terça-feira, 28 de junho de 2016

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«(…) Lembrei o caso do camaleão. Todos sabem a lenda: Deus enviou o camaleão como mensageiro da eternidade. O bicho demorou-se a entregar aos homens o segredo da vida eterna. Demorou-se tanto que deu tempo a que Deus, entretanto, se arrependesse e enviasse um outro mensageiro com o recado contrário. Pois eu sou um mensageiro às avessas: levo recado dos homens para os deuses. Me estou demorando com a mensagem. Quando chegar ao lugar dos divinos já eles terão recebido a contrapalavra de outrem.
Certo era que eu não tinha apetência para herói póstumo. A condecoração devia ser evitada, custasse os olhos e a cara. Que poderia eu fazer, fantasma sem lei nem respeito? Ainda pensei reaparecer no meu corpo de quando eu era vivo, moço e felizão. Me retroverteria pelo umbigo e surgiria, do outro lado, fantasma palpável, com voz entre os mortais. Mas um xipoco que reocupa o seu antigo corpo arrisca perigos muito mortais: tocar ou ser tocado basta para descambalhotar corações e semear fatalidades. Consultei o pangolim, meu animal de estimação. Há alguém que desconheça os poderes deste bicho de escamas, o nosso halakavuma? Pois este mamífero mora com os falecidos. Desce dos céus aquando das chuvadas. Tomba na terra para entregar novidades ao mundo, as proveniências do porvir. Eu tenho um pangolim comigo, como em vida tive um cão. Ele se enrosca a meus pés e faço-lhe uso como almofada. Perguntei ao meu halakavuma o que devia fazer. Não quer ser herói? Mas herói de quê, amado por quem? Agora, que o país era uma machamba de ruínas, me chamavam a mim, pequenito carpinteiro!? O pangolim se intrigou: não lhe apetece ficar vivo, outra vez? Não. Como está a minha terra, não me apetece. O pangolim rodou sobre si próprio. Perseguia a extremidade do corpo ou afinava a voz para que eu lhe entendesse? Porque não é com qualquer que o bicho fala. Ergueu-se sobre as patas traseiras, nesse jeito de gente que tremexia comigo. Apontou o pátio da fortaleza e disse: veja à sua volta, Ermelindo. Mesmo no meio destes destroços nasceram flores silvestres. Não quero regressar para lá. É que aquele será, para sempre, o teu jardim: entre pedra ferida e flor selvagem.
Me irritavam aquelas vagueações do escamudo. Lhe lembrei que eu queria era conselho, uma saída. O halakavuma ganhou as gravidades e disse: você, Ermelindo, você deve remorrer. Voltar a falecer? Se nem foi fácil deixar a vida da primeira vez! Seguindo a tradição de minha família não deveria ser sequer tarefa fazível. Meu avô, por exemplo, durou infinidades. Com certeza, não morreu ainda. O velho deixava a perna de fora do corpo, dormia junto de perigosas folhagens. Oferecia-se, desse modo, à mordedura das cobras. O veneno, em doses, nos dá mais vivência. Falava assim. E parecia a vida lhe dava razão: cada vez ele ficava mais cheio de feitio e forma. O halakavuma se parecia com meu avô, teimoso como um pêndulo. O bicho insistia-me: escolha um que esteja próximo para acabar. O lugar mais seguro não é no ninho da cobra-mamba? Eu devia emigrar em corpo que estivesse mais perto de morrer. Apanhar boleia dessa outra morte e dissolver-me nessa findação. Não parecia difícil. No asilo não faltaria quem estivesse para morrer. Quer dizer que eu vou ter que fantasmear-me por um alguém? Você irá exercer-se como um xipoco. Deixe-me pensar, disse eu. No fundo, a decisão já tinha sido tomada. Eu fingia apenas ser dono da minha vontade. Nessa mesma noite, eu estava transitando para xipoco. Pelas outras palavras, me transformava num passa-noite, viajando em aparência de um outro alguém. Caso reocupasse meu próprio corpo eu só seria visível do lado da frente. Visto por detrás não passaria de oco de buraco. Um vazio desocupado. Mas eu iria residir em corpo alheio. Da prisão da cova eu transitava para a prisão do corpo. Eu estava interdito de tocar a vida, receber directamente o sopro dos ventos. De meu recanto eu veria o mundo translucidar, ilúcido. Minha única vantagem seria o tempo. Para os mortos, o tempo está pisando nas pegadas da véspera. Para eles nunca há surpresa. No princípio, ainda depositei dúvida: esse hala-kavuma dizia a verdade? Ou inventava, de tanto estar longe do mundo? Há anos que ele não descia ao solo, suas unhas já cresciam a redondear umas tantas voltas. Se mesmo as patas dele tinham saudade do chão, por que motivo sua cabeça não fantasiava loucuras? Mas, depois, eu me fui deixando ocupar pela antecipação da viagem ao mundo dos vivos.
Me enchi tanto desta vontade que até sonhei sem chuva nem noite. O que sonhei? Sonhei que me enterravam devidamente, como mandam nossas crenças. Eu falecia sentado, queixo na varanda dos joelhos. Descia à terra nessa posição, meu corpo assentava sobre areia que haviam retirado de um morro de muchém. Areia viva, povoada de andanças. Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. Não usavam pás. Apenas serviço de mãos. Paravam quando a areia me chegava aos olhos. Então, espetavam à minha volta paus de acácias. Tudo em aptidão de ser flor. E para convocar a chuva me cobriam de terra molhada. Assim eu me aprendia: um vivo pisa o chão, um morto é pisado pelo chão. E sonhei ainda mais: após a minha morte, todas as mulheres do mundo dormiam ao relento. Não era apenas a viúva que estava interdita a abrigar-se, como é hábito da nossa crença. Não. Era como se todas as mulheres tivessem, em mim, perdido o esposo. Todas estavam sujas por minha morte. O luto se estendia por todas as aldeias como um cacimbo espesso. As lamparinas iluminavam o milho, mãos trémulas passavam com o cadinho do fogo entre os espigueirais. Limpavam-se os campos dos maus-olhados. No dia seguinte, mal acordei me pus a abanar o halakavuma. Queria saber quem era a pessoa que ia ocupar. É um que está para vir. Um? Qual? É um de fora. Vai chegar amanhã. Depois, acrescentou: foi pena não me ter lembrado antes. Uma semana antes e tudo estaria já resolvido. Há uns poucochinhos dias mataram um grande, lá no asilo. Que grande? O director do asilo. Foi morto ao tiro. Por motivo desse assassinato vinha da capital um agente da polícia. Eu que me instalasse no corpo desse inspector e seria certo que morreria. Você vai entrar nesse polícia. Deixe o resto por minhas contas. Quanto tempo vou ficar lá, na vida? Seis dias. É o tempo do polícia ser morto». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

A Varanda do Frangipani. Mia Couto. «Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça»

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Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico... In Eduardo Lourenço, 1995

«Sou o morto. Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. A pessoa deve sair do mundo tal igual como nasceu, enrolada em poupança de tamanho. Os mortos devem ter a discrição de ocupar pouca terra. Mas eu não ganhei acesso a cova pequena. Minha campa estendeu-se por minha inteira dimensão, do extremo à extremidade. Ninguém me abriu as mãos quando meu corpo ainda esfriava. Transitei-me com os punhos fechados, chamando maldição sobre os viventes. E ainda mais: não me viraram o rosto a encarar os montes Nkuluvumba. Nós, os Mucangas, temos obrigações para com os antigamentes. Nossos mortos olham o lugar onde a primeira mulher saltou a lua, arredondada de ventre e alma. Não foi só o devido funeral que me faltou. Os desleixos foram mais longe: como eu não tivesse outros bens me sepultaram com minha serra e o martelo. Não o deviam ter feito. Nunca se deixa entrar em tumba nenhuns metais. Os ferros demoram mais a apodrecer que os ossos do falecido. E ainda pior: coisa que brilha é chamatriz da maldição. Com tais inutensílios, me arrisco a ser um desses defuntos estragadores do mundo. Todas estas atropelias sucederam porque morri fora do meu lugar. Trabalhava longe da minha vila natal. Carpinteirava em obras de restauro na fortaleza dos portugueses, em São Nicolau. Deixei o mundo quando era a véspera da libertação da minha terra. Fazia a piada: meu país nascia, em roupas de bandeira, e eu descia ao chão, exilado da luz. Quem sabe foi bom, assim evitado de assistir a guerras e desgraças.
Como não me apropriaram funeral fiquei em estado de xipoco, essas almas que vagueiam de paradeiro em desparadeiro. Sem ter sido cerimoniado acabei um morto desencontrado da sua morte. Não ascenderei nunca ao estado de xicuembo, que são os defuntos definitivos, com direito a serem chamados e amados pelos vivos. Sou desses mortos a quem não cortaram o cordão desumbilical. Faço parte daqueles que não são lembrados. Mas não ando por aí, pandemoniando os vivos. Aceitei a prisão da cova, me guardei no sossego que compete aos falecidos. Me ajudou o ter ficado junto a uma árvore. Na minha terra escolhem um canhoeiro. Ou uma mafurreira. Mas aqui, nos arredores deste forte, não há senão uma magrita frangipaneira. Enterraram-me junto a essa árvore. Sobre mim tombam as perfumosas flores do frangipani. Tanto e tantas que eu já cheiro a pétala. Vale a pena me adoçar assim? Porque agora só o vento me cheira. No resto, ninguém me cuida. Disso eu já me resignei. Mesmo esses que rondam, pontuais, os cemitérios, que sabem eles dos mortos? Medos, sombras e escuros. Até eu, falecido veterano, conto sabedoria pelos dedos. Os mortos não sonham, isso vos digo. Os defuntos só sonham em noites de chuva. No resto, eles são sonhados. Eu que nunca tive quem me deitasse lembrança, eu sou sonhado por quem? Pela árvore. Só o frangipani me dedica nocturnos pensamentos.
A árvore do frangipani ocupa uma varanda de uma fortaleza colonial. Aquela varanda já assistiu a muita história. Por aquele terraço escoaram escravos, marfins e panos. Naquela pedra deflagraram canhões lusitanos sobre navios holandeses. Nos fins do tempo colonial, se entendeu construir uma prisão para encerrar os revolucionários que combatiam contra os portugueses. Depois da Independência ali se improvisou um asilo para velhos. Com os terceiro-idosos, o lugar definhou. Veio a guerra, abrindo pastos para mortes. Mas os tiros ficaram longe do forte. Terminada a guerra, o asilo restava como herança de ninguém. Ali se descoloriam os tempos, tudo engomado a silêncios e ausências. Nesse destempero, como sombra de serpente, eu me ajeitava a impossível antepassado. Até que, um dia, fui acordado por golpes e estremecimentos. Estavam a mexer na minha tumba. Ainda pensei na minha vizinha, a toupeira, essa que ficou cega para poder olhar as trevas. Mas não era o bicho escavadeiro. Pás e enxadas desrespeitavam o sagrado. O que esgravatava aquela gente, avivando assim a minha morte? Espreitei entre as vozes e entendi: os governantes me queriam transformar num herói nacional. Me embrulhavam em glória. Já tinham posto a correr que eu morrera em combate contra o ocupante colonial. Agora queriam os meus restos mortais. Ou melhor, os meus restos imortais. Precisavam de um herói mas não um qualquer. Careciam de um da minha raça, tribo e região. Para contentar discórdias, equilibrar as descontentações. Queriam pôr em montra a etnia, queriam raspar a casca para exibir o fruto. A nação carecia de encenação. Ou seria o vice-versa? De necessitado eu passava a necessário. Por isso me covavam o cemitério, bem fundo no quintal da fortaleza. Quando percebi, até fiquei atrapalhaço. Nunca fui homem de ideias mas também não sou morto de enrolar língua. Eu tinha que desfazer aquele engano. Caso senão eu nunca mais teria sossego. Se faleci foi para ficar sombra sozinha. Não era para festas, arrombas e tambores. Além disso, um herói é como o santo. Ninguém lhe ama de verdade. Se lembram dele em urgências pessoais e aflições nacionais. Não fui amado enquanto vivo. Dispensava, agora, essa intrujice». In Mia Couto, A Varanda do Frangipani, 1996, Editorial Caminho, colecção Outras Margens, 2000, ISBN 978-972-211-050-1.

