segunda-feira, 6 de junho de 2016

Memórias Paroquiais. 1758. Alvito. Transcrição de André Coelho. «… achei, que esta terra e Villa de Alvito, está na provincia do Alemtejo pertence ao arcebispado de Evora, comarca da cidade de Beja, e he propria freguesia»

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Com a devida vénia a Fernanda Olival e André Coelho

Alvito. 2 de Junho de 1758. Memória Paroquial da freguesia de Alvito, comarca de Beja, [ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370]

[…]
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Satisfazendo ao que Vossa Excelencia me manda informar em vertude da ordem de Sua Magestade Fidelissima, e respondendo aos quezitos, que nella se contem, achei, que esta terra e Villa de Alvito, está na provincia do Alemtejo pertence ao arcebispado de Evora, comarca da cidade de Beja, e he propria freguezia. He de donatario, que ao prezente he o barão conde dom Jozeph Lobo Silveira. Consta ter dentro da Villa trezentos e noventa fogos ou vizinhos, e fora da Villa no seu termo oitenta não contando a Villa de Agua de Peixes, de que abacho darei noticia, a qual pertence ao governo espiritual desta Villa, e ao temporal do duque de Cadaval com que dentro da Villa nestes vizinhos ou fogos contão se mil cento e vinte pessoas, e fora da Villa trezentas, e sincoenta. Para a parte do Sul, e meyo dia esta situada em hum alto mas não muito eminente della se avistão o lugar de Odivelas em distancia de duas leguas, termo da Villa do Torrão, os lugares de Peraguarda, o de Alfundão cada hum em distancia de duas leguas e ambos termo da cidade de Beja, a Villa de Ferreira em distancia de três leguas, a Aldeya de Frigaches em distancia de duas leguas, a Villa de Bringel em distencia [sic] de tres leguas, a cidade de Beja em distancia de sinco leguas, alguma parte da Aldeya da Cuba em distancia de duas leguas, Villa Ruiva em distancia de meya legua, a Villa de Oriolla de Cima em distancia de duas leguas, e a Villa de Portel em distancia de quatro leguas. Tem termo proprio e para a parte do meyo dia tem duas leguas, e para as outras tem menos, e ha partes, que não chega a meya legua, e nelle não se comprehende aldeya alguma, e so tem a Villa de Agua de Peixes, que pertence ao duque de Cadaval, e tem dezoito fogos na villa e termo; tem quarenta pessoas. Na Villa está o palacio do duque de Cadaval aonde rezide o seu ouvidor, e almoxarife. A paroquia esta no arrabalde da villa, mas junto a ella para a parte do poente, não tem mais lugares, que a Villa de Agua dos Peixes [sic] o seu oragão he Nossa Senhora da Assumpção tem nove altares, o altar mayor de talha dourada; o qual na boca da tribuna tem debacho de hum docel a imagem de Nossa Senhora da Assumpção nas collunas do entalhados [sic] dous ninchos com as imagens de S. João da Mata e S. Feliz de Urebes[?], mas abacho no mesmo entalhado estão duas piannas, nas quaes estão as imagens de S. Pedro Apostolo e Santa Barbara. Da parte de fora do arco da capella mor estão dous altares o da parte do evangelho he de Nossa Senhora da Conceição e tem hum nincho mais alto com a imagem de S. João de Deos e he de talha dourado [sic], o da parte da epistola he de talha mas ainda não está dourado he de S. Chrispim, e S. Chrispiniano, e em sima tem e outro nincho a imagem do Arcanjo S. Miguel. Tem no cruzeiro dous altares colatraes, que ambos são capellas da caza do barão conde o da parte do evangelho tem em pintura as imagens de Santo André Apostolo, e do martir S. Sebastião na ilharga fica hum tumulo de predra com as armas do barão conde, que são sinco lobos, o da parte da epistola tambem em outra pintura o nascimento de Christo, e na ilharga tem outro tumulo com armas, que são seis costas, e duas cruzes. Tem três naves na da parte da epistola tem dous altares o primeiro he de talha dourada com três ninchos no do meyo está Nossa Senhora do Rozario de quem he a capella, e tem duas confrarias huma de brancos, outra de prettos, no nincho da parte direita esta a imagem de Nossa Senhora com ttitulo da Consolação, e no outro nincho a imagem de S. Jozé. O outro altar he pintado na parede, e tem em hum nincho a imagem de Christo crucificado com hũa vidrassa, tem nas ilhargas em ninchos a imagem do Menino Jezus, e a de Nossa Senhora dos Remedios e este altar se chama do Senhor dos Aflitos, e nelle se acha, e esta o sacramento que se divide aos fieis, e ambos estes altares estão em capellas mais dentro da parede, e no meyo delles está huma porta para a rua chamada a Porta do Sol, a qual fica ao meyo dia. Na nave da parte do evangelho tem outros dous altares em conrespondencia da outra nave, o primeiro he dourado, tem tres ninchos o do meyo he de Nossa Senhora com o titulo das Almas, a qual está anexa a Confraria das Almas, tem as imagens do Apostolo S. Thiago, e de S. Luiz Bispo a outra capella de pintada e tem tres ninchos no do meyo está Nossa Senhora do Carmo e tem confraria e nas ilhargas estão as imagens de S. João Baptista, e Santa Thereza nesta capella estão em hum sacrario duas reliquias a do Santo Lenho em huma cruz de prata, e a de S. Chrispim, e S. Chrispiniano tambem em hum reliquario de prata, e no meyo destas duas capellas está outra porta a que chamão a Porta da Sombra, e fica para o Norte»
. In André Coelho e Fernanda Olival, ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 3, nº 9, pp. 365 a 370, Memórias Paroquiais de 1758, Universidade de Évora, CIDEHUS, FCTecnologia, 2011.

Cortesia de UÉvora, Cidehus, FCT/JDACT

domingo, 5 de junho de 2016

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «… o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento…»

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«(…) Em 1355 encontramos outra referência do cronista a Martim Afonso Telo. A rainha dona Maria estava em Toro acompanhada de Martin Alfonso Tello, que era natural de Portogal, é viniera com la Reyna Doña María quando ella vino de Portogal, segundo dicho avemos. De Toro, dona Maria pediu aos seus enteados, Henrique Trastâmara Fradique, que fossem ter com ela àquela cidade, antes de o rei seu filho lá chegar, pois temia que este se vingasse da protecção que ela lhes tinha prestado anteriormente. Estes acederam e foram ter com a rainha. Em 1356, a rainha continuava em Toro, com Martim Afonso Telo, a condessa dona Joana, mulher de Henrique Trastâmara e outros cavaleiros. A aproximação do rei de Castela fê-los ir para a alcáçova da cidade, onde julgaram estar mais protegidos. Pedro I e os seus escudeiros entraram em Toro e mataram diversos cavaleiros que estavam contra o rei. Ao chegar à alcáçova, o rei exigiu que a mãe viesse ao seu encontro. Maria ainda tentou negociar o perdão dele para os homens que a acompanhavam, mas o filho mandou-a ir ter com ele, acrescentando que logo saberia o que fazer com os cavaleiros em questão. O resultado foi a morte destes, aos pés de dona Maria e de dona Joana, situação que provocou o desmaio às duas senhoras. Um desses cavaleiros foi Martim Afonso Telo. Ao recuperar os sentidos, a rainha amaldiçoou o filho e a vida e desejou morrer. Dias depois, Maria pediu ao filho que a enviasse para Portugal; o que de facto veio a suceder. A 10 de Janeiro de 1357 a rainha parece ter estado em Toro, segundo a Crónica de Alcântara, mas o Cronicon Conimbricense e a História genealógica da Casa Real portuguesa referem que a 18 de Janeiro a rainha dona Maria faleceu em Évora, depois de ter ido visitar os pais a Leiria.
A Crónica do rei Afonso IV (1325-1357) confirma que Maria faleceu viúva em Évora, mas não indica o ano. Acrescenta só que o corpo foi depois trasladado para a Capela dos Reis em Sevilha. A Crónica de Pedro I, de Fernão Lope, indica que Pedro I de Castela pediu ao seu homónimo, o rei Pedro I de Portugal, seu tio, logo que este começou a reinar, que lhe enviasse o corpo da mãe, para o sepultar ao lado do de seu pai, o rei Afonso XI, na Capela dos Reis, em Sevilha. Solicitou igualmente o envio das joias pertencentes a dona Maria. A História genealógica da Casa Real portuguesa afiança ainda que no testamento da rainha, outorgado a 8 de Novembro de 1351 (um ano depois de ficar viúva), Maria solicitava ser sepultada na dita capela, ao lado do marido, mas que, se este fosse trasladado para outro lugar, fizessem o mesmo com ela. Esta fonte não fez qualquer alusão ao adultério de Maria com o pai de Leonor Teles, antes descreveu a rainha como uma mulher que sempre dedicou ao marido o seu amor, quer em vida deste, quer depois da sua morte. Pero López Ayala também referenciou o óbito de Maria em 1357, e acrescentou-lhe um dado curioso, de que não encontrámos menção nas fontes portuguesas acima mencionadas: Maria morreu vítima de envenenamento causado pelo próprio pai, o monarca Afonso IV de Portugal: segund fué fama, dixeron que el Rey Don Alfonso de Portogal, su padre della, le ficiera dar hierbas con que moriese, por quanto non se pagaba de la fama que se oia della. O rumor era, pois, o adultério de Maria com Martim Afonso Telo, o pai de Leonor Teles.

