segunda-feira, 13 de junho de 2022

O Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «… quem viu retirar de suas Histórias e Anais todos os capítulos que tratavam sobre os acontecimentos da Palestina daquela mesma época»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) É perfeitamente evidente que os autores antigos que viveram antes de Jesus, e por conseguinte que o ignoraram, ou que simplesmente compuseram peças de teatro, não tinham necessidade alguma de ser censurados ou interpolados. Não acontecia o mesmo no caso de historiadores como Flavio Josefo, Tácito ou Suetónio, e, sob este critério, nem sequer um cronista satírico como era Petrónio escapou ao zelo dos monges copistas. Em efeito, seu célebre Satiricen não contém, nas cópias manuscritas que chegaram até nós, mais que 250 páginas, das 3.000 que compunham, como sabemos por outras fontes, as cópias primitivas do manuscrito original. É, portanto, seguro que esse inventário da dolce vita sob o império de Nero não era tão somente isso, e que Petrónio foi censurado sem piedade, tal qual Tácito, quem viu retirar de suas Histórias e Anais todos os capítulos que tratavam sobre os acontecimentos da Palestina daquela mesma época.

Quanto à autenticidade absoluta dos Evangelhos canónicos, nos limitaremos a citar as palavras do abade Bergier no seu Dictionnaire de Théologie. Os homens verdadeiramente sábios em matéria de exegese, e sobretudo sinceros, reconhecem que o texto do Novo Testamento não se remonta a antes do sexto século.

Os Manuscritos dos Evangelhos Canónicos

Codex Sinaiticus: Data: século IV. Contém quase todo o Antigo Testamento, o Novo Testamento, a Carta de Barnabé, o Pastor do Hermas (parcialmente). Descoberto em 1844 pelo Tischendorf, no mosteiro da Santa Catalina, no monte Sinai. Encontra-se actualmente no Museu Britânico de Londres. Codex Vaticanos: Data: século IV. Contém o Antigo Testamento (salvo umas cinquenta páginas, perdidas), e o Novo Testamento até à Epístola aos Hebreus. Muito má ortografia. Entrou no Vaticano entre 1475 e 1481. Codex Alexandrinus: Data: século V. Contém o Antigo Testamento, e o Novo Testamento a partir de Mateus. Texto menos bom que o precedente, especialmente nos Evangelhos. Encontra-se no Museu Britânico de Londres.

Codex Ephraemi Rescriptas: Data: século V. Palimpsesto. O texto bíblico foi recoberto, no século XII, por uma versão grega de tratados de são Efrén. É de origem egípcia, e foi levado à Paris por Catarina de Médicis. Conserva-se ali na Biblioteca Nacional. Codex Bezae, ou Codex Cantabrigiensis: Data: séculos V ou VI. Compreende, com algumas lacunas, os quatro Evangelhos e os Actos. Manuscrito bilíngue, greco-latino. Encontrava-se do século IX em Lyon. Teodoro de Béze o cedeu em 1581 à Universidade de Cambridge, onde se encontra actualmente. Codex Freer: Data: século V. Contém os quatro Evangelhos, com algumas lacunas. Compreende um acréscimo depois de Marcos. Foi comprado em 1906 pelo Freer a um mercador árabe. Encontra-se actualmente em Washington». In Robert Ambelain, O Segredo Mortal dos Templários, Jesus ou le mortel secret des Templiers, 1970, Éditions Robert Laffont, Paris, Ediciones Martinez Roca, 1982, Barcelona, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de Roca/JDACT

Templários, Conhecimento, Europa, JDACT, Robert Ambelain, Literatura, 

O Segredo Mortal dos Templários. Robert Ambelain. «É habitual cantar os louvores dos monges copistas, esses bons e excelentes padres que, nos mosteiros da Idade Média, recolheram e copiaram os manuscritos…»

jdact e cortesia de wikipedia

«(…) Sem dúvida tratava-se de um baptismo de água recebido no seio da Igreja católica, mas não recebia nenhum outro em substituição daquele. Partindo de todas estas constatações, parece-nos muito difícil seguir sustentando que o catarismo era apenas uma forma primitiva do cristianismo. Mas bem ao contrário, tratava-se em realidade de uma religião de forma absolutamente maniqueia, que não dissimulava seu rechaço do Jesus clássico da História e sua incredulidade total quanto a sua Encarnação, sua Paixão, sua Ressurreição e sua Ascensão se refere. O que ficava então do cristianismo? Nada, evidentemente. Este foi o caminho que seguiram, por sua vez, os Templários; menos de setenta anos separam a fogueira de Montségur de La Citè, e foi a mesma manopla de ferro que amordaçou a Verdade. Porque: As armas foram, em todo o tempo, os instrumentos da barbárie. Asseguraram o triunfo da matéria, e da mais pesada, sobre o espírito. Removeram, no fundo dos corações, o lado dos piores instintos.

As narrações escritas sobre pergaminhos são destruídas por aqueles que querem manter a ignorância, mas as palavras caem nas almas como pombas vindas de longe que, apenas pousam, partem de novo. E esta é uma forma de justiça... In Maurice Magre, Le Sang de Toulouse

Vamos dar a seguir os dados sucintos dos manuscritos mais antigos de uma biblioteca básica do cristianismo. A sua leitura, o leitor poderá convencer-se daquilo que afirmamos ao longo desta obra, ou seja, que os documentos reais (e não aqueles citados como desaparecidos!) não são jamais anteriores ao século IV. Mencionamos os Evangelhos apócrifos a seguir os Evangelhos canónicos, dado que seu maior interesse radica no facto de nos dar um reflexo do cristianismo popular das origens [...]. Constituem o complemento dessas crónicas dos primeiros tempos que são as grandes Epístolas paulinas e os Actos dos Apóstolos. [...] De um ponto de vista mais estrito, os apócrifos contribuem alguns detalhes históricos que podem não ser nada desprezíveis.

Os Manuscritos dos Autores Pagãos

É habitual cantar os louvores dos monges copistas, esses bons e excelentes padres que, nos mosteiros da Idade Média, recolheram e copiaram os manuscritos dos autores gregos e latinos. O que se omite é o que se fez dos originais. De facto, essa tarefa respondia a uma necessidade urgente: tratava-se de fazer desaparecer todo o rasto de um Jesus chefe de uma facção política, facção que frequentemente, por necessidade vital, tinha derivado ao banditismo, e cujos actos, durante mais de trinta anos, não tiveram nada de evangélicos. E também de fazer desaparecer a opinião dos autores latinos sobre o tal Jesus, assim como a dos judeus aprazíveis, opiniões que também tinham algo a dizer a respeito.

De modo que nos encontramos frente a um balanço bastante decepcionante quanto aos manuscritos dos autores antigos se refere. Os manuscritos mais antigos de Flavio Josefo são dos séculos IX e XII, e unicamente o segundo possui a famosa passagem sobre Jesus, passagem que todos os exegetas católicos sérios reconhecem como uma áspera interpolação. Sobre sua Guerra judia, às vezes intitulada Tomada de Jerusalém ou Guerras da Judeia, o texto eslavo é diferente do texto grego, e as interpolações também são diferentes. Quanto a Tácito, os manuscritos de suas Histórias e Anais são dos séculos IX e XI. E falta, precisamente, tudo aquilo que se refere aos anos cruciais do nascente cristianismo, todo o período dos 28 aos 34. Aí, uma vez mais, abundam as censuras e interpolações, às vezes de forma tão torpe que o leitor perspicaz, sem nenhuma preparação prévia, pode jogar ao exegeta e as descobrir por si mesmo. Daniel-Rops, sem querer, e ingenuamente, proporciona-nos a chave desses mistérios. Em Jesus no seu tempo nos diz o seguinte: Tome-se nota desta data: século IV. Os textos do Novo Testamento datam, em geral, do período 50-100, portanto se intercalam três séculos entre sua redação e os primeiros manuscritos completos que possuímos. Isto pode parecer exagerado, mas não é nada, devemos sublinhá-lo, ao lado do espaço de tempo que existe, em todos os clássicos da antiguidade, entre o autógrafo desconhecido e a mais antiga cópia conhecida: mil e quatrocentos anos no caso das tragédias do Sófocles, assim como nas obras de Ésquilo, Aristófanes e Tucídides; mil e seiscentos anos nas de Eurípides e Catulo, mil e trezentos anos nas de Platão, mil e duzentos nas de Demóstenes. Terêncio e Virgílio resultaram favorecidos, já que neles a demora não foi, no primeiro, mas sim de sete séculos, e de quatro no segundo». In Robert Ambelain, O Segredo Mortal dos Templários, Jesus ou le mortel secret des Templiers, 1970, Éditions Robert Laffont, Paris, Ediciones Martinez Roca, 1982, Barcelona, ISBN 842-700-727-2.

Cortesia de Roca/JDACT

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sábado, 11 de junho de 2022

Construindo uma Imagem imperial em Bizâncio. Narrativa sobre a basílica de Santa Sofia em Das Construções, de Procópio de Cesareia, século VI. Ana Maria Oliveira. «… procuramos observar a função que Santa Sofia já exercia anteriormente nesta relação, de demonstrar a junção destes dois poderes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O presente trabalho lança um olhar sobre os relatos da reconstrução da basílica de Santa Sofia, contidos no Livro I da obra Das Construções, que foram escritos por Procópio de Cesareia, no século VI, a pedido do Imperador Justiniano. Nos dispomos, assim, a compreender como as narrativas são usadas a favor do poder imperial, à medida que a descrição criou uma imagem historiográfica de Justiniano, a qual, por conseguinte, consolidou e fortaleceu seu governo. Para tanto, no primeiro capítulo buscamos compreender o autor e seu trabalho, apresentando alguns caminhos que levam a reflexões sobre Procópio de Cesareia e seu livro, Das Construções. No segundo capítulo, pensamos como ocorreu a construção da união entre Império e Igreja, que chegou ao século VI consolidada, e então serviu como base para a representação política criada para Justiniano. Desta forma, observamos como Procópio apropriou-se ainda dessa representação para compor suas narrativas. Também neste capítulo, procuramos observar a função que Santa Sofia já exercia anteriormente nesta relação, de demonstrar a junção destes dois poderes. Isso possibilita observar a relevância histórica de uma reconstrução no século VI e, de deixar um legado escrito sobre estes acontecimentos. Assim, no terceiro capítulo, analisamos o papel histórico dos relatos sobre a basílica, ao construir uma imagem historiográfica do poder imperial, diante da forma como foi elaborado por Procópio. Foi possível, então, perceber que Justiniano e Procópio se utilizaram de heranças tradicionais a Bizâncio, sendo elas a relação com a cristandade e o espaço de religiosidade e memória presente na basílica, para consolidar o poder do governante diante não só da reconstrução de Santa Sofia, mas também através da criação de uma imagem historiográfica numa narrativa, a qual se apropriou de todos esses aspectos». In Resumo.

Procópio de Cesareia e Das Construções: Reflexões sobre o autor e a fonte

Consideramos que observar primeiramente aspectos específicos do autor e da obra é primordial para compreensão da escrita sobre a reconstrução da basílica de Santa Sofia. Para tanto, inicialmente são levantadas algumas discussões a respeito de quem foi Procópio, tendo como base uma bibliografia recente, que analisa a produção clássica, através de trabalhos de especialistas na área de História Bizantina. Desta forma, inserimos a pesquisa em discussões atuais, as quais, por sua vez, não deixam os clássicos de lado, mas sim, procuram lançar uma análise criteriosa sobre eles. Em um segundo momento, abordaremos os debates historiográficos que tem permeado nossa fonte, a obra Das Construções. Por fim, há o cuidado de observar ainda os próprios diálogos que Procópio estabelece ao início do Livro I, os quais serão o principal foco de análise ao longo da pesquisa por nele constarem as narrativas sobre a basílica.

Para compreendermos Procópio de Cesareia, há que se destacar trabalhos como os de Averil Cameron, que trazem aspectos interessantes sobre a sua vida, pois a autora articula os três escritos do historiador a alguns acontecimentos pessoais retirados especialmente da obra História Secreta. Isto se deve em grande medida pelas evidências ou fontes para compreensão da história e da carreira de escritor de Procópio serem escassas, estando na sua maioria presentes nas próprias narrativas do século VI deixadas por ele. O estudo sobre o autor também é dificultado quando tange à obtenção de informações detalhadas sobre sua cidade natal, que era a Cesareia Palestina. Cameron conta que há poucos testemunhos do século VI sobre este local, mas sabe-se que até ao século IV era um renomado centro educacional. Assim, em períodos anteriores a região era marcada pela grande circulação e diversificação de saberes, que fazem deste um espaço tradicional de educação helénica. Durante o governo de Constantino, o Grande (306-337), saíram de lá nomes como o de Eusébio, um bispo de Cesareia amplamente reconhecido pelos seus escritos sobre a História da Igreja e da Vita Constantini». In Ana Maria Oliveira, Construindo uma Imagem imperial em Bizâncio. Narrativa sobre a basílica de Santa Sofia em Das Construções, de Procópio de Cesareia, século VI, Tese de Licenciatura em História, Universidade da Fronteira Sul, Campos Chapecó, 2017, Chapecó, Wikipédia.

 Cortesia de UFFSul/Chapecó/JDACT

 JDACT, Ana Maria Oliveira, Cultura e Conhecimento, Bizâncio, Caso de Estudo, Constantinopla, O Saber,

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som…»

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A Curiosidade de Eugénia

«(…) Dois meses depois, precedida por cartas de recomendação fiáveis, chegou uma mestra disposta a experimentar o original sistema com uma criança de apenas cinco anos. A senhorita Felícia Macedo apresentou-se vestida com uma saia rodada de cor cinzenta e uma blusa pérola de gola rente ao pescoço, que deixou Maria José logo encantada porque não conseguia habituar-se à moda licenciosa de camisas tão largas e decotadas que, na maioria das vezes, ao mínimo gesto deixavam a descoberto os ombros ou a curva de um seio, como se não fosse uma parte do corpo que um pudor natural levasse qualquer mulher a ocultar.

Apresentaram a mestra à filha para que recebesse a primeira aula, e Eugénia, mesmo sem mexer um único músculo da cara, demonstrou claramente não ter ficado entusiasmada com a recém-chegada. Mas, quando esta mandou a pupila sentar-se à mesa da salinha e tirou da sacola de pano que trazia pendurada no cinto quatro baralhos de cartas, e todos os membros da família Meneses que assistiam a prudente distância soltaram um Ah!, de espanto e não resistiram a pôr-se em círculo à volta delas, Eugénia pareceu conquistada.