Cortesia de ECaminho/JDACT

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Berequias não é sempre coerente na grafia do português, talvez devido à dificuldade de transcrever a língua da sua terra em caracteres hebraicos»

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco
«(…) Infelizmente, numerosas secções e mesmo simples páginas dos manuscritos de Berequias tinham sido reunidos fora da ordem por alguém manifestamente incapaz de ler o judeu-português. Era de enlouquecer. Levei dois meses para voltar a pôr tudo por ordem. Mas uma vez isso feito, o livro de Berequias Zarco lia-se perfeitamente. Os três manuscritos históricos no seu conjunto formam uma obra única, narrando a odisseia da família de Berequias durante os trágicos acontecimentos de Abril de 1506. Contam, em particular, a perseguição que Berequias moveu ao assassino do seu amado tio Abraão, um famoso cabalista provavelmente responsável por algumas das obras da Escola de Lisboa, até hoje consideradas anónimas, incluindo, por razões que a narrativa torna claras, Batendo às Portas e o Livro do Fruto Divino. São vários os breves relatos da matança que chegaram até nós, incluindo um de Salomão Ben Verga referido por Berequias, e não pode haver dúvidas quanto à veracidade da crónica de Berequias. Todos os principais acontecimentos aí relatados foram confirmados por escritos contemporâneos. Muitas das pessoas mencionadas, como Didi Molcho, João de Mascarenhas e Isaac Ben Farraj são nossos conhecidos através das suas obras assim como através de documentos da Igreja e da Coroa portuguesa. Alguns leitores menos familiarizados com a literatura sefardita e novo-cristã do século XVI poderão estranhar a minha reprodução da história de Berequias sob a forma de um mistério e o uso da linguagem coloquial. Berequias Zarco é, porém, como tantos dos seus contemporâneos, um autor moderno tanto na visão como no estilo. O segundo manuscrito, em especial, manifesta uma técnica directa que se assemelha à da novela picaresca espanhola, que começava a aparecer aproximadamente na mesma época dos manuscritos de Berequias. Curiosamente, muitos dos autores picarescos espanhóis eram também judeus convertidos. Berequias Zarco estava inegavelmente familiarizado com esses contemporâneos castelhanos.
Ao contrário das novelas picarescas, porém, o tom de Berequias quase nunca é irónico e nunca burlesco. Além disso, o seu personagem principal, ele próprio, não é nem um vilão nem um herói. É simplesmente aquilo que Berequias deve ter sido: um jovem inteligente e confuso, que fazia iluminuras, que vendia fruta e era cabalista; um jovem destroçado pela morte de seu tio. A linguagem franca de Berequias recorre a palavrões, afirmações claramente blasfemas e mesmo calão, que tentei manter na íntegra. Parece-me evidente que se a intenção de Berequias tivesse sido a de escrever mais um documento místico ou mesmo um texto histórico mais circunspecto, tê-lo-ia feito. Tinha talento e conhecimentos para tanto. A verdade é que não o fez. Escreveu um mistério em três partes, a última das quais poderia ser considerada pelos críticos contemporâneos como um epílogo. Tendo em atenção o leitor moderno, dividi essas três partes em vinte capítulos. Os capítulos I a VIII correspondem ao primeiro dos manuscritos de Berequias; do IX ao XX, ao segundo manuscrito; e o XXI ao terceiro. Apesar de O último Cabalista de Lisboa ser mais que uma tradução, mantive-me rigorosamente fiel ao conteúdo do escrito de Berequias, a não ser em dois casos: quando ele inclui extensas recitações de orações e de cânticos; e quando faz digressões sobre pontos espirituais associados aos arcanos essenciais relacionados com a Cabala. Apesar de se revestirem de interesse académico, seriam provavelmente dificultosos e aborrecidos para o leitor, e excluí-os por isso da minha transcrição. Do mesmo modo, várias secções foram reordenadas segundo a ordem cronológica, quando antes estavam ligadas segundo a tese espiritual que Berequias procurava demonstrar. Creio que também este facto não altera de modo substancial a obra de Berequias, e a estrutura que adoptei fará certamente mais sentido para o leitor moderno.
De um modo geral, procurei estabelecer um equilíbrio entre a linguagem contemporânea e o uso ocasional de uma ou outra palavra ou frase mais antiga. No seu conjunto, a obra permanece, assim o espero, fiel ao espírito do autor. Berequias não é sempre coerente na grafia do português, talvez devido à dificuldade de transcrever a língua da sua terra em caracteres hebraicos. Por isso mesmo, as transcrições do português são feitas de acordo com as convenções actuais. Sempre que se transcrevem palavras hebraicas, recorre-se aos caracteres latinos, de modo a poderem ser pronunciados pelos leitores americanos e europeus. Os manuscritos de Berequias levantam algumas questões importantes sobre a história dos livros hebraicos na Ibéria. Será a Tora ilustrada que ele descobre na geniza de seu tio a chamada Bíblia de Kennicott, que hoje pertence à Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford? A referência às letras em forma de animal e a Isaac Bracarense (indubitavelmente Isaac de Braga, por quem o manuscrito foi ilustrado) parece indicar nessa direcção. Nada se sabe da história da Bíblia desde a data do seu acabamento em 1476 até à sua aquisição em 1771 por Oxford, a conselho do bibliotecário, Kennicott. Talvez tenha de facto sido salva por Abraão e Berequias Zarco. Quanto à versão hebraica e árabe da Fonte da Vida detida por frei Carlos: teria sido realmente passada para Salónica? Que lhe terá, então, acontecido? Nunca foi encontrado nenhum original árabe, apenas traduções latinas». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Cruzadas, Cécile Morrisson. «… uma peregrinação de cunho militar decidida por um papa que concede a seus participantes privilégios temporais e espirituais e lhes determina o objectivo de libertar o Sepulcro de Cristo, em Jerusalém»

