial em aceitar Sheila devera-se ao facto de ter a sala repleta e os recursos esgotados; nada tinha que ver com a criança propriamente dita. Assim, uma vez que fiquei com ela, considerei-a como minha; e a minha aula não era um redil! Tinha uma firme convicção na integridade humana e que esta era um direito inalienável de cada uma das minhas crianças.
Bem, quase. Logo à partida, Sheila provocara um forte abalo nas minhas convicções, e começara nesse mesmo dia. À hora do almoço, enquanto estava reunida com Anton no gabinete principal, examinando a ficha de Sheila, ela semeava o pânico na nossa sala de aula, entretendo-se a retirar os peixes dourados do aquário e a extrair-lhes os olhos. Sheila era a prova de que o caos viera para se instalar, vestido com jardineiras de ganga e uma T-shirt desbotada. Falava sempre com uma voz esganiçada. Tudo em que tocava ficava quebrado, amolgado, esmagado ou desfigurado. E toda a gente, incluindo eu, era vista como O Inimigo. Ela agia de um modo que Anton denominou de modelo animal. Não havia muito de modelo de criança, nos primeiros dias. Sheila interpretava o mais ligeiro movimento inesperado como um ataque. Os olhos ficavam sombrios, o rosto corava, o corpo ganhava uma rigidez de alerta e, a partir daquele momento, a questão a ponderar era se ela iria lutar, entrar em pânico ou fugir. Quando estava sintonizada no modelo animal, os nossos métodos aproximavam-se muito mais da domesticação do que do ensino. Ainda assim... Sheila era diferente. Havia algo de eléctrico nela, nos seus olhos, na precisão dos seus movimentos, que se impunha a tudo, mesmo nos seus momentos mais agitados. Eu não conseguia distinguir o que era, mas pressentia-o». In Torey Hayden, 1995, A Menina que Nunca Chorava, tradução de Fernando Antunes, Editorial Presença, 2007, 2012, Lisboa, ISBN 978-972-233-804-2.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os Impetuosos. Luísa Beltrão. «Luís e Zulmira eram o casal ‘réussi’ da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher…»

