sexta-feira, 19 de março de 2021

A Segunda Dama. Irving Wallace. «… explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar»

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«Sentada ali, ela começou a sentir-se melhor. A provação estava quase no fim. O mobiliário Luís XVI da Sala Oval Amarela fora disposto de outro modo. Ela instalava-se, empertigada, alerta, no meio do sofá listado, de costas para a janela arqueada e extensão de relvado ao sul, enfrentando pelo menos vinte repórteres femininos e quatro masculinos da Casa Branca, na sua maioria em cadeiras dobráveis, todos impacientes. Colocara-se entre Nora Judson, sua secretária de Imprensa e amiga, e Laurel Eakins, secretário de entrevistas, o que resultava amparador e confortável. Mas o peso recaíra nela. Desde que se tornara Primeira-Dama, apenas concedera quatro conferências de Imprensa em dois anos e meio. Aquela, a instâncias do marido (mais aparições em público podem ser vantajosas para ambos), era a quinta. Em virtude do seu longo silêncio, a Imprensa comparecera com uma sobrecarga de perguntas.

Embora não se houvessem registado soluções de continuidade nos últimos sessenta minutos, as interrogações tinham-se revelado, na sua maioria, fáceis e frívolas. Era verdade que se sujeitava a uma dieta de baixo nível de hidratos de carbono? Tencionava reatar as lições de ténis? Interviria activamente na campanha do marido para as primárias? O Presidente confiava nela e consultava-a em questões de Estado? Que livros lera ultimamente? Tinha uma opinião formada sobre a moda feminina actual? Ladbury, de Londres, continuava a ser o seu costureiro preferido? Qual fora a sua reacção às recentes sondagens públicas que a consideravam a mulher mais popular no mundo de hoje? E assim sucessivamente, sem pausas.

Agora, uma mulher corpulenta com sotaque fanhoso do Texas formulava uma pergunta de carácter mais sério: mrs. Bradford, quanto à notícia de que estará presente na Reunião Internacional das Mulheres em Moscovo, esta semana, antes de acompanhar seu marido à Cimeira de Londres... Sim? ... , alterou o seu ponto de vista acerca da Emenda à Igualdade de Direitos ou do aborto? E pensa pronunciar-se sobre esses temas na capital soviética? Ela sentiu a secretária de Imprensa agitar-se em desconforto a seu lado, mas ignorou a advertência e declarou: pretendo discutir os dois assuntos na minha intervenção. Quanto ao meu ponto de vista, não sofreu a mínima alteração. Continuo a acreditar que a igualdade de direitos para as mulheres nos Estados Unidos há muito que devia vigorar, e cada dia que passa recebemos mais manifestações de apoio. No caso do aborto, há muitos pontos a debater por ambas as partes. Fez uma pausa à espera do suspiro de alívio da secretária, ouviu-o e continuou: no entanto, penso que não deve existir legislação alguma contra a sua prática, mas reservar a decisão, individualmente, a cada mulher nessa situação. Referir-se-á a isso em Moscovo?

Sem dúvida. Tentarei igualmente determinar, com base nos dados estatísticos à minha disposição, como pensam as mulheres dos Estados Unidos neste momento, a respeito de ambos os tópicos. Levantou-se outra repórter, alta, de ossos salientes, que se exprimiu com a inflexão bem modulada de Boston: mrs. Bradford, pode revelar-nos que mais espera discutir na Reunião Internacional das Mulheres? A mulher no mundo do trabalho americano. A mulher nas nossas forças armadas. Enfim, um largo número de tópicos. Quando regressar, apresentarei um relatório minucioso.

A editora da secção feminina do New York Times pôs-se de pé por sua vez. Consta que permanecerá três dias em Moscovo. Pode mencionar algumas outras actividades, além das reuniões, a que tenciona dedicar-se? Bem, como se trata da minha primeira visita à União Soviética, espero dispor de tempo para algumas digressões turísticas. Em todo o caso, Nora, aqui presente, está mais familiarizada com o meu programa. Olhou Nora Judson significativamente e esta apressou-se a fazer uso da palavra, de forma fluente e eficiente. Billie Bradford reclinou-se com alívio, pela primeira vez. O dia, em particular a parte da tarde, fora tão activo, que só agora se dava conta do cansaço que a invadia. Sentia-se em desalinho. Baixou os olhos para a camisola de caxemira azul-clara e saia de uma tonalidade mais escura e convenceu-se de que continuavam apresentáveis. Então, devia ser o cabelo. Penteara a longa cabeleira loura para trás, com uma fita de seda em volta do rolo, mas, como sempre, haviam-se desprendido algumas madeixas, que pendiam sobre a fronte. Com um gesto característico, tratou de as impelir para a posição conveniente.

Nora explicava, em voz firme e clara, o itinerário da Primeira-Dama em Moscovo e esta sentia-se-lhe grata. Fingindo prestar atenção às palavras da sua secretária, Billie Bradford deixou o espírito retroceder para o fim da manhã daquele dia crucial e depois avançar ao longo da tarde até ao momento presente. Antes do meio-dia, despachara toda a correspondência pessoal, em especial as cartas destinadas ao pai em Malibu e à irmã mais nova, Kit, explicando-lhes que, após a viagem a Moscovo e antes da partida para Londres, teria de permanecer um dia em Los Angeles, oportunidade que aproveitaria para os visitar». In Irving Wallace, A Segunda Dama, 1980, Editora Livros do Brasil, Colecção Dois Mundos, 1983, ISBN 978-972-380-936-7.

Cortesia ELdoBrasil/JDACT

JDACT, Irving Wallace, USA, Rússia, Literatura, A Arte,

quinta-feira, 18 de março de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «… compridas velas grossas de cera maciça de abelha. Eu ouvira meu pai ordenar ao administrador de nossa fazenda, Garci Díaz, que mandasse fazer aquelas velas especialmente para a ocasião»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Estamos a caminho para nos juntarmos a navio aos exércitos da rainha Isabel de Castela e do rei Fernando de Aragão no cerco contra Granada, informou o tenente a meu pai. Entregarei este rato mendigo à primeira galé que encontrarmos no mar. Ele poderá servir como escravo até ao fim dos seus dias. O pai concordou com a cabeça, porém eu mal notei esse gesto. Passei apressadamente por ele e corri escada acima para o quarto da minha mãe. Minha tia Beatriz estava ajoelhada ao lado da cama segurando sua mão. Eu soube então que minha mãe devia estar morrendo, pois minha tia era uma freira de convento que não deixava a clausura excepto em circunstâncias extremas. Afastara o véu de freira, de modo que pude ver como suas feições se pareciam com as de minha mãe, embora minha tia fosse mais jovem. Falava com a irmã num tom de voz tranquilizador, dizendo-lhe que suas tribulações desta vida logo chegariam ao fim e que em breve encontraria o seu descanso e recompensa no céu.

Não!, falei em voz alta. Não diga isso! Mamã não pode morrer. Mas pude ver que as suas faces e as suas órbitas haviam afundado, e que, para ela, cada respiração era um sofrimento. O sacerdote local, o padre Andrés, que se encontrava de pé na extremidade da cama, tentou oferecer palavras de consolo, mas não fui apaziguada. Gritei para ele: eu fui ao santuário de Nossa Senhora das Dores para rezar e fazer uma oferenda para que tudo terminasse bem. Acendi uma vela e pedi que a mamã se recuperasse após o parto. Mas não havia ninguém no céu me escutando. Fiquei com raiva do Deus dele, por ter ignorado meus apelos por misericórdia. Do que adiantou eu ter feito aquilo?, berrei para o sacerdote. Não adiantou de nada. Nada!