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«O termo cruzada é raro e recente: não aparece no latim medieval antes da metade do século XIII e seu correspondente árabe (hurub assalibiyya = a guerra pela cruz) data somente de 1850. De facto, aos olhos dos orientais, as cruzadas permaneceram durante muito tempo como simples guerras iguais a tantas outras iniciadas pelos francos. Já estes, que eram antes de tudo peregrinos, se consideravam como soldados de Cristo e marcados pelo sinal da cruz (crucesignati, em italiano), sendo a partir desta última expressão que se formou, por volta da metade do século XIII, o termo cruzada (também do italiano cruciata). Os textos medievais em geral designam essas expedições como a viagem de Jerusalém ou o caminho do Santo Sepulcro (iter hierosolymitanum, via Sancti Sepulcri, em latim) e, já no começo do século XIII, quando o movimento se tornou mais regular, sob o nome de passagem (que podia ser a pequena passagem, a grande passagem ou a passagem geral). Subjacente a todas essas expressões se encontra a ideia da peregrinação: Joinville fala sobre a peregrinação da cruz. Ainda no século XIV, quando o Ocidente renuncia de facto, senão de direito, à reconquista de Jerusalém, as cruzadas são referidas pelo nome de viagem a ultramar. Entendemos aqui por cruzada, seguindo a orientação de H. E. Mayer e J. Richard, uma peregrinação de cunho militar decidida por um papa que concede a seus participantes privilégios temporais e espirituais e lhes determina o objectivo de libertar o Sepulcro de Cristo, em Jerusalém. É neste sentido que o termo foi compreendido pelos autores que escreveram sua história a partir do século XV mas o empregaram principalmente a partir do século XVII: em 1611, Bongars reuniu os principais textos latinos que se referiam a elas em seu livro Gesta Dei per francos, enquanto Maimbourg publicava sua História geral das cruzadas em 1682; ao mesmo tempo, pela metade desse século, a edição do Corpus dos historiadores bizantinos (chamada de Bizantina do Louvre) tornou conhecida no Ocidente a obra dos autores gregos da época das cruzadas. Esse esforço de publicação nem sempre foi explorado pelos estudiosos posteriores de maneira satisfatória. As cruzadas, talvez admiradas demais por Bongars, foram analisadas com paixão oposta por Th. Fuller (History of the Holy Wars [História das guerras santas], publicada entre 1639 e 1647) e por Voltaire, em seu Ensaio sobre os costumes (1756). O termo cruzada tornou-se nessa época um sinónimo de guerra santa, patrocinada pela Igreja Católica não importa por que motivo fosse, e, logo a seguir, de manifestação de fanatismo. O século XIX, com seu interesse renovado pelo Oriente e pelo cristianismo medieval, foi mais favorável às cruzadas, consideradas novamente em seu sentido estrito original. Os primeiros historiadores modernos das cruzadas, que utilizaram ao mesmo tempo as fontes latinas, gregas e árabes, foram alemães (Wilken, em 1807, e Sybel, em 1841). Na França, a História das cruzadas de Michaud (1829), favorável às ações dos franceses no Oriente, foi acompanhada por uma Biblioteca das cruzadas, formada por excertos das crónicas europeias ocidentais, gregas, árabes e turcas e seguida pela publicação, realizada pela Academia Francesa das Inscrições, de sua monumental Colectânea das histórias das cruzadas (publicada entre 1841 e 1906). No final do século XIX, a Sociedade do Oriente latino publicou numerosos outros materiais em seus Arquivos e, em sua Revista, novas pesquisas críticas realizadas por historiadores alemães e franceses. Com base nessas pesquisas, os estudiosos do século XX puderam publicar diversas sínteses: a de R. Grousset (1934-1936), muito influenciada por referências à presença francesa na Síria; a de S. Runciman (1951-1954), mais objectiva e de cunho menos europeu; e, finalmente, uma história de autoria colectiva empreendida pela Universidade da Pensilvânia e publicada entre 1969 e 1989, ao mesmo tempo em que A. Dupront analisou, seguindo o modelo de P. Alphandéry, todos os componentes religiosos da ideia e do mito das cruzadas. A maior parte desses estudos confunde a história das cruzadas com a história dos países do Oriente latino, as quais, de facto, estão interligadas directa ou indirectamente. Sem ignorar os laços que as unem, preferimos nos limitar à história das cruzadas propriamente ditas e à dos pequenos países criados pelos cruzados na Síria e na Palestina, que acabaram por se tornar o seu objectivo essencial. Foram esses que o cardeal de Óstia, por volta de 1260, denominou de Cruzada do Ultramar (transmarina) que, segundo ele, tinha a mesma natureza que a Cruzada Cismarina, dirigida contra os inimigos da Igreja na Europa. Lembramos aqui esses desvios para outros objectivos que não a Terra Santa principalmente pela oposição que eles provocaram. Contudo, o aspecto europeu, antigamente negligenciado, é modernamente reivindicado pelos defensores anglo-saxões de uma concepção pluralista das cruzadas (J. Riley-Smith, E. Siberry, N. Housley), para os quais, além disso, elas não se limitaram ao período tradicional, e sim se prolongaram até o século XVIII.
O entusiasmo colectivo provocado pela pregação da Primeira Cruzada surpreendeu até mesmo seu iniciador, o papa Urbano II, e ainda hoje continua a causar espanto. Durante os últimos trinta anos, numerosas pesquisas dedicadas à questão da origem das cruzadas desvendaram seus elementos essenciais, salientando muitas vezes o objectivo principal de cada pesquisa com exclusão dos outros. Podemos, de forma plenamente justificada, salientar as condições sociais e económicas do final do século XI: alto crescimento demográfico, falta de terras cultiváveis, crescimento da economia monetária e das trocas comerciais, início da expansão italiana pelo Mediterrâneo. Em parte, elas explicam e, por outro lado, tornam possível o movimento que impulsiona para o Oriente alguns ocidentais (nobres relativamente desprovidos de terras e multidões de pobres em busca de melhores condições materiais e espirituais). Embora nem de longe neguemos a existência dessas condições, não pretendemos tratar delas aqui. Preferimos salientar o valor dos factores específicos que explicam porque esse entusiasmo pelo Oriente assumiu o formato das cruzadas. Inicialmente, as causas afastadas: as constantes peregrinações individuais a Jerusalém e, igualmente, a doutrina e a prática da justiça das guerras contra os sarracenos. A ideia de cruzada nasceu do encontro dessas duas tradições. Mas, para de facto provocá-la, era preciso algum tipo de catalisador: uma causa próxima ou um pretexto, e esta foi a ideia, amparada em uma profunda ignorância do Oriente, de levar socorro aos cristãos orientais que estavam sendo oprimidos pelos turcos, segundo se acreditava.

As peregrinações a Jerusalém
Durante muito tempo a figura do cruzado foi referida nos textos medievais como a de um peregrino (peregrinus), alguém que realizava uma viagem à cidade santa de Jerusalém. A peregrinação aos lugares santos foi, portanto, um dos elementos primordiais das cruzadas e as definiu quase inteiramente. A Jerusalém terrestre, a montanha santa, a cidade de Deus, colocada no meio das nações, a mãe dos povos permaneceu para os cristãos como o centro do mundo espiritual. Esse lugar se tornou ainda mais santo porque a essa tradição hebraica se acrescentou o desejo de buscar, como escreveu Orígenes, os vestígios de Cristo: a gruta da Natividade, o Calvário e o Santo Sepulcro foram redescobertos na época do imperador Constantino, e sobre esses lugares foram edificadas basílicas, ao mesmo tempo em que a Verdadeira Cruz, a relíquia mais preciosa de todas, se tornou o objecto de um culto particular. Todavia, a peregrinação não era uma obrigação religiosa: São Jerónimo a considerava como um acto de fé, mas reconhecia que não era indispensável; segundo a maneira de pensar de Santo Agostinho, era até mesmo nociva, e a moda que impulsionou algumas damas da corte imperial a passarem uma espécie de férias na Terra Santa foi objecto das críticas mordazes dos padres gregos. Mas a corrente que levava os fiéis à Palestina não foi em absoluto afectada por essas opiniões. Nem o fim do mundo romano e a insegurança que daí surgiu e nem sequer a conquista árabe conseguiram interromper esse movimento; ele persistiu, ainda que atenuado, durante os séculos VII e VIII. As dificuldades sofridas durante a viagem a partir de então pareceram até mesmo fazer parte e reforçar a espiritualidade das peregrinações». In Cécile Morrisson, Cruzadas, Les Croisades, Presses Universitaires de France, L&PM Pocket, 2013, ISBN 978-852-542-948-3.

Cortesia de L&PM Pocket/JDACT

A Armadilha de Dante. Arnaud Delalande. « O carnaval de Veneza remonta ao século X. Durava seis meses ao ano: do primeiro domingo de Outubro até 15 de Dezembro; depois da Epifania à Quaresma»

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Maio de 1756
«Francesco Loredan, príncipe da Sereníssima, 116° doge de Veneza, estava sentado na Sala dei Collegio, onde, em circunstâncias normais, recebia os embaixadores. De quando em quando, levantava os olhos para admirar o imenso quadro de Veronese, A vitória de Lepanto, que enfeitava uma das paredes. Por vezes perdido em pensamentos, movia os olhos em direcção aos revestimentos de ouro do tecto, a Marte e Neptuno, ou Veneza entronizada entre Justiça e Paz, até se achar novamente forçado a concentrar-se no assunto urgente que o preocupava. Era um homem idoso, de rosto enrugado, formando um contraste surpreendente com a veste púrpura. Alguns raros fios de cabelo escapavam-lhe do chapéu ducal. Sobrancelhas e barba brancas contribuíam para dar-lhe à fisionomia um ar patriarcal totalmente adequado às circunstâncias e funções exercidas no seio da República. À sua frente, uma escrivaninha recoberta de um dossel no qual figurava um leão alado mostrando as garras, símbolo de poder e majestade. Ao doge não faltava pompa nas roupas sumptuosas; um manto de tecido ornado com gola de arminho e grandes botões nos ombros, aberto, deixava entrever outro hábito de um tecido mais fino que lhe descia até as pernas cobertas de vermelho. A bacheta, o ceptro simbolizando o poder dogal, repousava displicentemente entre seus braços. As mãos longas e delicadas, ostentando um anel com as armas e a balança veneziana, apertavam nervosamente o relatório da última deliberação do Conselho dos Dez, acompanhado de uma correspondência marcada com o sinete oficial do Conselho. A última reunião acontecera naquela manhã, em circunstâncias excepcionais. O relatório informava Francesco de um assunto no mínimo tenebroso cuja conclusão era: uma sombra passa sobre a República. Uma sombra perigosa, que tem nesse assassinato, Vossa Alteza Sereníssima, nada mais que uma de suas múltiplas manifestações. Veneza encontra-se em situação desesperadora; os criminosos mais odiosos nela penetram como lobos numa selva escura. O vento da decadência paira sobre a cidade: não é mais possível ignorá-lo. O doge limpou a garganta, tamborilando com os dedos a carta. E assim, um drama abominável ocorreu.
O carnaval de Veneza remonta ao século X. Durava seis meses ao ano: do primeiro domingo de Outubro até 15 de Dezembro; depois da Epifania à Quaresma. Por fim, ressurgia na Sensa, a Ascensão. A cidade inteira ocupava-se com os preparativos. As mulheres de Veneza desfilavam pelas ruas: sob as máscaras, exibiam a brancura da pele, iluminadas por adereços, jóias, colares, pérolas e drapejados de cetim, golas de pele e metros de rendas, os seios apertados em corpetes. Os cabelos, daquele louro tão raro, tinham sido arrumados, com o maior esmero, em coques, enrolados em torno de diademas, à sombra de um chapéu, soltos e ondulando numa liberdade calculada, ou então frisados, de várias cores, arrumados em penteados mais inesperados, mais extravagantes. Mascaradas, se faziam de importantes e caminhavam com a cabeça erguida, segundo as regras do portamento, afectando a dignidade da mais alta nobreza. Com seus sumptuosos vestidos e porte elegante, desfilavam com graça e altivez. Nesses tempos de carnaval, não eram elas as mais cobiçadas, as mais ardentemente desejadas, enfim, as mais lindas mulheres do mundo? Essa segurança tranquila servia de fonte de inspiração. Um dilúvio de beleza, um arco-íris de cores sedutoras; uma num vestido de cambraia branca sem transparências, com a barra guarnecida por camadas de renda; outra se adornava com mangas bufantes, em gaze da Itália, um cinto de fitas azuis cujas pontas esvoaçavam ao andar; outra, ainda, usava um grande lenço plissado, com nó no pescoço, abrindo-se em triângulos sobre um vestido estilo andrienne ou saia armada com anáguas, sombrinha na mão. Algumas sustentavam a moretta, a máscara negra, apertando com os dentes a pequena saliência interna introduzida na boca. Adiante, outras alisavam os vestidos, abriam os leques com um movimento do pulso. As cortesãs da mais alta linhagem misturavam-se às moças alegres numa extrema confusão. O Catalogo di tutte le principal e piú onorate cortigiane di Venezia e o tratado La
tariffa delle puttane di Venezia, acompanhados de considerações técnicas acerca dos talentos dessas amantes de uma noite, clandestinamente voltaram a circular». In Arnaud Delalande, A Armadilha de Dante, Editora Record 2009, ISBN 978-850-107-907-7.