A Bastarda

Assim que voltou ao quarto da filha, depois de acompanhar o médico à porta, Eugénia Maria não conseguiu reprimir o seu desagrado pelo modo pouco amável como Isabel Maria o tratava em cada visita que este lhe fazia. Minha filha, nem sempre a primeira impressão que temos de alguém é a melhor. Não simpatizas com o médico, nem fazes o menor esforço para o dissimular. Desde que te auscultou pela primeira vez que desconfias dele, mas, acredites ou não, é o melhor especialista em doenças de pulmões que temos, não é em vão que as pessoas com tísica vêm à Madeira tratar-se com ele, além do clima, que é muito bom, precisas da sua ajuda. Não me ralhe. Se não confio nele é porque cada dia estou pior. Ninguém sabe o que se passa dentro do meu corpo nem se apercebe das pequenas mudanças que só eu sinto. As forças deixam-me aos poucos. Tenho medo de morrer. Isabel Maria... Com pensamentos tão pessimistas não podes lutar contra a doença. Tem fé em Deus, minha querida. Olha, a propósito de não gostares do médico, lembrei-me de uma coisa. Sabes que, no dia em que a minha mãe conheceu a senhorita Felícia, ela não lhe caiu nada bem? Achou-a demasiado alta e magra, quase seca, no seu olhar pareceu-lhe descobrir uma rigidez espartana e ficou aterrorizada só de pensar que se pudesse desvanecer como um sonho a sua tão prezada liberdade. Com o tempo percebeu que era igualmente exigente com ela como consigo própria e que os olhos que lhe tinham parecido de um brilho de lâmina eram, afinal, penetrantes para melhor lerem nas almas. Foi no momento em que a senhorita Felícia pegou no molho de cartas e começou a mexer nelas com gestos precisos de ilusionista que a tua avó se sentiu atraída por essa mulher, que acabou por ser a sua melhor amiga.

A Senhorita Felícia

O primeiro baralho possuía tantas cartas quantas letras tem o alfabeto, escritas em minúscula, e a senhorita Felícia começou a mostrar as vogais a Eugénia enquanto pronunciava o som que correspondia a cada uma delas, até a pequena aluna conseguir decorá-las. Depois tirou da bolsinha as cartas dos algarismos, desenhados com pena grossa, do 0 ao 9, fazendo o que fizera com o das letras e incitando Eugénia a colocá-las por ordem em cima da mesa. Nos dias seguintes, apresentou-lhe as consoantes em pequenos grupos para não a confundir e, quando conseguiu que as reconhecesse a todas, ensinou-a a brincar com as cartas dos dois baralhos, alinhando-as de maneira a poder ler o nome do pai, da mãe e dos irmãos todos, completando o jogo com as idades de cada um ao lado. Com o tempo, aumentou o grau de dificuldade e saíram do bolso da senhorita Felícia os últimos baralhos, o das letras maiúsculas e, no fim, o das letras de imprensa. Só quando Eugénia as soube ler sem soletrar teve direito a uma folha de papel, uma pena, um canivete e um tinteiro, que a mãe lhe ofereceu com a solenidade de quem outorgava um privilégio real porque, ainda que algumas mulheres soubessem ler, poucas eram as que aprendiam a escrever por se acreditar ser uma coisa inútil e até perigosa para o sexo feminino». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, Cristina Norton, Literatura, 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

O Segredo da Bastarda. Cristina Norton. «Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha…»

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Brasil

«(…) Enquanto os irmãos tinham aulas com o preceptor, Eugénia passeava-se com a escrava Miló, que tentava entretê-la com as canções que sabia, misturando modinhas conhecidas com outras, africanas, que cantava, acompanhando-as com o ritmo das suas mãos batendo uma na outra num movimento largo e lento dos braços. Também lhe contava histórias de panteras, bandidos e piratas, intercalando-as com algumas mais tristes, que falavam da caça aos pretos no mato africano, de viagens infindáveis atafulhados em barcos onde faltava água e comida, mas nunca as chicotadas ou os ferros com que eram acorrentados. A filha do governador ouvia atentamente, porque um tremor na voz da sua escrevinha lhe revelava que eram histórias verdadeiras, e não lendas para distrair crianças. Mesmo assim, achava as manhãs demasiado longas e, no fim de cada relato, perguntava quanto tempo faltava para que o preceptor dos irmãos se fosse embora. Ao meio-dia em ponto, já não continha a impaciência e corria, arrastando Miló atrás de si, para se juntar aos rapazes num recreio de três horas que sempre lhe parecia demasiado curto, comparado com as manhãs inteiras dos meses anteriores.

A Madrinha

Sempre me serviu o dom da ubiquidade, essa arte de me tornar leve ao ponto de me deixar conduzir por uma brisa suave, que me vinha buscar à hora marcada com uma pontualidade de andorinha; e não como os ventos fortes, que abomino, porque só sabem andar com a pressa de uma má notícia. Quase sem dar por isso, cheguei ao Brasil, onde tinha várias afilhadas a quem fui dar uma olhadela rápida, pois nesse momento devia intervir na vida de Eugénia, por não me parecer bem que passasse os dias a vaguear pelos jardins, enquanto os irmãos estudavam. Porque não havia ela de ser letrada, se recebera a bênção de uma inteligência igual ou até superior à dos rapazes? Eram tantas as vidas que vira no mapa dos destinos que as tinha um pouco baralhadas, ou não fosse eu mulher do meu tempo, pouco dada a geografias, e já não me lembrava bem se era Eugénia ou Albertina quem iria ter um grande desgosto por causa do pai de um filho seu. Preferi, então, apostar no celibato, que era a única maneira de impedir desavenças conjugais. Por isso, juntei à família Meneses uma outra afilhada minha, uma rapariga órfã que precisava de dar um rumo diferente à sua vida e endireitar as finanças. Com uma Eugénia culta, sabedora de letras, números e outras tantas matérias, somadas ao gosto pela liberdade e a uma ponta de rebeldia, tinha a certeza de que nenhum homem quereria casar-se com ela.

A Curiosidade de Eugénia

Rodrigo Meneses, ainda que os deveres da governação o mantivessem sempre ocupado, não deixava de reparar no aborrecimento da filha quando se aproximava da janela, procurando inspiração para ditar uma carta ao seu secretário. Via-a atravessar continuamente o jardim seguida da sua escrava, à procura de alguma coisa com que se entreter durante as horas em que os irmãos estavam nas aulas. Tinha ouvido falar, já nem sabia bem ao certo onde e a quem, de um método de ensino imaginado pelo bispo do Pernambuco, José Azeredo Coutinho. Deu ordens para que averiguassem se não havia ninguém que pudesse pô-lo em prática com Eugénia, em quem via uma tendência, rara nas mulheres, para se interessar pelo estudo dos irmãos e nunca esquecer o que estes lhe explicavam». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-231-047-3.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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O Projecto Hades. Lynn Sholes e Joe Moore. «Ele elevou um pouco a cabeça. Mantenha sempre a esquerda. Os passos ouviam-se com mais força. Talvez eles não soubessem que ela tinha uma arma, pensou Cotten»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares».In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C»

A Tumba

«(…) O presidente se curvou e estendeu a mão para ela. Apoie nas minhas costas, sugeriu Cotten, enfiando a pistola do agente no cós da saia. Quando sentiu o peso do presidente de encontro ao seu corpo, ela começou a descer com todo o cuidado pela passagem estreita, ajudando-o a se apoiar com os braços em volta do corpo dele. No fim da escada, um túnel estreito levava para um local escuro. Dessa vez, ela apressou-se a encontrar o interruptor mais próximo. O resultado foi uma fileira de luzes correndo ao longo do centro do teto de um túnel. Continue!, ordenou ele. Ela olhou para o presidente, que estava com o braço do casaco vermelho escuro empapado de sangue. Ele contorcia o rosto de dor, os olhos semicerrados. Balas, disparadas do alçapão, chocaram-se contra a plataforma a meio caminho da escada, fazendo chover lascas de madeira.

Cotten conduziu o presidente através do túnel até este finalmente se dividir em duas passagens. Qual o caminho? Ela se encolheu enquanto as balas se chocavam contra a parede ao seu lado. As palavras saíam sem força da boca do presidente, enquanto ele praticamente sussurrava: Mantenha a esquerda. Com um salão a mais para atravessar, ela passou o braço dele pelos ombros enquanto o envolvia com o seu pela cintura, e começou a seguir pelo túnel. Passos ecoaram de trás. À frente, o túnel se abria numa série de grandes canos de esgoto e mais passagens. Senhor presidente. Qual devemos tomar? Ele elevou um pouco a cabeça. Mantenha sempre a esquerda. Os passos ouviam-se com mais força. Talvez eles não soubessem que ela tinha uma arma, pensou Cotten. Poderia ganhar alguns segundos, quem sabe um minuto, se fizesse vários disparos. Arrancando a pistola da cintura, olhou-a intensamente, desejando que quando puxasse o gatilho as balas brotassem sem cessar. O agente russo poderia ter esvaziado a arma antes de cair. Faça o que tem de fazer, Cotten, disse para si mesma. Sim, concordou o presidente num suspiro.

Cotten espiou pelo canto. Como seres de outro planeta, personagens em roupa de combate preta avançavam em fila pelo túnel estreito. Eles usavam capacete, uma armadura grossa sobre o corpo, e cada rosto estava coberto por um aparelho estranho, instrumentos de visão nocturna, presumiu ela. Apontando a pistola para o líder rebelde, puxou o gatilho. O som foi ensurdecedor entre as paredes de rocha nua do túnel. O recuo fez a arma dar um solavanco na mão dela. Imediatamente se preparou para atirar de novo. Dessa vez, manteve a arma apontada com as duas mãos e preparada para o golpe do recuo. Uma vez após outra ela disparou. O primeiro rebelde caiu, se o tivesse matado ou não, ela não sabia, mas conseguira atingi-lo. O segundo e depois o terceiro rebelde também caíram. O disparo de mais armas de fogo um pouco mais atrás espalhou fragmentos de rocha e farpas de madeira pelo ar. O senhor consegue continuar? O presidente concordou com um movimento de cabeça. Os assassinos continuariam avançando, ela sabia, mas talvez não tão depressa. Se não soubessem quando ela pararia e atirassem de novo contra eles dentro dos limites da passagem estreita, eles seriam obrigados a ter mais cuidado, e isso lhe daria uma ligeira vantagem.

Quando ela e o presidente russo dobraram uma esquina, um conjunto de degraus de pedra fez ângulo com a parede. Suba, suba!, sussurrou ele. Com muita dificuldade, Cotten empurrou-o pelas costas enquanto eles subiam para uma plataforma de pedra. Diante deles apareceu uma porta grande, preta e velha. Estendendo o braço, o presidente a empurrou, mas a porta não cedeu. Vamos juntos, sugeriu ela. Vou contar até três. Ele piscou e concordou com um movimento de cabeça. Um, dois, três! Cotten forçou o ombro contra a porta. Com um gemido metálico, ela se abriu». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEAmérica/JDACT

Lynn Sholes,Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento, 

terça-feira, 7 de junho de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «As viagens para a montanha eram momentos de alegria. Em Sinjar havia doces e uma sanduíche especial de cordeiro que não temos em Kocho, e o meu pai quase sempre parava para comprarmos o que quiséssemos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«No início do Verão de 2014, estava atarefada a preparar-me para o meu último ano no ensino secundário, quando desapareceram dois agricultores das suas terras mesmo às portas de Kocho, a pequena aldeia yazidi no Norte do Iraque onde nasci e onde, até recentemente, pensava que iria viver o resto da vida. De um momento para o outro, os homens, que descansavam pacificamente à sombra de uns velhos oleados improvisados, viram-se presos num pequeno quarto de uma aldeia vizinha, habitada maioritariamente por árabes sunitas. Além de levarem os agricultores, os sequestradores roubaram também uma galinha e vários pintos, o que nos confundiu. Talvez estivessem apenas com fome, comentámos, embora isso não bastasse para nos acalmar. Kocho é, desde que me conheço, uma aldeia yazidi, fundada por agricultores nómadas e pastores que chegaram ao meio do nada e decidiram construir casas para proteger as suas esposas do calor desértico enquanto andavam com as ovelhas em busca de melhores pastos. Escolheram uma terra que seria boa para a agricultura, mas com uma localização arriscada, no extremo sul da região iraquiana de Sinjar, onde vive a maior parte dos yazidis do país e muito perto do Iraque não yazidi. Quando chegaram as primeiras famílias yazidi, em meados da década de 1950, Kocho era habitada por agricultores árabes sunitas que trabalhavam para proprietários de Mossul. Mas essas famílias yazidi tinham contratado um advogado para comprar as terras, o advogado, ele próprio muçulmano, ainda é considerado um herói e, por altura do meu nascimento, já Kocho tinha cerca de duzentas famílias, todas yazidi, tão próximas como se fôssemos uma única grande família, e éramos quase.

A terra que nos tornava especiais também nos tornava vulneráveis. Há séculos que nós, yazidis, somos perseguidos por causa das nossas crenças religiosas, e, comparada com a maior parte das nossas cidades e aldeias, Kocho fica distante do Monte Sinjar, a montanha alta e estreita que nos tem abrigado ao longo de várias gerações. Há muito tempo que somos empurrados entre as forças rivais dos sunitas árabes e dos sunitas curdos; exigem-nos que reneguemos a nossa herança yazidi e nos conformemos à identidade curda ou árabe. Até 2013, ano em que a estrada entre Kocho e a montanha foi finalmente pavimentada, a nossa carrinha Datsun branca levava quase uma hora a percorrer as estradas poeirentas até à cidade de Sinjar, no sopé da montanha. Cresci mais perto da Síria do que dos nossos templos sagrados, mais perto de estranhos do que da segurança.

As viagens para a montanha eram momentos de alegria. Em Sinjar havia doces e uma sanduíche especial de cordeiro que não temos em Kocho, e o meu pai quase sempre parava para comprarmos o que quiséssemos. A nossa carrinha erguia nuvens de pó pelo caminho, mas sempre preferi viajar ao ar livre. Deitava-me no fundo da caixa aberta até sairmos da aldeia e ficarmos a salvo dos olhares dos vizinhos, altura em que me levantava para sentir o vento a vergastar-me o cabelo e ver os rebanhos que pastavam à beira da estrada. Entusiasmava-me facilmente, ficava cada vez mais tempo de pé na caixa da carrinha até o meu pai ou o meu irmão mais velho, Elias, me gritarem que, se não tivesse cuidado, sairia a voar por um dos lados. Na direcção oposta, longe daquelas sanduíches de cordeiro e do conforto da montanha, estava o resto do Iraque. Em tempo de paz, e se não tinha pressa, um mercador yazidi demorava quinze minutos de carro para ir de Kocho à aldeia sunita mais próxima vender cereais ou leite. Tínhamos amigos nessas aldeias: raparigas que conhecera em casamentos, professores que dormiam na escola de Kocho durante o período lectivo, homens que eram convidados a segurar no colo os nosso bebés durante o ritual da circuncisão e que ficavam, a partir daí, ligados a essa família yazidi como kiriv, qualquer coisa como um padrinho. Médicos muçulmanos vinham até Kocho ou à cidade de Sinjar para nos tratar quando estávamos doentes, e havia mercadores muçulmanos pela cidade a vender vestidos e doces, coisas que não conseguíamos encontrar nas poucas lojas de Kocho, que ofereciam apenas os artigos mais básicos. Quando eu era pequena, os meus irmãos costumavam viajar até aldeias não yazidi para ganharem algum dinheiro com trabalhos esporádicos. As relações evidenciavam o peso de séculos de desconfiança, era difícil não nos sentirmos mal quando um convidado muçulmano num casamento se recusava a comer a nossa comida, por mais delicadamente que o fizesse, mas, ainda assim, havia amizade genuína. Eram ligações criadas ao longo de muitas gerações, passando pelo controlo otomano, a colonização britânica, Saddam Hussein e a ocupação americana. Em Kocho, éramos conhecidos pela nossa relação próxima com as aldeias sunitas.

Mas quando havia guerra no Iraque, e parecia haver sempre guerra no Iraque, aquelas aldeias pareciam agigantar-se sobre nós, o pequeno vizinho yazidi, e o velho preconceito endurecia facilmente ao ponto de se transformar em ódio. Muitas vezes, com esse ódio vinha a violência. Ao longo dos últimos dez anos, pelo menos, desde que os iraquianos foram empurrados para a guerra com os americanos, que começou em 2003 e que depois resvalou para conflitos locais ainda mais perversos até acabar em pleno terrorismo, a distância entre os nossos lares tornou-se enorme. Aldeias vizinhas começaram a dar abrigo a terroristas que denunciavam cristãos e muçulmanos não sunitas e, ainda pior, que consideravam os yazidis kuffar, infiéis merecedores da morte (kafir, no singular). Em 2007, alguns desses extremistas levaram um camião-cisterna e três carros para os centros apinhados de duas cidades yazidi, uns quinze quilómetros a noroeste de Kocho, e fizeram explodir os veículos, matando centenas de pessoas que tinham corrido na sua direcção, muitos a pensar que traziam produtos para vender no mercado». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

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segunda-feira, 6 de junho de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. « Ergui os olhos da leitura. Era Nuno Costa, que, sorridente, ali estava de pé junto da minha estante, iluminado pelo colorido coado dos losangos do vitral»

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O Sósia

«(…) Pede-lhe que suba. É amigo que muito importa guardar. Túlio subiu. Fez-me uma vénia rasgada, jovial: Meu Senhor. Túlio! Deixastes crescer a barba e talhaste-la da mesma feição... Não fosse o vestuário, a voz, o parco conhecimento da língua portuguesa, dir-se-ia ser meu sósia. Sentámo-nos a um canto a conversar: deu-me conta da missão de que eu o havia incumbido, das dificuldades em encontrar os senhores a quem eram endereçadas as cartas, os perigos corridos, Lisboa e o reino enxameados de espiões castelhanos, as forcas sempre a baloiçarem portugueses resistentes à ocupação estrangeira... Daí a pouco já estavam os dois a falar de assuntos que só eles conheciam. Estava em cuidados com a vossa demora. A falta de notícias vossas..., a vossa mulher em cuidados..., escreveu-me a saber de vós...

Missão difícil, como vedes. Eu tinha avisado minha mulher e minha filha dos perigos que ia correr... Escrevi-lhe a sossegá-la..., e a frei Raimundo que procurasse novas de vós... Já a fostes ver? Já. Não recebeu carta vossa. Não? ... e Frei Raimundo também não... Ela estava até magoada convosco, que não lhe respondíeis... Ter-se-ão perdido as cartas? Que se terá passado? Essa mesma tarde, depois do jantar, partimos para Veneza. Túlio acompanhou-me, como meu criado e pajem. Montado num cavalo baio, que toda a companhia viajava em montadas dignas e alguns dos companheiros iam armados, para prevenir assaltos de encruzilhadas, desfiladeiros e florestas, já me dava eu ares, como antigamente. Porque será sina minha cair sempre no sonho, que já tanto mal atrás havia causado?... Apartava-me da crueza da vida com a mesma ingenuidade dos anos imaturos? Não me servira de nada a experiência?... A loucura voltava?... E no entanto, ali, à minha volta, rondava e tomava corpo pior desventura ainda que as anteriores... Que livro estais a ler, meu Senhor?

Ergui os olhos da leitura. Era Nuno Costa, que, sorridente, ali estava de pé junto da minha estante, iluminado pelo colorido coado dos losangos do vitral. Havia entrado com frei Crisóstomo, com Pantaleão Pessoa e António Pimentel. À porta assomava também a figura de Marco Túlio. Nas longas horas deste esperar por que se me resolva o destino, gosto de me isolar no silêncio de um livro. Não, não. Não mais leituras piedosas, vidas de heróis e de santos, especulações teológicas, arquimanhas visionárias de falsos profetas... Coisas concretas, práticas, do que vai sendo o fado das nações, dos impérios, dos principados... Consegui dos meus companheiros um exemplar do De regis institutione do meu sábio bispo Jerónimo Osório e agora... Il Principe, mostro-lhe a capa.

Ah! Nicolau Bernardo Maquiavel! Uma espada de dois gumes. Vejo que o conheceis. Nenhum homem que se preze de querer entender, nestes difíceis tempos, o que se passa no mundo deve ignorar esta obra. O rei e o cortesão, o clérigo, o humanista... ... e também o conspirador, não esqueçais, atalhei. Por isso, Alteza, e por muitas outras razões, afirmei que este livro é espada de dois gumes. Levantei-me do assento a deslassar os membros e abri a porta envidraçada que dava para um pequeno jardim. No Grande Canal passavam gôndolas junto dos Grimani, metiam algumas pelo estreito rio di San Luca. Saí ao pátio. Veio-me na cola Nuno Costa. Logo me rodeava a multidão de pombos a que eu gostava de vir dar migalhas e sementes. Já vos conhecem, Senhor. Pousavam-me nos ombros, no coruto da cabeça, esvoaçavam a debicar-me nas palmas das mãos... Amigos assim, reatava eu a conversa, podem ser interesseiros, move-os sem dúvida a pensão de comer, mas não como alguns de que fala esse livro... Quereis referir...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Na estalagem, preparavam-me as malas para o regresso a Veneza, vem um criado dizer-me que se encontrava em baixo um senhor que me desejava falar»

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O Sósia

«(…) O papa, no ar cansado, tinha aquele meio sorriso sonso, Deus me perdoe, de quem cumpre a rotina. Falei procurando ser sucinto, contei-lhe de mim, aduzi a autoridade dos meus amigos ali presentes, que anuíam com a cabeça. O semblante do pontífice foi-se alterando ao passo que eu avançava no meu relato e, de meramente curioso, demudou em estupefacto. Quando terminei, disse: Meu filho. É deveras assombroso o que referes, mas em ocorrência de tanta gravidade haveis de concordar que a vossa palavra sozinha e a de vossos amigos sozinhos não bastam a prevenir a necessária prudência... Poderei apresentar provas concretas? Olhou interdito para o camerlengo, para o arcebispo, que não sabiam que dizer ou fazer em tão inesperada emergência, e com um gesto da direita convidou-me a continuar.

Saberá Vossa Santidade que, depois de eu ter ascendido ao trono de Portugal, enviei a Roma, ao papa Pio quinto, um embaixador especial, o meu legado dom Álvaro Castro, a prestar-lhe obediência. Esse mesmo pontífice, como é uso, mandou-me pelo embaixador dom Diogo Meneses o estoque e o chapéu bentos... Quase imperceptível sinal fez o papa ao cardeal camerlengo, que, compreendendo a mensagem, se dirigiu a uma porta interior a dar uma ordem. Incitou-me em seguida Sua Santidade a que me recordasse eu de mais factos concretos das relações do rei de Portugal com a Santa Sé. Sem qualquer hesitação, precisei: A seis de Outubro de mil e quinhentos e sessenta e nove, Pio quinto concedeu-me o breve do jubileu..., parei a vasculhar, a escolher na memória e prossegui: Lembro-me de que o núncio apostólico, frei Leonardo Marini, arcebispo Lanciano, foi a Portugal de mando de Gregório treze pedir-me apoio para a liga que o papa pretendia organizar contra o Turco...

A porta interior entreabriu-se e o camerlengo acorreu a tomar um maço de documentos que alguém lhe trazia. O papa e todos os presentes olharam expectantes. Menos eu. Não morava em mim a dúvida. O camerlengo aproximou-se com um ar radiante de espanto: Bate tudo certo, Santidade, com o que este senhor..., com o que Sua Alteza disse!, e mostrava as provas documentais ao papa, que, durante algum tempo as olhou em silêncio, como a pensar, sem as tomar das mãos do prelado. Enfim disse: Estas provas terão de ser examinadas pela Cúria. Providenciai nesse sentido, cardeal. Meu filho, como muito bem deves calcular, podem advir perturbações internacionais de tão inesperada circunstância. O teu caso, porém, não será esquecido. O Senhor te acompanhe e à tua comitiva, e, abençoando-nos, deu a audiência por terminada. O camerlengo acompanhou-nos à porta.

Com evidente alegria e entusiasmo se congratulavam comigo, a caminho do albergue, os companheiros pelo bem-sucedido da empresa. Sinto-me a alma a ressuscitar, amigos, desabafei. Estava morto e ardia nas profundezas do Inferno. Agora refrigera-se-me o coração. Conquanto, rosnou dentro de si Nuno Costa, não morras depois de teres ressuscitado...

Na estalagem, preparavam-me as malas para o regresso a Veneza, vem um criado dizer-me que se encontrava em baixo um senhor que me desejava falar. Frei Crisóstomo, pedi, fazei-me essa mercê. Ide ver quem é. Desceu o frade e, daí a pouco, regressava: Bofé!, disse muito pálido. Quando o olhei, fiquei confundido. Não vos havia eu deixado aqui, quando desci?... E não é que vos vou encontrar lá em baixo? Tereis o dom da ubiquidade? O homem, vestido à calabresa, estava de costas. Ao sentir-me, voltou-se e eu..., dei de caras convosco! Tal e qual. Convosco. A mesma estatura, o mesmo semblante, a mesma barba e cabelo, embora mais escuros... Só quando falou me dei conta de que não éreis vós... Tendes um irmão gémeo?... Quem é então e que pretende? Um calabrês. Pede para falar a Sua Alteza o rei de Portugal. Como sabe ele...? ... que vos fora apresentado por um tal fra Raimundo, de Messina, quando o visitastes na Sicília..., que já uma vez vos fez recado, indo com cartas vossas a Portugal... Túlio!, exclamei. Sim. Marco Túlio Catizone». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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sábado, 4 de junho de 2022

As Tercenas Régias de Lisboa: dom Dinis a dom Fernando. Manuel Fialho Silva e Nuno Fonseca. «… construção naval, algo que não nos deve surpreender, pois a referida confirmação de 1352 refere que existiam exactamente nesse local casas em que el Rei tem a madeira junto com o muro das tercenas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não é conhecido com exactidão o momento da construção das tercenas régias de Lisboa, pois apenas está documentada a existência de Casas das Galés pertencentes à Coroa, em 1294, durante o reinado de dom Dinis. No entanto, não se deve ignorar a possibilidade de que esta estrutura já existisse anteriormente a este reinado e que tenha sido amplamente restruturada na última década do século XIII, pois ocorreu nesse momento uma ampla reconfiguração urbana na Ribeira através de uma acção concertada entre o monarca e o concelho da cidade.

Nessa reconfiguração sobressaiam a construção da muralha da Ribeira e a urbanização erguida em simultâneo com estrutura defensiva, mais precisamente, a fachada sul da Rua Nova e a fachada norte da Rua da Ferraria. Entre 2010 e 2011 foi encontrado, em escavações arqueológicas realizadas no Banco de Portugal, o muro norte das Tercenas medievais, o qual é publicamente conhecido como Muralha de dom Dinis, facto que não colabora para a divulgação da história destas importantes estruturas de apoio às actividades da marinha medieval portuguesa. Na realidade ambas as estruturas, tercenas e muralha da Ribeira, estavam intimamente ligadas no que respeita à morfologia urbana, pois a orientação da muralha coincidia com a orientação do muro Norte das terecenas, causa maior da referida ambiguidade. Ainda para mais, a própria estrutura das tercenas pode ter sido totalmente remodelada no mesmo momento em que a muralha foi erguida durante a última década do século XIII. Seja como for, não podemos deixar de sublinhar que o muro encontrado no quarteirão do Banco de Portugal, já no século XXI surge inúmeras vezes em documentos medievais denominado como muro das tercenas, ou seja, este muro era no século XIV conhecido como muro das tercenas e não como uma muralha (um aforamento de Afonso IV, em 1327, de um sótão e sobrado localizado na Judiaria Nova surge nas confrontações a sul o muro da mha taracena; um outro aforamento de Afonso IV, em 1327, de um sobrado na Judiaria Nova, é referido nas confrontações a sul uma via pulvega e o Muro da taracena; um outro aforamento de Afonso IV de um sótão localizado na Judiaria Nova refere nas confrontações a sul o muro da dicta taracena)

Nos meados do século XIV as tercenas régias de Lisboa foram alvo de uma expansão na direcção da Oura, ou seja, na direcção ocidental em relação ao edifício original. Esta expansão é conhecida devido a uma confirmação de 1352 de um escambo anterior realizado entre o concelho e a Coroa onde se refere que o concelho deu um campo à Coroa para aí serem erguidas tercenas para quatro galés, ou seja, uma estrutura com quatro naves. Escavações arqueológicas de emergência realizadas pelos arqueólogos da Câmara Municipal de Lisboa, em 1997, no momento da construção de um parque de estacionamento na Praça do Município revelaram um muro que consideramos estar relacionado com esta expansão das tercenas de Afonso IV, e não com a muralha fernandina, tal como foi considerado pelos arqueólogos responsáveis.

Além disso, na mesma escavação foi também encontrado um conjunto de estruturas de madeira preparadas para a construção naval, algo que não nos deve surpreender, pois a referida confirmação de 1352 refere que existiam exactamente nesse local casas em que el Rei tem a madeira junto com o muro das tercenas». In Manuel Fialho Silva e Nuno Fonseca, As Tercenas Régias de Lisboa: dom Dinis a dom Fernando, O Mar como Futuro de Portugal, Academia de Marinha, Lisboa, 2019, ISBN- 978-972-781-145-8.

Cortesia de AcademiadaMarinha/JDACT

JDACT, Manuel Fialho Silva, Nuno Fonseca, Cultura e Conhecimento, Armada, 

O Legado de Madalena. Laurence Gardner. «… porque razão a Igreja de Roma virou as costas para essa mulher devotada, difamando seu nome por séculos? Será que os bispos realmente acreditam que uma pecadora deva ser necessariamente uma prostituta…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Primeira dama

«Nos Evangelhos do Novo Testamento, várias companheiras de Jesus são citadas em sete ocasiões. Em seis delas, Maria Madalena é o primeiro nome. Na sétima citação, a mãe de Jesus está em primeiro lugar e, em noutra citação, Maria Madalena está sozinha. Na sua relação com Jesus, ela é apresentada como uma mulher que o servia, e aparece pela última vez no Evangelho como a primeira pessoa a falar com Jesus após a sua ressurreição no sepulcro. Na literatura do início da Era Cristã, fica evidente que Maria Madalena ocupava um lugar especial na vida de Jesus e nos corações dos seus seguidores. Posteriormente, entretanto, os bispos da Igreja decidiram que Maria deveria ter sido uma prostituta, aparentemente porque uma das referências bíblicas classifica-a como uma pecadora. O facto, na mente dos bispos, indicava uma mulher de virtude livre. Porém, no versículo seguinte do Evangelho é dito que Maria tinha sido uma mulher importante e uma das pessoas que apoiavam Jesus. Posteriormente, na visão do Evangelho, Maria Madalena é vista como uma pessoa próxima da mãe de Jesus, que a acompanhou na crucificação. Antes disso, é dito que Jesus amou Maria. Portanto, porque razão a Igreja de Roma virou as costas para essa mulher devotada, difamando seu nome por séculos? Será que os bispos realmente acreditam que uma pecadora deva ser necessariamente uma prostituta, ou isso foi simplesmente uma desculpa para algo que eles preferiam ocultar?

Nas próximas páginas, consideraremos o abrangente legado de Maria Madalena, suas descrições bíblicas, suas aparições em Evangelhos não canónicos, sua vida conforme foi registada pelos narradores, sua situação clerical e académica, suas descrições no mundo das belas-artes e sua relevância no mundo de hoje. A posição de Maria é, sob muitas formas, única; apesar de seu aparente papel de apoio na história cristã, ela surge como uma das principais figuras. Como é afirmado em alguns dos Evangelhos que foram excluídos do Novo Testamento, Maria Madalena foi a mulher que conhecia tudo sobre Jesus. Foi aquela a quem Cristo amou mais que a todos os seus discípulos e ela foi, também, o apóstolo favorecido com o conhecimento, a visão e a percepção muito mais amplos que Pedro.

Meu primeiro encontro com Maria Madalena ocorreu na década de 1980. Eu estava fazendo uma restauração e era consultor de conservação do Fine Art Trade Guild, em Londres. Um quadro intitulado Penitent Magdalene (Madalena Arrependida) chegou para limpeza e reparos uma obra italiana do século XVIII de autoria de Franceschini Marcantonio, da escola de Bolonha. Numa tentativa de restauração anterior, o quadro havia sido grosseiramente afixado (forrado) numa outra tela que tinha de ser removida. Como parte de um curso de preservação de pinturas, eu estava correndo contra o tempo e escrevi os detalhes dessa restauração em particular no Guild Journal. Mas, nesse estágio, meus interesses estavam nos aspectos físicos do processo de restauração, não no tema do quadro. Só mais tarde, quando estava analisando as fotografias do trabalho concluído, foi que comecei a pensar sobre certas características da imagem. Madalena foi retratada com jóias e um espelho, e, ainda assim, o quadro foi intitulado Penitent Magdalene, o que me pareceu bem incoerente.

Segurando os cabelos com uma das mãos e um brinco de pérola com a outra, ela parecia bastante feliz, e nada indicava que ela estivesse arrependida. Então, porque o título? Descobri, verificando a procedência do quadro, que seu título registado, Penitent Magdalene, foi mais um tipo de classificação do que um título dado pelo artista. Para ele, o quadro tinha sido apenas um retrato estilizado de Maria Madalena. Os géneros são comuns no mundo da arte dos retratos daquela época, Apesar de os artistas frequentemente assinarem ou personalizarem suas pinturas, normalmente não davam títulos a elas. Títulos românticos geralmente eram atribuídos, mais tarde, pelos proprietários, pelas galerias e pelos comerciantes títulos em que os artistas talvez jamais houvessem pensado. A Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, é um bom exemplo. Ela é conhecida por esse nome no mundo que fala inglês, mas na França (onde hoje permanece, no Louvre) é conhecida como La Joconde e na Itália, como La Gioconda. Um outro exemplo recente é o quadro de James AM Whistler, intitulado por ele como Arrangement in Grey and Black (arranjo em cinza e negro), mas que desde sua morte tem sido apelidado de Whistler’s Mother.

Os quadros de Jesus caem em categorias similares e raramente o contrário. Eles começam com A Natividade, que é subdividida em temas como A Adoração dos Pastores e Adoração dos Magos. Continuam com os retratos Madona e a Criança e as cenas de O Descanso na Fuga para o Egipto. Depois há descrições de Jesus, Apresentação no Templo, seguidas por várias outras cenas importantes em todo o seu mistério até à crucificação, ressurreição e subsequente ascensão». In Laurence Gardner, O Legado de Madalena, Conspiração da Linhagem de Jesus e Maria, Revelações sobre o Código Da Vinci, 2005, Editora Madras, ISBN 978-853-700-022-9.

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quinta-feira, 2 de junho de 2022

As Tercenas Régias de Lisboa: dom Dinis a dom Fernando. Manuel Fialho Silva e Nuno Fonseca. «Assim sendo, as 13 taracenas, referidas no Livro dos Bens Próprios, parecem corresponder a um edifício organizado em 13 naves»

 

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«(…) Barcelona, cidade cabeça do reino de Aragão, é dotada das suas Drassanes Reials entre 1282 e 1285, no reinado de Pedro III de Aragão, pai da esposa de dom Dinis. As tercenas de Barcelona estão intimamente ligadas ao processo de expansão mediterrânica A estrutura erguida nessa época consistia num recinto rectangular, fortificado em três lados. As dimensões totais teriam cerca de 102m de comprimento, no eixo mar-terra e 81m de amplitude no eixo paralelo ao mar. A estrutura original teria nove naves, as quais teriam capacidade para 18 galés.

No caso de Lisboa, as primeiras referências documentais a um palatium navigo-rium regis, ou seja a um Paço das naus do rei, situado na Freguesia de Santa Maria da Madalena, surge ainda no reinado de Sancho II. No entanto nada mais se pode acrescentar a esta breve informação sobre estas estruturas de apoio às actividades navais. As escavações arqueológicas conduzidas por Artur Rocha no local do actual Museu do Dinheiro, ou seja, no extremo ocidental da margem ribeirinha do arrabalde ocidental da Lisboa medieval, revelaram que esta zona da cidade estaria ainda sob a influência das marés, antes da construção do muro Norte das Tercenas. Deste modo é possível afirmar que esta zona, não estaria ainda urbanizada em meados do século XIII. A primeira referência documental à existência de tercenas régias, apenas surge no reinado de dom Dinis, em 1294, quando são referidas umas Casas das Galés pertencentes à Coroa, no contrato para a construção da muralha da Ribeira celebrado entre dom Dinis e o concelho. Poucos anos depois, no Livro dos Bens Próprios, um inventário da propriedade régia composto entre 1299 e 1300, é afirmado que o rei possuía, na Ribeira, 13 taracenas onde estavam, nesse momento, 12 galés. Pelas confrontações que surgem em vários documentos da época é possível reconstituir parcialmente as tercenas originais de dom Dinis. Assim sendo, as 13 taracenas, referidas no Livro dos Bens Próprios, parecem corresponder a um edifício organizado em 13 naves. As reconstituições que aqui apresentamos alicerçaram-se em três áreas distintas.

A primeira foi um estudo comparativo com tercenas medievais de várias cidades marítimas, o que nos possibilitou a compreensão da forma arquitectónica destas estruturas. A segunda foi a consulta à documentação medieval referente a Lisboa, com especial enfoque na documentação notarial, o que nos revelou os limites aproximados das tercenas régias de Lisboa e a evolução desta estrutura ao longo da idade média. O terceiro e último componente, fundamental para a nossa reconstituição, consistiu na confrontação dos dados provenientes de escavações arqueológicas com todas as outras informações recolhidas. Além destes três campos de investigação foi também imprescindível a consulta aos vários estudos publicados sobre as tercenas de Lisboa, destacando-se alguns autores: Augusto Vieira da Silva, José Vasconcelos Menezes, e Fernando Gomes Pedrosa». In Manuel Fialho Silva e Nuno Fonseca, As Tercenas Régias de Lisboa: dom Dinis a dom Fernando, O Mar como Futuro de Portugal, Academia de Marinha, Lisboa, 2019, ISBN- 978-972-781-145-8.

Cortesia de AcademiadaMarinha/JDACT

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A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Dentro de umas semanas, disse o prelado, parto para Roma convocado para um sínodo. Quererás aproveitar?... Deus seja louvado e sua mãe Maria Santíssima!»

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O Sósia

«(…) ... e aqui estás, disse o arcebispo. Que queres de mim?, ... que Vossa Eminência ajude o infeliz rei de Portugal a ser recebido pelo papa. O papa há-de querer provas de quem és. Os meus amigos portugueses darão de mim testemunho. Quem são eles? Proscritos, como é natural, pelo amor que dedicam à sua pátria e ao seu rei. Cuidando que eu havia morrido, tomaram a parte do rei legítimo, meu primo dom António, prior do Crato. Com a derrota de Alcântara, com as derrotas dos Açores, exilaram-se com o rei em Inglaterra, em França, na Flandres, aqui, fugidos à vingança de Filipe...

Dom António morreu e eles, sabendo do meu aparecimento, rejubilaram e acolheram-me... Pessoas gradas, julgo. ... e de autoridade. Frei António Sousa... É frade? ... dominicano. Filho de um embaixador em Espanha, mestre de teologia, grande pregador e outras partes... Frei Luís dos Anjos, agostinho, cronista da ordem. Dom António Brito Pimentel, fidalgo de minha casa, Nuno Costa, médico insigne, e muitos outros, Pantaleão Pessoa, o cónego Lourenço Costa, Sebastião Figueira, Manuel Brito Almeida... De Roma deve estar a chegar um amigo importante, dom Cristóvão Portugal, filho do prior do Crato... Sei quem é. ... o padre José Teixeira... Frei José Teixeira, o esmoler do rei de França e protegido de Catarina Médicis? Esse mesmo. Sábio homem. Não deve tardar a chegar de Paris... Conheço a sua obra. ... e os dominicanos frei Crisóstomo Visitação e frei Estêvão Sampaio... O arcebispo levantou-se e passeou pela sala. Os outros dois levantaram-se também.

Dentro de umas semanas, disse o prelado, parto para Roma convocado para um sínodo. Quererás aproveitar?... Deus seja louvado e sua mãe Maria Santíssima! Julgava eu nunca mais me ser dado ouvir os sinos de Roma, a cidade leonina, e eis que de novo os de São Pedro, de Santa Maria Trastevere, de Sant'Agnese, de San Giovanni in Laterano, de Santa Maria Maggiore e muitos outros, outros tais e outros tantos, badalando, repicando, tilintando, me enchem ouvidos e alma. Agora acredito que finalmente a minha vida vai mudar e terá fim o meu calvário. O arcebispo de Espálato, António Graziani, conseguiu que o papa Clemente me recebesse em audiência e aos meus companheiros. Embora sem as insígnias e a magnificência que seriam próprias de minha qualidade, apresentei-me honestamente vestido de modo a que me tomassem por quem era, nas condições de vicissitude em que me encontrava. O luxo do Sacro Palácio, as longas galerias lustrosas de obras de arte, que os meus amigos olhavam com assombro, não chegaram para romper-me o turbilhão interior. O camareiro que nos conduzia fez-nos parar diante da alta porta da câmara papal. Ali aguardámos até que dentro se ouviu uma campainha e as portadas se abriram. Sua Santidade estava sentado e tinha à sua esquerda o arcebispo de Espálato e à direita o cardeal camerlengo. Entrámos de cabeça descoberta, quando o camareiro me deu passagem e a meus companheiros. Com um joelho em terra, aguardámos a bênção do papa. Então, a um sinal do camerlengo, avancei até ao tapete de veludo em que Sua Santidade tinha os pés. Ajoelhei, o camerlengo levantou a fímbria da batina do papa, a quem eu beijei o pé direito calçado de chapim vermelho com uma cruz branca. Levantei-me e então o arcebispo disse: Sua Santidade tem a bondade de te ouvir». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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quarta-feira, 1 de junho de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Quando saí do albergue, fiquei indeciso sobre que fazer da minha vida. Ainda se tivesse ali comigo a jovialidade de Telo, o seu engenho, as suas manhas em resolver as adversidades...»

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O Sósia

«(…) Nessa mesma noite... Sim, foi nessa mesma noite. Dormia eu a sono solto, não dei por nada senão de manhã, quando me levantei. Levaram-me tudo: dinheiro, credências, roupas e desapareceram. De um dia para o outro regressei à mais completa miséria e via-me impossibilitado de me apresentar a Sua Santidade. Apiedou-se de mim a mulher do estalajadeiro, que, além de me dar bragas, pelote, um velho jubão e uma capa, levou o marido a perdoar-me o aluguer da aposentadoria daquela noite.

Quando saí do albergue, fiquei indeciso sobre que fazer da minha vida. Ainda se tivesse ali comigo a jovialidade de Telo, o seu engenho, as suas manhas em resolver as adversidades... Alguma coisa, no entanto, eu aprendera com ele. Isso me animaria. Atravessei a ponte, passei o castelo e, metido comigo, foi com surpresa que súbito me vi a caminhar rodeado da multidão. Deixei-me levar e daí a pouco entrava na basílica de São Pedro. Era domingo. O papa oficiava acolitado por quatro cardeais, mas a pompa das cerimónias e a excessiva riqueza do templo não se me quadravam com o abatimento de alma e eu saí dali, Deus me perdoe, sem ser capaz de rezar um padre-nosso. Dei em cuidar nisso por muito tempo, enquanto que ia saindo da cidade... Não se me acomoda o roteiro interior ao itinerário externo dos meus passos. Olho em voragem os fantasmas do passado e do presente que me surgem no caminho, a fúria do tempo em destruir a memória, a fúria do momento em, sobre aquela, construir outra..., ossadas de esbeltas colunas de templos romanos, olha acolá o de Saturno..., templos em ruína, templos em construção, morrem uns deuses, nascem outros..., destroços de arcos antigos que um dia foram triunfais como os que agora aí estão sendo edificados com igual arte à espera de igual sorte, o de Tito comemora o saque de Jerusalém, o de Constantino celebra a vitória sobre o imperador Maxêncio na batalha da ponte Mílvio. Deveu-se, rezavam as lendas, a tê-lo um anjo exortado em sonho a que marcasse um qui e um ró nos escudos dos seus soldados ou a ter-lhe aparecido nos céus, ia a refrega em meio, a cruz do Salvador, in hoc signo vinces..., anfiteatros, arenas, colossos, fontes e repuxos, deuses e deusas desnudados os corpos de mármore, mortos como a eternidade por entre o gargalhar cósmico da água..., a coluna de Trajano, memorando a conquista da Dácia, lembra a edificação de um império que levou séculos a tornar-se pó... A mim bastaram-me três horas para pulverizar o meu...

Saí de Roma de meu vagar, seguindo algum tempo o curso do Tibre, desesperançado de alguma vez aí voltar a cumprir a minha tenção de solicitar ao sumo pontífice a necessária ajuda, sem alento sequer para prosseguir no propósito a que me obrigara o velho eremitão meu companheiro do Sinai, que Deus haja. Peregrinando e esmolando ao acaso pelos santuários de Itália, transpus em breve os Apeninos, visitei Assis, na margem do Chiascio, aonde entrei pela porta de São Pedro, a basílica no cimo do monte Subásio, desci para o Adriático a rezar na casa santa de Nossa Senhora do Loreto... Mas para que hei-de eu estar a maçar-vos com as minhas desaventuras? Um pouco mais de paciência. Acabarei já... Dormia nos portais das igrejas, debaixo de pontes, na espessura da floresta, nas grutas dos montes... Subi a Ancona, a Ravena, a Ferrara... Depois de Mântua e Verona, acolhi-me à piedade de meu padre Santo António, em Pádua, e finalmente vim ter a esta Veneza em que, a Deus graças, encontrei conterrâneos meus que me reconheceram e ajudaram...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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