O rosto do padre Andrés registou o choque provocado pelas minhas palavras, mas ele me falou amavelmente. Não deve dizer essas coisas, Zarita. É errado questionar a vontade de Deus. Minha tia Beatriz disse: Zarita, minha menina, acalme-se. Sua mãe está indo embora. Deixe-a fazer isso em paz, com palavras tranquilas de amor da sua parte. Mas eu só conseguia pensar nas minhas próprias necessidades, minha própria dor. Joguei-me atravessada ao corpo de mamã na cama, derramei lágrimas e gritei: não me deixe, mamã! Mamã! Mamã! Não me deixe!

Naquele dia, jurei vingança. Meu choque entorpecido diante da total e selvagem crueldade dos actos daquele dia foi substituído por um ódio venenoso. Antes de os soldados amarrarem minhas mãos e me arrastarem pelas ruas até ao cais, encarei friamente o rosto do homem que me tratou injustamente e jurei que jamais o esqueceria. Eu, Saulo, da cidade de Las Conchas, decidi que causaria a ruína de dom Vicente Alonzo Carbazón. Derrubaria a árvore na qual ele enforcara meu pai. Dispersaria seu gado e envenenaria seus poços. Incendiaria sua casa junto aos bens e à mobília do seu interior e os pisotearia até virarem pó. Eu destruiria a ele, sua mulher e todos os seus filhos.

Perto da meia-noite, no interior da igreja de Nossa Senhora das Dores, situada no alto de um rochedo que contemplava o mar Mediterrâneo, a vela acesa naquela manhã por Zarita del Vicente Alonzo de Carbazón tremeluziu e se apagou. Vinte minutos depois, a vida de sua mãe também se extinguiu. Deste modo, o simples acender de uma vela deu início a uma cadeia de eventos que levaria o desastre aos envolvidos nos incidentes daquele dia.

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

Se, por um lado, meu pai, o magistrado, era respeitado na cidade de Las Conchas, por outro, minha mãe fora amada. As pessoas foram para as sacadas das casas para ver a carruagem fúnebre, puxada por quatro cavalos negros emplumados, seguir seu imponente caminho pelas ruas, e jogaram pétalas de flores quando o cortejo passou por baixo delas. Além de ser conhecida por seus actos de caridade, mamã ajudara a fundar um hospital para cuidar dos destituídos; ali, sua irmã mais nova, minha tia Beatriz, fundara uma ordem de enfermeiras religiosas. Completamente veladas, com os capelos de seus hábitos puxados para baixo, as freiras se posicionaram diante do prédio a fim de assistir ao cortejo fúnebre, e muitos dos pobres se enfileiraram em ambos os lados do caminho de terra que levava ao cemitério na colina acima da cidade. Os amigos de negócio do meu pai compareceram, assim como uma pequena parte da nobreza local. Embora fosse rico, meu pai não tinha sangue nobre, mas era respeitado pelos lordes e pelos dons, que sabiam que ele fazia cumprir as leis que os mantinham em segurança. O túmulo da família tinha sido aberto, e o padre Andrés, paramentado de preto, esperava junto ao portão do cemitério. Estava acompanhado de uma dúzia de acólitos que usavam sobrepelizes brancas sobre sotainas pretas e seguravam compridas velas grossas de cera maciça de abelha. Eu ouvira meu pai ordenar ao administrador de nossa fazenda, Garci Díaz, que mandasse fazer aquelas velas especialmente para a ocasião». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

A Caverna. José Saramago. «A região é fosca, suja, não merece que a olhemos duas vezes. Alguém deu a estas enormes extensões de aparência nada campestre o nome técnico de Cintura Agrícola…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O homem que conduz a camioneta chama-se Cipriano Algor, é oleiro de profissão e tem sessenta e quatro anos, posto que à vista pareça menos idoso. O homem que está sentado ao lado dele é o genro, chama-se Marçal Gacho, e ainda não chegou aos trinta. De todo o modo, com a cara que tem, ninguém lhe daria tantos. Como já se terá reparado, tanto um como outro levam colados ao nome próprio uns apelidos insólitos cuja origem, significado e motivo desconhecem. O mais provável será sentirem-se desgostosos se alguma vez vierem a saber que aquele algor significa frio intenso do corpo, prenunciador de febre, e que o gacho é nada mais nada menos que a parte do pescoço do boi em que assenta a canga. O mais novo veste uniforme, mas não está armado. O mais velho traja um casaco civil e umas calças mais ou menos a condizer, leva a camisa sobriamente fechada no colarinho, sem gravata. As mãos que manejam o volante são grandes e fortes, de camponês, e, não obstante talvez por efeito do quotidiano contacto com as maciezas da argila a que o ofício obriga, prometem sensibilidade. Na mão direita de Marçal Gacho não há nada de particular, mas as costas da mão esquerda apresentam uma cicatriz com aspecto de queimadura, uma marca em diagonal que vai da base do polegar à base do dedo mínimo. A camioneta não merece esse nome, é apenas uma furgoneta de tamanho médio, de um modelo fora de moda, e vai carregada de louça. Quando os dois homens saíram de casa, vinte quilómetros atrás, o céu ainda mal começara a clarear, agora a manhã já pôs no mundo luz bastante para que se possa observar a cicatriz de Marçal Gacho e adivinhar a sensibilidade das mãos de Cipriano Algor. Vêm viajando a velocidade reduzida por causa da fragilidade da carga e também pela irregularidade do pavimento da estrada. A entrega de mercadorias não consideradas de primeira ou segunda necessidades, como é o caso das louças rústicas, faz-se, de acordo com os horários fixados, a meio da manhã, e se estes dois homens madrugaram tanto foi porque Marçal Gacho tem de marcar o ponto pelo menos meia hora antes de as portas do Centro serem abertas ao público. Nos dias em que não traz o genro, mas tem louças para transportar, Cipriano Algor não precisa de se levantar tão cedo. Contudo, de dez em dez dias, é sempre ele quem se encarrega de ir buscar Marçal Gacho ao trabalho para passar com a família as quarenta horas de folga a que tem direito, e quem, depois, com louça ou sem louça na caixa da furgoneta, pontualmente o reconduz às suas responsabilidades e obrigações de guarda interno. A filha de Cipriano Algor, que se chama Marta, de apelidos Isasca, por parte da mãe já falecida, e Algor, por parte do pai, só goza da presença do marido em casa e na cama seis noites e três dias em cada mês na noite antes desta ficou grávida, mas ainda não o sabe.

