sábado, 13 de março de 2021

As Espias do Dia D. Ken Follett. «Flick era major. Para todos os efeitos, pertencia ao contingente exclusivamente feminino do Regimento de Enfermagem e Primeiros Socorros do Exército britânico»

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«Um minuto antes da explosão, a praça estava tranquila em Sainte-Cécile. A tarde seguia quente e uma camada de ar estagnado envolvia a cidadezinha feito um cobertor. O sino da igreja soava preguiçoso, convocando sem grande entusiasmo os fiéis para a missa. Para Felicity Clairet, ele servia de contagem regressiva. Um castelo do século XVII dominava a praça. O prédio parecia o palácio de Versalhes, só que em menor escala. Contava com uma entrada principal que se projectava para a frente e alas laterais que formavam ângulos rectos e seguiam na direcção dos fundos do terreno. Tinha porão e dois pavimentos principais, encimados por um telhado íngreme com janelas em arco. Felicity, a quem sempre chamavam de Flick, adorava a França. Adorava a beleza da arquitectura, a amenidade do clima, a calma dos almoços, a erudição das pessoas. Adorava a pintura, a literatura, as roupas elegantes das mulheres. Os estrangeiros costumavam achar o povo francês um tanto antipático, mas Flick falava o idioma deles desde os 6 anos e não se notava a diferença entre ela e um nativo.

Enfurecia-a o facto de que a França que ela tanto adorava não existisse mais. Não restava comida suficiente para os almoços calmos, as pinturas tinham sido roubadas pelos nazistas e apenas as prostitutas tinham roupas bonitas. Como todas as mulheres, Flick vinha usando um vestidinho de corte ruim que havia muito perdera as cores devido ao excesso de lavagens. O que ela mais queria era a volta da sua França querida, a França real. E se tudo desse certo, caso ela e os outros fizessem o que tinham de fazer, era bem possível que isso acontecesse. Talvez não vivesse o suficiente para presenciar isso. Talvez sequer estivesse viva dali a alguns minutos. Não era nenhuma fatalista, queria viver. Ainda tinha um milhão de coisas que pretendia fazer quando aquela maldita guerra terminasse: concluir o seu doutouramento, ter um filho, conhecer Nova York, comprar um carro desportivo, beber champanhe numa praia em Cannes.

Mas, se realmente estava tão perto da morte, era um consolo passar os últimos momentos da vida naquela praça ensolarada, defronte a uma pérola da arquitectura e embalada pela deliciosa melodia da língua francesa. O castelo fora construído para abrigar a aristocracia local, mas o último conde de Sainte-Cécile perdera a cabeça na guilhotina em 1793. Fazia muito tempo que os jardins ornamentais tinham dado lugar aos vinhedos, uma vez que estavam não só num país produtor de vinhos, mas também no coração do distrito de Champagne, e as dependências do castelo abrigavam agora uma importante central telefónica, por obra do ministro responsável pela área, que era nascido em Sainte-Cécile.

Com a chegada dos alemães, foram feitas melhorias nessa central a fim de interligar o sistema francês à nova rota de cabos para a Alemanha. Além dela, a edificação também abrigava um quartel-general regional da Gestapo, com gabinetes nos pavimentos superiores e celas no porão. Fazia quatro semanas que o castelo fora bombardeado pelos Aliados. Tamanha precisão nos bombardeios era novidade. Os pesados aviões de quatro motores que sobrevoavam a Europa todas as noites, aeronaves Avro Lancaster e Boeing B-17, eram bastante imprecisos, muitas vezes a ponto de errarem por completo a cidade que tinham por alvo, mas a última geração de caças-bombardeiros, como os Lightnings e os Thunderbolts, era capaz de surgir do nada em plena luz do dia e acertar em cheio uma ponte ou uma estação ferroviária. Boa parte da ala oeste do castelo fora reduzida a um amontoado de tijolos vermelhos e pedras brancas seiscentistas. Mas a missão em si fracassara. Os consertos foram logo providenciados, de forma que os serviços foram interrompidos apenas durante o tempo necessário para a troca das mesas telefónicas. Todos os equipamentos automáticos, bem como os amplificadores vitais para as chamadas de longa distância, ficavam no porão, que passara ileso pelo bombardeio. Por isso Flick estava ali.

O castelo se situava no lado norte da praça, confinado por uma cerca alta de pilares de pedra e barras de ferro, guardado por sentinelas fardadas. No lado leste ficava a igrejinha medieval que agora tinha as portas escancaradas para a tarde de Verão e a chegada dos fiéis. De frente para ela, no lado oeste da praça, ficava a câmara municipal, de onde o presidente ultraconservador pouco se opunha aos dirigentes da ocupação nazista. No lado sul se estendia uma sequência de lojas e um bar chamado Café des Sports. Era na varanda desse bar que Flick esperava o silenciar dos sinos com uma taça de vinho branco à sua frente, o vinho leve e suave produzido na região. Ela não tomara um gole sequer. Flick era major. Para todos os efeitos, pertencia ao contingente exclusivamente feminino do Regimento de Enfermagem e Primeiros Socorros do Exército britânico. Tratava-se, no entanto, de um posto de fachada. Na realidade, ela trabalhava para a Executiva de Operações Especiais, uma organização incumbida de missões de sabotagem dentro das linhas inimigas.

Aos 28 anos, era uma das agentes de mais experiência dessa força secreta. Àquela altura já encarara a morte mais de uma vez, aprendera a conviver com o perigo e a lidar com o próprio medo. Ainda assim, não conseguia evitar sentir calafrios sempre que olhava para os capacetes de aço e os fuzis poderosos dos guardas do castelo. Três anos antes, sua maior ambição era dar aulas de literatura francesa em alguma universidade britânica, ensinando os alunos a apreciar a riqueza de Victor Hugo, a ironia de Gustave Flaubert, a paixão de Émile Zola. Vinha trabalhando no Ministério da Guerra como tradutora de documentos em francês quando a chamaram para uma misteriosa conversa num quarto de hotel e perguntaram se ela se dispunha a fazer algo mais perigoso». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Ken Follett, Literatura, II Guerra Mundial, 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Quase vejo a Dama de Branco. Atrás dela, meus pais. Outra voz puxa o Creio em Deus Pai e a Oração dos Agonizantes»

