domingo, 20 de dezembro de 2020

Dan Brown. O Símbolo Perdido. «O mural mostra o pai do nosso país usando um tripé e uma polia para assentar a pedra angular do Capitólio em 18 de Setembro de 1793, entre 11h15 e 12h30»

 

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«(…) Interessante, disse Langdon, mas está longe de ser convincente. Se traçar um número suficiente de linhas de intersepção num mapa, obrigatoriamente vai encontrar todo o tipo de forma. Mas não pode ser coincidência!, exclamou o aluno. Com paciência, Langdon lhe mostrou que as mesmas formas podiam ser desenhadas num mapa de Detroit. O rapaz pareceu profundamente desapontado. Não desanime, disse Langdon. Washington de facto tem alguns segredos incríveis..., só que nenhum deles está neste mapa. O jovem se empertigou. Segredos? De que tipo? Todas as Primaveras, eu dou um curso chamado Símbolos Ocultos. Falo muito sobre a capital. Você deveria se matricular. Símbolos ocultos! O caloiro pareceu novamente animado. Então existem mesmo símbolos demoníacos na capital! Langdon sorriu.

Desculpe, mas a palavra oculto, apesar de remeter a imagens de adoração ao demónio, na verdade significa escondido ou velado. Em épocas de opressão religiosa, todo o conhecimento que contrariasse a doutrina tinha de ser escondido ou oculto e, como a Igreja se sentia ameaçada por isso, redefiniu tudo o que fosse oculto como uma coisa má, e o preconceito perdurou. Ah. O rapaz encurvou os ombros. Ainda assim, naquela Primavera, Langdon reconheceu o rapaz sentado na primeira fila no meio dos 500 alunos que enchiam o Teatro Sanders de Harvard, uma antiga sala de conferências cheia de ecos, com assentos de madeira que rangiam.

Bom dia a todos, exclamou de cima do grande tablado. Ligou um projector de slides, e uma imagem se materializou às suas costas. Enquanto se acomodam, quantos de vocês reconhecem o prédio desta foto? O Capitólio dos Estados Unidos!, ecoaram em uníssono dezenas de vozes. Em Washington! Isso mesmo. Há mais de quatro milhões de quilos de ferro nessa cúpula. Um feito incomparável de engenhos idade arquitectónica para os anos 1850. Surreal!, gritou alguém. Langdon revirou os olhos, desejando que alguém banisse aquela expressão. Muito bem, e quantos de vocês já foram a Washington? Umas poucas mãos se levantaram. Só isso? Langdon fingiu surpresa. E quantos de vocês já foram a Roma, Paris, Madrid ou Londres? Quase todas as mãos da sala se levantaram.

Como sempre. Um dos ritos de passagem para os universitários norte-americanos era viajar de trem pela Europa nas férias de verão antes de encarar a dura realidade da vida. Parece que há mais gente aqui que já visitou a Europa do que a sua própria capital. Qual a explicação para isso? Na Europa não existe idade mínima para beber!, gritou alguém no fundo da sala. Langdon sorriu.

E por acaso a idade mínima daqui impede algum de vocês de beber? Todos riram. Era o primeiro dia de aula, e os alunos estavam demorando mais do que de costume para se acomodarem, remexendo-se e fazendo ranger os bancos de madeira. Langdon adorava lecionar naquela sala porque podia medir o grau de interesse da turma escutando quanto as pessoas se agitavam nos bancos.

Falando sério, disse Langdon, a arquitectura, a arte e o simbolismo de Washington estão entre os mais interessantes do mundo. Porque cruzam oceano antes de visitar a sua própria capital? As coisas mais antigas são mais legais, disse alguém. E por coisas antigas, esclareceu Langdon, suponho que queira dizer castelos, criptas, templos, esse tipo de coisa? Cabeças aquiesceram simultaneamente. Muito bem. Mas e se eu dissesse que Washington tem todas essas coisas? Castelos, criptas, pirâmides, templos..., está tudo lá.  Os rangidos diminuíram. Meus amigos, disse Langdon, baixando a voz e avançando até à beira do tablado, ao longo da próxima hora, vão descobrir que o nosso país transborda de segredos e de histórias ocultas. E, exactamente como na Europa, todos os melhores segredos estão escondidos à vista de todos. Os bancos de madeira silenciaram por completo.

Pronto.

Langdon diminuiu as luzes e passou para o slide seguinte. Quem me pode dizer o que George Washington está fazendo aqui? O slide era de um conhecido mural que mostrava George Washington vestido com os trajes completos de um maçom, parado diante de uma estranha engenhoca, um gigantesco tripé de madeira com um sistema de cordas e polias, no qual estava suspenso um imenso bloco de pedra. Um grupo de espectadores bem-vestidos o rodeava. Levantando esse grande bloco de pedra?, arriscou alguém. Langdon não disse nada, pois preferia, sempre que possível, que algum outro aluno fizesse a correcção. Na verdade, sugeriu outro aluno, acho que Washington está baixando a pedra. Ele está vestido com trajes maçónicos. Já vi imagens de maçons assentando pedras angulares. Na cerimónia sempre tem essa espécie de tripé para colocar a primeira pedra. Excelente, disse Langdon. O mural mostra o pai do nosso país usando um tripé e uma polia para assentar a pedra angular do Capitólio em 18 de Setembro de 1793, entre 11h15 e 12h30. Langdon fez uma pausa, correndo os olhos pela sala. Alguém pode me dizer o significado dessa data e hora?

Silêncio.

E se eu dissesse que esse momento exacto foi escolhido por três famosos maçons: George Washington, Benjamin Franklin e Pierre L'Enfant, o principal arquitecto da capital?

Mais silêncio». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria,

sábado, 19 de dezembro de 2020

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Não era nenhum segredo a capital norte-americana ter uma rica história maçónica. A própria pedra angular daquele prédio havia sido assentada por George Washington em pessoa durante um ritual completo de Maçonaria»

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«(…) O tecto era uma vasta superfície de vidro com uma série de impressionantes luminárias que lançavam um brilho ténue sobre os acabamentos interiores em tom de pérola. Normalmente, Langdon teria se demorado ali uma hora inteira para admirar a arquitectura, mas, com cinco minutos faltando para o início da palestra, abaixou a cabeça e percorreu apressado o saguão principal em direcção ao posto de controle de segurança e às escadas rolantes. Relaxe, disse a si mesmo. Peter sabe que está a caminho. O evento não vai começar sem você. No posto de controle, um jovem guarda hispânico conversou com Langdon enquanto ele esvaziava os bolsos e retirava do pulso o relógio antigo. Mickey Mouse?, indagou o guarda, parecendo achar um pouco de graça. Langdon assentiu, acostumado com aquele tipo de comentário. A edição de coleccionador do relógio do Mickey tinha sido presente dos pais no seu aniversário de 9 anos. Uso este relógio para me lembrar de ter calma e levar a vida menos a sério. Acho que não está dando certo, comentou o guarda com um sorriso. O senhor parece muito apressado.