A região é fosca, suja, não merece que a olhemos duas vezes. Alguém deu a estas enormes extensões de aparência nada campestre o nome técnico de Cintura Agrícola, e também, por analogia poética, o de Cintura Verde, mas a única paisagem que os olhos conseguem alcançar nos dois lados da estrada, cobrindo sem solução de continuidade perceptível muitos milhares de hectares, são grandes armações de tecto plano, rectangulares, feitas de plásticos de uma cor neutra que o tempo e as poeiras, aos poucos, foram desviando ao cinzento e ao pardo. Debaixo delas, fora dos olhares de quem passa, crescem plantas. Por caminhos secundários que vêm dar à estrada, saem, aqui e além, camiões e tractores com atrelados carregados de vegetais, mas o grosso do transporte já se efectuou durante a noite, estes de agora, ou têm autorização expressa e excepcional para fazer a entrega mais tarde, ou deixaram-se dormir. Marçal Gacho afastou discretamente a manga esquerda do casaco para olhar o relógio, está preocupado porque o trânsito se torna pouco a pouco mais denso e porque sabe que de aqui para diante, quando entrarem na Cintura Industrial, as dificuldades aumentarão. O sogro deu pelo gesto, mas deixou-se ficar calado, este seu genro é um moço simpático, sem dúvida, mas é nervoso, da raça dos desassossegados de nascença, sempre inquieto com a passagem do tempo, mesmo se o tem de sobra, caso em que nunca parece saber o que lhe há-de pôr dentro, dentro do tempo, entenda-se, Como será quando chegar à minha idade, pensou. Deixaram a Cintura Agrícola para trás, a estrada, agora mais suja, atravessa a Cintura Industrial rompendo pelo meio de instalações fabris de todos os tamanhos, actividades e feitios, com depósitos esféricos e cilíndricos de combustível, estações eléctricas, redes de canalizações, condutas de ar, pontes suspensas, tubos de todas as grossuras, uns vermelhos, outros pretos, chaminés lançando para a atmosfera rolos de fumos tóxicos, gruas de longos braços, laboratórios químicos, refinarias de petróleo, cheiros fétidos, amargos ou adocicados, ruídos estridentes de brocas, zumbidos de serras mecânicas, pancadas brutais de martelos de pilão, de vez em quando uma zona de silêncio, ninguém sabe o que se estará produzindo ali. Foi então que Cipriano Algor disse, Não te preocupes, chegaremos a tempo, Não estou preocupado, respondeu o genro, disfarçando mal a inquietação, Bem sei, era uma maneira de falar, disse Cipriano Algor. Fez virar a forgoneta para uma rua paralela reservada à circulação local, Vamos atalhar caminho por aqui, disse, se a polícia nos perguntar por que saímos da estrada, recorda-te da combinação, temos um assunto a tratar numa destas fábricas antes de chegarmos à cidade. Marçal Gacho respirou fundo, quando o tráfego se complicava na estrada, o sogro, mais tarde ou mais cedo, acabava por tomar um desvio». In José Saramago,  A Caverna, 2000, Editorial Caminho, 2014, Porto Editora

, ISBN 978-972-004-654-3.

Cortesia de ECaminho/PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, Cultura, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Recuei cambaleante pela soleira da porta enquanto os soldados executavam a sua horrível tarefa. Então um rapaz saltou de cima do muro da propriedade e correu na nossa direcção…»

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Saulo

«(…) O corpo do meu pai estremeceu num último espasmo. Os braços caíram para os lados. Para mim, parecia que ele os estendia para me abraçar. Pulei para o pátio e corri até ele, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Pai! Pai!, gritei. Pai! Dom Vicente parou na soleira da porta da casa. Examinou-me com desdém. Eu deveria imaginar. Uma podridão como essa sempre gera mais sujeira. Suas feições se contraíram formando linhas de profunda repugnância. É melhor eliminar o fruto e a semente. Abanou a mão numa ordem para os soldados. Que o filho do mendigo dance a mesma dança. O tenente gesticulou com a cabeça para o ajudante de cavalariça. Traga outra corda, disse ele.

Zarita

Meu pai, dom Vicente Alonzo Carbazón, era conhecido na nossa cidade de Las Conchas pela severidade em lidar com criminosos, mas eu nunca tinha visto um ódio tão frio no seu rosto antes daquele terrível dia de Verão. Alertado pela agitação, ele veio à porta de nossa casa. Após ouvir de Ramón a versão deturpada dos acontecimentos, ele atingiu a boca do pedinte com tanta força que o rosto do homem se abriu como uma romã rebentando. A visão do pobre homem rastejando a seus pés pareceu inflamar em vez de aplacar a raiva de pai. Eu não sabia que ele estava enfurecido pela tristeza e perdera o controle das emoções. Pai. Pousei a mão no seu braço, mas ele a afastou e me dispensou. Então: o horror! Mandaram buscar uma corda. Olhei para Ramón, para que ele parasse com aquilo, mas ele continuava furioso por ter sido humilhado na igreja e ter precisado convocar soldados para ajudá-lo a capturar um camponês debilitado. A terrível satisfação revelada no seu comportamento me disse que não adiantava apelar para que ele detivesse o pai.

Recuei cambaleante pela soleira da porta enquanto os soldados executavam a sua horrível tarefa. Então um rapaz saltou de cima do muro da propriedade e correu na nossa direcção, soluçando e gritando pelo pai. Um dos soldados o agarrou pelo cós dos calções e o ergueu no ar. Mais um para os corvos arrancarem os olhos, gargalhou. E ouvi palavras desprezíveis vomitadas da boca de pai, que mandou o tenente enforcar o rapaz com o pai. Pai! Dessa vez, meu grito agudo chamou-lhe a atenção. O rapaz não estava na igreja. Ele não tem nada a ver com isso.

Esses ladrões e salteadores agem em bandos , disse-me o pai. Ele tentou-me fazer entrar em casa. Você é jovem e inocente demais, minha filha, para saber de certas coisas. Ele não passa de uma criança. Puxei a manga da camisa do pai. Olhe para ele. Pense no seu filho recém-nascido. Eu não tenho filho. Encarei o pai. Então notei algo que não tinha percebido antes. Ele não estava vestido de maneira apropriada, e os cabelos e a barba estavam desgrenhados. Seu irmão morreu meia hora atrás, explicou. Ah, não! Lágrimas quentes inundaram meus olhos. Minha mãe suportou nove gravidezes desde o meu nascimento, com todas elas, excepto esta última, resultando em abortos. E, agora, o bebé estava morto. Não admirava que o pai estivesse descontrolado. Pai! Pai! Lá fora, o rapaz continuava lutando e se esticando para tocar no cadáver do pai que pendia da árvore. Mas o laço de uma segunda corda foi colocado em volta do seu pescoço e o tenente jogou a longa extremidade por cima do mesmo galho. Você estará com o seu pai muito em breve, zombou um dos soldados. Ele começou a puxar a ponta da corda, e o rapaz ergueu-se no ar, as pernas chutando do mesmo modo como fizeram as de seu pai havia menos de cinco minutos. Ajoelhei-me diante do meu pai. Pense na mamã, implorei. É uma mãe bondosa e gentil para mim. Ela não iria querer que esse rapaz morresse assim como o seu próprio filho. O rosto de meu pai se contraiu, e ele colocou as mãos sobre o rosto. Sua mamã..., começou, mas não conseguiu continuar. Soluços agitaram seu corpo. Mamã? Minha respiração congelou nos pulmões. Mamã! Diga-me que nada aconteceu a ela. Por favor, pai. Diga-me que ela está viva. Ela está viva, confirmou ele, mas não por muito tempo. Ele hesitou, então gesticulou para o tenente. Já houve muitas mortes nesta casa por um dia. Pouparei a vida do rapaz, mas cuide para que ele seja mandado para onde eu nunca mais o veja. Meio decepcionados, os soldados largaram a corda, e o rapaz caiu no chão com um estrondo, onde permaneceu estremecendo, aturdido, mas vivo». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Meu coração batia forte no peito. Não! Aquele caminho levava à praia, e a água barraria seu caminho. No primeiro degrau, o jovem o alcançou e arremeteu com sua adaga»

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Saulo

«(…) Entretanto, ao me sentar debaixo de uma árvore na praça do lado de fora da igreja, naquele abafado dia de Verão, tinha esperanças de que meu pai fosse bem sucedido. Ao sair naquela manhã, ele me pedira que cuidasse de minha mãe, mas eu lhe desobedeci. Minha mãe tinha caído no sono, e segui meu pai enquanto ele ia atrás da moça ricamente vestida e de seu acompanhante. Calculei, como imaginei que ele o fez, que, se alguém como ela estava andando por essa área, só podia ter um destino. Devia estar indo ao santuário da Virgem Maria, que ficava no interior da igreja sobre o rochedo onde se podia contemplar o mar. E, se essa moça ia visitar uma igreja num dia não reservado à prática religiosa, então o mais provável era que tivesse uma tendência à piedade. Parecia ter a minha idade, com o mais lindo cabelo negro comprido preso em tranças e cachos por refinados pentes de casco de tartaruga. De vez em quando, o jovem nobre que a acompanhava virava-se para sorrir para ela e estender a mão para tocar-lhe o cabelo. Ela parecia uma boa moça, o rosto coberto apropriadamente por um véu, amável e devota. Tinha vindo a esta parte pobre da cidade para visitar o santuário, portanto isso devia significar que buscava algum favor especial, que tinha uma contrição ou uma súplica. Pensei, ela vai ouvir meu pai, do mesmo modo como espera que seu Deus a ouça. Eu estava errado.

A porta lateral da igreja abriu-se com um estrondo, e meu pai saiu correndo. Olhou de relance para os fundos da edificação; a parede do rochedo fechava a parte de trás, sem qualquer caminho visível. Ele virou e correu ao longo da lateral da igreja em direcção à frente desta. Imediatamente, pressenti o perigo. Levantei-me. A porta da igreja abriu-se novamente, e o jovem nobre que acompanhara a moça apareceu, seguido pela própria moça, bem mais atrás, as barras das saias apertadas nas mãos, correndo. O jovem perseguia meu pai, gritando loucamente. Assassino! Ladrão! Criminoso! Havia pouca gente por ali, mas quem estava na praça parou para olhar. Fiz um aceno com a mão. Achei que meu pai me tinha visto, mas ele se afastou com uma guinada para a direita, na direcção de uma escada que descia para o mar.

Meu coração batia forte no peito. Não! Aquele caminho levava à praia, e a água barraria seu caminho. No primeiro degrau, o jovem o alcançou e arremeteu com sua adaga. Ramón!, gritou a moça. Tenha cuidado! Meu pai não carregava arma alguma. Empurrou o homem chamado Ramón e o derrubou. Mas, ao fazer isso, ele mesmo caiu para trás e rolou pela escada. Juntamente aos outros espectadores, corri adiante para ver o que estava acontecendo. Abaixo de nós, meu pai, com dificuldade, se punha de pé. Mais alguns segundos e ele teria escapado; poderia ter encontrado outra passagem ou caminho pelo rochedo para fugir. Mas então um grupo de soldados surgiu marchando pelo quebra-mar. Do topo da escada, Ramón, seu perseguidor, gritou para o tenente no comando: prenda esse homem! Ele acabou de atacar uma moça no interior da igreja e tentou matar-me!

Os soldados avançaram atrás do meu pai, agarraram-no e, com muitos socos e chutos, levaram-no escada acima para enfrentar Ramón. Levem-no ao pai desta moça! O rosto do jovem nobre estava contorcido de raiva. Ele se chama dom Vicente Alonso Carbazón e é o magistrado local! E, assim, meu pai foi arrastado pelas ruas até à casa do magistrado e lançado ao chão da sua propriedade. Corri atrás deles, incapaz de pensar claramente sobre o que estava acontecendo, tão depressa estavam se desenrolando esses terríveis acontecimentos. No caminho, mais gente se reuniu atrás dos soldados para assistir ao espectáculo. Todos agora se aglomeravam diante do portão aberto. A moça abraçou o pai ao chegar à porta de casa. Ela fez menção de erguer o véu, mas ele segurou sua mão. Ele estava sem o casaco; e a gola da camisa, aberta. O cabelo estava desgrenhado, e seu corpo tremia enquanto falava. Que barulho é esse, exigiu raivosamente, que me perturba no momento em que mais preciso de paz? Ergueu a mão. Silêncio, rugiu. Então apontou para o jovem nobre. Você, Ramón Salazar, diga-me o que está acontecendo aqui. Senhor, dom Vicente..., este mendigo atacou sua filha na igreja do modo mais cruel. E, quando fui impedi-lo, ele tentou matar-me.

Dom Vicente deu um passo adiante e agrediu meu pai com um soco no rosto. Meu pai caiu no chão, cuspindo dentes e sangue na terra vermelha do pátio. Senhor, meu pai tentou falar, o mais nobre Dom... Dom Vicente desferiu um chuto na sua cabeça. Silêncio, seu vira-lata, vociferou. Se não tivesse assuntos mais urgentes a tratar, eu o julgaria aqui mesmo e faria cumprir imediatamente a sua sentença. Estamos em estado de guerra, lembrou o tenente que comandava os soldados. A rainha Isabel de Castela e seu marido, o rei Fernando de Aragão, têm afirmado que não tolerarão qualquer agitação civil enquanto lutam para reunificar todas as nossas províncias para que a Espanha se torne um país novamente. Um magistrado do município pode mandar que um traidor seja executado por um oficial militar sem um julgamento formal. E quem ofende, numa igreja, um homem ou uma mulher da nobreza deve ser condenado por traição. Apontou para uma árvore próxima.

Podemos enforcá-lo agora mesmo e encerrar aqui esse assunto. Faça isso, ordenou dom Vicente. Deu meia-volta e se preparou para entrar em sua casa. E livre-se dessa plebe no meu portão. Pai!, gritei, quando os soldados começaram a fechar as pesadas portas de madeira da propriedade. Tentei forçar a entrada, mas eles fizeram que todos recuassem agredindo-nos violentamente com a lateral da espada. Soquei a superfície de madeira; esta não cedeu. Quando ouvi o trinco ser fechado, corri em volta do muro até encontrar um local onde houvesse um apoio para o pé. Recuei alguns passos, então me lancei contra essa parte do muro e o escalei com unhas e pés até alcançar o topo. Agora conseguia ver o pátio em baixo. Um cavalariço dos estábulos recebera ordem de apanhar uma corda, e esta foi arremessada por cima da parte superior de uma frondosa árvore. A boca do meu pai estava escancarada de terror e incredulidade. Sangue escorria dos seus lábios.

Pai! A moça puxou a manga da roupa do pai. Seu pai, o magistrado, livrou-se dela com um empurrão. Vá para dentro, mandou. Você desgraçou nossa família. Pai, choramingou a moça, angustiada. Ouça-me. Esse homem não merece morrer. Mas era tarde demais. Rapidamente fizeram um laço na corda e o colocaram em volta do pescoço do meu pai, e os soldados o içaram bem alto no galho da árvore. Alguns deles riram e gracejaram enquanto faziam isso, como se fosse um desporto ver um homem chutar o vazio e desesperadamente agarrar a garganta enquanto morria sufocado. Um soldado, porém, um homem ruivo troncudo, adiantou-se e puxou com força as pernas do meu pai para acabar com a sua agonia». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quarta-feira, 17 de março de 2021

Poesia. Vários Autores. «E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada. Que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder…, p’ra me encontrar…»

Cortesia de culturagenial

Amar. Florbela Espanca

«Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi p’ra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder…, p’ra me encontrar…»

Morrer de Amor. Maria Teresa Horta

«Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso»

Confissão. Charles Bukowski

«Esperando pela morte

como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo».

Poemas, in Cultura Genial

 

JDACT, Poesia, Cultura, A Arte, 

José Saramago. Objecto Quase. «Sobre outra superfície, a do córtice, acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto preciso da queda. É o hematoma»

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«(…) Reparem, minhas senhoras e meus senhores, nesta espécie de ponte longitudinal composta de fibras: chama-se fórnice e constitui a parte superior do tálamo óptico. Por trás dela, vêem-se duas comissuras transversais que obviamente não devem ser confundidas com as dos lábios. Observemos agora do outro lado. Atenção. Isto que sobressai aqui são os tubérculos quadrigémeos ou lobos ópticos (não sendo aula de zoologia, a acentuação nos lobos faz-se forte no primeiro o). Esta parte ampla é o cérebro anterior, e aqui temos as célebres circunvuloções. Neste sítio, em baixo, está, evidentemente, toda a gente o sabe, o cerebelo, com a sua parte interna, chamada arbor vitae, que se deve, convém esclarecer, não vá julgar-se que estamos na aula de botânica, à plicatura do tecido nervoso num certo número de lamelas que dão origem, por sua vez, a pregas secundárias. Já falámos da medula espinhal. Repare-se nisto que não é uma ponte, mas que tem o nome de ponte de Varólio, que parece mesmo uma cidade da Itália, ora digam lá que não. Atrás está a medula alongada. Falta pouco para chegarmos ao fim da descrição, não se enervem. A explicação poderia ser, naturalmente, muito mais demorada e minuciosa, mas para isso só na autópsia. Limitemo-nos portanto a indicar a glândula pituitária, que é um corpo glandular e nervoso que nasce do pavimento do tálamo ou terceiro ventrículo. E, enfim, concluindo, informamos que esta coisa aqui é o nervo óptico, questão da mais alta importância, pois com isto ninguém ousará dizer que não viu o que neste lugar se passou. E agora, a pergunta fundamental: para que serve o cérebro, vulgo miolos? Serve para tudo porque serve para pensar. Mas, atenção, não vamos nós cair agora na superstição comum de que tudo quanto enche o crânio está relacionado com o pensamento e os sentidos. Imperdoável engano, senhoras e senhores. A maior parte desta massa contida no crânio não tem nada que ver com o pensamento, não risca nada para aí. Só uma casca muito fina de substância nervosa, chamada córtice, com cerca de três milímetros de espessura, e que cobre a parte anterior do cérebro, constitui o órgão da consciência. Repare-se, por favor, na perturbadora semelhança que há entre o que chamaremos um microcosmo e o que chamaremos um macrocosmo, entre os três milímetros de córtice que nos permitem pensar e os poucos quilómetros de atmosfera que nos permitem respirar, insignificantes uns e outros e todos, por sua vez, em comparação nem sequer com o tamanho da galáxia, mas com o simples diâmetro da terra. Pasmemos, irmãos, e oremos ao Senhor.

O corpo ainda aqui está, e estaria por todo o tempo que quiséssemos. Aqui, na cabeça, neste sítio onde o cabelo aparece despenteado, é que foi a pancada. À vista, não tem importância. Uma ligeiríssima equimose, como de unha impaciente, que a raiz do cabelo quase esconde, não parece que por aqui a morte possa entrar. Em verdade, já lá está dentro. Que é isto? Iremos nós apiedar-nos do inimigo vencido? É a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? O velho abriu agora os olhos e não consegue reconhecer-nos, o que só a ele espanta, mas a nós não, que nos não conhece. Treme-lhe o queixo, quer falar, inquieta-se como ali chegámos, julga-nos autores do atentado. Nada dirá. Pelo canto da boca entreaberta corre-lhe para o queixo um fio de saliva. Que faria a irmã Lúcia neste caso, que faria se aqui estivesse, de joelhos, envolta no seu triplo cheiro de bafio, saias e incenso? Enxugaria reverente a saliva, ou, mais reverente ainda, se inclinaria toda para diante, prosternada, e com a língua apararia a santa secreção, a relíquia, para guardar numa ampola? Não o dirá a história sacra, não o dirá, sabemos, a profana, nem Eva doméstica reparará, coração aflito, na injúria que o velho pratica. Embargo babando sobre o velho.

Já se ouvem passos no corredor, mas temos ainda tempo. A equimose tornou-se mais escura e o cabelo parece arrepiado sobre ela. Uma passagem carinhosa de pente poderia compôr tudo nesta superfície que vemos. Mas seria inútil. Sobre outra superfície, a do córtice, acumula-se o sangue derramado pelos vasos que a pancada seccionou naquele ponto preciso da queda. É o hematoma.

É lá que neste momento se encontra o Anobium, preparado para o segundo turno. Buck Jones limpou o revólver e mete novas balas no tambor. Já aí vêm buscar o velho. Aquele raspar de unhas, aquele choro, é das hienas, não há ninguém que não saiba. Vamos até à janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.

Embargo

Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher se esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse voltar a adormecer já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com o lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro dos seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a ideia do casulo morno que era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos esquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

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terça-feira, 16 de março de 2021

Manuel Joaquim Amador Coelho (1945-2021). Maria Teixeira «… no ano lectivo de 1990/91, inicia a sua actividade universitária, como Assistente , tendo sido provido em 1993 a Professor Auxiliar Convidado, de Relações Internacionais…»

Singela homenagem a um grande amigo

Cortesia de D.R. e NCV

Com a devida vénia ao Notícias de Castelo de Vide

Memórias de um percurso profissional e de vida

«Manuel Joaquim Amador Coelho, natural de Castelo de Vide, estudou Ciências Sociais e Políticas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, obteve o grau de Bacharel em História (3 anos) e de Licenciado em História Contemporânea (5 anos) pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

Auditor de Defesa Nacional, com o respectivo curso para Altos Funcionários do Instituto de Defesa Nacional (CDN 97/98), tendo ainda o Curso de Doutoramento em Relações Internacionais da Universidade Lusíada de Lisboa. Foi oficial do quadro de complemento da Força Aérea Portuguesa, tendo feito comissão de serviço em Moçambique. Foi Secretário-Geral do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa (1976/1979). Foi Alto Funcionário e Quadro Dirigente dos Serviços de Cooperação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo ingressado na carreira técnico-superior em 1980.

Nos anos de 1980, 1981 e 1982 foi Adjunto do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros no VI, VII e VIII Governos Constitucionais, tendo assessorado em matéria de assuntos africanos o próprio gabinete do ministro. Nos vinte anos seguintes, ao serviço do MNE participou em Comissões Mistas com todos os países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, Brasil e Timor, participou em numerosas reuniões bilaterais com países em desenvolvimento e integrou com regularidade delegações nacionais múltiplas em diversas reuniões no âmbito das Nações Unidas (em especial nas sessões da Primavera e do Outono), União Europeia, Banco Mundial, Organização da Cooperação para o Desenvolvimento Económico, Comunidade de Países de Língua Portuguesa e Cimeiras Ibero-Americanas.

Participou no Seminário sobre Relações entre Portugal e os Países de Língua Oficial Portuguesa, realizado na Fundação Gulbenkian pelo Instituto de Ciências Sociais, em 1985, tendo proferido a comunicação A Cooperação Económica do EstadoFoi conferencista aquando da deslocação da delegação portuguesa a Viena de Áustria para o XI Congresso do Centro Europeu da Empresa Pública, 1987, tendo proferido intervenção subordinada ao tema Portugal – CEE - África LusófonaFoi conferencista no Instituto de Altos Estudos da Força Aérea, onde apresentou a comunicação Panorâmica da Cooperação Portuguesa, 1988. A partir dos anos noventa passa a assumir a chefia dos serviços multilaterais da Cooperação com especial incidência nas áreas que relevam à C.P.L.P. e Cimeiras Ibero-Americanas.

Simultaneamente às funções desempenhadas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no ano lectivo de 1990/91, inicia a sua actividade universitária, como Assistente , tendo sido provido em 1993 a Professor Auxiliar Convidado, de Relações Internacionais e de Estudos do Desenvolvimento da Universidade Moderna de Lisboa, ministrando a cadeira de Cooperação Internacional e o Seminário do 4.º ano sobre Portugal na Geopolítica do Desenvolvimento, ao 3.º e 4.º ano da licenciatura em Gestão do Desenvolvimento e Cooperação Internacional, tendo mais tarde passado a leccionar as cadeiras de História Económica e Social e História Contemporânea respectivamente das licenciaturas de  Gestão e Estudos Europeus e Internacionais.

Entre 1992/93 e 2001/02 exerce também funções como coordenador e orientador de Estágios Curriculares de Licenciatura e, na qualidade de docente do Departamento de Ciências Sociais e Políticas, integra a partir de 1998 o Conselho Pedagógico da Universidade, tendo sido seu Vice-Presidente até 2008. Foi Presidente do Centro Internacional Cooperação para o Desenvolvimento (ONGD). Foi Sócio Efectivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, tendo integrado a sua Comissão de Relações Internacionais.

Foi agraciado com a Cruz de Mérito da Ordem pró Mérito Melitensi, da Ordem Soberana e Militar de Malta. Recebeu ainda dois louvores do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros pelas funções desempenhadas durante o VII e VIII Governos Constitucionais. Ao longo da sua vida profissional publicou vários ensaios e artigos no jornal África, na revista Democracia e Liberdade, na revista África Lusófona, no semanário Tempo, nas publicações da Fundação Calouste Gulbenkian e do Instituto de Defesa Nacional» In Maria Teixeira

Cortesia de Maria Teixeira/NCdeVide/D.R.

Maria Teixeira, Alexandre Cordeiro, Castelo de Vide, Manuel Joaquim Amador Coelho, Cultura e Conhecimento, JDACT,

Objecto Quase. José Saramago. «E em pontos de prudência perca-se ao menos a suficiente para acompanhar, com a devida atenção, o movimento do ponteiro que passeia sobre este corte do cérebro»

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«(…) Quanto agora se passe, é pelo lado de dentro. Antes se diga, porém, que o corpo voltou a cair, e a cadeira acompanhante, de que não mais se falará ou apenas por alusão. É indiferente que a velocidade do som iguale subitamente a velocidade da luz, O que tinha de acontecer, aconteceu. Eva pode acorrer ansiosa, murmurando orações como nunca se esquece de fazer nas ocasiões adequadas, ou desta vez não, se é verdade os cataclismos privarem de voz, embora não de grito, as suas vítimas. Por isso Eva doméstica, buraco de martírio, se ajoelha e faz perguntas, agora faz, porque o cataclismo já lá vai, já passou, e restam os efeitos. Não tarda que de todos os lados venham subindo os Cains, se não é injusto afinal chamar-lhes assim. Dar-lhes o nome de um infeliz homem de quem o Senhor desviou a sua face, e por isso humanamente tirou vingança de um irmão lambe-botas e intriguista. Também lhes não chamaremos abutres, ainda que se movam assim, ou não, ou sim: mais exacto, do duplo ponto de vista morfológico e caracterológico, seria incluí-los no capítulo das hienas, e esta é uma grande descoberta. Com a ressalva importante de que as hienas, tal como os abutres, são úteis animais que limpam de carne morta as paisagens dos vivos e por isso lhes haveremos de agradecer, ao passo que estes são, ao mesmo tempo a hiena e a sua própria carne morta, e esta é que é afinal a grande descoberta que foi dita. O perpetuum mobile, ao contrário do que continuam a imaginar os inventores ingénuos de domingo, os iluminados taumaturgos do carpinteirismo, não é mecânico. É sim biológico, é esta hiena que se alimenta do seu corpo morto e putrefacto e assim constantemente se reconstitui em morte e putrefacção. Para interromper o ciclo, nem tudo basta, mas a mínima coisa abundaria. Algumas vezes, se Buck Jones não estava ausente do outro lado da montanha a perseguir uns simples e honestos ladrões de gado, uma cadeira serviria, e um sólido ponto de apoio no espaço para levantar o mundo, como disse Arquimedes a Híeron de Siracusa, e para romper os vasos sanguíneos que os ossos do crânio, julgavam proteger, e em sentido próprio se escreve julgavam porque mal parecia que ossos tão vizinhos do cérebro não fossem capazes de realizar, pelas vias de osmose ou simbiose, uma operação mental tão ao alcance como é o simples julgar. E ainda assim, se interrompido esse ciclo, haverá que estar atentos ao que no ponto de ruptura dele pode enxertar-se, e poderá ser, aí não por enxerto, uma outra hiena nascendo do flanco purulento, como Mercúrio da coxa de Júpiter, se comparações destas, mitológicas, são consentidas. Esta porém seria outra história, quem sabe se já contada.

Eva doméstica saiu daqui a correr, e também a gritar e a dizer palavras que não vale a pena registar, tão iguais são, que pouca diferença fazem, salvo no estilo medieval não tanto, àquelas que disse Leonor Teles quando lhe mataram o Andeiro, e mais era rainha. Este velho não está morto Desmaiou apenas, e nós podemos sentar-nos no chão, de pernas cruzadas, sem nenhuma pressa, porque um segundo é um século, e antes que aí cheguem os médicos e os maqueiros, e as hienas de calça de lista, chorando, uma eternidade se passará. Observemos bem. Pálido, mas não frio O coração bate, o pulso está firme, parece o velho que dorme, e querem ver que tudo isto foi afinal um grande equívoco, uma monstruosa maquinação para separar o bem do mal, o trigo do joio, os amigos dos inimigos, os que estão a favor apartados dos que estão contra, posto o que Buck Jones teria sido, em toda esta história de cadeira um reles e nojento provocador Calma, portugueses, escutai e tende paciência. Como sabeis, o crânio é uma caixa óssea que contém o cérebro, o qual vem a ser, por sua vez, conforme podemos apreciar neste mapa anatómico a cores naturais, nem mais nem menos que a parte superior da espinhal medula. Esta, que ao longo do dorso vinha de apertada, tendo encontrado espaço ali, desabrochou como uma flor de inteligência.

Repare-se que não é gratuita nem despicienda a comparação. É grande a variedade de flores, e para o caso bastará lembrarmos, ou lembre cada um de nós aquela de que mais goste, e no ponto extremo, verbi gratia, aquela com que mais antipatize, uma flor carnívora, de gustibus et coloribus non disputandum, suposto que concordemos na detestação do que a si mesmo se desnatura, ainda que, por exigência daquele rigor mínimo que sempre deve acompanhar a quem ensina e a quem aprende, nos devêssemos interrogar sobre a justiça da acusação, e embora, outra vez para que nada fique esquecido, devamos interrogar-nos sobre o direito que uma planta tenha de se alimentar duas vezes, primeiro da terra e logo do que no ar voa na múltipla forma dos insectos, senão das aves. Reparemos, de caminho, quanto é fácil paralisar-se o juízo, receber de um lado e do outro informações, tomá-las pelo que dizem ser e ficar neutral, porque nos declaramos espírito indiviso e sacrificamos todos os dias no altar da prudência, nossa melhor fornicação. Porém não fomos neutrais enquanto assistimos a esta longa queda. E em pontos de prudência perca-se ao menos a suficiente para acompanhar, com a devida atenção, o movimento do ponteiro que passeia sobre este corte do cérebro». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Política, Cultura, Nobel, MLCT,

segunda-feira, 15 de março de 2021

Objecto Quase. José Saramago. « Com os olhos deslumbrados, voltamos para dentro e é como se não estivesses: trouxemos demasiada luz para dentro do quarto e temos de esperar que ela se habitue ou volte lá para fora»

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«(…) Tempo de mais te demoras na cozinha, ou ao telefone atendendo as filhas de Maria ou as escravas do Sagrado Coração ou as pupilas de Santa Zita, muita água desperdiças na rega das begónias envasadas, muito te distrais, abelha-mestra que não acodes, e se acudisses a quem acudirias? É tarde. Os santos estão de costas, assobiam, fingem-se distraídos, porque sabem muito bem que não há milagres, que nunca os houve, e quando alguma coisa de extraordinário se passou no mundo, a sorte deles foi estarem presentes e aproveitarem. Nem S. José, que no seu tempo foi carpinteiro, e melhor carpinteiro que santo, seria capaz de colar aquela perna da cadeira a tempo de evitar a queda, antes de este novo campeão da ginástica portuguesa dar o seu salto mortal, e Eva doméstica e governanta aparta agora os três frasquinhos de pílulas e gotas que o velho tomará, uma de cada vez, antes, durante e depois da próxima refeição.

O velho vê o tecto. Vê apenas, não tem tempo de olhar. Agita os braços e as pernas como um cágado virado de barriga para o ar, e logo a seguir é muito mais um seminarista de botas a masturbar-se quando vai de férias a casa dos senhores pais que andam na eira. É só isso, e nada mais. Suave terra, e bruta, e simples, para pisar e depois dizer que tudo são pedras, e que nascemos pobres e pobres felizmente morreremos, e por isso estamos na graça do Senhor. Cai, velho, cai. Repara que neste momento tens os pés mais altos do que a cabeça. Antes de dares o teu salto mortal, medalha olímpica, farás o pino como o não foi capaz de fazer aquele rapaz na praia, que tentava e caía, só com um braço porque o outro lhe tinha ficado em África. Cah

Porém, não tenhas pressa: ainda há muito sol no céu. Podemos mesmo, nós que assistimos, chegar a uma janela e olhar para fora, descansadamente, e daqui ter uma grande visão de cidades e aldeias, de rios e planícies, de serras e searas, e dizer ao diabo tentador que precisamente é este o mundo que queremos, pois não é mal desejar alguém o que é seu próprio. Com os olhos deslumbrados, voltamos para dentro e é como se não estivesses: trouxemos demasiada luz para dentro do quarto e temos de esperar que ela se habitue ou volte lá para fora. Estás enfim mais perto do chão. Já o pé são e o pé mocho da cadeira resvalaram para a frente, todo o equilíbrio se perdeu. Distinguem-se os prenúncios da verdadeira queda, o ar deforma-se em redor, os objectos encolhem-se de susto, vão ser agredidos, e todo o corpo é um retorcimento crispado, uma espécie de gato reumático, por isso incapaz de dar no ar a última volta que o salvaria, com as quatro patas no chão e um baque macio, de bicho vivíssimo. Mal colocada se vê quanto esta cadeira foi, sobre o mau que já era, mas não sabido, de ter o Anobium dentro de si: pior, realmente, ou tão mau é aquela aresta, ou bico, ou canto de móvel que estende o seu punho fechado para um ponto no espaço, por enquanto ainda livre, ainda desafogado e inocente, onde o arco de círculo feito pela cabeça do velho irá interromper-se e ressaltar, mudar por um instante de direcção e depois voltar a cair, para baixo, para fundo, inexoravelmente puxado por esse duende que está no centro da terra com biliões de cordelinhos na mão, para baixo e para cima, fazendo em baixo o mesmo que cá em cima fazem os homens das marionetas, até ao último puxão mais forte que nos retira da cena. Não será para o velho ainda esse tempo, mas é evidente que cai para tornar a cair outra vez e última. E agora que espaço há, que espaço resta entre o canto do móvel, o punho, a lança em África, e o lado mais frágil da cabeça, o osso predestinado?

Podemos medir e ficaremos espantados com o pouquíssimo espaço que falta percorrer, repare-se, não cabe um dedo, nem tal, muito menos do que isso, uma unha, uma lâmina de barbear, um cabelo, um simples fio de bicho-da-seda ou de aranha Tempo ainda resta algum, mas o espaço vai acabar-se. A aranha expeliu mesmo agora o seu último filamento, remata o casulo, a mosca já está fechada.

É curioso este som Claro, de uma certa maneira claro, para não deixar dúvidas às testemunhas que somos, mas abafado, surdo, discreto, para que não acudam cedo de mais Eva doméstica e os Caims, para que tudo se passe entre o só e o sozinho, como convém a tanta grandeza A cabeça, como estava previsto e cumpre as leis da física, bateu e ressaltou um pouco, digamos, uma vez que estamos perto e outras medições tinhamos acabado de fazer, dois centímetros para cima e para o lado Daqui para diante, a cadeira já não importa Não importaria sequer o resto da queda, agora pleonástica. O projecto de Buck Jones incluía, já foi dito, uma trajectória, previa um ponto. Aí está». In José Saramago, Objecto Quase, 1978, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-004-655-0.

Cortesia de PortoE/JDACT

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domingo, 14 de março de 2021

As Espias do Dia D. Ken Follett. «A mulher exibia uma expressão de afronta, como se soubesse que era mentalmente chamada de vadia por todos os pobretões que passavam por ela a caminho da missa»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«(…) No entanto, outra informação martelava na cabeça de Flick, roubando-lhe a paz. Antoinette, ao saber das estimativas do MI6, comentara: eu diria que são mais de doze. A mulher não era nenhuma tola: tinha sido secretária de Joseph Laperrière, um grande produtor de champanhe, e só fora dispensada e substituída pela esposa do homem em razão dos prejuízos trazidos pela ocupação. Poderia estar certa. Michel não fora capaz de tirar a limpo o conflito entre as informações do MI6 e as de Antoinette. Morava em Reims, não tinha nenhuma familiaridade com Sainte-Cécile. Nem ele nem os demais do grupo. Além disso, não houvera tempo suficiente para que se fizesse uma operação de reconhecimento. Por isso Flick se afligia tanto: se os resistentes estivessem em menor número, dificilmente teriam chance contra a disciplina dos soldados alemães. Ela agora corria os olhos pela praça, tentando localizar as pessoas que conhecia, observando cidadãos inocentes dando um passeio, mas que na verdade esperavam para matar ou serem mortos. Diante da vitrine do armarinho, admirando uma peça de tecido verde sem graça, estava Geneviève, uma moça alta de 20 anos com uma Sten escondida sob o casaco leve de verão. A Sten era a submetralhadora preferida dos resistentes, uma vez que podia ser desmontada em três partes e transportada numa bolsa pequena. Geneviève talvez fosse a jovem para quem Michel vinha arrastando asa; mesmo assim, Flick sentiu um arrepio de horror ao pensar que dali a alguns minutos a francesa poderia estar crivada de balas.

Atravessando os paralelepípedos da praça, indo para a igreja, estava Bertrand, de 17 anos. O louro com expressão impaciente levava uma Colt automática calibre 45 escondida no jornal sob o braço. Os Aliados haviam jogado milhares de Colts em paraquedas. Num primeiro momento, Flick deixara Bertrand fora da operação por conta da pouca idade, mas o garoto implorara por participar, e ela, sabendo que precisava de toda a ajuda disponível, acabara cedendo. Só rezava para que tamanha coragem não virasse pó assim que a confusão começasse. Vagando pelo átrio da igreja, aparentemente terminando seu cigarro antes de entrar, estava Albert. A mulher dele tinha dado à luz uma menina naquela mesma manhã, o primeiro filho do casal. Por isso, Albert tinha um motivo a mais para permanecer vivo. Levava consigo uma sacola de pano que parecia repleta de batatas, mas que guardava, na realidade, granadas Mills M36.A paisagem na praça seria a mesma de sempre, não fosse por um único detalhe. Ao lado da igreja havia um carro desportivo enorme e visivelmente poderoso, um Hispano-Suiza 68 Bis de fabricação francesa. Turbinado com um motor de doze cilindros, era um dos carros mais velozes do mundo. A grade frontal prateada se destacava, arrogante, do chassi azul-celeste, encimada pela cegonha que era o símbolo da montadora.

Fazia meia hora que aquele carro chegara. O motorista, um homem bonito que já devia andar pelos 40 anos de idade, trajava um paletó elegante. O dono do carro só poderia ser um oficial alemão: quem mais teria a coragem de ostentar um automóvel daqueles? A companheira dele, uma ruiva alta e belíssima, com vestido de seda verde e sapatos de camurça de saltos muito altos, exibia uma elegância tão impecável que tinha de ser francesa. O homem havia armado sua câmera sobre um tripé e agora tirava fotos do castelo. A mulher exibia uma expressão de afronta, como se soubesse que era mentalmente chamada de vadia por todos os pobretões que passavam por ela a caminho da missa». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Ken Follett, Literatura, II Guerra Mundial,

Ken Follett. As Espias do Dia D. «A célula Bollinger havia conseguido arregimentar quinze pessoas para o ataque. Agora, com as armas escondidas sob a roupa ou no interior de bolsas e sacolas, elas se misturavam aos grupos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

28 de Maio de 1944

«(…) Sem reflectir muito, ela respondera que sim. Todos os rapazes com quem estudara em Oxford vinham arriscando a vida na guerra. Que motivos teria para não fazer o mesmo? Dois dias após o Natal de 1941, ela começara o seu treino na Executiva de Operações Especiais. Dentro de seis meses, dada a escassez de rádios e a enorme dificuldade de se encontrar operadores habilitados a usá-los, Flick já levava mensagens da matriz da Executiva em Londres, que ficava no número 64 da Baker Street, para os grupos de resistência na França ocupada. Ela saltava de paraquedas, transitava com documentos falsos, contatava a Resistência, repassava ordens, depois anotava respostas, reclamações e solicitações de armas e munição. Para a viagem de volta, era recolhida por um avião, geralmente um Westland Lysander de três lugares, pequeno o bastante para aterrar em qualquer ponto onde houvesse quinhentos metros de relva baixa.

Do trabalho como mensageira, ela passara à organização de manobras de sabotagem. Os agentes da Executiva de Operações Especiais eram quase todos oficiais do Exército e, teoricamente, a Resistência era o seu destacamento. Contudo, na prática a Resistência não se curvava à disciplina militar e, para conquistar o apoio dos seus integrantes, o oficial precisava ter conhecimento, voz activa e pulso firme. O trabalho era perigoso. Seis homens e duas mulheres haviam concluído o curso de treino junto com Flick. Dois anos depois, ela era a única ainda no activo. Não restava dúvida de que duas pessoas do grupo estavam mortas: uma sofrera um acidente de paraquedas e outra fora assassinada pela Milícia francesa, a odiosa força paramilitar que os alemães ajudaram a criar para combater a Resistência. As outras seis tinham sido capturadas, interrogadas e torturadas, depois levadas para os campos de prisioneiros na Alemanha, de onde nunca haviam saído. Flick sobrevivera porque era guerreira, pensava rápido e beirava a paranóia no cuidado que tinha com os procedimentos de segurança.

A seu lado estava Michel, seu marido, líder de uma célula da Resistência francesa que havia recebido o codinome de Bollinger e tinha como base de operações a cidade de Reims, famosa por sua catedral e situada a uns 15 quilómetros de Sainte-Cécile. Embora estivesse prestes a arriscar a vida, Michel se recostava despreocupado na cadeira, com o tornozelo direito apoiado no joelho esquerdo, empunhando um copo grande com a cerveja rala e sem cor dos tempos de guerra. Seu sorriso fácil conquistara o coração de Flick quando ela ainda estava na Sorbonne, escrevendo a sua tese sobre a ética de Molière, que seria obrigada a abandonar com a eclosão da guerra. À época ele era um jovem professor de filosofia que tinha aparência desleixada e um séquito de admiradores entre os alunos.

Michel ainda era o homem mais sexy que ela já conhecera. Alto, vestia-se de um modo ao mesmo tempo elegante e displicente, com os casacos sempre amarfanhados e as camisas azuis desbotadas. Os cabelos eram um pouco mais compridos do que deveriam ser. A voz sensual era um convite para a cama e os olhos azuis, quando focavam uma mulher, faziam com que ela se sentisse a única no mundo inteiro. Para Flick, aquela missão fora uma óptima oportunidade para passar alguns dias na companhia do marido, mas nem tudo tinham sido flores. Não que eles houvessem brigado, mas Michel dava a impressão de que já não sentia o mesmo afecto de antes, de que apenas seguia os protocolos do casamento, e isso a magoava. A intuição lhe dizia que ele andava interessado em outra mulher. Michel tinha apenas 35 anos, e o seu charme desleixado exercia algum fascínio sobre as mais jovens. Não ajudava em nada o facto de que, por causa da guerra, eles haviam passado mais tempo afastados do que juntos desde que se casaram. Não faltavam francesinhas, tanto na Resistência quanto fora dela, que se dispunham a consolá-lo.

Flick ainda amava Michel. Mas de outro jeito. Não tinha por ele aquela mesma adoração cega da lua de mel, tampouco pretendia passar uma vida inteira dedicando-se exclusivamente à felicidade dele. A neblina matinal do amor romântico já se dissipara e agora, sob a luz implacável da vida matrimonial, ela podia ver que Michel era um homem vaidoso, egocêntrico e pouco confiável. No entanto, quando se dispunha a colocá-la no centro das suas atenções, ainda era capaz de fazê-la sentir-se uma mulher bonita, desejada e especial. Os encantos de Michel também funcionavam sobre os homens, e ele era um excelente líder, corajoso e carismático. Ele e Flick haviam traçado juntos o plano de acção daquela noite: atacariam o castelo em duas frentes distintas, dividindo as defesas, depois se reencontrariam no interior da construção e desceriam ao porão para explodir os equipamentos principais da central telefónica.

Eles dispunham da planta baixa do prédio, presente de Antoinette Dupert, supervisora do grupo de mulheres locais que limpava o castelo todas as noites. Por coincidência, Antoinette era também tia de Michel. A limpeza começava às sete, mesma hora da missa, e Flick já avistava algumas mulheres apresentando seus passes especiais ao guarda junto ao portão de ferro. A planta fornecida por Antoinette indicava apenas a entrada do porão, pois o lugar era de acesso exclusivo a alemães e a limpeza era feita por soldados. O plano de ataque de Michel tinha por base os relatos do MI6, o serviço secreto britânico, segundo os quais o castelo era protegido por um destacamento da Waffen SS, a tropa de elite nazista, que operava em três turnos de doze homens cada. Os funcionários da Gestapo que trabalhavam ali não eram treinados para combate; a maioria sequer estaria armada. A célula Bollinger havia conseguido arregimentar quinze pessoas para o ataque. Agora, com as armas escondidas sob a roupa ou no interior de bolsas e sacolas, elas se misturavam aos grupos que aguardavam a missa na igreja e aos que passeavam tranquilamente na praça. Se as informações do MI6 estivessem correctas, haveria mais representantes da Resistência do que sentinelas alemãs na hora do ataque». In Ken Follett, As Espias do Dia D, 2001, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978- 858-041-410-3.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

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