Cortesia de wikipedia e jdact

Fazenda Bela Aliança. Março de 1893

«Deslizo num abismo. Uma boca invisível aspira minhas últimas forças. Sinto que afogo, mas dizem que sofro por nada. Que não há causa específica para minha dor, quando desfilam horríveis imagens na sonolência das primeiras horas da manhã. Engano. Vivo um sofrimento lancinante, e não é físico. Sofrimento sem natureza ou causa conhecida. É a neurastenia, estrada nocturna e sem fim. Estrada sem ponto de chegada e solitária. Morro de dor, coberta de manchas azuis que marcam meus braços. São as manchas de melancolia. Bebo um resto de vida sem sede. Na mesa dos santos, toalha branca e velas de cera pura. Preferia que abrissem a janela. Sufoco. Há um cheiro de urina disfarçado pelo vaso de jasmins. Não me controlo mais. Ouço as portas que se fecham. Vultos circulam à volta da cama. Alguém diz que ainda estou formosa, que até parece que vou levantar. Porém, cochichos anunciam a minha morte. As serpentinas e as mangas de vidro cintilam. Maurice e os outros insistirão em me esquecer? Caso se recusem a se lembrar, me tornarei mais cruel e mais presente. Continuarei viva no meu túmulo. Irei comunicar por aparições ou sinais exteriores. Assombrarei Maurice.

Digo isso porque estou morrendo. Devo aceitar meu destino. Nada de emoções excessivas. Meus cabelos: estarão penteados? Alguém murmura no meu ouvido: trouxe a fita benta. Um pedaço de cetim não irá me arrancar da agonia. Outro me pede para levar um recado ao irmão falecido. Quase vejo a Dama de Branco. Atrás dela, meus pais. Outra voz puxa o Creio em Deus Pai e a Oração dos Agonizantes. Rezam alto e baralhadamente.

Toque de sineta. É o padre, meu tio. O barulho que vem junto é de criados e ex-escravos da fazenda, orando. Uma onda de sons ininteligíveis acaba na minha cama. Trajados de preto, vizinhos e amigos enchem o quarto. Imobilizada, lembro que me esqueci de dizer quantas missas quero por minha alma ou onde desejo ser enterrada. As janelas vão se cobrir de reposteiros em veludo com franjas douradas. Regina Angelorum vai ajudar a pendurá-las. Um negro já deve ter ido buscar folhas de canela, cravo e laranjeira, para estendê-las na entrada da casa. Outro irá distribuir as cartas-convite para o funeral. Quando sair meu caixão num coche de cavalos com plumas escuras na cabeça, os criados irão apagar os rastos da morte. Minha camisola e roupa de cama serão doadas ou queimadas. A casa será varrida com especial cuidado de empurrar a poeira pela porta da frente, que ficará semicerrada, impedindo o retorno da minha alma. No quintal, jogarão fora a água do último banho e enterrarão meu cabelo e unhas cortadas em lugar previamente escolhido por tia Maria Gata. As pistas serão embaralhadas para que eu não volte. Para que eu veja que não há mais lugar para mim. Depois que eu fechar os olhos, meu nome deixará de ser pronunciado. Guiada por São Miguel, aspirada pela lua, minha alma há de passar à Via Láctea. Na cidade de Piraí, as badaladas da agonia hão-de cair da torre, pedindo orações. Os passantes hão-de se descobrir, ajoelhar e bater no peito.

Sinto que o movimento à volta de minha cama cessou. Uma falsa calma encarna na voz que tenta me confortar: pede a Nosso Senhor Jesus Cristo que perdoe teus pecados, tome posse de tua alma e a limpe com o preciosíssimo sangue que por ela derramou. Nada tenho a confessar. Maurice diz que sou uma santa. Serei uma alma bendita cercada por luz azulada e clara. Quero ser enterrada com os sapatos de laço franceses. Não! A tradição exige enterro sem ornatos. O luxo deve desaparecer, pois não se penetra assim a bem-aventurança. Melhor amortalhada no hábito de Nossa Senhora do Carmo, com touca e peitoral de opala branca». In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa,

terça-feira, 9 de março de 2021

Poesia. Sei de um rio. «Rio onde a própria mentira, tem o sabor da verdade. Sei de um rio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sei de um rio

«Sei de um rio
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade

Sei de um rio
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua

E a minha boca até quando?
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede
Mas o sonho continua
E a minha boca até quando?
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio
Sei de um rio

Sei de um rio
Ai!
Até quando?»

Poema de Alain Oulman, in Musixmatch

Cortesia de Musixmatch/JDACT

JDACT, Poesia, Alain Oulman, Cultura,

A Mulher de Trinta Anos. Honoré de Balzac. «Parecia gostar de ser notado por causa da filha, e comprazia-se talvez mais que ela com os olhares que os curiosos lançavam aos seus pezinhos calçados de borzeguins…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]

Por fim, Gabriel Hanoutaux e Georges Vicaire, críticos que coassinaram um estudo sobre Balzac, escreveram a respeito de A mulher de trinta anos: Balzac prestou às mulheres um serviço imenso, que elas nunca lhe poderão agradecer suficientemente, pois duplicou para elas a idade do amor. Antes dele, todas as namoradas de romance tinham vinte anos. Ele prolongou até aos trinta, até aos quarenta anos a sua vida activa, pleiteando em seu favor a causa da natureza, da verdade. Curou o amor do preconceito da mocidade..., multiplicou, se não a alegria humana, pelo menos a consciência desta alegria». In I.P.M.

Primeiras faltas

«No começo do mês de Abril de 1813, houve um domingo cuja manhã prometia um daqueles belos dias em que os parisienses veem pela primeira vez no ano as calçadas sem lama e o céu sem nuvens. Antes do meio-dia, um cabriolé puxado por dois cavalos fogosos entrou na rua de Rivoli vindo da Castiglione, e parou atrás de várias carruagens estacionadas junto à grade recentemente aberta no meio da esplanada dos Feuillants. Essa carruagem ligeira era conduzida por um homem de aspecto preocupado e doentio; cabelos grisalhos mal cobriam-lhe o crânio amarelo e envelheciam-no precocemente; ele lançou as rédeas ao lacaio que seguia o veículo e desceu para tomar nos braços uma jovem cuja delicada beleza chamou a atenção dos ociosos que passeavam na esplanada. A mocinha deixou-se complacentemente agarrar pela cintura ao ficar de pé no estribo da carruagem, e passou os braços em volta do pescoço de seu guia, que a pôs na calçada sem amarrotar a armação do seu vestido de repes verde. Um amante não teria tido tanto cuidado. O desconhecido devia ser o pai dessa mocinha que, sem agradecer, tomou-lhe familiarmente o braço e arrastou-o bruscamente pelo jardim. O velho pai observou os olhares maravilhados de alguns rapazes, e a tristeza estampada no seu rosto apagou-se por um momento. Embora já estivesse muito distante da idade em que os homens devem contentar-se com os prazeres enganosos que a vaidade produz, ele sorriu. Pensam que és minha mulher, disse ao ouvido da jovem, endireitando-se e andando com uma lentidão que a desesperou.

Parecia gostar de ser notado por causa da filha, e comprazia-se talvez mais que ela com os olhares que os curiosos lançavam aos seus pezinhos calçados de borzeguins castanho-avermelhados, a um corpo delicioso desenhado por um vestido de cabeção e ao tenro pescoço que uma gola bordada não ocultava inteiramente. Os movimentos do andar erguiam por instantes o vestido da jovem, deixando ver, acima dos borzeguins, o contorno de uma perna finamente modelada por uma meia de seda rendada. Assim, mais de um passeante ultrapassou o casal para admirar ou para rever o rosto jovem em torno do qual se agitavam cachos de cabelos castanhos, e cujo branco vivo da carne era realçado tanto pelos reflexos do cetim rosa que forrava um elegante chapéu, quanto pelo desejo e a impaciência que crepitavam em todos os traços dessa linda criatura. Uma doce malícia animava seus belos olhos negros, em forma de amêndoa, debaixo de sobrancelhas bem arqueadas, orlados de longos cílios e banhados num fluido puro. A vida e a juventude exibiam seus tesouros nesse rosto esperto e num busto ainda gracioso apesar da cintura então colocada sob o seio. Insensível às homenagens, a jovem olhava com uma espécie de ansiedade o castelo das Tulherias, certamente o objectivo de seu impetuoso passeio. Faltavam quinze minutos para o meio-dia. Apesar dessa hora matinal, várias mulheres, todas querendo mostrar-se bem-vestidas, retornavam do castelo, não sem virarem a cabeça com ar aborrecido, como arrependidas de terem chegado tarde a um espectáculo desejado. Algumas palavras escapadas ao mau humor dessas elegantes mulheres desapontadas e colhidas no ar pela bela desconhecida haviam-na inquietado singularmente. O velho espiava com um olhar mais curioso que zombeteiro os sinais de impaciência e temor que se agitavam no rosto encantador de sua companheira, e a observava talvez com excessivo cuidado para não guardar alguma preocupação paterna.

Esse domingo era o décimo terceiro do ano de 1813. Dois dias depois, Napoleão partia para aquela fatal campanha durante a qual ia perder sucessivamente seus generais Bessières e Duroc, ganhar as memoráveis batalhas de Lutzen e de Bautzen, ver-se traído pela Áustria, pela Saxónia, pela Baviera, por Bernadotte, e disputar a terrível batalha de Leipzig. O magnífico desfile ordenado pelo imperador haveria de ser o último daqueles que por muito tempo exaltaram a admiração dos parisienses e dos estrangeiros. A velha guarda ia executar pela última vez as engenhosas manobras cuja pompa e precisão chegaram a espantar às vezes o próprio gigante, que se preparava então para o seu duelo com a Europa. Um sentimento triste levava às Tulherias uma brilhante e curiosa população. Todos pareciam adivinhar o futuro, e talvez pressentiam que a imaginação mais uma vez teria de refazer o quadro dessa cena, quando esses tempos heróicos da França adquirissem, como hoje, cores quase fabulosas». In Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos, 1829-1842, Relógio D’Água, 2019, ISBN 978-989-641-912-7.

Cortesia de Relógio D’Água/JDACT

JDACT, Honoré de Balzac, Literatura, França, Século XIX, Cultura e Conhecimento,

segunda-feira, 8 de março de 2021

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «… derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono»

jdact

Toccata

«(…) O dr. Korherr, que compilava estatísticas para o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, chegou a pouco menos de dois milhões em 31 de Dezembro de 1942, mas reconhecia, quando pude discutir com ele em 1943, que seus números de partida eram pouco confiáveis. Enfim, o respeitabilíssimo professor Hilberg, especialista na questão e que dificilmente teria pontos de vista sectários, pró-alemães pelo menos, chega, ao fim de uma demonstração cerrada de dezanove páginas, à cifra de 5.100.000, o que corresponde grosso modo à opinião do finado Obersturmbannführer Eichmann. Aceitemos então os números do professor Hilberg.

Agora, a matemática. O conflito com a URSS durou das três horas da manhã de 22 de Junho de 1941 até, oficialmente, as 23h01 de 8 de Maio de 1945, o que perfaz rês anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto, ou seja, arredondando, 46,5 meses, 202,42 semanas, 1.417 dias, 34.004 horas, ou 2.040.241 minutos (contando o minuto suplementar). Para o programa dito da Solução Final, ficaremos com as mesmas datas; antes, nada fora decidido nem sistematizado, as perdas judaicas são fortuitas. Associemos agora um conjunto de cifras ao outro: para os alemães, isso dá 64.516 mortos por mês, ou seja, 14.821 mortos por semana, ou 2.117 mortos por dia, ou 88 mortos por hora, ou 1,47 morto por minuto, isto em média para cada minuto de cada hora de cada dia de cada semana de cada mês de cada ano, tudo durando três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Para os judeus, incluindo soviéticos, temos cerca de 109.677 mortos por mês, ou seja, 25.195 mortos por semana, ou 3.599 mortos por dia, ou 150 mortos por hora, ou 2,5 mortos por minuto para um período idêntico. No lado soviético, finalmente, isso nos dá uns 430.108 mortos por mês, 98.804 mortos por semana, 14.114 mortos por dia, 588 mortos por hora, ou 9,8 mortos por minuto, período idêntico. Ou seja, para o total global no meu campo de actividade, médias de 572.043 mortos por mês, 131.410 mortos por semana, 18.772 mortos por dia, 782 mortos por hora e 13,04 mortos por minuto, todos os minutos de todas as horas de todos os dias de todas as semanas de todos os meses de cada ano do período dado, ou seja, para memorizar, três anos, dez meses, dezasseis dias, vinte horas e um minuto. Que os que zombaram desse minuto suplementar de facto um pouco pedante considerem que isso dá assim mesmo 13,04 mortos a mais, em média, e, se forem capazes, imaginem treze pessoas de seu círculo mortas num minuto. Podemos também efectuar um cálculo definindo o intervalo de tempo entre cada morte: isso nos dá em média um morto alemão a cada 40,8 segundos, um morto judeu a cada 24 segundos e um morto bolchevique (incluindo os judeus soviéticos) a cada 6,12 segundos, ou seja, isso para o conjunto do mencionado período. Agora vocês estão em condições de efectuar, a partir desses números, exercícios concretos de imaginação. Peguem por exemplo um relógio e contem um morto, dois mortos, três mortos etc. a cada 4,6 segundos (ou a cada 6,12 segundos, a cada 24 segundos ou a cada 40,8 segundos, se tiverem uma preferência definida), tentando imaginar, como se estivessem à sua frente, alinhados, estes um, dois, três mortos. Vocês verão, é um bom exercício de meditação.

Ou peguem outra catástrofe, mais recente, que os tenha afectado intensamente, e façam a comparação. Por exemplo, se forem franceses, considerem a pequena aventura argelina, que tanto traumatizou seus concidadãos. Vocês perderam ali 25.000 homens em sete anos, incluindo os acidentes: o equivalente a pouco menos de um dia e treze horas de mortos na frente do Leste; ou cerca de sete dias de mortos judeus. Não estou contabilizando, evidentemente, os mortos argelinos: como vocês não tocam no assunto, digamos, nunca em seus livros e programas, eles não devem significar muito para vocês. Entretanto vocês mataram dez para cada um de seus próprios mortos, esforço respeitável mesmo comparado ao nosso. Paro por aqui, poderíamos continuar por muito tempo; convido-os a prosseguirem sozinhos, até que o chão se abra sob seus pés. Quanto a mim, não preciso de nada disso: há muito tempo o pensamento da morte está mais próximo de mim que a veia do meu pescoço, como diz essa belíssima frase do Corão. Se um dia vocês conseguissem me fazer chorar, minhas lágrimas desfigurariam seu rosto. A conclusão de tudo isso, se me permitem outra citação, a última, prometo, é, como dizia muito bem Sófocles: o que se deve preferir a tudo é não ter nascido. Schopenhauer, por sinal, escrevia claramente a mesma coisa: Seria melhor que não existisse nada. Como há mais sofrimento que prazer sobre a terra, toda satisfação é apenas transitória, criando novos desejos e novas aflições, e a agonia do animal devorado é maior que o prazer do devorador. Sim, eu sei, isso dá duas citações, mas a ideia é a mesma: na verdade, vivemos no pior mundo possível. Tudo bem, a guerra terminou. E depois aprendemos a lição, não vai acontecer mais. Mas vocês estão mesmo seguros de terem aprendido a lição? Têm certeza de que não acontecerá de novo? Têm mesmo certeza de que a guerra terminou? De certa maneira, a guerra nunca terminou, ou então só terminará quando a última criança nascida no último dia de combate for enterrada sã e salva, e mesmo assim ela continuará, em seus filhos e depois nos deles, até que finalmente a herança se dilua um pouco, as recordações sejam desfiadas, e a dor, amenizada, ainda que nesse momento todos já tenham há muito esquecido e tudo esteja relegado ao lote das histórias de antigamente, boas sequer para assustar as crianças, e ainda menos os filhos dos mortos e daqueles que houverem desejado sê-lo, mortos, esclareço.

[…]

Tínhamos lançado uma ponte flutuante na fronteira. Bem ao lado, esparramadas nas águas cinzentas do Bug, ainda vinham à tona vigas retorcidas da ponte metálica dinamitada pelos soviéticos. Nossos batedores haviam montado a nova numa noite, diziam, e Feldgendarmes impassíveis, cujas placas em meia-lua irradiavam fagulhas de sol, organizavam a circulação com desenvoltura, como se ainda estivessem em casa; disseram-nos para esperar. Contemplei o grande rio preguiçoso, os pequenos bosques tranquilos do outro lado, a multidão na ponte. Depois foi a nossa vez de passar, e logo em seguida começava uma espécie de avenida de carcaças de material russo, caminhões queimados e amassados, tanques rasgados como latas de conserva, trens de artilharia enrugados como fetos, derrubados, varridos, misturados numa interminável faixa calcinada de pilhas irregulares ao longo dos acostamentos. Mais além, bosques resplandeciam sob a luz esplêndida do Outono». In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, Alfragide, 2014, ISBN 978-972-203-304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher, 

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «O rapaz levantou-se outra vez e mostrou-lhe uma fotografia recente. Tia e sobrinho sentados no mureto da pousada de Alcácer do Sal, com o rio e o céu ao fundo»

jdact

A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Não!, interrompeu Armando, sentando-se de repente. A tia nunca me faria uma coisa dessas, dizer que ia aparecer, combinar tudo e depois abalar para outro lado! Aconteceu alguma coisa, decerto! Consumido, voltou a levantar-se. O inspector lembrou o carro, também desaparecido. O rapaz referiu que a vizinha vira a tia entrar para o carro e partir. Nem o carro nem as chaves tinham regressado à casa, explicou ele, dizendo que a tia deixava as chaves numa pequena salva prateada, numa mesinha à entrada de casa, onde não estavam. Júlio César acendeu outro cigarro e deu uma passa. O rapaz sentou-se outra vez. A sua tia conduz bem? Também pensei logo num acidente. Deus me livre... Mas falei para os hospitais: Alcácer, Setúbal. E confirmei na GNR. Não havia registo nenhum de acidente com um Opel Corsa, que é o carro dela. Nem ninguém nas urgências. Graças a Deus..., disse o rapaz, com alívio. Júlio César fez um ligeiro compasso de espera. Será que ele se ia levantar outra vez? O outro não o fez. O inspector disse então: não quero desmoralizá-lo, tenho que voltar a telefonar para esses locais, e para a GNR.O rapaz levou as mãos à cabeça. Vou precisar de mais alguns dados, disse Júlio César e pediu a morada da senhora e a matrícula do carro.

O rapaz levantou-se outra vez e mostrou-lhe uma fotografia recente. Tia e sobrinho sentados no mureto da pousada de Alcácer do Sal, com o rio e o céu ao fundo. Elvira era uma mulher de cara larga e sorriso bonito. Gorducha, de braços e peitos fortes, transpirava saúde. Não era o perfil habitual de uma desaparecida. Júlio César sentiu uma ligeira impressão no estômago, o primeiro sinal suspeito do seu corpo. Não gostou. O rapaz sentou-se. O inspector foi telefonar. Nada na GNR, nada nas urgências. Nada também na morgue de Setúbal. Do carro, nenhum sinal. Pediu para ser avisado, se fosse caso disso. Voltou à sala e olhou o relógio. Eram quase sete e meia.

Só tenho medo de que a tia esteja para aí numa ribanceira..., gemeu Armando, levantando-se e indo até ao fundo da salinha. Nestas ocasiões..., perorou Júlio César. Aconselhamos as pessoas a não serem nem demasiado optimistas, nem demasiado pessimistas. Acendeu outro cigarro. Elvira não tinha companheiro conhecido, nem amigos ou familiares por perto, tirando o sobrinho. Faltava o dinheiro... A sua tia tem posses? Posses como?, perguntou o rapaz, sentando-se de novo. Quer dizer, vive bem, tem dinheiro? A casa é dela? Não, é alugada. Que eu saiba, não tem mais nada, além do carro, já com uns cinco anos. Talvez guarde algum dinheiro no banco, não sei. Nunca falei disso com ela.

Disse-o com naturalidade. Júlio César sentiu que era verdade, que o sobrinho não fazia ideia se a tia tinha muito ou pouco. Conferiu o relógio. Mais uns minutos e chegava o turno da noite para o substituir. Não tinha nada para fazer a seguir. Podia ir com Armando a casa da mulher. Sabia que não era o procedimento habitual, mas ele não tinha muita paciência para formalidades. Levantou-se: saio agora às oito. Posso ir consigo a casa da sua tia. Nada oficial, mas... Encontraram-se meia hora depois à entrada de Alcácer, junto a uma bomba da Galp. Como o sobrinho dissera, a casa da senhora estava limpa, numa ordem própria de uma mulher solitária. Júlio César examinou a sala e os quartos. Nada nas gavetas: nem cartas, nem diários secretos. Na pequena cozinha, uma ou duas mensagens coladas no frigorífico, coisas que ela teria de ir buscar à pastelaria ou à lavandaria. Na sala, chamou-lhe a atenção um livrinho de telefones. Folheou-o: a maior parte dos números eram da região de Alcácer, mas havia um ou outro de Lisboa, e alguns de telemóveis». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento, 

domingo, 7 de março de 2021

Santos Guerreiros e Mártires. Paula P. Costa e Joana Lencart. «… linha norte do rio Tejo, com especial concentração junto a Tomar, na zona da Beira Interior e de Trás-os-Montes, ambas perto da fronteira com Castela»

Cortesia de wikipedia e jdact

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

A violência como elemento definidor

«(…) A tradição de culto em torno de personagens guerreiros sobrevive para além dos tempos em que a guerra de reconquista era uma constante e projecta-se para tempos futuros. As continuidades ao longo do tempo em matéria devocional seriam muitas, como se pode perceber. Nesta medida, não surpreende a referência a este conjunto hagiográfico em tempos de transição entre a Medievalidade e a Modernidade e mesmo posteriores.

Cronologia e fontes documentais

A Ordem de Cristo foi fundada, em Portugal, em 1319, na sequência da supressão da Ordem do Templo, tornando-se sua herdeira patrimonial, como já salientamos. Ao património fundiário recebido dos Templários, a Ordem de Cristo foi acrescentando bens e igrejas que aglutinou em comendas ou adjudicou à mesa mestral, resultantes de doações régias e particulares. Estas circunstâncias históricas contribuem para o perfil territorial da nova instituição. A sua grande exposição ao poder régio far-se-ia sentir também ao nível de algumas opções relacionadas com a gestão dos bens que a Ordem geria. Por exemplo, em 1411, o rei João I dotara a Casa do Infante Henrique com um património que geograficamente se situava na mesma área, ou em zonas contíguas, ao da Ordem de Cristo. Assim se compreende que, em 1420, o infante Henrique tenha recebido de seu pai a administração desta Ordem.

A expansão ultramarina representará também uma dilatação do património da Ordem de Cristo, em virtude de o infante Henrique ter sido o seu principal promotor na primeira metade do século XV. Em consequência, em 1456, Nicolau V entrega à Ordem o domínio e jurisdição espiritual sobre todas as terras descobertas e a descobrir ao longo da costa africana. Sem que as fontes documentais que utilizamos tragam qualquer informação neste sentido, convém ter presente a propagação de referentes devocionais por intermédio dos freires em território além mar, miscigenando-os com tradições locais. A Ordem de Cristo, desde o início reflectiu uma ligação estreita com a Coroa que se intensificou e até chegou a fundir-se.

A partir de 1495, a governação da Ordem é assumida pelo próprio rei Manuel I, na continuidade da sua actuação como Mestre-Governador já desde 1484. A cronologia seleccionada para este trabalho está balizada entre 1462 e 1536, anos que correspondem aos registos de visitações conhecidos para a Ordem de Cristo, entre os meados dos séculos XV e XVI (Costa, 2012: 415-437, altura esta em que se verificaram transformações de fundo relacionadas com a incorporação definitiva das Ordens de Cristo, de Santiago e de Avis na Coroa. Foram identificados registos, com informação de carácter hagiográfico, para os anos 1462, 1505, 1507 e 1536. Se das visitações feitas até à década de 60 do século XV não se conhecem os respectivos relatórios resultantes da actividade dos visitadores, para o período indicado (1462-1536) são vários os textos conhecidos e que vão reportando uma situação muito estável ao longo do tempo. Por seu turno, os registos que se conservam de meados dos anos 30 do século XVI são particularmente interessantes, pois foram produzidos no âmbito da reforma da Ordem encomendada pelo rei a fr. António de Lisboa. Em 74 anos foram visitadas cerca de meia centena de localidades, dispersas territorialmente numa área que corresponde à linha norte do rio Tejo, com especial concentração junto a Tomar, na zona da Beira Interior e de Trás-os-Montes, ambas perto da fronteira com Castela. Este conjunto espelha completamente a área de implantação da Ordem de Cristo. Em certos casos, as visitações reincidem nos mesmos locais. Entre estes, apenas se contabilizaram uma vez os santos patronos e os que adornavam os diversos altares das respectivas igrejas, capelas e ermidas. Outras vezes, apesar de se conhecer a localidade visitada, não é nomeado qualquer templo, pelo que não puderam ser incluídos neste estudo». In Paula P. Costa e Joana Lencart, Da violência ao culto: santos guerreiros e mártires na espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536), Roda da Fortuna. Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2019, Volume 8, Número 1, ISSN: 2014-7430.

Cortesia de Roda da Fortuna/ Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo/JDACT

JDACT, Paula Pinto Costa, Joana Lencart, Cultura e Conhecimento, 

Domingos Amaral. Os Cavaleiros de São João Baptista. «… com alguma doença, como diz ser o caso da sua tia, o desaparecimento é raro. Normalmente esquecem-se de avisar a família que iam a algum lado...»

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Anda a treinar para tubarão?, perguntara o professor Bernardino. Será que estava a vender a alma ao Diabo? A sua ambição profissional justificava isto? Seria o desejo por Mariana que o toldava, mantendo-o agarrado a um emprego tão duvidoso? E onde raio se tinha metido ela? A voz de Gloria Gaynor começou a entoar I Will Survive, seguindo a play list habitual dos casórios. Na pista, os seus amigos Inês e Francisco dançavam alegres. Mas a ele não lhe apeteceu.

A Fundação. Domingo, 17 de Junho de 2002

Bolos de arroz, disse o rapaz, levantando-se. A tia traz-me sempre bolos de arroz... Hoje não trouxe. Foi aquela referência aos bolos de arroz que quebrou a animosidade entre eles. Com o inspector Júlio César era assim: se lhe estragavam um pacato Domingo, passado tranquilamente no piquete da Polícia Judiciária (PJ) de Setúbal, antipatizava com as pessoas. Mas calhava existir um interesse comum, e sentia logo uma ligação cósmica que o fazia simpatizar com elas. Era o caso dos bolos de arroz. Se o rapaz tivesse dito palmiers, ou éclairs, nada teria mudado. Mas bolos de arroz eram bolos de arroz... O rapaz Parecia regressado da praia, de calções e sandálias, areia colada aos pés. Talvez vinte e cinco anos, pensou o inspector. Magro, nariz achatado, bigodinho cortado rente, brinco na orelha direita, cabelo encaracolado, castanho-escuro. Um olhar nervoso, preocupado, um tom de voz de criança mimada a quem haviam provocado uma inesperada desilusão. A tia desapareceu, queixou-se, coçando a orelha com a mão, lembrando ao inspector o cãozito rafeiro da vizinha, que passava os dias a coçar as pulgas.

Júlio César tentou uma rota de fuga. Não desejava acabar mal o Domingo, caramba. O procedimento normal é avisar a GNR. O rapaz alvoroçou-se, indignado: já fui à GNR de Alcácer... Porque é que ninguém quer fazer nada neste país? Típico dos portugueses: não se faz o que eles querem e põem logo o país em causa! O inspector, irritação a crescer nos pêlos do pescoço, ainda pensou em justificar a suposta inércia dos compatriotas com o calor. A tia não desaparecia assim! Não vê que o carro dela também desapareceu? Vejo, vejo, pensou Júlio César, e levas um grito se continuas a falar assim comigo, ó campista charrado! Mas, é claro, não o disse. Na corporação eram ensinados a atender o público com cortesia. Mesmo quando o público lhes mexia com os nervos. Olhou para o relógio de soslaio. Seis e meia. O turno só iria acabar às oito. Que seca monumental! Pensou em mandá-lo embora. Foi aí que o rapaz falou nos bolos de arroz. Normalmente a tia passava pela pastelaria. Hoje não passou. Aliás, eu fui lá a casa dela, por volta das três da tarde. Toquei à campainha e ninguém respondeu... Júlio César olhou para ele: gosta de bolos de arroz?

O rapaz confirmou com a cabeça. Portanto, só podia ser boa pessoa. Júlio César suspirou e decidiu dar-lhe uma oportunidade. Dirigiu-o para uma pequena sala, levando um bloco e um lápis. Acendeu um SG Filtro. Ofereceu um. O rapaz não quis fumar. Sentou-se do lado de lá da mesa e esperou, mexendo na orelha, repetindo o movimento canino. Conte-me lá o que se passou. O rapaz relatou o costume familiar: almoço com a tia ao Domingo, de quinze em quinze dias, ao qual ela nunca faltara em cinco anos. Nervoso, o rapaz levantou-se. Quando foi a última vez que falou com ela?, perguntou Júlio César, indicando que ele se devia sentar. Ontem.

O rapaz sentou-se e contou: falara com a tia pelo telefone, por volta das três da tarde. Combinara o almoço de Domingo para a uma e um quarto, como sempre. A tia ia à missa do meio-dia e depois ia ter com ele. A vizinha do lado dissera-lhe que a tinha visto a sair ontem, por volta das cinco e pouco, mas não voltara a vê-la. O rapaz tornou a levantar-se. Como é que sabe que ela não está em casa?, perguntou Júlio César. Disse que tinha tocado, mas... Sente-se por favor. Entrei em casa. O rapaz sentou-se de novo. Há coisa de dois anos, contou, a tia dera-lhe uma chave da casa, que nunca usara até hoje. Não havia nada fora do lugar, contou o rapaz. A cama feita, a casa aspirada. A tia aproveitava os sábados de manhã para limpar a casa, pois passava a semana a limpar as dos outros. Trabalha em casa de quem?, perguntou Júlio César, notando que o rapaz dizia a tia como se fosse apenas uma palavra.

O rapaz levantou-se de novo. Não sabia bem os nomes, explicou: a tia trabalhava em duas ou três casas, em Alcácer, e também num monte. Mas não ao sábado. Ao sábado a tia nunca trabalhava para fora. Júlio César lembrou-se de que nem sabia o nome dele. Desculpe, como se chama? Armando José Barreiros. O inspector apontou o nome e depois ordenou: okay. Agora sente-se. O rapaz sentou-se. Júlio César perguntou o nome da tia. Elvira dos Santos Barreiros. É irmã do meu pai, esclareceu o rapaz, mexendo de novo na orelha. Nos últimos tempos, não notou nada de estranho no comportamento da sua tia? Não lhe ouvira nem lamúrias nem revelações. O rapaz voltou a levantar-se. Júlio César suspirou. Mais valia desistir de o mandar sentar. Deve ser para isto que serve o sistema nervoso, pensou, antes de comentar: se não são pessoas com problemas, com alguma doença, como diz ser o caso da sua tia, o desaparecimento é raro. Normalmente esquecem-se de avisar a família que iam a algum lado...» In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento,   

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «… prove ao cliente que o dinheiro não desapareceu, dê por onde der. Sentira um arrepio na espinha. Recordou as perguntas da noite: não tem dúvidas morais?, perguntara Liliana»

 

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A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002

«(…) Então, doutor João Pedro, tem o trabalho pronto na segunda-feira? A voz forte do Dr. Marcos Portugal soara atrás dele, assustando-o e interrompendo as suas recordações. Ao virar-se, quase entornou o whisky com gelo que o barman lhe estendia. Boa noite, disse atabalhoado. O olhar vivo e frio do dr. Marcos Portugal fixou-o, enquanto lhe apertava a mão com força. Quero o dossiê organizado sem falta na segunda. O tipo está feroz. Concordou, submisso. Tinha dúvidas sobre o trabalho, mas não era o momento oportuno para esclarecimentos. Venha, quero apresentar-lhe uma pessoa, comandou o dr. Marcos Portugal. João Pedro seguiu-o até à mesa, onde se sentava a bela mulher loira, esplendorosa no seu vestido vermelho.

Liliana, quero que conheças um dos nossos mais promissores investimentos... Foi assim que o dr. Marcos Portugal o apresentou: como se ele fosse uma acção, um título do Tesouro. Depois de beijar a diva loura, João Pedro sentou-se, observando a sala. Ecoavam os primeiros acordes de uma valsa e, como de costume, a noiva abandonou o seu lugar na mesa principal e foi à procura do seu pai, para abrir o baile. Depois de passar uns minutos gabando a sua última compra, um Mercedes fantástico, o dr. Marcos Portugal levantou-se: falamos na segunda, às oito e meia. João Pedro deixou-o afastar-se. Acendeu um cigarro. Na pista, a noiva dançava com o pai, o dr. Campos Neves, sócio de Marcos Portugal. Inês chamava-o com gestos e João Pedro começou a levantar-se, mas Liliana deteve-o, colocando-lhe um braço sobre o seu: gosta de trabalhar com ele? Olhou-a nos olhos. Que raio de pergunta era aquela? É intenso. Abrasivo, respondeu João Pedro, defensivo. Ela sorriu, enigmática. Depois, levou à boca o copo de vinho branco e sorveu um pouco. Voltou a sorrir e perguntou: nada de dúvidas morais? João Pedro deu uma passa no seu cigarro. O Danúbio Azul, habitual valsa de abertura nos casamentos, chegava ao clímax, e muitos pares de convidados avançavam para a pista, depois de o pai da noiva a ter passado para as mãos do seu recentíssimo marido. Sou advogado, não sou padre, respondeu. Liliana fez uma careta e brincou: parece tenso... É sempre assim na presença de mulheres bonitas?

Passou-lhe um pensamento pelo cérebro: só quando são as escort girls do meu patrão. Da sua mesa, Inês chamava-o, agitando os braços. Ou só fica tenso quando elas são as concubinas do seu patrão? João Pedro ficou siderado. Ela deu uma gargalhada: quase que se consegue ouvir o seu cérebro a trabalhar: o que é que ela quer? E se vai contar tudo ao boss? E se disser a palavra errada, a sua vida profissional vai pelo ralo, não é? João Pedro fez um sorriso forçado. Liliana acendeu um cigarro, inalou e depois comentou: as pessoas têm medo dele... Você também tem medo dele? O que era aquilo? Quem era esta mulher? Lionel Ritchie começou a cantar Ali Night Long e, na pista de dança, cresceu a excitação, como se as pessoas estivessem a viver o momento mais divertido das suas vidas. Medo? Porquê? Sem lhe ligar, Liliana levantou-se e depois baixou-se na direcção dele, de modo que as suas caras ficaram muito próximas: ora aí está um bom mistério para entreter os seus neurónios... João Pedro viu-a a afastar-se, abanando as ancas. Quem era esta mulher? Seria mesmo uma escort girl? Mas, pela forma como falava, dir-se-ia que conhecia a vida do escritório. Que tipo de jogo era aquele? Deixou-se ficar sentado, a digerir as dúvidas. Mariana continuava sem dar sinais de vida. Ainda pensou em perguntar ao pai por ela. Mas não era boa ideia: pai e filha não se davam bem.

Recordou o caso que tinha em mãos: uma operação de fuga ao fisco. A fortuna de um construtor civil posta a salvo. Vários milhões a voarem pelo ciberespaço, de off-shore em off-shore. E os nomes, estranhos, das empresas: Abraxas, Cifra Atbash, Leviktikon, Templer One, Agnus Mix, Salomon et al, Baph-Omet. Pareciam nomes históricos, religiosos, medievais. Lembrou-se das referências do professor Bernardino aos Templários e do murmúrio que ouvira sobre Marcos Portugal ser maçon, ou templário (quem comentara? O professor Bernardino?). Correu a tenda com olhar, procurando o historiador. No bar e nas mesas não existia sinal dele, nem da sua pequenina mulher. Na pista, onde uma turba desordenada imitava os movimentos corporais dos Village People e cantava o YMCA, também não descobriu o enorme viking. Arrependeu-se da forma abrupta como o abandonara, agora que tinha interesse em falar com ele. O seu pensamento regressou à operação fiscal. Fora montada há um ano, antes de João Pedro ser contratado. Só que a coisa complicara-se: o cliente acusava agora o escritório de o ter prejudicado seriamente. À primeira vista, Parecia grave. O dr. Marcos Portugal dera-lhe ordens precisas: prove ao cliente que o dinheiro não desapareceu, dê por onde der. Sentira um arrepio na espinha. Recordou as perguntas da noite: não tem dúvidas morais?, perguntara Liliana». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Templários, Literatura, Conhecimento, 

sábado, 6 de março de 2021

Poesia. Luísa Sobral. «Antes de ti, só existi cansado e sem nada p’ra dar. Meu bem, ouve as minhas preces…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Amar Pelos Dois

«Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi p’ra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não só ter paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

Poema de Luísa Sobral, in Universal Music Publishing Group

Cortesia de UMPGroup/JDACT

JDACT, Luísa Sobral, Poesia, Cultura e Conhecimento,

sexta-feira, 5 de março de 2021

Poesia. Thiago Gimenes e Thaila Araújo. «Quando foi que partiu, nem percebi o tempo passar; se fez sol ou se fez frio, nem percebi. Faltou o seu olhar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Faltavam Seus Olhos

«Quando foi que partiu
Nem percebi o tempo passar
Se fez sol ou se fez frio
Nem percebi
Faltou o seu olhar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar

Quando foi que partiu
Nem percebi o tempo passar
Se fez sol ou se fez frio
Nem percebi
Faltou o seu olhar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar

Então corri sem me cansar
Eu não dormi, nem quis acordar
Eu não pensei, nem vou pensar
Não vou sorrir, nem vou chorar
Faltavam seus olhos
P’ro mundo eu enxergar»

Poema de Thiago Gimenes e Thaila Araújo

Cortesia de Musixmatch/Wikipedia/JDACT

JDACT, Thiago Gimenes, Thaila Araújo, Poesia, Brasil, 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Santos Guerreiros e Mártires. Paula P. Costa e Joana Lencart. «Desde a formulação da sua matriz conceptual no século XII, as Ordens Militares foram associadas à concretização da guerra santa sobretudo em zonas periféricas do espaço europeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

«A Ordem de Cristo, desde a sua fundação no século XIV, reflectiu uma espiritualidade devocional que incluía o culto dos santos guerreiros e mártires, reflexo da sua matriz religiosa e militar, herdada já dos Templários. As fontes utilizadas para este estudo são os registos de visitações feitos às igrejas da Ordem de Cristo, entre 1462 e 1536. Através destes apontamentos, é possível reconstituir os santos venerados nas igrejas e ermidas, bem como nas capelas e nos altares no interior desses templos, em cerca de meia centena de localidades. Os santos guerreiros e mártires são particularmente cultuados em lugares associados à sede conventual e à defesa da fronteira, tanto muçulmana como castelhana». In Resumo

Da violência ao culto. Espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536)

A violência como elemento definidor

«A Ordem de Cristo é uma Ordem Militar com a singularidade de ter sido criada apenas no século XIV, mais concretamente em 1319. O contexto histórico imediato desta criação é a supressão da Ordem do Templo em 1312. Numa leitura mais ampla, porém, conseguem-se identificar causas que não se ligam exclusivamente à vontade de perpetuar a herança matricial dos Templários. A própria bula fundacional da Ordem de Cristo aponta para um programa de acção ligado à ideologia da cruzada tardia e à sua aplicação à área do estreito de Gibraltar, onde a pirataria e o corso convidavam à participação activa de Portugal. Assim, percebe-se que os interesses económicos não sejam os únicos subjacentes a esta opção e que emerjam, em simultâneo, objectivos no domínio político, religioso e cultural que se reflectem na evolução histórica da Ordem de Cristo. O seu quadro devocional não é imune a estas questões.

Desde a formulação da sua matriz conceptual no século XII, as Ordens Militares foram associadas à concretização da guerra santa sobretudo em zonas periféricas do espaço europeu, desde o Oriente Latino, à Península Ibérica Pimenta, e ao Báltico. A assunção da violência como elemento definidor de uma matriz espiritual reforça a novidade das Ordens Religioso-Militares e faz delas instituições de grande utilidade sociopolítica na cronologia em questão. Nos moldes definidos, a actuação militar foi incorporada como factor de distinção programática destas instituições face a outras Ordens Religiosas, como as Monásticas, e como factor de salvação dos freires que nelas professavam. Favorecida por esta conjuntura, a violência é incorporada na teologia cristã e legitimada como factor de pacificação, sem que isto encerrasse forçosamente um paradoxo. Ou seja, sobretudo, no quadro da história dos territórios do Oriente Latino e da Península Ibérica, a violência era canalizada para a conquista de novos espaços, que gradualmente se convertiam em territórios organizados e com traços de tendente estruturação estatal.

Tendo em consideração estas circunstâncias, importa perceber o modo como a Ordem de Cristo manifestava esta religiosidade guerreira nos seus templos e como a transpunha para o nível devocional. Uma leitura restrita sobre os santos directamente relacionados com a actividade guerreira inclui como os mais representativos S. Sebastião, Santiago, S. Miguel e S. Jorge. A avaliação da expressão deste grupo hagiográfico entre a Ordem de Cristo é potenciada pela inclusão de outros elementos marcantes de uma sociedade em que a guerra fazia parte da sua imagem de marca e modelava comportamentos. A alusão frequente a santos que tinham conhecido o martírio como forma de punição, e em simultâneo de salvação, pode constituir um elemento de reflexão interessante no quadro da teologia da violência, típica do mundo medieval em que nos centramos. A própria realidade histórica da Península Ibérica, em que a reconquista foi tida como o motor fulcral, coloca em evidência a necessidade de estudos do perfil do que agora desenvolvemos.

No ocidente peninsular, em paralelo com o desenvolvimento da reconquista, ocorreu a valorização de Santiago de Compostela enquanto grande centro devocional. A lenda de Santiago é repleta de significados e reconhece ao santo vários atributos e representações. No contexto histórico em que nos situamos, a de Santiago Mata-Mouros é a mais emblemática. Trata-se, de facto, de uma síntese entre a violência e o culto, adaptada ao contexto histórico peninsular de modo particular». In Paula P. Costa e Joana Lencart, Da violência ao culto: santos guerreiros e mártires na espiritualidade devocional da Ordem de Cristo (1462-1536), Roda da Fortuna. Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2019, Volume 8, Número 1, ISSN: 2014-7430.

Cortesia de Roda da Fortuna/ Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo/JDACT

JDACT, Paula Pinto Costa, Joana Lencart, Cultura e Conhecimento,

segunda-feira, 1 de março de 2021

Poesia. António Ramos Rosa. «Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca. Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Todo aquele que abre um livro

«Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto».

Poema de António Ramos Rosa

 

A Casa

«A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui».

Poema de António Ramos Rosa, in O Não e o Sim (1990)

Cortesia de Textos de Poesia/Wikipedia/JDACT

JDACT, António Ramos Rosa, Poesia, Cultura, A Arte da Escrita,