terça-feira, 18 de abril de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Havia já algum tempo que não o via por casa. As viagens a Constantinopla tinham-se tornado frequentes na vida de Vahan Sarkisian e Kaloust habituara-se a observá-lo a partir para a capital com os carregamentos que lhes chegavam das caravanas…»

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O Homem de Constantinopla

«(…) O livro com a capa a ostentar o título Hayastan, ou Arménia, com a chancela do patriarcado e leitura recentemente tornada obrigatória na escola arménia de Trebizonda, estava aberto na página que relatava como o rei Tiridates 3º adoptou o cristianismo como religião oficial do país no ano sagrado de 301, o que fez da Arménia a primeira nação cristã do planeta, antes ainda da Etiópia e do Império Romano. A informação confirmava o que o pequeno Kaloust escutara ocasionalmente nas conversas entre adultos e na missa, mas não pôde naquele instante aprofundar o assunto porque o troar aterrorizador de uma voz familiar lhe interrompeu a leitura. Veron! Era o pai que entrava no salão. Obedecendo a uma ordem havia muito interiorizada, Kaloust levantou-se de um salto, juntou os calcanhares e fez uma vénia na direcção do chefe da família, como procedia sempre que ele aparecia na sua presença.

Havia já algum tempo que não o via por casa. As viagens a Constantinopla tinham-se tornado frequentes na vida de Vahan Sarkisian e Kaloust habituara-se a observá-lo a partir para a capital com os carregamentos que lhes chegavam das caravanas provenientes do Cáucaso e da Pérsia. Parece que os tapetes faziam grande sucesso em Constantinopla e que, à custa de ofertas de magníficos exemplares finamente trabalhados, o pai conseguira excelentes contactos no palácio, ao ponto de o sultão em pessoa, por proposta de um conselheiro, o ter nomeado vilayets da Trebizonda e colector de impostos nos vilayets da Mesopotâmia. Mais do que uma honra, esses cargos revelaram-se imensamente lucrativos, tendo reforçado os cofres da família à custa do muito bakshish com que era presenteado em troca dos favores mais ou menos legais que ia concedendo no decurso da sua destacada actividade pública.

Dessa vez Vahan regressava de uma viagem à capital e vinha acompanhado do avô Grigoris, ambos de fez vermelho e bengala e a fumarem charutos aromáticos. Os dois homens cruzaram o salão e instalaram-se nas cadeiras que no ano anterior tinham chegado expressamente de Veneza para mobilar a casa. Ao escutar a voz masculina a trovejar pela casa, a mãe acorreu à sala. Que se passa? Passa-se que o teu marido chegou, mulher!, urrou Vahan com uma gargalhada. E veio com o teu pai!

Vendo o seu próprio pai no salão, Veron estacou e fez, também ela, uma vénia. Senhor. Mas os dois homens não estavam para formalidades. Vinham num estado de grande excitação e depressa a família percebeu porquê. É que traziam novidades na forma de um estranho objecto com a parte baixa feita de metal e a de cima de vidro afunilado. Olha para isto!, exclamou Vahan enquanto exibia o engenho. Fazes ideia do que é? A mulher fixou o objecto com uma expressão intrigada. Um vaso? Os dois homens riram-se com gosto e o dono da casa voltou o objecto para o filho. E tu, Kaloust? Sabes o que é? O pequeno permanecia de pé, como uma sentinela, e sabia que só poderia falar quando o pai lho consentisse. O que sucedeu então. Observou a novidade com cuidado, esforçando-se por lhe descortinar a função. Queria brilhar diante do pai, mostrar-lhe que os seus conhecimentos iam muito para além do que lhe ensinavam na escola, embora não tivesse resposta para a pergunta. Dava a impressão de ser uma engenhoca qualquer, mas a verdade é que nunca vira nada de semelhante na sua curta vida pelo que teve dificuldade em identifica-la. Parece um ... um alambique. Nova gargalhada dos dois homens, ambos imensamente divertidos com o efeito do engenho que haviam trazido para casa.. É uma vela!, anunciou Vahan com orgulho. Serve para iluminar. Mulher e filho cravaram o olhar estupefacto no objecto, na dúvida sobre se o dono da casa lhes estaria a pregar uma partida ou a falar a sério. Uma vela?, admirou-se Veron com um esgar desconfiado. Onde está a cera? Não tem cera, retorquiu o marido. É uma vela moderna. Chamam-lhe candeeiro e é alimentado a óleo mineral». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte,

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A Conspiração do rei James. Phillip Depoy. «Num beco lateral a outra rua em Cambridge, nesse exacto momento, uma lâmina prateada captou a luz do luar. Depois perfurou o coração de um idoso»

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Cambridge, Inglaterra

«(…) Após assegurar-se de que Marbury fora embora, Samuel desabou na cadeira. Isaiah exalou um longo suspiro. O que era chamado de Daniel foi o primeiro a tirar a máscara. Enxugou o rosto com ela, e a mão tremia enquanto o fazia. Graças a Deus esse negócio terminou e posso retornar logo a Roma. Bem, apenas..., pelo menos por enquanto Samuel olhou para Isaiah, a máscara ainda no lugar. Nosso irmão cardeal Venitelli não tem estômago para alcovas e sombras, suspirou Isaiah. Vejam como fiquei empapado de suor, e, no entanto, que lugar frio é a Inglaterra. O cardeal Venitelli atirou a máscara molhada na mesa. Não precisa me chamar de Daniel agora. É , grunhiu Isaiah. Estamos a sós. Claro, Venitelli estremeceu e persignou-se, sem pensar, levando os braços apertados ao peito. Devo dizer aos dois senhores que sinto muito pela história de Marbury. Parece, por tudo o que descobri dele, um homem inteligente. Como conseguiu enganar-se por tanto tempo?

É protestante, cuspiu Samuel, desdenhoso. Confia em nós, por que não deveria? Cultivamos-lhe a confiança durante vários anos para nossos fins. Ele foi nosso instrumento, sem o saber, ao destruir a Conspiração Bye contra James. Foi?, perguntou Venitelli, tiritando mais uma vez. Achei que nosso padre Henry Garnet... Nosso Papa queria James para condenar todos os católicos, sibilou Isaiah. Quase nada nos solidifica tanto, para Ele, quanto a oposição. Venitelli esforçava-se para entender. Sua Santidade não quis que James repelisse a legislação anticatólica? Marbury é mais nosso instrumento, embora não o saiba, que esse chamado irmão Timon, escarneceu Samuel. Venitelli fechou os olhos ao ouvir o nome. Timon, repetiu, tenso, encarando a porta pela qual desaparecera o visitante. Que vamos fazer? Entregamos esse decente Marbury a um demónio.

Num beco lateral a outra rua em Cambridge, nesse exacto momento, uma lâmina prateada captou a luz do luar. Depois perfurou o coração de um idoso. O punhal fora inserido com toda a destreza logo abaixo do esterno e empurrado para cima. O velho, que se chamava Jacob, fitou dentro dos olhos do assassino, uma sombra obsidiana de absurda altura que parecia reflectir as trevas. Um manto preto e o capuz tornavam-no quase invisível na noite». In Phillip Depoy, A Conspiração do rei James, Prumo, 2009, ISBN 978-857-927-022-2.

Cortesi de Prumo/JDACT

JDACT, Phillip Depoy, Literatura,  

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Em 27 de Junho de 1458, morreu Afonso V, de cognome o Magnânimo. Mesmo com idade avançada, seu adversário começou a entrar em acção. Ele proibiu o filho ilegítimo de Afonso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Era imensa a necessidade de concessão de graças e indultos, ou seja, dispensas provenientes dessas complicadas regras. Por outras palavras: no palácio do vice-chanceler convergiam laços, por meio dos quais era possível estabelecer ligações com os poderosos de todo o planeta. Permissão para casar, apesar do grau de parentesco muito próximo, legitimação de filhos bastardos, absolvição de promessas incômodas: tudo isso tinha o seu valor de contrapartida e sua utilidade. E, principalmente, o vice-chanceler passou a ter acesso irrestrito a desagradáveis segredos que os poderosos não queriam que se tornassem públicos.

A nomeação de Rodrigo a bispo de Valência elevou ainda mais a sua posição e aumentou seus rendimentos. E, pouco depois, ao elevado posto dentro da Igreja, juntou-se também uma posição de liderança secular. Calisto III nomeou seu talentoso sobrinho, sem a menor cerimónia, como capitão das tropas papais na Itália. Um cardeal como general: isso foi uma ofensa para muitos. A enorme quantidade de postos atribuídos a outro sobrinho, Pedro Luís, irmão de Rodrigo, também provocou escândalos. Ele recebeu numerosos cargos no Estado Pontifício, entre eles a castelania do Castelo de Santo Ângelo. Como resultado, passou a comandar a inexpugnável fortaleza da cidade de Roma: uma prevenção para os tempos de crise. Pedro Luís, que estava destinado a ser o herdeiro da aristocrática dinastia Bórgia, ganhou, acima de tudo, os feudos que tinham sido perdidos pelos barões romanos. Indo ao encontro desses propósitos, especialmente nos territórios dos Orsini, foram tomados todos os castelos, com seus respectivos direitos de jurisdição, tributação e recrutamento de tropas. A sua amargura foi ainda maior quando o cardeal Orsini, o fazedor de papas, contabilizou recompensas no lugar de desapropriações.

Calisto derrotou os Orsini, mas o que ele queria mesmo era atingir seu patrão, o rei Afonso. As suas relações com Nápoles tinham piorado rapidamente. A exigência do monarca de continuar a condescender com ele nos âmbitos políticos do clero, ou seja, nomear candidatos convenientes para o bispado e conceder lucrativos prestimónios ao seu protegido, foi considerada um atrevimento e, por isso, recusada. O papa já não tinha a menor predisposição para esses servicinhos de capelão. A situação progrediu de tal maneira que chegou a recusar favores a Afonso, favores esses, que concedia em provocante abundância aos membros de sua família. Divergências políticas importantes agravaram a contenda. Calisto acreditava ter identificado, na táctica dilatória de Nápoles, o principal obstáculo para a realização de seu grande plano, que era reprimir os otomanos. No Outono de 1457, o rei ameaçou o papa com concilio e deposição; este, por sua vez, ameaçou o rei com privação de enfeudamento. De repente, como numa poderosa encenação teatral, no ápice do conflito, um dos dois protagonistas retirou-se do palco. Em 27 de Junho de 1458, morreu Afonso V, de cognome o Magnânimo. Mesmo com idade avançada, seu adversário começou a entrar em acção. Ele proibiu o filho ilegítimo de Afonso, Fernando de Aragão, mais conhecido como dom Ferrante, sucessor designado para a região continental do sul da Itália, de usar seu título de rei. Revogou ainda o juramento de fidelidade de seus súbditos e assumiu o reino como um feudo que fora devolvido à Igreja.

Ao mesmo tempo, o papa concedeu a Pedro Luís a função de comandante supremo das tropas que liderariam a inevitável guerra contra Nápoles. Além disso, transferiu para seu sobrinho o vicariato de Benevento e Terracina, que tinha sido ocupado pelo falecido monarca. O nepote regia esse enclave romano no reino de Nápoles, como o título mesmo indica, literalmente como substituto do papa; a experiência demonstrou, contudo, que esses vicariatos, de facto, transformaram-se rapidamente em grandes domínios autónomos. Como já mostrado no drástico agravamento das relações com os Orsini, essa concessão demonstrava também o que os Bórgia realmente tinham em vista: o trono de Nápoles». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita, 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «… direito da família e do casamento. Nesse domínio sensível, os canonistas tinham criado uma infinidade de obstáculos, restrições e proibições que exigiam decididamente a concessão de derrogações»

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De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Aqui residia, de facto, o risco para a eleição papal. Em que medida se poderia prever o comportamento de um candidato após ser elevado a papa? A austeridade e o rigor do cardeal de Valência seriam uma garantia contra surpresas desagradáveis, calculavam seus eleitores. Assim, em 8 de Abril de 1455, foi cumprida a profecia de Vicente Ferrer, e Alonso Borja subiu ao trono de Pedro como Calisto III. Como todos sabiam, ele era um homem com família. Em outras palavras: o que não faltavam eram potenciais nepotes. O facto de os eleitores não terem visto isso como um obstáculo está possivelmente relacionado ao problema de o nepotismo ser considerado, em grande parte, coisa do passado, não apenas por meio da moderação imposta pelos próprios papas, mas também pela delicada pressão por parte do cardinalato. Ambos tinham contribuído para que, nos dois últimos pontificados, não tivessem sido observadas situações desagradáveis a esse respeito. O papa recém-eleito poderia nomear cardeal um sobrinho qualquer ou, se necessário, melhorar o estilo de vida de parentes mais próximos. Assim versavam as regras vinculativas de decência que se orientavam numa categoria aristocrática de nepotes, mas de forma alguma principesca ou mesmo dominante.

Comparado ao nepotismo igualmente aventureiro e caótico de Bonifácio IX (1389-1404), que concedeu a seus numerosos parentes napolitanos metade da região do Lácio, como também abundantes prestimónios, isso já era um passo à frente. A inviolabilidade desses padrões precisava, no entanto, ser colocada à prova.

Desse modo, todas as atenções se voltaram ao idoso homem de Xátiva e seus jovens sobrinhos. Do ponto de vista do rigoroso moralista, para o qual o papa não tinha parentes consanguíneos, mas apenas espirituais, e precisamente em todos os lugares onde reinavam o mérito e o merecimento, o início foi marcado por uma positiva surpresa. No começo, fez-se pouco em termos de apoio à família. Rodrigo Bórgia e seu primo Luís Juan Mila foram agraciados com lucrativos benefícios, mas permaneceram estudando Direito em Bolonha. Porém, a alegria dos zelanti, que eram os reformadores zelosos, não iria durar muito. Em Fevereiro de 1456, a nomeação simultânea de Rodrigo e Luís Juan Mila a cardeais pôs fim a todas as esperanças de conter o nepotismo. Pior ainda: estava violada a regra mais importante da ainda recente autorrestrição. Acrescente-se a isso que esses dois chapéus vermelhos foram só o começo. Calisto III tinha agora pressa em elevar o prestígio de sua família. Provavelmente, temia já ter esperado demais. Aparentemente, os escrúpulos iniciais que se opuseram à promoção intensiva de seus parentes de sangue tornaram-se obstáculos definitivamente eliminados. Só é possível presumir de que maneira se deu essa mudança de atitude: por sugestões ao pé do ouvido de conselheiros que perseguiam seus próprios interesses, mas provavelmente também pelos pedidos ou exigências dos próprios sobrinhos.