O nascimento de Leonor Teles
Do nosso ponto de vista, consideramos credível que Leonor fosse natural de Trás-os-Montes. Vejamos os factos: na carta de doação de Vila Real de Trás-os-Montes dada a Leonor Teles, no ano de 1375, Fernando apresentou dois motivos para o acto: a obrigação que o casamento implicava e que o levou a ter de dar bens à rainha para ella sofrer os encargos que escusar nom poder; o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento de Afonso Télez (o quarto avô paterno de Leonor Teles), surge em 1258 como tenente de Bragança. Por outro lado, o irmão de João Afonso Telo I (o trisavô paterno da rainha dona Leonor Teles) foi Martim Afonso, que foi tenens de Santa Maria, Bragança e Montenegro. Por fim, Afonso Martins Telo (avô paterno da rainha) casou com Berenguela Lourenço, de Valadares. Esta família dos Valadares possuía importantes territórios no Norte de Portugal, nomeadamente em Trás-os-Montes, através de ligações matrimoniais estabelecidas com os senhores de Chacim. Leonor possuía, pois, relações familiares com a dita comarca, que prosseguiram ao longo da vida, já que a sua filha Beatriz foi presenteada por seu pai com a vila de Bragança em dote de casamento». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

O Comércio Negreiro. Séculos XV a XIX. Arlindo M. Caldeira. «E durante cerca de 180 anos, entre 1444 (chegada a Portugal do primeiro grande contingente de escravos) e 1621, (fundação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais), praticamente detiveram o exclusivo…»

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«(…) O aspecto mais polémico relacionado com os chamados tráficos orientais é o do número de escravizados africanos que, através deles, terão sido forçados a deixar as suas terras. Tendo-se desenvolvido num espaço temporal muito alargado (séculos VIII a XX), falta, ou é muito escassa, a documentação para vastos períodos que lhes dizem respeito, pelo que os quantitativos avançados pelos diversos autores não passam de estimativas. Assim, para os anos que vão de 650 a 1400, isto é, antes do início do comércio transatlântico, o historiador americano Ralph Austen calcula que tenham sido transportados pelas rotas transarianas cerca de 4 milhões de escravos, e perto de 2 milhões por via marítima. Avançar com um número total para os tráficos orientais, no período que vai de 650 a 1920 (só no início do século XX terminou oficialmente a circulação de escravos por essas rotas) está longe de ser objecto de consenso, apresentando-se valores que oscilam entre os 9 milhões e os 17 milhões de seres humanos deportados de África. Diga-se, como termo de comparação, que se calcula em cerca de 13 milhões o número de africanos vítimas do tráfico transatlântico. Os valores, entre ambos os tráficos, não devem ser, portanto, muito díspares, embora haja que ter em conta que, no caso do comércio transariano e oriental, se trata de um processo que se prolongou por mais de 1300 anos, enquanto no atlântico se concentrou em menos de quatro séculos. Apesar disso, os defensores dos valores mais elevados para os tráficos orientais, puderam utilizar essa aparente diferença quantitativa para continuarem a afirmar, na sequência de Paul Bairoch, que não foram os ocidentais os maiores negociantes de escravos.

O tráfico transatlântico
O nosso conhecimento do tráfico transatlântico (ou tráfico ocidental) de escravos tem vindo a melhorar substancialmente nas últimas décadas, devido a um crescente interesse por parte dos historiadores, nomeadamente norte-americanos, por essa área de estudos. Mesmo em termos quantitativos, ultrapassou-se já a fase das estimativas de carácter geral e começamos a aproximar-nos dos números reais. O projecto mais ambicioso é uma investigação colectiva, dirigida pelo historiador David Eltis, com vista à elaboração de uma base de dados capaz de reconstituir a dimensão e a estrutura do tráfico de escravos transatlântico entre os séculos XVI e XIX. Os primeiros resultados, que, na altura, já superavam, em muito, o que se conhecia até aí, foram divulgados num CD-ROM, em 1999. A investigação, no entanto, continuou e, desde 2008, foi colocada na Internet, em regime de acesso livre, The Trans-Atlantic Slave Trade Database, uma base de dados, alimentada em permanência, que reunia, no início de2012, informação detalhada sobre cerca de 35 000 viagens do infame comércio, saídas de África entre 1501 e 1866. Embora se calcule que já estejam contempladas cerca de 80% de todas as viagens, há ainda muitas lacunas, que, infelizmente, se concentram sobretudo no tráfico com o Brasil e a América Espanhola. É possível, no entanto, contar, no mesmo site, com estimativas credíveis em que, usando modelos matemáticos; se tenta conciliar os dados disponíveis com a informação de outras fontes de carácter mais geral.
Coube aos portugueses o papel pouco honroso de terem iniciado o tráfico de escravos no Atlântico, uma vez que o avanço das caravelas lhes tinha permitido encontrar uma alternativa às tradicionais rotas transarianas. E durante cerca de 180 anos, entre 1444 (chegada a Portugal do primeiro grande contingente de escravos) e 1621, (fundação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais), praticamente detiveram o exclusivo desse comércio. Ainda assim, um exclusivo relativo: quase desde o início, espanhóis (sobretudo das Canárias), franceses e ingleses desafiavam as restrições do mare clausum formuladas no Tratado de Tordesilhas e apareciam a negociar no litoral africano. Além disso, se a imensa maioria dos navios e dos traficantes era portuguesa, muitos dos capitais pertenciam a italianos e flamengos. Os primeiros dois séculos são ainda, em volume e em estrutura, uma pequena amostra do tipo de tráfico que virá a seguir, embora já cerca de três mil escravizados sejam vendidos em cada ano. Alguns desses escravos não chegavam a sair de África pois, comprados pelos portugueses no delta do rio Níger e noutros locais, eram vendidos na Costa do Ouro em troca de metal precioso. Calcula-se que, entre 1482 e meados do século XVI, tenham sido objecto desse comércio inter-regional cerca de 30 mil africanos». In Arlindo Manuel Caldeira, Escravos e Traficantes no império português, O Comércio Negreiro no Atlântico durante os séculos XV a XIX, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-478-9.

Cortesia EsferadosLivros/JDACT

sábado, 4 de junho de 2016

Os Pecados da Rainha Santa Isabel. António Cândido Franco. «E que dizer do de Dinis, fustigado pelo chicote do filho até morrer de apoplexia. Salva-se Isabel, com uma vida de surpresas, de imprevistos, de contradições, uma existência copiosa»