Cortesia de ERecord/JDACT

O Anel. Jorge Molist. «Quis vê-lo melhor e tirei-o, colocando-o sob o candeeiro da mesinha de cabeceira. Foi então que aconteceu e fiquei boquiaberta de surpresa. A luz, ao incidir na pedra, encastrada de tal forma que o metal só a sustentava pelos lados»

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«A torre, ferida pelo fogo, derribou a sua massa colossal sobre os infelizes lá em baixo, com um ruído ensurdecedor. A multidão fugia. Uma nuvem de pó e cinza, qual vento do deserto carregado de areia, avançava penetrando pelas ruas, cobrindo tudo com uma capa esbranquiçada. Virei-me na cama. Meu Deus, que angústia! Voltava outra vez a recordação daquela manhã aziaga em que as mais altas torres caíram... Já passou, disse para mim própria, isso já foi há meses; estou na minha cama. Calma, calma. Depois da minha festa de aniversário, Mike tinha ficado a dormir comigo e eu sentia o seu agradável calor junto de mim; respirando pausadamente, satisfeito, relaxado. Acariciei o seu dorso, largo, forte. E, abraçando-o, sosseguei. Os nossos corpos descansavam nus sob os lençóis; apesar da intensidade da paixão, ele tivera forças suficientes para me dizer que continuava a amar-me, depois de me amar; e foi capaz de soltar os galanteios, antes de cair a dormir como uma pedra. E eu também, rendida por um dia tão intenso, fiquei presa por um sonho doce, creio, até que chegaram essas imagens de angústia. Olhei para o despertador. Eram quatro e meia da madrugada de domingo; tinha muito tempo para dormir. Já tranquila, fechei os olhos, mas deparei de novo com a trágica visão do desmoronamento, dos escombros, do pânico das pessoas. O sonho tinha mudado. Já não se passava em Nova Iorque. Não era o desmoronamento das Torres Gémeas. Era qualquer coisa diferente e as imagens e sons chegavam até mim sem que eu pudesse evitá-lo. A multidão gritava. O derrube das torres tinha aberto uma brecha e os homens, empunhando espadas, lanças e balestras, protegidos com capacetes de ferro, cotas de malha e escudos, precipitavam-se, por entre a poeira, para a estreita passagem da muralha, incitando-se uns aos outros. Fundiram-se na bruma suja, no estrondo, e jamais regressaram. Ao fim de pouco tempo, a neblina vomitou uma horda de guerreiros uivantes. Eram muçulmanos e brandiam alfanjes ensanguentados. Ainda com a espada no cinturão, eu era incapaz de lutar; reparava que a minhas forças se esvaíam juntamente com o sangue das minhas feridas abertas. Não podia brandir armas, nem sequer levantar um braço, e apressei-me a procurar protecção. Olhei para a minha mão e ali, no meu sonho, com o seu vermelho profundo, estava o anel de rubi.
Mulheres, crianças e velhos, acarretando fardos, alguns com cavalos, outros com cabras e ovelhas, corriam em direcção ao mar. As crianças choravam aterrorizadas e as lágrimas deslizavam, formando canais nos seus pequenos rostos sujos de pó. Os mais crescidos seguiam as suas mães, e estas levavam pela mão, ou nos braços, os mais pequenos. Com a carga dos assaltantes, esfaqueando os fugitivos, instalou-se o pânico. A multidão gritava, abandonava os seus pertences, alguns deixavam os seus filhos, só queriam escapar. Sem saber para onde. Era terrível, senti muita pena deles, mas não podia socorrê-los. Que seria feito das crianças sem mãe? Talvez salvassem a vida como escravos. Grandes portões de madeira, reforçados com metal, iam-se fechando. Atrás deles, havia protecção, mas a tropa, de espada desembainhada, mantinha a multidão ao largo; só franqueava a entrada a alguns. Os que se amontoavam do lado de fora começaram a implorar em voz alta. Havia empurrões, prantos, súplicas, insultos. Os guardas gritavam para que se separassem, que partissem, que saíssem para o porto. E quando a multidão amontoada quis forçar a passagem, os da entrada começaram a golpear os mais próximos. Pobres infelizes! Como gritavam a sua dor e o seu medo! Abriu-se uma clareira e vi o acesso quase fechado. Sangrava muito e tive medo de morrer ali, entre os gentios desesperados. Cambaleando, lancei-me para as espadas dos soldados. Tinha de passar aquela porta! Levantei-me na cama de um salto. Respirava ofegante e tinha os olhos cheios de lágrimas. Que angústia! Ainda maior do que aquela que senti aquando do atentado às Torres Gémeas. O sonho era para mim ainda mais real do que o sucedido no 11 de Setembro. Não espero que possam entender isso; eu própria, ainda hoje, não o entendo totalmente. Mas uma imagem final ficou-me gravada na mente. O homem que comandava os sicários da porta vestia de branco e no seu peito brilhava a mesma cruz que estava pintada na parede da fortaleza. Aquela cruz..., fazia-me lembrar qualquer coisa. Voltei-me para Mike à procura de amparo. Estava agora de boca para cima e continuava a dormir feliz, com um rosto angelical e meio sorriso na face. De certeza que os seus sonhos e os meus eram muito diferentes. Eu não podia partilhar a sua paz; aquele anel, não o dele, mas o outro, deixava-me inquieta. Disse antes que estava nua. Não totalmente. Na minha mão, cintilavam os dois anéis. Não estava habituada a dormir com jóias, mas depois de me habituar, não tirei o anel de diamante puro, símbolo do nosso amor, da minha promessa, da minha nova vida. Ainda não sei por que motivo também estava deitada na cama com o outro anel. Esse, o do meu pesadelo. Esse anel obcecava-me assim tanto a ponto de me aparecer nesse sonho trágico?
Quis vê-lo melhor e tirei-o, colocando-o sob o candeeiro da mesinha de cabeceira. Foi então que aconteceu e fiquei boquiaberta de surpresa. A luz, ao incidir na pedra, encastrada de tal forma que o metal só a sustentava pelos lados, projectava uma cruz vermelha nos lençóis brancos. Era lindo, mas inquietante, era uma cruz muito singular; tinha os quatro braços iguais, mas abriam-se nas suas extremidades formando dois pequenos arcos, dilatando-se no final. Naquele momento, apercebi-me: era a mesma cruz do sonho! A do uniforme dos soldados que carregavam contra a multidão, a que estava pintada na parede da fortaleza. Fechei os olhos e respirei fundo. Não podia ser. Estaria ainda a sonhar? Quis acalmar-me e, apagando a luz, procurei refúgio junto de Mike, que, a dormir, tinha-se voltado de costas. Abracei-o. Isso tranquilizou-me um pouco, mas os meus pensamentos continuavam a toda a velocidade. Tudo o que dizia respeito àquele anel era misterioso: a forma como tinha chegado até mim, a sua aparição no meu sonho, a visão dessa cruz antes de a descobrir também no anel... Disse para mim que aquela jóia tinha uma história para contar, não era uma prenda qualquer, escondia alguma coisa...» In Jorge Molist, O Anel, Ésquilo, Lisboa, 2004, ISBN 972-860-543-9.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

O Segredo do Anel. Kathleen McGowan. «E, embora a comunidade convivesse em profunda paz espiritual, tinha sua quota de inimigos. Roger-Bernard gostava de dizer que a luz maior atrai as trevas mais profundas. Era quase um gigante…»

