terça-feira, 7 de novembro de 2023

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Contrariada, dobrou o pescoço e encostou os lábios à concavidade acima da clavícula dele. Pele. Calor. Aquele cheiro masculino inebriante. Uma mão doce, mas dominadora na sua cabeça…»

Cortesia de wikipedia e jdact

« Foi encantador, disse ele suavemente, volvendo a beijar-lhe o pescoço. – As pequenas pausas conferiram à melodia um toque comovente. Voltou-se, alinhando o tronco com o dela. Vós sois encantadora, sussurrou, aproximando a cabeça dela da sua. Ele deu-lhe um beijo quase lânguido. Mais um beijo amoroso do que um arroubo, que lentamente se tornava mais profundo, despertando algo dentro dela que ela não controlava, algo que se fizera expectante após longa abstinência. Uma expectativa deliciosa acordou e percorreu-lhe todo o corpo de uma forma escandalosa. Reyna devia afastá-lo, mas Melissa, a cortesã, certamente não o faria, e como tal aguentou, com a consciência dolorosa de que o seu sofrimento não era, nem de perto nem de longe, tanto como deveria ser. Tentou travar a sua reacção escandalosa e a sua mente desnorteada começou a entoar repetidamente uma ordem silenciosa, que ele dormisse, raios, que dormisse.

Ele afastou-se dela. A expressão do seu rosto era indescritível. Calor. Desejo. A promessa do prazer revelado. Estava apoiado num braço e o seu tronco nu quase tocava no ombro dela. Aquela chama proibida dentro dela regozijou contra a sua vontade. Ela não conseguia tirar os olhos daquele rosto incrível. Não conseguia mexer-se. Não vos sintais constrangida, disse ele. Decerto é permitido que desfruteis uma vez ou outra. Ele baixou o olhar e passou os dedos pela orla do vestido dela, no alto dos seios. Curvou-se e beijou a pele exposta pelo decote generoso. Ela sentiu o corpo inteiro ser percorrido pelo mais estranho dos arrepios.

Observou, hipnotizada, aquela mão libertar o seu ombro do tecido. É importante que ele beba o vinho todo antes de tentar despir-vos. Recompôs-se. Inclinou-se para trás e soltou um risinho forçado. Tentou comportar-se como a cortesã experimentada determinada a conduzir o jogo de uma certa maneira. Já acabastes o vosso vinho, disse, fazendo menção de pegar na garrafa de vidro e na taça. Deixai que vos sirva mais um pouco. Carradas dele. Ele lançou-lhe um olhar que dizia que seria à maneira dela, mas não durante muito mais tempo. Regressou para o almofadão e deitou-se. Ela virou-se a tempo de ver a taça nos lábios dele.

Tentou impor controlo ao sangue desassossegado das suas veias. Agora falamos, disse ela com firmeza. Acabai o vosso vinho e dizei-me como viestes aqui parar. Sou eu que falo? Sois vós a treinada na arte da conversação. Sou treinada para ouvir. Os homens gostam de falar deles próprios, e nós ouvimos. Eu não tenho prazer em falar de mim. Falai vós.  Eu? Sobre o quê?  Podeis falar sobre mim. Podeis dizer-me como sou belo e admirar o meu rosto e o meu corpo. As mulheres fazem sempre isso. Fazem-no, deveras? Que conveniente ele vir recordar-lhe a sua presunção precisamente quando precisava de ajuda para não gostar dele. Se este garanhão enfatuado esperava vê-la a suspirar pela beleza dele, ele que pensasse outra vez… Ela suspirou, de facto, mas pela inutilidade do rancor que sentia. O vinho devia fazer efeito muito em breve. Deus sabia que ele tinha bebido que chegasse. Com um esgar, virou-se para ele. Os olhos dele aparentavam estar fechados. Ele pegou na mão dela e pousou-a no peito dele, o que fez com que ela se aproximasse um pouco, e ela reparou que as pálpebras dele estavam um tudo-nada abertas e que ele a observava. Não, ela talvez não se importasse minimamente de o matar depois desta humilhação.

Ela pôs um sorriso no rosto e começou a traçar com os dedos as linhas dos ombros e dos músculos do peito dele. Dava voltas à cabeça à procura de frases apropriadas. Sem dúvida que sois um homem muito bem-parecido. Olhos muito belos e um sorriso encantador. E o vosso corpo é forte e atlético. Santo Deus, as cortesãs e meretrizes mereciam decididamente cada centavo. Adormece, seu idiota presunçoso. Não é entroncado e peludo como alguns guerreiros. Do que gostais mais? A voz dele parecia sonolenta e arrastada. Hã… bem, estas concavidades ao longo da vossa clavícula são muito atractivas. A mão dele ergueu-se, lânguida, e envolveu-se no cabelo dela. Puxou-a delicadamente, encaminhado-lhe a cabeça para baixo. Então beijai-as, senhora. E depois, tudo o resto. Não está o maior talento de uma cortesã na sua boca?  

Ela apercebeu-se de que o seu rosto estava a centímetros do dele e daqueles olhos ardentes que a olhavam por entre as pálpebras semicerradas. Os seios dela pairavam mesmo acima dele, roçando-o ao de leve, e sentia um formigueiro no seu corpo ridículo, traiçoeiro. Contrariada, dobrou o pescoço e encostou os lábios à concavidade acima da clavícula dele. Pele. Calor. Aquele cheiro masculino inebriante. Uma mão doce, mas dominadora na sua cabeça encaminhava-a mais para baixo, para o peito. Adormece, maldito sejas. Ela beijou-lhe o peito e tentou não prestar atenção à espantosa e assustadora intimidade que tal acção evocava. Ele era o inimigo, um estranho, e ela odiava-o, mas algo dentr dela ignorava isto.

Ele conduziu-a mais para baixo, para o tronco, e barriga… De repente, a mão que tinha na cabeça ficou mole. Ela susteve a respiração e aguardou pela imobilidade absoluta que indicava que ele dormia.  Cuidadosa, esgueirou-se para longe do corpo dele. O braço dele caiu, lasso, ao lado do corpo. Puxou para si o cesto e despejou o resto das empadas. Afastou o pano mal cosido que compunha um fundo falso e cravou os olhos no punhal de aço escondido por baixo dele. Por Alice e as outras mulheres. Sim, até por Margery. Por Reginald, e até mesmo por Thomas». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Literatura, Idade Média,

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «E não vim de lado nenhum. Nasci aqui. Na Palestina? Sim, em Israel. Surpreende-a? Não... Na verdade, os meus pais eram russos e os meus antepassados polacos. Há muitos russos de origem polaca; já sabe que a Polónia sempre esteve na mira dos russos…»

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Jerusalém, época actual

« Se lhe parece bem, dar-lhe-ei o questionário que trago preparado e que servirá de base para o relatório que devo redigir. Imagino que vai falar com mais pessoas... Sim, tenho uma longa lista de entrevistas: funcionários, deputados, diplomatas, membros de outras ONG, organizações religiosas, jornalistas... E palestinianos. Imagino que vai falar com eles. Claro, já o fiz. Eles são o motivo do meu trabalho. Antes de vir para Israel estive na Jordânia e tive oportunidade de falar com muitos palestinianos que tiveram de fugir depois de cada conflito.

A senhora perguntava-me pelo sofrimento dos deslocados... Bem, eu poderia falar-lhe durante horas, dias, semanas inteiras sobre o sofrimento. Era difícil acreditar que aquele homem alto e forte, que, apesar da sua idade, emanava confiança em si próprio com aquele olhar cinzento de aço, que mostrava que tinha uma grande paz interior, soubesse verdadeiramente o que era o sofrimento alheio. Não lhe ia negar que tivesse sofrido, mas isso não implicava que fosse capaz de sentir a dor dos outros.

Como é que sabe que aqui houve uma aldeia árabe?, perguntou de repente captando o desconcerto dela. Na minha organização temos informação pormenorizada sobre todas as vilas e aldeias da Palestina, até das que já não existem desde a ocupação. Ocupação? Sim, desde que chegaram os primeiros emigrantes judeus até à proclamação do Estado de Israel, além de tudo o que aconteceu posteriormente. O que é que quer saber? Quero que me fale da política de ocupação dos assentamentos ilegais, das condições de vida dos palestinianos que veem as suas casas demolidas por acções de vingança... da razão por que continuam a levantar assentamentos em lugares que não vos pertencem... Pretendia falar sobre tudo isto com o seu filho. Sei que o Aaron Zucker é um dos mais firmes defensores da política de assentamentos.

Os seus artigos e conferências tornaram-no famoso. O meu filho é um homem honrado, um militar corajoso que serviu no exército, e sempre se destacou por dizer em voz alta o que pensa, sem se preocupar com as consequências. É mais simples lamentar-se pela política de assentamentos, até não dizer nada, do que apoiá-la intimamente. Na minha família preferimos dar a cara. É por isso que estou aqui, é por isso que o Ministério dos Negócios Estrangeiros me mandou falar com o seu filho. É um dos líderes sociais de Israel. A senhora acha que quem defende os assentamentos é quase um monstro...

Marian encolheu os ombros. Não lhe ia dizer que, de facto, era o que pensava. A entrevista não estava a correr como tinha previsto. Dir-lhe-ei o que penso: não sou partidário de que se construam novos assentamentos. Defendo o direito dos palestinianos a terem o seu próprio Estado. Pois, mas o seu filho Aaron pensa justamente o contrário. Mas é comigo que está a falar. E não olhe para mim como se eu fosse um velhinho, não sou nenhum ingénuo. A porta da sala abriu-se e apareceu um jovem alto, vestido de soldado, com uma pistola-metralhadora pendurada ao ombro. Marian assustou-se. É o meu neto Jonas. Com que então a senhora é a da ONG... Desculpe, mas não consegui deixar de ouvir as suas últimas palavras. Gostaria de lhe dar também a minha opinião, se o meu avô me permitir.

O Jonas é filho do Aaron, explicou Ezequiel Zucker a Marian. A política de assentamentos não se deve a um capricho, trata-se da nossa segurança. Olhe para o mapa de Israel, repare nas nossas fronteiras... Os assentamentos fazem parte da frente em que nos vemos obrigados a lutar, afirmou Jonas com tal convicção que Marian ficou incomodada e sentiu uma aversão instintiva face àquele jovem. Lutam contra mulheres e crianças? Que glória há em demolir as casas onde vivem de forma precária as famílias palestinianas?, perguntou Marian.

Por acaso devemos deixar-nos matar? As pedras ferem. E nessas aldeias onde parece que vivem pacíficas famílias também há terroristas. Terroristas? O senhor chama terrorista a quem defende o seu direito a viver na aldeia onde nasceu? Além disso, a política de assentamentos só procura ficar com um território que não vos pertence. As resoluções das Nações Unidas sobre as fronteiras de Israel são suficientemente claras. Mas o seu país tem uma política de factos consumados. Constroem um assentamento nas zonas onde os palestinianos vivem, encurralam-nos, fazem-lhes a vida impossível até conseguirem que se vão embora.

A senhora é uma mulher apaixonada, não sei porque é que se incomoda em vir aqui para redigir um relatório. É evidente que tem as ideias bem arrumadas, nada do que o meu avô ou o meu pai lhe possam dizer mudaria a sua forma de pensar. Estou enganado? Tenho a obrigação de ouvir todas as partes. Tenta cumprir uma formalidade, nada mais. Jonas, já chega, deixemos a senhora Miller fazer o seu trabalho. A voz de Ezequiel Zucker não dava lugar a uma nova resposta do seu neto. Está bem, já estava de saída. E o jovem saiu sem se despedir. Marian leu nos olhos cinzentos de Ezequiel Zucker que ia dar por terminada aquela conversa com a qual ela não tinha sabido lidar, mas não se podia ir embora. Ainda não. Acho que vou aceitar o chá que me ofereceu. Agora era ele quem parecia desconcertado. Não tinha vontade de continuar a conversar com aquela mulher, mas também não se queria mostrar grosseiro.

Quando regressou com o chá encontrou-a a olhar pela janela. Não era uma mulher bonita, mas sim atraente. De estatura média, magra, com o cabelo preto apanhado. Calculou que já há algum tempo deveria ter feito quarenta anos, que estava mais perto dos cinquenta. Sentia-a desassossegada e esse desassossego pareceu-lhe contagiante. Naquela direcção, está Jerusalém, disse ele enquanto colocava a bandeja com o chá numa mesinha baixa. Eu sei, respondeu Marian. Esforçava-se por mostrar um sorriso, mas ele já não parecia disposto a conversar. Antes disse que podia falar semanas inteiras sobre sofrimento... Sim, podia, respondeu ele de forma brusca.

De onde é, Ezequiel? Qual é o seu país de origem? Sou israelita. Esta é a minha pátria. Imagino que para um judeu o mais importante seja sentir que tem uma pátria, disse ela ignorando o tom distante do homem. A nossa pátria, sim. Não foi oferecida. Tínhamos direito a ela. E não vim de lado nenhum. Nasci aqui. Na Palestina? Sim, em Israel. Surpreende-a? Não... Na verdade, os meus pais eram russos e os meus antepassados polacos. Há muitos russos de origem polaca; já sabe que a Polónia sempre esteve na mira dos russos e, de cada vez que estes ficavam com um pedaço de terra polaca, os judeus polacos passavam a ser russos. A vida dos judeus não era fácil na Rússia, de facto não o era em nenhum lugar da Europa, embora a Revolução Francesa tenha dado uma reviravolta à nossa situação. As tropas de Napoleão exportavam a ideia da liberdade onde quer que fossem, mas essas ideias chocaram com a Rússia dos czares». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento, 

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «Aquele homem desconcertava-a. Não lhe queria dizer o seu nome, claro que não pensava tratá-lo pelo dele, mas se ele decidia dar por encerrada a conversa, então... então teria desperdiçado a melhor oportunidade…»

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Jerusalém, época actual

«Uns minutos mais tarde, saiu da via rápida e dirigiu-se a uma estrada que conduzia a um grupo de casas situadas sobre uma colina. Estacionou o carro em frente a um edifício de pedra de três andares, idêntico a outros que se erguiam sobre um terreno rochoso; dali, nos dias claros, conseguia-se ver as muralhas da Cidade Velha.

Apagou o cigarro no cinzeiro do carro e respirou fundo. Aquele lugar parecia uma urbanização burguesa, como tantas outras. Casas de vários andares, rodeadas de jardins ocupados por baloiços e escorregas para as crianças e carros alinhados junto a passeios impolutos. Respirava-se tranquilidade, segurança. Não lhe custava imaginar como eram as famílias que agora viviam dentro daquelas casas, embora soubesse como tinha sido esse lugar há décadas. Tinham-lho contado alguns velhos palestinianos, com o olhar perdido nas lembranças daqueles dias nos quais eram eles que viviam nesse pedaço de terra, porque ainda não tinham chegado os outros, os judeus.

Subiu as escadas. Mal tocou à campainha, a porta abriu-se. Uma mulher jovem, que nem sequer teria trinta anos, recebeu-a sorridente. Vestia-se informalmente, com calças de ganga, uma t-shirt larga e ténis. O seu aspecto era igual ao de tantas outras jovens, mas ter-se-ia destacado entre milhares pelo seu franco sorriso e o seu olhar carregado de bondade. Entre, estávamos à sua espera. É a senhora Miller, não é? Sim. Eu sou a Hanna, a filha do Aaron Zucker. Lamento que o meu pai esteja a viajar, mas, como insistiram tanto do ministério, o meu avô vai recebê-la. Da minúscula entrada passaram para uma sala espaçosa e luminosa. Sente-se, vou avisar o meu avô. Não é preciso, estou aqui. Sou o Ezequiel Zucker, disse uma voz procedente do interior da casa. Um momento depois apareceu um homem. A senhora Miller cravou o olhar nele. Era alto, tinha o cabelo grisalho e os olhos de cor cinzenta; apesar da idade, parecia ágil.

Apertou-lhe a mão com força e convidou-a a sentar-se. Então a senhora queria ver o meu filho... Na verdade queria conhecê-los aos dois, embora sobretudo ao seu filho, já que é um dos principais impulsionadores da política de assentamentos... Sim, e é tão convincente que o ministério lhe envia os visitantes mais críticos para ele lhes explicar a política de assentamentos. Bem, estou à sua disposição, senhora Miller.

Avô, interrompeu Hanna,se não te importas, vou andando. Tenho uma reunião na universidade. O Jonas também está prestes a sair. Não te preocupes, eu desenrasco-me sozinho. De quanto tempo precisa?, perguntou Hanna à senhora Miller. Tentarei não o cansar... Uma hora, talvez um pouco mais...,respondeu a mulher. Não há pressa, disse o ancião, na minha idade o tempo não conta. Ficaram sozinhos e ele reparou na sua tensão. Ofereceu-lhe chá, mas ela recusou. Então, a senhora trabalha para uma dessas ONG que recebem subsídios da União Europeia. Trabalho para a Refugiados, uma organização que estuda no terreno os problemas que as populações deslocadas sofrem devido a conflitos bélicos, catástrofes naturais... Tentamos avaliar o estado dos deslocados, e se as causas que provocaram o conflito estão em vias de solução, ou quanto pode durar a sua situação, e se julgarmos conveniente instamos os organismos internacionais a adoptarem medidas para atenuar o sofrimento dos deslocados. Os nossos estudos são rigorosos e por isso recebemos ajuda de instituições comunitárias.

Sim, conheço os relatórios da Refugiados sobre Israel. Sempre críticos. Não se trata de opiniões, mas sim de realidades, e a realidade é que, desde 1948, milhares de palestinianos tiveram de abandonar os seus lares, viram-se despojados das suas casas, das suas terras. O nosso trabalho é avaliar a política de assentamentos que aumenta o número de deslocados. Aqui onde nos encontramos, nesta colina, houve uma aldeia palestiniana da qual não resta nada. Sabe que destino tiveram os habitantes dessa aldeia? Onde estão agora? Como sobrevivem? Poderão algum dia recuperar o lugar onde nasceram? O que é que o senhor sabe sobre o seu sofrimento?

Arrependeu-se imediatamente das suas últimas palavras. Aquele não era o caminho. Não podia mostrar tão abertamente os seus sentimentos. Tinha de tentar manter uma atitude mais neutra. Nada de comprazimento, mas de aversão também não. Mordeu o lábio inferior enquanto esperava pela resposta do homem. Como se chama?, perguntou ele. Desculpe? Pergunto-lhe o seu nome. É muito impessoal tratá-la por senhora Miller. A senhora pode tratar-me por Ezequiel. Bem, não sei se é o mais correcto... Tentamos não confraternizar quando estamos a trabalhar. A minha intenção não é confraternizar consigo, mas sim que nos tratemos pelos nossos respectivos nomes. Quer dizer... não estamos no Palácio de Buckingham! A senhora está na minha casa, é minha convidada e peço-lhe que me chame Ezequiel.

Aquele homem desconcertava-a. Não lhe queria dizer o seu nome, claro que não pensava tratá-lo pelo dele, mas se ele decidia dar por encerrada a conversa, então... então teria desperdiçado a melhor oportunidade que alguma vez ia ter para levar a cabo aquilo que tanto a atormentava. Marian. Marian? Não me diga... É um nome comum. Não se desculpe por se chamar Marian. Sentiu raiva. Ele tinha razão, estava a desculpar-se pelo seu nome, e não tinha motivos para isso». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento,

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «Desde que a fora buscar ao aeroporto há quatro dias, tinha reparado na sua tensão, no seu desconforto. Ficava incomodado com a distância que ela colocava entre eles ao insistir que lhe chamasse senhora Miller»

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Jerusalém, época actual

«Há momentos na vida em que a única forma de nos salvarmos a nós próprios é matando ou morrendo. Aquela frase de Mohamed Ziad atormentava-a desde o momento em que a tinha ouvido dos lábios do seu filho Wadi Ziad. Não conseguia deixar de pensar naquelas palavras enquanto conduzia sob um sol implacável que dourava as pedras do caminho. A mesma cor dourada das casas que se amontoavam na nova cidade de Jerusalém, construídas com essas pedras enganosamente suaves, mas duras como as rochas das pedreiras de onde tinham sido arrancadas. Conduzia devagar deixando que o seu olhar vagueasse pelo horizonte onde as montanhas da Judeia lhe pareciam próximas.

Sim, ia devagar embora tivesse pressa; no entanto, precisava de saborear aqueles instantes de silêncio para evitar que as emoções a dominassem. Duas horas antes não sabia que ia dar início ao caminho que a levaria para o seu destino. Não é que não estivesse preparada. Estava. Mas ela, que gostava de planear até ao último detalhe da sua vida, tinha ficado surpreendida com a facilidade com que Joël tinha conseguido o encontro. Bastara uma dúzia de palavras. Já está, vai receber-te ao meio-dia. Tão cedo? São dez horas, tens tempo suficiente, não é muito longe. Eu indico-te no mapa, não é complicado chegar lá. Conheces bem o sítio? Sim, e também os conheço a eles. A última vez que lá estive foi há três semanas com o pessoal da Acção pela Paz.

Não sei como é que confiam em ti. E porque é que não haviam de confiar? Sou francês, tenho bons contactos, e as almas inocentes das ONG precisam de quem as oriente nas confusões burocráticas de Israel, alguém que lhes trate das autorizações para atravessar para Gaza e para a Cisjordânia, que consiga uma entrevista com algum ministro perante o qual protestar pelas condições em que os palestinianos vivem; proporciono-lhes camiões a bom preço para transferirem a ajuda humanitária de um lugar para outro... A minha organização faz um bom trabalho. Tu podes confirmá-lo. Sim, vives dos bons sentimentos do resto do mundo. Vivo de prestar um serviço a quem vive da má consciência dos outros.

Não te queixes, nem sequer há um mês que entraram em contacto connosco, e durante esse tempo consegui-te encontros com dois ministros, com parlamentares de todos os grupos, com o secretário da Histadrut, acesso facilitado para entrar nos Territórios, conseguiste entrevistar muitos palestinianos... Estás há quatro dias aqui e já cumpriste metade do programa que tinhas previsto. Joël olhou para a mulher, aborrecido. Não gostava dela. Desde que a fora buscar ao aeroporto há quatro dias, tinha reparado na sua tensão, no seu desconforto. Ficava incomodado com a distância que ela colocava entre eles ao insistir que lhe chamasse senhora Miller.

Ela fitou-o. Tinha razão. Tinha cumprido. Outras ONG utilizavam os seus serviços. Não havia nada que Joël não conseguisse desde esse escritório com vista para a Cidade Velha de Jerusalém ao longe. Com ele trabalhavam a sua mulher, que era israelita, e mais quatro jovens. Dirigia uma empresa de serviços muito apreciada pelas ONG. Vou dizer-te uma coisa sobre esse homem: é uma lenda, disse Joël. Teria preferido falar com o filho dele, foi isso que te pedi. Mas ele foi para os Estados Unidos a convite da Universidade de Columbia para participar num seminário e, quando regressar, tu já não estarás aqui. Não tens o filho, mas tens o pai; acredita em mim quando te digo que ficas a ganhar com a mudança. É um velho formidável. Tem uma história... Conhece-lo assim tão bem? Às vezes os tipos do ministério enviam-lhe pessoas como tu. É uma pomba, o contrário do filho. É precisamente por isso que me interessa falar com o Aaron Zucker, porque é um dos principais líderes da política de assentamentos. Sim, mas o pai é mais interessante, insistiu Joël.

Ficaram em silêncio para evitar uma dessas absurdas discussões em que se engalfinhavam. Não se tinham dado bem. Ele achava-a exigente; ela só via o seu cinismo. E agora já estava a caminho. Cada vez se sentia mais tensa. Tinha acendido um cigarro e aspirava o fumo com prazer enquanto fixava o olhar naquela terra ondulada onde dos dois lados da estrada pareciam trepar alguns edifícios modernos e funcionais. Não havia cabras, pensou deixando-se levar pela imagem bíblica, mas porque é que haveria de haver? Não restava sítio para as cabras junto àqueles enormes blocos de aço e vidro que eram a insígnia da prosperidade do moderno Israel». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

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sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Codex 632. José Rodrigues dos Santos. «Afastou-se do quadro e aproximou-se da primeira fila. E terminou aqui, meus caros, o papel da pedra de Roseta. Aguardou que esta ideia assentasse. Foi um primeiro passo muito importante, é verdade, mas faltava ainda fazer muita coisa»

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Prologo

«Talvez fosse holandesa ou mesmo inglesa, mas a Tomás cheirava-lhe que ela viera da Alemanha, não seria do género alemã-cavalona nem alemã-vaca, mas antes alemã modelo, alta e resplandecente, uma verdadeira capa de revista. Ora, concluíram os cientistas ingleses, se as outras duas inscrições continham o mesmo édito, então não seria difícil decifrar os textos demótico e hieroglífico. Ah!, exclamou a aluna gordinha de óculos, a mesma vivaça que antes interrogara o professor. Então sempre foi a pedra de Roseta que forneceu a chave para decifrar os hieróglifos...

Calma, pediu Tomás, erguendo a mão direita. Calma. Fez uma pausa dramática. A pedra de Roseta tinha três problemas. Ergueu o polegar. Em primeiro lugar, estava danificada. O texto grego mantinha-se relativamente intacto, mas faltavam partes importantes do demótico e sobretudo do hieroglífico. Desapareceu metade das linhas do hieroglífico e as restantes catorze linhas encontravam-se deterioradas. Ergueu o indicador. Depois, havia o problema de os dois textos por decifrar estarem escritos em egípcio, uma língua que se presumia não ser falada há pelo menos oito séculos. Os cientistas conseguiam perceber quais eram os hieróglifos correspondentes a determinadas palavras gregas, mas desconheciam o seu som. Juntou o terceiro dedo. Finalmente, havia o problema de estar muito enraizada entre os eruditos a ideia de que os hieróglifos eram semagramas, cada símbolo continha ideias completas, e não fonogramas, onde um símbolo representa um som, a exemplo do que acontece no nosso alfabeto fonético.

Então como é que eles decifraram os hieróglifos? A primeira brecha no mistério dos hieróglifos foi aberta por um prodígio inglês chamado Thomas Young, um homem que, aos catorze anos, já tinha estudado grego, latim, italiano, hebraico, caldeu, siríaco, persa, árabe, etíope, turco e... uh... e... deixem-me cá ver... Chinamarquês?, arriscou o brincalhão da turma. Risada geral. Samaritano, lembrou-se Tomás.

Ah, então se sabia samaritano é por que era bom rapaz, insistiu o brincalhão, entusiasmado com o êxito das suas tiradas. Um bom samaritano. Novas gargalhadas. Vamos lá, vamos lá, disse o professor, que começava a ficar agastado com as piadinhas. Tomás sabia que todas as turmas tinham o seu palhaço, e este, pelos vistos, era o palhaço de serviço daquela turma. Bem, o Young levou para as férias de Verão, em 1814, uma cópia das três inscrições da pedra de Roseta. Pôs-se a estudá-las bem e houve uma coisa que lhe chamou a atenção. Tratava-se de um conjunto de hieróglifos rodeados por uma carteia, uma espécie de anel.

Presumiu que a carteia se destinava a sublinhar algo de grande importância. Ora, pelo texto em grego sabia que naquela zona se falava do faraó Ptolemeu, pelo que somou dois e dois e concluiu que a carteia assinalava o nome de Ptolemeu, era uma forma de importantizar o faraó. Foi nessa altura que ele deu um passo revolucionário. Em vez de partir do princípio de que aquela era uma escrita exclusivamente ideográfica, admitiu a hipótese de a palavra estar redigida foneticamente e pôs-se a fazer conjecturas sobre o som de cada hieróglifo dentro da carteia. O professor aproximou-se do quadro e desenhou um quadrado D. Partindo do princípio de que se encontrava ali assinalado o nome de Ptolemeu, presumiu que este símbolo, o primeiro da carteia, correspondia ao primeiro som do nome do faraó, o p. Desenhou ao lado uma metade de círculo com a base voltada para baixo C.

Depois, admitiu que este símbolo, o segundo da carteia, era um í. Fez a seguir um leão deitado de perfil _2^S> • Este leãozinho, achou ele que representava um /. Novo símbolo rabiscado no quadro branco, desta feita duas linhas horizontais paralelas unidas à esquerda <C~T. Aqui julgou ter encontrado um w. Agora duas facas lado a lado na vertical (1 (]. Estas facas seriam um z. Finalmente, um gancho de pé I . E este símbolo, um os. Rodou a cabeça e mirou a turma. Estão a ver? Apontou para os desenhos rabiscados no quadro e soletrou-os, acompanhando com o indicador. P, t, l, m, i, os. Ptlmios. Ptolemeu.

Voltou a encarar os alunos e sorriu com o ar de fascínio que descobriu naqueles rostos frescos. Sabemos hoje que, na maior parte dos casos, ele acertou nestes sons. Afastou-se do quadro e aproximou-se da primeira fila. E terminou aqui, meus caros, o papel da pedra de Roseta. Aguardou que esta ideia assentasse. Foi um primeiro passo muito importante, é verdade, mas faltava ainda fazer muita coisa. Tendo completado a primeira leitura de um hieróglifo, Thomas Young foi à procura de confirmações. Descobriu uma outra carteia no templo de Karnak, em Tebas, e deduziu tratar-se do nome de uma rainha ptolemaica, Berenika. Também aqui acertou nos sons». In José Rodrigues dos Santos, Codex 632, Gradiva, 2005, ISBN 978-989-616-072-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

JDACT, José Rodrigues dos Santos, Literatura, Egipto, Conhecimento,

Isabel de Castela. Giles Tremlett. «Mais ao norte, a França continuava sendo uma potência muito maior, que Castela tinha o cuidado de não perturbar. Os que observavam o desfile de Isabel pelas ruas frias de Segóvia…»

jdact e cortesia de wikipedia

A primeira grande rainha da Europa

«A visão era impressionante. Gutierre de Cárdenas caminhava solenemente pelas ruas de Segóvia, geladas e varridas pelo vento, a espada real mantida com firmeza à sua frente, segura pela ponta, e a empunhadura para o alto. Atrás dele, vinha um novo monarca, uma mulher de vinte e três anos, de altura mediana a baixa, cabelos louro-avermelhados e olhos verde-azulados, cujo ar de autoridade era acentuado pela ameaça da arma de Cárdenas. A espada era um símbolo do poder real tão forte quanto qualquer coroa ou cetro. Aqueles que enfrentavam o ar frio e cortante de Segóvia para ver a procissão sabiam que aquela espada significava a determinação da jovem de fazer justiça e impor sua vontade pela força. As joias reluzentes de Isabel de Castela falavam de magnificência régia, enquanto a espada de Cárdenas ameaçava violência. Ambas indicavam poder e a disposição de exercê-lo. Os espectadores estavam estupefactos. O pai e o meio-irmão de Isabel, os dois reis que governaram a turbulenta Castela pelos setenta anos anteriores, não eram famosos pelo uso do poder. Haviam deixado que outros governassem por eles.

No entanto, ali estava uma mulher, por mais incrível que fosse, declarando-se determinada a governá-los ela própria. Alguns na multidão murmuravam que nunca haviam visto nada igual, relatou um dos presentes. Os descontentes não tinham nenhum escrúpulo em contestar o direito de uma mulher de governá-los e não precisavam ficar de boca fechada. A monarquia fraca de Castela tornara-se objecto de deboche, desobediência e franca rebelião. Durante décadas, os reis do país não passaram de joguetes para uma parte daqueles aristocratas poderosos, arrogantes e proprietários de terras, que já se referiam a si próprios como os Grandes, a alta nobreza espanhola. Aquela mulher que alegava ser sua nova rainha em um dia de Dezembro de 1474 pode ter aparecido em seus trajes e jóias mais magníficos, mas somente um pequeno número de Grandes, sacerdotes e outros altos dignitários a acompanhava. Era um sinal de que seus problemas iam além do seu género e da condição de fragilidade da monarquia de Castela.

Afinal, Isabel não era a única pretendente ao trono, nem era a pessoa designada como tal pelo monarca anterior. Aquilo era, em resumo, o golpe antecipado de uma usurpadora. Ninguém podia ter certeza de que iria dar certo. Castela era o maior, mais forte e mais populoso reino naquela que os romanos (e seus herdeiros visigodos) chamaram de Hispânia e que hoje está dividida entre os dois países da Península Ibérica, Portugal e Espanha. Com mais de quatro milhões de habitantes, era significativamente mais populosa do que a Inglaterra e um dos maiores países da Europa Ocidental. O reino que Isabel reclamava era o resultado de uma lenta conquista de seis séculos de terras que haviam sido ocupadas pelos muçulmanos, conhecidos pelos cristãos como moros, ou mouros, que atravessaram os quinze quilómetros de águas turbulentas que separam a Espanha do Norte da África no estreito de Gibraltar e varreram a Ibéria no começo do século VIII.

A história recente de Castela nada tinha de gloriosa e sua experiência de rainhas regentes era tanto distante quanto tida como deplorável. Ninguém vivo podia se lembrar de como era ter um monarca forte, enquanto lutas internas e vizinhos problemáticos, Aragão a leste, o reino muçulmano de Granada ao sul e Portugal a oeste, continuavam a absorver grande parte de sua energia. Lidar com esses três países e com o pequeno, mas em geral irritante, reino nortista de Navarra era praticamente tudo que conseguia fazer em termos de aventuras estrangeiras, embora a família real muitas vezes buscasse parceiros de casamento no exterior e a própria Isabel se vangloriasse tanto de uma mãe portuguesa quanto, em Catarina de Lancaster, uma avó inglesa.

Mais ao norte, a França continuava sendo uma potência muito maior, que Castela tinha o cuidado de não perturbar. Os que observavam o desfile de Isabel pelas ruas frias de Segóvia não podiam saber que estavam testemunhando os primeiros passos de uma rainha destinada a se tornar a mulher mais poderosa que a Europa já vira desde a era romana. Essa rainha de Espanha, chamada Isabel, não teve igual nesta terra por quinhentos anos, um visitante maravilhado do Norte da Europa proclamou um dia, admirando o temor e a lealdade que ela provocava entre os castelhanos mais humildes e os mais poderosos Grandes. Não se tratava de um exagero. A Europa possuía uma experiência limitada com rainhas regentes, e menos ainda com rainhas regentes bem-sucedidas.

Poucas das que se seguiram a Isabel tiveram um impacto tão duradouro. Apenas Elizabeth I, da Inglaterra, a arquiduquesa Maria Teresa, da Áustria, Catarina, a Grande, da Rússia (ofuscando uma formidável antecessora, a imperatriz Elizabeth) e a rainha Vitória, do Reino Unido, podem rivalizar com ela, cada qual em sua própria era». In Giles Tremlett, Isabel de Castela, Editora Rocco, 2018, ISBN 978-853-253-099-8.

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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Codex 632. José Rodrigues dos Santos. «Tomás concluiu tratar-se de uma estrangeira, era raro em Portugal aquele tipo de loiras tão clarinhas… Os cientistas franceses olharam para a pedra, identificaram caracteres gregos…»

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Prologo

«Como assim, professor?, adiantou uma estudante sentada à esquerda, uma gordinha baixa e de óculos, habitualmente das mais atentas e participativas. Tinha um ar prendado, devia ser católica. Então não foi a pedra de Roseta que forneceu a chave do significado dos hieróglifos? Tomás sorriu. A desvalorização da importância da pedra de Roseta, implícita no seu tom, produzira o efeito que desejava. Acordara a sala.

Sim, deu uma ajudinha. Mas houve muito mais do que isso. Uma nova aluna entrou na sala e o professor observou-a de relance, distraidamente. Como vocês sabem, durante séculos... Hesitou, retendo a atenção na recém-chegada. Uh... durante séculos... os hieróglifos... Era uma rapariga que nunca tinha visto. Os hieróglifos permaneceram... uh... eles permaneceram um grande mistério. A rapariga desconhecida foi sentar-se na última fila, isolada de todos e, por esta altura, observada por todos. Os... uh... hieróglifos mais antigos... Tinha um cabelo loiro aos canudos, brilhante e vivo, e um corpo voluptuoso. Pois... os primeiros hieróglifos remontam a... uh... três mil anos antes de Cristo. Tomás fez um esforço para se concentrar na matéria e obrigou-se a desviar o olhar da rapariga, percebeu que não lhe ficava bem permanecer embasbacado a observá-la e continuar a gaguejar.

Os... uh... hieróglifos permaneceram quase inalterados durante mais de três mil anos, até que, no final do século IV d. C, deixaram de ser usados. O seu uso e a sua leitura perderam-se subitamente, no espaço de apenas uma geração. E sabem porquê? A classe permaneceu em silêncio. Ninguém sabia. Os egípcios ficaram amnésicos?, gracejou um aluno, um dos raros rapazes que integravam a turma. Risinhos na sala, as raparigas achavam-lhe graça. Por causa da Igreja cristã, explicou o professor com um sorriso forçado. Os cristãos proibiram os egípcios de usarem os hieróglifos. Queriam cortar com o seu passado pagão, queriam obrigá-los a esquecerem Ísis, Osíris, Anúbis, Horus e toda aquela imensa corte de deuses. O corte foi de tal modo radical que o conhecimento da antiga escrita pura e simplesmente desapareceu. O professor fez um gesto rápido. Puf!, soprou. De um momento para o outro, nem uma única pessoa se tornou capaz de perceber o que os hieróglifos queriam dizer. A velha escrita egípcia passou à história enquanto o diabo esfrega um olho.

Tomás atreveu-se, agora que já tinha decorrido pelo menos um minuto, a mirar de fugida a recém-chegada. O interesse pelos hieróglifos manteve-se hibernado e só se reacendeu no final do século XVI, quando, por influência de um livro misterioso, intitulado Hypnerotomachia Poliphili, de Francesco Colonna, o papa Sisto V mandou colocar obeliscos egípcios nas esquinas das novas avenidas de Roma. Tomás achou-a uma deusa, embora de um género decerto diferente de Ísis. Os eruditos começaram a tentar decifrar aquela escrita, mas não percebiam nada, achavam estarem diante de semagramas, caracteres que representavam ideias completas.

Ela era mais do género das divindades nórdicas. Quando Napoleão invadiu o Egipto, mandou vir atrás de si uma equipa de historiadores e cientistas com a missão de cartografarem, registarem e medirem tudo o que encontrassem. Uma espécie de cortesã para animar os festins de Tor e Ódin. Essa equipa chegou ao Egipto em 1798 e, no ano seguinte, foi chamada pelos soldados estacionados no Fort Julien, no delta do Nilo, para ver uma coisa que eles encontraram na cidade de Roseta, ali nas proximidades. A loira tinha olhos de um azul--turquesa cristalino, a pele de um branco lácteo e irradiava uma beleza espampanante, daquelas particularmente apreciadas pelos homens e desprezadas pelas mulheres.

Os soldados tinham recebido a missão de demolirem uma parede, de modo a abrirem caminho para o forte que ocupavam, quando descobriram, inserida na parede, uma pedra com três tipos de inscrição. Tomás concluiu tratar-se de uma estrangeira, era raro em Portugal aquele tipo de loiras tão clarinhas. Os cientistas franceses olharam para a pedra, identificaram caracteres gregos, demóticos e hieróglifos, concluíram que se tratava do mesmo texto nas três línguas e aperceberam-se imediatamente da importância da descoberta. Seria alemã? O problema é que as tropas britânicas avançaram sobre o Egipto e derrotaram as francesas, e a pedra, que era suposto ser enviada para Paris, acabou por ser remetida para o Museu Britânico, em Londres. Podia ser italiana ou francesa, mas Tomás apostava num país nórdico. A tradução do grego revelou que a pedra continha um decreto da assembleia dos sacerdotes egípcios, registando os benefícios que o faraó Ptolemeu concedera ao povo do Egipto e as honras que, em troca, os sacerdotes endereçaram ao faraó». In José Rodrigues dos Santos, Codex 632, Gradiva, 2005, ISBN 978-989-616-072-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

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Vaticanum. José Rodrigues dos Santos «É o achado em torno do qual tenho andado às voltas desde que cheguei aqui a Roma. Julguei que estavas a trabalhar no túmulo de São Pedro...»

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«Um odor encharcado de mofo enchia o ar pesado, quente e húmido das catacumbas. Depois de ajeitar o capacete de operário que lhe protegia a cabeça, Tomás Noronha fez sinal à acompanhante para o seguir e virou a lanterna para a frente. O foco de luz, que até ali dançava nervosamente pelas paredes desgastadas pelo tempo, perdeu-se de repente num espaço mais vasto que sem aviso se abriu diante deles. O historiador estacou e examinou a nova divisória; dir-se-ia que haviam chegado a uma sala ou até a um pátio interior repleto de entulho. Brrr, que sítio sinistro!, gemeu Maria Flor atrás dele, quebrando o silêncio. Onde estamos?

Por baixo das Grotte Vecchie, identificou Tomás. As Grutas Velhas. Mais exactamente no muro sul. À medida que avançamos vamos recuando no tempo. Aqui é o Século III, ali ao fundo o Século II, depois o Século I. As vozes de ambos reverberavam no espaço fechado, amplificadas pela rede de clivi, ou pequenas ruas, e de túneis que furavam entre as paredes e janelas dos mausoléus que os cercavam. Nos tectos das catacumbas acumulavam-se gotas invisíveis que iam pingando a um ritmo cadenciado, soltando aqui e acolá pliques e ploques molhados que também ecoavam pelas ruínas; parecia que espectros assombravam as múltiplas criptas esquecidas sob o pó dos Séculos. Ainda falta muito?

Depois de atravessarem mais um clivus, o foco de luz da lanterna detectou uma estrutura inserida nos escombros diante da grande parede com reboco vermelho que se estendia do outro lado do espaço. Chegamos, disse ele. Entramos no Século I. Maria Flor varreu as ruínas com o olhar. O que é isto? O Campo P.

A luz percorreu uma coluna de oitenta centímetros de altura de mármore e depois uma parede perpendicular e terminou na peça de mármore que a coluna sustentava com dois nichos sobrepostos; assemelhava-se a um alpendre de pedra, mas, tratando-se de uma necrópole, só podia ser um mausoléu em forma de edícula. Uma das colunas evidentemente desaparecera, mas a outra sobrevivera.

Maria Flor apontou para a estrutura. É isto o Campo P? Não, indicou Tomás, ainda a analisar o mausoléu embutido na pedra. O Campo P é todo este espaço apertado onde agora penetramos e que está fechado ao público. A estrutura à nossa frente é aparentemente o troféu de Gaius. Quem? Gaius. O que é isso? O historiador avançou, atravessando o Campo P até chegar junto da estrutura; todo o espaço era rectangular, com uns sete metros de um lado ao outro, e estava coberto de pedras e túmulos rasos, evidentemente de pessoas mais modestas do que aquelas cujos restos repousavam nos mausoléus para a eternidade.