Esses não podiam agora se queixar da moderação de seu tio. O mais enérgico e persuasivo dos dois novos purpurados, Rodrigo, tornou-se vice-chanceler em 1457, passando a ocupar o mais importante e lucrativo posto dentro da cúria depois do papado. As tarefas associadas a essa função consistiam em cuidar da torrente de solicitações de concessão de indulgências que chegavam a Roma vindas de toda a cristandade. O papa reservava-se o direito de tomar decisões apenas em casos ligados a círculos políticos mais amplos, mas, geralmente, apreciava essas causes célebres depois de uma prévia avaliação de seu vice-chanceler. Dessa maneira, esse último assumiu uma posição-chave. A jurisdição clerical estava longe de ser apenas responsável por litígios dentro do clero, mas também por grande parte do direito da família e do casamento. Nesse domínio sensível, os canonistas tinham criado uma infinidade de obstáculos, restrições e proibições que exigiam decididamente a concessão de derrogações». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita,

terça-feira, 4 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «… os Orsini aproveitaram a oportunidade e apoiaram activamente o candidato do rei Afonso, ganhando, assim, pontos a seu favor em Nápoles. Além disso, um pontífice já idoso e de carácter bem consolidado…»

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De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Outro evento causou ainda maior admiração do que o final das hostilidades entre Inglaterra e França. Em 29 de maio de 1453, o sultão Maomé II conquistou Constantinopla e exterminou, assim, os últimos resquícios do Império Bizantino. O susto provocado contribuiu para que Nicolau V alcançasse um bom êxito no seu empenho de resguardar a estabilidade política na Itália. Por meio dos acordos fixados em Lodi, na Itália, em 1454 e 1455, foram criadas estruturas federais que deveriam engendrar a manutenção da paz por meio da reconciliação de interesses. No entanto, a estrutura complexa dos numerosos estados com seu complicado emaranhado de sistemas, com diversas relações de protecção e dependência, permaneceu, também no futuro, altamente susceptível a interferências. Só era possível instaurar o equilíbrio se, pelo menos, as cinco principais potências praticassem uma política permeada por prudência e ponderação. Os acordos exigiam, assim, a contenção de todos, principalmente do papado. O lema da modernidade era abdicar do nepotismo excessivo. Nicolau V respeitou essa regra.

Será que seu sucessor iria fazer o mesmo? Após a morte do primeiro papa humanista, o conclave se reuniu primeiramente com 14 e, em seguida, com 15 cardeais; jamais o número de eleitores de um conclave voltou a ser tão baixo. Os italianos, que contavam com sete purpurados, detinham uma exígua maioria. O segundo grupo mais forte era o dos espanhóis, com quatro representantes. Esses últimos, contudo, não chegavam a representar uma ameaça tão grande como os franceses, embora esses só estivessem representados com dois príncipes da Igreja. Os eloquentes humanistas italianos eram considerados bárbaros por excelência e os prelados italianos, uma ameaça para o papado. Será que iriam transferir a cúria novamente para Avignon, que durante 1309 e 1377 tinha sido a residência papal, em detrimento da Cidade Eterna?

Não foram apenas essas preocupações e o precoce nacionalismo que moldaram a eleição do novo pontifex maximus. Como era comum havia muito tempo, a rivalidade entre os Colonna e os Orsini exercia forte influência sobre as formações partidárias do conclave. Com suas vastas e, de facto, autónomas propriedades feudais, esses dois clãs da aristocracia dominavam, desde o século XIII, não apenas a paisagem rural romana, mas também a região de fronteira com Nápoles, sem falar na própria Cidade Eterna. No conclave, cada linhagem apresentou um cardeal e este permaneceu rodeado pelos seguidores da respectiva família. Uma vez que o poder de ambas as partes equiparava-se, não foi possível fazer valer a força de seu respectivo preferido. Foi inevitável, portanto, proceder à busca de um candidato de conciliação. O cardeal Bessarion, com sua elevada formação filológica e teológica, bem como seu estilo de vida exemplar, ofereceu-se como tal. Mas rapidamente pairou no ar uma espécie de xenofobia, mais exactamente grecofobia. Um grego como papa? A união da Igreja Ortodoxa com a Igreja Católica não fora realizada pura e simplesmente pela força das circunstâncias, ou seja, pela ameaça iminente da queda de Constantinopla? Era possível confiar realmente na ortodoxia desse príncipe estrangeiro da Igreja?

Alonso de Borja, nesse aspecto, estava completamente fora de suspeitas. Além disso, como espanhol, ele representava a Reconquista, a batalha de fé contra os mouros. Dentro das circunstâncias altamente tensas e de confinamento espacial do conclave, o regresso a esses antigos motivos que, depois de 1453, passaram a ser novamente actuais, desempenhava um papel muito importante. O factor decisivo, no entanto, foi que, com a elevação a papa do homem de Xátiva, o impasse foi resolvido e foi adiada provisoriamente a decisão sobre o desenvolvimento no longo prazo da situação do poder em Roma. Não é de se esperar que um papa de 77 anos quisesse tomar alguma decisão importante.

Dessa forma, os Orsini aproveitaram a oportunidade e apoiaram activamente o candidato do rei Afonso, ganhando, assim, pontos a seu favor em Nápoles. Além disso, um pontífice já idoso e de carácter bem consolidado parecia oferecer melhor garantia para combater a ascensão vertiginosa de determinados grupos ao poder apostólico, sem incorrer em transformações incómodas de sua natureza». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita,

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Constança. Isabel Machado. «Insisto numa certificação real, afirmou o monarca. Não vejo outra forma de travar os grandes danos que os falsos curandeiros trazem ao povo»

 

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«(…) Não fora sem custo que Lopo chegara à posição de rico-homem. O nobre mais poderoso da corte e senhor de Ferreira de Aves. Não havia conselheiro mais próximo do monarca português, na guerra, na paz, na diplomacia e nas leis. Chegado a dona Beatriz e à rainha-mãe, dona Isabel, Afonso preparava-se para também lhe entregar a responsabilidade sobre Pedro, o herdeiro, fazendo-o mordomo-mor do infante. De muitos trabalhos e favores ao monarca se fizera a sua notável ascensão, desde as origens na pequena nobreza de província, ao topo da hierarquia da corte de Afonso IV. Os ressentimentos abundavam na velha nobreza de corte, preterida por um recém-chegado, que de todas as formas exibia a sua influência. Alardeava pelos paços túnicas compridas e belos mantos, que deixavam propositadamente à vista uma fabulosa espada embainhada. Afonso IV, rigoroso até nas vestes que permitia às diferentes classes sociais, matéria sobre a qual andava tentado a introduzir rígida legislação, fechava os olhos à ostentação do amigo e conselheiro, com a habitual cegueira dos monarcas aos favoritos.

Portugal é um reino em paz e assim deve permanecer, disse o rei, como se falasse sozinho. Precisava da lealdade da nobreza de Portugal. Mas não só. Dos reinos vizinhos. deveria aproximar-se dos maiores entre os maiores. E que fossem inimigos do rei de Castela.

Depois de resolvido o embaraço com a infanta Branca, conseguida a anulação do Papa e a decisão de enviar a desgraçada para servir' Deus na sua terra quando fosse propício, libertando Pedro para outro matrimónio, aí estava a prova de que a paz entre Portugal e o reino de Afonso XI nunca era uma garantia.

Impetuoso, o orgulho e o ódio faziam mover as intenções do rei português. Tinha de defender Portugal, era a preocupação que não o largava. Habituado a olhar por cima do ombro para se acautelar da traição, gostava de se sentir um rei de decisão firme e justo. Mas o que lhe revolvia as entranhas era outro assunto: a infelicidade da filha tornara-se o mais difícil de suportar.

O passar das luas não trouxe sossego. Afonso IV reunira os conselheiros. O herdeiro de sua filha Maria morrera, nem um ano chegara a completar. A rainha de Castela voltara a apelar ao pai, a humilhação redobrada com o desgosto de lhe ter finado o pequeno infante nos braços, enquanto via medrar, sadios e ruidosos, os bastardos, todos varões, de seu marido e de Leonor de Gusmão.

El-rei mostrava-se dominado pela angústia, ainda que o seu punho continuasse a assinar as últimas leis. Todas as áreas do reino mereciam a atenção do monarca. Releu o esboço das últimas propostas redigidas. A que lhe tomava maior atenção naquele momento era a protecção da saúde dos seus vassalos. Afonso estava bem informado de como charlatães de toda a espécie, que se intitulavam físicos, cirurgiões ou boticários, vendiam serviços aos pobres incautos. Insisto numa certificação real, afirmou o monarca. Não vejo outra forma de travar os grandes danos que os falsos curandeiros trazem ao povo». In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdLivros/JDACT

JDACT, Isabel Machado, História, Constança, Literatura,

domingo, 2 de abril de 2023

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «O Rato disse que o grotesco se chamava Ameixa, e que nem as mulheres da rua o queriam, pois desmaiavam se ele se aproximasse, e os outros riram novamente»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) No segundo cavalo, ia montado um homem que tinha um rabo muito gordo, que caía para cima da garupa do animal, e à sua frente seguia outro que estava sempre a coçar a cabeça. Por fim, na garupa do terceiro cavalo, encontrava-se um indivíduo de cara disforme, com enormes elevações nas bochechas, cuja cor era avermelhada. Metia impressão olhar para ele e por isso Ramiro evitou fazê-lo, nem reparando bem no seu companheiro da frente, que guiava o animal.

Ninguém falou até que Gondomar deu ordem de paragem, já o céu estava alaranjado pelo nascer do Sol. Encontravam-se no meio de uma floresta e ouviam-se os pássaros lançando os seus agitados piares matinais. À beira da estrada havia uma clareira, e Gondomar disse-lhes que desmontassem ali, mandou-os colocar em círculo e depois ajoelhou e rezou uma oração em latim. Ramiro reparou que o velho cavaleiro tinha os olhos avermelhados, parecia estar sempre a chorar. No final da reza, ouviu-o dizer: Comamos. O mestre foi junto do seu cavalo, trouxe um saco com pães e distribuiu-os. Comeram em silêncio e, depois de terminarem, Gondomar tomou a palavra. Na nossa Ordem, não interessa o passado, mas sim o futuro. Olhando para Ramiro, prosseguiu: Temos um novo membro. Vai seguir connosco para Soure. Entre nós não há bastardos nem infanções, nem ricos-homens nem cavaleiros-vilões. Sereis igual a todos e a cada um, um monge guerreiro.

Ramiro reparou que nenhum dos presentes parecia lavrador ou artífice. Deviam ser gente da floresta, antigos soldados ou servos, malados ou mesmo salteadores. Gondomar continuou: – O nosso novo companheiro chama-se Ramiro, e é por esse nome que o devem tratar, a não ser que ele deseje outro. Ramiro negou, abanando a cabeça. Então, Gondomar afastou-se um pouco, desaparecendo atrás de uma árvore. Os restantes homens cercaram o novo recruta e começaram a apresentar-se. O mais baixinho do grupo disse que o tratavam por Rato, pois era pequeno e conseguia enfiar-se nos locais mais difíceis. Ramiro viu um punhal, com uma pérola no seu topo, enfiado no cinto do homem, e estremeceu. Era o punhal do seu pai! O mesmo que ele na sexta-feira quase usara para se matar, e que desaparecera no sábado! O pai perguntara pela arma, mas Ramiro lembrava-se de o ter deixado em casa, em cima de uma mesa, e vira-o no cinto de Paio Soares, sábado à tarde, durante o jantar.

De repente, reconheceu o homem: era o criado que chocara com o pai à entrada da tenda! Decerto fora nesse momento que roubara o punhal, aproveitando o descontrolo do seu progenitor. O Rato era um ladrão, fugira de Coimbra para evitar ser descoberto, mas Ramiro nada disse e deixou o homem seguinte apresentar-se. Era o maior e mais forte de todos, afirmou que lhe chamavam Urso, por ser assim, e os outros riram-se, divertidos. De mim ninguém se ri, disse o homem da cara disforme. Aproximou-se de Ramiro, ficando com o rosto em frente ao dele, para que o rapaz olhasse para as suas horríveis feições, e resmungou: – Se tendes medo do que vedes, é melhor regressardes a Coimbra, pois irei para a cova assim, não vou sarar.

O Rato disse que o grotesco se chamava Ameixa, e que nem as mulheres da rua o queriam, pois desmaiavam se ele se aproximasse, e os outros riram novamente. Então, o Ameixa apontou para o que viera com ele no cavalo e avisou: Não vos chegueis ao Santinho, tem piolhos. O que coçava muito a cabeça voltou a fazê-lo e riu-se. O Rato juntou-se ao gordo, cujo rabo era enorme, e deu-lhe uma palmada nas costas. Este adora as soldadeiras, mas elas chamam-lhe Peida Gorda. E nós gostámos do nome! Peida Gorda, Peida Gorda, passa o dia a comer açorda!, trauteou». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

Constança. Isabel Machado. «Para ajudar à conquista de Portugal aos mouros, os seus antepassados haviam aliciado a nobreza com mercês e senhorios onde impunham a lei como se fossem o próprio monarca...»

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«(…) Afonso respirou fundo, a olhar o vazio. Não teria nada a acrescentar naquele momento. A incerteza tomara conta do rei. Bem sabia que a ausência de resposta representava grande risco para um reino pequeno, preso entre o mal e vizinhos poderosos. Com o desmoronar das alianças com que julgara garantir a paz para se entregar ao desenvolvimento interno do reino, as fronteiras de Portugal voltavam a tomar lugar cimeiro no seu governo. Era, pela graça de Deus, rei de Portugal e do Algarve, inteiramente tomado aos mouros havia muitas décadas. Desde que subira ao trono, Afonso IV tentava manter â neutralidade portuguesa, sabedor de que as guerras não eram compatíveis com o progresso de um reino. E o soberano tinha ambições: enriquecer Portugal pelo comércio e pela agricultura, sem esquecer a organização e as leis, sempre cimeiras. Mas a ameaça moura não desaparecera, o reino de Granada não deixava esquecer aos monarcas ibéricos que o poder sarraceno se mantinha ainda dentro de portas. O Norte de África unia-se no desafio aos reinos cristãos, e informadores do rei alertavam para a cobiça do sultão de Marrocos, que crescia em poderio e armas. Que se unissem o sultão e o rei de Granada para invadir toda a Península não era risco que se pudesse ignorar. Afonso XI de Castela não tinha tréguas e eram constantes as escaramuças com o vizinho mouro.

O perro de Castela esmifra-se para afastar a moirama, lançou Afonso, com um sorriso de prazer. Talvez um sabre lhe arranque a cabeça dos ombros. Beatriz fitou-o com horror. Tento, senhor! O ódio não serve a ninguém. O rei lançou uma gargalhada roufenha, o olhar fixo no punho cerrado que esfregava na palma da mão. E menos serve a Deus, que apela à união dos cristãos, insistiu Beatriz, sem descolar os olhos do marido.

O sobrinho castelhano escrevera-lhe, queixando-se da falta de auxílio do rei de Portugal, seu sogro, que preferia manter-se distante de guerras, não vendo ganhos para o seu reino no enviar de homens para defender as fronteiras de Afonso XI. O soberano não respondeu. Mas Beatriz notou que afrouxou a fúria com que castigava as mãos. Afonso deixou o silêncio alastrar enquanto se tolhia em pensamentos sombrios. O sonho de se manter arredado das pelejas das terras vizinhas começava a parecer-lhe ilusório, pela primeira vez. Sem mais herdeiros do que Pedro e a filha casada com o tirano de Castela com quem julgara ter feito boa aliança, Afonso IV dava graças pela relativa acalmia que regressara aos grandes senhores do reino de Portugal, a quem fizera frente nos primeiros anos do seu reinado. Para lhes travar os abusos e consolidar o poder real. Ganhara inimigos, até entre o clero, ao exigir prova escrita das honras e terras que haviam acumulado em reinados anteriores, seguindo um rigor que se iniciara com seu pai, Dinis.

Para ajudar à conquista de Portugal aos mouros, os seus antepassados haviam aliciado a nobreza com mercês e senhorios onde impunham a lei como se fossem o próprio monarca... Decidido a controlar os poderosos do reino, Afonso IV ordenara um chamamento geral de nobres e religiosos, de lés a 1és, vergando aristocratas e bispos, para que se prostrassem em obediência ao soberano e jamais ousassem esquecer que o senhorio do monarca era todo o reino de Portugal. Mais do que nunca preciso da nobreza unida, desabafou finalmente, fitando Lopo Fernandes Pacheco. O outro assentiu, com uma náusea íntima». In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdLivros/JDACT

 JDACT, Isabel Machado, História, Constança, Literatura,

sexta-feira, 31 de março de 2023

No 31. A Ilha Debaixo do Mar. Isabel Allende. «Os seus visitantes passavam uma ou duas semanas no rústico casarão de madeira, a empanzinar-se com a vida de campo e a apreciar de perto a mágica invenção do açúcar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os grands blancs, proprietários de outras plantações, consideravam-no um presumido que não duraria muito na ilha; por isso, ficaram assombrados por vê-lo com as botas enlameadas e queimado pelo sol. A antipatia era mútua. Para Valmorain, aqueles franceses transplantados para as Antilhas eram uns parolos, o oposto da sociedade que ele tinha frequentado, onde se exaltava as ideias, as ciências e as artes, e ninguém falava de dinheiro nem de escravos. Da idade da razão, em Paris, passou a afundar-se num mundo primitivo e violento, onde os vivos e os mortos andavam de mão dada. Também não fez amizade com os petits blancs, cujo único capital era a cor da pele, uns pobres diabos empeçonhados pela inveja e a maledicência, como ele dizia. Tinham vindo dos quatro pontos cardeais e não havia maneira de averiguar a pureza do seu sangue ou o seu passado. No melhor dos casos, eram comerciantes, artesãos, frades de pouca virtude, marinheiros, militares e funcionários menores, mas também havia meliantes, chulos, criminosos e corsários que utilizavam cada recanto do Caribe para as suas canalhices. Ele não tinha nada em comum com essa gente.

Entre os mulatos livres ou affranchis existiam mais de sessenta classificações segundo a percentagem de sangue branco, que determinava o seu nível social. Valmorain nunca conseguiu distinguir os tons nem aprender a denominação de cada combinação das duas raças. Os affranchis não dispunham de poder político, mas movimentavam muito dinheiro; por isso, os brancos pobres odiavam-nos. Alguns ganhavam a vida com tráficos ilícitos, desde o contrabando à prostituição, mas outros tinham sido educados em França e possuíam fortuna, terras e escravos.

Acima das subtilezas da cor, os mulatos estavam unidos pela sua aspiração comum de passar por brancos e o seu desprezo visceral pelos negros. Os escravos, cujo número era dez vezes maior do que o dos brancos e affranchis juntos, não contavam para nada, nem no censo da população, nem na consciência dos colonos. Uma vez que não lhe convinha isolar-se por completo, Toulouse Valmorain frequentava, de vez em quando, algumas famílias de grands blancs em Le Cap, a cidade mais próxima da sua plantação. Nessas viagens, comprava o necessário para se abastecer e, se não o podia evitar, passava pela Assembleia Colonial para cumprimentar os seus pares, assim não esqueceriam o seu apelido, mas não participava nas sessões. Também aproveitava para ver comédias no teatro, assistir a festas das cocotes, as exuberantes cortesãs francesas, espanholas e de raças misturadas que dominavam a vida nocturna, e conviver com exploradores e cientistas que se detinham na ilha, de passagem para outros sítios mais interessantes. Saint-Domingue não atraía visitantes, mas às vezes chegavam alguns para estudar a Natureza ou a economia das Antilhas, que Valmorain convidava para Saint-Lazare com a intenção de recuperar, ainda que brevemente, o prazer da conversação elevada que tinha ilustrado os seus tempos de Paris. Três anos depois da morte do pai, podia mostrar-lhes a propriedade com orgulho; transformara aquele destroço de negros doentes e canaviais secos numa das plantações mais prósperas entre as oitocentas da ilha, multiplicara por cinco o volume de açúcar por refinar para exportação e instalara uma destilaria onde produzia selectas barricas de um rum muito mais fino do que o que era costume beber-se. Os seus visitantes passavam uma ou duas semanas no rústico casarão de madeira, a empanzinar-se com a vida de campo e a apreciar de perto a mágica invenção do açúcar. Passeavam a cavalo por entre os densos pastos que assobiavam, ameaçadores, pela brisa, protegidos do sol por grandes chapéus de palha e a bocejar na humidade a ferver do Caribe, enquanto os escravos, como sombras afiadas, cortavam as plantas rente à terra sem matar a raiz, para que houvesse outras colheitas». In Isabel Allende, A Ilha Debaixo do Mar, 2009, Porto Editora, 2015, ISBN 978-972-001-948-6.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, Isabel Allende, Literatura, Arte, 

segunda-feira, 27 de março de 2023

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «mentira e maldade non lhis dá logar; estas son nadas e criadas e aventuradas e queren reinar. As nossas fadas iradas»

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 Cantigas de Escárnio e Maldizer

«(…) Ao agruparmos cantigas de escárnio e maldizer, não procurámos saber, antes, como os outros tinham feito. Só depois. E assim, ora coincidimos pela força dos textos, ora nos metemos por caminhos diferentes, devido a critérios e gostos diversos. Abrimos pelas sátiras de alcance ecuménico e que podem cifrar-se nesta frase dos velhos de agora: Os tempos vão maus!

Sátiras dos Tempos Maus

Joan Soárez Coelho troça cruelmente de João Fernandes, com feições de mouro, por a mulher ser amiga dum escravo. Na cantiga seguinte, insiste neste caso, mas alarga a sátira à história daquele tempo: Anda perturbado o mundo, João Fernandes. O Imperador levantou-se contra Roma, vieram os Tártaros e, agora, vemos-te com intenção de abalar para a Terra Santa. Ora, nas profecias do fim do mundo, é este um dos quinze sinais: andar o mundo baralhado e o mouro fazer-se cruzado. João Fernandes, acreditai em mim, que sou bom letrado! É sinal de já ter nascido o Anticristo.

Martin Moxa, por seu lado, também fala, dos tempos do Anticristo. Há guerras, injustiças, ambições e falta o juízo, e a mesura. Hospital ou igreja, romeiro, fidalgo ou religioso, tudo é desrespeitado, por bom que seja. Forçam as mulheres, roubam nos caminhos, não temem alcaides nem meirinhos, antes acham sempre quem os proteja. Ninguém defende os agricultores, as vinhas e as herdades ficam por cultivar, não há com que pagar as rendas e perdem-se as honras. É um serventês moral bem digno do visionarismo de Martin Moxa, sério e pensativo, embora mordaz e sarcástico. Segundo Lang, compôs ele estas poesias em tempo del-rei Sancho II. Para ele, anda o mundo cada vez pior. Descem os bons e os maus levantam-se poderosamente acima deles. Por mim, diz o poeta, non ei da mia morte pavor. O mundo caminha às avessas e tudo nele anda trocado!

Por isso, não deve fugir da morte quem viu o bem que dantes era e vê o mal de hoje. Bem-aventurados os que morrerom mentr’ era melhor! Que eles dêem graças a Deus. Os que ficarem verão coisas ainda piores: e poren tenh’eu que faz sen-razon / quen deste mundo á mui gran sabor. A este queixume, segue-se outra sátira amarga, quase uma invectiva em forma de descordo: Fico-me a olhar e tudo me dá coita e pesar. Reina a mesquinheza acima da grandeza de alma. Reinam manhosamente neste mundo a maldade e a mentira:

mentira e maldade

non lhis dá logar;

estas son nadas

e criadas

e aventuradas

e queren reinar.

As nossas fadas

iradas

foron,...» 

In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Jean-Marie d’Heur, num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti, distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos…»


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A Sátira nas Cantigas de Santa Maria

«(…) Nalgumas ocasiões, a sátira partia do pecador. Do pecador ou do que passava por tal. Por exemplo, ria-se um de venerarem um sapato da Virgem Maria. Se o sapato fosse verdadeiro, já devia estar podre! Pois bem: o homem caiu no chão, com um ataque, e foi a çapata que o curou. Martim Alvites, morador em Alenquer, mais fazia cantigas de escárnio do que de amor. Também ele andou mal, mas teve de se arrepender, só trovando a Santa Maria, no resto da vida. Um jogral remedador imitava tudo à perfeição. Imitou Nossa Senhora, com o Menino ao colo, e o Menino pô-lo de pescoço torcido, para aprender. Nestes casos, o riso está mais nos ouvintes. É o riso e a sátira contra os incréus. Levam castigo? Bem feito!

Temos, ainda, o mundo ambíguo dos judeus e das judiarias. Vemos alguns deles a ferir um crucifixo. Escutamos algumas judias a troçar doutra, que invocava a Mãe de Deus nas dores do parto. Porém, o cómico mais burlesco vem dum bom homem a rezar a Santa Maria, no portal da igreja. Eis senão quando, vem um grande cão, chega-se a ele e atal o adobou / que ouv’a leixar sas prezes, com gáudio e troça de dois judeus. Claro, queixou-se o homenzinho à Mãe de Deus, por assim troçarem dele os judeus, e caiu-lhes o portal em cima. Mas, desta feita, nós rimos mas é da cena do cão, a alçar a perna e a fazer o
que não devera a tão fiel cristão.

Para acabar, vamos escutar uma série de imprecações ou pragas contra os inimigos da Virgem Maria. Estamos no reino bravio da invectiva, um ramo da sátira que não é para rir: Maldito seja quen non loará / a que en si todas bondades á. É este o refrém e o maldito alterna com a bênção para quem a louvar. Vamos resumir: Maldito seja quem não disser bem daquela a quem nada falta de bom e digno! Maldito seja quem não disser bem da melhor das donas e não quiser o seu amor. No manuscrito das Cantigas de Santa Maria, temos ainda as gravuras: a mulher pelos ares, agarrada à cadeira..., a seta espetada no tabuleiro e o espanto dos que ali estão..., o homem da boca torcida a beijar a çapata maravilhosa... Mas isto são águas doutra vertente. Se um dia pudermos, delas trataremos.

Cantigas de Escárnio e Maldizer

Jean-Marie d’Heur, num estudo sobre a Arte de Trovar do Cancioneiro Colocci-Brancuti, distribui as poesias deste cancioneiro por grupos distintos e de tamanho desigual: 725 cantigas de amor; 504 cantigas de amigo; 212 cantigas de escárnio; 183 cantigas de maldizer; 32 tenções; e 23 cantigas sob o título de Varia.

O Prof. M. Rodrigues Lapa alargou a sua análise a vários cancioneiros, limitando-se às cantigas de escárnio e maldizer, a fim de reunir a vasta colectânea das Cantigas d’Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, com nada menos de 431 poesias deste género, na segunda edição. Porém, ao contrário de Jean-Marie d’Heur, não isola as tenções, aqui, num todo à parte. Outro era o seu fim e sabia que algumas delas são temperamentalmente iguais a outras cantigas de escárnio e maldizer, só que vêm estruturadas em diálogo mais ou menos agressivo, à maneira de certas cantigas ao desafio dos nossos dias, nas feiras e arraiais do Norte. Carolina Michaëlis Vasconcelos, em quinze artigos modestamente intitulados Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch, publicados entre 1896 e 1905, estudou muitas cantigas de escárnio e maldizer, por vezes obscenas e grosseiras. Nestas Notas à margem do antigo Cancioneiro Português interpreta, sobretudo, as cantigas satíricas, recorrendo às fontes históricas para esclarecer certos pontos dessas poesias e dos seus autores. E, ao publicar em Halle o Cancioneiro da Ajuda, aponta os nomes dos poetas satíricos mais antigos: Joan Soares Paiva, Fernan Rodrigues Calheiros, Fernan Paes Talamancos e Martin Soárez, sendo este o fidalgo-trovador mais velho de quantos conhecemos, diz ela. E ajunta, pouco depois: foi na côrte de Alfonso X que se geraram as principaes cantigas de escarnho e maldizer, algumas das quaes se guardavam de certo bem fechadas, e foram a custo arrancadas aos esconderijos.

Ao tratar da época medieval, em Lições de Literatura Portuguesa, Rodrigues Lapa dedica páginas sugestivas, não só em torno das cantigas de escárnio e maldizer, em geral, mas também em torno das suas relações com a Provença e alguns temas principais que as agrupam. Mais perto dos nossos dias, Manuel Aguiar oferece ao leitor uma galeria de caricaturas: O nobre ou ricome; Papa, bispos e clérigos; O trovador; A soldadeira; Os supersticiosos; Os maus juízes; Os perdidos de amor; O mentiroso; Os defeitos físicos; Os tipos miúdos.

Enfim, dentre os estrangeiros, isolamos Kenneth R. Scholberg e a sua distribuição das cantigas de escárnio e maldizer. Como agrupar toda a bicharia da Arca de Noé? Em muitos ou poucos grupos? Num livro breve, temos de optar por uma coisa e, quando muito, insinuar o que fica na sombra, e é mais do que pensamos. Manuel Aguiar, em nota final, aponta uma enorme litania de tipos caricaturais, que um dia poderão sair do limbo em que os deixou: o esfomeado, o miserável, o pedinchão, o parasita, o medroso, o traidor, o fanfarrão, o pretensioso, o clérigo comilão e metido em brigas, as freiras mundanas, o coxo, o careca, a mulher gorducha, a mulher feia, a coscuvilheira, o tímido diante da sua dama, o plagiador de versos, o mau trovador, o supersticioso, o agoirento, o astrólogo, o mau médico, o juíz peitável, o amoroso lamechas, o interesseiro em casar rico, o avarento, o caloteiro, etc. Tudo, porém, tem os seus limites, e é bom que os vindouros tenham que fazer» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

quinta-feira, 23 de março de 2023

Walter Isaacson. Steve Jobs. «Tive muita sorte, porque quando era criança tanto meu pai como os kits Heath me fizeram acreditar que eu poderia construir qualquer coisa»

Cortesia da wikipedia e jdact

«As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são aquelas que o mudam». In Pense diferente, Apple, 1997

Infância. Abandonado e escolhido. A adopção

«(…) Em um determinado Verão, Paul Jobs levou Steve a Wisconsin para visitar a fazenda leiteira da família. A vida rural não o atraía, mas uma imagem ele não esqueceu: viu nascer uma bezerra e ficou pasmo quando o minúsculo animal lutou para ficar de pé e depois de minutos começou a andar. Não era algo que ela tivesse aprendido, mas era inato. Um bebé humano não poderia fazer aquilo. Achei notável, embora ninguém mais achasse. E relacionou isso com hardwares e softwares. Era como se alguma coisa no corpo do animal e no seu cérebro tivesse sido projectada para trabalhar em conjunto instantaneamente, em vez de ser aprendida. No nono ano, Jobs foi para a Homestead High, que tinha um vasto campus de edifícios de concreto de dois andares, então pintados de rosa, que atendia 2 mil alunos. Havia sido projetado por um famoso arquitecto de prisões, lembrou Jobs. Queriam que fosse indestrutível. Jobs tinha desenvolvido uma paixão por caminhar e andava quinze quadras para ir à escola todos os dias.

Ele tinha poucos amigos de sua idade, mas conheceu um pessoal mais velho que estava mergulhado na contracultura do final da década de 1960. Era uma época em que os mundos dos geeks e dos hippies estavam começando a se sobrepor. Meus amigos eram os caras realmente inteligentes. Eu me interessava por matemática, ciências e eletrónica. Eles tinham os mesmos interesses, mas também curtiam lsd e toda a viagem da contracultura. Nesse período, suas brincadeiras já envolviam elementos eletrónicos. Certa ocasião, ele instalou alto-falantes pela casa. Mas, uma vez que alto-falantes também podem ser usados como microfones, ele construiu uma sala de controle dentro de seu armário, de onde podia ouvir o que estava acontecendo nos outros cómodos. Uma noite, quando estava com seus fones ouvindo o que acontecia no quarto dos pais, seu pai o surpreendeu e, irado, exigiu que ele desmontasse o sistema. Jobs passava muitas noites visitando a garagem de Larry Lang, o engenheiro que morava na mesma rua de sua antiga casa. Lang acabou por lhe dar o microfone de carbono que o fascinara, e ele o ligou em kits Heath, aqueles conjuntos monte você mesmo para fazer transmissores de radioamador e outros mecanismos eletrónicos que eram adorados pela turma da solda de então. Os kits Heath vinham com todas as placas e peças codificadas com cores diferentes, mas o manual também explicava a teoria de como o mecanismo funcionava, lembrou Jobs. Faziam você perceber que poderia construir e entender qualquer coisa. Depois de construir um par de rádios, você via uma televisão no catálogo e dizia: Eu também posso construir isso, mesmo que não o fizesse. Tive muita sorte, porque quando era criança tanto meu pai como os kits Heath me fizeram acreditar que eu poderia construir qualquer coisa.

Lang também o introduziu no Clube do Explorador da Hewlett-Packard, um grupo de quinze ou mais estudantes que se reunia semanalmente no refeitório da empresa nas noites de terça-feira. Eles traziam um engenheiro de um dos laboratórios para falar sobre o que ele estava fazendo. Meu pai me levava de carro. Eu estava nas nuvens. A hp foi pioneira de diodos emissores de luz. Então conversávamos sobre o que fazer com eles. Como na época seu pai trabalhava para uma empresa de laser, esse tópico lhe interessava particularmente. Uma noite, Jobs encurralou um dos engenheiros de laser da hp depois de uma palestra e conseguiu fazer uma visita ao laboratório de holografia. Mas a impressão mais duradoura veio da visão dos computadores pequenos que a empresa estava desenvolvendo». In Walter Isaacson, Steve Jobs (Edição 1), tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann, Pedro Soares, Editora Companhia das Letras, Wikipedia, iOS Books, LegiLibro, 2011, ISBN 978-853-591-971-4.

Cortesia ECdasLetras/JDACT

JDACT, Walter Isaacson, Steve Jobs, Cultura e Conhecimento, 

quinta-feira, 16 de março de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Nas semanas seguintes, a loja de Vahan no bazar de Constantinopla registou uma inusitada procura da parte de diplomatas e comerciantes ocidentais radicados na cidade…»

 

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O Homem de Constantinopla

«(…) As paredes da mansão cobriam-se de magníficas tapeçarias provenientes de Bucara, os mais finos e requintados de todos os exemplares orientais, e as salas exibiam vistosos tapetes persas de Shiraz e Isfahan. Pormenor de grande importância, eram todos de lã; naquela casa não havia lugar para os de algodão ou de pele de carneiro ou de camelo, considerados de pior qualidade. A excepção dizia respeito a um belíssimo tapete caucasiano de pele de cordeiro, de toque suave e doce, em cima do qual o pequeno Kaloust gostava de estudar. O requinte na escolha dos tapetes para aquela casa não espantava ninguém; afinal Vahan tinha começado a sua vida profissional justamente com uma pequena loja de tapetes no bazar de Trebizonda. O negócio prosperara ao ponto de lhe ter aberto as portas ao casamento com a sua prima Veron, a filha predilecta do tio Grigoris. Acontece que Grigoris mantinha correspondência assídua com os grandes bancos estrangeiros de Constantinopla, como o Banco Otomano, criado pelos Britânicos, e o Banco Imperial Otomano, que estava na mão dos Franceses, contactos que Vahan aproveitou para expandir o seu negócio para a longínqua capital.

Tapetes eram coisa que não faltava em Constantinopla, claro, mas Vahan apercebera-se de que havia um interessante nicho de mercado por explorar. Para o seu negócio em Trebizonda havia estabelecido contacto com fornecedores do Turquistão. Os tapetes dessa região do Cáucaso, fabricados com pura lã, eram muito populares na capital e na Europa, mas apenas na sua variante mervi. Ora Vahan recebia carregamentos de modelos jumud e tekké, raramente exportados e quase desconhecidos. Os seus exemplares eram verdadeiras obras de arte, todos de grande originalidade e requinte. O comerciante não ignorava que, tratando-se de novidades, constituíam um trunfo importante para o negócio já florescente; precisava apenas de o saber jogar com sabedoria.

Foi o que fez. A conselho da mulher, que nisso dos negócios não brincava, reuniu coragem e as suas economias e investiu numa loja que abriu no bazar de Constantinopla. Logo que o estabelecimento começou a funcionar, contactou os directores ingleses e franceses dos bancos com os quais o tio, agora sogro, fazia negócios. Reservou a sala de um dos mais requintados restaurantes arménios do bairro de Pera e ofereceu-lhes um almoço digno de sultões. Antecipadamente informado dos seus interesses de coleccionadores, coroou o repasto com ofertas das melhores tapeçarias jumud e tekké que adquirira no Turquistão. Os estrangeiros ficaram encantados e não calaram o assombro diante dos seus clientes ou dos amigos que encontravam nos cocktails das legações e a quem exibiam as novidades oriundas do Turquistão.

Nas semanas seguintes, a loja de Vahan no bazar de Constantinopla registou uma inusitada procura da parte de diplomatas e comerciantes ocidentais radicados na cidade, todos eles alertados pelos seus amigos dos bancos e interessados em adquirir um exemplar de tão original mercadoria. Claro que o movimento acabou por despertar a atenção do resto da clientela e, em alguns meses, a loja enchia-se também de turcos, intrigados com os tapetes que tanta curiosidade estavam a suscitar junto dos giavour, os infiéis.

Quando o seu Kaloust nasceu, em 1869, o tio-sogro abraçou Vahan e celebrou a ocasião com uma garrafa do valente conhaque arménio. Parabéns!, exultou Grigoris com a boca a tresandar a álcool. Fizeste fortuna e tornaste-te um dos homens mais ricos de Trebizonda! Este teu filho e meu neto trará grande glória à nossa família». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte,

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «O criado sentou-se sobre ele e pregou-lhe uma estalada de tal modo violenta que o director embateu com a nuca no chão. Chega! À ordem do patrão…»

 

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O Homem de Constantinopla

«(…) Abriu-a com brusquidão e invadiu o gabinete sem cerimónias, como se fosse ele o verdadeiro dono da instituição. Senhor Sarkisian!, exclamou o director com espanto, levantando os olhos dos papéis que rabiscava. Seja ... seja bem-vindo! O director era um homem magro e nervoso, com malares muito salientes e uma expressão mortiça no olhar gasto, que os óculos na ponta do nariz se esforçavam por reavivar. Estava sentado à secretária a tratar da correspondência para o patriarcado em Constantinopla. Surpreendido com a intromissão inesperada, suspendeu a caneta no ar. O senhor já viu a nota?, rugiu o intruso. Já viu a classificação do meu Kaloust? O director ergueu-se da cadeira, a atenção dividida entre o seu ilustre visitante e a criança que ele puxava pela orelha. O petiz parecia estar a ser punido, o que o deixou confuso. Mas ... mas ele teve uma nota excelente, senhor Sarkisian! Excelente! A sombra perturbada de uma dúvida súbita perpassou-lhe pelo olhar. Foi dezoito, não foi? Ele não teve dezoito? Teve, sim. O rosto do homem iluminou-se com um lampejo de alívio. Ah, bem me parecia!, bufou. Pois, foi óptimo! O olhar furibundo do seu interlocutor voltou a desconcertá-lo; manifestamente alguma coisa estava a escapar-lhe. Há ... há algum problema? O problema é o Shakhian ... ou melhor, o filho do Shakhian, rosnou Vahan. Esse miúdo teve dezanove! O meu teve dezoito! Isso significa que ele fez melhor do que o meu! Os lábios do director curvaram-se num sorriso conciliador. Oh, senhor Sarkisian!, exclamou enquanto abria as mãos num gesto para apaziguar o seu interlocutor. Por amor de Deus! Dezoito, dezanove ... o que interessa isso? São excelentes notas! Excelentes! O seu filho está de parabéns! Ele é um dos dois melhores alunos da escola! O senhor… o senhor devia estar orgulhoso dele! É o melhor a Francês, é o melhor a Aritmética! Esboçou uma ligeira careta. Está um pouco atrasado no Arménio por causa da gramática, é verdade, mas isso ... enfim, não me parece grave. Vahan Sarkisian olhou para o criado atrás dele e fez um gesto na direcção do director. Dá-lhe! O kahveci nem hesitou. Saltou da sombra do seu patrão e atirou-se ao director com o vigor de um cavalo de corrida, esmurrando-o na barriga e atirando-o ao chão. Senhor Sarkisian!, implorou o director com um gemido enquanto se encolhia aos pés da cadeira, no gesto reflexo de quem se protege. Por favor, senhor Sarkisian!

O criado sentou-se sobre ele e pregou-lhe uma estalada de tal modo violenta que o director embateu com a nuca no chão. Chega! À ordem do patrão, o kahveci levantou-se e recuou para a porta, deixando o director da escola estendido sobre a pedra fria, o cabelo desgrenhado e o rosto vermelho como uma malagueta do bazar, os óculos atirados para um canto do gabinete, a gola desfeita. Senhor Sarkisian, disse o homem, visivelmente atarantado, apalpando o chão em redor num esforço vão para localizar os óculos perdidos. O que foi que fiz? Vahan Sarkisian deu dois passos em frente e imobilizou-se diante do director, que não se atrevia a levantar-se sem receber a devida autorização. Fica o senhor avisado de que, no final do ano lectivo, o melhor aluno desta escola será o meu filho!, vociferou em tom ameaçador. E não quero classificações de favor, ouviu? Ele terá as melhores notas porque será mesmo o melhor. O melhor! Se o senhor achar que ele precisa de melhorar, fará o que considerar necessário para alcançar esse objectivo. Fiz-me entender?

O director balançou afirmativamente a cabeça sem se atrever sequer a erguer os olhos. Sim, senhor. Vahan manteve-se pregado ao chão. No final do ano quero que me entregue os testes do meu filho e do miúdo do Shakhian, disse. Irei verificar pessoalmente que as respostas do meu são as melhores. Ergueu o dedo, em gesto de aviso. Não se atreva a fazer batota! A advertência concluída, deu meia volta, voltou a pegar na orelha do filho e, puxando-a, abalou enfim do gabinete. A fama de Vahan Sarkisian era grande no millet arménio de Trebizonda, onde a etnia cristã se afirmava como dominante, e a sua casa gozava da merecida reputação de ser a residência mais rica e bem decorada de toda a cidade». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

Cortesia de EGradiva/JDACT

 JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, A Arte, 

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também…»

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A casa Tellier

«(…) A Rafaela, com um penteado emplumado a fingir um ninho cheio de passarinhos, usava um vestido lilás, semeado de lantejoulas de ouro, uma coisa como que oriental que calhava bem com a sua cara de judia. A Rosa Pileca, de saia cor-de-rosa com amplos folhos, tinha o aspecto de uma menininha excessivamente gorda, de uma anã obesa; e as duas Chancas pareciam ter escolhido de propósito uns adornos estranhos por entre velhas cortinas de janela, as velhas cortinas com ramagens do tempo da Restauração. Mal deixaram de estar sozinhas no compartimento, as senhoras assumiram um comportamento sério, e puseram-se a falar de coisas elevadas para criarem boa opinião a seu respeito. Mas em Bolbec apareceu um sujeito de suíças loiras, com anéis e uma corrente de ouro, que arrumou na rede por cima da sua cabeça vários pacotes embrulhados em oleado. Tinha um ar trocista e de boa pessoa. Cumprimentou, sorriu e perguntou com todo o à-vontade: Estas senhoras vão mudar de quartel? A pergunta lançou no grupo uma confusão embaraçada. Por fim a Madame recuperou a presença de espírito e respondeu secamente, para vingar a honra do pelotão: O senhor podia ser mais bem educado! Ele desculpou-se: Perdão, eu queria dizer de convento. A Madame, como não encontrou nada para responder, ou talvez por achar a rectificação suficiente, fez um cumprimento digno franzindo os lábios.

Então o senhor, que estava sentado entre a Rosa Pileca e o velho camponês, pôs-se a piscar o olho aos três patos cujas cabeças espreitavam do grande cesto; e depois, quando sentiu que o seu público já estava cativado, começou a fazer festas aos animais debaixo do bico, dirigindo-lhes frases engraçadas para alegrar a companhia: Com que então deixámos o nosso charco!, quáquá!, quáquá!, quáquá!, para conhecermos o belo espeto, não é?, quáquá!, quáquá!, quáquá! Os infelizes animais reviravam o pescoço para evitar os seus afagos, faziam terríveis esforços para saírem da sua prisão de vime; e depois, de repente, os três em conjunto, soltaram um lamentoso grito de aflição: Quáquá! quáquá! quáquá! Houve então uma explosão de gargalhadas entre as mulheres. Elas debruçavam-se, empurravam-se umas às outras para espreitar; estavam loucamente interessadas nos patos; e o senhor redobrava de graciosidade, de espírito e de carícias.

A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também; e o senhor sentava as senhoras nos seus joelhos, fazia-as dar saltos, beliscava-as; não tardou e estava a tratá-las por tu». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Contos, Século XIX, Escrita,