Langdon sorriu e pôs a bolsa de viagem na esteira de raios X. Para que lado fica o Salão das Estátuas? O guarda fez um gesto em direcção às escadas rolantes. O senhor vai ver as placas. Obrigado. Langdon pegou a bolsa da esteira e se afastou depressa. Enquanto a escada rolante subia, ele respirou fundo e tentou organizar os pensamentos. Olhou para cima, através do tecto de vidro salpicado de chuva, para a cúpula iluminada do Capitólio, cujo formato parecia o de uma montanha. Era uma construção espantosa. A pouco mais de 90 metros de altura do chão, a estátua Liberdade Armada fitava a escuridão enevoada como uma sentinela fantasmagórica. Langdon sempre achara irónico o facto de os trabalhadores que haviam erguido cada pedaço da estátua de bronze de seis metros até lá em cima terem sido escravos, um segredo do Capitólio que raramente constava do currículo das aulas de História do ensino médio. Na verdade, todo aquele prédio era uma mina de ouro de mistérios bizarros, que incluíam uma banheira da morte responsável pelo assassinato por pneumonia do vice-presidente Henry Wilson, uma escadaria com uma mancha de sangue indelével na qual um número exagerado de visitantes parecia tropeçar, e uma câmara lacrada no subsolo dentro da qual, em 1930, trabalhadores descobriram o falecido cavalo empalhado do general John Alexander Logan.

Mas nenhuma lenda era tão longeva quanto os 13 fantasmas que supostamente assombravam o prédio. Muitos diziam que o espírito do arquitecto da cidade, Pierre L'Enfant, perambulava pelos salões tentando receber os seus honorários, a essa altura 200 anos atrasados. O fantasma de um operário que caíra da cúpula do Capitólio durante a construção era visto vagando pelos corredores com uma caixa de ferramentas. E, é claro, a mais famosa aparição de todas, que teria sido vista diversas vezes no subsolo do Capitólio, um gato preto efémero que percorria o sinistro labirinto de passagens estreitas e cubículos da subestrutura. Langdon saiu da escada rolante e tornou a verificar as horas. Três minutos. Percorreu apressado o corredor amplo, seguindo as placas que indicavam o Salão das Estátuas e ensaiando mentalmente as palavras inaugurais. Precisava admitir que o assistente de Peter tinha razão; o tema de sua palestra era perfeitamente adequado a um evento organizado em Washington por um célebre maçom.

Não era nenhum segredo a capital norte-americana ter uma rica história maçónica. A própria pedra angular daquele prédio havia sido assentada por George Washington em pessoa durante um ritual completo de Maçonaria. A cidade fora concebida e projectada por mestres maçons, George Washington, Benjamin Franklin e Pierre L'Enfant, mentes poderosas que enfeitaram a sua nova capital com simbolismo, arquitectura e arte maçónicas. As pessoas, é claro, projectam nesses símbolos todo tipo de ideias malucas. Muitos teóricos da conspiração alegam que os pais fundadores dos Estados Unidos esconderam poderosos segredos e mensagens simbólicas no desenho das ruas de Washington. Langdon nunca deu importância a isso. Informações equivocadas sobre os maçons eram tão comuns que mesmo alunos de Harvard pareciam ter noções surpreendentemente distorcidas a respeito da irmandade. No ano anterior, um caloiro havia entrado na sala de aula com os olhos esbugalhados, trazendo uma página impressa da internet. Era um mapa da capital no qual determinadas ruas haviam sido destacadas para formar diversos desenhos, pentáculos satânicos, um esquadro e um compasso maçónicos, a cabeça de Baphomet, provando aparentemente que os maçons que projectaram Washington estavam envolvidos em algum tipo de conspiração obscura e mística». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Dan Brown, Washington D.C., Literatura, Maçonaria, 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O Crime do Padre Amaro. Eça de Queirós. «Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E esperto... Parece mesmo João VI»

 

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«Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica, que o detestava, costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura! Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe, à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia! E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola! As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no: coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era miguelista e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável: cacete! Cacete!, exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho. Nos últimos anos tomara hábitos sedentários, e vivia isolado, com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo dom Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio, que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas. O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules. Hércules pela força, explicava sorrindo, Frei pela gula. No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra: é a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-o à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito que sua excelência tinha muita pilhéria! Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli. A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, que tinha vagas semelhanças com o pároco. Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tomou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.

Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre. Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem, disse o chantre. A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia (Brito Correia era então ministro da Justiça). Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que, acrescentou sorrindo com satisfação, depois de Frei Hércules vamos talvez ter Frei Apolo. Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora nos primeiros anos do seminário seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia o cónego, o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...

Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E esperto... O cónego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões. O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal e que quando passava pelos padres rosnava como um velho cão de fila, dizia às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão, encostado ao guarda-chuva: que maroto! Parece mesmo João VI». In Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, 1875, 2002, 2005, Livros do Brasil, ISBN 978-989-711-090-0.

Cortesia LdoBrasil/JDACT

JDACT, Eça de Queirós, Literatura, Cultura, A Arte, Amor,

O Fiel Jardineiro. John Le Carré. «Deu o nome. Disse que a notícia tinha vindo de Lodwar. Lodwar?! Mas isso é longe de Turkana! É o posto de polícia mais próximo, replicou Mildren»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Woodrow possuía visivelmente as mesmas preciosas qualidades. Aos quarenta, tinha um casamento feliz com Glória, ou, se não o tinha, partia do princípio de que era o único a sabê-lo. Era Chefe da Chancelaria e era de apostar que, se jogasse bem o seu jogo, podia vir a ser Chefe de Missão no próximo posto modesto e daí avançar por postos menos modestos até à dignidade de Sir, proposta a que ele próprio não atribuía qualquer importância, claro, mas seria agradável para Glória. Havia nele qualquer coisa de militar e na verdade era filho de militar. Nos seus dezassete anos ao serviço do Foreign Office de Sua Majestade tinha cravado o seu estandarte em meia dúzia de Missões Britânicas no ultramar. Mas o Quénia, perigoso, decadente, saqueado, falido e outrora Britânico, tinha-o motivado mais do que qualquer outro, embora não ousasse perguntar a si próprio em que medida esse facto era devido à Tessa. Muito bem, disse ele com alguma agressividade a Mildren, depois de fechar a porta e baixar o trinco. Mildren exibia um eterno beicinho que lhe era próprio. Sentado à secretária fazia lembrar um menino gorducho e malcriado que não queria comer a sopa. Estava instalada no Oasis, disse ele, Qual oásis? Seja mais preciso, se for capaz. Mas Midren, apesar da sua idade e categoria social, não era tão fácil de irritar como Woodrow fora levado a crer. Tinha um bloco com notas em estenografia e estava a consultá-lo antes de falar. Deve ser o que lhes ensinam agora, pensou Woodrow com desprezo. De outra forma, onde é que aquele arrivista de água doce arranjaria tempo para estudar estenografia?

Existe uma pousada na margem leste do Lago Turkana, na ponta sul, anunciou Mildren, de olhos pregados ao bloco. Chama-se Oasis. A Tessa passou lá a noite e saiu na manhã seguinte num todo-o-terreno fornecido pelo dono da pousada. Disse que queria ver o berço natal da civilização, uns trezentos quilómetros a norte: a Cova do Leakey. Corrigindo: o sítio das escavações de Richard Leakey, no Parque Nacional de Sibiloi. Sozinha? O Wolfgang forneceu-lhe um motorista. O cadáver está com o dela no todo-o-terreno. Quem é o Wolfgang? O dono da pousada. O apelido não sei. Toda a gente o trata por Wolfgang. Parece que é alemão. É uma figura conhecida. De acordo com a polícia, o motorista tinha sido brutalmente assassinado. Como? Decapitado. Paradeiro desconhecido, Quem? Não disse que estava no carro com ela? Falta a cabeça. Eu é que tinha de adivinhar, não? Como é que eles dizem que a Tessa morreu? Um acidente. É só o que eles dizem. Foi roubada? A polícia diz que não. A ausência de roubo, completada pela morte do motorista, punha a imaginação de Wloodrow a ferver. Diga-me exactamente tudo o que sabe. Mildren descansou as enormes bochechas nas palmas das mãos enquanto consultava de novo o bloco estenografado. Às nove e vinte e nove uma brigada móvel vinda do Comando da Polícia pediu para falar ao Alto Comissário, recitou ele.