É o achado em torno do qual tenho andado às voltas desde que cheguei aqui a Roma. Julguei que estavas a trabalhar no túmulo de São Pedro... Tirando o saco dos utensílios arqueológicos que trazia às costas, Tomás depositou-o com cuidado diante da coluna, aos pés da pequena parede aí erguida. O troféu de Gaius é o túmulo de Pedro, querida. O Campo P é a designação arqueológica de Campo de Pedro.

Pouco convencida, ela analisou a coluna e esboçou uma expressão carregada de desconfiança. Isto é um túmulo? Sim, foi nesta zona que Pedro foi crucificado e os seus restos mortais sepultados. Estamos no túmulo de Shimon, o primeiro dos apóstolos, o pescador a quem Jesus disse que seria a pedra sobre a qual ergueria a sua Igreja. A palavra pedra está na origem do nome pelo qual Shimon, ou Simão, ficou eternamente conhecido. Pedro. Simão, a pedra, ou Pedro, o primeiro papa.

Como sabes isso? Como sei o quê?, devolveu ele em tom zombeteiro. Que Pedro era o pescador Simão que acompanhava Jesus e que mais tarde se tornou o primeiro papa? Não, palerma! Que é este o sítio onde São Pedro foi crucificado e sepultado. Como sabes isso?

Todas as fontes antigas, como Tertuliano em 195 e Eusébio em 325, atestam que Pedro era o bispo de Roma e foi crucificado durante as perseguições lançadas pelo imperador Nero contra os cristãos no ano 64. Um texto apócrifo intitulado Actos de Pedro esclarece que a crucificação foi feita de cabeça para baixo e pernas para o ar, versão que parece ser confirmada indirectamente no Evangelho de João e numa outra fonte citada por Eusébio. Maria Flor apontou com insistência para a estrutura enquadrada pela coluna». In José Rodrigues dos Santos, Vaticanum, 2016, Gradiva, ISBN 978-989-616-733-2.

Cortesia de Gradiva/JDACT

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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O Homem de Constantinopla. José Rodrigues Santos. «Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada»

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O Homem de Constantinopla

«Veron soergueu a sobrancelha, subitamente desconfiada; sabia tão bem como o marido que ninguém no palácio, a começar pelo seu amigo Salim Bey, oferecia nada desinteressadamente. Quanto quer ele? Cinco mil libras de ouro à cabeça e quinze por cento dos lucros. Fez-se silêncio no salão. Sentado no seu tapete de pele de cordeiro, Kaloust esforçava-se por permanecer invisível enquanto acompanhava a conversa; fascinava-o ouvir falar de negocies, mas tentava a todo o custo não se tornar notado, não o fossem mandar embora como aos criados.

Cinco mil libras de ouro é muito dinheiro, observou ela pausadamente. Onde as iremos arranjar? Vendemos as nossas propriedades em Kadi Keui, sugeriu Vahan. Temos mil libras de ouro, não temos? Essas propriedades hão-de render outras duas mil. Quanto às restantes duas mil, pedila-emos emprestadas aos bancos em Constantinopla. Encolheu os ombros, num gesto de impotência. Ficaremos depenados, claro, mas valerá a pena. O olhar de Veron desviou-se para a chama que ainda ardia na ponta do fio de algodão.

Não sei, hesitou. É muito dinheiro ... Mas não achas que é um bom negócio? A mulher estreitou as pálpebras enquanto ponderava o assunto. Aquela decisão era importante e antes de pronunciar o seu veredicto precisava de saber mais. Em que consiste o negócio exactamente?, quis ela saber, fazendo um gesto na direcção da lâmpada. Ficamos com o exclusivo da importação dessa geringonça? É isso? O marido soltou uma gargalhada Não das lâmpadas, corrigiu. Do querosene. Salim Bey oferece-nos o exclusivo da venda de querosene ao sultão.

Aliás, as cinco mil libras de ouro destinam-se às finanças pessoais do sultão. Salim Bey contenta-se com os quinze por cento do negócio. Veron manteve a expressão inquisitiva; ainda não tinha informação suficiente para tomar uma decisão segura. Mas afinal o que é isso do querosene?, perguntou. Onde se vai buscar essa coisa? O querosene é um derivado de um óleo que nasce nas pedras. Daí o seu nome, óleo das pedras. Pedra em grego é petra. Petra óleo. Agora até há uma expressão mais moderna, petróleo. Parece que foram descobertas grandes quantidades desse óleo na América.

E tu vais comprar o óleo à América? Claro! Se o negócio avançar, vou tornar-me o representante oficial do maior dos exportadores americanos, a Stand Oil, que ... Standard Oil, corrigiu o sogro. Pois, isso. Com o dedo debaixo da pálpebra direita acrescentou: E já ando de olho na Rússia também. Encontraram óleo das pedras bem perto daqui, em Baku. Indicou a chama tremeluzente. Isto é o futuro, mulher! Quando os candeeiros estiverem à venda, as pessoas vão deixar de usar velas de cera. Toda a gente vai querer estes candeeiros a óleo. No momento em que isso acontecer..., ficaremos ricos! Vacilou, tentando ler o pensamento de Veron pela expressão do seu olhar. Ou achas que não?

Os olhos da mulher não descolavam do candeeiro. De facto, como resistir à sedução de uma chama sem cheiro nem fumo? Cinco mil libras de ouro era uma verdadeira fortuna, estava realmente nos limites das suas capacidades financeiras ou até para lá deles. Os riscos pareciam-lhe enormes. Não lhes restaria um tostão e ficariam de tal modo endividados que poderiam ser arrastados para a bancarrota, contra a qual a sua prudência de mulher a alertava. Mas até um idiota perceberia as potencialidades comerciais encerradas naquela maravilhosa chama azulada.

Porquê nós? Porque nos oferecem o negócio a nós? Porque Salim Bey confia em mim. Veron inclinou a cabeça com uma expressão céptica muito sua, como se pedisse que a poupassem a conversa fiada. Vá, agora a sério. Porque estamos no sítio certo, corrigiu Vahan. Basta aliás olhar para o mapa. Temos negócios em Constantinopla, onde os Americanos podem descarregar o seu produto. E estamos em Trebizonda, que se encontra a dois passos de Batum e a meio caminho do óleo das pedras de Baku. Além disso, vamos dar-lhes a ganhar muito dinheiro. Desde o colapso financeiro que as contas do império ficaram a descoberto e o sultão precisa urgentemente de dinheiro. Ora, dinheiro já ele tem, observou a mulher com sarcasmo. E muito! Estás enganada». In José Rodrigues Santos, O Homem de Constantinopla, Edições Gradiva, 2013, ISBN 978-989-616-549-9.

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Ela ajoelhou-se ao seu lado e levantou o pano que cobria o cesto. Preparou as empadas de carne e a taça e, em seguida, serviu o bom vinho de Bordéus. Ofereceu-lhe a taça»

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«Ele aproximou-se ainda mais, impondo o seu tamanho e masculinidade. Ela começou a arranjar desculpas para se ir embora. Estes homens parecem mercenários. Será que vos obedecem? Sem dúvida que o seu pagamento serão os despojos. São mercenários, mas são os meus mercenários, e obedecer-me-ão. Morvan Fitzwaryn paga em prata, não com a promessa de pilhagem. Provavelmente esperam que haja alguma, mas não faz parte do acordo. E se vos acontecer alguma coisa? Não tinha percebido que as pessoas do povoado me tinham enviado uma advogada juntamente com a cortesã. Os vossos favores requerem primeiro um contrato em que se cubram todas as eventualidades?

As palavras e o olhar dele lembraram-lhe quem ela pretendia ser e a razão pela qual se encontrava ali. Pensou no perigo que corriam os inocentes da casa-torre se a fortaleza sucumbisse, e na morte horrível que a aguardava se tal não acontecesse. O seu plano era a única forma de solucionar ambos os problemas. Vamos despir-nos, Melissa, para que possais mostrar-me essa grande arte que é a vossa. Olhou, tranquilo, para a enxerga. –

Não se adequa muito a uma cortesã. Preferis que estenda algumas peles no chão? Assim há mais espaço. Com passos largos, foi até ao outro lado da tenda e espalhou algumas peles grandes pelo chão. Sim, assim é melhor. Começou a desapertar o nó das calças. De quatro da primeira vez, parece-me. Ela testemunhou horrorizada este desenrolar demasiado rápido dos acontecimentos. Sir Ian, não estais a compreender. Tal como vos disse, não sou meretriz. Sou cortesã. Fazemos as coisas de forma diferente. A sério? E eu determinado a fazê-lo de todas as maneiras que houver. Estou desejoso de aprender algo de novo. Sim, matá-lo não seria de todo difícil. Não foi isso que eu quis dizer. As cortesãs não se limitam a copular como animais. Nós criamos todo um ambiente, toda uma experiência. Há bastante preparação e relaxamento antes. As mãos dele largaram as calças. Tereis de me ensinar, senhora. Não passo de um simples cavaleiro. Estou habituado a meretrizes que se sujeitam à vontade de um homem. Estou a ver que convosco, cortesãs, se passa tudo ao contrário.

Tereis tudo aquilo que desejais, e mais ainda. Mas fui treinada em várias artes além dessa. Música, conversação… Certamente que, depois de viver pouco melhor do que um animal nestas tendas, vos agradará um serão cortês. Deixai que vos mostre. Com passos firmes, foi até às peles, pegou em algumas bolsas que estavam por perto e compôs com elas um encosto numa das beiras. E agora, descansai. Pronto. Não é melhor assim? Ele deitou-se em cima das peles, com a cabeça e os ombros reclinados nas bolsas. Ela ajoelhou-se ao seu lado e levantou o pano que cobria o cesto. Preparou as empadas de carne e a taça e, em seguida, serviu o bom vinho de Bordéus. Ofereceu-lhe a taça.

Ele bebeu com calma e deteve os olhos nela. Não bebeis? Não. Fico menos capaz. Não queremos que tal aconteça, pois não? Ele provou uma empada e ergueu as sobrancelhas em sinal de aprovação. Se suplantais as rameiras do acampamento, ainda estamos para ver, mas a vossa comida suplanta decididamente a cozinha daqui. Um sorriso tonto iluminou-lhe o rosto e, antes de se recompor, Reyna quase se lançou numa explicação das plantas aromáticas que utilizara. Desejais que toque flauta enquanto comeis?

Sem sombra de dúvida. Trata-se de uma experiência rara para um pobre cavaleiro como eu. Não quero perder nada. Apoiou-se num cotovelo. Ela tentou não olhar para a taça que se movia em dire ção aos lábios dele. Mais. Uma boa golada. Ela começou a tocar uma melodia lenta no instrumento. Enquanto tocava, pensava nos minutos seguintes e naquilo que teria de fazer. Rezou para ter coragem para levar a cabo a sua missão.

Tal faria com que o cerco fosse levantado pelo menos por alguns dias, até Morvan Fitzwaryn descobrir o que tinha acontecido e enviar mais homens para lá. Entretanto, os outros poderiam ir para norte, até Clivedale. Pelo canto do olho, viu Ian pousar a taça de vinho. Estava vazia. Ela suspirou de alívio e tocou uma nota em falso. Falhou outra quando dois dedos tocaram no seu braço e lhe subiram, vagarosos, até ao ombro.

Movimento atrás dela. Mãos que lhe afastavam o cabelo para cima de um ombro. Um rosto que passava ao de leve pelo seu pescoço e uma respiração cálida na sua pele. Um beijo no seu ombro e dentes que lhe roçavam a orelha.  Ela olhava fixamente para a lona branca, perplexa por as atenções deste estranho estarem a perturbá-la e a deixá-la sem fôlego. A melodia perdeu-se num desastre de sobressaltos.  Ela baixou a flauta e dirigiu-lhe um olhar céptico. O rosto dele estava a centímetros do dela, e só lhe via os olhos abrasadores e a boca sensual. Não parava de olhar para a taça vazia. Adormece. Infelizmente, sir Ian não parecia nem um pouco sonolento». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Disseram-me que este exército pertence a Morvan Fitzwaryn. É um facto, mas aqui sou eu quem manda. Morvan está ocupado noutras bandas. O exército principal está em Harclow»

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«Mas ela viu outra coisa enquanto ele a observava. Viu-a na postura descontraída do seu corpo e no brilho do seu olhar e no próprio sorriso. Presunção. Arrogância. Orgulho. Inabalável autoconfiança. Viu o quanto ele tinha consciência do efeito que o seu rosto e o seu corpo tinham sobre ela. Sobre todas as mulheres.

Ela já havia encontrado homens assim antes. A casa de seu pai tinha-os aos montes. Talvez ela não se importasse tanto de o matar, afinal. O que fazeis aqui?, repetiu ele. Ela recompôs-se. Fui chamada pela povoação de Bewton. Enviaram alguém a Glasgow para me contratar. As pessoas de lá queriam ter a certeza de que a sua oferta vos agradaria, sir Morvan. Oferta? Estais a dizer que a cidade comprou uma meretriz… Sou Melissa, cortesã, disse ela num tom pouco pacífico.

Asseguro-lhe que não sou meretriz nenhuma. É por essa razão que aqui estou. A cidade não confiava um dever destes às suas alcoviteiras. E qual é o propósito desta oferta? Esperam que, se esta vos comprouver, poupeis a povoação e refreeis o vosso exército. E viestes para me persuadir? Ele deu uma volta ao seu redor, examinando-a como a um animal para venda. Ela quase contava que ele abrisse a boca num bocejo, anunciando que ela não serviria de todo. O cavaleiro que desse uma tal ordem aos seus homens teria de se encontrar deveras satisfeito. De que serve conquistar sem proveitos a haver?

A povoação pagará tributo. Haverá espólio o bastante. São as pilhagens e as violações bárbaras que pretendem evitar. Ele estendeu um braço e acariciou-lhe o cabelo, pegando em parte dele, deixando que o seu olhar e os seus dedos percorressem o seu considerável comprimento. Dissestes que vos chamáveis? Melissa. Podeis não ter ouvido falar de mim, mas fui treinada pela famosa Dionisia. Não me pareceis uma cortesã, Melissa. Sempre presumi que eram mulheres voluptuosas. Vós sois fracota e escanzelada de mais para tal. Um cabelo adorável, porém. Uma cor invulgar. Muito ténue, como tecido de luar. Ele ainda segurava a ponta da comprida madeixa de cabelo, que pendia entre os dois como uma tira de seda.

O que vós chamais de fracote e escanzelado, grandes senhores consideram mimoso e delicado, sir Morvan. Além do mais, os dotes de uma cortesã tornam esses pormenores insignificantes. Contudo, é evidente que sois grosseiro nas vossas preferências. Vou regressar e dizer aos anciãos da aldeia que eles se enganaram. Não. Foi uma estratégia brilhante. Tem apenas um senão, e não é o vosso tamanho. Ele ainda tinha os dedos no cabelo dela. Eu não sou sir Morvan. Mas esta é a tenda maior e está no centro do acampamento. Disseram-me que este exército pertence a Morvan Fitzwaryn. É um facto, mas aqui sou eu quem manda. Morvan está ocupado noutras bandas. O exército principal está em Harclow.

Não admira que não tivesse chegado ajuda. Todos na torre haviam presumido que Morvan Fitzwaryn montara cerco primeiro a este feudo, que era periférico, para ter uma posição avançada antes de tentar conquistar Harclow, mais impressionante, mas o homem atacara ambas as fortalezas de uma vez só. E Clivedale também? Qual seria o tamanho deste exército? Ela refez rapidamente os seus planos. Se aqui era este o homem que estava no comando, à partida o plano era tão bom para ele como para o seu amo. Se não sois Morvan Fitzwaryn, quem sois, então? Ian de Guilford.

E sois mesmo quem comanda aqui? Sim. O destino desta torre e da povoação vizinha estão nas minhas mãos. Se eles vos mandaram para negociar, tendes o nome errado, mas o homem certo. A oferta deles destinava-se a mim.

A franqueza com que ele a olhou deixou-a em absoluto desassossego. O olhar dele continha as consequências do fracasso nas quais ela evitara cuidadosamente pensar. A sua coragem desapareceu num piscar de olhos. – É lamentável, então, que eu não seja do vosso agrado. Vou retirar-me imediatamente. Insisto que fiqueis. Se assim não for não tereis o vosso pagamento, e percorrestes uma longa distância. Foi indelicado da minha parte criticar tal oferta. Além disso, se fostes treinada pela famosa Dionisia, duvido que haja lugar a desilusões». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Tinha visto este homem do cimo da casa-torre. Ele era mais alto do que a maioria, mas quando todos não passam de um pontinho ao longe isso não quer dizer grande coisa. Contudo, ela era mais baixa…»

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«Sendo assim, que o Senhor vos acompanhe. Reyna atravessou a entrada e ficou em pé entre os arbustos. Cinquenta metros mais à frente estavam os acampamentos que circundavam a torre. Não era um exército numeroso, mas era suficientemente grande para assegurar que ninguém saía nem provisões entravam. Não tinha havido tentativas de assalto, ninguém a escalar muralhas, nem máquinas de guerra a arremessar fogo e pedras. Tampouco houvera negociações. Apenas dois meses de um inabalável cerco.

Homens circulavam pelo acampamento, os seus movimentos indolentes com o calor do verão. Não envergavam muita roupa e o sol bronzeara os seus corpos. Um punhado havia adotado os kilts, mais frescos, dos escoceses. Mas estes homens não eram escoceses.

Ingleses, pensou ela com repulsa, e a simples ideia deu-lhe renovada determinação. Os ingleses haviam sido os monstros da sua infância e os inimigos da sua juventude. O seu rei escocês podia ter aceitado a derrota pelo rei Eduardo de Inglaterra há dez anos, mas não havia escocês algum, especialmente das fronteiras de Cúmbria e Northumberland, que se submetesse prontamente à autoridade que os ingleses reclamavam.

Ela sabia tudo sobre os soldados ingleses e sobre o que aconteceria se os sapadores deles conseguissem atravessar as muralhas. Há gerações que se repetiam descrições das atrocidades dos ingleses. Ela obrigou-se a imaginar pessoas que conhecia a serem esquartejadas e torturadas, granjeando força dessas imagens horríveis. Não estava na sua natureza fazer o que planeara fazer agora, mas não via outra alternativa. Esperava que Deus acorresse em seu auxílio, e que depois a perdoasse.

Saiu disparada do meio dos arbustos e caminhou na diagonal até aparentar ter vindo de um dos caminhos a norte. Os homens examinaram-na, avaliando o significado do seu cabelo solto e do vestido de seda. Ela avançou a passos firmes, dirigindo-se ao acampamento ocidental e à tenda grande que se encontrava no seu centro. Quando a avistou, abrandou. Uma vez lá dentro, não haveria retorno.

Um assobio lascivo captou a sua atenção. Dois cavaleiros trocaram um sorrisinho irónico e começaram a caminhar em direcção a ela, fazendo sons obscenos com a boca, zombando dela. Reyna sentiu um arrepio na pele e fez a correr os últimos metros até à tenda grande com galhardetes verdes e brancos.

Um escudeiro estava à entrada, a limpar armas. Ergueu os olhos, perplexo, quando ela avançou decidida na sua direcção, passou a correr por ele, e se enfiou na tenda. Ela rezou para que o homem que procurava estivesse lá dentro e que os outros não a seguissem.

De qualquer forma, isso não queria dizer nada, pois ele podia simplesmente encolher os ombros e deixá-los levá-la. A lona branca criava uma luz difusa, suave, e ela precisou de algum tempo para ajustar a visão. Passou os olhos pela pouca mobília da tenda; um catre, uma mesa e um baú. Uma armadura polida brilhava no chão a alguns passos dela. Não se ouvia um único som naquele espaço. Foi então que uma sombra se moveu. Um homem ergueu-se do banco onde estivera sentado com as costas apoiadas no mastro central da tenda. O que fazeis aqui?, perguntou ele num tom ríspido. Ela ficou parada a olhar.

Tinha visto este homem do cimo da casa-torre. Ele era mais alto do que a maioria, mas quando todos não passam de um pontinho ao longe isso não quer dizer grande coisa. Contudo, ela era mais baixa do que a maioria, e a diferença marcada entre a altura deles fez com que, de súbito, ela ficasse profundamente consciente da sua vulnerabilidade. O que ela não vira da torre era o quão belo ele era. Pestanas espessas suavizavam e emolduravam olhos escuros, sérios, que, à luz da tenda, eram como duas manchas. Ossos pronunciados moldavam-lhe a face e o queixo. Uma boca larga, direita, de lábios algo carnudos, exigia a sua atenção. O cabelo escuro dava-lhe pelos ombros e estava preso na testa por uma faixa de tecido enrolado.

Envergava apenas umas calças largas à camponês, cortadas acima do joelho. As pernas eram bem torneadas, de músculos esguios e linhas definidas. A mesma elegância atlética que lhe moldava os ombros largos e lhe esculpia o peito. Com aquela roupagem primitiva, fazia-lhe lembrar os guerreiros antigos acerca dos quais lera nos livros de Robert. Ele era o inimigo, mas isso não a impediu de ficar sem fôlego.

Magnífico. Assombroso. Pena ela ter de o matar. Ele caminhou até ela. Avaliou sobranceiramente o seu vestido, cabelo e faces rosadas enquanto retirava a faixa da testa e passava mão forte pelo cabelo. Ela esperava que ele não conseguisse vê-la corar, pois a mulher que era hoje nunca se deixaria desconcertar pelo escrutínio de um homem, por muito belo que ele fosse.

A expressão dele aligeirou-se e ergueu uma sobrancelha inquiridora. Havia compreendido a única parte que precisava de saber. Sorriu. Santo Deus, que sorriso. Lábios juntos, direitos, que mal se erguiam nos cantos da boca. Absolutamente encantador, subtilmente sugestivo, vagamente escarninho. Covinhas sedutoras surgiram de um lado e do outro da boca. Aquele rosto belo e aqueles olhos insondáveis de distantes e pensativos a sensuais e afáveis». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Literatura, Idade Média,

Mil Noites de Paixão. Madeline Hunter. «Mas não lhes chegara auxílio nenhum e agora seria uma questão de dias até os sapadores alcançarem a muralha exterior. Ainda mais preocupante era uma segunda escavação, que avançava no lado sul da fortaleza»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Eles não têm absolutamente nada em comum. Lady Reyna é uma mulher virtuosa e erudita, que preferia morrer a quebrar uma promessa ou voto. Ian de Guilford é um sensual mercenário, um cavaleiro errante cujo temperamento fogoso lhe valeu a alcunha de Senhor das Mil Noites. Ela não conhecia a sua fama quando, fazendo-se passar por cortesã, transpôs as linhas inimigas com um plano desesperado para salvar o seu povo. Agora que está frente a frente com o guerreiro a cujos encantos, diz-se, é impossível resistir, Reyna apercebe-se de que subestimou o seu inimigo. Ele está decidido a tudo para subjugar a sua virtude. A bem do seu povo, ela não pode ceder... e a sua audácia leva-a a fazer algo com que nunca sonhou: pôr em jogo o seu coração».

Fronteira Escocesa, 1357

É importante que ele beba o vinho todo antes de tentar despir-vos.  A instrução era somente a última de uma litania de avisos que Reyna ouvira enquanto avançava às apalpadelas pelo túnel cavernoso. Apertou a mão grossa da mulher maternal que a acompanhava.  Farei tudo como planeado. Parecem um bando de rufias e este cerco deve ser entediante. Ele deve ficar satisfeito por poder distrair-se. À maior parte dos homens, só lhes interessa uma distração, minha filha. É esse o perigo, não é?  Não vos preocupeis com isso.

A escuridão total do túnel aterrorizava Reyna, que por isso se apressava, com uma mão segura na de Alice e a outra na parede. Sons ressoavam através da pedra que ela tocava. Sapadores escavavam o seu próprio túnel não muito longe deste. Ao longo dos meses, ela viera até esta saída secreta, de archote na mão, e pusera-se à escuta, a averiguar os progressos deles. A princípio não se preocupara, porque chegaria seguramente ajuda antes de eles completarem o seu trabalho. Não era um exército grande, o que cercava a casa-torre, e uma pequena hoste, tanto de Harclow como de Clivedale, conseguiria facilmente levantar o cerco. Mas não lhes chegara auxílio nenhum e agora seria uma questão de dias até os sapadores alcançarem a muralha exterior. Ainda mais preocupante era uma segunda escavação, que avançava no lado sul da fortaleza.

As mulheres depararam com um cotovelo apertado, à direita. Um fiapo de luz infiltrava-se pela abertura estreita, escavada por trás de uma formação rochosa que a ocultava. Arbustos espessos providenciavam uma camuflagem adicional, e só alguém que examinasse cuidadosamente todo o terreno tinha alguma hipótese de a encontrar. Este exército não o fizera até então, e Reyna sorria com a ironia daquelas escavações todas quando a poterna se encontrava a escassos passos de distância. De manhã já sabereis se fui bem-sucedida, Alice. Ficai de vigia na torre e alertai sir Thomas e Reginald. Reyna pegou no cesto que Alice transportava e tentou aparentar coragem e calma. Vou primeiro à minha mãe, e de lá para Edimburgo. Mando avisar-vos quando já estiver em segurança e podereis vir ter comigo». In Madeline Hunter, Mil Noites de Paixão, 2002, Edições ASA, 2012, ISBN 978-989-231-672-7.

Cortesia de EASA/JDACT

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