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«Não restava muito tempo. A velha puxou o xaile esfarrapado em torno dos ombros. O Outono chegara mais cedo às montanhas vermelhas naquele ano e ela podia senti-lo nos ossos. Suavemente, devagar, flexionou os dedos, desejando que as juntas enrijecidas relaxassem. As mãos não podiam lhe faltar agora, não com tanta coisa a fazer. Tinha de acabar de escrever naquela noite. Tamar chegaria em breve com os jarros e era preciso que tudo estivesse pronto. Ela permitiu-se um longo suspiro, meio trêmulo. Sinto-me cansada há muito tempo. Tempo demais. Aquela missão final, ela sabia, seria a última que teria neste mundo. Os dias passados em recordação haviam drenado a vida que ainda pulsava no corpo sem viço. Os ossos velhos estavam sobrecarregados pelo inexprimível pesar e cansaço daqueles que sobrevivem às pessoas amadas. As provações a que Deus a submetera haviam sido muitas e rigorosas. Somente Tamar, a única filha mulher e a última criança viva, permanecia com ela. Tamar era sua bênção, o lampejo de luz naquelas horas tenebrosas, em que lembranças mais aterradoras do que pesadelos recusavam-se a ser contidas. Sua filha era agora a única outra sobrevivente do Grande Tempo, embora fosse apenas uma criança, quando todos desempenharam seu papel na história viva. Ainda assim, era um conforto saber que havia alguém que lembrava e compreendia. Os outros haviam partido. A maioria morrera, martirizada por métodos brutais demais para serem suportados. Talvez alguns ainda sobrevivessem, dispersos pelo vasto mapa do mundo de Deus. Ela nunca saberia. Muitos anos já haviam passado desde que recebera as últimas notícias dos outros, mas, de qualquer forma, orava por eles e orava do amanhecer ao anoitecer, naqueles dias de recordações muito intensas. Gostaria de ter em seu coração e alma a paz, que eles não sofressem a agonia dos milhares de noites insones. Era verdade, Tamar se tornara seu único refúgio naqueles anos de crepúsculo. Ela era jovem demais para recordar os terríveis detalhes do Tempo das Trevas, mas já tinha idade suficiente para lembrar a beleza e a graça das pessoas que Deus escolhera para trilharem Seu caminho. Ao dedicar sua vida à memória daqueles eleitos, o caminho de Tamar fora de puro amor e serviço. A singular dedicação da jovem a confortar a mãe, naqueles dias finais, fora extraordinária. Deixar minha amada filha é a única coisa difícil que me resta fazer. Mesmo agora, quando a morte vem me buscar, não posso aceitá-la de bom grado. E, no entanto… Ela espraiou seu olhar da entrada da caverna, que tinha sido seu lar por quase quarenta anos. O céu estava claro. Ela ergueu o rosto enrugado para contemplar a beleza das estrelas. Nunca deixara de se sentir maravilhada com a criação de Deus. Em algum lugar, além daquelas estrelas, as almas que mais amara neste mundo aguardavam-na. Podia senti-las agora, mais próximas do que em qualquer outro momento anterior. E podia senti-Lo. Seja feita a Sua vontade, sussurrou ela para o céu nocturno. A velha virou-se, devagar, determinada, e tornou a entrar na caverna. Respirou fundo, pegou o pergaminho áspero, os olhos contraídos na claridade mínima e enfumaçada de um lampião de óleo. Pegou o estilo e recomeçou a escrever, com todo o cuidado. … Tantos anos transcorridos e não tornou-se mais fácil agora escrever a respeito de Judas Iscariotes do que naqueles dias sinistros. Não porque eu dele fizesse qualquer julgamento, mas justamente porque não fazia. Contarei a história de Judas, e tenciono fazê-lo com justiça. Era um homem intransigente em seus princípios, e aqueles que nos seguem disso devem saber: ele não os traiu, nem a nós, por um saco de moedas de prata. A verdade é que Judas era o mais fiel dos doze. Muitas foram minhas razões para a dor ao longo dos anos que já se passaram, e, mesmo assim, considero que há apenas Um e Único cuja perda lamento mais do que a de Judas. Há muitos que me coagiriam a escrever o pior possível em relação a Judas…, a condená-lo como um traidor, alguém que não enxergava a verdade. Porém não permito-me escrever nenhuma dessas coisas, pois mentiras seriam antes mesmo que a pena tocasse o pergaminho. Muitas serão as mentiras escritas sobre o nosso tempo. Deus assim me revelou. Nego-me, pois, a escrever qualquer outra. Afinal, qual é o meu propósito, se não o de relatar toda a verdade dos acontecimentos daquele tempo? In O Evangelho de Arques segundo Maria Madalena. O Livro dos Discípulos

Marselha. Setembro de 1997
Marselha sempre fora, séculos afora, um lugar marcado pela morte. O lendário porto mantinha a reputação de covil de piratas, contrabandistas e assassinos, desde a época em que os romanos tomaram a cidade dos gregos, antes de Cristo. Ao final do século XX, os esforços do governo francês no combate ao crime na cidade finalmente permitiram que se saboreasse uma bouillabaise sem o medo de ser assaltado. Não que o crime chocasse seus habitantes. A violência estava enraizada em sua história e genética. Os calejados pescadores nem piscavam quando suas redes pegavam alguma coisa mais consistente do que frutos do mar. Roger-Bernard Gelis não era um nativo de Marselha. Nascera e fora criado nos contrafortes dos Pirenéus, numa comunidade que sobrevivia, orgulhosa, ao seu anacronismo. O século XXI não ameaçava sua cultura, muito antiga, que reverenciava os poderes do amor e da paz acima de todas as coisas terrenas. Mesmo assim, ele era um homem de meia-idade com alguma experiência do mundo, pois era o líder de seu povo. E, embora a comunidade convivesse em profunda paz espiritual, tinha sua quota de inimigos. Roger-Bernard gostava de dizer que a luz maior atrai as trevas mais profundas. Era quase um gigante, uma presença imponente para os estranhos. Aqueles que não conheciam a gentileza que prevalecia no espírito de Roger-Bernard podiam confundi-lo com alguém que devia ser temido. Alguém diria, mais tarde, que seus atacantes provavelmente não lhe eram desconhecidos. Ele deveria ter percebido o que poderia acontecer. Deveria ter compreendido que não o deixariam carregar um objecto de valor tão inestimável impunemente. Afinal, um milhão de seus ancestrais não haviam morrido por aquele mesmo tesouro? Mas o tiro fora disparado por trás, estilhaçando seu crânio antes mesmo que ele soubesse que o inimigo estava próximo. O exame de balística seria inútil para a polícia, já que os assassinos não encerraram seus feitos com o ataque. Devia haver vários deles, pois o tamanho e o peso da vítima exigiriam uma certa força para concretizar o dano. Foi um acto de misericórdia Roger-Bernard ter morrido antes que o ritual começasse. Foi poupado da exultação de seus assassinos enquanto se empenhavam na tarefa macabra. Seria possível imaginar um fervor especial nas acções seguintes, embaladas pelo antigo mantra de ódio enquanto trabalhavam. Neca eos omnes. Neca eos omnes. Separar uma cabeça humana do resto do corpo é um trabalho difícil e complicado. Exige força, determinação e um instrumento muito afiado. Os assassinos de Roger-Bernard Gelis tinham todas essas coisas e usaram-nas com extrema eficiência». In Kathleen McGowan, O Segredo do Anel, Editora Rocco, 2006, ISBN 853-252-096-0.

Cortesia de ERocco/JDACT

domingo, 26 de junho de 2016

O Castelo de Papel. Mary del Priore. «Os netos não teriam outro destino. As festas acabaram com a queda de Luís Filipe em 1848. Mas, mesmo fora do poder, os jovens teriam que fazer valer a tradição militar da família»

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«O jovem apoiou-se na janela do Lake Hotel. Juncos e caniços encobriam uma parte do lago. Secos e amarelos no Verão, ao entrechocar-se ao menor sopro de ar, faziam um ligeiro ruído de ossos. O céu de um azul lavado, os bosques de carvalho e o vento das charnecas irlandesas compunham o resto da paisagem. Ele pensava, sonhava, se angustiava. Acabara de decidir que ia visitar o distante Império do Brasil. Talvez se casasse por lá. Poria fim à dúvida que o roia por dentro. Era o dia 27 de Julho de 1864. Seu nome, Gastão. Tinha 21 anos e estava em visita com seu pai, o duque de Nemours, às barracas ou acampamentos militares em Cork. Antes visitaram Limerick, em cujas casas nobres conhecera moças muito belas e onde dançara danças de sociedade. A torre da igreja de São João, a mais alta da Irlanda, erguia-se orgulhosa. E, nas águas do rio Shannon, jovens se exercitavam no remo. Era a estação dos lacaios, champagne e festas nos palacetes derramados sobre os parques incrivelmente verdes. Um recém-inaugurado corredor de linhas férreas cruzava os campos cobertos por onde passaram, por séculos, vikings e normandos. No porto, percorreram os edifícios de calcário vermelho, em estilo georgiano. No cais, os emigrantes se amontoavam, com seus fardos, ventres vazios e pés descalços, à espera do próximo brigue de casco profundo: o veloz clipper cutty. Ele não deixou de observar que a população do país sangrava: nos últimos vinte anos, fugindo da fome e da pobreza, milhares de irlandeses haviam cruzado o Atlântico na direcção dos Estados Unidos. A viagem à Irlanda não era só turismo, hábito inaugurado havia poucas décadas. Tinha a ver com o modelo de educação que se exigia, então, dos jovens membros da nobreza: o do militar viril. A valorização da honra ao longo das guerras revolucionárias, as vitórias de Napoleão, tudo isso fazia dos soldados os depositários de um sentimento que era a divisa da Legião de Honra, a mais alta condecoração da França: Honra e Pátria. O respeito pelo uniforme não era vão. Fazer parte da vida militar era incorporar a defesa dessa virtude cardeal. Mais: era lutar contra uma sociedade burguesa, decadente e efeminada. Os membros da família Orleans representavam como ninguém esse lema. Sinónimo de superioridade, de força e energia, seu comportamento se traduzia por meio de leis que lhes garantiriam liberdades na vida pública e poder na vida doméstica. Conhecer as casernas de Cork fazia parte da agenda. Mas estava na hora de mudar de pele. E, agora, Gastão precisava começar os preparativos para a grande operação que não seria nada alegre, como se queixou à avó, Maria Amélia, rainha dos franceses, exilada na Inglaterra. A notícia chegou enquanto ele desfrutava de uma real licença do Exército espanhol para visitar a família. Exilado em Claremont, desde a queda do avô Luís Filipe de Orleans, o clã passou os últimos anos no castelo emprestado pela rainha Vitória. Ali, Gastão riu e chorou: brincou nos parques e enterrou a mãe e o avô. Havia cerca de quatro anos, porém, ele servia nas fileiras do Exército espanhol, em Segóvia. Tanto o avô quanto o pai, tios e primos eram militares de carreira e, mais do que isso, apaixonados pela vida da caserna. Botas, uniformes e espada à cinta eram indumentárias usuais na corte de Luís Filipe. O pai de Gastão, Luís, duque de Nemours, junto com os tios, Henrique, duque de Aumale, e Francisco, príncipe de Joinville, fizeram uma campanha irreprochável na Argélia, responsabilizando-se pela tomada de Constantina, cidade onde se concentravam as forças de resistência nacionalista. Já o primogénito Fernando, duque de Orleans, dito o Belo, foi o responsável pela conquista de todo o interior daquele país. Dos Orleans dizia-se que não tinham medo e traziam o diabo no corpo! Essa campanha terminou com a anexação da Argélia à França e com a criação dos departamentos franceses de além-mar. A popularidade dos filhos do rei dos franceses era visível nos aplausos que recebiam por onde passavam. Heróis de guerra, não venciam os convites para festas e comemorações. Os netos não teriam outro destino. As festas acabaram com a queda de Luís Filipe em 1848. Mas, mesmo fora do poder, os jovens teriam que fazer valer a tradição militar da família.
Em 1858, durante a guerra entre a Áustria e o Piemonte, houve uma tentativa de colocar Gastão nas fileiras do Exército da Sardenha, que tinha à frente o rei Vítor Manuel II e em que o primo-irmão Roberto, duque de Chartres, servia na cavalaria dos Dragões. Em vão. Napoleão III não aceitava tantos dos seus piores inimigos, os Orleans, defendendo os interesses da França nas revoluções que então varriam a Europa. Outro primo, o duque de Penthièvre, entrou na escola naval de Anápolis, nos Estados Unidos, sendo rapidamente promovido a tenente, enquanto servia na corveta John Adams. Nesse mesmo ano de 1864, o conde de Paris escrevia à família comunicando que estava afeito ao Estado-Maior do general McClelland, em plena guerra civil americana. Seu irmão, Luís Filipe, encontrava-se com ele no que ambos chamavam, entusiasmados, de a grande máquina militar. Sob chuva e frio, se incumbiam de missões cada vez mais difíceis. Eram aristocratas lutando em favor das ideias republicanas e adorados pelos generais americanos. Sobre eles, choviam elogios. O tio, príncipe de Joinville, estava lá para acompanhar as manobras e colher os aplausos. Leitor de Os príncipes militares da Casa de França, Gastão, porém, ainda não encontrara uma oportunidade para figurar na galeria de sucessos ao lado dos primos. Foi então que Nemours voltou-se para o irmão, António, o duque de Montpensier, casado com Luísa de Espanha, irmã da rainha Isabel II. A guerra entre a Espanha e o Marrocos, em Outubro de 1859, dava a oportunidade ao jovem Gastão de entrar na carreira de armas. No final do ano e na condição de alferes, ele foi alistado no Regimento de Hussardos da Princesa e 19º de Cavalaria, com a paga de quinhentos reais por mês. Em fins de Janeiro de 1860, atravessou o estreito de Gibraltar e desembarcou em Tetuan, cidade de mirantes, terraços e torre mourisca, na qual tremulava a bandeira vermelha e amarela da Espanha». In Mary del Priore, O Castelo de Papel, Editora Rocco, Wikipedia, 2013, ISBN 978-853-252-824-7.

Cortesia de ERocco/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «Um dos livros que escapou de ser banido foi um romance clássico do século XIX, “A cabana do pai Tomás”. Enquanto estava sendo examinado pelos inquisidores em Roma…»

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Não Lerás
«(…) Indiscutivelmente, o julgamento mais infame da Inquisição (maldita) foi o do astrónomo Galileu Galilei. Nascido em 1564 em Pisa, Itália, Galileu decidiu estudar medicina. Matriculou-se na Universidade de Pisa em 1581, mas logo mudou seus interesses científicos e começou a estudar física e matemática. Entre suas experiências, dizem (mas não há confirmação), estava a tomada de seu pulso para cronometrar as oscilações de uma lâmpada pendurada no tecto da catedral de Pisa. Em suas experiências posteriores, descreveu a física do pêndulo. Jogando bolas de pesos variados do alto da Torre de Pisa, descobriu que caíam com a mesma velocidade e aceleração uniforme. Obrigado por razões financeiras a abandonar a universidade sem obter um diploma, voltou para Florença, mas acabou retornando à universidade como professor e tornou-se figura actuante nas discussões e controvérsias do campus. A rebeldia inerente a Galileu chamou a atenção da faculdade e dos estudantes quando ele zombou do costume de se usarem túnicas académicas, declarando que seria melhor abandonarem as roupas completamente. Após a morte do pai em 1591, tornou-se o responsável pelo sustento de sua mãe e irmãos; por isso aceitou um posto na Universidade de Pádua, que lhe garantia uma remuneração melhor.
Aí ficou por dezoito anos, enquanto ampliava seu interesse pela astronomia, modificando um telescópio simples para poder estudar as montanhas da Lua, as fases de Vénus, as luas de Júpiter, pontos na superfície do Sol e as estrelas da Via Láctea. Ao publicar suas descobertas em um livreto intitulado Mensageiro sideral ou Mensagem sideral (Sidereus nuncius), sua reputação científica subiu como um foguete. Suas observações retomaram o interesse pelas teorias propostas em 1543 por Nicolau Copérnico, segundo as quais o Sol era o centro do universo e a Terra era um planeta giratório que o circundava. Ao abraçar as ideias de Copérnico, Galileu colocou-se em conflito com a doutrina da Igreja sobre a Criação, baseada no relato do Génesis. Conhecida como geocentrismo, essa teoria colocava a Terra como centro do universo e o Sol e as estrelas circulando ao seu redor. Tendo declarado em 1616 que a visão de Copérnico era perigosa para a fé, a Igreja convocou Galileu a ir à cidade de Roma onde recebeu instruções do cardeal Roberto Belarmino para não abraçar, ensinar e defender de maneira alguma, com palavras ou em textos, a doutrina de Copérnico. Foi uma advertência séria. Mas, quatro anos depois, Galileu descobriu que o papa, Urbano VIII, havia declarado que a Sagrada Igreja não tinha condenado e não condenaria a doutrina de Copérnico como herética, mas apenas como temerária, embora não houvesse possibilidade de alguém demonstrar que era necessariamente verdadeira.
Interpretando essas palavras como permissão indirecta para continuar suas pesquisas sobre a visão de Copérnico, Galileu mergulhou nos estudos por seis anos. O resultado foi uma defesa vigorosa de Copérnico em Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo. Ao publicá-lo, Galileu teve que ir novamente a Roma, acusado de desafiar as instruções do cardeal Belarmino. O julgamento por um conselho de cardeais começou no Outono de 1632. Ao concluir o inquérito, um ano depois, a Igreja declarou Galileu suspeito de heresia por ter sustentado e acreditado na falsa doutrina de que a Terra não era o centro do universo. Os cardeais informaram a Galileu, nessa época com setenta anos de idade, que o Santo Ofício (maldito) estava disposto a absolvê-lo desde que ele, com coração sincero e fé não dissimulada, em nossa presença abjure [repudie], amaldiçoe e despreze tais erros e heresias. Declarando proibido o Diálogo, o conselho de juízes o condenou à prisão no Santo Ofício ao nosso bel-prazer. Mas reservaram o poder de moderar, comutar ou revogar a sentença. O que eles fariam dependeria da disposição de Galileu de se ajoelhar diante deles para abjurar. Admitindo em 21 de Junho de 1633 que havia desafiado o aviso de não falar ou escrever em defesa de Copérnico, ele disse: abjuro com coração sincero e fé não fingida esses erros e heresias, e os amaldiçoo e desprezo, e juro no futuro não dizer nem afirmar verbalmente, ou por escrito, o que possa lançar sobre mim suspeitas semelhantes.
Depois de um período de confinamento, Galileu recebeu permissão para voltar à sua casa, perto de Florença, onde viveu recluso, debilitado, e acabou praticamente cego. Ele morreu em 8 de Janeiro de 1642. Os relatos de sua submissão à Igreja, publicados mais de um século depois, contêm uma declaração que pode ser uma lenda. Ao erguer-se depois de ter abjurado, ele teria dito Eppur si muove (E, no entanto, [a Terra] se move). Em Novembro de 1992, em uma cerimónia em Roma, diante da Pontifícia Academia de Ciências, o papa João Paulo II declarou oficialmente que Galileu estava certo. A reabilitação formal baseou-se nas descobertas de um comité da academia formado pelo papa em 1979, logo após assumir o cargo. O comité decidiu que a Inquisição havia agido de boa-fé, mas estava errada. Actualmente o Vaticano tem seu próprio observatório astronómico. O Vaticano observou que os arquivos da Inquisição e o Índex não sobreviveram bem aos séculos. Como a Igreja tinha a tradição de queimar muitos dos arquivos com heresias mais delicadas, e o arquivo da Inquisição havia sido quase inteiramente queimado quando o papa Paulo IV morreu, em 1559, muitos documentos se perderam. Alguns foram levados para Paris sob o domínio de Napoleão em 1810 (…) e mais de 2 mil volumes foram queimados. Alguns caíram nos rios durante o transporte, outros foram vendidos como papel ou se misturaram com outros arquivos. O Vaticano possui actualmente cerca de 4,5 mil volumes, dos quais apenas uma pequena parte se refere aos julgamentos de heresias. O resto trata de controvérsias teológicas e questões espirituais.
A origem das espécies, de Charles Darwin e base da teoria da evolução, nunca foi banido pela Igreja. Ao contrário de algumas igrejas protestantes fundamentalistas que acatam a Bíblia literalmente quanto ao tema de que Deus criou a humanidade, a Terra e o universo em sete dias, o Vaticano recentemente declarou que é possível que algumas espécies, com a ajuda de um poder superior, tenham conseguido evoluir para as espécies existentes no mundo actual. Noticiando a abertura de uma exposição do acervo do arquivo do Vaticano em 2008, a revista Newsweek observou que a mostra incluía documentos sobre as restrições da Igreja ao movimento dos judeus, instruções para a perseguição dos protestantes. (…) Havia mapas do século XVIII descrevendo os guetos de Roma, Ancona e Ferrara, mostrando onde os judeus podiam viver, em rosa ou amarelo, e em azul onde tinham autorização para manter seus negócios. Havia documentos com regras escritas à mão descrevendo quando as mulheres judias poderiam estar fora das áreas restritas e o que poderiam vestir. Havia desenhos das prisões, longas listas de livros banidos e éditos. (…) Um de 1611 descrevia como os inquisidores deveriam se comportar no trabalho e fora dele, e havia uma ilustração mostrando o que as crianças deveriam usar para ir à escola e à praia. Os investigadores eram informados até dos pijamas aceitáveis. Outros documentos visavam caçadores e pescadores, que estariam invadindo o território do Vaticano. E há uma jóia do século XIX, sobre um homem que foi condenado à morte por afirmar que era santo. Os inquisidores tinham autoridade em áreas que iam da iconografia à forma como as imagens de santos e prelados podiam ser retratadas. Essa não foi a primeira vez que a Igreja tentou mostrar que os juízes da Inquisição não eram tão brutais quanto se acreditava anteriormente. Em 2004, o Vaticano publicou um relatório de 800 páginas declarando que daqueles investigados como heréticos pela notória Inquisição (maldita) espanhola, que era independente de Roma no século XV, apenas 1,8% dos acusados foi realmente executado. No entanto, o papa João Paulo II se referiu à campanha de 700 anos da Igreja contra a heresia como uma fase atormentada e o maior erro da história da Igreja. Um dos livros que escapou de ser banido foi um romance clássico do século XIX, A cabana do pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe. Enquanto estava sendo examinado pelos inquisidores em Roma, que formaram um departamento conhecido como Sagrada Congregação do Índex, um dos leitores do Vaticano considerou a história da escravidão nos Estados Unidos um apelo implícito para a revolução. Quando foi solicitada aos inquisidores uma segunda opinião, eles não consideraram o livro prejudicial, e por isso jamais decretaram sua proibição». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «A mão da mãe perdeu a força, o seu sorriso perdeu-se no canto dos lábios, o seu olhar perdeu-se no vazio. O rapaz implorou de novo, mas não havia nada a fazer por ela. Ficou ali uns minutos…»


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«(…) Vais deixar a tua mãezinha sozinha? O rapaz olhou à sua volta: aqui ninguém te faz mal. A mãe voltou a suspirar e disse, em voz baixa: gostas mais da tua irmã do que da tua mãezinha... O rapaz interrompeu-a: sabes bem que ela não devia ter ficado sozinha com aquele traste. A mãe lançou-lhe um olhar severo, mas baixou ainda mais a voz: olha que é pecado lançar falsos testemunhos. O meu homem não é desses! O rapaz perguntou: então, porque é que estão a demorar tanto? A mãe justificou-se: não vês que há muito movimento? É feriado, há muita gente nas ruas. Tiveram de vir devagarinho... O rapaz não ficou convencido com aqueles argumentos e começou a afastar-se. A mãe ainda perguntou: vais embora e nem me dás um beijinho? O rapaz não pareceu ouvi-la e saiu da igreja, furando entre a multidão que queria entrar para a missa. Tinha dado talvez vinte passos quando um ribombar tremendo se fez ouvir, como se fosse um trovão ou coisa assim, e as pessoas suspenderam as conversas, espantadas. De seguida, a terra começou a tremer debaixo dos pés do rapaz, numa trepidação assustadora, e um novo ruído arrepiante se ouviu, como se alguma coisa descomunal estalasse.
As pessoas gritaram, desesperadas, como se os gritos delas fossem suficientes para pôr termo ao acontecimento, mas pouco depois os gritos deixaram de se ouvir, pois o barulho da terra a tremer era tão intenso que nada mais era audível. O rapaz viu os prédios a abanarem, como se fossem canas ao vento, para cá e para lá, e alguns começaram a rachar. Fora então que olhara para trás, para a Igreja de São Vicente de Fora, e o seu coração enchera-se de pânico ao ver o tecto do edifício abater, caindo para dentro da igreja, para cima da sua mãe. Um grito nascera-lhe nos pulmões e tentou correr, mas a terra não o deixava, não havia equilíbrio, e tropeçou e caiu. Voltou a ouvir os gritos, de pavor, e vinham de todos os lados da praça, das ruas, das janelas, e também da porta da igreja, onde os fiéis estavam apinhados, uns contra os outros, como se não fossem muitos, mas apenas uma massa de gente espalmada. Depois, as portas da igreja saltaram das enormes dobradiças e tombaram sobre os infelizes que ali estavam, e viu sangue, pessoas rasgadas, sem membros, seres a morrerem num segundo.
A poeira apareceu, quase o cegando, ouviu mais estrondos e virou-se para de onde vinha o barulho e viu mais prédios a desmoronarem-se sobre as gentes, que corriam desesperadas, sem saberem para onde ir. O rapaz fez um esforço para pensar no que fazer. Voltar a entrar pela porta principal era impossível, aquilo era só mortos e escombros e aflição humana, não podia ir por ali, e lembrou-se das portas laterais e olhou para lá, mas havia demasiada poeira, não conseguia ver se o caminho estava desimpedido. Mesmo assim correu, agora que o chão parecia ter deixado de tremer. Rodeou a igreja pela esquerda, saltando por cima de infelizes que gritavam misericórdia, tentando não pisar os corpos no chão. Viu uma criança com a cabeça esmigalhada, e a seu lado uma mulher, talvez a mãe, já sem cara, só uma massa vermelha e suja. Viu homens desesperados, como ele, a quererem entrar na igreja, talvez para procurar as suas mulheres e os seus filhos, chocando com os que queriam sair, e todos lutavam uns com os outros, alucinados.
Um indivíduo, coberto de poeira e com sangue no alto da cabeça, deu uns passos na direcção do rapaz, agarrado à perna, urrando de dores, e de repente a perna cedeu, um jacto de sangue jorrou, e o homem perdeu a consciência, tombando sobre o rapaz, que não conseguiu aguentar com o peso e caiu também. O rapaz não se magoou, mas o corpo, em cima das suas costas, impedia-o de se mover. Fora nesse momento que a terra voltara a tremer. O chão onde o rapaz estava deitado abalou, com violência renovada, o barulho voltou a crescer, como se tudo à sua volta estalasse de novo e a terra se rasgasse. E então ele viu que era isso que acontecia na praça, mesmo no local onde estava há minutos. Uma enorme fenda abrira-se no chão e havia seres a deslizarem nos seus bordos, esbracejando em vão, como pequenas baratas a escorregarem numa parede gordurosa. Depois, a igreja caiu. O rapaz nem queria acreditar no que estava a acontecer! A Igreja de São Vicente de Fora, a igreja aonde a mãe estava, caíra! O tecto, as paredes, a nave central, a estrutura do edifício, caíra tudo, desmoronando-se com estrondo, num vendaval de poeira e pedras, soterrando os que estavam lá dentro. O rapaz fechou os olhos e gritou, enquanto a terra tremeu mais algum tempo, e deixou de ouvir, de pensar e de sentir. Apenas cerrou os dentes e pediu a Deus que acabasse depressa com aquilo.
Um estranho silêncio apareceu, um momento de repouso na cólica das entranhas da terra. O rapaz abriu os olhos, e tudo era escuridão, uma nuvem escura de poeira envolvia-o. Por sorte, não estava ferido. Os detritos cuspidos naquela direcção tinham atingido o homem com a perna ferida, e agora parecia morto. Tentou libertar-se e conseguiu. Levantou-se e sentiu dores nas pernas, mas não havia sangue, nem as dores eram tão intensas que o levassem a pensar que partira os ossos. Passou a mão pelas pernas e pelos pés para o confirmar. Depois, olhou para a porta lateral da igreja e soube-se afortunado. Não havia ninguém de pé, as pessoas estavam todas esmagadas pelas pedras ou pelas paredes que tinham caído em cima delas. Nascia um coro de gemidos, de sofrimentos, de moribundos, almas a sofrerem os horrores daquela violência bruta com que a terra os presenteara. O rapaz lembrou-se da mãe e recomeçou a caminhar na direcção do local onde antes existia a Igreja de São Vicente de Fora. Durante muito tempo procurou, no meio dos escombros. Encontrou-a finalmente, coberta de pó e de pedras. Estava ainda viva. O rapaz aproximou-se dela, removendo pedras, e chamou: mãe, mãe! A princípio, ela não o ouviu, nem reagiu, mas uns minutos depois gemeu. Devia estar em grande sofrimento e o rapaz percebeu que ela não conseguia falar. Mãe, sou eu..., disse-lhe. Tocou-lhe com a mão na cara, que estava fria. A mãe esboçou um sorriso. Reconhecera-o. Mãe, disse ele, vou ficar aqui até que nos venham ajudar. Não te vou deixar sozinha... Deu-lhe a mão, mas a mãe não disse nada e o rapaz sentiu o seu coração encher-se de culpa. Tinha-a deixado sozinha, uns minutos antes, e agora estava arrependido. Dissera-lhe que ali ninguém lhe fazia mal e agora a mãe estava a morrer, em agonia. Começou a implorar: desculpa, mãe, desculpa... Não morras... Mas, contou irmã Margarida com um suspiro triste, até um rapaz de doze anos sabia reconhecer a morte quando a via à sua frente. A mão da mãe perdeu a força, o seu sorriso perdeu-se no canto dos lábios, o seu olhar perdeu-se no vazio. O rapaz implorou de novo, mas não havia nada a fazer por ela. Ficou ali uns minutos, junto à mãe a quem ele recusara um último beijo em vida, e depois rezou pela sua alma. Beijou-a na cara e fez-lhe o sinal-da-cruz na testa, e quando a resolução começou a regressar-lhe ao espírito levantou-se e foi procurar a irmã gémea». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, o Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras (Oficina do Livro), 2010, ISBN 978-972-46-1986-6.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

Quando Lisboa Tremeu. 1755. Domingos Amaral. «… durante a madrugada, não se ouvira o ladrar dos cães vadios da cidade. Era como se todos eles se tivessem posto de acordo na ideia de ficarem mudos em simultâneo. O que era invulgar»

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«(…) Dera um salto para a varanda, fugindo de um buraco que se abrira aos seus pés, estilhaçando as madeiras do soalho. Agarrara-se ao varandim, cheio de medo. Era como se toda a sua rua estivesse a cair, os prédios tombavam uns atrás dos outros. Estarrecido, ficou assim uns minutos, não se lembrava quantos. Uma nuvem de pó emergia, envolvendo a cidade. Por momentos, o barulho diminui, mas logo recomeçou, num novo e ainda mais violento abalo. Em pânico, e apesar de agarrado ao varandim, o capitão inglês sentira que nada podia fazer contra aquele monumental sismo. Estava nas mãos de um deus furioso, que o iria destruir, a ele e à cidade de Lisboa inteira. E então o seu prédio caiu também, com Hugh Gold agarrado ao varandim.
Sendo inglês e protestante, o capitão Hugh Gold era naturalmente bastante sarcástico com o que chamava a beatice tonta e acéfala dos portugueses. Por diversas vezes o ouvi, cáustico e cínico, criticar a submissão aos ídolos religiosos e aos frades. Contudo, e apesar de haver um fundo de verdade naquelas afirmações, infelizmente para a cidade de Lisboa e para muitos dos seus habitantes, entre os quais a mulher de Gold, o grande terramoto ocorreu num dia religioso e, pior ainda, à hora da missa. Era sábado, feriado, Dia de Todos-os-Santos, e quando a terra tremeu eram nove e meia da manhã e milhares de portugueses rezavam nas igrejas. Muitos encontraram a morte lá dentro. Talvez para os crentes morrer próximo de Deus até fosse belo, mas para mim era apenas irónico e triste. Também houve quem sobrevivesse, como foi o caso do rapaz. Vou tratá-lo assim ao longo desta história, pois só soube o nome dele quase no fim daqueles dias, e por isso sempre que falávamos com ele, eu ou alguma outra pessoa do nosso estranho grupo, o inglês, irmã Margarida, o meu companheiro árabe, a escrava, chamávamos-lhe simplesmente rapaz. Ó rapaz, onde vais? Ó rapaz, és tão teimoso! O rapaz por onde anda, fugiu outra vez? Nunca deixei de estranhar a sua presença. Não sei explicar porquê, mas alguma coisa nele me causava não só curiosidade, mas também apreensão. Além disso, havia no seu comportamento uma hostilidade para comigo que nunca desapareceu. Antipático, era sempre agreste e arisco quando me dirigia a ele.
Por isso, o que se passou com o rapaz na Igreja de São Vicente de Fora, no dia em que a terra tremeu, não me foi contado por ele, que raramente me dirigia a palavra. Foi a irmã Margarida quem me contou a história do seu sofrimento. Foi através desse relato que tomei consciência da tragédia que vivera, e a partir desse momento compreendi-o melhor e à sua determinação em procurar a irmã. Naquela manhã, antes do terramoto, o rapaz saiu da Igreja de São Vicente de Fora a pensar na sua irmã gémea. Estava preocupado, pois nem ela nem o padrasto tinham ainda chegado para a missa e já havia passado quase uma hora desde que ele saíra de casa com a mãe. Talvez viessem a caminho, próximo da Sé, ou já na subida para o Castelo de São Jorge, e ele se cruzasse com eles à ida para baixo. Ou talvez ainda não tivessem saído de casa... O rapaz não gostava de deixar a irmã sozinha com o padrasto. Ela tinha doze anos, já era uma rapariga com sinais de mulher, e via que o padrasto a comia com os olhos. Para trás, ficava uma igreja repleta de gente, de comerciantes e das suas famílias, que aproveitavam para pôr as conversas em dia. Ouvia-se o riso das comadres, as crianças a brincarem à apanhada, enquanto os cavalheiros fumavam, observando-se uns aos outros e às suas fatiotas. Todos se haviam vestido com propriedade e vaidade, pois aquele era um dia feriado no reino, um dia de festa.
Meia hora passara antes de a missa começar, e a irmã e o padrasto não chegavam. O rapaz sabia que o homem estava cansado, pois na véspera, sexta-feira, haviam ido a Belas os dois, numa caleche, e enquanto o rapaz adormecera no regresso a Lisboa o padrasto não pregara olho. Por isso, deixara-se na sorna, enquanto a mãe se aperaltava para a missa. A irmã gémea alarmara-se quando a mãe lhe ordenara que ficasse para trás e aguardasse pelo padrasto. O rapaz acalmara-a. Sugerira-lhe que, se ele se tornasse desagradável, fugisse para a rua e corresse na direcção da igreja. Gordo como era nunca a conseguiria apanhar. Riram os dois, e o rapaz acrescentara que, além disso, o cão ficaria com ela, o cão negro que só aceitava ordens dos gémeos, pois haviam sido eles que o tinham descoberto na noite da cidade, e eram eles que o alimentavam. Contudo, ao sair para a rua com a mãe, o rapaz não vira o cão. Todas as manhãs, costumava esperar a comida matinal, sereno e calmo, deitado à soleira da porta. Naquela manhã não estava, facto que o rapaz considerou mais um mau pressentimento. Já era o terceiro. Na véspera, em Belas, uma fonte jorrara água com enxofre, ao final da tarde, como se fosse a terra a vomitar a sua última refeição. Depois, durante a madrugada, não se ouvira o ladrar dos cães vadios da cidade. Era como se todos eles se tivessem posto de acordo na ideia de ficarem mudos em simultâneo. O que era invulgar, pois os cães de Lisboa eram muitos e passavam as noites a uivar, percorrendo as ruas à procura de restos de comida. Quando não viu o cão à saída de casa, e com a tendência natural que todas as pessoas têm para pensar apenas no pequeno mundo que os rodeia, o rapaz temeu que algo de mau fosse acontecer a alguém da sua família naquele dia, e a irmã era a sua principal preocupação... Assim, meia hora depois de terem entrado na igreja, o rapaz foi ter com a mãe e anunciou-lhe que ia voltar a casa. Não vais não, agora a missa está quase a começar..., ripostou a mãe, ordenando-lhe que se sentasse num dos bancos corridos da igreja. Senta-te aí quietinho que eu vou já ter contigo. E guarda mais dois lugarzinhos. Não, mãe, disse o rapaz. Vou voltar a casa. A mãe observou-o, ligeiramente incomodada. Era um rapaz teimoso e obstinado, quando metia uma coisa na cabeça. Suspirou: vem cá, meu filhinho. O rapaz aproximou-se dela». In Domingos Amaral, Quando Lisboa Tremeu, Lisboa, 1755, o Dia de Todos os Santos vai mudar a vida de 5 pessoas para sempre, Casa das Letras (Oficina do Livro), 2010, ISBN 978-972-46-1986-6.

Cortesia de Casa das Letras/JDACT

Uma Questão de Fé. A. Borges. «… a Capela de São João Baptista, construída em Roma e, depois, desmantelada e transportada até Lisboa. A jóia de ouro que ainda hoje brilha no interior da Igreja de São Roque, em Lisboa»

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«(…) O rei era grande e gostava de fazer as coisas em grande. Não admira, pois, o tamanho do seu coração... Ao que parece, conheceu a primeira amante logo aos 15 anos. Chamava-se Filipa Noronha e o então príncipe quis casar com ela, mas o pai tinha outros planos. Por imposição de Pedro, João casaria com Maria Ana de Áustria, pouco dotada de beleza, a fazer fé nas crónicas, mas dum carácter inabalável, que tudo haveria de perdoar ao marido ao longo da vida, em nome do sentido de Estado. Foi Fernando Teles Silva, conde de Vilar Maior, o embaixador extraordinário encarregado por Pedro de ir a Viena pedir a mão de Maria Ana, filha do imperador Leopoldo e irmã dos aliados de guerra Carlos e José. Teles Silva chegou à Áustria a 2l de Fevereiro de 1708, reunindo com os imperadores em audiências particulares até chegar a um acordo formal. Depois, vinha o espectáculo. A 7 de Junho, entra na capital, com toda a solenidade e pompa dos cerca de 40 coches, alguns mandados vir, de propósito, da Holanda, cada um puxado por seis cavalos, com destino à cerimónia de apresentação.
A 21 de Junho, no Paço da Favorita, dona Maria Ana era oficialmente pedida em casamento em nome do rei de Portugal. Na circunstância, o embaixador terá entregue à futura rainha um retrato de João V, mas, como se a beleza do rei pudesse não bastar para convencer Maria Ana (e como se a vontade da noiva importasse alguma coisa perante a decisão consumada das famílias), a moldura que enquadrava o óleo estava cravejada de diamantes, um pequeno sinal da sua estima, dir-se-ia... A 9 de Julho, o cardeal da Saxónia celebrava a cerimónia nupcial, ainda sem a presença do noivo, representado pelos seus embaixadores. Por fim, já a 26 de Outubro e depois de um longo cortejo através da Europa, pontuado, a cada paragem, pela realização de uma nova festa comemorativa, João e Maria Ana conheciam-se finalmente em pessoa. A imponente recepção aconteceu no Paço da Ribeira, prolongando-se por três dias e três noites. A 22 de Dezembro, na Sé de Lisboa, a corte inteira compareceu ao Te Deum, derradeira comemoração do casamento real, meio ano depois de a noiva ter dado o sim em Viena. Há casamentos, da cerimónia à separação, que não duram tanto...
Diz-se que o primeiro acto oficial da novíssima rainha de Portugal terá sido mandar Filipa Noronha para a clausura. Essa Filipa que acabara de dar à luz uma menina, sabe-se lá de que pai... O segundo, ser fiel a João V. Para a descrição do que foi a vida conjugal deste casal real, basta regressar ao Memorial do Convento. José Saramago começa o romance precisamente por aí, relatando uma noite como muitas outras, quando João V se deslocou solenemente ao quarto da mulher para lhe tentar fazer um filho, rodeado de criados e rituais e redundando em fracasso. E explica como, durante dois anos, se repetiu diplomaticamente o cerimonial as vezes que foram precisas, até que o rei concretizasse, por fim, o grande objectivo nacional: a produção dum herdeiro. E como, cumprindo a promessa que havia feito perante tantas dificuldades, mandou levantar um colossal convento em Mafra, com um palácio que competisse com Versalhes. E que essa construção se arrastaria pelos anos, consumindo loucamente os recursos do império e sacrificando urna multidão de milhares de operários anónimos. E que, depois, el-rei mandou vir músicos de toda a Europa para compor, de propósito, para os grandes carrilhões que mandara fabricar e instalar ali. E que tudo isto custou 120 milhões de cruzados e ficou como paradigma da megalomania de um rei que os cronistas oficiais preferiram cognominar de o Magnânimo, patrocinador de outras obras faraónicas, como o Aqueduto das Águas Livres, a Torre dos Clérigos, o Solar de Mateus, o Palácio do Freixo, e muitas outras de vocação religiosa, como o escadório do Santuário do Bom Jesus, em Braga, e a Capela de São João Baptista, encomendada aos melhores arquitectos da época, construída em Roma e, depois, desmantelada e transportada até Lisboa, onde seria remontada peça a peça até se transformar na jóia de ouro que ainda hoje brilha no interior da Igreja de São Roque, em Lisboa». In Alexandre Borges, Histórias Secretas de Reis Portugueses, Casa das Estrelas, 2012, ISBN 978-972-46-2131-9.



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