Expliquei que Sua Excelência se deslocara até à cidade, em visita a vários ministérios e deveria regressar às dez da manhã, o mais tardar. Pela voz, pareceu-me um oficial muito eficiente. Deu o nome. Disse que a notícia tinha vindo de Lodwar. Lodwar?! Mas isso é longe de Turkana! É o posto de polícia mais próximo, replicou Mildren. Um todo-o-terreno, pertencente à Pousada Oasis, em Turkaria, tinha sido encontrado abandonado na margem direita do lago, perto de Allia Bay, a caminho das escavações Leakey. Os cadáveres tinham pelo menos trinta e seis horas. Uma mulher branca, morte inexplicada, um Africano sem cabeça, identificado mais tarde como sendo o motorista Noali, casado, quatro filhos. Uma bota safar, Mefisto, tamanho sete. Um blusão de mato azul, tamanho extra-grande, manchado de sangue, encontrado no chão do carro. A mulher, de vinte e cinco a trinta anos, cabelo escuro, uma aliança de ouro no anelar da mão esquerda. Uma corrente de ouro no chão do carro. Esse seu colar..., lembrou-se Woodrow de ter dito em tom trocista, enquanto dançavam.

A minha avó deu-o à minha mãe no dia do casamento, respondeu ela. Uso-o com tudo, mesmo quando não se vê. Na cama também? Depende. Quem é que os encontrou? - perguntou Woodrow. O Wolfgang. Mandou um rádio à polícia e informou o escritório que ele tem aqui em Nairóbi, também via rádio. O Oasis não tem telefone. Se o motorista não tinha cabeça, como é que souberam que era ele? Era aleijado de um braço. Por isso é que tomou a profissão de motorista. O Wolfgang assistiu à partida da Tessa com o Noah no sábado às cinco e meia, na companhia de Arnold Blulim. Foi a última vez que os viu com vida». In John Le Carré, O Fiel Jardineiro, 2001, Editora Dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-203-048-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, John Le Carré, Literatura, 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «A ancestralidade do sítio não foi decerto alheia ao processo de cristianização e motivou, sobremaneira, a reinterpretação sacro-cristã do espaço, implantado num local de fácil acesso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A sacralização do espaço e do templo

«(…) Muitos são os espaços de culto que registam sinais de ocupação antiquíssima, continuamente reocupados e reinterpretados. A arqueologia tem demonstrado como inúmeros povoados pré-históricos foram romanizados e inúmeros povoados romanos foram cristianizados, procedendo-se, nestes casos, à contínua sacralização de espaços através da promoção de uma continuidade que concede a estes lugares um estatuto único e um sentido de permanência, e aos povos um sinal de pertença e de unicidade. Fenómeno verificado no sítio onde se ergue o Santuário de Nossa Senhora de Aires, desde há muito identificado como um antigo povoado romano. Os trabalhos de construção do novo templo trouxeram à luz do dia alguns artefactos arqueológicos da época romana, descritos nas fontes coevas. Com as obras para a nova capela-mor, começada a 6 de Julho de 1743, foram mesmo descobertos vestígios de uma necrópole romana: três lápides sepulcrais, publicadas em 1744 por fr. Francisco Oliveira na Gazeta de Lisboa. O frade dominicano, cuja ordem possuía uma casa em Alcáçovas, em visita ao local no ano de 1745 encontrou outra ara funerária publicada, por iniciativa própria, no I tomo do Diccionario Geografico:

D.M.S. / Maria Euprepia- / a qua ifate / Concesseru- / nt vivere a-/ nis XXXV ben-/ e merenti mo-/ destus conjuci / sua posuit.

Esta e mais uma inscrição fúnebre foram incorporadas na arquitectura da cerca, precisamente nas extremidades da frente poente, aplicadas em plintos coroados por pináculos em pinha. Túlio Espanca indica que estas lápides terão sido aí colocadas pouco tempo antes de 1758, em desacordo com a cronologia dos apontamentos do presbítero Francisco Oliveira, que diz taxativamente:

para nam perder-se persoadi o capitam João de Melo a xpore-se (sic) em parte pública nas suas casas da galaria que reformou em 1759 as quais ficam perto da mesma igreja.

Deste modo, pensamos ser plausível a hipótese de estas aras terem integrado a cerca entre 1759 e 1792, ano de término da construção do novo Santuário. A inclusão dos dois vestígios romanos numa construção cristã certifica o respeito pelos antepassados, que anteriormente haveriam ocupado o local. Realidade que traduz a passagem e a permanência dos homens (que) elevou determinados lugares a uma condição numinosa (e luminosa).

No ano de 1901, José Leite Vasconcelos foi convidado a visitar a herdade das Paredes, junto à Senhora de Aires, no qual appareciam a cada passo restos romanos. Ali deparou-se com a presença de ânforas, dolia, tégulas, imbrices, argamassa signina, moedas romanas, escórias de fornos de olaria e canos. Tendo ainda encontrado, como noticia, uma moeda romana do século VI, além de muitas outras que viu na mão de particulares, um capitel e uma coluna de mármore provindos das Paredes. As descobertas promoveram o reconhecimento arqueológico, sob a alçada do então Museu Etnológico, desenvolvido por Félix Pereira em 8 de Junho de 1902. Os trabalhos concluíram que no sítio das Paredes, e por conseguinte na Senhora de Aires, existia uma povoação romana, confirmada pela necrópole (documentada desde o século XVIII), pelos artefactos do quotidiano e pelas inúmeras moedas cunhadas entre os séculos II e VI d.C. Mais recentemente, Jorge Alarcão identificou no sítio da Senhora de Aires e na herdade das Paredes um vicus, isto é, um povoado civil do Império Romano controlado pelo exército.

A ancestralidade do sítio não foi decerto alheia ao processo de cristianização e motivou, sobremaneira, a reinterpretação sacro-cristã do espaço, implantado num local de fácil acesso, contrariamente ao habitual. Decididamente, o registo de ocupação anterior, não-cristã, substituiu a premissa da inacessibilidade e promoveu as leis da aculturação. A contínua deslocação dos populares ao local, comprovada pelas numerosas moedas portuguesas de varias épocas, desde a 1ª dynastia, documenta a importância do espaço e fundamenta o desejo de cristianização. A simbólica da sacralização é extensível à casa terrena da Virgem, o Santuário, local privilegiado do culto. Recorde-se, a este propósito, o milagre da reposição dos bois narrado por Agostinho Santa Maria, pois: sendoh (a Martim Vaqueiro) necessario dinheyro para começar a obra, vendeo para isso alguns bois, que levando os o comprador se não acharão menos na manada. Este prodígio celeste é fortalecido pelo simbolismo atribuído à capela-mor, construída no mesmo lugar, aonde estava a porta do curral». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

JDACT, Raquel Alexandra AR Seixas, Monumentos, Religião, Caso de Estudo, História, Alentejo, Cultura e Conhecimento,

O Fiel Jardineiro. John Le Carré. «Tinha havido uns meses antes uma praga de oftalmia de Nairóbi, causada por mosquitos que, quando espalmados ou esfregados acidentalmente na cara…»