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«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Albertina olhou para o outro lado da sala, lá estava o sobrinho, tão triste, como ele devia sofrer com tantos conflitos à sua volta, pobre criança! Se Júlio permitisse ela tomá-lo-ia à sua guarda como um pequeno pássaro sem ninho. Mas já iam receber Heitor. Não que ela se importasse, Júlio é que podia não querer. Pedro, de longe, captava as movimentações sobre a sua sorte, intuía-o da habitual cotação de menino abandonado, mas, nada deixando transparecer, conversava com o primo Alvarito, cuja desenvoltura invejava. Eram muito diferentes estes dois primos quase da mesma idade, com destinos de berço tão diversos e que no entanto se entendiam: o desvalido Pedro tinha figura de príncipe, alto e loiro; Alvarito, filho do primogénito Luís e de sua mulher Zulmira Maldonado, de nove anos mimados, pequeno e rechonchudo, crescia em feitio brincalhão, que a vida era uma brincadeira inconsequente dada a indulgência dos pais que o adoravam e lhe perdoavam as fantasias rocambolescas ditadas por fértil imaginação. Graves sensaborias tinham já sofrido, que ele não poupava ninguém.
De uma vez, num dos numerosos jantares elegantes que Zulmira costumava dar, houvera, entre outras sobremesas, uma mousse au chocolat, doce recentemente importado da admirável cozinha francesa. Alvarito, que recolhera cedo como convinha a uma criança, aparecera na casa de jantar no momento em que o criado servia a apreciada iguaria e, com ar compungido, bichanara em voz suficiente para ser ouvido por todos, boa noite, isso que vão comer tem fezes da mamã que a cozinheira pôs no chocolate. Ninguém comera a mousse au chocolat, apesar das invectivas indignadas de Zulmira, siderada, com a alusão às suas fezes. Comera-a ele mais tarde, regaladamente. O alvo preferido das suas partidas era o severo tio Francisco, filho do primeiro casamento do conde e marido da tia Antoninha. Até houvera uma questão entre Luís e Francisco, cujas relações tinham esfriado desde então.
Luís e Zulmira eram o casal réussi da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher, um trem de vida luxuoso, idas frequentes a Paris, festas magníficas frequentadas sobretudo por gente das artes e das letras. Zulmira, Maldonado de solteira, tinha uma sede inesgotável de sucesso, sobretudo em relação aos homens, o que provocava cenas de ciúmes no marido, inseguro perante a sua beleza insinuante e os seus dotes poéticos. Embora também dado a aventuras galantes, era Luís um homem responsável dos deveres familiares e cívicos, auxiliando os parentes com a disponibilidade própria do estatuto de primogénito. Fora ele o padrinho da neófita e dera-lhe de presente um rico broche de brilhantes.
Também lá se encontravam as duas outras filhas de Ana, as inseparáveis Elisa e Laura, esta sem o marido, ocupado na lavoura das terras, e aquela ainda solteira inconsolável, que continuavam trilhando o seu caminho de diferenças: Elisa fina e elegante, Laura infantil nas suas saídas intempestivas e pesadas. Por fim, Antoninha, enteada de Ana e seu marido Francisco de Riba Coutinho, ele pouco comunicativo, ela doce como sempre, cada vez mais apagada e silenciosa; tinham voltado definitivamente a viver em São Jerónimo desde a última crise do conde, a quem Francisco amava num silêncio discreto. Como Guilhermina dizia, maldosamente, era uma família grande que aparentemente se dava bem.
De regresso a Coimbra, Júlio voltou à vida académica e Albertina às lides domésticas, agravadas agora pela presença dos dois hóspedes. A casa era espaçosa para os albergar, mas traziam eles um ritmo diferente ao quotidiano. Heitor, obrigado a frequentar pela primeira vez o colégio, tentava escapulir-se aos seus deveres e fazia-o com êxito, iludindo a ingenuidade bondosa de Albertina. Conhecedor dos gostos de Júlio pela caça e pelos desportos em geral, desafiava-o, tentador, conseguindo a pouco e pouco os seus intentos. Terno e amável, oferecia-se para passear a pequena Maria Teresa que crescia adorável e precoce e trazia pequenos presentes; porém, os estudos continuavam para ele uma actividade absurda, não ligava às conversas, achando enfadonhas e escusadas as questões que discutiam. O irmão bem tentava puxar-lhe pelos dotes do espírito, contudo, sem êxito algum: o Júlio, vocês argumentam, argumentam e ficam sempre na  mesma. Eu acho que a vida está para a acção, não para as palavras e para os papéis». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

Um Rei Avesso à Política. Fernando II. Maria Antónia Lopes. «O rei dos Franceses, que não desejava criar conflitos com a Inglaterra e porque o futuro dos reis constitucionais de Portugal era mais do que incerto, não avançou com a candidatura de um filho…»

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Convite para ser rei. A escolha de Fernando Augusto de Coburgo
«(…) Todas as diligências teriam de ser feitas em completo sigilo porque estava em causa a dignidade da rainha e do país. De facto, seria bem pouco honroso se se soubesse que se procurava um marido para a monarca portuguesa e que esta recebia recusas. Tais instruções haviam sido cuidadosamente redigidas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, o conde de Vila Real! Lavradio dirigiu-se a Londres e conversou com Palmerston, então ministro dos Negócios Estrangeiros. A resposta não podia ter sido mais brutal: se a rainha dona Maria II contraísse casamento com um príncipe Orleães, cessariam todos os tratados de aliança entre a Inglaterra e Portugal. Sem contemplações, o governo inglês obstava a uma alteração do equilíbrio político, isto é, a que a França pudesse ter influência no nosso país, destruindo a tradicional aliança com a Inglaterra que era contrabalançada por igual e tradicional ligação da Espanha à França. Ora, com a criação de laços familiares estreitos entre as famílias reinantes de Portugal e da França, esta ganharia ascendente sobre toda a península.
O rei dos Franceses, que não desejava criar conflitos com a Inglaterra e porque o futuro dos reis constitucionais de Portugal era mais do que incerto, não avançou com a candidatura de um filho, embora em Abril tivesse demonstrado grande interesse ao embaixador de Portugal, visconde da Carreira. O rei Luís Filipe chamara-o à parte para lhe falar sobre a morte de Augusto Leuchtenberg, querendo saber a situação política de Portugal, se a rainha ficara grávida e opinando sobre a conveniência política do seu recasamento. Fez questão de dizer que não era verdade que não gostasse do príncipe defunto, mas que não aprovara o casamento porque não servira à reconciliação de Portugal com as potências que ainda não reconheciam a dinastia e que tinha lido que a rainha iria casar com Maximiliano, irmão do defunto marido, sendo esse demasiado novo e não indo agradar aos soberanos a quem desgostara o anterior casamento. Depois deu claramente a entender que lhe agradaria a união com um filho seu, mas que isso iria provocar ciúmes e obstáculos difíceis de transpor. Aliás, em Julho e Agosto, quando o casamento em França já estava posto de lado, ainda a família Orleães debatia a questão.
Decerto para se livrar do problema, Palmerston sugeriu o príncipe de Carignano, parente do rei da Sardenha (ele próprio Saboia-Carignano) e reconhecido no ano anterior como herdeiro do trono no caso de extinção da linha reinante. Lavradio nada sabia sobre ele e procurou informar-se, mas concluiu, e tinha razão, que, com excepção da idade, o que lhe diziam sobre o príncipe sardo era improvisado. Procurou informações sobre outros mancebos: o irmão do defunto Augusto, um filho do arquiduque Carlos da Áustria e o filho segundo do príncipe de Orange, mas nenhum reunia rodos os predicados requeridos para esposo de sua majestade e, motivo ainda maior, o negociador português percebeu que tanto o gabinete inglês como o francês desejavam que o marido da rainha não fosse nenhum dos príncipes das famílias imperiais ou reais que reinavam nos principais estados da Europa.
De facto, em conversa com o ministro português em Inglaterra, e temendo ainda a hipótese dos Orleães, Palmerston dissera-lhe claramente que eram, pois, príncipes como estes, das Casas de Vurtemberga ou da Saxónia-Altenburgo-Hildburghausen, sem conexão alguma com outras potências grandes, e que se tornariam completamente portugueses, como o príncipe Augusto fora, os que convinham, e não aqueles que poriam Portugal à cauda dos estados de onde vinham. Em Julho, dona Maria estava decidida a casar com o príncipe de Carignano, ordenando a Palmela que mandasse Lavradio tratar do assunto, mas este não o fez. Nas suas palavras: … continuando sempre nas minhas indagações, tive notícia de um príncipe que possivelmente reunia as qualidades exigidas; era o príncipe Fernando Augusto de Saxe-Coburgo, filho do duque Fernando Jorge de Saxe-Coburgo, irmão segundo do duque reinante de Saxe-Coburgo. Este príncipe estava para completar dezanove anos e, apesar de ser da família de Saxe-Coburgo, era católico desde o nascimento; era sobrinho do rei dos Belgas e de sua Alteza Real a duquesa de Kent, e, portanto, próximo parente da futura rainha de Inglaterra. Afirmavam-me também que o príncipe era dotado de talento, recebera uma excelente educação e tanto ele como todos os da sua família eram amigos do sistema constitucional, o que estava longe de ser verdade. Lavradio prossegue: … as ilustres alianças da família Saxe-Coburgo, a plena aprovação dada pelo rei de Inglaterra e pelo seu governo a esta aliança e a convicção da necessidade absoluta de concluir prontamente a negociação do casamento induziram-me a adiantá-la e a tomar sobre mim a responsabilidade de sobrestar na execução das ordens que havia recebido para negociar o casamento com o príncipe de Carignan. Não tive que me arrepender e tanto a rainha como Palmela aprovaram plenamente o meu procedimento». In Maria Antónia Lopes, D. Fernando II, Um Rei Avesso à Política, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-972-42-4894-3.

Cortesia de CL/JDACT

Édipo e a Esfinge. Um Estudo Interpretativo. Ludwing Scheidl. «(...) e o rei Políbio, o meu pai, cujo corpo eu nunca toquei, pela primeira vez na vida lançou os braços em volta do meu pescoço e apertou a minha fronte contra o seu peito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A figura lendária e mítica do rei de Tebas, Édipo, é evocada por Homero na Odisseia, quando Epiocasta (Jocasta) narra no Hades o seu destino; duas epopeias de que se regista apenas o nome, Edipodeia e Tebaida, relatam os acontecimentos do infortúnio dos reis de Tebas. Tem-se igualmente notícia de que o tema foi tratado em tragédias de Esquilo (na tetralogia Laio. Édipo, Os Sete contra Tebas, A Esfinge) e de Eurípides, mas só se conservam os textos Os sete contra Tebas de Esquilo, Rei Édipo (428 a.C.) , Édipo em Colono (406 a.C.) e Antígona da autoria de Sófocles, as Fenícias e as Suplicantes de Eurípides. A estrutura de Rei Édipo, a revelação em poucas horas dos crimes cometidos fazem desta tragédia uma modelar tragédia de destino.
O mito e a lenda em volta do rei de Tebas foram tratados por Séneca, posteriormente na Idade Média (Roman de Thébes, séc.XI), mas o tema foi essencialmente redescoberto na época do Renascimento; com Corneille o tema (Thésé) entra na literatura francesa e conhece grande divulgação em especial no século XVIII, também como drama musical. Na literatura alemã o destino do rei Édipo é tratado por Hugo von Hofmannsthal, que apresenta como que a história prévia da verdadeira tragédia no drama intitulado Édipo e a Esfinge, objecto da análise que nos propomos apresentar.
O tema tratado na perspectiva dionisíaca é várias vezes retomado no nosso século: refira-se J. Cocteau (La machine infernale (1934)), a oratória de Strawinskij Oedipos Rex (1928) e André Gide. A tragédia Édipo e a Esfinge de Hugo von Hofmannsthal afasta-se do modelo de Sófocles pela valorização da história prévia à consumação da verdadeira tragédia de Édipo e de Jocasta, e porque a tragédia de destino se transforma na versão do poeta vienense num estudo psicológico. O texto abre com o regresso de Delfos do príncipe de Corinto, Édipo, caracterizado como uma figura pálida , perturbada, como um fugitivo que finalmente os criados reencontram no percurso de um desfiladeiro. O criado mais velho Phõnix, que se revela ser o confidente e o próprio aio de Édipo, desvenda as razões da perturbação que se apoderara de Édipo em Delfos e as ordens expressas do jovem príncipe.

Phõnix
(inclinando-se)
Por isso pergutámos:
de que nos serve este anel real
que o nosso amo nunca tirou do dedo?
Então falou: levaio-o convosco e preservai-o bem,
até chegardes junto de Políbio, o rei;
a ele entregais o anel e haveis de dizer-lhe:
esse to envia Édipo, o teu filho, ele te saúda
e saúda a mãe, a nossa rainha,
e saúda Corinto, a cidade pois a ti, ó rei,
e à tua rainha e à tua cidade,
os três, que ele chamou de pai e mãe
e pátria não mais os seus olhos verão.
Édipo, o teu filho, não mais regressa,
que o anel o confirme.

É pungente a despedida dos criados, as cenas de fidelidade destes para com o príncipe de Corinto, cidade que Édipo não pode voltar a ver. Édipo está como que possesso, torna-se violento até que respirando com dificuldade se volta para o criado e aio, clamando:

Ajuda-me, Phõnix

Ε ouvimos pela primeira vez o que o oráculo falou. Agora se entende a profunda mudança operada desde Delfos, ainda que o segredo do oráculo não seja de momento revelado. Mas, como que em transe, Édipo recorda o episódio na corte em que foi chamado de criança adoptada. Questionados pelo jovem príncipe, os reis de Corinto juram que Édipo é seu filho.

Édipo
(...) e o rei Políbio, o meu pai, cujo corpo
eu nunca toquei, pela primeira vez na vida
lançou os braços em volta do meu pescoço
e apertou a minha fronte contra o seu peito
e por sobre o leito a mãe prendeu a minha mão.

A dúvida , porém, persiste e por isso a visita ao oráculo de Delfos. Na reconstituição das cenas do oráculo, o leitor/espectador entra no mundo irracional, dionisíaco: o relato vago de Édipo, invocando os sacerdotes, a pítia, o sonho com um mar de sangue em que a alma mergulha sem encontrar fundo, o assassinato de um homem que não é capaz de reconhecer, porque tem o rosto coberto. Depois de muito instado, Édipo revela as palavras do oráculo.

Édipo
(...) assim falou o deus da boca retorcida
da mulher em transe: o prazer do assassinato
expiaste-o no pai, expiaste na mãe
o prazer do abraço, assim foi sonhado,
e assim vai acontecer.

Para o confidente, a resposta é dúbia e faz ver a Édipo que o teor do oráculo não é verdadeiramente a resposta à pergunta que, afinal, nem chegara a formular. Mas para Édipo, o oráculo não deixa dúvidas, porque responde a um segredo íntimo que nunca antes desvendara. O tom de confidência prossegue e o criado e aio vai ouvir com espanto que Édipo nunca tomara mulher para si, porque se guardava para sua mãe. Aqui entra um tema tão ao gosto da geração finissecular, o complexo de Édipo, formulado por Sigmund Freud. A atracção obsessiva do jovem príncipe por sua mãe, a rainha de Corinto, é-lhe assim confirmada pela voz da pítia em transe. Por isso, e também porque a vida do pai está em jogo, Édipo está decidido a não regressar a Corinto». In Ludwing Scheidl, Édipo e a Esfinge, Um Estudo Interpretativo, Revista Humanitas, volume XLIX, 1997, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT           

O Bibliotecário. A Biblioteca Perdida. AM Dean. «Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira…»

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«(…) Os estranhos calafrios que tinham percorrido o corpo de Emily foram substituídos por pele de galinha. Um homicídio em Carleton College era algo inaudito, mas o assassínio de um colega... A notícia deixou-a assustada e em choque. Foi perseguido pelo corredor, acrescentou Aileen. Havia sangue no exterior do gabinete. Não vi o interior. A sua voz tremeu; olhou para Emily. Não deste conta que a polícia andava pelo campus? Emily, ficou paralisada com a novidade. Havia reparado nas viaturas da polícia quando estacionara o carro antes das aulas da manhã, mas não lhes dera importância. As forças da ordem não eram uma presença invulgar ali. Não tinha ideia de que era por isso. Emilv fez uma pausa antes de indagar: porquê o Arno? Não lhe ocorria que outra coisa perguntar. Não é essa questão que me preocupa, retorquiu Emma Ericksen, a colega de Emil-v em História das Religiões. E o que te preocupa?, quis saber Emily. Se atacaram e assassinaram um dos nossos colegas aqui, no campus, então quem é o próximo?

No exterior da sala de reuniões identificada como 26 H, Burton Gifford entregou a pasta de couro a um empregado e lançou-lhe um olhar que deixava claro o seu desejo de ficar a sós após a conclusão da reunião matinal. Desviando-se enquanto os restantes homens abandonavam a sala e percorriam o corredor em direcção à saída, ignorou os numerosos autocolantes de proibido fumar e sacou de um Pall Mall sem filtro de uma cigarreira que trazia no bolso superior do casaco e acendeu-o. Pertenceu à comissão consultiva de política externa do presidente durante os dois anos em que este havia permanecido no poder, sendo um leal apoiante do seu trabalho no Médio Oriente, apesar de o homem no comando não partilhar do seu desejo de que se mostrasse mais agressivo, que negociasse mais a reconstrução do pós-guerra. Tinha-se transformado num dos assessores mais influentes, levando a cabo tarefas políticas e assegurando que o presidente distinguia amigos de inimigos. Gifford vinha do mundo dos negócios, e os negócios não eram senão um mundo de contactos. Gostava de pensar que o presidente estava bem relacionado, ou menos bem relacionado, graças à sua sabedoria e influência. E não estava de todo errado. Ele era o tipo que facilitava os contactos, e o presidente a voz moral que depois os seleccionava.
Um homem chamado Cole permanecia imóvel nas sombras. O seu rosto invisível esboçava desprezo pelo corpulento e influente intermediário político, um homem poderoso de muitos contactos cujo aspecto evocava a imagem de um gato gordo. Estava inchado fisicamente e na sua vaidade. Nada mais existia senão aquilo que fosse relevante para os seus próprios desígnios. Era um defeito pelo qual pagaria, hoje mesmo. Gifford deu uma longa passa no corredor vazio, a beata meio fumada a pender dos seus lábios enquanto usava ambas as mãos para compor o casaco. Cole escolheu esse momento para sair de um gabinete situado do outro lado do corredor e assim aproveitar a distracção e a posição vulnerável daquele homem. Agarrou-o pelos pulsos e, com um movimento único e suave, arrastou-o de volta para a sala de reuniões. Que diabo está a fazer?, inquiriu Gifford, perplexo, deixando cair o cigarro dos lábios.
Não faça barulho e isto será mais fácil, replicou Cole. Manteve o sujeito preso com a mão esquerda enquanto com a direita fechava tranquilamente a porta atrás deles. E agora sente-se. Atirou o homem para uma das cadeiras recentemente desocupadas e situada em redor da enorme mesa de reuniões. Gifford estava indignado. Aquele indisciplinado não só o tratara com rudeza como lhe havia torcido o pulso. Fora de si, puxou as mãos contra o peito e esfregou-as para aliviar a dor. Enquanto girava na cadeira para encarar o seu atacante, pôs-se a arengar: aviso-o já, caro jovem, que não sou o tipo de pessoa que fica sentada e aceita este… Abandonou o discurso retórico a meio quando deu a volta por completo e conseguiu ver as mãos do seu agressor, que acabava de enroscar o silenciador a uma Glock 32 de calibre .357 SIG. Sei perfeitamente quem você é, senhor Gifford ,replicou Cole sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça. É por isso que estou aqui.
A cólera condescendente e a sensação de superioridade de Gifford foram substituídas pelo terror e pela impotência. O que..., o que quer?, indagou sem tirar os olhos da arma. Este momento, respondeu Cole, que destravou a arma mal colocou o silenciador. Este momento é tudo o que desejo. Não entendo, proferiu Gifford, horrorizado, empurrando instintivamente a cadeira para trás, como se assim conseguisse alguma protecção contra a ameaça que tinha diante de si. O que quer…, de mim? Apenas isto, respondeu Cole. Não quero nada mais. Não se trata de um interrogatório nem de um rapto. Então, do que se trata? Cole ergueu por fim o olhar e fixou-o nos olhos aterrados de Burton Gifford. É o fim. Não..., não entendo. Sim, já imaginava que não ia compreender, declarou Cole, e disparou três balas ao coração de Gifford, que acabaram com a conversa. O ombro direito de Cole suportou o recuo da pistola e os disparos abafados pelo silenciador ecoaram ligeiramente na enorme sala. Gifford ficou de boca aberta ao ver o rasto de fumo sair do cano da arma donde foram disparadas as três balas que se encontravam alojadas na parte superior do seu corpo. Abateu-se sobre a cadeira quando o sangue começou a escorrer das feridas do peito e das costas. Cole viu-o exalar o último suspiro e desapareceu nas sombras». In A. M. Dean, O Bibliotecário, A Biblioteca Perdida, 2012, tradução de Dina Antunes, Clube dos Livros, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Os Abutres do Vaticano. Eric Frattini. «A luta intestina e sangrenta, aberta no seio do Sacro Colégio Cardinalício, é uma das frentes abertas com que o papa se debate actualmente. Na guerra desencadeada pelos cardeais…»

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«A 19 de Abril de 2005, o cardeal Joseph Àloisius Ratzinger era eleito novo Sumo Pontífice, três dias depois de celebrar o seu septuagésimo oitavo aniversário e após dois dias de conclave e igual número de fumos negros. Imediatamente após a sua eleição, durante o encontro informal com aqueles que tinham sido os seus mais estreitos colaboradores na Congregação para a Doutrina da Fé, o já papa Bento XVI disse: … esperava retirar-me pacificamente e, até certa altura, disse a Deus, por favor, não me faças isto... É evidente que, desta vez, Ele não me ouviu. O cardeal Ratzinger tinha repetido em várias ocasiões que gostaria de se retirar para uma tranquila aldeia bávara, para se dedicar à escrita de livros de filosofia, ainda que alguns membros da cúria próximos de si o tivessem ouvido dizer que estava pronto para qualquer função que Deus me queira atribuir. É claro que Bento XVI pertence a essa grande tradição que demonstra o carácter provisório das decisões no interior dos muros do Vaticano. O que o novo Pontífice não sabia naquele momento era que, tal como João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, se iria deparar com um osso duro de roer: o IOR (Instituto para as Obras Religiosas) ou Banco da Vaticano.
Hoje em dia, como há séculos, adequar-se-ia na perfeição uma frase que um bom amigo e importante advogado, especialista em Direito Canónico e conhecedor das intrigas do Vaticano, me disse em certa ocasião: … nunca te esqueças, caro Eric, que, para o Vaticano, tudo o que não é sagrado é secreto. Não restam dúvidas de que tinha razão. Apesar de o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Tarcisio Bertone, ter chegado a declarar que alguns jornalistas e escritores divertem-se a imitar Dan Brown, o polémico autor de O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, há que reconhecer que não há nada como meter no mesmo pote mordomos traidores; fugas de documentos; comissões secretas de investigação ao serviço da espionagem e da contraespionagem do Vaticano; prelados que denunciam a corrupção e são, de imediato, afastados de São Pedro; lavagem de dinheiro; altos membros da máfia siciliana; uma conspiração para assassinar o papa; uma adolescente desaparecida e, supostamente, usada como escrava sexual; uma guerra entre jornalistas e directores da imprensa católica; um presidente cessante do IOR com medo de ser assassinado..., e temperar a mistura com um intrigante secretário de Estado, para fazer as delícias de qualquer pessoa que queira imitar o famoso escritor norte-americano. E, de facto, no Estado da Cidade do Vaticano, a realidade supera sempre a ficção.
Quando se suprime a justiça, o que são os reinos senão grandes bandps de ladrões?, escreveu Bento XVI na sua primeira encíclica, Deus carita est, em 2005, usando uma frase de Santo Agostinho. Decerto que o novo papa não sabia que, sete anos mais tarde, a imagem pública do Vaticano se ia tornar num precioso assunto de primeira página. Os reveladores de documentos afirmavam, para quem os quisesse ouvir, que o faziam por amor ao Sumo Pontífice, cuja casa pretendiam ajudar a limpar. O vaticanista Sandro Magister destacou num artigo que, embora nenhuma das malfeitorias reveladas nos documentos implique a sua pessoa, o certo é que todas elas recaem inexoravelmente sobre ele. Outros criticaram abertamente o facto de a linha ténue que, no Vaticano, separa os actos ilícitos dos de pura ineficácia ser hoje quase inexistente. Não existem uns sem outros.
A luta intestina e sangrenta, aberta no seio do Sacro Colégio Cardinalício, é uma das frentes abertas com que o papa se debate actualmente. Na guerra desencadeada pelos cardeais Tarcisio Bertone e Angelo Sodano, actual decano dos cardeais, toma parte, entre outros, o cardeal Attilio Nicora, inimigo do secretário de Estado Bertone desde a época em que Sodano foi secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, na década de 90 do século passado. Entre os críticos de Bertone, consta, entre outros, o poderoso cardeal francês Jean-Louis Pierre Tauran, acérrimo seguidor de Angelo Sodano, ex-secretário de Relações com os Estados da Secretaria de Estado e antigo responsável da Biblioteca do Vaticano e dos Arquivos Secretos. O francês aproveitou todas as oportunidades ao seu alcance para denunciar os falsos movimentos em matéria de política externa levados a cabo por Tarcisio Bertone. De facto, Tauran chegou a criticar abertamente o facto de um homem como Bertone, um homem inexperiente em termos de política externa e diplomacia, ter sido escolhido para secretário de Estado. O cardeal Nicora teve uma carreira bastante activa dentro da Administração do Património da Sé Apostólica (APSA). Foi nomeado para esse cargo em Outubro de 2003 pelo papa João Paulo II, afastado a 2 de Abril de 2005 por Bento XVI, confirmado dezanove dias mais tarde no cargo e demitido em Julho de 2011, ao que parece, por influência de Bertone». In Eric Frattini, Os Abutres do Vaticano, 2012, tradução de Pedro Carvalho, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-252-598-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT