JDACT
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Iniciação e Mistério no Antigo Egipto. Rogério Sousa. «É particularmente interessante a descrição de Porfírio que, evocando a viagem de Pitágoras ao Egipto, expõe as dificuldades que o sábio teve que enfrentar para vencer a resistência dos sacerdotes egípcios e ser iniciado nos seus segredos»
«Segundo um dos seus biógrafos, Tales de Mileto visitou o Egipto para se
encontrar com os sacerdotes e astrónomos, de quem teria aprendido geometria.
Quanto aos segredos relacionados com a sua religião, os sacerdotes egípcios
parecem ter guardado mais reservas. É particularmente interessante a descrição
de Porfírio (233-304 d.C.) que, evocando a viagem de Pitágoras ao Egipto, expõe
as dificuldades que o sábio teve que enfrentar para vencer a resistência dos sacerdotes
egípcios e ser iniciado nos seus segredos:
- Tendo sido recebido por Amasis (568-526 a.C) ele obteve cartas de recomendação para os sacerdotes de Heliópolis, que o enviaram para Mênfis, uma vez que eram mais velhos, o que no fundo era apenas um pretexto. Então, pelas mesmas razões, foi então enviado de Mênfis para os sacerdotes de Diaspolis, Tebas. Estes últimos, temendo o rei e não se atrevendo a dar falsas desculpas para excluir o recém-chegado do seu santuário, pensavam verem-se livres dele forçando-o a empreender tarefas difíceis e inaceitáveis para alguém com uma educação helénica. Tudo foi feito para conduzi-lo ao desânimo de modo a demovê-lo da sua missão. Mas como ele executou zelosamente tudo o que lhe foi pedido, os sacerdotes acabaram por nutrir grande admiração por ele, tratando-o respeitosamente e permitindo-lhe até sacrificar diante dos seus deuses, o que até então nunca tinha permitido a um estrangeiro.
Segundo Jamblico, Pitágoras passou 22 anos da sua vida no Egipto,
visitando todos os lugares santos, cheio
de profundo respeito, admirado e respeitado pelos sacerdotes. Embora
envolta em controvérsia, também a suposta viagem de Platão ao Egipto visava o
estudo de geometria e teologia. Reportando-se ou não a eventos reais, a verdade
é que todas as alusões à estada de sábios gregos no Egipto referem a mesma
dificuldade inicial em penetrar nos segredos dos sacerdotes. Evidentemente a
visão que os autores clássicos nos transmitem sobre a iniciação egípcia
permaneceu, durante muito tempo, a única fonte disponível para a compreensão do
tema. Apesar de ter conduzido frequentemente a interpretações erróneas por
parte dos estudiosos que, desde o Renascimento, conjecturaram sobre os
mistérios do Egipto faraónico, a verdade é que, à luz das noções actuais da
egiptologia, os relatos dos autores clássicos parecem fidedignos. A descrição
feita por Porfírio sobre a permanência de Pitágoras no Egipto coloca a
revelação e o culto em relação directa entre si. Só depois de um longo período
de preparação, em que a força de vontade de Pitágoras foi testada, é que os
sacerdotes acederam em lhe transmitir o conhecimento, permitindo-lhe ‘sacrificar diante dos seus deuses’.
Embora em plano secundário para os sábios gregos, a iniciação no culto divino
estava entrosada com a revelação do conhecimento sagrado, o que constituía uma
característica marcada da iniciação egípcia. Na verdade, embora os autores
clássicos vissem nas provações iniciais apresentadas pelos sacerdotes egípcios
uma desconfiança para com os estrangeiros, o mais provável é que as mesmas
dificuldades fossem colocadas perante qualquer candidato à iniciação. Estas
indicações alertam-nos desde já para o facto de, ainda antes da helenização dos
cultos egípcios, ter existido um processo de preparação que combinava a iniciação
no culto divino com a revelação de conhecimentos sagrados. Disso mesmo nos dá
testemunho Heródoto que evoca explicitamente a celebração de mistérios de
Osíris e Ísis, nos quais, segundo indica, ele próprio se teria iniciado:
- Também existe em Saís, no santuário de Atena, o sepulcro daquele não creio ser conforme à piedade de pronunciar o nome, nesta ocasião. Está atrás do templo e estende-se ao longo do seu muro. No recinto sagrado erguem-se dois obeliscos de pedra, um lago está na sua vizinhança, delimitado por paredes de pedra cuidadosamente construídas, tão vasto como o lago de Delos , chamado de ‘circular’. À noite, são encenadas representações da sua paixão, que os egípcios chamam de ‘mistérios’. Conheço em detalhe estas representações, mas guardo o silêncio sobre este assunto. Farei o mesmo sobre as festas de iniciação de Deméter, (...).
Para além da relação entre a cripta de Osíris e o lago, o texto de Heródoto
coloca em evidência a encenação nocturna destes mistérios, o que é igualmente
referido no relato muito mais tardio de Apuleio, ‘O Burro de Ouro’, já no
contexto do culto alexandrino de Ísis». In Rogério Sousa, Iniciação e Mistério no Antigo
Egipto, Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-56-4.
Cortesia da Ésquilo/JDACT
Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XII. «Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos… - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso. … a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I mas, embarcou…»
A
Tomada de Ceuta
«E
havia sempre quem explicasse: - Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E
assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à
descoberta da verdade. Judá Negro, um jogral-astrólogo, da casa da Rainha, em
uma trova dirigida a Martim Affonso de Atouguia, revelava
que El-Rei ia filhar Ceuta e que tal soubera pela Astrolomia. Isto foi
espalhado e todos se riram do néscio…
Fora
de Portugal soubera-se já o afanoso preparativo de guerra, extraordinário, que
se estendia em todo o reino; e houve receios. O Bispo de Ávila, em Palência,
mostrou-se desassossegado e, apesar das razões tranquilizadoras do Adeantado de Cacorla, induzira D. Catarina
e o Infante Fernando a que mandassem à presença de João I, como embaixadores, o
bispo de Mondonêdo e Diaz Sanches de Benevides, a fim de se confirmarem as
pazes com Castela. João I despediu-os com as maiores honras, tranquilizando-os.
Nada era com Castella.
Os genoveses
que viviam em Sevilha recebiam cartas dos de Lisboa revelando-lhes que a armada
ia sobre aquela cidade. O rei de Aragão em disputa com o Conde de Urgel, pedira
também carta de segurança. Deu-lha o rei João com o melhor agrado. O Mouro de Granada tremeu também e induziu
a favorita Riccaforra a que mandasse mensagem a rainha de Portugal,
pedindo paz e oferecendo-lhe um enxoval precioso para o casamento da filha, D.
Isabel. Respondeu-lhe, serenamente, a rainha que não se intrometia nos negócios
de Estado.
Acorriam
também os auxiliares; lá da Alemanha um certo duque e um barão vieram para ir a
empresa. O duque pretendeu saber o destino da expedição; não lhe disse o rei e
por isso ele retirou-se para o seu ducado. Vieram mais às aventuras três nobres
franceses: Mosen Arredenton, Pierre Sonure e Gilles Botaller.
No
Porto, o Infante Henrique recebia, todos os dias, apesar da peste, auxiliares
em grande número. Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com
noventa anos, branco como a neve, quase um espectro, cercado de escudeiros e
peões, apresentar a Henrique a sua espada. O Infante assim que o viu, pasmou;
pareceu-lhe ter diante de si a personificação de todo o passado aguerrido de
Portugal, luzente de armas, erecto e audaz, apesar de quase um seculo de existência.
- Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique
- mas homem de vossa edade melhor
fôra filhar
repouso.
Ayres
Goncalves a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João
I, que
não sabia se o corpo lhe enfraquecera, mas que o ânimo era tanto como os trabalhos
que passara com el-rei seu pae. Embarcou, portanto. Dois baioneses que haviam
visto Aljubarrota, já velhos, trementes, apresentaram-se também no Amazem
ao infante Henrique. Dissera-lhes este: - Já não tenho armas para vós. - Ainda conservamos
as nossas, senhor! - responderam-lhe os dois. Embarcaram também.
Era quase prestes a partir a armada, do Porto. Com a primavera
pareceu diminuir um tanto a peste e por isso era mister não perder tempo para a
expedição, demorando-a. No começo de Julho, Affonso Annes, por mandado
do Infante Henrique, partiu do Porto, em uma fusta, e foi participar ao rei João
I que a armada ia velejar para Lisboa. Tudo se achava a postos para a partida. Sob
o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar
um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a
sair». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do
Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.
Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT
Etiquetas:
Alfredo Alves,
Cavalaria,
Infante D. Henrique,
JDACT,
Memória Histórica,
Nun'Alvares,
Porto
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Matemática Lúdica. Notas históricas… Armando Araújo. «… a prática aritmética é ‘coisa mui necessária nestes reinos e senhorios de Portugal por bem de em eles florescerem os tratos das mercadorias da Índia e Pérsia e Arábia e Etiópia e outras partes mais chegadas a nós’»
‘A Matemática surgiu com o despertar da alma humana, mas não surgiu com
fins utilitários. Foi a ânsia de resolver o mistério do Universo que lhe deu o
primeiro impulso.O seu verdadeiro desenvolvimento resultou, em primeiro lugar,
do esforço em penetrar e compreender o infinito. O progresso material dos
homens depende das pesquisas abstractas ou científicas do presente, e será aos
homens da ciência, que trabalham para fins puramente científicos sem nenhum
intuito de aplicação das suas doutrinas, que a humanidade ficará devedora em
tempos futuros. Quando o matemático efectua os seus cálculos, ou procura novas
relações entre os números, não busca a verdade para fins utilitários. Cultivar
a ciência pela utilidade prática, imediata, é desvirtuar a alma da própria
ciência!’ In Malba Tahan.
Nota histórica 1
Carl Friedrich Gaus s
(1777-1855) afirmou que ‘a Matemática
é a rainha das ciências e a Teoria dos Números é a rainha da Matemática’.
Três séculos antes de Carl Friedrich Gauss ter proferido tal afirmação, GasparNicolas, aritmético português,
afirmou, no “Tratado da Pratica
Darismetyca”, com base no pensamento de um aritmético italiano, que a
aritmética é o fundamento de todas as outras ciências que ‘a aritmética é a senhora das outras ciências
porque abre as portas do entendimento e imprime um desejo de natural
especulação’.
Este tratado foi o
primeiro livro de matemática impresso em Portugal e acabou de se imprimir em 15
de Novembro de 1519. Gaspar
dedicou-o a Rodrigo, conde de Tentúgal, com uma dedicatória, cujo início é uma
citação de Aristóteles (384 -322 a.C.), extraída da obra ‘A Metafísica, Livro A, 1’,
que diz o seguinte:
- ‘Todos os homens desejam naturalmente saber’;
- Gaspar Nicolas era de opinião de que a aritmética é ‘nível e regra de todas as outras artes’ e a prática aritmética é ‘coisa mui necessária nestes reinos e senhorios de Portugal por bem de em eles florescerem os tratos das mercadorias da Índia e Pérsia e Arábia e Etiópia e outras partes mais chegadas a nós’.
Por isso se decidiu ‘a fazer e compor este breve tratado de
Arismetyca por estilo mui claro para que facilmente possa aproveitar e aproveite
aos que o virem e lerem’. Nele, Nicolas ensina as regras de somar,
subtrair, multiplicar e dividir números inteiros e fraccionários e também
ensina a extrair raízes quadradas de números inteiros e a somar certas
progressões. Refere-se, com ligeireza, a raízes cúbicas. Aplica a regra de três
simples na resolução de diversos problemas. E trata de muitos outros assuntos.
Segundo o grande matemático Gomes
Teixeira (1851 -193 3), na sua ‘História
das Matemáticas em Portugal’, o Tratado de Gaspar Nicolas foi reeditado em 1530, 1541, 1573, 1594, 1613 e
1679.
Há quem diga que Nicolas aproveitou alguns problemas
incluídos por frei Lucas Pacioli em algumas das suas obras. E frei Paciolinão
aproveitou, também, problemas de obras de autores anteriores? Leonardo Bigollo
Pisano ou Leonardo Fibonacci (Fibonacci significa filho de Bonácio) escreveu,
em 1225, “LiberQuadratorum”, “O Livro dos Quadrados”, ao qual
frei Lucas Pacioli foi buscar muitos problemas. Leonardo Fibonacci escreveu
várias obras, mas a mais importante terá sido “Liber Abaci”, “O
Livro de Ábaco”. Este
livro, escrito em 1202 e reescrito em 1228, deu um grande contributo para a
generalização e uso da numeração árabe, na realidade, numeração indiana na Europa.
Contém diversos problemas, alguns dos quais fruto de uma adaptação de problemas
incluídos no papiro conhecido como ‘Papiro
de ahmés’ ou ‘Papiro de Rhind’,
que se encontra no Museu Britânico, escrito pelo escriba egípcio Ahmés, nascido a 1550 a.C.
Mestre Benedetto da
Firenza escreveu uma aritmética com o título ‘Inchomincia et trattato darismetricha cerca de 1460, na qual
descreve a relação entre a aritmética e as necessidades mercantis da cidade onde
nasceu, mas tal obra nunca foi impressa. Em muitos países da Europa, nos
séculos XV e XVI, o interesse pela educação aumentou com o Renascimento, com a
intensificação das actividades comerciais e com os descobrimentos. Por isso,
tornou-se imprescindível o aparecimento de livros de aritmética, para facilitar
as operações comerciais.
O livro mais antigo de
aritmética, de que há conhecimento, chamava-se “Aritmética de Treviso”, e foi publicado na cidade de Treviso,
norte de Itália, no ano de 1478. Para além das tendências predominantemente
comerciais, continha alguns problemas de carácter recreativo. Desconhece-se o
autor. Treviso era uma cidade comercial importante, que ficava a um dia de
viagem de Veneza. Foram instaladas, naquela cidade, três tipografias, à época
designadas de imprensas. Uma delas, pertença de Manzolo ou Manzolino,
imprimiu essa aritmética. Piero Borghi escreveu outra aritmética comercial, a
qual foi publicada no ano de 1484, em Veneza.
Há autores que
consideram esta obra como a aritmética comercial italiana mais notável daquele
século. Foram publicadas 17 edições, tendo sido a última em 1557. No ano de
1491 Filippo Calandri fez aparecer, em Florença, uma aritmética, a qual continha
o primeiro exemplo impresso sobre o algoritmo da divisão.
Na Alemanha
publicaram-se algumas aritméticas, cujos autores foram, em 1489, Johann Widman,
em 1514, Jacob Köbel e em 1522, Adam Riese. No ano de 1522 foi publicado, na
Inglaterra, o primerio livro dedicado exclusivamente à matemática. Trata-se de uma
aritmética em latim, de autoria de Cuthbert Tonstall (1474-1559). Robert
Recorde (1510-1558) escreveu pelo menos cinquenta livros, em inglês. O
primeiro, pomposamente intitulado ‘The
Ground of Arts’, era uma
aritmética, cuja publicação foi por volta de 1542, a qual teve, no mínimo, 29
edições. Todas as publicações deste autor foram baseadas na obra de Pacioli ‘Summa de Arithmetica, Geometria,
Proportioni et Proportionalita’».
In Armando Araújo, Matemática Lúdica, A Cultura é a única
bagagem que não ocupa espaço, mas nem todos a podem transportar, AMBA, 2003.
continua
Com a amizade do Armando
JDACT
Escritores. São Tomé e Príncipe. Caetano da Costa Alegre. «Apesar de um estilo diferente do europeu, os temas da sua obra convertem-no num precursor dos escritores e poetas africanos posteriores, que trataram do tema racial, a alienação, as recordações nostálgicas do passado, as suas reminiscências de São Tomé».
S. Tomé e Príncipe
Cortesia de wikipedia
Visão
Vi-te passar, longe de mim,
distante,
como uma estátua de ébano
ambulante;
ias de luto, doce, tutinegra,
e o teu aspecto pesaroso e
triste
prendeu minha alma, sedutora
negra;
depois, cativa de invisível
laço,
(o teu encanto, a que ninguém
resiste)
foi-te seguindo o pequenino
passo
até que o vulto gracioso e lindo
desapareceu, longe de mim,
distante,
como uma estátua de ébano
ambulante.
In Caetano da Costa Alegre
«A questão da identidade
nacional e, consequentemente, a tomada de consciência de pertença a um lugar,
ou uma nação, salta para a ribalta com maior enfoque a partir do movimento
romântico, desde os finais do século XVIII. Contudo, a identidade configura um
tema complexo devido ao carácter polissémico no sentido de encerrar uma grande diversidade
de conotações. Porém, na nossa dissertação, propomos falar da identidade nacional
focando a política de afirmação e de construção da identidade tal como foi tratada
pelo romantismo, visto o autor de que nos ocupamos, Caetano da Costa Alegre ter
vivido e escrito a sua obra em finais do século XIX.
Durante muito tempo as
sociedades utilizaram a história para tentar abrigar povos de diferentes
origens e, consequentemente, de diferentes culturas numa unidade que era dado o
nome de nação. Firmados nesse princípio, visavam a construção da identidade de sentido
agregador com o objectivo fixo da “expressão
de um carácter nacional”. Assim, considerava-se negativa a diversidade
cultural na composição de determinada nação, valorizando-se na história aquilo
que convergia para a evolução tomada como prática reguladora da visão da
identidade.
Contudo, essa visão
começa a mudar a partir do momento em que nas sociedades contemporâneas. Nelas,
vão surgindo diferentes vozes que reivindicam o estatuto da diferenciação,
apoiadas numa revisitação do passado histórico onde encontram formas de
representação de determinada identidade diferenciada, se não propriamente
nacional, de certa maneira cultural própria, e assim insistirem mais ideia de
pluralidade do que de unidade na composição de uma sociedade. Enquanto uns se
valiam do princípio da história linear para afirmar a identidade individual
outros apontavam o princípio não sequencial da história, decorrente dos grupos
minoritários para a formação de uma identidade cultural, ou seja, identidade colectiva.
A identidade individual era formada através das transformações históricas, já a
identidade cultural era reivindicada a partir da história fragmentada por
favorecer as conexões entre tempos de passado e de presente. Esta representa um
papel fundamental na elaboração da consciência nacional, pois tende a formar os
pontos de convergência do sentimento de identidade comprimido durante muito
tempo pelo opressor favorável à assimilação. É sob este ponto de vista
problemático que se pode colocar com mais amplitude a questão de uma comunidade
que visa a construir a sua identidade nacional.
A narrativa da nação
contada nas histórias e nas literaturas nacionais fornece estórias, imagens,
cenários, panoramas, símbolos e rituais nacionais que servem de suporte que darão
sentido à visão de nação que se quer para uma determinada colectividade. Assim,
como forma de encontrar uma identidade de características próprias, povos de
diferentes culturas procuraram mecanismos através dos quais pudessem encontrar alternativas
que possibilitassem o aparecimento dos aspectos culturais específicos de uma
dada colectividade. Esse aspecto torna-se ainda mais pertinente quando se
refere a identidade de um determinado grupo que nunca teve a sua história
contada até ao momento em que começa a ser problematizada. Segundo Hall
e referenciando Koberna Mecer, “a identidade
somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe
fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”.
O conceito da identidade
global começa a ser questionado quando o grupo minoritário se recusa à condição
de cultura periférica, marginal e reivindica um estatuto autónomo interior do
campo instituído e onde se vê incluída. Essa nova forma de pensar transforma-se
em desafio para as literaturas emergentes responsáveis pela elaboração da consciência
nacional contemporânea e, portanto, por uma nova forma de rever a questão da
história de modo a que esta contemple a história dos grupos periféricos. Assim,
no intuito de afirmar uma identidade nacional, o passado histórico serviu como
uma forma de afirmar ou constituir um imaginário nacional pautado numa visão simbólica
de identidade.
Enquanto movimento
histórico, o Romantismo é resultado de duas revoluções, a Revolução Francesa e a Revolução
Industrial, e coincide com a ascensão política e económica da burguesia
europeia. O romantismo foi gerado a partir de uma escola que se pautava pela
evocação do popular, do medievo, do exótico, pela exaltação da liberdade:
- liberdade política, a vontade do rei deixou de ser soberana para o romântico;
- liberdade moral, a norma de moralidade não é construída pelos ditames da razão, muito menos pelas crenças religiosas, apesar de reconhecer a necessidade afectiva de Deus e da religião;
- liberdade nos sentimentos, o romântico deixava-se arrastar pelas emoções violentas.
E, sobretudo, pelo culto
do ‘eu’
individual. O objectivismo absorvente e a sujeição às regras do neoclassicismo serão
postos de lado para dar lugar a um espírito individualista, caracterizado pela exaltação
da própria personalidade do poeta romântico». In Instituto Camões.
Cortesia de I.
Camões/JDACT
As Cobras Pintoras. Um ‘acidente’. «Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. O “Objectivo da Arte não é Ser Compreensível”»
«Um médico veterinário X tem uma clínica
para pequenos animais numa cidade do Rio Grande do Sul, Brasil, onde desenvolve
as suas actividades e pesquisas. Nesse ambiente, seu filho Y fazia um trabalho para a escola em ‘guache’. Por descuido, o papel em que pintava caiu ao chão e uma das
cobras que “passeava” por ali
“borrou” o trabalho e ainda
ficou contorcendo-se, em cima, por algum tempo.
Para X, a análise do acontecimento foi
como se a ‘cobra’ sentisse algum tipo
de prazer.
Ao encontrar Z, o veterinário X mostrou o resultado do “acidente”
com a cobra e o trabalho do filho.
Deste modo, e sem comentários, ‘apreciem’
(ou não…) o “trabalho” que daí resultou com ‘aquelas artistas da natureza’».
In Wikipédia, Palavras, Todas as Palavras, Arte e Cultura, com alterações no texto original (JDACT).
In Wikipédia, Palavras, Todas as Palavras, Arte e Cultura, com alterações no texto original (JDACT).
JDACT
domingo, 25 de novembro de 2012
Maria Cristina A. Cunha. Estudos sobre a Ordem de Avis, séculos XII-XV. «É na década seguinte que a ‘Ordem do Templo’ vive os momentos de maior expansão em Portugal, sob o mestrado de Gualdim Pais. Regressado do próximo Oriente em 1150, onde havia participado na II Cruzada, foi de imediato nomeado mestre»
«Seria interessante
saber até que ponto o prestígio dos Cavaleiros
do Templo junto da Santa Sé foi importante para o reconhecimento, pelo papa,
do reino português. É na década seguinte que a Ordem do Templo vive os momentos de maior expansão em Portugal, sob
o mestrado de Gualdim Pais. Regressado do próximo Oriente em 1150, onde havia
participado em actividades militares no quadro da II Cruzada, este cavaleiro
foi de imediato nomeado mestre daquela milícia.
Na década de 60 do
século XII, os templários tinham já à sua guarda um conjunto de fortalezas a norte
do Tejo, o que exigia aos cavaleiros um enorme esforço e responsabilidade, já
que, por essa altura, elas constituíam o essencial da defesa do território português.
Durante o governo de Gualdim Pais, a Ordem do Templo vai construir vários castelos (Pombal, Tomar,
Almourol),
promover obras de reparação noutros (Penas Roias e Longroiva, por exemplo) e
conceder forais a várias populações (Redinha, Ferreira, Tomar,
Pombal,
Castelo
de Zêzere), manifestando assim o interesse da milícia em regulamentar a
vida local e em criar novos incentivos para o povoamento. Em 1190, novo avanço
almoada atinge gravemente a Estremadura portuguesa, chegando o castelo
de Tomar a ser cercado, mas não tomado; esta fortificação seria uma das
mais seguras da época, como atesta o facto de em 1211 o rei Sancho I aí depositar
parte do tesouro real. Cinco anos depois, 1195, morria o tão carismático
mestre, com cerca de 75 anos de idade. Durante quase cinco décadas, desde o seu
aparecimento em Portugal até aos anos 70, a Ordem
do Templo tinha sido o único auxiliar do monarca na Reconquista, o que
esteve na origem da maior parte da sua base territorial. Fruto de várias doações,
os templários passaram a dominar imensas zonas a sul do Mondego, nomeadamente
no que respeita às vias de acesso a Coimbra. Não é pois de estranhar que os
cavaleiros pretendessem igualmente controlar o vale do Tejo, tanto mais que
eram detentores dos castelos da Cardiga e do Zêzere e que o território
de Tomar
tinha aquele rio como limite sul. Mas neste desejo de controlo de uma das
principais vias de comunicação fluvial, rei e cavaleiros tinham pretensões
opostas:
- por esta razão, a criação do município de Abrantes, a quem o rei concede foral em 1179, e a doação de Guidintesta aos hospitalários, ocorrida em 1194, revestem-se de um significado especial, já que impedem aos templários o domínio exclusivo do curso intermédio do Tejo.
Ao mestre Gualdim Pais sucedeu Lopo Fernandes que, contudo, terá
exercido a dignidade mestral até 1206, data em que surge na documentação o nome
do mestre Fernando Dias, logo seguido, em 1208, do de Gomes Ramires. Assiste-se
neste período a uma tentativa de “lusitanização” dos templários
peninsulares, atestada pela presença no governo provincial da Ordem de mestres de origem portuguesa e
enquadrada num processo de autonomização da estrutura dos templários hispânicos
face à casa-mãe do ultramar. A larga faixa dominada pelos templários junto à
fronteira leonesa, associada ao controle do território junto ao Tejo, até Tomar,
se por um lado, permitia a preponderância dos cavaleiros portugueses na
estrutura provincial da Ordem, isto
é, a referida “lusitanização”, por outro, podia vir a criar problemas graves
ao monarca português em caso de guerra com o reino vizinho». In
Maria Cristina A. Cunha, Estudos sobre a Ordem de Avis, séculos XII-XV,
Faculdade de Letras, Biblioteca Digital, Porto, 2009.
Cortesia da Faculdade de Letras do Porto/JDACT
Etiquetas:
História,
JDACT,
Maria Cristina A. Cunha,
Ordem de Avis,
Séculos XII-XV
Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de D. João IV. Heróis ou Anti-Heróis? Maria do Carmo T. Pinto. «Firme na sua religiosidade, Carlos V foi um homem do seu tempo, incapaz de superar a barreira da intolerância e foi esse espírito que transmitiu a seu filho. Em 1543, aconselhava o futuro rei a nunca permitir que as heresias entrassem no reino…»
A Governação dos Áustrias em Portugal
Filipe II e o Tribunal do Santo Ofício (maldito): Um momento de “graça” entre ambos os poderes
«Filipe II pretendeu implantar com toda a pureza o conceito religioso
de seus bisavôs e promover o desenvolvimento, com total amplitude e
independência, das instituições por eles criada, processo que se iniciou
naquele reinado e se prolongou até ao século XVIII. Os últimos dias de Carlos
V, em Yuste, foram de grande preocupação após a descoberta, pela Inquisição
(maldita), de focos luteranos em Castela, tendo esta sido aquela uma das razões
que apressou a partida da Flandres de Filipe II e o seu regresso a Espanha.
Firme na sua
religiosidade, Carlos V foi um homem do seu tempo, incapaz de superar a
barreira da intolerância e foi esse espírito que transmitiu a seu filho. Assim,
já em 1543, aconselhava o futuro rei a nunca permitir que as heresias entrassem
no reino e a favorecer a Santa Inquisição (maldita), dotando-a de todos os
meios que lhe permitisse combate-las.
A defesa e imposição de
uma ortodoxia constituíam, à época, a primeira e mais importante razão de
Estado e a Inquisição (maldita) era o mecanismo adequado e o mais eficaz para
defender essa “Razão de Estado”, que
correspondia aos interesses políticos da monarquia de Filipe II. Procurando dar
continuidade à política de seu pai e partilhando das mesmas preocupações que
ele, Filipe II, ainda como regente, promoveu e apoiou o fortalecimento e
autonomia da Inquisição (maldita) consagrando, em 1553, os seus privilégios ao
proibir que qualquer autoridade eclesiástica ou temporal se intrometesse no
governo da instituição. Paralelamente, implementou uma política de combate à
heresia, em particular a protestante, que teimava em alastrar, e na qual se
enquadrou:
- a publicação do índice dos livros proibidos de 1554;
- o reconhecimento, em 1556, dos estatutos de limpeza de sangue;
- a vigilância das fronteiras com o objectivo de impedir a entrada de literatura suspeita;
- a proibição de saída de estudantes para universidades estrangeiras e o estrito controlo dos estudos, através da imposição de estatutos, como se assistiu na Universidade de Salamanca, em 1561, já no início do seu reinado.
Como rei, Filipe II,
durante os primeiros dez anos do seu reinado [1556-1566], através de uma acção
concertada entre o monarca e o Inquisidor-geral, Fernando Valdés, arcebispo de
Sevilha, que se traduziu em uma intensa actividade inquisitorial, conseguiu
praticamente estripar da sociedade espanhola os desvios heréticos que tinham
tido forte implantação. Assistiu-se, paralelamente, ao reforço de uma política pró-inquisitorial,
com vista à defesa da fé e à implantação de uma ideologia confessional, bem
como da catequização dos fiéis, processo que se prolongou para além do início
do seu reinado. Assim, particularmente a década 1560-1570 constituiu um período
rico em notícias inquisitoriais e política religiosa e em que muitos dos
conflitos registados tiveram por base o apoio prestado pelo rei à Inquisição
(maldita), consubstanciado em medidas particulares visando o estabelecimento da
jurisdição inquisitorial e da sua relação com a jurisdição eclesiástica
ordinária e a jurisdição secular, bem como o fortalecimento e ampliação da
Inquisição (maldita), reformulando-se as suas leis, competências e actividades.
Esta política religiosa
ao serviço do Estado permitiu à Inquisição (maldita) a imposição de um sistema
de ideias e crenças em consonância com o poder político, um “disciplinamento
social”, que se estendeu além fronteiras, criando lugar à instalação dos
tribunais inquisitoriais nas Índias de Castela.
A partir de 1578 até à
sua morte, em 1596, Filipe II seguiu uma política religiosa ainda mais severa,
enviando uma recomendação ao clero para que endurecesse a sua actuação
religiosa, estreitando, ao mesmo tempo, a sua dependência em relação a Deus. A
partir de 1588, após um período áureo, entre 1579-1588, em que a monarquia
espanhola se consolidou em termos políticos e religiosos, o declínio pessoal e
político de Filipe II teve início. Porém, manteve-se a sua “obsessão”
com a Inquisição (maldita)». In Maria do Carmo Teixeira Pinto, Os
Cristãos-Novos de Elvas no reinado de D. João IV. Heróis ou Anti-Heróis?, Dissertação de Doutoramento em História,
Universidade Aberta, Lisboa, 2003.
Cortesia de U.
Aberta/JDACT
Etiquetas:
Conhecimentos,
D. João IV,
Elvas,
Évora,
JDACT,
Maria do Carmo T. Pinto
Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «No globo de Martim de Bohemia, datado de 1492, está marcada a ‘ilha Antilha’. Humboldt também atribuiu a descoberta das primeiras terras da América aos escandinavos, que a ocuparam no século X e parte do XI. Esta opinião já havia sido escrita por Torfason na sua obra publicada em 1707»
A América Antecolombiana
«Entre os egípcios, gregos
e romanos, hebreus e árabes já havia a tradição de que, além da Europa e da África,
no extremo do Oceano Atlântico existia um grande continente. Platão falou da Atlântica,
imensa ilha para lá das colunas de Hércules e do Oceano, e cujos limites eram desconhecidos.
NOTA: Os três capítulos que
constituem este opúsculo foram escritos para serem incorporados nos estudos
preliminares do IV volume da Descrição Geral
e Histórica das Moedas cunhadas em nome dos Reis, Regentes e Governadores de
Portugal.
Plutarco também dá
alguns indícios da existência do vasto continente, e pelas inscrições púnicas que
se têm encontrado, parece que os cartagineses ali aportaram. As últimas
investigações feitas nos terrenos da América levam a acreditar que a antiguidade
do seu continente é maior que a do europeu. Nas escavações tem-se encontrado grande
quantidade de ossos humanos, e de outros animais no estado fóssil e perfeitamente
conservados. Quando os europeus lá desembarcaram nos fins do século XV as suas aldeias
eram populosas e tinham uma certa civilização que tem caminhado numa decadência
progressiva. A arqueologia decifrando os seus hieroglíficos e estudando os grandiosos
monumentos, principalmente as ruínas dos seus templos, cada vez se compenetra mais
d’esta verdade.
A história da América antes
da viagem de Colombo está-se escrevendo; e as repetidas investigações científicas
vão sucessivamente dando esperanças de satisfatórios resultados. O fim deste opúsculo
não permite largas considerações sobre tão interessantes assuntos e obriga-nos a
indicações muito resumidas.
António Ribeiro Santos diz
que no breve de Gregório IV, dos últimos anos do século IX, dirigido a Santo Anscario,
arcebispo de Hamburgo, se nomeia a Gronlandon,
Groenlândia
(Terra Verde), e que os antigos escandinavos
fizeram em 874 uma expedição à Islândia, e desta ilha facilmente passaram à Groenlândia
e à América Septentrional, onde estabeleceram colónias na Flórida e Canadá.
O mesmo erudito escritor
acrescenta que com este descobrimento devia ter lugar o de alguma das Antilias ou Antilhas, pertencentes ao
Novo Continente, e cita como documento o mapa ou planisfério de André Biancho, datado
de 1436, visto por Villoison, membro da Academia real das inscrições e belas letras,
que assim o descreve:
- ‘O manuscriplo italiano, n.° 76, da biblioteca de S. Marcos de Veneza, contém uma carta marítima, desenhada com muita exactidão, composta de dez folhas. N’esta carta achava-se uma das Antilhas, demarcada pela mesma mão, e vê-se escripto com o mesmo caracter de letra - Isola Antillia -, o que é tanto mais notável quanto vemos que o descobrimento das Antilhas se attribue a Christovam Colombo em 1492. Espantado d'esta singularidade, fiz copiar muito exactamente á minha vista esta preciosa carta, e a enviei em 1781 a Mr. o conde de Vergennes’.
A carta foi publicada em
1782 na Gazeta de Gotha (publicada em 1817 no tomo V, parte I das Memórias
da Academia Real das Ciências de Lisboa, tendo por título Do conhecimento que era possível ter da
existência da América pela tradição dos antigos, etc. no capítulo II trata
especialmente Da verosimilhança de alguma
navegação para as partes da América antes de Cólon e Magalhães).
Alexandre de Humboldt observou
ama carta de marcar, existente na biblioteca do grão-duque de Weimar, feita em 1424
por Ancontiniano, nome que muito custou a ler, representando 87 léguas marítimas
ao ocidente dos Açores, á parte septentrional da ilha Antilia, e para o seu norte
mais duas ilhas. O mesmo sábio analisou também na biblioteca de Parma o mapa-múndi
do genovês Bechario, datado de Julho de 1435, onde estão marcadas ao poente dos
Açores as três ilhas indicadas por Ancontiniano, chamando-se à maior e mais meridional
Antilia,
e descreve outras mais pequenas, e por baixo tem - Insulle de nono Reperte - (Ilhas ultimamente descobertas).
Paulo dal Pozzo Toscanelli
devia ter conhecido estas cartas, e, talvez, de alguma delas se servisse para as
informações que forneceu ao cónego Fernando Martins, em carta de 25 de Junho de
1474, e na outra que ipsis verbis, dirigiu pouco depois em
resposta a Cristóvão Colombo. Aí vem o erro geográfico das costas da Ásia confinarem
com as costas ocidentais da África, erro de que o genovês nunca se emancipou.
No globo de Martim de
Bohemia, datado de 1492, está marcada a ilha Antilha. Humboldt também atribuiu
a descoberta das primeiras terras da América aos escandinavos, que a ocuparam no
século X e parte do XI. Esta opinião já havia sido escrita por Torfason na sua
obra publicada em 1707. Mas estes sábios não tiveram à sua disposição os documentos
comprovativos para autenticarem a sua opinião. Estava reservado à Sociedade dos antiquários do norte
reivindicar a glória dos seus antepassados, esclarecendo a história pelas minuciosas
investigações nos manuscritos arquivados nas bibliotecas do norte, e pelas
importantes escavações nos terrenos que haviam ocupado.
Esta sociedade publicou em
1837 a obra intitulada Antiquitates Americanae
sive scriptores sptentrionales rerum ante-columbianarum in America, studio et opera
C. C. Rafn, secretário da mesma sociedade. A publicação desta obra deu lugar a várias
comunicações muito interessantes, que foram transcritas em vários números das Memórias
da Sociedade.
O minucioso trabalho de Rafn,
foi traduzido em várias línguas, e forma um volume in-4.° com 526 paginas, 8 fac-similes,
representando laudas ou fragmentos de antigos manuscritos das bibliotecas do norte,
quatro mapas geográficos, e seis gravuras com muitas investigações arqueológicas
e geográficas intercaladas com excelentes observações criticas.
O livro demonstra que o descobrimento
da América septentrional no século X pelos escandinavos foi um dos sucessos mais
notáveis da historia do mundo. O autor para vulgarizar os seus estudos publicou
um resumo do seu trabalho, que intitulou - Memória sobre o descobrimento da
América no século X, e dividiu-a nos seguintes capítulos:
- Viagem de Biarne Heriulfson em 986;
- Descobrimento de Leif Éricson e primeiro estabelecimento na Vinlandia;
- Expedição de Thorwald Éricson a regiões mais meridionais;
- Desgraçada empresa de Thorstein Éricson;
- Estabelecimento de Thorfinn na Vinlandia;
- Viagens de Freydisa, Helge e Finnboge. Estabelecimento de Thorfinn na Islândia;
- Observações críticas sobre as noticias anteriores. Geografia e hidrografia;
- Clima e solo;
- Produção. Historia natural;
- […]
- Descobrimentos nas regiões árcticas da América;
- Terra Nova descoberta segunda vez pelos Islandeses;
- Viagem a Markland em 1347.
E termina: «Depois de assim estudados os documentos autênticos, todos reconhecerão
como um facto histórico, que durante os séculos X e XI os antigos escandinavos descobriram
e visitaram uma grande parte das costas orientais da América do Norte, e convencem
que as relações entre os dois países subsistiram durante os séculos seguintes».
In
A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew
Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia
da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.
Cortesia de Academia das
Ciências/JDACT
sábado, 24 de novembro de 2012
Largada das Naus. História de Portugal (1385 – 1500). António Borges Coelho. «Ante eles, tocavam trombetas e charamelas. Duarte, o infante mais velho, pôs os joelhos em terra, tirou a espada da bainha, beijou-a e meteu-a na mão de seu pai que com ela o armou cavaleiro. Seguiram-se por ordem de nascimento os irmãos. Até cansarem, pai e filhos continuaram a armar cavaleiros»
«Na pressa rasgavam com as fachas os sacos de especiarias que se
derramavam pelo chão das lojas e das ruas. Os grãos de pimenta, calcados pela
multidão, enchiam o ar com o seu odor. Roubavam conservas, jarras de mel,
manteiga, azeite, vinho, pouco, apanhavam os grãos de pimenta. Quando veio a
noite, os invasores forçaram e mataram muitos habitantes nas suas casas para
roubar. Não escapavam as mulheres nem os meninos.
- ‘Tal havia, entre aqueles que em este reino não tinha uma choça, e ali acertava por pousada grandes casas ladrilhadas com tijolos vidrados de várias cores. E tectos forrados de olival com açoteias cercadas de mármore; e camas brandas e moles com roupas de desvairados lavores, como são as obras dos mouros’. (Na Crónica da Tomada de Ceuta, de Zurara, sobre todas as coisas se falava do infante dom Henrique, que todo o al estimavam por pequena cousa).
A 22 de Agosto, a hoste, comandada pelo cavaleiro mercador João Vaz de
Almada, ocupou o castelo e nele hasteou a bandeira da cidade de Lisboa que
ostentava a figura do mártir moçárabe São Vicente. Coube-lhe o melhor roubo,
o do ouro e da prata que ficaram no castelo. A pilhagem continuou durante dias.
Se na cave das casas achavam areia movediça, desfaziam alicerces, ou
penduravam-se nos poços, apalpando a água com os pés em busca
de tesouros.
No esbulho entraram cinco galés, uma delas real, viratões, bestas,
escudos, uma bombarda, muita pólvora, cera, sebo, pez, âncoras, cabres, treus,
mastros, vergas, artimões, governalhos.
Os mortos da cidade jaziam no terreno, ali onde caíram, empapados no
próprio sangue. Os que vestiam roupas melhores estavam nus. Para afastar o
espectáculo e o perigo da peste, lançaram-nos ao mar. Da mesquita maior
retiraram as esteiras velhas sobre as quais os crentes rezavam as suas orações;
limparam as paredes com água e sal, tirada de uma caldeira de prata; armaram
uma tábua larga com os seus pés e improvisaram o altar. A mesquita maior virava
sé catedral.
Juntaram-se então todos os clérigos. Dois sinos, roubados no século
anterior em Lagos, repicavam. Troaram as trombetas, entoaram o Te
Deum. No sermão, mestre frei João Xira: Esta é a casa do senhor
Deus, a qual é fundada sobre firme pedra. Levante-se o Senhor e destrua os seus
inimigos.
Depois da missa, os infantes vieram com os seus arneses, a espada à
cinta e cota de armas. Ante eles, tocavam trombetas e charamelas. Duarte, o
infante mais velho, pôs os joelhos em terra, tirou a espada da bainha, beijou-a
e meteu-a na mão de seu pai que com ela o armou cavaleiro. Seguiram-se por
ordem de nascimento os irmãos. Até cansarem, pai e filhos continuaram a armar cavaleiros.
Manter ou destruir
O rei João convocou então o Conselho
Régio. Disse:
- ‘em seu entender, a posse de Ceuta permitiria que aí se celebrassem os ofícios divinos e mobilizaria os outros príncipes cristãos para a luta contra os ‘infiéis’. Além disso, a defesa da cidade travaria a saída de cavaleiros para outros reinos e permitiria que a memória de tamanho feito pudesse durar ante os olhos dos homens’.
O Conselho dividiu-se. Um
primeiro grupo lembrou que Ceuta tinha de ficar bem servida de
gente e de mantimentos, pois virão mouros de todas as comarcas para a
recuperar. Os reinos não podem suportar tamanha despesa. E Ceuta, alongada de vossa
terra, só por água pode ter socorro». In António Borges Coelho, Largada das Naus,
História de Portugal (1385 – 1500), Editorial Caminho, 2011, ISBN
978-972-21-2464-5.
Cortesia de Caminho/JDACT
Etiquetas:
António Borges Coelho,
Ceuta,
Descobrimentos,
História,
JDACT
A Revolução de 1383. Tentativa de caracterização. António Borges Coelho. «A questão permanece razoavelmente obscura. Será por culpa dos ditos marxistas e dos homens do idealismo político? E estarão as questões de 1383 nessa tão grande obscuridade? Não haverá épocas da História de Portugal bem mais obscuras?»
«Se não havia empresários, por que se associariam eles já no tempo do
rei Dinis? Por que alcançariam a famosa Lei da Construção das Naus (ao menos os
armadores de Lisboa e do Porto)? Tratar-se-á de arquétipos de arma'dores que só
futuramente se materializariam? O autor de Ricos-Homens Infanções e Cavaleiros escreve
algumas vezes revolução de 1383 mas vai amontoando juízos que a intentam
negar. Por exemplo: o modo de produção
feudal manteve-se mesmo depois de 1383. Forte novidade. Se hoje mesmo
não está morto nem enterrado como haveria de ficar em 1383?.
Subjacente a qualquer revolução, estão conflitos na formação económica.
Mas os sujeitos históricos não são os modos de produção mas os grupos sociais
que deles emanam. Os sujeitos são os homens e não as coisas, embora as coisas
marquem e ergam limites ao comportamento dos grupos e dos homens.
Que não existia contestação da autoridade senhorial nem dos privilégios
dos nobres. Que havia mais protestos contra funcionários fiscais que contra os
nobres. Mas a dado passo reconhece que no reinado de Fernando I se agrava o
antagonismo dos concelhos e outros nobres contra o pequeno grupo da alta
nobreza favorecida pelo rei.
Lutar contra o direito de aposentadoria, lutar contra a intervenção dos
nobres na vida do concelho não é lutar contra a autoridade e os privilégios dos
senhores? Por outro lado, pelos vistos na época do rei Fernando, os
concelhos já aparecem menos compartimentados e mais unidos. Quem representam
os funcionários fiscais? De onde provêm os alcaides das principais
cidades e vilas? Não serão nobres e muitos deles castelhanos e galegos?
Qual é o carácter de classe do Estado no
governo de Fernando I?
Os movimentos europeus do século XIV, Jacquerie, Lollardos, Ciompi,
constituiriam somente cóleras populares rurais ou urbanas
anárquicas? Essas cóleras teriam
apenas como programa a vingança? Não haveria uma reivindicação social,
por mais pequena que fosse? A questão
permanece razoavelmente obscura, escreve o autor. Será por culpa dos ditos
marxistas e dos homens do idealismo político? E estarão as questões de 1383
nessa tão grande obscuridade? Não haverá épocas da História de Portugal bem
mais obscuras?
Não foi fácil seguir a exposição do autor de Religião e cultura na Idade Média
Portuguesa. Não há condições para transformações radicais mas escreve-se
revolução. Lutas de classes? Pode-se dizer que começam. No entanto,
dificilmente se poderão compreender os acontecimentos sem recorrer a factores
de outra ordem. Por que recorreu José Matoso à luta de classes e não usou os
tais factores de outra ordem? A luta de classes está muito longe de ser
tudo mas em história social não se pode dispensar o conceito. O discurso de José
Matoso arrasta-se num pode ser mas também pode não ser. As velhas
dúvidas, a socrática e a metódica, são metodicamente essenciais. Dúvidas,
montanhas de suspensões do juízo no acto que precede a afirmação. Depois há que
escolher e assumir a verdade ou o erro, se for caso disso, com a certeza de que
é pela descoberta do erro que se avança.
Divergência e Diálogo
Para certos escribas, os historiadores ditos marxistas nasceram todos
do mesmo molde. No entanto, há longo tempo que existem divergências de fundo entre
as ideias expressas neste meu livro e as que Armando Castro defendeu e
defende em A Evolução Económica em Portugal dos Séculos XII a XV. Em
que consistem as nossas diferenças?
Em minha opinião, Armando Castro prende de tal modo o
Portugal medievo nas malhas da sociedade feudal que depois tem dificuldade em
desdobrar nela a revolução de 1383. Pelo seu lado, o autor de A
História Económica de Portugal considera tacitamente que hipervalorizo
o mundo protocapitalista na sociedade medieval portuguesa e exagero por isso o
alcance da revolução de 1383.
Esta divergência pode ser já assinalada na recensão crítica que
publiquei na Seara Nova de Novembro de 1964, a propósito dos dois primeiros
volumes de A Evolução Económica de Portugal:
- A estrutura agrária do século XII está profundamente transformada na segunda metade do século XIV. Muitas instituições não são já as mesmas, embora conservem os mesmos nomes de antanho. As próprias receitas régias do século XII, relativamente às do século XIV, quase mudaram de sinal. O novo mundo burguês contribui agora com cerca de 80% para as despesas do rei (e neste ponto discordamos da opinião do autor). O soberano, senhor dos senhores, transformara-se em 1385 no detentor eleito da Coroa do Reino. Por outro lado, os coutos do século XII não envolvem a mesma realidade económica dos do século XV que, quanto a nós, se assemelham às enclosures britânicas do século XVI.
Estas divergências tornaram-se mais claras após a publicação do XI
volume de A Evolução Económica de Portugal, já citada. Para Armando
Castro, a burguesia portuguesa trecentista, embora um gigante, manteve um respeito integral pelas estruturas da sociedade feudal». In
António Borges Coelho, A Revolução de 1383, Editorial Caminho, Colecção
Universitária, 1984.
continua
Cortesia da Caminho/JDACT
Etiquetas:
António Borges Coelho,
António Sérgio,
Conhecimentos,
História,
Jaime Cortesão,
JDACT,
MLCT
Subscrever:
Mensagens (Atom)






