 

jdact e cortesia de wikipedia

«A notícia atingiu a Alta Comissão Britânica em Nairóbi, às nove e trinta numa manhã de segunda-feira. Sandy Woodrow recebeu-a como um tiro, queixo rígido, peito para a frente, em cheio no seu dilacerado coração inglês. Estava de pé. De tudo isto só se lembrou depois, Estava de pé e o telefone interno começou a tocar. Ele estava esticado à procura de qualquer coisa, ouviu o apito e dobrou-se para baixo a fim de apanhar o auscultador de cima da secretária e dizer Woodrow. Ou talvez, fala Woodrow. E provavelmente disse o seu nome com aspereza, disso lembrava-se bem: o som da sua própria voz pareceu-lhe a voz de outra pessoa, como uma chicotada, Fala Woodrow, o seu nome perfeitamente normal, mas sem o sobrenome familiar Sandy e dito quase com ódio, porque a conferência ritual com o Alto Comissário estava marcada para começar dali a trinta minutos em ponto e Woodrow, como Chefe de Chancelaria tinha o papel de moderador num bando de prima-donas, todas com assuntos de especial interesse e cada uma das quais exigia a posse exclusiva do coração e do pensamento do Alto Comissário. Isto é, mais outra segunda-feira de mer… em fins de Janeiro, a época mais quente do ano em Nairóbi, época de poeira, de cortes de água, erva queimada, olhos a arder e o calor a rebentar o pavimento das ruas; e os jacarandás à espera das longas chuvadas, como toda a gente.

Exactamente porque razão estava de pé é que foi um problema que ele nunca resolveu. Mais normal seria estar acaçapado atrás da secretária, manuseando as teclas do computador, revendo ansiosamente as instruções vindas de Londres e as informações vindas das vizinhas Missões Africanas. Em vez do que se encontrava de pé à frente da secretária, procedendo a um gesto vital que não conseguia identificar, tal como a endireitar a fotografia da sua mulher, geralmente a pessoas de cabelos loiro-arruivados. Glória, e dois filhos pequenos, tirada talvez no último Verão durante a licença de férias no seu país. A Alta Comissão situava-se numa encosta e um aluimento constante era o suficiente para fazer inclinar as molduras durante um, fim-de-semana de desocupação. Ou talvez tivesse estado a lançar spray insecticida contra qualquer insecto queniano a que nem os diplomatas são imunes. Tinha havido uns meses antes uma praga de oftalmia de Nairóbi, causada por mosquitos que, quando espalmados ou esfregados acidentalmente na cara, causavam bolhas à volta dos olhos que podiam levar à cegueira. Ele estaria de spray em riste, ouvira o telefone, pousara a lata sobre a secretária e agarrara no telefone: isto também era provável, porque mais tarde aparecia vagamente na sua memória como que um slide a cores de uma lata vermelha de insecticida pousada na bandeja out sobre a secretária. Portanto: fala Woodrow e o telefone encostado ao ouvido. Olá, Sandy, é o Míke Mildren. Bom dia. Está sozinho, por acaso? Sim, respondeu Woodrow, estava só. Porquê? Aconteceu uma coisa chata, Sandy. Por acaso, até estava a pensar em ir aí falar consigo. Isso não pode esperar até depois da reunião? Bem, acho que realmente, não... Não pode, não, replicou Mildren ganhando coragem à medida que falava. Trata-se de Tessa Quayle, Sandy. Surge subitamente outro Woodrow, de nervos eriçados. Tessa. Que é que se passa com ela?, disse ele num tom deliberadamente indiferente, com o pensamento a correr em todas direcções. Oh Tessa. Oh meu Deus. Que é que terás feito desta vez? A polícia de Nairóbi diz que foi morta, disse Mildren como se fosse uma coisa normal.

Que disparate, replicou Woodrow antes de ter tempo para pensar. Isso é ridículo. Onde? Quando?  No lago Turkana. Margem leste. Este fim-de-semana. Estão a ser muito diplomáticos com os detalhes. No carro dela. Segundo eles, um lamentável acidente, acrescentou, em tom de desculpa, tive a impressão de que não queriam ferir os nossos sentimentos.  No carro de quem?, perguntou Woodrow descontrolado. Estava a lutar, rejeitando aquela ideia louca, quem, como, onde, esmagando todos os outros pensamentos e sentidos para baixo, para baixo, rejeitando furiosamente todas as memórias secretas que tinha dela para as substituir pela recordação de certa paisagem árida e lunar de Turkana que ele conhecera durante uma viagem de trabalho, seis meses atrás, na companhia incontestavelmente irrepreensível do adido militar. Não saia daí, eu vou ter consigo. E não fale com mais ninguém, está a ouvir?

Maquinalmente, Woodrow pousou o telefone, rodeou a secretária, pegou no casaco pendurado nas costas da cadeira e vestiu-o manga após manga. Normalmente não teria posto o casaco para ir ao andar de cima. Os casacos não eram obrigatórios nas reuniões de segunda-feira, quanto mais para ir fazer dois dedos de conversa ao gabinete do rechonchudo Mildren. Mas o profissionalismo de Woodrow estava a avisá-lo de que a coisa não ia ficar por ali. Enquanto subia a escada conseguiu, com um grande esforço de autocontrolo, submeter-se ao seu princípio sagrado sempre que aparecia uma crise no horizonte e dizer para si próprio, tal como dissera a Mildren, que era tudo um disparate. Como confirmação, evocou o caso sensacionalista de uma rapariga inglesa que tinha sido cortada em pedaços no mato africano há dez anos atrás. Trata-se de um boato mórbido, é o que é de certeza. Uma imagem criada pela imaginação de um tarado qualquer. Algum polícia africano meio marado, largado no deserto, atestado de bangí, tentando fazer valer o salário, miserável, que há seis meses lhe deviam.

O edifício da Missão, recentemente reconstruído, era austero e bem desenhado. Woodrow gostava daquele estilo, talvez porque correspondesse formalmente ao seu próprio. Com uma estrutura nitidamente definida, com cantina, loja, bombas de combustíveis e corredores silenciosos e limpos, dava uma impressão de auto-suficiência e severidade». In John Le Carré, O Fiel Jardineiro, 2001, Editora Dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-203-048-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, John Le Carré, Literatura,

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Guy Maupassant. Contos. «Eram boas pessoas, que desde logo conquistaram a estima do pessoal e dos vizinhos. O Senhor morreu de uma congestão passados dois anos»

jdact e cortesia de wikipedia

A Casa Tellier

«Iam lá todas as noites, por volta das onze, simplesmente como quem vai ao café. Eram seis ou oito os que ali se encontravam, sempre os mesmos, não uns pândegos quaisquer, mas homens respeitáveis, comerciantes e gente nova da cidade; e tomavam o seu licor fazendo algumas brincadeiras travessas às raparigas, ou então conversavam gravemente com a Madame, que toda a gente respeitava. E depois saíam para se irem deitar antes da meia-noite. Às vezes os jovens ficavam. Era uma casa de família, pequenina, pintada de amarelo, na esquina de uma rua por trás da igreja de Santo Estêvão; e das janelas avistava-se a doca cheia de navios a descarregar, o grande brejo salgado a que chamavam A Retenção e, lá atrás, a costa da Virgem com a sua velha capela enegrecida. A Madame, oriunda de uma boa família de camponeses do departamento do Eure, aceitara aquela profissão exactamente como poderia ter sido modista ou fanqueira. O preconceito desonroso ligado à prostituição, tão violento e vivaz nas cidades, não existe nas terras de província normandas. O camponês diz: é um bom ofício; e destina ao filho a gestão de um harém de raparigas do mesmo modo que lhe daria a gerir um internato de meninas. De resto, aquela casa viera por herança de um velho tio seu proprietário. O Senhor e a Madame, em tempos estalajadeiros nos arredores de Yvetot, haviam imediatamente liquidado o seu negócio, por considerarem que o de Fécamp lhes seria mais vantajoso; e tinham chegado um belo dia para assumir a direcção da empresa que estava periclitando na ausência dos patrões.

Eram boas pessoas, que desde logo conquistaram a estima do pessoal e dos vizinhos. O Senhor morreu de uma congestão passados dois anos. Como a sua nova profissão lhe proporcionava uma vida de indolência e imobilidade, engordara muito e a saúde liquidara-o. A Madame, depois de enviuvar, era desejada em vão por todos os frequentadores habituais do estabelecimento; mas tinha a fama de ser absolutamente honesta, e nem sequer as suas pensionistas haviam descoberto fosse o que fosse. Era alta, cheia de carnes, elegante. A pele, empalidecida na obscuridade daquela casa sempre fechada, brilhava como que untada por um verniz gorduroso. Rodeava-lhe a testa um esguio enfeite de cabelos travessos, o que lhe dava um aspecto juvenil que destoava da maturidade das suas formas. Invariavelmente alegre e de expressão franca, era dada a gracejos, com uma tonalidade comedida que as suas novas ocupações ainda não lhe tinham feito perder. As palavras feias chocavam-na sempre um pouco; e, quando um rapaz mal educado chamava pelo nome próprio o estabelecimento que dirigia, zangava-se, revoltada. Tinha, enfim, uma alma delicada e, embora tratasse as suas mulheres como amigas, não se cansava de repetir que não era da mesma laia.

Às vezes, durante a semana, saía num carro de aluguer com uma parte do seu grupo; e iam folgar na relva à beira de um regato que corre nas terras de Valmont. Havia então pensionistas que desapareciam fugidas, correrias loucas, brincadeiras infantis, toda uma alegria de reclusas inebriadas pelo ar livre. Comiam enchidos deitadas na relva bebendo cidra, e voltavam ao entardecer com um delicioso cansaço, com uma doce comoção; e no carro beijavam a Madame que era tão boa mãe, cheia de mansidão e complacência. A casa tinha duas entradas. Na esquina da rua havia uma espécie de café de ruim aparência, que abria à noite para a gente do povo e para os marinheiros. Duas das pessoas encarregadas do comércio específico do local eram particularmente destinadas às necessidades daquela parte da clientela. Com a ajuda do criado, chamado Frédéric, um loirinho imberbe e forte como um boi, serviam os quartilhos de vinho e as litradas nas mesas desengonçadas de mármore, e, com os braços à roda do pescoço dos bebedores, sentadas de viés nas pernas deles, encorajavam-nos a consumir.

As três outras damas (elas eram ao todo cinco) formavam uma espécie de aristocracia, e permaneciam reservadas ao grupo do primeiro andar, a não ser quando precisavam delas lá em baixo e o andar de cima estava vazio. O salão de Júpiter, onde se reuniam os burgueses do lugar, era forrado a papel azul e enfeitado com um grande desenho que representava Leda estendida debaixo de um cisne. Chegava-se até lá através de uma escada de caracol que terminava numa porta estreita, de aparência humilde, que dava para a rua, e por cima da qual brilhava toda a noite, atrás de uma grade, uma pequena lanterna daquelas que se acendem ainda em certas cidades aos pés das Nossas Senhoras encastradas nas paredes.

O prédio, húmido e velho, cheirava ligeiramente a mofo. De vez em quando perpassava pelos corredores um hálito de água de-colónia, ou então uma porta entreaberta lá em baixo fazia ressoar por toda a casa, como a explosão de uma trovoada, os gritos popularunchos dos homens das mesas do rés-do-chão, e provocava nas caras dos senhores do primeiro andar um esgar de inquietação e repugnância. A Madame, íntima dos seus amigos clientes, não saía da sala, e interessava-se pelos boatos que corriam na cidade e que através deles lhe chegavam. A sua conversa séria contrastava com as frases incoerentes das três mulheres; ela era como que uma pausa na jovialidade brejeira dos senhores barrigudos que todas as noites se entregavam àquele honesto e medíocre deboche de beberem um cálice de licor na companhia de mulheres públicas. As três damas do primeiro andar chamavam-se Fernanda, Rafaela e Rosa Pileca. Como o pessoal era pouco, tinha-se procurado que cada uma delas fosse uma espécie de amostra, de um resumo do tipo feminino, para que todos os consumidores pudessem encontrar ali, ao menos aproximadamente, a realização do seu ideal». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Editora Dom Quixote, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Literatura, França, Século XIX,

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O Vermelho e o Negro. Stendhal. «O seu distanciamento em relação ao que em Verrières chamam alegria valera-lhe a reputação de ser muito orgulhosa do seu nascimento»

jdact

«(…) Faço questão de trazer para minha casa o Sorel, filho do serrador de tábuas, disse o sr. de Rênal; ele vigiará os garotos, que estão se tornando muito endiabrados para nós. É um jovem padre, ou algo parecido, bom latinista, e que fará os garotos progredirem; pois tem um carácter firme, disse o cura. Dar-lhe-ei 300 francos e comida. Eu tinha algumas dúvidas sobre a sua moralidade, pois era o preferido daquele velho cirurgião, membro da Legião de Honra, que, sob pretexto de ser primo deles, viera hospedar-se na casa dos Sorel. Aquele homem podia, no fundo, não ser senão um agente secreto dos liberais; dizia que o ar das nossas montanhas fazia bem para a sua asma; mas isso não ficou provado. Ele participou de todas as campanhas de Bonaparte na Itália e teria mesmo, dizem, assinado a favor do império naquele momento. Esse liberal ensinou latim ao filho de Sorel e deixou-lhe uma quantidade de livros que trouxera consigo. Sendo assim, eu jamais teria pensado em colocar o filho do carpinteiro junto dos nossos filhos; mas o cura, justamente na véspera da cena que acaba de nos indispor para sempre, disse-me que esse Sorel estuda teologia há três anos, com o projecto de entrar para o seminário; portanto não é um liberal, e é latinista.

Esse arranjo convém por mais de um motivo, continuou o sr. de Rênal, olhando a mulher com um ar diplomático; o Valenod está muito orgulhoso dos dois belos cavalos normandos que acaba de comprar para sua caleche. Mas ele não tem preceptor para os filhos. Ele bem que poderia arrebatar-nos esse. Aprovas então o meu projecto?, disse o sr. de Rênal, agradecendo à mulher, com um sorriso, pela excelente ideia que ela acabara de ter. Então, está decidido. Ah! Meu Deus!, como tomas partido depressa, meu caro! É que tenho carácter, e o cura viu bem. Não dissimulemos nada, estamos cercados de liberais por aqui. Todos esses negociantes de tecidos me invejam, tenho a certeza; dois ou três estão ficando ricaços; pois bem, quero que eles vejam passar os filhos do sr. de Rênal, indo ao passeio sob a conduta do seu preceptor. Isso impressionará. Meu avô contava-nos com frequência que, na sua juventude, tivera um preceptor. São cem escudos que ele poderá me custar, mas é uma despesa que deve ser classificada como necessária para manter a nossa posição.

Essa resolução súbita deixou a sra. de Rênal muito pensativa. Era uma mulher alta, esbelta, que havia sido a beldade da região, como se diz nessas montanhas. Tinha um certo ar de simplicidade e uma juventude no andar; aos olhos de um parisiense, essa graça ingénua, cheia de inocência e de vivacidade, teria suscitado ideias de doce volúpia. Se tomasse conhecimento desse género de sucesso, a sra. de Rênal ficaria bastante envergonhada. A coqueteria e a afectação nunca haviam se aproximado desse coração. O sr. Valenod, o rico director do asilo, a teria cortejado, mas sem sucesso, o que dera um brilho singular à sua virtude; pois esse sr. Valenod, jovem com porte de atleta, de rosto corado e grandes suíças negras, era um desses indivíduos grosseiros, descarados e turbulentos que na província são considerados belos homens.

A sra. de Rênal, muito tímida, e de um carácter aparentemente muito desigual, sentira-se chocada sobretudo com o movimento contínuo e a estridência da voz do sr. Valenod. O seu distanciamento em relação ao que em Verrières chamam alegria valera-lhe a reputação de ser muito orgulhosa do seu nascimento. Ela nem pensava nisso, mas ficara muito contente de ver os habitantes da cidade virem menos à sua casa. Não dissimularemos que ela era vista como boba aos olhos das outras senhoras, porque, sem nenhuma política em relação ao marido, deixava escapar as mais belas ocasiões de fazer-se comprar belos chapéus de Paris ou de Besançon. Contanto a deixassem sozinha a vagar no seu belo jardim, ela nunca se queixava. Era uma alma ingénua, que nunca chegara sequer a julgar o marido, e a confessar-se que ele a aborrecia. Supunha, sem dizer a si mesma, que entre marido e mulher não havia relações melhores. Gostava do sr. de Rênal sobretudo quando este lhe falava dos projectos em relação aos filhos, um dos quais destinava às armas, outro à magistratura, e o terceiro à Igreja. Em suma, ela achava o sr. de Rênal muito menos aborrecido que todos os homens das suas relações». In Stendhal, O Vermelho e o Negro, 1830, Edição Relógio D'Água, 2010, ISBN 978-989-641-115-2.

Cortesia de ERelógioD’Água/JDACT

JDACT, Stendhal, Literatura, França, 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Servidão Humana. W. Somerset Maugham. «A sala era dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas»

jdact e cortesia de wikipedia

«O dia rompeu cinzento e triste. As nuvens pairavam pesadamente, e havia no ar certa aspereza que era uma promessa de neve. Penetrando no quarto em que dormia uma criança, a criada cerrou as cortinas, após lançar um olhar maquinal à casa em frente, um prédio revestido de estuque com colunas no portal, e caminhou em direcção ao leito. Acorde, Philip, disse ela. Puxando as cobertas, tomou-o nos braços e desceu as escadas. Philip ia ainda meio adormecido. Sua mãe deseja vê-lo, acrescentou a criada. Abriu a porta de um quarto no andar térreo e conduziu a criança até à cama em que jazia uma mulher. Era a mãe do pequeno. Estendeu os braços para o filho, que se aninhou ao seu lado sem perguntar por que razão o tinham acordado. A mulher beijou-lhe os olhos e, com as mãos delicadas e magras, procurou sentir o calor do pequeno corpo através da alva camisola de flanela. Aconchegando-o ainda mais a si, perguntou. Está com sono, querido? A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. O garoto não respondeu, mas sorriu satisfeito. Sentia-se feliz no leito grande e quente, enlaçado por aqueles braços macios. Procurou fazer-se ainda mais pequenino, encolhendo-se de encontro ao corpo da mãe, e beijou-a sonolentamente no rosto. Fechou os olhos, logo após, e adormeceu profundamente. O médico aproximou-se então da cama. Por favor, não o levem ainda!, gemeu ela.

Sem responder, o médico olhou para ela com ar grave. Sabendo que não lhe permitiriam ficar com a criança por muito tempo, a mulher tornou a beijá-la, correndo a mão ao longo do corpo até alcançar-lhe os pés. Segurou o pé direito, apalpou, um a um, os cinco dedinhos, e em seguida passou lentamente a mão pelo pé esquerdo. Deixou escapar um soluço. O que houve?, disse o doutor. A senhora está cansada. Ela balançou a cabeça, impossibilitada de falar, enquanto as lágrimas lhe rolavam pelas faces. O médico inclinou-se sobre o leito. Deixe-me levá-lo. Estava tão fraca que não pôde opor qualquer resistência. O menino foi entregue à criada. É melhor levá-lo para a cama dele. Pois não, doutor. Ainda adormecido, o garoto foi conduzido para cima. A mãe agora soluçava, com desespero. Que será feito do pobrezinho?

A enfermeira tentou acalmá-la, até que o pranto cessou pelo cansaço. O médico dirigiu-se a uma mesa, no outro lado do quarto, sobre a qual, coberto por uma toalha, jazia o corpo inanimado de um recém-nascido. Levantando a toalha, o doutor olhou. Um biombo o separava da cama, mas a mulher parece que adivinhou de que se tratava. Era menina ou menino?, cochichou para a enfermeira. Outro menino. A doente não disse mais nada. Pouco tempo depois, a ama de Philip regressava, aproximando-se do leito. O menino não chegou a acordar, disse ela. Seguiu-se uma pausa. O doutor examinou então, mais uma vez, o pulso da enferma. Nada me resta fazer no momento, observou ele. Voltarei depois de comer. Vou levá-lo até a porta, doutor, disse a ama. Desceram as escadas em silêncio. No hall o médico parou por um instante. Já mandou chamar o cunhado de mrs. Carey? Mandei, doutor. Sabe a que horas deverá chegar? Não, senhor. Estou esperando um telegrama. E o menino? Achava melhor afastá-lo daqui. Miss Watkin disse que o levaria. Quem é ela? É a madrinha do menino, doutor. Acha que mrs. Carey resistirá? O médico sacudiu a cabeça negativamente.

Passara-se uma semana. Philip estava sentado no soalho da sala de visitas de miss Watkin, na sua casa de Onslow Gardens. Era a única criança da casa e estava habituado a brincar sozinho. A sala era dotada de sólido mobiliário e em cada um dos sofás viam-se três grandes almofadas. As poltronas tinham também as suas almofadas. Servindo-se delas e dos banquinhos dourados, leves e fáceis de transportar, conseguira improvisar uma espécie de caverna onde se escondia dos peles-vermelhas emboscados atrás das cortinas. Encostou o ouvido ao soalho e fingiu ouvir o tropel dos búfalos que se precipitavam através da planície. Sentindo que a porta se abria, prendeu por um momento a respiração com medo de ser descoberto; um puxão violento afastou, entretanto, uma das cadeiras e as almofadas caíram ao chão. Menino levado! Miss Watkin vai ficar zangada. Olá, Ema!, disse ele. A ama-seca inclinou-se e beijou-o, ocupando-se depois em sacudir as almofadas e colocá-las nos respectivos lugares. Vou voltar para casa?, perguntou ele. Vai, sim. Vou levá-lo comigo. Você está com um vestido novo, Ema.

Era 1885, e ela usava anquinhas. Seu vestido era de veludo negro, com mangas justas, ombros inclinados e saia de armação, com três grandes babados. Usava também uma touca preta com cordões de veludo. Ema hesitou. Como esperava outra pergunta, não pôde dar a resposta que preparara. Você não se interessa em saber como está a sua mãe?, indagou por fim. Oh, me esqueci! Como está a mãe? Chegara a ocasião. Sua mãe está bem e é muito feliz. Oh, que bom! Sua mãe foi embora. Não a verá mais. Philip não compreendia o que a ama queria dizer. Por quê? Sua mãe está no céu». In W. Somerset Maugham, 1915, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-648-3.

Cortesia de ASA/JDACT

JDACT, W. Somerset Maugham, Século XX, Literatura, Cultura,

sábado, 12 de dezembro de 2020

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «Deo principio o Lavrador à obra em hum sitio, que ficava distante do curral, julgando-o por mais oportuno: porém a Senhora que havia elegido o do seu apparecimento, dispoz, que tudo o que se havia obrado no primeyro dia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura e Devoção

«(…) Por que motivo a lenda da Senhora de Aires reproduz tanto a versão do achamento, como da aparição? Com efeito, ambas têm propósitos distintos, se a primeira apela para a antiguidade do culto, a segunda confere à imagem pétrea um valor sobrenatural. O trinómio, Senhora de Aires / Eremita de Arem / Almançor, tem a peculiaridade de sacralizar historicamente o lugar e a imagem, ao situar a veneração nos tempos antecedentes à ocupação árabe. Por sua vez, o milagre da aparição torna palpável a presença da Virgem e a Revelação Divina, pois las apaiciones se presentan como una manifestación sensible de lo sobrenatural. A aparição outorga à imagem esculpida um significado transcendente, equiparando-a às relíquias dos santos; mediante uma aparição a imagem passa a representar e a suportar uma presença real, uma epifania.

A intensificação do discurso aparicionista e dos achamentos, na Europa Católica, conduziu à intervenção dos altos dignitários da Igreja. No Concílio Lateranense (1516) e no Concílio de Trento (1545-1563) tomou-se medidas restritivas quanto às aparições e revelações, determinando-se que não se devia admitir nenhum milagre sem o reconhecimento e autorização dos bispos. Todavia, a predisposição humana para a criação e aceitação de novos milagres levou Bento XIV, ainda no século XVIII, a reiterar que a Igreja só mediante um atento exame é que consentiria a legitimação de um novo milagre. Pese embora a limitação efectuada nas reuniões conciliares, a proliferação dos milagres marianos não refreou, pelo contrário, fortaleceu-se. Na verdade, o movimento reformista católico deu um enorme contributo ao florescimento do culto mariano e à proliferação de santuários erigidos sob a sua evocação, durante os séculos XVI e XVII, em resposta às críticas protestantes e à relativização do papel de Maria no Milagre da Salvação.

A inscrição do jesuíta António Franco, de 1690, é omissa quanto à identificação do lavrador que encontrou a imagem de Nossa Senhora de Aires no acto da lavoura. Foi, precisamente, fr. Agostinho o primeiro a identificar o intermediário humano, entre a população e o sagrado, com o rico lavrador Martim Vaqueiro. E, na senda de outros lendários, a difundir a ideia de que o fundador do templo estava enterrado no local transcrevendo, para o efeito, a inscrição sepulcral que pavimentava o presbitério: esta capella, & sepultura he de Martim Vaqueyro, Fundador desta casa, da nobre, & antiga geração dos Vaqueyros.

Atendendo à inexistência no local desta lápide, o mais provável é que a sua referência tenha resultado da imaginação do compositor do Santuario Mariano; caso contrário, teria sido integrada na nova construção de 1743 e referida por fr. Francisco Oliveira nas Memorias da Villa de Vianna. Como observa William Christian, estes mediadores são os sucessores dos santos mártires e em certa medida suprem a falta de relíquias corporais dos santuários marianos. Eles contribuem para a consolidação e autenticidade da lenda, ao corporizarem o principal interveniente e beneficiário do milagre da manifestação sagrada. Se o relato da aparição, ideado por fr. Agostinho de Santa Maria, não reuniu muitos apoiantes, o mesmo não se pode dizer da identificação do beneficiário da manifestação divina, daí em diante associado ao rico e nobre lavrador Martim Vaqueiro, o fundador do templo.

A sacralização do espaço e do templo

A escolha do local é um dos pontos determinantes das lendas, é a Virgem que elege o sítio para a sua devoção. Os santuários são edificados em lugares precisos, lugares onde a figura tutelar manifestou o desejo de ser cultuada, quer através da aparição, quer do achamento da imagem sagrada. Para reforçar a ideia do local consagrado multiplicam-se os relatos da persistência da Virgem pelo lugar aclamado, que, no caso de Nossa Senhora de Aires, nos é relatado, uma vez mais, por fr. Agostinho de Santa Maria:

Deo principio o Lavrador à obra em hum sitio, que ficava distante do curral, julgando-o por mais oportuno: porém a Senhora que havia elegido o do seu apparecimento, dispoz, que tudo o que se havia obrado no primeyro dia, se achasse desfeyto no segundo, & continuando a edificação em o segundo, & terceyro em a mesma paragem, lhe succedeo o mesmo, que na primeyra vez. Com que desistindo do seu parecer, se resolveo em edificar a Igreja no mesmo lugar, em que a Senhora lhe havia apparecido. E fez-se em tal fórma, que a cappela mòr se abricou no mesmo Lugar, aonde estava a porta do curral.

A perseverança das Senhoras pelo territorio da gracia, seja por via da destruição dos trabalhos feitos, seja por via das fugas da imagem escultórica, enfatizam o vínculo entre a Virgem e o local e entre o sagrado e a comunidade. Transformam o sítio num espaço de culto permanente, num ponto concreto para a devoção pessoal e colectiva. Lugares distantes da população, geralmente em meios rurais, em áreas propícias ao afastamento do mundo terreno e das tarefas quotidianas; lugares que remetem para a ideia do separado, imanente ao próprio conceito de sagrado, ao procurarem o afastamento do espaço habitado e da convivência humana diária». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

JDACT, Raquel Alexandra AR Seixas, Monumentos, Religião, Caso de Estudo, História, Alentejo, Cultura e Conhecimento,

O Santuário de NSA de Aires. 1743 1792. Raquel Alexandra AR Seixas. «Havia naquelle destrito huma herdade de hum Lavrador rico, o qual tinha hum curral, aonde recolhia os seus boys, no mesmo sitio, em que hoje se vê a Igreja»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arquitectura e Devoção

«A verdade de um curso não está no que aí se aprende mas no que disso sobeja: o halo que isso transcende e onde podemos achar-nos homens». In Vergílio Ferreira, Aparição

«A presente dissertação é dedicada ao estudo do Santuário de Nossa Senhora de Aires, em Viana do Alentejo, no distrito de Évora. As motivações religiosas, intrínsecas à piedade popular, estimularam a instituição do culto dedicado a Maria na segunda metade do século XVI. A crescente afluência de peregrinos justificou a substituição da primitiva ermida e a construção do novo Santuário, 1743-1792, cujo traçado foi realizado pelo irmão João Baptista, da Congregação do Oratório de São Filipe de Néri de Estremoz. Procura-se compreender as intenções subjacentes à obra, enquadrando-a no contexto histórico e artístico do seu tempo. A formação mística e filosófica do projectista será também tida em consideração na análise arquitectónica, mormente o templo centralizado da capela-mor e o baldaquino de talha dourada». In Resumo

A construção da lenda de Nossa Senhora de Aires

«A fundação de um templo dedicado à Virgem é quase sempre, senão sempre, precedida pela narrativa de um acontecimento mítico-imaginário, concebida a partir de um de dois modelos: a aparição ou o achamento fortuito de uma imagem escultórica. É esta ocorrência que dita o princípio da lenda, conferindo à imagem e ao lugar o estatuto sacro. E promove a criação de um conjunto de histórias tendentes à legitimação do poder milagreiro da Virgem e à divulgação eficaz do seu culto. No caso específico de Nossa Senhora de Aires, a avaliar pelos dados recolhidos, cremos que o culto antecedeu o registo e estruturação da lenda, obrada somente na primeira metade do século XVIII. Os principais construtores da memória histórico-descritiva do início deste culto transtagano foram fr. Agostinho de Santa Maria (1718) e as religiosas do Convento do Bom Jesus de Viana do Alentejo (1744).

Não obstante a composição da lenda datar do século XVIII, a primeira alusão à manifestação sagrada da Virgem de Aires remonta a 1690 e foi perpetuada na inscrição da lápide, colocada no frontispício da porta principal da actual igreja, composta, segundo fr. Francisco Oliveira, pelo jesuíta António Franco: expulsos os mouros destas terras, quando um lavrador arava o seu campo encontrou a imagem que se vê no antigo altar. Oh feliz terra, mais fecunda do que nenhuma outra! Um só rego, te deu mais do que ceara ou colheita alguma dará.

A tradição do achamento tem a particularidade, no discurso peninsular, de se associar frequentemente a um eremita, que, fugindo dos mouros, se viu obrigado a esconder a imagem sagrada num determinado local, para vir a ser descoberta após a Reconquista. Versão sistematicamente relacionada com o temível Almançor e a incursão de 982, que obrigou à retirada cristã: talvez esconderão estes Mongez a peregrina Imagem, no anno de novecentos, e outenta e douz, em que El Rey de Cordova Almansor destruhio o dito convento de Monje de Arem.

Apesar de este episódio estar firmado na tradição oral, como comprova a inscrição de 1690, fr. Agostinho de Santa Maria, na obra incontornável que é o Santuario Mariano, introduz um conjunto de novos elementos sobre o culto da Senhora de Aires, doravante integrados no imaginário devoto dos crentes. O autor foi, para além do principal lendário de Nossa Senhora de Aires, o introdutor do relato do milagre da aparição ao lavrador Martim Vaqueiro:

Havia naquelle destrito huma herdade de hum Lavrador rico, o qual tinha hum curral, aonde recolhia os seus boys, no mesmo sitio, em que hoje se vê a Igreja. Ficava a casa do Lavrador distante como cousa de cem passos, & tinha esta herdade o nome de Vaqueyros. Reparàrão em algumas noytes os criados do Lavrador, em que deyxando fechada a porta do curral, vião os boys de noyte pastando na herdade, & pela manhã os achavão recolhidos, & a porta do curral fechada, sem poderem saber quem fosse, o que lhes fazia esta que tinhão por travessura. Fizerão queyxa ao seu amo, que se resolveo a ir dormir huma noyte junto à porta do curral, para saber quem obrava estas cousas. Nesta noyte lhe appareceo Nossa Senhora em sonhos, & lhe disse, que ella era a que abria a porta, & soltava os boys, para irem a pastar sem fazerem damno às searas: que lhe fizesse naquele sitio huma Casa, porque era vontade de Deos, que nella fosse louvada, & seu Santissimo Filho, & que ela o ajudaria.

À compilação de Agostinho de Santa Maria seguiu-se uma memória descritiva da Historia da Vila de Viana do Alentejo, produzida pelas religiosas do Mosteiro do Bom Jesus da mesma vila, em 1744. Neste manuscrito prevalece a versão do achamento em detrimento da aparição:

Aludindo á ditoza invenção da soberana imagem da Senhora, que o ceo es a Martim Vaqueyro, de antiga, e nobre família desta villa, e que foi o fundador desta caza, e primeyra igreja; como consta da inscripsão que esta na sua sepultura, na capella mayor da mesma; o qual andando lavrando exerçiçio sempre util e antão honrrozo, e que facilitava a singeleza daquelles tempoz […] abrindo o arado aquelle ditozo campo, descobrio o requissimo thezouro, que ali tinha escondido a piedade, e devoção dos monjez de Arem.

Esta nota espelha a força que a tradição oral exercia junto das populações rurais, responsáveis pela conservação da primeira tradição sobre a origem do culto da Senhora de Aires, divulgada e difundida de geração em geração e imortalizada desde 1690 na inscrição da autoria de António Franco. Neste campo são elucidativas as reflexões de Peter Burke, quando de ende que en las comunidades donde una mayoría de las famílias permaneciam de generacion en generacion, vivendo en las mismas casas com sus padres y abuelos, y cultivando los mismos terrenos, es razonable que admitamos um elevado grado de continuidad cultural. Entre estos grupos las tradiciones orales eran muy estables». In Raquel Alexandra AR Seixas, O Santuário de NSA de Aires, Arquitectura e Devoção, 1743 1792, Dissertação de Mestrado em História da Arte Moderna, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 2013.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A Arqueologia do Saber. Michel Foucault. «… as unidades que é preciso deixar em suspenso são as que se impõem da maneira mais imediata: as do livro e da obra. Aparentemente, pode-se apagá-las sem um extremo artifício?»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Regularidades Discursivas

As unidades do discurso

«(…) Nós próprios não estamos seguros do uso dessas distinções no nosso mundo de discursos, e ainda mais quando se trata de analisar conjuntos de enunciados que eram, na época de sua formulação, distribuídos, repartidos e caracterizados de modo inteiramente diferente: afinal, a literatura e a política são categorias recentes que só podem ser aplicadas à cultura medieval, ou mesmo à cultura clássica, por uma hipótese retrospectiva e por um jogo de analogias formais ou de semelhanças semânticas; mas nem a literatura, nem a política, nem tampouco a filosofia e as ciências articulavam o campo do discurso nos séculos XVII ou XVIII como o articularam no século XIX. De qualquer maneira, esses recortes, quer se trate dos que admitimos ou dos que são contemporâneos dos discursos estudados, são sempre, eles próprios, categorias reflexivas, princípios de classificação, regras normativas, tipos institucionalizados: são, por sua vez, factos de discurso que merecem ser analisados ao lado dos outros, que com eles mantêm, certamente, relações complexas, mas que não constituem seus caracteres intrínsecos, autóctones e universalmente reconhecíveis.

Mas, sobretudo, as unidades que é preciso deixar em suspenso são as que se impõem da maneira mais imediata: as do livro e da obra. Aparentemente, pode-se apagá-las sem um extremo artifício? Não são elas apresentadas da maneira mais exacta possível? Individualização material do livro que ocupa um espaço determinado, que tem um valor económico e que marca por si mesmo, por um certo número de signos, os limites de seu começo e de seu fim; estabelecimento de uma obra que se reconhece e que se delimita, atribuindo um certo número de textos a um autor. E, no entanto, assim que são observadas um pouco mais de perto, começam as dificuldades. Unidade material do livro? Será a mesma quando se trata de uma antologia de poemas, de uma colectânea de fragmentos póstumos, do Traité des coniques ou de um tomo da Histoire de France de Michelet? Será a mesma quando se trata de Un coup de dés, do processo de Gilles de Rais, do San Marco de Butor, ou de um missal católico? Em outros termos, a unidade material do volume não será uma unidade fraca, acessória, em relação à unidade discursiva a que ela dá apoio? Mas essa unidade discursiva, por sua vez, será homogénea e uniformemente aplicável? Um romance de Stendhal ou um romance de Dostoiévski não se individualizam como os de La comédie humaine; e estes, por sua vez, não se distinguem uns dos outros como Ulisses da Odisséia. É que as margens de um livro jamais são nítidas nem rigorosamente determinadas: além do título, das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuração interna e da forma que lhe dá autonomia, ele está preso num sistema de remissões a outros livros, outros textos, outras frases: nó numa rede. E esse jogo de remissões não é homólogo, conforme se refira a um tratado de matemática, a um comentário de textos, a uma narração histórica, a um episódio num ciclo romanesco; em qualquer um dos casos, a unidade do livro, mesmo entendida como feixe de relações, não pode ser considerada como idêntica». In Michel Foucault, A Arqueologia do Saber, 1969, tradução Luiz Neves, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2008, ISBN 978-852-480-344-7.                                               

Cortesia de FUniversitária/JDACT

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