quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos»

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O Bastardo que Nunca Existiu?

«(…) A história tem barbas, remontando já à primeira metade de Quinhentos, mas continua a suscitar muitas dúvidas e reservas entre os historiadores pátrios. Anselmo Braamcamp Freire, o célebre autor dos Brasões da Sala de Sintra, por exemplo, recusa-se a aceitar a hipótese de dom Duarte ter tido um filho fora do casamento, com razões que Luís Miguel Duarte, o mais recente biógrafo do rei Eloquente, considera impossível não acompanhar. O monarca seria o modelo das virtudes que apregoava no seu livro. Contudo, os argumentos que apresenta contra António Caetano Sousa não convenceram muitos genealogistas, como Felgueiras Gayo, por exemplo, que, na peugada do autor da História Genealógica, continuam a afirmar a existência do bastardo de dom Duarte. Veríssimo Serrão, na sua História de Portugal, também o faz. Seria ele João Manoel, ou João Manoel de Portugal e Vilhena, como alguns historiadores e genealogistas preferem chamar-lhe, e teria nascido, em data que se ignora, dos amores do rei com Joana Manoel Vilhena. Esta era uma senhora de qualidade que, dizem uns, veio para Portugal com a rainha dona Leonor de Aragão e, afirmam outros, era dama da rainha dona Filipa de Lencastre. Se Joana Manoel era dama de dona Leonor, João Manoel é filho adulterino; se, porém, era dama de dona Filipa, então pode o bastardo ter nascido antes do casamento de seu pai, celebrado em 1429.

João Manoel foi dado à luz em Lisboa, sendo recolhido no Mosteiro do Carmo, onde se diz que Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, o criou com estimação. Educado em virtuosos princípios e ilustrado nas belas letras, tomou o hábito carmelita e, prosseguindo os estudos, saiu bom letrado. Provincial da Ordem do Carmo, em 1441, foi mandado a Roma para tratar da dispensa que era necessária ao casamento do rei Africano com dona Isabel, sua prima, filha do infante Pedro. Trouxe da Cidade Eterna a dispensa requerida, e o título de Bispo Titular de Tiberíades. Em 1443, foi feito bispo de Ceuta e primaz de África. E, em 1450, Afonso V nomeou-o seu capelão-mor. Nove anos depois, foi nomeado bispo da Guarda. Mas não tomou posse da diocese. O rei nunca reconheceu este seu filho, que, por isso, nunca foi tratado como tal. Explica o autor da História Genealógica: Somente ao pai compete fazer semelhante declaração e, não a tendo feito dom Duarte, mais ninguém a podia fazer. Por isso, mal podia El-Rei Afonso V conferir-lhe aquela honra que seu pai não lhe dera.

Mas João Manoel aceitou o seu estatuto com talento e discrição. E reconheceu perante o rei Africano, seu meio-irmão, que a quem seu pai encobriu o real sangue, que lhe dera a natureza, bem é que Vossa Alteza lho negue. Ainda assim, em muitas ocasiões depois  Afonso V confessar o parentesco.

De uma Justa Rodrigues Pereira, mulher solteira e nobre, que depois fundou o Mosteiro de Jesus, em Setúbal, em que acabou com vida exemplar e com quem, sendo moço, o bispo teve trato, houve dois filhos: João Manoel, alcaide-mor de Santarém, mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos. Ambos foram legitimados por Afonso V, em 1475, e tiveram copiosa e ilustre descendência». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) Afonso, duque de Bragança, ambicionou para o filho o título de Condestável do Reino, que fora de seu sogro. Mas o infante Pedro já o reservara para o seu próprio filho, também chamado Pedro, que viria a ser mestre de Avis e, depois, rei de Aragão. Por isso, os dois irmãos voltaram a zangar-se. E a oposição do duque de Bragança ao regente não mais teve descanso. Em 1446, quando o rei atingiu a maioridade, Afonso tratou de o incompatibilizar com o regente Pedro. Este acabou por ser afastado da corte pelo sobrinho, que era também seu genro. Em 1447, com efeito, Afonso V casara com dona Isabel, filha do duque de Coimbra e da condessa de Urgel, sua mulher.

Caído em desgraça no ano seguinte ao casamento da filha, o infante Pedro foi acusado pelo partido do duque de Bragança de ter envenenado a rainha dona Leonor, viúva de dom Duarte (que faleceu em Castela, no ano de 1445), e de ter mesmo tentado matar Afonso V, para sentar no trono o seu filho. O príncipe defendeu-se como pôde. Mas sem sucesso.

Em Outubro de 1448, Afonso V, o rei Africano, chamou Afonso à corte. Mas aconselhou-o a vir bem acompanhado de homens e armas, uma vez que tinha de atravessar as terras do Mondego, que pertenciam ao infante Pedro. O duque de Bragança marchou sobre Lisboa na Semana Santa de 1449, à frente de um exército de três mil homens, mas o duque de Coimbra não lhe consentiu a passagem pelos seus domínios, pelo que Afonso foi forçado a mudar o itinerário. E, quando chegou à corte, apresentou queixa contra o antigo regente. Reunido o conselho do rei para apreciar o protesto, foi o infante Pedro declarado rebelde e desleal ao monarca. E este decidiu ir submeter pelas armas o sogro e os seus partidários. Enfrentou-os e derrotou-os a 20 de Maio de 1449, em Alfarrobeira, perto de Alverca, numa batalha em que o antigo regente Pedro perdeu a vida.

Afonso viverá mais uma dúzia de anos, na companhia de sua segunda mulher, Constança Noronha, filha daquele conde de Gijón e Noronha que casou com a bastarda do rei dom Fernando. Morrerá, carregado de anos, em Chaves, no ano de 1461, riquíssimo, poderosíssimo, na plena satisfação das suas grandes ambições, como escreveu Oliveira Martins:

Teve o 1.º duque de Bragança uma copiosa e ilustre descendência, imperadores, reis, príncipes, fidalgos e plebeus. Dela fazem parte o actual duque de Bragança ??, é claro, mas também o rei de Espanha ou o rei dos Belgas, o grão-duque do Luxemburgo e os príncipes soberanos do Mónaco ou do Liechtenstein, o conde de Paris, o chefe da Casa de Áustria e o príncipe herdeiro da Jugoslávia. Mas a ela pertencem igualmente o cónego João Seabra e frei Hermano da Câmara (que, também por via bastarda, é descendente do rei Luís XV de França), os jornalistas Maria João Avillez, Miguel Sousa Tavares e Sofia Pinto Coelho, os fadistas Maria Ana Bobone ou Vicente e José da Câmara, além de vários nomes sonantes da política portuguesa como António Capucho, José Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Leonor Beleza ou Teresa Patrício Gouveia. E ainda o cineasta António-Pedro Vasconcelos, os cavaleiros tauromáquicos António e João Ribeiro Teles, o cozinheiro José Avilez e os actores Francisco Nicholson e Rui Mendes.

O Bastardo que Nunca Existiu?

Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom  Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III, imperador da Alemanha; (4) dona Catarina; e (5) dona Joana, que foi rainha de Castela pelo seu casamento com Henrique IV, o Impotente. Sobre isso, dom Duarte foi autor de dois livros, que lhe valeram o cognome de Eloquente: o Leal Conselheiro e A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela. No capítulo XXX da primeira destas obras, que trata Do pecado da luxúria, escreve o monarca:

Para guarda deste pecado, nosso primeiro fundamento deve ser amar e prezar virgindade e castidade quanto se mais puder fazer, havendo-a por grande virtude, que muito desejamos sempre haver e possuir. E porque todo o homem com grande diligência guarda o que muito ama e preza, quem esta virtude muito amar e prezar por a bem guardar se afastará das ocasiões e azos por que a possa perder.

Mas um dia terá havido na vida do rei Eloquente, um dia, pelo menos, em que ele pode não ter resistido à tentação da carne, cometendo o pecado da luxúria, que tantos sabedores e grandes pessoas tem vencido. E isto porque dom Duarte poderá ter sido pai de um bastardo». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

 Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) O outro bastardo de João I (que foi, aliás, o primeiro de todos os seus filhos, legítimos ou ilegítimos) nasceu entre 1370 e 1377, numa casa à Porta da Aira, junto ao Tejo, que era pertença de Rui Penteado. Afonso foi criado por Gomes Martins Lemos, seu aio, que morava em Leiria e nesta vila viveu até 1401, ano em que dom João I o legitimou para ele casar, a 8 de Novembro, com dona Brites (ou Beatriz) Pereira Alvim, única filha de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que era, também ele, um bastardo.

Com a mulher, que era condessa de Barcelos e Arraiolos, Afonso recebeu muitas e boas terras: a vila de Chaves e o seu termo, as terras de Penafiel, Basto e Montalegre e várias quintas, honras, coutos e julgados, além do título de conde que, a pedido do sogro, seu pai lhe concedeu. Tornou-se assim o mais opulento senhor do reino.

Do seu casamento nasceram três filhos. O primeiro foi Afonso, conde de Ourém e, depois, marquês de Valença (o primeiro marquez que ouve neste reino), que teve de uma Brites Sousa (que ele à hora da morte mandou chamar para receber por mulher e quando chegou era já morto) um filho, Afonso de Portugal, que terá sido bispo de Silves e foi com certeza bispo de Évora, sendo considerado uma das personagens mais interessantes do Renascimento português. Afonso, que morreu em 1460, ainda em vida de seu pai, teve três filhos bastardos, o primeiro dos quais, Francisco, será conde de Vimioso.

Nasceu depois dom Fernando, quasi parvo, a que chamavão epicondríaco e se fazia pote e outras cousas galantes. Foi o segundo duque de Bragança e casou com Joana de Castro, que lhe deu oito filhos. Por fim, nasceu Isabel, que casou com o infante dom João, seu tio, filho legítimo do rei de Boa Memória. Em 1405, depois de ter acompanhado sua irmã a Inglaterra, Afonso visitou várias cortes europeias. Por 1410, esteve em Jerusalém, para venerar o Santo Sepulcro, tendo sido honrosamente recebido pela senhoria de Veneza quando por lá passou.

Depois de ter sido decidida a conquista de Ceuta, em 1415 (ano em que enviuvou), Afonso levantou gente nas províncias da Estremadura e Entre-Douro-e-Minho, e com ela foi embarcar ao Porto. Assumiu o cargo de capitão da capitania real e, na conquista da cidade, diz Azurara, bateu-se valorosamente. De regresso a Portugal, recebeu de seu pai novas mercês, que dom Duarte acrescentou quando subiu ao trono, em 1433. Durante o reinado de seu meio-irmão gozou, aliás, de muito valimento. Mas, aquando da frustrada conquista de Tânger, em 1437, o seu conselho, que era contrário a ela, não foi seguido.

Após a morte do rei Eloquente, colocou-se ao lado de dona Leonor, a rainha viúva (e triste), a quem dom Duarte confiara a regência, na menoridade de dom Afonso V. E encabeçou o partido que se opunha à intervenção do infante dom Pedro (seu meio-irmão) no governo do reino e de que faziam parte o arcebispo de Lisboa (neto bastardo do rei dom Fernando) e muitos fidalgos da Beira e de Entre-Douro-e-Minho.

Quando, na sequência das Cortes de Lisboa de 1439, o infante tomou o poder, assumindo a regência, o bastardo quis dar-lhe luta. E esteve a ponto de o fazer em Mesão Frio. Mas Afonso, conde de Ourém, seu filho primogénito, evitou o confronto, logrando reconciliar o pai com o tio. Com esta reconciliação, que foi, aliás, de curta duração, ganhou Afonso, em finais de 1422, o título de duque de Bragança. Mas não era suficiente para aplacar a sua ambição.

Escreve Oliveira Martins: O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos, conseguiu penetrar também: subir, voando como um falcão, ou insinuar-se, rojando-se como uma serpente: trepar até sobre o cadáver do desgraçado de Alfarrobeira e, ganhando afinal, com o ducado de Bragança, um lugar ao lado dos duques de Viseu e de Coimbra, fazer desse posto o degrau que levou também ao trono os seus descendentes». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central»

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«Vários mapas, portulanos, planisférios e documentos escritos do final do século XV e princípios do século XVI, normalmente ignorados em Portugal, mostram claramente que, antes de 1490, navegadores portugueses visitaram e mapearam as penínsulas da Florida, Nova Escócia e Labrador. bem como a ilha da Terra Nova. Os mapas de Henricus Martellus e de Cristóvão Colombo, de 1490, são provas irrefutáveis disso mesmo.

Antes do ano de 1501, os portugueses também já tinham mapeado a costa leste dos actuais Estados Unidos da América, desde a foz do rio Mississípi no golfo do México, até Cape Cod, no Massachusetts, tal como é mostrado no mapa de Cantino e noutros mapas feitos nos anos seguintes com base neste planisfério inovador.

Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central, tal como mostra o globo terrestre desenhado num ovo de avestruz, o Ostrich Egg Globe, feito naquele ano. Antes de 1507, toda a costa ocidental do México, dos Estados Unidos da América e até uma parte da costa ocidental do Canadá estavam registadas em mapas secretos portugueses, que foram levados para os grandes centros de saber da Europa e serviram de base ao mapa-múndi de Martim Waldseemüller, feito naquele ano.

Estas provas evidentes da pré-descoberta portuguesa da América continuam a ser ignoradas, porque os actuais historiadores oficiais se recusam a rever os manuais escolares que eles próprios são encarregados de (e pagos para) actualizar, mantendo a mesma perspectiva de há décadas, e até de há séculos, quando não se encontrava disponível a informação que existe hoje sobre este assunto. O mesmo se aplica aos historiadores oficiais de outros países cujas investigações se debruçam sobre as precoces descobertas do Atlântico Ocidental, canadianos, americanos, mexicanos, argentinos, chilenos, etc…, que igualmente se recusam a rever os seus critérios e conclusões. Nesses países haverá certamente razões de política interna para manter a inércia e não rever os seus próprios manuais escolares, mas também existem razões de relacionamento entre estados que o impedem: rever a História de Portugal implicaria imediatamente a revisão da História de vários países da Europa Ocidental e das Américas, o que desencadearia muitos conflitos políticos e diplomáticos.

Entretanto, a verdade histórica permanece convenientemente sepultada debaixo de milhares de toneladas de manuais de literatura oficial, e arquivada em raros mapas ciosamente guardados em museus e também em colecções particulares de vários países, pouco estudados pelos historiadores desses países e muito menos ainda pelos historiadores portugueses...» In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura,

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central»

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«Vários mapas, portulanos, planisférios e documentos escritos do final do século XV e princípios do século XVI, normalmente ignorados em Portugal, mostram claramente que, antes de 1490, navegadores portugueses visitaram e mapearam as penínsulas da Florida, Nova Escócia e Labrador. bem como a ilha da Terra Nova. Os mapas de Henricus Martellus e de Cristóvão Colombo, de 1490, são provas irrefutáveis disso mesmo.

Antes do ano de 1501, os portugueses também já tinham mapeado a costa leste dos actuais Estados Unidos da América, desde a foz do rio Mississípi no golfo do México, até Cape Cod, no Massachusetts, tal como é mostrado no mapa de Cantino e noutros mapas feitos nos anos seguintes com base neste planisfério inovador.

Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central, tal como mostra o globo terrestre desenhado num ovo de avestruz, o Ostrich Egg Globe, feito naquele ano. Antes de 1507, toda a costa ocidental do México, dos Estados Unidos da América e até uma parte da costa ocidental do Canadá estavam registadas em mapas secretos portugueses, que foram levados para os grandes centros de saber da Europa e serviram de base ao mapa-múndi de Martim Waldseemüller, feito naquele ano.

Estas provas evidentes da pré-descoberta portuguesa da América continuam a ser ignoradas, porque os actuais historiadores oficiais se recusam a rever os manuais escolares que eles próprios são encarregados de (e pagos para) actualizar, mantendo a mesma perspectiva de há décadas, e até de há séculos, quando não se encontrava disponível a informação que existe hoje sobre este assunto. O mesmo se aplica aos historiadores oficiais de outros países cujas investigações se debruçam sobre as precoces descobertas do Atlântico Ocidental, canadianos, americanos, mexicanos, argentinos, chilenos, etc…, que igualmente se recusam a rever os seus critérios e conclusões. Nesses países haverá certamente razões de política interna para manter a inércia e não rever os seus próprios manuais escolares, mas também existem razões de relacionamento entre estados que o impedem: rever a História de Portugal implicaria imediatamente a revisão da História de vários países da Europa Ocidental e das Américas, o que desencadearia muitos conflitos políticos e diplomáticos.

Entretanto, a verdade histórica permanece convenientemente sepultada debaixo de milhares de toneladas de manuais de literatura oficial, e arquivada em raros mapas ciosamente guardados em museus e também em colecções particulares de vários países, pouco estudados pelos historiadores desses países e muito menos ainda pelos historiadores portugueses...» In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura,

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «… cheirando o mosto dos lagares, metendo nele os braços e tirando-os tintos do sangue da terra. O viajante tem destes devaneios, e espera que lhos desculpem, porque são de fraternidade»

 

jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) Torna o viajante a Vila Real, e agora, sim, cumprirá os ritos. O primeiro será Mateus, o solar do morgado. Antes de entrar, deve-se passear neste jardim, sem nenhuma pressa. Por muitos e valiosos que sejam os tesouros dentro, soberbos seríamos se desprezássemos os de fora, estas árvores que do espectro solar só descuidaram o azul, deixam-no para uso do céu; aqui têm todos os tons do verde, do amarelo, do vermelho, do castanho, roçam mesmo as franjas do violeta. São as artes do Outono, esta frescura debaixo dos pés, esta alegria maravilhosa dos olhos, e os lagos que reflectem e multiplicam, de repente o viajante cuida ter caído dentro dum caleidoscópio, Viajante no País das Maravilhas.

Dá por si olhando de frente o palácio. É uma beleza maltratada em rótulos de garrafas de um vinho sem espírito, mas que, por graça de Nasoni, seu arquitecto, se mantém intacta. Coisas assim não se descrevem, e, se é certo ser o viajante mais sensível às simplicidades românicas, também é capaz de não cair em teimosias estultas. Por isso não resiste a esta graça cortesã, ao golpe de génio que é a ocupação do espaço superior com uns pináculos à primeira vista desproporcionados. O pátio parece acanhado, e é, afinal, o primeiro sinal da intimidade interior. As grandes lajes de granito ressoam, o viajante sente ali o grande mistério das casas dos homens. Lá dentro, é o que se espera: o quadro, o móvel, a estátua, a gravura, uma certa atmosfera de sacristia galante lutando contra as ponderosas erudições da biblioteca. Aqui estão as chapas das gravuras originais de Fragonard e Gérard para a edição dos Lusíadas, e quem for fácil de satisfazer em matéria de arroubos pátrios encontrará autógrafos de Talleyrand, Metternich, Wellington, também de Alexandre, czar da Rússia, todos agradecendo a oferta do livro que não sabiam ler. Com todo o respeito, o viajante considera que o melhor de Mateus ainda é o Nicolau Nasoni.

O mundo não está bem organizado. Já não é só a complicada história do que falta a uns e sobeja a outros, é, para este caso de agora, o grave delito de não se trazer a esta estrada todos os portugueses de aquém e de além, para que nos seus olhos ficasse a formidável impressão destas encostas cultivadas em socalcos, cobertas de vinhas de cima a baixo, a grafia dos muros de suporte que vão acompanhando o fluir do monte, e as cores, como há-de o viajante, em prosa de correr, dizer o que são estas cores, é o jardim do solar de Mateus alargado até ao horizonte distante, é a floresta junto do rio Tuela, é um quadro que ninguém poderá pintar, é uma sinfonia, uma ópera, é o inexprimível. Por isso mesmo quereria ver nesta estrada um desfile ininterrupto de compatriotas, sempre por aí abaixo até Peso da Régua, parando para dar uma ajuda aos vindimadores de monte acima, aceitando ou pedindo um cacho de uvas, cheirando o mosto dos lagares, metendo nele os braços e tirando-os tintos do sangue da terra. O viajante tem destes devaneios, e espera que lhos desculpem, porque são de fraternidade». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

Viagem a Portugal. José Saramago. «Adiante é a Samardã, lugarejo entornado na encosta do monte, apostemos que está como Camilo a deixou. Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta…»

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) E este tem outro seu motivo especial, que está a norte, a acenar-lhe: Vem cá! Vem cá!, e tão imperioso é o apelo que o viajante, ao acordar, fica de repente nervosíssimo, dá-lhe uma grande pressa, e em dois tempos já lá vai na estrada. Não o espera mina de ouro ou encontro secreto, mas esta manhã é certamente gloriosa de brancas nuvens, grandes e altas, e um sol que parece ter endoidecido. A poucos quilómetros de Vila Real está Vilarinho de Samardã, e logo a seguir a Samardã. Hão-de perdoar-se ao viajante estas fraquezas: vir de tão longe, ter mesmo à mão de ver coisas tão ilustres como um palácio velho, dois vales, cada qual sua beleza, uma serra lendária, e correr, em alvoroço, a duas pobres aldeias, só porque ali andou e viveu Camilo Castelo Branco.

Uns vão a Meca, outros a Jerusalém, muitos a Fátima, o viajante vai à Samardã. Por esta estrada seguiu, a cavalo ou de traquitana, o doido do Camilo quando jovem. Em Vilarinho passou ele, palavras suas, os primeiros e únicos felizes anos da mocidade, e na Samardã se deu o assinalado caso do lobo que resistiu a cinco tiros e acabou comendo a metade da ovelha que faltava. São episódios de vidas e de livros, razão mais do que bastante para que o viajante ande à procura da casa de Vilarinho, perguntando a umas mulheres que lavam no tanque, e elas apontam, é logo adiante. Lá está o dístico, mesmo ao lado da ombreira da porta, mas esta casa é particular, não tarda que venha alguém. Ainda teve o viajante tempo para ouvir o zumbido das abelhas e seguir ao longo da casa, espreitando as varandas corridas, a desejar ingenuamente viver ali, e é aí que lhe aparece uma senhora a indagar destas curiosidades. É ela sobrinha-bisneta de Camilo, cumpridora parente que dá resposta cabal às perguntas do viajante, aos pés de ambos corre um regueiro de água, e as abelhas não se calam, há realmente momentos felizes na vida. Mas não duram muito. À delicadeza da senhora não pode pedir-se mais, tolo é o viajante se cuida que lhe vão oferecer a casa, nem há razão para isso, e assim retira-se, agradece, vai dar uma volta pela aldeia. Há um grande eucalipto, plantado em 1913, árvore enorme cujos ramos mais altos roçam a barriga das nuvens, as mulheres que lavam a roupa dizem: Boa viagem, e o viajante segue o seu caminho, confortado.

Adiante é a Samardã, lugarejo entornado na encosta do monte, apostemos que está como Camilo a deixou. Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta, esta casa viu-a Camilo deste mesmo sítio onde o viajante põe os pés, o mesmo espaço ocupado por ambos, em tempos diferentes, com o mesmo Sol por cima da cabeça e o mesmo recorte dos montes. Há moradores que vêm ao caminho, mas o viajante está em comunicação com o além, não liga a este mundo, perdoe-se-lhe por esta vez. O viajante alonga os olhos pela falda côncava do monte, procura inconscientemente o fojo onde a ovelha tinhosa serviu de engodo ao lobo esfomeado, mas percebeu a tempo que os tempos são outros, andam os lobos por mais longe, adeus». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

 JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

domingo, 11 de dezembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Vila Real não é cidade afortunada. Terá o viajante de explicar-se melhor para que não fiquem a querer-lhe mal os naturais, assim desacreditados imerecidamente»

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) A estrada segue por altas paragens, depois de logo à saída de Carrazedo deixar de acompanhar o rio Curros. São estas terras grandes desertos, andam-se quilómetros sem ver gente, e quando surge de repente uma povoação que não se espera chama-se Jou, que lindo nome, ou há modestos caminhos que levam a Toubres, a Valongo de Milhais, a Carvas, o viajante vai repetindo estas palavras, saboreia-as, nem precisa doutro alimento. Os nossos antepassados eram gente imaginativa, ou estava a nascente língua portuguesa muito mais solta em seu movimento do que está hoje, quando aí nos vemos em papos-de-aranha para baptizar novos lugares habitados, que graça tem Vila Isto, Vila Aquilo. Assim discorrendo, vai o viajante deitando olhos à paisagem, ao grande consolo destes montes e destas vegetações, bravas ou cultivadas, as pedras e os penedos, os gigantescos lombos das serras, até um homem se esquece de que há léguas de planícies lá para baixo.

O viajante entra em Murça, terra de muita fama e opinião, que teve em tempos um soberbo rasgo de humor ao pôr sobre pedestal uma enorme porca de granito, irmã maior das que se dispersaram por estes lados. Ali está no largo principal, toda em costados e lombos, em presuntos inesgotáveis, fungando a quem passa. Subiu do chiqueiro à pureza da chuva que a lava, do sol que a enxuga e aquece, no meio do seu jardinzinho que o município cuidadosamente defende. O viajante vai ao vinho, que é outra e não menor fama da terra, compra umas garrafas, e tendo assim suprido apetites futuros vai dar uma volta ao passado apreciando a fachada da Capela da Misericórdia, que é como um retábulo de altar trazido para a luz do dia. Estas colunas torsas, estas folhagens esculpidas com artes de botânico repetem modelos, copiam padrões, mas, de cada vez, renova-se o deslumbramento da pedra trabalhada por instrumentos de joalheiro ou filigranista. Uns pássaros de pedra empoleirados nos pináculos voltam a cabeça para trás, desdenhosos, ou terá o gesto um significado místico que o viajante não conhece. O mais certo, porém, é estarem-se já rindo das impaciências do viajante quando, passado o rio Tinhela, entrar no labirinto das não menos afamadas Curvas de Murça, esse faz-que-anda, mas-não anda, que leva a desejar ter asas para voar em linha recta. Enfim se chega a Vila Real, e, tendo o viajante andado por tão maus caminhos, pasma deste privilégio, a avenida de cintura, pista de corridas para bólides de fora e dentro. Há grandes contrastes na vida, e agora mesmo, ao entrar na cidade, viu o viajante o exagero de uma pedra de armas toda ornamentada de volutas e penachos, de tal maneira que mais avultam os enfeites barrocos do que as prosápias de brasão. Estaria o viajante tentado a ver aqui um sinal de modéstia se não fosse ser a pedra de tamanho descomunal, que muito esforço há-de ter custado ao mestre canteiro.

Casa Grande

Vila Real não é cidade afortunada. Terá o viajante de explicar-se melhor para que não fiquem a querer-lhe mal os naturais, assim desacreditados imerecidamente. Em verdade, que se há-de dizer de uma terra que tem, a nascente, Mateus, com seu solar de atractivo fácil, a poente, o Marão, a sul, o vale do Corgo e o outro, paralelo, por onde não corre rio de água mas onde escorre a doçura das vinhas? Viajante que por aqui se encontre, há-de por força andar distraído, a pensar no que lhe está tão perto». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

Viagem a Portugal. José Saramago. «Então, andas a viajar? O viajante trata muita gente por tu, mas não o inimigo. Respondeu secamente: Ando. Deseja alguma coisa? Torna o fulaninho…»

jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) E Carrazedo de Montenegro, valeu a pena? Tem duas estátuas de granito, quatrocentistas, preciosos exemplos do poder expressivo de um material pouco dúctil, mas que o viajante muito estima. Tem por cima duma porta lateral um S. Gonçalo de Amarante rude, tosco, de grande cajado, uma espécie de arrasa-montanhas ou mata-gigantes, colocado, o santo, sobre uma ponte de três arcos de vazamento apenas apontado. Terá Carrazedo de Montenegro muito mais, em gente, pedra e paisagem. Mas em Carrazedo de Montenegro foi o viajante pela primeira vez tentado pelo demónio, e desta sua vitória se alimentou em futuras tentações outras, que tornou a vencer. Nunca se sabe o que espera o viajante que se mete ao caminho, mas o aviso cá fica.

A estrada passa ali mesmo, rente à igreja, que é desmedidamente alta, uma enorme construção, tendo em vista não ser a freguesia nenhuma babilónia. Arrumado o automóvel, o viajante foi dando a volta ao templo, de nariz no ar, mirando as cantarias, à busca duma porta que lhe desse entrada. Enfim, quando já cuidava desistir ou procurar guia competente, deu com uma escada exterior e lá no alto uma porta meio cerrada. Seria o acesso para a torre sineira. Não chegou o viajante a confirmar a hipótese, ou não guarda lembrança, mas, tendo subido as escadas e empurrado discretamente a porta, deu três passos e achou-se no coro alto, excelente ponto de vista para abarcar toda a nave. O viajante debruçou-se do balaústre, demorou seu tempo, é um viajante que, podendo, vê devagar, e quando enfim se retirava, sem que vivalma na igreja estivesse de oração ou vigia, dá com uma imagem ali a um canto, uma Nossa Senhora com anjos aos pés, mesmo à mão de apanhar. Aproximou-se para apreciar melhor, e neste instante, vindo certamente do campanário, aparece-lhe o demónio, tão à vontade que nem trazia disfarce: era chavelhudo, rabudo, cabeludo e barbichudo, como mandam as regras. Diz o tentador: Então, andas a viajar? O viajante trata muita gente por tu, mas não o inimigo. Respondeu secamente: Ando. Deseja alguma coisa? Torna o fulaninho: Vinha dizer-te que esses anjos estão seguros só por um espigão. Basta puxar e ficam-te nas mãos. A Virgem, não te aconselho. É pesada, grande, e viam-te à saída.

O viajante zangou-se. Filou o diabo por um cor… e disse-lhe das boas: Ou você desaparece já da minha vista, ou leva um pontapé que só pára em casa. Isto é, no inferno. O diabo tem aquele aparato todo, porém, no fundo, é um cobarde. Tinha o viajante mais para dizer, mas ficou com a palavra no ar: diabo, viste-o tu. Chocadíssimo com o atrevimento do mafarrico, o viajante encaminhou-se para a saída. Abriu a porta, desceu os primeiros degraus, olhou a povoação ali do alto. Não havia ninguém à vista, nem passavam carros na estrada. Então o viajante voltou atrás, tornou a entrar no coro, chegou-se à imagem que piedosamente o fitava, e fez o que o diabo lhe ensinara: agarrou num anjo, puxou-o, e ficou com ele na mão. Durante três segundos, céu e terra pararam para ver o que ia acontecer: perdia-se aquela alma, ou salvava-se? O viajante tornou a colocar o anjo no seu lugar, e desceu a escada, enquanto ia resmungando que não são maneiras próprias de a igreja empalar assim os tenros anjinhos como se fossem uns ganimedes quaisquer. Riu-se a terra, corou o céu envergonhado, e o viajante continuou viagem para Murça». ». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

 Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Os poetas dos cancioneiros desavinham-se entre si, em pequenas escaramuças verbais, donde a sinceridade às vezes batia as asas»

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Sátiras contra os Favoritas e Magnates

«(…) No conflito entre Sancho II e o conde de Bolonha, alguns alcaides hesitavam e vendiam os castelos, sob qualquer pretexto. Assim fez Fuão, que tinha mantimentos e entregou o castelo con mínguas que avia. Não atacam um homem de tal coragem. À falta de jornais, estes poetas exprimiam a consciência do povo. Faziam troça dos arranjistas, como faziam troça dos adiantados novatos ou traidores, encarregados de governar e defender as comarcas fronteiriças. Os ricos-homens andavam também na boca do mundo trovadoresco. Gil Pérez Conde troça dum ricome, que em tudo mudou. Até de valente se tornou cobarde, sem aguentar as lazeiras dos tempos idos, quando nada lhe metia medo. Noutro lugar, investe contra um magnate que tira e não dá. Nuno Fernandez Torneol cita um rico-homem mentireiro a quem falara no caminho de Valhadolide para Toledo. Até à tropa dava ele mentiras por sa soldada.

Entra certo rico-homem em Segóvia e logo baixa o preço das coisas, de dez soldos para cinco, resmunga Pero da Ponte. Que remédio, pois era o rico-homem a comprar! Outros eram ignorantes, mandriões, avarentos e ninguém os queria para nada. Só pensavam em ajuntar, como certo rico-homem que o mesmo Pero da Ponte imagina pôr à venda, sem ninguém lhe pegar. E porquê? Ricom’, que sabedes fazer? E ele respondia: Coisa nenhuma (ren), a não ser comprar herdades, se alguém mas vende. E aqui temos nós um protesto contra certos latifundiários, para quem toda a terra era pouca, por muita que fosse.

Longo e de grande significado social é este género de cantigas contra os homens do poder e do dinheiro, luta de raízes bem medievais, a partir da pregação nos púlpitos. E o estendal alargava-se. Certo rico-homem não pagava os serviços duma pessoa de família. Outro contrariava o casamento da filha, dona Urraca Abril. Outro ainda não conseguiu ter filhos. Seria melhor casar com uma tendeira de nome Coelha, para ter um filho cada mês. E não falamos dos comendadores. A um deles acusavam-no de ter feito perder a terra a um escudeiro. Outro andava metido com a mulher confiada à sua protecção. Seria falsificar a história generalizar tais factos. As sátiras, as caricaturas e os panfletos ajudam a fazer a história. Mas não bastam, só por si. Concluímos, no entanto, haver naqueles tempos uma grande liberdade verbal e que os trovadores gozavam, em certa maneira, dos privilégios dos bobos da corte. Talvez os ameaçassem com um chicote, mas eles iam falando.

Nestas cantigas contra os grandes, uma das mais bonitas e ágeis é a que Fernan Soárez Quinhones compôs contra o fidalgo Lopo Anaia, femeeiro e ladravaz. Que o rei o conserve junto de si, em Sevilha, e não se vá embora. Porquê? Porque, Se el algur acha freiras, / ou casadas ou solteiras, / filha-xas pelas carreiras. E se gritam, ficam com nódoas negras na cara. Fique em Sevilha, porque, onde passa, toma tudo para si. E o mesmo fazia o pai dele!

Sátiras a Trovadores e Jograis

Os poetas dos cancioneiros desavinham-se entre si, em pequenas escaramuças verbais, donde a sinceridade às vezes batia as asas. Transformavam-se, então, em mero ludismo, aliás útil para os divertir a si e ao público. Havia ataques de costumes menos limpos, debatiam-se questões de estética, verificavam-se choques de ordem social e diziam-se graças. E já não falamos de questões meramente pessoais. Comecemos por simples graças e disputas para divertir. A tenção entre Afonso Sánchez e Vasco Resende é um tanto sibilina. O tema é este: A senhora cantada pelo segundo poeta morreu de facto ou isto não passou de simples metáfora? Porque fazia ele versos de amor a quem já morrera? Afonso Gómez, jogral galego, fala claro e diz a Martin Moxa: Tão velho sois que, decerto, comestes alguna erva que vos faz viver / tan gran tempo, que podedes saber / mui ben quando naceu Adan e Eva! Os vossos filhos barbados vêm de tempos antigos. Ora dizei-me, de que idade éreis vós, quando Almançor andou por aí a fazer estragos? Assim Deus me perdoe, quando nascestes vós? Antes do tempo em que encarnou Deus en Santa Maria?» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) Das praias do Algarve, onde passou amiúde a residir, o Navegador perscrutava as notícias da Berberia, o comportamento dos defensores de Ceuta e a eficiência dos meios afectos à ponte naval entre Lisboa, o Algarve e Ceuta. No cerco de 1418, ele próprio e o infante João embarcaram em auxílio dos sitiados. Um dos barcos ocupados no serviço de Ceuta, no regresso ao Reino, chegou à ilha do Porto Santo. A dimensão atlântica somava-se então à empresa marroquina. Os recursos afectos à manutenção de Ceuta eram muito elevados. Entre eles figuravam parte dos consignados às Ordens Militares e aos bispados do Reino. Em 1419, a pedido de João I, o papa Martinho V decidiu que todos os arcebispos, bispos, demais prelados e pessoas eclesiásticas, seculares e regulares, contribuíssem com 9000 florins anuais, durante três anos, para ajuda à nova cidade cristã. A dificuldade em manter uma colónia europeia em África começou a recortar-se com nitidez: pagamento da guarnição, abastecimento em armas e víveres, manutenção da armada no Estreito, dificuldade no recrutamento de fronteiros e moradores, estabelecimento de uma administração permanente em Ceuta e no Reino, enfim, todo o lançamento da estrutura necessária aos territórios de além-mar. João I procurou suscitar o apoio de outros monarcas cristãos para a guerra contra os Mouros e, para isso, escreveu a Afonso V, rei de Aragão e da Sicília; a resposta, dada em 1420, adiava o auxílio para ocasião favorável. O abastecimento de cereais a Ceuta foi, frequentemente, dado a contratadores portugueses e estrangeiros que iam buscar o trigo a Castela, Sicília e outros lugares. Foi o caso do contrato, feito em 1423, com Luís Eanes, outros portugueses e dois genoveses, Bartholomeu Lomellim e Bartholomeu Baraboto, de 2000 moios de trigo para Ceuta. Surgiu então em Portugal um debate complexo a que podemos chamar a questão de Ceuta, que seria alargado mais tarde à escolha dos diferentes rumos que a expansão poderia assumir. Os dirigentes portugueses preocupavam-se com as despesas permanentes que a manutenção de Ceuta exigia, procuravam soluções expeditas e menos onerosas e questionavam-se sobre o futuro da colónia. Assistiu-se à internacionalização do problema, em que foram parte interessada os países ibéricos, o Papado e os meios financeiros europeus, atentos aos projectos carenciados de avultados recursos. De tudo isto nos dá conta a famosa carta que o infante Pedro escreveu de Bruges, em 1426, a seu irmão Duarte: Do que sentya dos feitos de Cepta per algua vez, senhor, vo-lo razoey; mas a conclusão é que, emquanto asy estiver ordenada como agora está, que é muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro. E, segundo eu senty d'alguns bons homens de Inglaterra de autoridade e daquy, deixam já de falar na honrra e boa fama que é em a asy terem, e falam na grande indiscrição que é em a manterem com tam grande perda e destruyçom da terra, do que a mym parece que eles hão muyto peor informação do que ainda é. O remedio desto, senhor, per muytas vezes o falastes e o sabeis melhor do que vos eu poderia escrever; parece-me, senhor, que farieis serviço de Deus e voso ordena-lo sem delonga. A solução proposta pelo infante  Pedro não está expressa na carta, mas já fora discutida com o herdeiro da coroa. O infante das Sete partidas beneficiava das viagens pela Europa para colher ensinamentos sobre a forma como ali se considerava a conquista de Ceuta; mostra-se um crítico da situação, mas não podemos julgar, em termos definitivos, se era contra a guerra de África e pelo abandono de Ceuta se, pelo contrário, propunha a conquista de novos e mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos, 

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) O novo florão nobilitário, situado em solo africano, fazia tornar menos pobre a comparação com o título dos émulos castelhanos dos reis portugueses... Depois da conquista, João I reuniu o Conselho para decidir se deveria manter a posse de Ceuta. A questão figura na Crónica da Tomada de Ceuta, escrita por Gomes Eanes Zurara cerca de 1450, e parece ter sido uma mera formalidade. Como seria possível o abandono de Ceuta depois do enorme esforço militar e financeiro a que o Reino se submetera? A justificação da pergunta parece ser outra. A empresa era muito arriscada; concebida com muita fé e persistência durante vários anos, não deixava de ser um acto de grande temeridade embarcar o rei, os três filhos mais velhos e a grande nobreza do Reino ao mesmo tempo. A situação de insegurança em que Portugal se encontraria em caso de derrota ou de tempestade em que a frota soçobrasse, a incerteza sobre o desenlace da viagem e da batalha e a necessidade de segredo, são razões que explicam a ausência de planeamento para depois da vitória e a questão levantada por João I no Conselho. A resposta, defendida pelo Rei, era óbvia: manter Ceuta portuguesa.

A escolha do capitão suscitou algumas dificuldades porque os principais nobres não estavam dispostos a permanecer em local tão perigoso depois da retirada da frota. O oferecimento que de si próprio fez Pedro Meneses e a subsequente valorização da sua casa oferecem um exemplo da nova situação social portuguesa: a ascensão na escala hierárquica da nobreza através dos serviços prestados no exército e no funcionalismo ultramarino. O monarca João I permaneceu em Ceuta durante alguns dias para prover a cidade de meios de defesa adequados aos ataques que os Mouros não deixariam de fazer. Distribuiu benesses pelos companheiros mais arrojados, como a confirmação do couto de Leomil e a doação de Numão ao marechal Gonçalo Vasques Coutinho. Ao regressar ao Reino, desembarcou em Tavira, cidade onde fez os dois filhos, Pedro e Henrique, respectivamente duques de Coimbra e de Viseu. Ceuta iniciou então a vida que viria a ser habitual nas cidades portuguesas do Norte de África, sujeitas a incursões mouras feitas de surpresa ou a assédios mais ou menos prolongados. Tratava-se de uma ocupação restrita à cidade murada, sendo os arredores aproveitados para recolher lenha, fazer pastar o gado ou entrar em território inimigo. Apesar das dificuldades, o campo vizinho da fortaleza era cultivado, embora as colheitas fossem incertas, porque podiam ser roubadas ou destruídas pelos Mouros. Alguns locais, em particular junto da costa, foram doados pelo rei a particulares, como Bolhões e o Castelo de Larotona. A dinastia merínida, então no poder em Marrocos, atravessava um período de acentuado declínio, pelo que a reacção ao ataque português demorou alguns anos; neste período consolidaram-se as defesas da cidade e a guarnição portuguesa habituou-se à guerra em África, com entradas profundas em Marrocos, e à actividade de corso a partir do porto de Ceuta. A ocupação da cidade magrebina granjeou fama internacional ao monarca português; findavam também os cuidados que a preparação da frota e o segredo sobre o seu objectivo ocasionaram nos países que se consideravam alvos potenciais. Nos meios eclesiásticos saudava-se o facto de poder ser ocupada, efectivamente, uma sé na Berberia. O Dr. Gil Martins, em 1416, no final do discurso que proferiu no Concílio de Constança, sublinhava a importância de Ceuta para a conquista futura da África: portus et clavis est totius Africae [...]. No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon. Depois da intervenção que tivera na preparação da frota e no ataque a Ceuta, eis o Infante investido na direcção da empresa ultramarina, então confinada àquela cidade de Marrocos. O trabalho maior a desenvolver era o da mobilização dos recursos necessários à guarnição da praça e o seu transporte». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela…»

 

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 O Interesse pelo Norte de África

«(…) A primeira conquista no além-mar obrigou à preparação de uma frota capaz de transportar numeroso exército equipado com armas e abastecimentos. Foi necessário mandar construir, comprar e alugar muitos navios. As notícias da época registam galés, galeões, naus, barcas, fustas, cocas e barinéis, entre outros, cuja variedade revela a inexperiência neste género de combate, a insuficiência dos recursos e a dispersão dos seus locais de origem. Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela; esse treino militar deveria ser sensível, sobretudo, ao nível dos comandos, como o demonstra a presença do próprio rei João I, do condestável Nuno Álvares Pereira e homens encanecidos cuja memória perdurou no parecer de João Gomes Silva, alferes do Reino: Ruços, além! É conhecida a presença de estrangeiros na expedição, entre os quais ingleses, alemães, polacos e franceses, que, tal como o exército português, ignoraram, até à passagem por Lagos, qual o destino final da empresa a que prestavam colaboração. A frota foi reunida em duas cidades, Lisboa e Porto, que desta forma assumiam simultaneamente o papel de centros mais importantes do País. A expansão obrigava os Portugueses a acantonarem-se próximo do mar, gerava os seus pólos mais dinâmicos e iniciava o virar de costas a Castela, que perdurou até aos nossos dias. O infante Pedro, filho segundo, ocupou-se dos preparativos em Lisboa e o infante Henrique, filho terceiro, no Porto; o Rei e o herdeiro do trono assumiram a direcção da empresa.

Depois de reunida a frota em Lisboa, um infausto acontecimento poderia ter alterado o plano da expedição: em 18 de Julho faleceu de peste a rainha Filipa de Lencastre, que, antes de morrer, abençoara a expedição. A vontade política era tão determinada que apenas cinco dias mais tarde foi dada ordem de partida; no dia 25 de Julho os navios deixaram a barra do Tejo. Em 27 de Julho, em Lagos, pela voz do capelão real frei João de Xira, foi anunciado o destino da frota: Ceuta. A cidade africana foi presa fácil dos Portugueses, bem preparados para a sua conquista. O Rei e o infante Pedro foram cruzar o mar em frente da cidade, em manobra de diversão; o infante Henrique comandou as forças que desembarcaram no lado do morro de Almina e entrou na cidade. Era o dia 21 de Agosto de 1415, verdadeiro acto do nascimento da expansão portuguesa. Os vencedores, senhores da cidade, saquearam as casas, quintais e terrenos, à procura de riquezas; parece que a colheita foi rendosa porque o assédio não fora esperado pelos Mouros e estes pouco tempo tiveram para fugir. A mesquita foi limpa e consagrada a Nossa Senhora da Assunção. No minarete colocaram-se dois sinos encontrados na cidade e outrora roubados em Lagos pelos corsários. Seguiu-se a cerimónia de armar cavaleiros os infantes e muitos outros nobres: feliz ocasião de honrar a nova geração do poder e os altos infantes que asseguravam o futuro da dinastia iniciada por João I, a cujo título de rei de Portugal e do Algarve era agora acrescentado o do senhor de Ceuta». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia»

 

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O Interesse pelo Norte de África

«(…) A conquista das cidades e as incursões nos campos e aldeias eram aproveitadas para recolher o produto do saque de tudo o que tinha valor: alfaias, gado, cereais. Cada um dos contendores procurava fazer cativos, a fim de obter o dinheiro dos resgates. As praças serviam de base a uma importante actividade de corso feita ao serviço do rei ou dos nobres. Barcos pesqueiros ocupavam-se na exploração dos ricos bancos da orla marítima marroquina. Os períodos de paz eram aproveitados para as trocas comerciais com os diferentes produtos do país, os importados do Sudão, como o ouro e os escravos, ou as especiarias do Oriente. A indústria de tecidos, em particular os destinados ao vestuário e utilizados também para a cobertura durante a noite, assumiu uma importância decisiva depois da instalação dos portugueses em Arguim (cerca de 1448) e na Mina (depois de 1481) porque os Negros estavam habituados a utilizá-los. Ficaram célebres os lambéis como referiu Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo: uma roupa feita como mantas do Alentejo, que tem uma banda vermelha e outra verde e outra azul e utra branca, as quais bandas são de largura de dois e três dedos (...) E esta é a principal mercadoria por que se em Axem resgata o dito ouro, além de outras de menos valia que também praticamos. A obtenção de cereais em Marrocos foi muito aleatória porque estava dependente das colheitas, que nem sempre eram abundantes, e da situação de guerra ou de paz com as diferentes praças. Em 1414, um ano antes da conquista de Ceuta, os Portugueses venderam trigo no reino de Fez. Durante a maior parte do século XV assistimos ao abastecimento das praças lusitanas a partir da Europa. A paz de 1471, o protectorado na região de Azamor, Safim e Meça e o período dos mouros de pazes trouxeram tributos em cereais e outros produtos, além do incremento das compras e do comércio em geral. A reacção xarifina comprometeu quase definitivamente essa época promissora. Os diferentes estratos sociais tinham vantagens económicas com a colonização das praças da África do Norte. A exploração das terras era fonte de rendimentos. Afonso V procedeu a generosas doações no território que lhe pertencia nos termos da paz de Os cargos militares e civis eram asperamente disputados. Os reis favoreciam com moradias, comendas e outras benesses os que se dispunham a servir em África. Os burgueses interessavam-se pelos contratos de abastecimento das diferentes praças, associando-se, se necessário, a comerciantes estrangeiros. Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia. Grande número de particulares, pequenos comerciantes, pescadores e artesãos mantinham relações privilegiadas com Marrocos. Eram homens comprometidos com o abastecimento em víveres, armas, materiais de construção e outros produtos necessários à vida naquelas fronteiras e ao provimento das armadas que ali se dirigiam. Os pescadores algarvios habituaram-se a frequentar os ricos mares das costas marroquinas. O contrabando de todo o género de mercadorias, incluindo as proibidas, como as armas florescia nos portos portugueses, em especial do Algarve. Procuravam obter produtos diversos, como as especiarias, que, embora em quantidades diminutas, afluíam aos mercados norte-africanos. Este comércio fomentava o gosto pelos produtos exóticos que se desenvolvia em Portugal e em toda a Europa». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

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JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos, 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder…»

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 Sátiras contra os Favoritas e Magnates

«(…) Favoritos do rei, ricos-homens e outros magnates levavam também a sua conta por tabela. Martin Moxa, numa tenção, pergunta a um cortesão-poeta se os privados duram muito na privança. É que só tomam para si. Quem não lhes dá, escusa de esperar favor do rei. O outro observa que não sabe novelar e só diz: estão cada vez mais poderosos, as suas rendas aumentam e o povo empobrece. Empobrece e emigra: e, con proveza, da terra sair. Parecem os tempos de hoje. Martin Moxa zanga-se ironicamente. Morais na corte e nada sabeis! Quem lá vai, algo deve levar. Caso contrário, passa por tolo. Que ele dê, porque os privados, sem isso, nada fazem.

O conde Pedro de Portugal insistia no mesmo ponto: seu saber é juntar aver. Servir o rei nada vale. Peitas, isso sim! E se el-rei, por boa inclinação, procura fazer bem, levam-no a mal. Um dos grandes privados, na corte del-rei Afonso III, era o chanceler Estêvão Anes. Que miopia a dele! Mas caiu bem no goto do rei, nota Joan Soárez Coelho, jogando com o duplo significado de cair. Bendita miopia que o fazia cair! Míope?, pergunta Roí Queimado. Talvez. Mas ouve bem. Cuidado! E erguem-se agora, contra o favorito, três cantigas violentas de Airas Pérez Vuitoron, insinuando vícios homossexuais, desfazendo-lhe na miopia e insistindo na sua crueldade: não há homem nem mulher que non queirades trager come can. A melhor destas sátiras baseia-se na miopia: Comi ontem em casa do rei. Nunca os vossos olhos viram tal pão nem vinho como eu lá bebi! De dez anos para cá, nunca vistes um capão como aquele, nem melhor cabrito nem tal lombo de vinh’e d’alhos e de sal. Não, nunca vistes um homem comer como eu comi. Não me faltou nada: non vistes nen avedes de veer. Chega a ser cruel.

Porém Vuitoron era partidário del-rei Sancho II. Daqui nasce parte do seu ódio a Estêvão. E tem, ou parece ter, o gosto equívoco de insinuações homossexuais. Estêvão da Guarda era de Aragão. Isso não o impedia de atirar remoques ao seu patrício Miguel Vivas, chanceler-mor del-rei Afonso IV e bispo eleito de Viseu, a partir de 1330. Ironicamente, jogueta com o verbo privar: conforme o proveito que me vier da vossa privança, rogo eu a Deus que sejades privado.

O favor real fazia perder a cabeça a muita gente e o monarca tinha de os pôr no seu lugar: Pois Fulano mais vale sendo pobre e sem poder, então que volte ao que era e torne a ganhar juízo. Pertence ainda a Estêvan da Guarda esta graça posta na boca do rei. Voltando, porém, a Miguel Vivas, temos contra ele um serventês a descrever-nos a fisionomia do bispo, como dum grande beberrão, de penca vermelha:

Eu convidei un prelado a jantar, se ben me venha.

Diz el en est’: E meus narizes de color de bereguenha?

Vós avede-los alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

O jantar está guisado e, por Deus, amigos, trei-nos.

Diz el en est’: E meus narizes color de figos çofeinos?

Vós avedes os alhos verdes, e matar-m’íades con eles!

Alhos e não olhos. Quem matava não eram uns lindos olhos verdes, mas esses alhos que levavam um homem a comer de mais. E o bispo vai-se preocupando com as cores do nariz: E o meu nariz cor de escarlata roxa? E o meu nariz cor de rosa bastarda? E o meu nariz cor de púrpura escura? E o meu nariz cor de amoras maduras?» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur»

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Afonso X e os soldados

«(…) As cantigas de escárnio e maldizer também tinham o seu quê de literatura panfletária, aqui e além. Afonso Fernández Cubel queixa-se do rei e da sua mão fechada. Não lhe pagava os serviços nem o recompensava dos prejuízos:

el do seu aver non me quer dar

nen er quer que eu viva no alheo;

e eu non ei erdade de meu padre.

Era, pois, um cavaleiro pobre. E ainda pior, o rei prejudicara-o nos haveres que herdara da mãe. Passava fome e em mau dia nascera. Nem mercê, nem soldada! Não sabemos de que rei se trata aqui. Contudo, Gil Pérez Conde, cavaleiro e poeta, esse queixava-se claramente do rei Afonso X. Não pagavam depressa aos que entravam na campanha da Andaluzia. Que lhe dessem um fiador, nem que fosse judeu. E noutra cantiga, lembra como brilhara na guerra mas que, na paz, a sua fortuna se pusera a andar a pé de boi. Na terceira, reclama ao rei os vossos meus maravedis, a vossa mia soldada, senhor Rei! Expressão maliciosa e bem achada: vossa, porque a tendes na mão; minha, porque me pertence. Na quarta cantiga, em forma de alegoria, conta-nos que andara em busca do Amor, primeiro no paço do rei e depois nas casas dos privados. Ninguém sabia onde ele estava. Partira e não voltara. Nas tendas dos infanções e nas dos que os serviam, todos diziam: Non sei! Só o encontrou entre os freires do Templo.

Era português este Gil Pérez Conde, e exilara-se para Castela após a subida ao trono do conde de Bolonha. Em má hora se exilara: non fui vosco en ora bõa! Tornara-se vassalo de Afonso X, servira-o em várias cidades e sempre lhe minguara a generosidade real. Podemos resumir esta polémica num provérbio: Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. O rei vivia, de facto, em permanentes dificuldades económicas e quem mandava no mundo era o dinheiro: Nummus honoratur, sine nummis nullus amatur». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei…»

 

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 Afonso X e os soldados

«(…) Porém, a obra-prima do mundo satírico do rei Afonso X nasceu quando este andava pelos 60 anos de idade: uma poesia fresca e ágil, embalada pelo sonho duma vida livre das obrigações do governo. Com tintas que parecem dum poeta moderno, diz Rodrigues Lapa, Afonso X põe-se no estado psicológico de quem despiu o manto real e quer ser outro, um negociante, por exemplo, a navegar livremente no mar livre, longe da terra, da política e da guerra: Estou farto do canto das aves, do amor e das armas. Antes um bom galeão que me afaste depressa deste diabo de terra cheia de lacraus, cujo aguilhão senti na alma! Juro por Deus que não andarei de capa, nem com barbas, armas ou razões de amor! Tudo isso me cansa e, volta e meia, me faz chorar. Antes um pequeno barco e ir ao longo da costa, a vender azeite e farinha, para evitar o veneno dos lacraus! Não me alegro de atirar lanças ao tabulado nem de bafordar! De noite andar armado e fazer rondas, vontade não tenho. Gosto mais do mar, pois já fui marinheiro. E por causa dos lacraus, prefiro tornar ao que fui antigamente! Não me falem de guerras! Antes andar sozinho e ir, como um mercador, em busca dalguma terra onde não haja lacraus negros nem pintalgados!

Há outras cantigas de troça, contra vassalos sovinas, poetas plagiários ou de expressão menos ortodoxa, pedinchas, maus cantores, fidalgos ridículos no trajar, manhosos, etc. Algumas dessas cantigas de escárnio têm graça. Contudo, afastam-se do núcleo central da guerra andaluza. Neste ciclo da guerra andaluza, entram ainda outros poetas, por exemplo Gil Pérez Conde: Aos cavaleiros e à tropa dos concelhos, ordenou o rei que não comessem galinha, durante a campanha, mas, sim, vacas e carneiros, porcos frescos, cabritos e gansos. Com efeito diziam os adivinhos que, se comessem galinha, seria perdimento da terra.

Lembra-nos isto a frase dum poltrão, em Tirso de Molina, na sua comédia Dona Beatriz da Silva: soy una galina, isto é, sou um cobarde. E por cada um ser aquilo que come, proibira el-rei que os soldados comessem galinha! Gil Pérez ajunta, ironicamente, que muitos a comeram. Por seu lado, Pero Gómez Barroso volta-se também contra um rico-homem que faltou na guerra e só veio na paz. E questiona com o rei, por não lhe ter dado ocasião de o servir! Fica-nos a impressão de que poetas e fidalgos pouco temiam Afonso X, o Sábio. Este e Garcia Pérez disputam, entre si, acerca duma peliça de cor, já um pouco velha. Que a atirasse à estrumeira, aconselha Garcia Pérez. E o rei não se zanga. Responde até com mesura» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

 Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,