domingo, 18 de dezembro de 2022

Ensaio Sobre a Cegueira. José Saramago. «A mulher aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, disse, Verás como tudo se irá resolver. O médico subiu e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finíssimo, e principiou o exame»

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«(…) O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, E diz-me que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, Nestes últimos dias tinha sentido alguma diferença na vista, Não, senhor doutor, Há, ou houve, algum caso de cegueira na sua familia, Nos parentes que conheci ou de quem ouvi falar, nenhum, Sofre de diabetes, Não, senhor doutor, De sífilis, Não, senhor doutor, De hipertensão arterial ou intracraniana, Da intracraniana não sei, do mais sei que não sofro, lá na empresa fazem-nos inspecções, Deu alguma pancada violenta na cabeça, hoje ou ontem, Não, senhor doutor, Quantos anos tem, Trinta e oito. Bom, vamos lá então observar esses olhos. O cego abriu-os muito, como para facilitar o exame, mas o médico tomou-o por um braço e foi instalá-lo por trás de um aparelho que alguém com, magmaçao pocer, a ver como um novo modelo de confessionário, em que os olhos tivessem substituído as palavras, com o confessor a olhar directamente para dentro da alma do pecador, Apoie aqui o queixo, recomendou, mantenha os olhos abertos, não se mexa. A mulher aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, disse, Verás como tudo se irá resolver. O médico subiu e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finíssimo, e principiou o exame. Não encontrou nada na córnea, nada na esclerótica, nada na íris, nada na retina, nada no cristalino, nada na mácula lútea, nada no nervo óptico, nada em parte alguma. Afastou-se do aparelho, esfregou os olhos, depois recomeçou o exame desde o princípio, sem falar, e quando outra vez terminou tinha na cara uma expressão perplexa, Não lhe encontro qualquer lesão, os seus olhos estão perfeitos. A mulher juntou as mãos num gesto de alegria e exclamou, Eu bem te tinha dito, eu bem te tinha dito, tudo se ia resolver. Sem lhe dar atenção, o cego perguntou, Já posso tirar o queixo, senhor doutor, Claro que sim, desculpe, Se os meus olhos estão perfeitos, como diz, então por que estou eu cego, Por enquanto não lhe sei dizer, vamos ter de fazer exames mais minuciosos, análises, ecografia, encefalograma, Acha que tem alguma coisa a ver com o cérebro, É uma possibilidade, mas não creio, No entanto o senhor doutor diz que não encontra nada de mau nos meus olhos, Assim é, Não percebo, O que quero dizer é que se o senhor está de facto cego, a sua cegueira, neste momento, é inexplicável, Duvida que eu esteja cego, Que ideia, o problema está na raridade do caso, pessoalmente, em toda a minha vida de médico, nunca me apareceu nada assim, e atrevo-me mesmo a dizer que em toda a história da oftalmologia, Acha que tenho cura, Em princípio, porque não lhe encontro lesões de qualquer tipo nem malformações congénitas, a minha resposta deveria ser afirmativa, Mas pelos vistos não o é, Só por cautela, só porque não quero dar-lhe esperanças que depois venham a mostrar-se sem fundamento, Compreendo, Pois é, E deverei seguir algum tratamento, tomar algum remédio, Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas, Aí está uma expressão apropriada, observou o cego. O médico fez que não ouvira, afastou-se do banco giratório em que se tinha sentado para a observação, e, mesmo de pé, escreveu numa folha de re~c~-ta os exames e análises que considerava necessários. Entregou o papel à mulher, Aqui tem, minha senhora, volte cá com o seu marido quando tiver os resultados, se entretanto houver alguma modificação no estado dele, telefone-me, A consulta, senhor doutor, Paga à empregada da recepção. Acompanhou-os à porta, balbuciou uma frase de confiança, do género Vamos a ver, vamos a ver, é preciso não desesperar, e quando se encontrou de novo só entrou no pequeno quarto de banho anexo e ficou a olhar-se no espelho durante um longo minuto, Que será isto, murmurou. Depois regressou ao gabinete, chamou a empregada, Mande entrar o seguinte.

Nessa noite o cego sonhou que estava cego». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 

Cortesia de ECaminho/JDACT

 

JDACT, José Saramago, Ensaio, Nobel, O Saber,

Ensaio Sobre a Cegueira. José Saramago. «O médico disse, Sentem-se, por favor, ele próprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mão, falou directamente para ele, Conte-me lá então o que se passa consigo»

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«(…) Mantiveram-se calados até ao consultório do médico. Ela procurava afastar do pensamento o roubo do carro, apertava carinhosamente as mãos do marido entre as suas, enquanto ele, com a cabeça baixa para que o motorista não pudesse ver-lhe os olhos pelo retrovisor, não parava de perguntar-se como era possível que tão grande desgraça lhe estivesse a acontecer a ele, A mim, porquê. Aos ouvidos chegavam-lhe os ruídos do trânsito, uma ou outra voz mais alta quando o táxi parava, também às vezes sucede, ainda dormimos e já os sons exteriores vão repassando o véu da inconsciência em que ainda estamos envolvidos, como num lençol branco. Como num lençol branco. Abanou a cabeça suspirando, a mulher tocou-lhe ao de leve na face, maneira de dizer Sossega, estou aqui, e ele deixou pender a cabeça para o ombro dela, sem se importar com o que pensaria o motorista, Estivesses tu como eu, e não poderias ir aí a guiar, pensou infantilmente, e, sem reparar no absurdo do enunciado, congratulou-se por, em meio do seu desespero, ter sido ainda capaz de formular um raciocínio lógico. Ao sair do táxi, auxiliado discretamente pela mulher, parecia calmo, mas, à entrada do consultório, onde iria conhecer a sua sorte, perguntou-lhe num murmúrio que tremia, Como estarei eu quando sair daqui, e abanou a cabeça como quem já nada espera.

A mulher informou a empregada da recepção de que era a pessoa que há meia hora tinha telefonado por causa do marido, e ela fê-los passar a uma pequena sala onde outros doentes esperavam. Havia um velho com uma venda preta num dos olhos, um rapazinho que parecia estrábico acompanhado por uma mulher que devia de ser a mãe, uma rapariga nova de óculos escuros, duas outras pessoas sem sinais particulares à vista, mas nenhum cego, os cegos não vão ao oftalmologista. A mulher guiou o marido para uma cadeira livre, e, por não sobrar outro assento, ficou de pé ao lado dele, Vamos ter de esperar, murmurou-lhe ao ouvido. Ele percebeu porquê, ouvira vozes dos que ali se encontravam, agora afligia-o uma preocupação diferente, pensava que quanto mais o médico tardasse a examiná-lo, mais profunda a cegueira se tornaria, e portanto incurável, sem remédio.

Mexeu-se na cadeira, inquieto, ia comunicar as suas apreensões à mulher, mas nesse momento a porta abriu-se e a empregada disse, Os senhores, por favor, passem, e dirigindo-se aos outros doentes, Foi ordem do senhor doutor, o caso deste senhor é urgente. A mãe do rapaz estrábico protestou que o direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera há mais de uma hora. Os outros doentes apoiaram-na em voz baixa, mas nenhum deles, nem ela própria, acharam prudente insistir na reclamação, não fosse o médico ficar ressentido e depois pagar-se da impertinência fazendo-os esperar ainda mais, tem-se visto. O velho do olho vendado foi magnânimo, Deixem-no lá, coitado, aquele vai bem pior do que qualquer de nós. O cego não o ouviu, já iam a entrar no gabinete do médico, e a mulher dizia, Muito obrigada pela sua bondade, senhor doutor, é que o meu marido, e tendo dito interrompeu-se, em verdade ela não sabia o que realmente sucedera, sabia apenas que o marido estava cego e lhes tinham roubado o carro. O médico disse, Sentem-se, por favor, ele próprio foi ajudar o paciente a acomodar-se, e depois, tocando-lhe na mão, falou directamente para ele, Conte-me lá então o que se passa consigo. O cego explicou que estando dentro do carro, à espera de que o sinal vermelho mudasse, tinha ficado subitamente sem ver, que umas pessoas acudiram a ajudá-lo, que uma mulher de idade, pela voz devia ser.

Dissera que aquilo se calhar eram nervos, e que depois um homem o acompanhara a casa porque ele sozinho não podia valer-se, Vejo tudo branco, senhor doutor. Não falou do roubo do automóvel». In José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Editorial Caminho, 1995, ISBN 972-211-021-7.

 

Cortesia de ECaminho/JDACT

 

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mandado d’a ditta Senhora com bôa e luzida Casa, sem se dar a conhecer, nem se saber quem fossem até o prezente seus Paes. Fez seu assento n’a Ribeira d’os Soccorrídos; porém, levando-lhe uma chêa as casas…»

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O Bastardo Escondido

«(…) Dona Joana veio então para Portugal, onde era considerada a Excelente Senhora. Recolheu-se ao Mosteiro de Santa Clara de Santarém e, depois de professar, à Casa das Clarissas de Coimbra. Em 1487, ainda se falou no seu casamento com o rei de Navarra. Mas dona Joana permaneceu solteira, e assim morreu, em 1530, no Paço das Alcáçovas, onde João II, depois de a ter retirado do convento, lhe deu casa e estado de rainha. Não obstante o seu celibato, houve quem dissesse que dona Joana houvera, do rei Afonso V, seu tio, um filho. Esse rebento do régio tálamo foi enviado, ainda criança, para a ilha da Madeira e aí se criou, rodeado de grandezas como quem era, mas proibido absolutamente de sair da ilha. Isto escreve César Silva, que acrescenta: Chamou-se Gonçalo de Avis Trastâmara, mas ajuntou aos seus nobres apelidos de família o de Fernandes, certamente por assim lhe ter sido imposto por seu irmão, o Príncipe Perfeito, e por esse modo ficou confundido na massa dos habitantes plebeus da ilha da Madeira. A seu tempo e como simples particular casou com uma dama da localidade e teve prole. Nada parece mais longe da verdade histórica.

Ainda assim, um genealogista madeirense, Luiz Peter Clode, compôs uma obra sobre a Descendência de D. Gonçalo Afonso d’Avis Trastâmara Fernandes, O Máscara de Ferro Português, onde declina a descendência de Gonçalo Fernandes Andrade, filho de João Fernandes Andrade e de Beatriz Abreu. Segundo Henrique Henriques Noronha, no seu Nobiliário da Ilha da Madeira, Gonçalo Fernandes criou-se em casa d’a Excellente Senhora dona Joanna, e foi Vedor d’o Infante Fernando, Pae d’El Rei dom Manuel. Estabeleceu-se na Madeira por mandado d’a ditta Senhora com bôa e luzida Casa, sem se dar a conhecer, nem se saber quem fossem até o prezente seus Paes. Fez seu assento n’a Ribeira d’os Soccorrídos; porém, levando-lhe uma chêa as casas, a mudou para a Calhêta, e’em um sítio, a que chamão a Serra d’Agua, de quem elle tomou o nome, fabricou casas e uma Ermida de Nossa Senhora d’a Conceição, a que avinculou sua terça, tomandoa com muito luzimento, e bôas pinturas em que poz por Armas as quinas portuguezas sobre uma cruz, e com estas mesmas sellou o testamento com que faleceu em 13 de Junho de 1539 annos, e jaz enterrado n’a dicta Egreja.

Para o marquês de Abrantes, genealogista ilustre, a ascendência real de Gonçalo Fernandes não passa de uma lenda sem qualquer verosimilhança, bastando olhar para a cronologia: como podia o vedor do infante Fernando, que morreu em 1470, ser fruto de um casamento celebrado em 1475?

Quanto a Afonso V, é sabido que sempre gozou da fama de ser muito casto. Rui de Pina assegura, na sua Crónica, que o monarca foi de mui louvada continência porque havendo não mais de 23 anos ao tempo que a Rainha sua mulher faleceu, sendo aquela idade de maiores pungimentos e alterações da carne, tendo para isso disposições e despejo, foi depois acerca de mulheres muito abstinente, ao menos cauto […] Mas um descuido, pelo menos, pode ter tido. E assim foi que, estando no Porto, entre Novembro de 1465 e Fevereiro de 1466, ter-se-ia tomado de amores por Maria Cunha, que era sobrinha de Fernão Coutinho, conselheiro régio, em casa de quem Afonso V então estava, e haveria de casar com Sancho Noronha». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mais força à causa de dona Joana que o rei de Portugal prometeu casar com ela. O casamento chegou a ser celebrado, por procuração, em Maio de 1475. Mas o papa Sixto IV…»

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O Bastardo Escondido

«(…) Dom Afonso V, o Africano, tinha 15 anos quando casou, em 1447, com a infanta dona Isabel, sua prima, filha do infante Pedro, o das Sete Partidas. Desse casamento nasceram três filhos: (1) João, que morreu menino; (2) Joana, a Princesa Santa, que morreu solteira; e (3) um outro João, o Príncipe Perfeito, que sucedeu a seu pai. Depois, em 1455, enviuvou. Tinha 23 anos de idade e não voltou a casar. Mas, envolvido na guerra que a grande nobreza de Castela fez ao seu rei, Henrique IV, o Impotente, ponderou por duas vezes novo casamento: a primeira, em 1465, com a irmã do monarca castelhano, dona Isabel, e a segunda, dez anos depois, com a filha dele, dona Joana, que era, aliás, sua sobrinha. Mas nenhum desses casamentos veio realmente a efeito.

O primeiro casamento foi proposto a Afonso V por Henrique IV, que estava casado em segundas núpcias com a infanta dona Joana, irmã do rei de Portugal. Com esta aliança matrimonial, o Impotente pretendia obter o apoio do cunhado para derrotar os seus inimigos, que tinham por essa altura aclamado um novo rei, o infante Afonso, meio-irmão de Henrique IV, que passou à história como o rei de Ávila. O matrimónio foi negociado por Afonso V com a rainha de Castela, sua irmã, e dessas negociações resultaram umas capitulações que foram assinadas na Guarda, a 12 de Setembro de 1465. Mas dona Isabel, que era por esse tempo uma menina de catorze anos, recusou unir-se a um monarca que podia ser seu avô e guardou-se para casar com Fernando II de Aragão, o que fez às escondidas de seu irmão (e seu rei), em 1469.

O segundo casamento destinava-se a defender os direitos ao trono castelhano de sua sobrinha, a infanta Joana de Castela, filha de Henrique IV e de dona Joana de Portugal, sua segunda mulher. Era ela a legítima herdeira de seu pai e como tal tinha sido jurada após o seu nascimento. Mas, depois, os inimigos do monarca, querendo sentar no trono um dos seus tios, o infante Afonso, primeiro; e a infanta Isabel, depois, afirmavam que dona Joana não era, porque não podia ser, filha do Impotente, dando-a por fruto dos amores adúlteros de sua mãe com Beltran de la Cueva, um dos favoritos de seu pai, que teria, aliás, promovido o adultério. E, por isso, os inimigos da princesa chamavam-lhe a Beltraneja.

Em 1464, Henrique IV aceitou reconhecer seu irmão Afonso como herdeiro do trono castelhano desde que o infante se tornasse seu genro, casando com dona Joana, a quem as cortes nessa altura não tiveram dúvidas em dar o título e o tratamento de princesa, o que correspondeu a um ínvio reconhecimento da sua legitimidade. Mas esse casamento não chegou a realizar-se. E, em 1467, Henrique IV, para conservar o trono, repudiou a filha, que tinha cinco anos de idade e foi, nessa altura, retirada à mãe. Esta, declarada adúltera pelo rei seu marido, foi mandada prender num castelo próximo de Valladolid. Foi aí que a rainha conheceu Pedro de Castilla y Fonseca, um bisneto do rei Pedro I de Castela, por quem se apaixonou. Desses amores nasceu um par de gémeos, que dona Joana, tendo conseguido fugir da sua prisão, deu à luz no lugar de Buitragos (Madrid), em 1496. Pedro Apóstolo e André de Castela e Portugal, como haveriam de ser chamados, não foram criados pela mãe, que se recolheria a um convento. O pouco que deles se sabe é que casaram e, segundo alguns genealogistas, não tiveram filhos, extinguindo-se assim a geração daqueles que são, muito provavelmente, os únicos filhos ilegítimos que uma princesa portuguesa teve.

Em finais de 1474, Henrique IV morreu, não sem antes voltar a afirmar a legitimidade de sua filha. dona Joana reclamou os seus direitos à coroa de Castela, que Isabel, a futura Rainha Católica, reivindicava para si. Afonso V resolveu tomar a defesa da sobrinha. E foi para dar mais força à causa de dona Joana que o rei de Portugal prometeu casar com ela. O casamento chegou a ser celebrado, por procuração, em Maio de 1475. Mas o papa Sixto IV (que confirmara o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão, mau grado os laços de consanguinidade) não concedeu as necessárias dispensas e o rei Africano conformou-se com a vontade do sumo pontífice, deixando a sobrinha solteira, mas não desamparada.

Em defesa da sua realeza, invadiu Castela. Foi, porém, derrotado na Batalha de Toro, a 1 de Março de 1476. E, não tendo conseguido obter do rei de França, Luís XI, a ajuda de que carecia para vencer aqueles que serão depois chamados Reis Católicos, foi obrigado a reconhecer a sua derrota e a renunciar ao trono do país vizinho, o que fez pelo Tratado das Alcáçovas, assinado a 4 de Setembro de 1479». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos»

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O Bastardo que Nunca Existiu?

«(…) A história tem barbas, remontando já à primeira metade de Quinhentos, mas continua a suscitar muitas dúvidas e reservas entre os historiadores pátrios. Anselmo Braamcamp Freire, o célebre autor dos Brasões da Sala de Sintra, por exemplo, recusa-se a aceitar a hipótese de dom Duarte ter tido um filho fora do casamento, com razões que Luís Miguel Duarte, o mais recente biógrafo do rei Eloquente, considera impossível não acompanhar. O monarca seria o modelo das virtudes que apregoava no seu livro. Contudo, os argumentos que apresenta contra António Caetano Sousa não convenceram muitos genealogistas, como Felgueiras Gayo, por exemplo, que, na peugada do autor da História Genealógica, continuam a afirmar a existência do bastardo de dom Duarte. Veríssimo Serrão, na sua História de Portugal, também o faz. Seria ele João Manoel, ou João Manoel de Portugal e Vilhena, como alguns historiadores e genealogistas preferem chamar-lhe, e teria nascido, em data que se ignora, dos amores do rei com Joana Manoel Vilhena. Esta era uma senhora de qualidade que, dizem uns, veio para Portugal com a rainha dona Leonor de Aragão e, afirmam outros, era dama da rainha dona Filipa de Lencastre. Se Joana Manoel era dama de dona Leonor, João Manoel é filho adulterino; se, porém, era dama de dona Filipa, então pode o bastardo ter nascido antes do casamento de seu pai, celebrado em 1429.

João Manoel foi dado à luz em Lisboa, sendo recolhido no Mosteiro do Carmo, onde se diz que Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, o criou com estimação. Educado em virtuosos princípios e ilustrado nas belas letras, tomou o hábito carmelita e, prosseguindo os estudos, saiu bom letrado. Provincial da Ordem do Carmo, em 1441, foi mandado a Roma para tratar da dispensa que era necessária ao casamento do rei Africano com dona Isabel, sua prima, filha do infante Pedro. Trouxe da Cidade Eterna a dispensa requerida, e o título de Bispo Titular de Tiberíades. Em 1443, foi feito bispo de Ceuta e primaz de África. E, em 1450, Afonso V nomeou-o seu capelão-mor. Nove anos depois, foi nomeado bispo da Guarda. Mas não tomou posse da diocese. O rei nunca reconheceu este seu filho, que, por isso, nunca foi tratado como tal. Explica o autor da História Genealógica: Somente ao pai compete fazer semelhante declaração e, não a tendo feito dom Duarte, mais ninguém a podia fazer. Por isso, mal podia El-Rei Afonso V conferir-lhe aquela honra que seu pai não lhe dera.

Mas João Manoel aceitou o seu estatuto com talento e discrição. E reconheceu perante o rei Africano, seu meio-irmão, que a quem seu pai encobriu o real sangue, que lhe dera a natureza, bem é que Vossa Alteza lho negue. Ainda assim, em muitas ocasiões depois  Afonso V confessar o parentesco.

De uma Justa Rodrigues Pereira, mulher solteira e nobre, que depois fundou o Mosteiro de Jesus, em Setúbal, em que acabou com vida exemplar e com quem, sendo moço, o bispo teve trato, houve dois filhos: João Manoel, alcaide-mor de Santarém, mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos. Ambos foram legitimados por Afonso V, em 1475, e tiveram copiosa e ilustre descendência». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) Afonso, duque de Bragança, ambicionou para o filho o título de Condestável do Reino, que fora de seu sogro. Mas o infante Pedro já o reservara para o seu próprio filho, também chamado Pedro, que viria a ser mestre de Avis e, depois, rei de Aragão. Por isso, os dois irmãos voltaram a zangar-se. E a oposição do duque de Bragança ao regente não mais teve descanso. Em 1446, quando o rei atingiu a maioridade, Afonso tratou de o incompatibilizar com o regente Pedro. Este acabou por ser afastado da corte pelo sobrinho, que era também seu genro. Em 1447, com efeito, Afonso V casara com dona Isabel, filha do duque de Coimbra e da condessa de Urgel, sua mulher.

Caído em desgraça no ano seguinte ao casamento da filha, o infante Pedro foi acusado pelo partido do duque de Bragança de ter envenenado a rainha dona Leonor, viúva de dom Duarte (que faleceu em Castela, no ano de 1445), e de ter mesmo tentado matar Afonso V, para sentar no trono o seu filho. O príncipe defendeu-se como pôde. Mas sem sucesso.

Em Outubro de 1448, Afonso V, o rei Africano, chamou Afonso à corte. Mas aconselhou-o a vir bem acompanhado de homens e armas, uma vez que tinha de atravessar as terras do Mondego, que pertenciam ao infante Pedro. O duque de Bragança marchou sobre Lisboa na Semana Santa de 1449, à frente de um exército de três mil homens, mas o duque de Coimbra não lhe consentiu a passagem pelos seus domínios, pelo que Afonso foi forçado a mudar o itinerário. E, quando chegou à corte, apresentou queixa contra o antigo regente. Reunido o conselho do rei para apreciar o protesto, foi o infante Pedro declarado rebelde e desleal ao monarca. E este decidiu ir submeter pelas armas o sogro e os seus partidários. Enfrentou-os e derrotou-os a 20 de Maio de 1449, em Alfarrobeira, perto de Alverca, numa batalha em que o antigo regente Pedro perdeu a vida.

Afonso viverá mais uma dúzia de anos, na companhia de sua segunda mulher, Constança Noronha, filha daquele conde de Gijón e Noronha que casou com a bastarda do rei dom Fernando. Morrerá, carregado de anos, em Chaves, no ano de 1461, riquíssimo, poderosíssimo, na plena satisfação das suas grandes ambições, como escreveu Oliveira Martins:

Teve o 1.º duque de Bragança uma copiosa e ilustre descendência, imperadores, reis, príncipes, fidalgos e plebeus. Dela fazem parte o actual duque de Bragança ??, é claro, mas também o rei de Espanha ou o rei dos Belgas, o grão-duque do Luxemburgo e os príncipes soberanos do Mónaco ou do Liechtenstein, o conde de Paris, o chefe da Casa de Áustria e o príncipe herdeiro da Jugoslávia. Mas a ela pertencem igualmente o cónego João Seabra e frei Hermano da Câmara (que, também por via bastarda, é descendente do rei Luís XV de França), os jornalistas Maria João Avillez, Miguel Sousa Tavares e Sofia Pinto Coelho, os fadistas Maria Ana Bobone ou Vicente e José da Câmara, além de vários nomes sonantes da política portuguesa como António Capucho, José Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Leonor Beleza ou Teresa Patrício Gouveia. E ainda o cineasta António-Pedro Vasconcelos, os cavaleiros tauromáquicos António e João Ribeiro Teles, o cozinheiro José Avilez e os actores Francisco Nicholson e Rui Mendes.

O Bastardo que Nunca Existiu?

Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom  Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III, imperador da Alemanha; (4) dona Catarina; e (5) dona Joana, que foi rainha de Castela pelo seu casamento com Henrique IV, o Impotente. Sobre isso, dom Duarte foi autor de dois livros, que lhe valeram o cognome de Eloquente: o Leal Conselheiro e A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela. No capítulo XXX da primeira destas obras, que trata Do pecado da luxúria, escreve o monarca:

Para guarda deste pecado, nosso primeiro fundamento deve ser amar e prezar virgindade e castidade quanto se mais puder fazer, havendo-a por grande virtude, que muito desejamos sempre haver e possuir. E porque todo o homem com grande diligência guarda o que muito ama e preza, quem esta virtude muito amar e prezar por a bem guardar se afastará das ocasiões e azos por que a possa perder.

Mas um dia terá havido na vida do rei Eloquente, um dia, pelo menos, em que ele pode não ter resistido à tentação da carne, cometendo o pecado da luxúria, que tantos sabedores e grandes pessoas tem vencido. E isto porque dom Duarte poderá ter sido pai de um bastardo». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

 Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) O outro bastardo de João I (que foi, aliás, o primeiro de todos os seus filhos, legítimos ou ilegítimos) nasceu entre 1370 e 1377, numa casa à Porta da Aira, junto ao Tejo, que era pertença de Rui Penteado. Afonso foi criado por Gomes Martins Lemos, seu aio, que morava em Leiria e nesta vila viveu até 1401, ano em que dom João I o legitimou para ele casar, a 8 de Novembro, com dona Brites (ou Beatriz) Pereira Alvim, única filha de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que era, também ele, um bastardo.

Com a mulher, que era condessa de Barcelos e Arraiolos, Afonso recebeu muitas e boas terras: a vila de Chaves e o seu termo, as terras de Penafiel, Basto e Montalegre e várias quintas, honras, coutos e julgados, além do título de conde que, a pedido do sogro, seu pai lhe concedeu. Tornou-se assim o mais opulento senhor do reino.

Do seu casamento nasceram três filhos. O primeiro foi Afonso, conde de Ourém e, depois, marquês de Valença (o primeiro marquez que ouve neste reino), que teve de uma Brites Sousa (que ele à hora da morte mandou chamar para receber por mulher e quando chegou era já morto) um filho, Afonso de Portugal, que terá sido bispo de Silves e foi com certeza bispo de Évora, sendo considerado uma das personagens mais interessantes do Renascimento português. Afonso, que morreu em 1460, ainda em vida de seu pai, teve três filhos bastardos, o primeiro dos quais, Francisco, será conde de Vimioso.

Nasceu depois dom Fernando, quasi parvo, a que chamavão epicondríaco e se fazia pote e outras cousas galantes. Foi o segundo duque de Bragança e casou com Joana de Castro, que lhe deu oito filhos. Por fim, nasceu Isabel, que casou com o infante dom João, seu tio, filho legítimo do rei de Boa Memória. Em 1405, depois de ter acompanhado sua irmã a Inglaterra, Afonso visitou várias cortes europeias. Por 1410, esteve em Jerusalém, para venerar o Santo Sepulcro, tendo sido honrosamente recebido pela senhoria de Veneza quando por lá passou.

Depois de ter sido decidida a conquista de Ceuta, em 1415 (ano em que enviuvou), Afonso levantou gente nas províncias da Estremadura e Entre-Douro-e-Minho, e com ela foi embarcar ao Porto. Assumiu o cargo de capitão da capitania real e, na conquista da cidade, diz Azurara, bateu-se valorosamente. De regresso a Portugal, recebeu de seu pai novas mercês, que dom Duarte acrescentou quando subiu ao trono, em 1433. Durante o reinado de seu meio-irmão gozou, aliás, de muito valimento. Mas, aquando da frustrada conquista de Tânger, em 1437, o seu conselho, que era contrário a ela, não foi seguido.

Após a morte do rei Eloquente, colocou-se ao lado de dona Leonor, a rainha viúva (e triste), a quem dom Duarte confiara a regência, na menoridade de dom Afonso V. E encabeçou o partido que se opunha à intervenção do infante dom Pedro (seu meio-irmão) no governo do reino e de que faziam parte o arcebispo de Lisboa (neto bastardo do rei dom Fernando) e muitos fidalgos da Beira e de Entre-Douro-e-Minho.

Quando, na sequência das Cortes de Lisboa de 1439, o infante tomou o poder, assumindo a regência, o bastardo quis dar-lhe luta. E esteve a ponto de o fazer em Mesão Frio. Mas Afonso, conde de Ourém, seu filho primogénito, evitou o confronto, logrando reconciliar o pai com o tio. Com esta reconciliação, que foi, aliás, de curta duração, ganhou Afonso, em finais de 1422, o título de duque de Bragança. Mas não era suficiente para aplacar a sua ambição.

Escreve Oliveira Martins: O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos, conseguiu penetrar também: subir, voando como um falcão, ou insinuar-se, rojando-se como uma serpente: trepar até sobre o cadáver do desgraçado de Alfarrobeira e, ganhando afinal, com o ducado de Bragança, um lugar ao lado dos duques de Viseu e de Coimbra, fazer desse posto o degrau que levou também ao trono os seus descendentes». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central»

jdact

«Vários mapas, portulanos, planisférios e documentos escritos do final do século XV e princípios do século XVI, normalmente ignorados em Portugal, mostram claramente que, antes de 1490, navegadores portugueses visitaram e mapearam as penínsulas da Florida, Nova Escócia e Labrador. bem como a ilha da Terra Nova. Os mapas de Henricus Martellus e de Cristóvão Colombo, de 1490, são provas irrefutáveis disso mesmo.

Antes do ano de 1501, os portugueses também já tinham mapeado a costa leste dos actuais Estados Unidos da América, desde a foz do rio Mississípi no golfo do México, até Cape Cod, no Massachusetts, tal como é mostrado no mapa de Cantino e noutros mapas feitos nos anos seguintes com base neste planisfério inovador.

Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central, tal como mostra o globo terrestre desenhado num ovo de avestruz, o Ostrich Egg Globe, feito naquele ano. Antes de 1507, toda a costa ocidental do México, dos Estados Unidos da América e até uma parte da costa ocidental do Canadá estavam registadas em mapas secretos portugueses, que foram levados para os grandes centros de saber da Europa e serviram de base ao mapa-múndi de Martim Waldseemüller, feito naquele ano.

Estas provas evidentes da pré-descoberta portuguesa da América continuam a ser ignoradas, porque os actuais historiadores oficiais se recusam a rever os manuais escolares que eles próprios são encarregados de (e pagos para) actualizar, mantendo a mesma perspectiva de há décadas, e até de há séculos, quando não se encontrava disponível a informação que existe hoje sobre este assunto. O mesmo se aplica aos historiadores oficiais de outros países cujas investigações se debruçam sobre as precoces descobertas do Atlântico Ocidental, canadianos, americanos, mexicanos, argentinos, chilenos, etc…, que igualmente se recusam a rever os seus critérios e conclusões. Nesses países haverá certamente razões de política interna para manter a inércia e não rever os seus próprios manuais escolares, mas também existem razões de relacionamento entre estados que o impedem: rever a História de Portugal implicaria imediatamente a revisão da História de vários países da Europa Ocidental e das Américas, o que desencadearia muitos conflitos políticos e diplomáticos.

Entretanto, a verdade histórica permanece convenientemente sepultada debaixo de milhares de toneladas de manuais de literatura oficial, e arquivada em raros mapas ciosamente guardados em museus e também em colecções particulares de vários países, pouco estudados pelos historiadores desses países e muito menos ainda pelos historiadores portugueses...» In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura,

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central»

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«Vários mapas, portulanos, planisférios e documentos escritos do final do século XV e princípios do século XVI, normalmente ignorados em Portugal, mostram claramente que, antes de 1490, navegadores portugueses visitaram e mapearam as penínsulas da Florida, Nova Escócia e Labrador. bem como a ilha da Terra Nova. Os mapas de Henricus Martellus e de Cristóvão Colombo, de 1490, são provas irrefutáveis disso mesmo.

Antes do ano de 1501, os portugueses também já tinham mapeado a costa leste dos actuais Estados Unidos da América, desde a foz do rio Mississípi no golfo do México, até Cape Cod, no Massachusetts, tal como é mostrado no mapa de Cantino e noutros mapas feitos nos anos seguintes com base neste planisfério inovador.

Antes de 1504, os portugueses descobriram e mapearam secretamente a ponta mais a su1 do continente americano, o cabo Horn, e a costa do Pacífico da América do Sul e Central, tal como mostra o globo terrestre desenhado num ovo de avestruz, o Ostrich Egg Globe, feito naquele ano. Antes de 1507, toda a costa ocidental do México, dos Estados Unidos da América e até uma parte da costa ocidental do Canadá estavam registadas em mapas secretos portugueses, que foram levados para os grandes centros de saber da Europa e serviram de base ao mapa-múndi de Martim Waldseemüller, feito naquele ano.

Estas provas evidentes da pré-descoberta portuguesa da América continuam a ser ignoradas, porque os actuais historiadores oficiais se recusam a rever os manuais escolares que eles próprios são encarregados de (e pagos para) actualizar, mantendo a mesma perspectiva de há décadas, e até de há séculos, quando não se encontrava disponível a informação que existe hoje sobre este assunto. O mesmo se aplica aos historiadores oficiais de outros países cujas investigações se debruçam sobre as precoces descobertas do Atlântico Ocidental, canadianos, americanos, mexicanos, argentinos, chilenos, etc…, que igualmente se recusam a rever os seus critérios e conclusões. Nesses países haverá certamente razões de política interna para manter a inércia e não rever os seus próprios manuais escolares, mas também existem razões de relacionamento entre estados que o impedem: rever a História de Portugal implicaria imediatamente a revisão da História de vários países da Europa Ocidental e das Américas, o que desencadearia muitos conflitos políticos e diplomáticos.

Entretanto, a verdade histórica permanece convenientemente sepultada debaixo de milhares de toneladas de manuais de literatura oficial, e arquivada em raros mapas ciosamente guardados em museus e também em colecções particulares de vários países, pouco estudados pelos historiadores desses países e muito menos ainda pelos historiadores portugueses...» In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

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JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura,

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «… cheirando o mosto dos lagares, metendo nele os braços e tirando-os tintos do sangue da terra. O viajante tem destes devaneios, e espera que lhos desculpem, porque são de fraternidade»

 

jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) Torna o viajante a Vila Real, e agora, sim, cumprirá os ritos. O primeiro será Mateus, o solar do morgado. Antes de entrar, deve-se passear neste jardim, sem nenhuma pressa. Por muitos e valiosos que sejam os tesouros dentro, soberbos seríamos se desprezássemos os de fora, estas árvores que do espectro solar só descuidaram o azul, deixam-no para uso do céu; aqui têm todos os tons do verde, do amarelo, do vermelho, do castanho, roçam mesmo as franjas do violeta. São as artes do Outono, esta frescura debaixo dos pés, esta alegria maravilhosa dos olhos, e os lagos que reflectem e multiplicam, de repente o viajante cuida ter caído dentro dum caleidoscópio, Viajante no País das Maravilhas.

Dá por si olhando de frente o palácio. É uma beleza maltratada em rótulos de garrafas de um vinho sem espírito, mas que, por graça de Nasoni, seu arquitecto, se mantém intacta. Coisas assim não se descrevem, e, se é certo ser o viajante mais sensível às simplicidades românicas, também é capaz de não cair em teimosias estultas. Por isso não resiste a esta graça cortesã, ao golpe de génio que é a ocupação do espaço superior com uns pináculos à primeira vista desproporcionados. O pátio parece acanhado, e é, afinal, o primeiro sinal da intimidade interior. As grandes lajes de granito ressoam, o viajante sente ali o grande mistério das casas dos homens. Lá dentro, é o que se espera: o quadro, o móvel, a estátua, a gravura, uma certa atmosfera de sacristia galante lutando contra as ponderosas erudições da biblioteca. Aqui estão as chapas das gravuras originais de Fragonard e Gérard para a edição dos Lusíadas, e quem for fácil de satisfazer em matéria de arroubos pátrios encontrará autógrafos de Talleyrand, Metternich, Wellington, também de Alexandre, czar da Rússia, todos agradecendo a oferta do livro que não sabiam ler. Com todo o respeito, o viajante considera que o melhor de Mateus ainda é o Nicolau Nasoni.

O mundo não está bem organizado. Já não é só a complicada história do que falta a uns e sobeja a outros, é, para este caso de agora, o grave delito de não se trazer a esta estrada todos os portugueses de aquém e de além, para que nos seus olhos ficasse a formidável impressão destas encostas cultivadas em socalcos, cobertas de vinhas de cima a baixo, a grafia dos muros de suporte que vão acompanhando o fluir do monte, e as cores, como há-de o viajante, em prosa de correr, dizer o que são estas cores, é o jardim do solar de Mateus alargado até ao horizonte distante, é a floresta junto do rio Tuela, é um quadro que ninguém poderá pintar, é uma sinfonia, uma ópera, é o inexprimível. Por isso mesmo quereria ver nesta estrada um desfile ininterrupto de compatriotas, sempre por aí abaixo até Peso da Régua, parando para dar uma ajuda aos vindimadores de monte acima, aceitando ou pedindo um cacho de uvas, cheirando o mosto dos lagares, metendo nele os braços e tirando-os tintos do sangue da terra. O viajante tem destes devaneios, e espera que lhos desculpem, porque são de fraternidade». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

Viagem a Portugal. José Saramago. «Adiante é a Samardã, lugarejo entornado na encosta do monte, apostemos que está como Camilo a deixou. Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta…»

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) E este tem outro seu motivo especial, que está a norte, a acenar-lhe: Vem cá! Vem cá!, e tão imperioso é o apelo que o viajante, ao acordar, fica de repente nervosíssimo, dá-lhe uma grande pressa, e em dois tempos já lá vai na estrada. Não o espera mina de ouro ou encontro secreto, mas esta manhã é certamente gloriosa de brancas nuvens, grandes e altas, e um sol que parece ter endoidecido. A poucos quilómetros de Vila Real está Vilarinho de Samardã, e logo a seguir a Samardã. Hão-de perdoar-se ao viajante estas fraquezas: vir de tão longe, ter mesmo à mão de ver coisas tão ilustres como um palácio velho, dois vales, cada qual sua beleza, uma serra lendária, e correr, em alvoroço, a duas pobres aldeias, só porque ali andou e viveu Camilo Castelo Branco.

Uns vão a Meca, outros a Jerusalém, muitos a Fátima, o viajante vai à Samardã. Por esta estrada seguiu, a cavalo ou de traquitana, o doido do Camilo quando jovem. Em Vilarinho passou ele, palavras suas, os primeiros e únicos felizes anos da mocidade, e na Samardã se deu o assinalado caso do lobo que resistiu a cinco tiros e acabou comendo a metade da ovelha que faltava. São episódios de vidas e de livros, razão mais do que bastante para que o viajante ande à procura da casa de Vilarinho, perguntando a umas mulheres que lavam no tanque, e elas apontam, é logo adiante. Lá está o dístico, mesmo ao lado da ombreira da porta, mas esta casa é particular, não tarda que venha alguém. Ainda teve o viajante tempo para ouvir o zumbido das abelhas e seguir ao longo da casa, espreitando as varandas corridas, a desejar ingenuamente viver ali, e é aí que lhe aparece uma senhora a indagar destas curiosidades. É ela sobrinha-bisneta de Camilo, cumpridora parente que dá resposta cabal às perguntas do viajante, aos pés de ambos corre um regueiro de água, e as abelhas não se calam, há realmente momentos felizes na vida. Mas não duram muito. À delicadeza da senhora não pode pedir-se mais, tolo é o viajante se cuida que lhe vão oferecer a casa, nem há razão para isso, e assim retira-se, agradece, vai dar uma volta pela aldeia. Há um grande eucalipto, plantado em 1913, árvore enorme cujos ramos mais altos roçam a barriga das nuvens, as mulheres que lavam a roupa dizem: Boa viagem, e o viajante segue o seu caminho, confortado.

Adiante é a Samardã, lugarejo entornado na encosta do monte, apostemos que está como Camilo a deixou. Esta casa, por exemplo, com a data de 1784 na padieira da porta, esta casa viu-a Camilo deste mesmo sítio onde o viajante põe os pés, o mesmo espaço ocupado por ambos, em tempos diferentes, com o mesmo Sol por cima da cabeça e o mesmo recorte dos montes. Há moradores que vêm ao caminho, mas o viajante está em comunicação com o além, não liga a este mundo, perdoe-se-lhe por esta vez. O viajante alonga os olhos pela falda côncava do monte, procura inconscientemente o fojo onde a ovelha tinhosa serviu de engodo ao lobo esfomeado, mas percebeu a tempo que os tempos são outros, andam os lobos por mais longe, adeus». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

 JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

domingo, 11 de dezembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Vila Real não é cidade afortunada. Terá o viajante de explicar-se melhor para que não fiquem a querer-lhe mal os naturais, assim desacreditados imerecidamente»

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) A estrada segue por altas paragens, depois de logo à saída de Carrazedo deixar de acompanhar o rio Curros. São estas terras grandes desertos, andam-se quilómetros sem ver gente, e quando surge de repente uma povoação que não se espera chama-se Jou, que lindo nome, ou há modestos caminhos que levam a Toubres, a Valongo de Milhais, a Carvas, o viajante vai repetindo estas palavras, saboreia-as, nem precisa doutro alimento. Os nossos antepassados eram gente imaginativa, ou estava a nascente língua portuguesa muito mais solta em seu movimento do que está hoje, quando aí nos vemos em papos-de-aranha para baptizar novos lugares habitados, que graça tem Vila Isto, Vila Aquilo. Assim discorrendo, vai o viajante deitando olhos à paisagem, ao grande consolo destes montes e destas vegetações, bravas ou cultivadas, as pedras e os penedos, os gigantescos lombos das serras, até um homem se esquece de que há léguas de planícies lá para baixo.

O viajante entra em Murça, terra de muita fama e opinião, que teve em tempos um soberbo rasgo de humor ao pôr sobre pedestal uma enorme porca de granito, irmã maior das que se dispersaram por estes lados. Ali está no largo principal, toda em costados e lombos, em presuntos inesgotáveis, fungando a quem passa. Subiu do chiqueiro à pureza da chuva que a lava, do sol que a enxuga e aquece, no meio do seu jardinzinho que o município cuidadosamente defende. O viajante vai ao vinho, que é outra e não menor fama da terra, compra umas garrafas, e tendo assim suprido apetites futuros vai dar uma volta ao passado apreciando a fachada da Capela da Misericórdia, que é como um retábulo de altar trazido para a luz do dia. Estas colunas torsas, estas folhagens esculpidas com artes de botânico repetem modelos, copiam padrões, mas, de cada vez, renova-se o deslumbramento da pedra trabalhada por instrumentos de joalheiro ou filigranista. Uns pássaros de pedra empoleirados nos pináculos voltam a cabeça para trás, desdenhosos, ou terá o gesto um significado místico que o viajante não conhece. O mais certo, porém, é estarem-se já rindo das impaciências do viajante quando, passado o rio Tinhela, entrar no labirinto das não menos afamadas Curvas de Murça, esse faz-que-anda, mas-não anda, que leva a desejar ter asas para voar em linha recta. Enfim se chega a Vila Real, e, tendo o viajante andado por tão maus caminhos, pasma deste privilégio, a avenida de cintura, pista de corridas para bólides de fora e dentro. Há grandes contrastes na vida, e agora mesmo, ao entrar na cidade, viu o viajante o exagero de uma pedra de armas toda ornamentada de volutas e penachos, de tal maneira que mais avultam os enfeites barrocos do que as prosápias de brasão. Estaria o viajante tentado a ver aqui um sinal de modéstia se não fosse ser a pedra de tamanho descomunal, que muito esforço há-de ter custado ao mestre canteiro.

Casa Grande

Vila Real não é cidade afortunada. Terá o viajante de explicar-se melhor para que não fiquem a querer-lhe mal os naturais, assim desacreditados imerecidamente. Em verdade, que se há-de dizer de uma terra que tem, a nascente, Mateus, com seu solar de atractivo fácil, a poente, o Marão, a sul, o vale do Corgo e o outro, paralelo, por onde não corre rio de água mas onde escorre a doçura das vinhas? Viajante que por aqui se encontre, há-de por força andar distraído, a pensar no que lhe está tão perto». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

 Cortesia de PEditora/JDACT

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Viagem a Portugal. José Saramago. «Então, andas a viajar? O viajante trata muita gente por tu, mas não o inimigo. Respondeu secamente: Ando. Deseja alguma coisa? Torna o fulaninho…»

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) E Carrazedo de Montenegro, valeu a pena? Tem duas estátuas de granito, quatrocentistas, preciosos exemplos do poder expressivo de um material pouco dúctil, mas que o viajante muito estima. Tem por cima duma porta lateral um S. Gonçalo de Amarante rude, tosco, de grande cajado, uma espécie de arrasa-montanhas ou mata-gigantes, colocado, o santo, sobre uma ponte de três arcos de vazamento apenas apontado. Terá Carrazedo de Montenegro muito mais, em gente, pedra e paisagem. Mas em Carrazedo de Montenegro foi o viajante pela primeira vez tentado pelo demónio, e desta sua vitória se alimentou em futuras tentações outras, que tornou a vencer. Nunca se sabe o que espera o viajante que se mete ao caminho, mas o aviso cá fica.

A estrada passa ali mesmo, rente à igreja, que é desmedidamente alta, uma enorme construção, tendo em vista não ser a freguesia nenhuma babilónia. Arrumado o automóvel, o viajante foi dando a volta ao templo, de nariz no ar, mirando as cantarias, à busca duma porta que lhe desse entrada. Enfim, quando já cuidava desistir ou procurar guia competente, deu com uma escada exterior e lá no alto uma porta meio cerrada. Seria o acesso para a torre sineira. Não chegou o viajante a confirmar a hipótese, ou não guarda lembrança, mas, tendo subido as escadas e empurrado discretamente a porta, deu três passos e achou-se no coro alto, excelente ponto de vista para abarcar toda a nave. O viajante debruçou-se do balaústre, demorou seu tempo, é um viajante que, podendo, vê devagar, e quando enfim se retirava, sem que vivalma na igreja estivesse de oração ou vigia, dá com uma imagem ali a um canto, uma Nossa Senhora com anjos aos pés, mesmo à mão de apanhar. Aproximou-se para apreciar melhor, e neste instante, vindo certamente do campanário, aparece-lhe o demónio, tão à vontade que nem trazia disfarce: era chavelhudo, rabudo, cabeludo e barbichudo, como mandam as regras. Diz o tentador: Então, andas a viajar? O viajante trata muita gente por tu, mas não o inimigo. Respondeu secamente: Ando. Deseja alguma coisa? Torna o fulaninho: Vinha dizer-te que esses anjos estão seguros só por um espigão. Basta puxar e ficam-te nas mãos. A Virgem, não te aconselho. É pesada, grande, e viam-te à saída.

O viajante zangou-se. Filou o diabo por um cor… e disse-lhe das boas: Ou você desaparece já da minha vista, ou leva um pontapé que só pára em casa. Isto é, no inferno. O diabo tem aquele aparato todo, porém, no fundo, é um cobarde. Tinha o viajante mais para dizer, mas ficou com a palavra no ar: diabo, viste-o tu. Chocadíssimo com o atrevimento do mafarrico, o viajante encaminhou-se para a saída. Abriu a porta, desceu os primeiros degraus, olhou a povoação ali do alto. Não havia ninguém à vista, nem passavam carros na estrada. Então o viajante voltou atrás, tornou a entrar no coro, chegou-se à imagem que piedosamente o fitava, e fez o que o diabo lhe ensinara: agarrou num anjo, puxou-o, e ficou com ele na mão. Durante três segundos, céu e terra pararam para ver o que ia acontecer: perdia-se aquela alma, ou salvava-se? O viajante tornou a colocar o anjo no seu lugar, e desceu a escada, enquanto ia resmungando que não são maneiras próprias de a igreja empalar assim os tenros anjinhos como se fossem uns ganimedes quaisquer. Riu-se a terra, corou o céu envergonhado, e o viajante continuou viagem para Murça». ». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

 Cortesia de PEditora/JDACT

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A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Os poetas dos cancioneiros desavinham-se entre si, em pequenas escaramuças verbais, donde a sinceridade às vezes batia as asas»

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Sátiras contra os Favoritas e Magnates

«(…) No conflito entre Sancho II e o conde de Bolonha, alguns alcaides hesitavam e vendiam os castelos, sob qualquer pretexto. Assim fez Fuão, que tinha mantimentos e entregou o castelo con mínguas que avia. Não atacam um homem de tal coragem. À falta de jornais, estes poetas exprimiam a consciência do povo. Faziam troça dos arranjistas, como faziam troça dos adiantados novatos ou traidores, encarregados de governar e defender as comarcas fronteiriças. Os ricos-homens andavam também na boca do mundo trovadoresco. Gil Pérez Conde troça dum ricome, que em tudo mudou. Até de valente se tornou cobarde, sem aguentar as lazeiras dos tempos idos, quando nada lhe metia medo. Noutro lugar, investe contra um magnate que tira e não dá. Nuno Fernandez Torneol cita um rico-homem mentireiro a quem falara no caminho de Valhadolide para Toledo. Até à tropa dava ele mentiras por sa soldada.

Entra certo rico-homem em Segóvia e logo baixa o preço das coisas, de dez soldos para cinco, resmunga Pero da Ponte. Que remédio, pois era o rico-homem a comprar! Outros eram ignorantes, mandriões, avarentos e ninguém os queria para nada. Só pensavam em ajuntar, como certo rico-homem que o mesmo Pero da Ponte imagina pôr à venda, sem ninguém lhe pegar. E porquê? Ricom’, que sabedes fazer? E ele respondia: Coisa nenhuma (ren), a não ser comprar herdades, se alguém mas vende. E aqui temos nós um protesto contra certos latifundiários, para quem toda a terra era pouca, por muita que fosse.

Longo e de grande significado social é este género de cantigas contra os homens do poder e do dinheiro, luta de raízes bem medievais, a partir da pregação nos púlpitos. E o estendal alargava-se. Certo rico-homem não pagava os serviços duma pessoa de família. Outro contrariava o casamento da filha, dona Urraca Abril. Outro ainda não conseguiu ter filhos. Seria melhor casar com uma tendeira de nome Coelha, para ter um filho cada mês. E não falamos dos comendadores. A um deles acusavam-no de ter feito perder a terra a um escudeiro. Outro andava metido com a mulher confiada à sua protecção. Seria falsificar a história generalizar tais factos. As sátiras, as caricaturas e os panfletos ajudam a fazer a história. Mas não bastam, só por si. Concluímos, no entanto, haver naqueles tempos uma grande liberdade verbal e que os trovadores gozavam, em certa maneira, dos privilégios dos bobos da corte. Talvez os ameaçassem com um chicote, mas eles iam falando.

Nestas cantigas contra os grandes, uma das mais bonitas e ágeis é a que Fernan Soárez Quinhones compôs contra o fidalgo Lopo Anaia, femeeiro e ladravaz. Que o rei o conserve junto de si, em Sevilha, e não se vá embora. Porquê? Porque, Se el algur acha freiras, / ou casadas ou solteiras, / filha-xas pelas carreiras. E se gritam, ficam com nódoas negras na cara. Fique em Sevilha, porque, onde passa, toma tudo para si. E o mesmo fazia o pai dele!

Sátiras a Trovadores e Jograis

Os poetas dos cancioneiros desavinham-se entre si, em pequenas escaramuças verbais, donde a sinceridade às vezes batia as asas. Transformavam-se, então, em mero ludismo, aliás útil para os divertir a si e ao público. Havia ataques de costumes menos limpos, debatiam-se questões de estética, verificavam-se choques de ordem social e diziam-se graças. E já não falamos de questões meramente pessoais. Comecemos por simples graças e disputas para divertir. A tenção entre Afonso Sánchez e Vasco Resende é um tanto sibilina. O tema é este: A senhora cantada pelo segundo poeta morreu de facto ou isto não passou de simples metáfora? Porque fazia ele versos de amor a quem já morrera? Afonso Gómez, jogral galego, fala claro e diz a Martin Moxa: Tão velho sois que, decerto, comestes alguna erva que vos faz viver / tan gran tempo, que podedes saber / mui ben quando naceu Adan e Eva! Os vossos filhos barbados vêm de tempos antigos. Ora dizei-me, de que idade éreis vós, quando Almançor andou por aí a fazer estragos? Assim Deus me perdoe, quando nascestes vós? Antes do tempo em que encarnou Deus en Santa Maria?» In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) Das praias do Algarve, onde passou amiúde a residir, o Navegador perscrutava as notícias da Berberia, o comportamento dos defensores de Ceuta e a eficiência dos meios afectos à ponte naval entre Lisboa, o Algarve e Ceuta. No cerco de 1418, ele próprio e o infante João embarcaram em auxílio dos sitiados. Um dos barcos ocupados no serviço de Ceuta, no regresso ao Reino, chegou à ilha do Porto Santo. A dimensão atlântica somava-se então à empresa marroquina. Os recursos afectos à manutenção de Ceuta eram muito elevados. Entre eles figuravam parte dos consignados às Ordens Militares e aos bispados do Reino. Em 1419, a pedido de João I, o papa Martinho V decidiu que todos os arcebispos, bispos, demais prelados e pessoas eclesiásticas, seculares e regulares, contribuíssem com 9000 florins anuais, durante três anos, para ajuda à nova cidade cristã. A dificuldade em manter uma colónia europeia em África começou a recortar-se com nitidez: pagamento da guarnição, abastecimento em armas e víveres, manutenção da armada no Estreito, dificuldade no recrutamento de fronteiros e moradores, estabelecimento de uma administração permanente em Ceuta e no Reino, enfim, todo o lançamento da estrutura necessária aos territórios de além-mar. João I procurou suscitar o apoio de outros monarcas cristãos para a guerra contra os Mouros e, para isso, escreveu a Afonso V, rei de Aragão e da Sicília; a resposta, dada em 1420, adiava o auxílio para ocasião favorável. O abastecimento de cereais a Ceuta foi, frequentemente, dado a contratadores portugueses e estrangeiros que iam buscar o trigo a Castela, Sicília e outros lugares. Foi o caso do contrato, feito em 1423, com Luís Eanes, outros portugueses e dois genoveses, Bartholomeu Lomellim e Bartholomeu Baraboto, de 2000 moios de trigo para Ceuta. Surgiu então em Portugal um debate complexo a que podemos chamar a questão de Ceuta, que seria alargado mais tarde à escolha dos diferentes rumos que a expansão poderia assumir. Os dirigentes portugueses preocupavam-se com as despesas permanentes que a manutenção de Ceuta exigia, procuravam soluções expeditas e menos onerosas e questionavam-se sobre o futuro da colónia. Assistiu-se à internacionalização do problema, em que foram parte interessada os países ibéricos, o Papado e os meios financeiros europeus, atentos aos projectos carenciados de avultados recursos. De tudo isto nos dá conta a famosa carta que o infante Pedro escreveu de Bruges, em 1426, a seu irmão Duarte: Do que sentya dos feitos de Cepta per algua vez, senhor, vo-lo razoey; mas a conclusão é que, emquanto asy estiver ordenada como agora está, que é muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro. E, segundo eu senty d'alguns bons homens de Inglaterra de autoridade e daquy, deixam já de falar na honrra e boa fama que é em a asy terem, e falam na grande indiscrição que é em a manterem com tam grande perda e destruyçom da terra, do que a mym parece que eles hão muyto peor informação do que ainda é. O remedio desto, senhor, per muytas vezes o falastes e o sabeis melhor do que vos eu poderia escrever; parece-me, senhor, que farieis serviço de Deus e voso ordena-lo sem delonga. A solução proposta pelo infante  Pedro não está expressa na carta, mas já fora discutida com o herdeiro da coroa. O infante das Sete partidas beneficiava das viagens pela Europa para colher ensinamentos sobre a forma como ali se considerava a conquista de Ceuta; mostra-se um crítico da situação, mas não podemos julgar, em termos definitivos, se era contra a guerra de África e pelo abandono de Ceuta se, pelo contrário, propunha a conquista de novos e mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

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 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,