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«(…) Anteponho sem acanhamento Leonor Teles a Inês de Castro. São ambas mártires do Amor, mas Inês é a rosa passiva que uma mão bruta desfolhou enquanto Leonor é a chama activa que só a perfídia apagou. É ela a verdadeira heroína feminina do amor em Portugal. Foi tão longe em ousadia, subiu tão alto em exigência de amar, alcançou tanto, que lhe tiraram a coroa e a isolaram num cárcere, cuspindo vitupérios no seu nome e contrafazendo os seus feitos. Nada no comércio familiar dos dias é tão fácil de adulterar como a urgência de amar. E quando esse aperto tem como ponto de partida uma mulher qualquer seriedade fica para sempre comprometida. Adeus reputação. E eis uma mulher de excepção, como Leonor Teles, transformada em adúltera pérfida e criminosa sem perdão. Mas a História, velha patranheira, não me engana e por isso ainda hoje, à distância de seiscentos anos, ouço o rugido da louca paixão de Leonor. Que cabeça estupenda e altiva! Que bramido convulsivo de leoa! Regresso pois a essa noite do tempo que é a Idade Média. Desta vez o que suscita a minha curiosidade são os antecedentes de Pedro. Convenço-me que o seu drama se encontra todo nos antepassados, ao modo do que acontece com a árvore que está dobrada na semente. Conheço bem o safardana do pai, a figura mais trágica da História de Portugal. Sopra nele uma furacão húmido e bolorento, o mesmo que instigou Macbeth a matar Duncan para lhe tomar o lugar. Foi um ambicioso sanguinário, que esteve para virar o pai e acabou a apunhalar o filho. O herói do Salado! Que capa grossa e que eufemismo para um assassino! Cai-lhe melhor o impropério descabelado que a medalha do prémio. A sua tragédia foi a da cobiça e a do remorso, ainda que o último lhe tenha chegado em hora tão tardia como aziaga, quando a filha, empestada e mofina, lhe veio de Castela morrer aos soluços nos braços lassos. Afonso IV cola-se de tal modo à história do filho que não se pode abordar um sem dar de caras com o outro. Conheço pois de ginjeira, oh, se conheço, este monstro, cujas mãos estão para sempre manchadas de sangue cru.
Mas os avós de Pedro, os pais de Afonso IV Dinis e Isabel, passaram-me até aqui despercebidos. São quase uma ausência nas minhas palavras. E no entanto que drama extraordinário se esconde na vida de ambos. Nele reside a explicação de significativa parcela do que depois aconteceu. A memória da História dura se tanto quatro gerações. Volvidas elas, tudo se renova em novo lance, como se nenhuma continuidade se sentisse entre o antes e o depois. Quem se reconhece no tetravô? Ninguém. Assim entre Dinis e Fernando, além do quadro mais criativo da nossa Idade Média, treme a mesma vibração. Quem não vê no alaúde de Dinis, o pandeiro de Pedro? E no coração instável, inflamado e cheio de Dinis quem não sente o órgão com que Pedro amou Constança e Inês? Até a perturbante saudade, que só alagou o imaginário português depois do mórbido desaparecimento de Inês, com a gelada solidão de Pedro, já se entrevê num grito de aflição duma canção de Dinis, que soidade hei de nha senhor. Quem não sente neste intenso e desmedido apetite do avô o desesperado e louco desejo do neto? Resta Isabel, essa misteriosa rainha de Portugal que nos chegou doutro agro, menos travoso e melancólico. Faz assim neste novelo de histórias e acções a impressão duma estranha. É ela o motivo do meu regresso ao passado; é por ela que me desligo do presente e caminho entre ruínas e espectros, com eles me confundindo. O de Manfredo assusta-me, morro no campo de batalha, e surgido em espectro fantasmático no primeiro círculo do Purgatório de Dante; o de Frederico II enche-me de respeito; já o de Pedro II de Aragão me entristece de morte e o de Conradino me comove até às lágrimas. E que dizer do de Dinis, fustigado pelo chicote do filho até morrer de apoplexia. Salva-se Isabel, com uma vida de surpresas, de imprevistos, de contradições, uma existência copiosa, que é uma pena andar desperdiçada e tão mal aproveitada, de tão mal contada. Mas também ela, Isabel, é um espectro triste, vivendo o drama fundo da dor. Ainda assim chega uma vida como a dela para redimir os desterros dum pobre contador.
Isabel veio de Aragão, na outra ponta da Península, a centenas e centenas de quilómetros de demora. O nicho natal, no côncavo duma mão, com o Ebro e o Guadalaviar a sulcarem a palma, vivia então a idade de todas as maravilhas; era porventura a primeira potência comercial da Europa, para em breve se tornar, com os irmãos de Isabel no trono, na única e indiscutível potência imperial do Mediterrâneo, das Baleares às ilhas do mar Egeu. Os catalães, industriosos por oficio, expansivos por situação, ocupavam as ilhas do mar Tirreno, reinavam em Nápoles e La Valeta, tinham vassalos na Grécia e na Anatólia. O imperador de Constantinopla, rendido ao fausto e temeroso da força, não se retraía em confiar o título de césar ao representante do rei de Aragão; o patoá catalão era o parolar franco daquelas paragens. Caíam as derradeiras fortalezas de francos e germanos na Palestina, pondo cobro às Cruzadas, e iniciavam os da Catalunha a gesta da sua expansão. Os almogáveres catalães, encabeçados por Rogério Flor, valiam os bucéfalos de Alexandre e os centos romanos, quanto mais uma cruzada. Por isso tiveram a crónica de Muntaner, que vale Tucídides e Tito Lívio. Uma tal prosa, esplêndida como flor de oiro, é em qualquer língua um penhor de longevidade tão comprida como a de Matusalém». In António Cândido Franco, Os Pecados da Rainha Santa Isabel, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-289-2.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Memórias de Agripina. Seomara V. Ferreira. «No início de Novembro de 768 do ano da fundação da Cidade minha mãe deu à luz uma rapariga, a primeira das três filhas que sobreviveram. Já tinha três filhos varões: Nero, Druso, Caio»

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«(…) Oiço o rumorejar das folhas da trepadeira e os sussurros que a noite contém no seu regaço de vidro. Este silêncio onde crepitam os astros e balbuciam os seres quase inanimados da natureza, escutei-o muitas vezes nos meus exílios, de mistura com o bater cadenciado e surdo das ondas na areia. Os luares opala e sangue de Pontia, a agonia da última hora em Antium, a luz quase ametista sobre o mar cor de vinho no meu regresso a Misenum. E hoje, que coisa estranha, neste nó do tempo onde a nossa vida se decide e dissolve sinto a certeza de que tudo esteve certo desde o início como se toda a minha vida, desde os tempos frígidos da Germânia bárbara onde nasci nesse duro Inverno de Ara Ubiorum, até ao derradeiro banquete no Palatino, tivesse só um único significado e este único fim. Hoje preciso de utilizar somente as palavras necessárias e despojar o meu pensamento de tudo o que é adventício, secundário, banal. Que os deuses, apesar de tudo, me deixem morrer na plena consciência de meus crimes assim como da minha inocência, porque hoje consagra-se o meu destino no altar do sacrifício que constituirá o sinete terrível gravado na fronte de Lúcio Domício e que expiação terrível ele irá sofrer! Não, a ele nem lhe será poupada esta hora, de morrer com a dignidade dos nossos maiores. Ele, o meu Domício, o meu filho, vai morrer como um cão e rastejar como um verme no seio da sua própria morte. Ele já há algum tempo esqueceu tudo mas eu não esqueci nem poderei jamais esquecer que sou a filha de Germânico e a herdeira natural de Augusto e que o preço do poder como o do génio ou é a morte anónima e infame ou a púrpura imperial.
Eu cantarei coisas terríveis... Recordo Ovídio e relembro também Virgílio e a sua basta cabeleira branca, o seu corpo esguio e levemente corcovado. Eu não o recordo pessoalmente mas a minha avó Antónia costumava relatar os momentos em que frente a Augusto, Virgílio leu alguns, bem poucos por sinal, passos da Eneida. Virgílio e Horácio, os eternos solteirões do Principado, cujo túmulo será desconhecido dos vindouros. Aí existe uma certa justiça dos deuses. Os poetas não devem ter túmulos. Pertencem à Eternidade. Aeternitas. Eis uma palavra pura. Aliás, essa é uma das grandes dádivas do nosso destino romano, esta língua dura mas flexível, rica, solene precisa e terrivelmente bela. Verba Manent. Às vezes nem isso. Durante as noites do meu desespero quando acontecia sonhar com Roma e o futuro quantas vezes me perguntei qual o destino nosso, da Urbe do Império que é o mundo, das suas obras, deste imenso destino do qual o Homem Romano é apenas o sagrado mediador? Aterroriza-me apesar das certezas de meus avós e apesar do conjunto quase perfeito do sistema romano, pensar nos povos que nos precederam e cuja memória, se não fôssemos nós, ter-se-ia perdido. Um dia, da poeira dos milénios, restará ainda alguma coisa da nossa história, da nossa cultura, ou tudo se reduzirá a cinzas e toda a vida tumultuosa e rica do Império será apenas um ignoto dia nefasto para os vindouros, apagado pelo sal da incompreensão e da intolerância?
Recordo, oh! Como hoje recordo meu pai!, e o seu calmo olhar luminoso e azul que fitava o horizonte como se visse para lá da cortina do tempo: a mais saudável forma de sabedoria é a tolerância. Nada é definitivo nem os deuses, porque a ideia que temos deles fomos nós que a construímos e é, portanto, necessariamente imperfeita. Nasci na Germânia. Num local calmo, não fora os problemas que as fronteiras com os territórios bárbaros levantam ao governo do Império. Nasci em Novembro na terra dos Úbios, hoje Colónia, desde Cláudio meu tio e meu marido. Não só em meu nome se chama hoje Colonia Arae Agrippinensium. Mas em honra do meu avô, Marco Agripa, que a fundou e pacificou toda a região, ele que foi o braço direito de Augusto e também um dos grandes génios do Principado. Sem dúvida meu avô Marco foi um homem dos mais ilustres deste século. O busto de mármore de Paros que guardo na minha casa de Antium recorda-me frequentemente a nobreza da sua alma de velho Romano, a integridade do seu carácter a fidelidade a Augusto, que ele sabiamente selou com o seu destino e a sua vontade sabendo que servindo Augusto servia o Estado. Foi em sua honra mais que em minha, apesar dos vícios de que me acusam e da língua feroz de meus inimigos neste momento em que sabem que perdi o meu lugar junto do Imperador, pois foi em honra de Marco Agripa que o acampamento, onde meu outro avô Druso ergueu um altar à Victória e ao Império e eu nasci, se transformou numa colónia de veteranos. Há laços fundos de sangue e de glória que nos ligam à Germânia e laços de honra também. No início de Novembro de 768 do ano da fundação da Cidade minha mãe deu à luz uma rapariga, a primeira das três filhas que sobreviveram. Já tinha três filhos varões: Nero, Druso, Caio. Antes, dois filhos mortos na infância... Eu fui a primeira das raparigas. Depois de mim ainda nasceram Drusilla e Julia Livilla. O nome que me puseram foi Júlia Agripina. Agripina como minha mãe e Júlia como minha avó. Augusto morrera apenas há cerca de um ano e três meses, em Nola, na Itália, em Agosto. Meu pai, quando morreu Augusto, achava-se na Gália a supervisionar o recenseamento. Foi nesse momento que se iniciou a revolta das Legiões V e XXI na Germania Secunda. Pouco depois da morte do fundador do Principado, no seu exílio de Regium, extinguia-se minha avó Júlia...» In Seomara Veiga Ferreira, Memórias de Agripina, 1993, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-231-664-4. 

Cortesia de EPresença/JDACT

Um Homem Escandaloso. Tiago Rebelo. «Viviam com relativamente pouco, mas sem lhes faltar o essencial, e isso nunca fora uma questão nem um entrave à felicidade deles, porque João Pedro não era homem de grandes gastos»

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«(…) João Pedro calculou que ela viera das Maurícias carregada de presentes para os filhos e que haveria um Natal antecipado lá em casa. Clara não se poupava para satisfazer todos os caprichos dos gémeos, mimava-os demais, no entender de João Pedro. Já tentara abordar o assunto, na esperança de a levar a ser mais razoável nesse particular mas a reacção fora desanimadora e até um pouco agressiva. Clara encrespara-se, fizera-lhe uma longa prelecção sobre os seus predicados de mãe, acusara-o de se sentir despeitado por ela gastar dinheiro com os gémeos porque o poder de compra dela aumentara consideravelmente com a sua nova e muito feliz relação. Em suma, disse: João Pedro, vai-te fo… com os teus falsos moralismos só porque eu posso oferecer uma boa vida aos nossos filhos, coisa que antes não acontecia com a mesma facilidade, porque tínhamos o dinheiro todo contado, graças a ti. E era bem verdade, antes, tinham o dinheiro contado e, nos derradeiros tempos, praticamente já só viviam do ordenado dela porque os quadros de João Pedro deixaram de se vender à medida que a crise avançava e esmagava a economia e as pessoas. Porém, no momento em que ela lhe atirou à cara o fracasso dele e sugeriu que tinha mais poder de compra do que ele, já não era exactamente assim, pois a sorte de João Pedro mudara. Bem, talvez não tivesse mudado pelas melhores razões, daí mais uma justificação para o ressentimento de Clara, mas mudara e não fora pouco.
Clara costumava ser uma mulher comedida que levava a vida sem se queixar. Tratava das contas da casa com um rigor espartano e o dinheiro, ou a falta dele, jamais constituíra um problema. Viviam com relativamente pouco, mas sem lhes faltar o essencial, e isso nunca fora uma questão nem um entrave à felicidade deles, porque João Pedro não era homem de grandes gastos e Clara não ambicionava vestidos de marca, jóias caríssimas ou viagens a lugares exóticos. Clara, porém, desejava muito mais do que a marca da roupa ou o brilho do diamante, ou não se teria casado com ele a  imaginar que, um dia, os seus quadros lhe trariam o reconhecimento público, as honrarias das condecorações presidenciais, o prestígio dos leilões da Christie's com preços de vendas a baterem recordes. Justamente, o falhanço de João Pedro era o fracasso de Clara que, vendo os seus sonhos defraudados, se livrara dele insensivelmente, deitando-lhe todas as culpas, e, à falta das honrarias, contentara-se com um segundo casamento endinheirado e tornara-se uma mulher sofisticada. Estava rejuvenescida: vestia mais caro, fazia luas-de-mel em resorts de luxo nas ilhas Maurícias, dizia ao ex-marido que se fosse fo…! O dinheiro tinha destas coisas.
João Pedro sentou-se a uma mesa no café com um sorriso nos lábios, rodeado de jornais e revistas, pois entusiasmara-se e acabara por comprar um festim de literatura com que tencionava banquetear-se na próxima hora. Mais tarde, satisfeito com a leitura, enfiou tudo num saco, pagou a conta e, como não tinha grande vontade de voltar para casa, pôs-se a deambular pelos corredores do centro comercial. A certa altura, deteve-se perante a montra de uma loja de animais a admirar um cãozinho que atraiu à sua atenção. O bicho dormitava no interior de um cubículo de acrílico transparente. Era um boxer, reconheceu logo a raça, ainda que estivesse meio camuflado por um montinho de palha que lhe servia de cama e no qual se afundava. Quando era miúdo, João Pedro odiava aqueles cães. Não porque tivesse tido algum episódio infeliz com um deles ou que se assustasse particularmente com os boxers, mas porque, bem, como dizer isto?, digamos que a sua fisionomia fazia lembrar a dos boxers um pouco mais do que ele desejaria. João Pedro tinha prognatismo e, tal como nos boxers, a mandíbula inferior proeminente era a sua característica mais evidente. Na realidade, essa característica condicionara decisivamente a sua forma de se relacionar com o mundo, definira o seu carácter até aos dias de hoje». In Tiago Rebelo, Um Homem Escandaloso, Edições ASA, 2014, ISBN 978-989-232-876-8.

Cortesia de EASA/JDACT

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E não sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Carta II
«(…) E o gozo, o gozo brutal, o gozo Deus, fere-me a retina, fricciona-me a epiderme, abraça-me, deslumbra-me e puxa-me para si com seus pulsos de aço como uma amante no cio. O vício tem recantos como uma cidade à noite. A quantos já teria pertencido aquilo? Quem seriam? Tateio. A carne, esta coisa brutal cheia de veias, de nervos, tendões, glândulas e ossos, cheia de instintos e misérias; a carne que sua e cheira mal; que se desforma, se infecta, se ulcera, se cobre de gelhas, de pústulas, verrugas e pêlos (d’ Annunzio), é mole, viscosa, flácida. Parece moída. Quantos a terão beijado? Quantos a terão acariciado? Quantos lhe terão batido, quantos? O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa adega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que dei à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico. Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom! Mulheres honradas? Ah, tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade. Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem. Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir? Por dinheiro tudo se compra. As bençãos das santas e o crânio dos heróis, a camisa de dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas, saltimbancos e mendigos, fidalgos e aguardente, trapeiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos e famintos, sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua coorte. O próprio Deus, o próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhado de ouro. E como o dinheiro ri! Tu nunca ouviste o dinheiro rir? Despeja um saco de ouro e ouvirás uma gargalhada. O som do ouro que se choca é o seu riso, e esse riso a quantos não despedaça a alma?!
Quero que mates o teu irmão, que dispas a tua irmã na praça pública, que esbofeteies a tua mãe. Chego-me a ti e digo-te: ouro, terás muito ouro, um grande deboche de ouro se o fizeres. E tu não resistirás, eu sei-o. Uma prostituta não é ninguém. aquela que se dá aos marujos e aos ladrões, à noite, nos recantos, levando-lhes a sua carne para que se saciem, vale tanto como a que se dá ao ministro, e a que é cortesã do papa. A vida das primeiras é mais suada. Como elas devem odiar as mães. Pobres mulheres? É uma vida como qualquer outra. A da esfregadeira, a da mulher a dias, a da amortalhadeira não pesa mais, não custa mais? Aquilo rende, aquilo ainda dá muito dinheiro. Porque não trabalham? É boa! Então quem me havia de aturar a mim, a ti, a todo o mundo, a todos os canalhas? Quem, não me dirás? Tua irmã? Tua mãe? O crime é um negócio, a Vida uma escravatura. A alma é escrava do crime, a carne é escrava do gozo. Morrem? Que temos nós com isso? Todos nós temos que morrer. Quem se lembra de uma prostituta que morre? Os corpos perdem-se na terra e no esquecimento como as blasfémias se perdem no ar. A Vida é uma grande cama onde existe sempre a plena orgia da carne. Lá passam as noites uma rameira abraçada a um poeta, um bêbado no peito de uma marquesa que empobreceu. É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E não sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas, não floriu uma chaga, tanta peçonha e amargura eles continham. É a sarjeta onde se escoa a lama da Vida, para onde a terra baba a nata da podridão». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

A Aia da Rainha. Barbara Kyle. «Que noite!, resmungou, circulando por entre ossos e dejectos. Realmente, o primeiro de Maio é para a gente se divertir, mas desta vez os aprendizes foram longe de mais. Assaltaram a prisão de Newgate…»

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Maio de 1517 a Junho de 1522
«(…) Tu vieste ajudar-me, sussurrou ele. Não havia ninguém, mas apareceste tu. Como posso ter medo quando tenho uno àngelo, um anjo a meu lado? Honor ouviu passos e imobilizou-se. A Lua tinha-se escondido outra vez atrás das nuvens, de maneira que ela não conseguia ver grande coisa, mas conseguia ouvir vozes graves, vozes de homem, apesar de não distinguir o que estavam a dizer. O moribundo também as ouviu. O corpo sofreu um espasmo. Dentro..., da minha túnica, sussurrou. Piccolo àngelo... Pega. Estava a cuspir sangue. Pega! Depressa! Honor ajoelhou-se e meteu-lhe a mão dentro da única, de onde tirou um livrinho, pouco maior do que a mão de um homem. Escrevi-o, disse ele, e brilhavam-lhe os olhos, como que de alegria, para ti. Para mim?, perguntou ela, encantada, embora o comentário fosse absurdo, porque eles não se conheciam. E ela nem sequer sabia ler. Mas nunca..., nunca mostres isso a um padre! O homem tossiu. Honor encolheu-se, ao sentir o sangue quente salpicar-lhe as mãos. Compreendeste? Nunca..., a um padre! É um segredo?, sussurrou ela. Si, piccolo àngelo, respondeu ele, um sorriso sereno formando-se-lhe nos lábios. É um segredo...
O sangue jorrava-lhe agora em borbotões. A cabeça pendeu-lhe, os olhos mortos fixando-a, muito abertos. Mas Honor não se sentiu horrorizada. Apesar da violência de que fora objecto, tinha morrido de forma pacífica. Algures por aqui... Era uma voz masculina. Duas formas escuras dobravam a esquina da rua da casa assaltada. Honor meteu o livro pela manga larga e acocorou-se, observando os homens que se aproximavam. Vinham aos pontapés ao lixo. Tens à certeza de que ele trazia uma bolsa?, resmoneou um deles. Vi-lha no cinto quando ele caiu, insistiu o outro. E os anéis? Também lhe corto os anéis? Corta-lhe os tomates, se for preciso, mas não deixes lá ficar a bolsa. Por fim, o segundo homem avistou o corpo e apontou com um dedo: está ali! E acorreram ambos. Quando estavam a poucos passos do corpo caído, o segundo homem deteve-se abruptamente e esticou o braço para deter o primeiro. Raios, lá está aquela miúda!
Rapando dos punhais, os dois homens avançaram para ela. Honor levantou-se de um salto, preparada para fugir. Foi então que sentiu um braço forte agarrá-la por trás e, levantando-a pela cintura, voltá-la ao contrário e pô-la ao ombro. Honor viu-se dobrada ao meio, de tal maneira que apenas conseguia avistar os saltos das botas do seu raptor, que corria pela rua a grande velocidade, enquanto ela se esforçava por respirar. Foi assim transportada durante meio quarteirão, após o que o homem se meteu por uma viela e, parando a corrida, a ergueu novamente ao ar com rudeza, apertando-lhe as costelas. Enfurecida pelo medo, de olhos fechados, ela tentou bater-lhe com os punhos nos olhos, mas ele não teve qualquer dificuldade em lhos manter à distância. Qu'é que está a fazer? gritou ele. Ralph!, exclamou ela, abrindo os olhos. Depois, lançou-lhe os braços ao pescoço, encostando a cara à face áspera dele. Oh, Ralph, prosseguiu, meio engasgada, eles assaltaram as casas! E empurraram aquele estrangeiro da janela abaixo, e ele caiu e partiu-se todo! E aqueles ladrões queriam matar-me e...
Pronto, menina. Eu estou aqui. E, encostando-lhe uma mão à parte de trás do pescoço, abraçou-a com a outra. Pronto, já passou. E começou a andar com rapidez. Era manteve-se bem encostada a ele, deixando-se embeber pelo odor reconfortante daquele corpete de couro já muito usado que tão bem conhecia, e sentindo-se realmente segura nos braços dele. Aos dezanove anos, Ralph Pepperton tinha mais de um metro e oitenta e era forte como um tronco de árvore. Margaret, a ama, dissera-lhe certa vez, e não sem orgulho, que Ralph nunca saíra vencido de uma rixa. Na Festa da Anunciação, ele tinha saltado o muro do jardim do vizinho para ir fazer uma visita à bela criada de dentro da casa ao lado, e vira-se envolvido com dois servos da mesma casal o certo é que os criados de ambos os lados tinham apostado na vitória de Ralph... É um touro com duas patas, fora o comentário que o pai de Honor fizera nesse dia sobre ele, embolsando os lucros que ele lhe proporcionara. Ralph avançava pela viela escura, em direcção ao brilho das tochas que se avistava em Cheapside, uma via bem mais ampla.
Que noite!, resmungou, circulando por entre ossos e dejectos. Realmente, o primeiro de Maio é para a gente se divertir, mas desta vez os aprendizes foram longe de mais. Assaltaram a prisão de Newgate e soltaram os presos. E agora andam a incendiar as casas de Lombard Street. E vi uns quantos perseguirem um francês até ao alto do campanário de Santa Maria, como quem persegue uma ratazana; depois arrastaram-no cá para
baixo e atiraram-se a ele. E continuava a falar como se quisesse acalmá-la, embora a voz dele fervesse de indignação. Concedo que os aprendizes têm alguma razão de queixa dos estrangeiros, mas valha-me Deus, esta noite cometeram-se muitos pecados, e de peso. E eles hão-de pagar por isso, tão certo como haver jejum na Quaresma. Mas não tenha medo, menina, murmurou, aqui comigo ninguém lhe faz mal. Ela abraçou-o com toda a força, mas quando ele a apertou a si estremeceu, pois ainda estava dorida do ataque do aprendiz. Ralph deteve-se por baixo de uma janela aonde tremeluzia uma vela e, afastando-a de si, examinou-lhe rapidamente a cara e os braços enlameados. Mas o que foi que a fez sair de casa numa noite destas?, perguntou ele, e a voz tremia-lhe com uma indignação que ela nunca lhe tinha ouvido. Como é que foi sair numa noite maldita como esta? E, vendo que ela se calava e fazia beicinho, abanou-a como se quisesse obrigá-la a responder. Pára com isso, Ralph Pepperton! Não consinto que voltem a abanar-me!, exclamou ela de lágrimas nos olhos. Larga-me!» In Barbara Kyle, A Aia da Rainha, 2008, tradução de Maria José Figueiredo, Planeta Manuscrito, 2009/2010, Lisboa, ISBN 978-989-657-058-3.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

Helena de Tróia. Margaret George. «A minha visita a Tróia não passara de um sonho. E até aquilo que tinha permanecido nesse sonho agradável, as muralhas, as torres, as ruas e os edifícios, tinha desaparecido. Não restara nada»

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«(…) Como nunca estivera. As pedras não eram exactamente assim, não; não tínhamos conseguido as pedras vermelhas de Frígia e tínhamos precisado de as substituir por umas mais escuras de Lesbos. Contudo, lá estavam as vermelhas, unidas com argamassa e no seu sítio. Por um instante senti-me deslumbrada com isto e fiquei a olhar boquiaberta. Não, não era assim a não ser na nossa imaginação, murmurei eu como se as pedras fossem brilhar e rearranjar-se ao som das minhas palavras. Mas permaneceram teimosamente como estavam. Encolhi os ombros. Não importava. Entrei no palácio, atravessei o amplo megarón e subi as escadas até ao mais privativo dos nossos aposentos, os aposentos para onde Páris e eu nos retirávamos quando terminavam finalmente as tarefas do dia e podíamos ficar a sós. As minhas passadas ecoavam. Porque estaria tão vazio? Era como se tivesse sido enfeitiçado. Não havia qualquer movimento, não se ouvia qualquer voz. Parei à porta do quarto. Páris devia estar ali. Estava à minha espera. Regressara dos campos, da doma dos cavalos mais selvagens, como tanto adorava fazer e devia estar naquela altura a beber um copo de vinho e a massajar uma ou duas contusões resultantes do trabalho daquele dia. Levantaria os olhos e diria: Helena, o cavalo branco de que te falei... Abri resolutamente as portas. O quarto estava assustadoramente silencioso. Também estava escuro. Entrei, e o sussurro do meu vestido em redor dos pés era o único barulho. Páris?, disse eu... , a primeira palavra que proferia. Nas histórias, as pessoas são transformadas em pedra. Mas aqui tinham desaparecido. Girei e tornei a girar, procurando alguém nos aposentos, mas não havia nada. A concha de Tróia permanecia, os seus palácios, paredes e ruas, mas tinha sido despojada daquilo que a tornava verdadeiramente grandiosa, a sua gente. E Páris..., onde estás, Páris? Se não estás aqui, na nossa casa, onde estás?
Vi a luz do Sol e dei graças por alguém ter aberto as portadas. Agora Tróia podia recomeçar a viver; agora o brilho do Sol iria inundá-la. As ruas encher-se-iam de novo com pessoas e ressuscitariam. Tróia não tinha desaparecido, tinha apenas adormecido. Agora podia acordar. Minha senhora, está na hora. Alguém tocava no meu ombro. Dormiste demasiado tempo. Mas eu continuava agarrada a Tróia, no quarto do meu palácio. Páris já devia ter chegado. Claro que sim! Ele ia chegar! Sei que é difícil, mas tens de acordar. Era a voz da criada de quarto. Menelau só pode ser enterrado uma vez. E hoje é o dia. As minhas condolências, minha senhora. Sê forte. Menelau! Abri os olhos e olhei esgazeadamente em volta. Aquele quarto, não era o meu quarto em Tróia. Oh, deuses! Eu estava em Esparta e Menelau estava morto. Menelau, o meu marido espartano, estava morto. O troiano Páris não estava ali. Já lá não estava havia trinta anos. Tróia já não existia. Eu já nem lhe podia chamar uma ruína fumegante pois o seu fumo há muito fora engolido pelo céu. Tróia estava tão morta que até as suas cinzas tinham sido dispersadas.
A minha visita a Tróia não passara de um sonho. E até aquilo que tinha permanecido nesse sonho agradável, as muralhas, as torres, as ruas e os edifícios, tinha desaparecido. Não restara nada. Chorei. Uma mão suave no meu ombro. Sei que sofres por ele, disse ela. Mas mesmo assim, tens... Pus os pés fora da cama. Eu sei. Tenho de ir ao funeral. Não, mais do que isso, tenho de o presidir. Levantei-me, ligeiramente zonza. Sei qual é o meu dever. Minha senhora, eu não queria... Claro que não. Por favor, escolhe as minhas roupas. Pronto, isso ia livrar-me dela. Pressionei as têmporas com as pontas dos dedos. Menelau morto. Sim. Era verdade. A sua confissão, a sua súplica, tudo a mesma coisa. Eu perdoava-o. Tinha sido há tanto tempo. E Páris: as gerações vindouras comporão canções sobre nós, dissera-lhe eu. Que jovem tola eu fora. Ele tinha desaparecido. Não se encontrava no meu sonho, e eu sabia agora que se tinha tratado de um sonho. Páris e eu já não estávamos juntos. Não importava. O sonho tinha-me mostrado o caminho. Eu ia regressar a Tróia após o funeral, depois de estar tudo orientado em Esparta. Tinha de voltar a vê-la, por mais vazia e arruinada que pudesse estar. Era onde eu tinha vivido mais plenamente, onde Helena se tinha transformado verdadeiramente em Helena e se tornara Helena de Tróia». In Margaret George, Helena de Tróia, 2006, tradução de Isabel Penteado, (Chádascinco, livros com sexto sentido), Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-803-276-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «Para muitos desses muçulmanos, após anos de dissonância parece haver apenas duas alternativas: deixar o islão de uma vez, como eu fiz, ou abandonar a insípida rotina de observância diária»

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«(…) Os muçulmanos de Medina acreditam que assassinar um infiel é obrigatório se ele não se converter voluntariamente ao islão. Pregam a jihad e glorificam a morte pelo martírio. Os homens e mulheres que aderem a grupos como Al-Qaeda, EI, Boko Haram e Al-Shabaab na minha Somália natal, para citar apenas quatro dentre centenas de organizações jihadistas, são todos muçulmanos de Medina. E são minoria esses muçulmanos de Medina? Ed Husain estima que apenas 3% dos muçulmanos do mundo concebem o islã nesses termos belicosos. Mas acontece que 3% de mais de 1,6 bilhão de crentes, 23% da população mundial, são 48 milhões: parece mais do que suficiente. Com base em levantamentos das atitudes em relação à sharia em países muçulmanos, calculo que a parcela é significativamente maior. Também acredito que ela está crescendo, conforme muçulmanos e convertidos ao islamismo gravitam em torno de Medina. Seja como for, os muçulmanos desse grupo não são susceptíveis à persuasão ou envolvimento pelos liberais ocidentais ou reformistas muçulmanos. Eles não são o público visado por este livro. São a razão de ele ter sido escrito.
O segundo grupo, sem dúvida alguma a maioria em todo o mundo muçulmano, compõe-se daqueles que são leais ao credo fundamental e fazem as suas devoções com fervor, mas não se sentem inclinados a praticar violência. Chamo-os de muçulmanos de Meca. Como os cristãos ou judeus devotos que seguem os serviços religiosos diariamente e cumprem regras religiosas na alimentação e no vestuário, os muçulmanos de Meca concentram-se na observância religiosa. Fui criada como uma muçulmana de Meca. Assim como a maioria dos muçulmanos, de Casablanca a Jacarta. Mas os muçulmanos de Meca têm um problema: as suas crenças religiosas vivem em incómoda tensão com a modernidade, o complexo das inovações económicas, culturais e políticas que não só remodelou o mundo ocidental mas também transformou tremendamente o mundo em desenvolvimento à medida que o Ocidente o exportou. Os valores racionais, seculares e individualistas da modernidade são fundamentalmente corrosivos para as sociedades tradicionais, sobretudo para as hierarquias baseadas em género, idade e status herdado.
Em países de maioria muçulmana, pode ser limitada a capacidade da modernidade para transformar as relações económicas, sociais e (em última instância) as de poder. Nessas sociedades, os muçulmanos podem usar telefone móvel e computador sem necessariamente ver um conflito entre a sua fé religiosa e a mentalidade racionalista e secular que possibilitou a tecnologia moderna. No Ocidente, contudo, onde o islão é uma religião minoritária, os muçulmanos devotos vivem numa condição que se poderia descrever muito bem como dissonância cognitiva. Encurralados entre dois mundos de crenças e experiências, esses muçulmanos travam uma luta diária para seguir o islamismo no contexto de uma sociedade secular e pluralista que contesta os valores e crenças islâmicos a cada momento. Muitos só conseguem resolver essas tensões isolando-se em enclaves (que cada vez mais são autogovernados). Chama-se encasulamento essa prática na qual os imigrantes muçulmanos tentam barrar as influências externas, permitindo apenas a educação islâmica para os seus filhos e desligando-se da comunidade não muçulmana maior.
Para muitos desses muçulmanos, após anos de dissonância parece haver apenas duas alternativas: deixar o islão de uma vez, como eu fiz, ou abandonar a insípida rotina de observância diária em favor do credo islâmico inflexível oferecido por aqueles que rejeitam explicitamente a modernidade ocidental, os muçulmanos de Medina. Espero trazer esse segundo grupo de muçulmanos, os que estão mais próximos de Meca do que de Medina, para um diálogo sobre o significado e a prática da sua fé. Espero que eles sejam um dos principais públicos deste livro. Reconheço, é claro, que esses muçulmanos provavelmente não dariam atenção a uma conclamação pela reforma doutrinária vinda de alguém que eles julgam apóstata e infiel. Mas talvez reconsiderem se eu puder persuadi-los a pensar em mim não como uma apóstata, e sim como uma herege: alguém dentre um número crescente de pessoas nascidas no islão que procura pensar, com uma postura crítica, a respeito da fé em que fomos criados. É com esse terceiro grupo, do qual apenas uns poucos deixaram de vez o islão, que hoje me identifico». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «Isso foi feito com a publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índex de Livros Proibidos). Em vigor de 1559 a 1966, o Índex relacionava os livros que os católicos não deveriam ter ou ler sob pena de excomunhão»

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«(…) A crença generalizada de que os arquivos do Vaticano estão repletos de segredos obscuros surgiu em 2003 com a publicação do romance de Dan Bown, O Código Da Vinci, e depois com o filme baseado no livro. A história fictícia apresentava um elaborado conjunto montado pela Igreja desde a época em que os cavaleiros templários conspiraram com ela para eliminar as provas de que Jesus foi casado com Maria Madalena, que tiveram uma filha, que a criança era o Santo Graal e fora levada para a França; e que os seus descendentes, descendentes de Cristo, estão a viver entre nós. Embora os factos do livro tenham sido apontados como falsos ou enganosos, o efeito causado pelo romance e pelo filme foi o de reforçar a crença de que o Vaticano faria qualquer coisa para evitar que seus segredos fossem revelados. Apesar de O Código Da Vinci ter apresentado uma conspiração imaginária, a história do Vaticano está repleta de factos reais que a Santa Sé quer manter em segredo e de incidentes que curiosos querem transformar em teorias fantásticas envolvendo assassinatos, papas envenenados, sexo ilícito, conivência com nazistas, conspirações comunistas, ouro e tesouros artísticos roubados, e outras histórias sórdidas que nada têm a ver com a verdade.
Organizado cronológica e tematicamente, este livro explora a saga fascinante dos arquivos ocultos do Vaticano para separar os factos das lendas e esclarecer as mentiras contidas nos arquivos, desde relações sexuais de papas e padres, assassinatos em ordens sagradas, escândalos financeiros e intrigas internacionais a histórias de óvnis e profecias a respeito do fim do mundo.

Não Lerás
Quando o director Ron Howard solicitou permissão em 2008 para filmar Anjos e Demónios, último thriller cinematográfico baseado na obra de Dan Brown, no Vaticano e em igrejas de Roma, o arcebispo Velasio De Paolis, presidente da Prefeitura dos Assuntos Económicos do Vaticano na época, proibiu o uso de qualquer propriedade da Igreja em Roma. Ele disse que o autor de O Código Da Vinci havia deturpado os evangelhos para envenenar a fé. Afirmando que a premissa do romance, segundo a qual Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram uma filha, é uma ofensa contra Deus, Paolis declarou que seria inaceitável transformar igrejas em set de filmagens para que os seus romances blasfemos se transformassem em filmes comerciais. Ele acrescentou que o trabalho de Brown fere os sentimentos religiosos básicos. O padre Marco Fibbi, porta-voz da diocese de Roma, disse: normalmente lemos o roteiro, mas desta vez não foi necessário. O nome Dan Brown foi suficiente. Quando a versão cinematográfica de O Código Da Vinci foi lançada, um alto oficial do Vaticano instigou todos os católicos romanos a boicotarem o filme. Dizendo que o livro era gritantemente anticristão, o cardeal Ângelo Amato, assessor próximo do papa Bento XVI, disse que era cheio de calúnias, ofensas e erros históricos e teológicos em relação a Jesus, aos evangelhos e à Igreja. (…) Se essas mentiras e erros tivessem sido dirigidas contra o Corão ou o Holocausto, teriam provocado justíssima indignação mundial (…) Em vez disso, foram dirigidas contra a Igreja Católica e os cristãos, e ficaram impunes.
Como segundo líder mais importante na hierarquia do Vaticano, Amato insistiu para que se fizesse um boicote semelhante ao que foi feito em 1988 contra A última tentação de Cristo, dirigido por Martin Scorsese. Quando O Código Da Vinci foi publicado em 2003, as lideranças católicas manifestaram-se contra. Nas semanas que antecederam o lançamento do filme, a Opus Dei, grupo católico leigo cujos membros são retratados como vilões na história, patrocinou fóruns e outros eventos públicos para refutar a premissa do livro e negar as insinuações de que o grupo é sombrio e hermético. A proibição para Howard filmar Anjos e Demónios em qualquer igreja de Roma e no Vaticano, os protestos contra o livro de Brown, e sua versão cinematográfica; são ecos de uma época em que o Vaticano exercia poder inquestionável de controle sobre a disseminação do conhecimento por meio de livros, o que se tornou possível graças ao processo de impressão com tipos móveis. Inventada por Johannes Gutenberg em 1454, a prensa móvel revolucionou o mundo da religião ao tornar a Bíblia amplamente acessível e levar livros impressos ao mundo.
Essa disseminação de material publicado levou a um esforço do Vaticano para determinar o que os católicos poderiam ler. Isso foi feito com a publicação do Index Librorum Prohibitorum (Índex de Livros Proibidos). Em vigor de 1559 a 1966, o Índex relacionava os livros que os católicos não deveriam ter ou ler sob pena de excomunhão. Durante a longa vida do Índex, observou um artigo da America, The National Catholic Weekly, o púbico ficava a par do que fora banido, mas não das razões. Atrás de portas fechadas, porém, funcionários do Vaticano realizavam longas e às vezes acaloradas discussões a respeito dos livros do dia. Depois de mais de uma década estudando o Índex, o reverendo Hubert Wolf, padre diocesano e professor de história da Universidade de Münster, na Alemanha, declarou: em nenhum outro lugar do mundo, uma instituição tentou controlar um meio de comunicação do mundo moderno, o livro, por mais de 400 anos. Os registros com as discussões realizadas pela Igreja em torno de milhares de livros oferecem uma visão única do pensamento do Vaticano sobre teologia, filosofia, história, política, ciência e literatura mundial ao longo de séculos. Guardados num porão do que já foi conhecido como Santo Ofício e agora é chamado de Congregação para a Doutrina da Fé, os arquivos ficaram fechados aos investigadores de fora durante séculos. A formação dos arquivos começou de facto com a Inquisição (maldita), em 1542, para combater a Reforma protestante iniciada quando Martinho Lutero desafiou a autoridade papal. Depois de pregar as suas 95 teses na porta da igreja em Wittenberg, Alemanha, em 1515, elas foram impressas em Leipzig, Nuremberg e Basileia e distribuídas amplamente. O Santo Ofício logo ficou sobrecarregado pela mistura de imprensa e autores protestantes prolíficos que as usaram para desencadear uma explosão editorial tão influente na época quanto a internet é hoje. O Vaticano criou outro ofício, a Congregação do Índex, para lidar apenas com livros, em 1571». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Condessa de Barral (1816-1891). Mary del Priore. «O sentimento, por tanto tempo reprimido, tornou-se uma prioridade. Era o romantismo. A literatura falava em expansões da alma e anseios etéreos. Tudo mais espiritual do que físico»


Cortesia de wikipedia e jdact

O nascimento da camaleoa
«(…) Inventora de uma maneira de viver, criadora de uma imagem de si, Luísa modelou o seu destino, sempre insatisfeita com o que lhe foi dado. A sua existência, como a de todos os personagens fascinantes da história, foi marcada por ambiguidades. Ela foi maravilhosa, coquete e amante. Quando quis, no entanto, também foi esposa exemplar. Há pessoas que parecem estar à frente do seu tempo. Luísa foi uma delas. Cresceu num engenho, estudou na Europa, voltou ao Brasil, serviu na corte francesa e depois na brasileira. Viveu entre dois mundos. Um arcaico e outro moderno. Tal como uma heroína romântica foi independente e audaciosa: escolheu o marido, em detrimento do velho amigo do pai que lhe queriam impôr. Enfrentou revoltas das mais variadas: de escravos no Recôncavo baiano e de republicanos e anarquistas na França. Foi abolicionista, antes de quase todo mundo. Fazia alianças e pensava em dinheiro de forma moderna. Era inteligência e espírito, além de extremamente feminina.
Luísa nasceu numa época em que as suas conterrâneas nem saíam nas ruas. Em que, ao cair da tarde, a família encabeçada pela matriarca se reunia para observar o movimento da rua pelas janelas. No máximo, as mulheres expunham-se na varanda dos sobrados, penteando os longos cabelos ou catando piolho, umas das outras, e esperando a hora de rezar as avé-marias. Chamadas senhoras ou donas, tinham como única aspiração o casamento. Casamento com parente, com amigos da família, enfim, com gente igual. Os maridos podiam ser velhos, feios e doentes. Ficar solteira, ou no caritó, como se dizia, era castigo.
Para essas donas, os dias transcorriam lentos, em torno do calendário religioso: festas, missas, novenas. No dia-a-dia, trabalhavam nos bordados, faziam rendas ou bolos para vender. Afora casar, ter filhos e rezar, algumas mulheres desenvolviam uma pequena indústria caseira, para aumentar os proventos: a do preparo da rapadura e do melado; ou a fiação do algodão do qual se faziam roupas de escravos. Também havia a de velas com aproveitamento de sebo de bois; e a do sabão, preparado com gorduras e cinzas de plantas. Elas trabalhavam e ajudavam os maridos, mas poucas estudavam. Luísa faria parte desse grupo? Nunca. Teve uma vida especial. Os pais foram figuras muito singulares na sociedade baiana e o destino da família acabou por transformá-la numa pessoa totalmente atípica. Sobretudo, em se tratando de uma mulher.
Se suas contemporâneas eram convidadas a obedecer, a manter os olhos baixos, a não fazer perguntas e a não desagradar ao sexo oposto, Luísa era o contrário. Dona de personalidade forte, culta, poliglota e elegante, não deixava escolhas: era amada ou detestada. Não se submetia jamais ao despotismo dos homens: nem do pai, nem do marido. Menos ainda ao das mulheres. A sua formação se deu entre os melhores livros e professores, num dos países mais avançados da Europa, a França. Órfã de mãe, muito cedo aliou-se com o pai, que lhe ensinou como funcionava um mundo onde os homens eram reis. Mas Luísa também cresceu numa época de suspiros e langores da alma. De sonhos que inspiravam escritores como Chateaubriand ou Lamartine cuja especialidade era cantar amores sob um céu estrelado. Depois da Revolução Francesa, um novo código se consolidou. O sentimento, por tanto tempo reprimido, tornou-se uma prioridade. Era o romantismo. A literatura falava em expansões da alma e anseios etéreos. Tudo mais espiritual do que físico. A mulher devia ser como uma deusa, colocada sobre um pedestal. Aos seus pés, ajoelhado, o homem enlevado. Este distanciamento alimentava um imaginário feminino focado no pudor. Era proibido olhar-se nua no espelho ou na água do banho. O corpo escondido e protegido por botões, nós e laços suscitava um efeito perverso. O erotismo se fixava no colo, na cintura estreita, no couro das botinas e nos cabelos. Nada de carne, de sexo ou de sangue. Mas palavras e corpos que se procuravam, sem se encontrar. Ternura, generosidade e probidade eram as virtudes esperadas no terreno do coração. Ela encarnou-as todas. E ao amar, inovou. Escolheu o marido que quis, não o que devia. E um amante mais jovem do que ela. A sua força? A mistura de duas culturas, a do engenho baiano e a das ruas de Paris.
O dia em que Luísa nasceu era um Sábado de Aleluia e as negras apregoavam nas ruas pastéis quentes para desenfastiar da Quaresma. Pela manhã, ao som dos primeiros sinos, as ladeiras da Preguiça, Misericórdia e Conceição se enchiam de devotos. Homens e mulheres entravam e saíam das igrejas com palmas bentas nas mãos e já livres das vestes escuras que eram obrigados a usar. As cadeiras de arruar, em madeira leve e cortinas coloridas, serpenteavam, levando sinhôs e iaiás, ricamente vestidos, para a missa. São Salvador da Bahia de Todos os Santos mergulhava nos ruídos de uma cidade em festa. Muito verde e toda em subidas e descidas, ela abrigava uma babel de casas, igrejas, conventos, becos e travessas». In Mary del Priore, Condessa de Barral, A Paixão do imperador, Editora Objetiva, 2008, ISBN 978-857-302-923-9.

Cortesia de Objetiva/JDACT

Histórias íntimas Mary del Priore. «E que conta a história do peso da cultura sobre o mundo das sensações imediatas. Cultura que nos levou da vida em grupo ou em família para o individualismo que é a marca do nosso tempo»

jdact e wikipedia

O corpo. A igreja. O pecado
«(…) A noção de intimidade no mundo dos homens entre os séculos XVI e XVIII se diferencia profundamente daquela que é a nossa no início do século XXI. A vida quotidiana naquela época era regulada por leis imperativas. Fazer sexo, andar nu ou ter reacções eróticas eram práticas que correspondiam a ritos estabelecidos pelo grupo no qual se estava inserido. Regras, portanto, regulavam condutas. Leis eram interiorizadas. E o sentimento de colectividade sobrepunha-se ao de individualidade. Mas falar nesse assunto quando a América ainda era portuguesa implica compreender o que se entendia por privacidade há quase trezentos anos. Apenas em 1718 o conceito fará a sua aparição. E foi o dicionarista jesuíta Raphael Bluteau quem, pioneiramente, esclareceu: privado, uma pessoa que trata só de sua pessoa, da sua família e de seus interesses domésticos. Mais tarde, em 1798, no seu Elucidário de palavras e termos, frei Joaquim Santa Rosa Viterbo definia que o verbete privido, palavra mais tarde substituída por privado, designava o que pertencia a uma particular pessoa. Quase cem anos foram necessários para que privado deixasse de significar o que fosse familiar e colectivo para se centrar no pessoal. Mas como fazer tal passagem em terras de escravidão e de pobreza material, onde, contrariamente à Europa ocidental, não havia muita separação entre privado e público? Como, num lugar onde todos sabiam de tudo e de todos? Era diferente. Aqui, muitas pessoas andavam seminuas: sobretudo índios e escravos. As regras e os ritos vindos da Europa não se tinham consolidado entre índios e africanos. Palavras como vergonha e pudor, recém-dicionarizadas no século XVI, continuavam ausentes dos vocabulários, nome que então se dava aos glossários, até entre portugueses. Para os etimologistas, a palavra nasceu à época da chegada dos lusitanos às nossas costas. Antes, pudenda designava os órgãos sexuais, vergonhosos. Inicialmente associados à pudicícia, pudor e castidade eram sinónimos. Os primeiros dicionários deram o sentido actual ao termo, ligando-o à modéstia, decência e civilidade. Considerado natural nas mulheres, o pudor permitia afirmar que uma mulher nua podia ser mais púdica do que uma vestida. Isso, pois acreditava-se que, ao despir-se, ela se cobria com as vestes da vergonha.
O pudor que se definia nos dicionários não era um conceito espalhado na sociedade. Enquanto Isabel de Castela, em 1504, morria de uma ferida que não quis mostrar aos médicos, recebendo a extrema-unção sob os cobertores para não exibir nem os pés, muitos moradores da América portuguesa vestiam-se apenas com um minúsculo pedaço de tecido. Descobria-se, então, que existiam povos obedientes a diferentes noções de pudor. Ora, tais noções foram pioneiras em esboçar a história do polimento das condutas, do crescimento do espaço privado e dos auto-constrangimentos que a modernidade foi trazendo. Daquilo que Michel Foucault chamou de cuidado de si; uma esfera cada vez mais definida entre o público e o privado. Esfera capaz de afastar, de forma progressiva e profunda, um do outro. E que conta a história do peso da cultura sobre o mundo das sensações imediatas. Cultura que nos levou da vida em grupo ou em família para o individualismo que é a marca do nosso tempo.
1500. Pleno desabrochar do Renascimento na Europa e chegada dos alfacinhas ao Brasil. Em 1566, é dicionarizada na França, pela primeira vez, a palavra erótico. Designava, então, o que tiver relação com o amor ou proceder dele. Na pintura, o humanismo colocava o homem no centro do mundo, e não mais Deus, descobrindo-se os corpos e o nu. Nu que, hoje, associamos ao erotismo. Mas era ele, então, sinónimo de erotismo? Não. Isso significa que as palavras, os conceitos e seus conteúdos mudam, no tempo e no espaço; o que hoje é erótico, não o era para os nossos avós. Comecemos por um exemplo bastante conhecido. Ao desembarcar na então chamada Terra de Santa Cruz, os recém-chegados portugueses impressionaram-se com a beleza das nossas índias: pardas, bem dispostas, as suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha alguma. A Pero Vaz Caminha não passaram despercebidas as moças bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espáduas. Os corpos, segundo ele, limpos e tão gordos e tão formosos que não pode mais ser. Os cânones da beleza europeia se transferiam para cá, no olhar guloso dos primeiros colonizadores. Durante o Renascimento, graças à teoria neoplatónica, amor e beleza caminhavam juntos. Vários autores, como Petrarca, trataram desse tema para discutir a correspondência entre belo e bom, entre o visível e o invisível. Não à toa, nossas indígenas eram consideradas, pelos cronistas seiscentistas, criaturas inocentes. A sua nudez e despudor eram lidos numa chave de desconhecimento do mal, ligando, portanto, a formosura à ideia de pureza. Até as suas vergonhas depiladas remetiam a uma imagem sem sensualidade. As estátuas e pinturas que revelavam mulheres nuas, o faziam sem pêlos púbicos. A penugem cabeluda era o símbolo máximo do erotismo feminino. A questão da sensualidade não estava posta aí». In Mary del Priore, Histórias íntimas, Sexualidade e erotismo na história do Brasil, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, CDD-302-309-81, 2011, ISBN 978-857-665-608-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Agora rodem-na para o lado, ordenou Bérenger. Os homens afastaram-se passo a passo do pilar, esmagados pelo peso. A lousa rodou sobre os ombros do sacerdote, que permaneceu no seu lugar»

jdact

Rennes le Château. 20de Junho de 1889
«(…) Os operários paravam de vez em quando para limpar o suor. Bérenger estava de costas, quatro passos mais à frente, a meditar diante de Santo António. As palavras de Boudet, que tinha visto na véspera, ainda repicavam na sua cabeça: amanhã, à segunda hora da tarde, retirará a lousa de pedra do altar. De acordo com o binário, a essa hora os peixes do zodíaco louvarão a Deus, as serpentes de fogo enlaçar-se-ão no caduceu (vara de louro ou oliveira com duas serpentes enroscadas na ponta, que era atributo de Mercúrio e insígnia dos antigos parlamentários e arautos, e que hoje se emprega como símbolo do comércio) e o relâmpago conhecerá a harmonia. Não tinha compreendido uma palavra. No entanto, estava atento ao relógio. Já eram duas horas. Tinha chegado o momento. Voltou-se e fulminou os operários com o olhar, que jaziam tombados nas cadeiras com as ferramentas entre as pernas. Rousset e Babou ficaram inquietos. Nunca tinham visto Bérenger tão enervado. Era mesmo o diabo, esse cura!, Babou voltou a picar o chão com o maço e o buril. Pára!, troou Bérenger. O que é que se passa? Babou engoliu em seco. Retirem a pedra do altar-mor.
Os dois homens quiseram obedecer, mas por mais que empurrassem, apenas conseguiram deslocar a pedra uns centímetros. Babou deixou-se cair, extenuado. Rousset caiu a seguir, corado com o esforço. Ambos ofegavam desalentados, com a garganta seca, a pensar no absinto fresco que beberiam essa noite. O que é que se passa?, surpreendeu-se Bérenger. É demasiado pesad. Se o senhor não nos ajudar não conseguiremos movê-la. Corre-vos água nas veias... Afastem-se. O sacerdote era conhecido pela sua força prodigiosa, mas não conseguiram disfarçar o sorriso. Como é que lhe passava pela cabeça que podia sozinho com a pedra? Ia partir a espinha, no mínimo. Bérenger apoiou-se num dos pilares visigodos que sustentavam a enorme lousa, retesou os músculos e empurrou-a para cima com os ombros. Pouco a pouco, endireitou-se diante do olhar atónito dos operários. Vai-lhe cair no chão!, gritou Babou. Não faz mal, mau cristão, esforçou-se Bérenger com uma careta. Trata-se de trocá-la por uma nova... Se não queres que se parta, segura-a do outro lado. Babou começou a fazer esforços desesperados para manter a lousa em equilíbrio. Rousset agachou-se debaixo da lousa para o ajudar.
Agora rodem-na para o lado, ordenou Bérenger. Os homens afastaram-se passo a passo do pilar, esmagados pelo peso. A lousa rodou sobre os ombros do sacerdote, que permaneceu no seu lugar. Mas Bérenger, em vez de os seguir, apoiou outra vez a sua carga sobre o outro pilar. O que é que está a fazer?, gritou-lhe Rousset. Estou a descansar. Os dois compadres ofegavam sob o olhar divertido do sacerdote. O peso da lousa mantinha-os pregados ao chão, e não se atreviam a fazer o menor movimento. Também já não podiam voltar ao ponto de partida. Às vezes, não sei se estamos feitos à imagem e semelhança de Deus. Padre! Porque é que diz isso? É a verdade. Vocês não passam de criaturas fracas. Por favor, padre, tire-nos daqui. Primeiro vão-me contar quem é que anda a dizer que me deito com Marie todas as semanas, quando me traz notícias do abade Boudet. Nós não, padre... Além disso, é normal. Apesar de tudo, o senhor é um homem. Quero saber. Babou já não aguentava mais. Doía-lhe o corpo e tremiam-lhe as pernas. Não parecia que o cura fosse ceder. Se largasse a lousa, corria o risco de lhe esmagar uma perna. Preferiu falar: é Alexandrine Marro. Já suspeitava. Bérenger desatou a rir. Essa velha harpia tem-me rancor desde que cheguei à aldeia... Porque não me quis alojar em casa dela. Vou-vos livrar da carga, uma vez que não posso livrar-vos dos vossos pecados. Que, por certo, não são poucos. Iremos confessar-nos!, gritaram os homens.
Satisfeito, Bérenger contornou o pilar com os braços e levantou no ar a extremidade da lousa. Levaram-na imediatamente para o fundo da igreja. De regresso ao altar, Babou apoiou-se num dos pilares para limpar a testa. Po…!, disse surpreendido. É oco! É oco como?. Bérenger correu para o lado dele. Sim, é oco. Até tem plantas cá dentro. Bérenger afastou Babou e enterrou a mão na abertura. Continuou a enterrá-la. Tirou um molho de fetos secos e três cilindros de madeira lacrados. O coração deu-lhe um baque. Seria esse o segredo de Boudet?» In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT