segunda-feira, 12 de julho de 2021

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Onde tu foste muito tonta, Yvette, repreendeu-a Lucille, a pobre Lucille, que estava muito perturbada, foi em teres-te deixado comprometer ante todos eles. Devias saber que descobririam. Podia ter-te arranjado o dinheiro e poupar-te a todo este aborrecimento. É perfeitamente horrível! Mas tu nunca pensas com antecedência qual virá a ser o resultado das tuas acções! Imagina, a tia Cissie a dizer-te todas aquelas coisas! Que horror! Que diria a mãe, se tivesse ouvido? Quando as coisas corriam muito mal, pensavam na mãe e desprezavam o pai e toda a má raça dos Saywells. A mãe delas, claro, pertencera a um mundo mais elevado, apesar de talvez mais perigoso e mais imoral. Decididamente, mais egoísta, mas com gestos de maior ostentação. Mais sem escrúpulos e mais facilmente levado à desonra, mas menos humilhante. Yvette sempre considerara que recebera a sua fina e delicada carnação da mãe. Os Saywells eram todos um pouco coriáceos e imundos, algures dentro deles. Mas, por outro lado, os Saywells nunca deixavam ninguém ficar mal, enquanto A-que-fora-Cynthia abandonara o pároco com um grande estoiro e deixara as suas criancinhas com ele. As suas criancinhas! Isso era uma coisa que não lhe perdoavam!

De uma maneira indistinta, depois da discussão, Yvette começou a compreender qual era a sua outra santidade, a santidade da sua carne e do seu sangue limpos, que os Saywells, com a sua denominada moralidade, haviam conseguido corromper. Tinham sempre querido corromper, pois não possuíam crença, eram os descrentes da vida. Enquanto, talvez, A-que-fora-Cynthia não passara de uma descrente moral. Yvette andou por ali entorpecida, adoentada, confusa. O pároco pagou o dinheiro à tia Cissie, com grande raiva dessa senhora. O descontrolado tumor da sua raiva ainda estava agitado. O que ela teria gostado de fazer era anunciar a delinquência da sobrinha no boletim da paróquia. Era uma angústia, para aquela mulher destruída, o facto de não poder publicar essa notícia, para conhecimento de todo o mundo. O egoísmo! O egoísmo! O egoísmo!

A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade. Porém, lançou a crédito dela um guinéu, que era a taxa que ele tinha de pagar por cumplicidade. Como pai da culpada, disse ele, com humor, sou multado num guinéu. Com isso, considero-me ilibado de responsabilidades. No que respeitava a dinheiro, era sempre generoso. Parecia que, de algum modo, ele pensava que, sendo liberal com o dinheiro, poderia chamar-se a si próprio um homem generoso. Mas era o contrário, ele usava o dinheiro e até a generosidade como um domínio sobre ela. Mas o pai deixou esquecer aquele assunto. Nesta altura já estava mais divertido do que qualquer outra pessoa, a julgar pelas aparências. Pensava, ainda, que agora estava a salvo.

A tia Cissie, contudo, não conseguia libertar-se da sua agitação. Uma noite, quando Yvette se sentira miserável e fora muito cedo para a cama, quando Lucille estava fora, numa festa, e quando ela jazia, sem forças nas pernas, que lhe doíam com uma espécie de insensibilidade e aviltamento, a porta abriu-se suavemente e apareceu a tia Cissie, a sua face esverdeada e acinzentada a espreitar pela abertura. Yvette deu um salto, aterrorizada. Mentirosa! Ladra! Patife! Egoísta!, silvou a maníaca face da tia Cissie. Pequena hipócrita! Mentirosa! Egoísta! Estupor ambicioso! Havia um ódio tão extraordinário e tão impessoal naquela máscara cinzento-esverdeada e naquelas palavras frenéticas, que Yvette abriu a boca para gritar de histeria. Mas a tia Cissie fechou a porta tão subitamente como a abrira e desapareceu». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

 JDACT, DH Lawrence, Literatura, Conto, 

Cyril Mango. Bizâncio. O Império da Nova Roma. «Os Arménios eram quase todos descritos em termos do seu carácter abusador. Até os demónios, tinham fortes sentimentos de afiliação local…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Obviamente, estes eslavónios formavam ainda um grupo distinto. No século seguinte, Anna Comnena refere-se a uma aldeia na Bitínia localmente chamada Sagoudaous, presumivelmente por causa da tribo Sagoudatai, atestada na Macedónia no século VII. Um pouco mais tarde, o contingente eslavónico na Bitínia foi aumentado pelo imperador João II Comneno, que estabeleceu perto de Nicomédia um grupo de eslavos cativos. As aldeias sérvias ainda são mencionadas nesses locais no século XIII. Por outras palavras, é bem possível que os eslavos da Bitínia, ou pelo menos parte deles, tenham sido assimilados pelos Turcos Otomanos sem que nunca se tornassem gregos. A conclusão óbvia a tirar destes e de muitos outros casos é a de que o Império Bizantino do Período Médio não foi de modo nenhum um Estado solidamente grego. Além dos elementos arménios e eslavos, havia muitos outros elementos estrangeiros, tais como os Georgianos e os Valáquios dos Balcãs. A afluência maciça de Sírios e outros cristãos orientais seguiu a expansão do Império em direcção ao Oriente, em finais do século X; e quando, em 1018, a fronteira imperial se estendeu mais uma vez até ao Danúbio, abrangia vastas áreas onde o grego nunca fora falado ou se havia extinguido há muito tempo atrás. Se os falantes de grego formavam na altura a maioria ou a minoria dos habitantes do Império permanece uma incógnita. De um modo geral, não é fácil definir o sentimento de solidariedade, se é que haveria algum, que unia os habitantes multinacionais do Império. No século VI o mote Gloria Romanorum aparecia ainda, por vezes, na cunhagem de moedas imperiais, mas não é provável que existisse muita devoção nas províncias orientais à ideia de Romanitas. Além disso, lealdade a Roma e admiração pela sua antiga grandeza haviam sido um tema regular da polémica pagã, enquanto a Igreja mantinha a posição de que os cristãos eram, acima de tudo, cidadãos da Jerusalém Celestial e, ao fazê-lo, provavelmente terá enfraquecido a coesão do Império. Para não falar do facto de não ter havido exemplos de lealdade ao Estado na história bizantina, com efeito, verifica-se completamente o contrário. Será suficiente lembrar o desespero da população de Nísibis quando a sua cidade fora cedida aos Persas em 363, a demonstração de sentimentos pró-romanos em Edessa em 449, no contexto de lutas sectárias, e uma série de casos semelhantes. Porém, devemo-nos de seguida recordar que na altura a única alternativa a viver sob a lei romana era viver sob a lei persa (o que era, normalmente, pior). As pessoas esmagadas pelo peso dos impostos sentiam-se muitas vezes tentadas a desertar para o inimigo, e até a juntar-se a alguma tribo bárbara onde não se cobrasse impostos. Todavia, isso não era uma opção para aqueles que desfrutavam de um bom nível de vida. Um sentimento de Romanitas dificilmente era um factor decisivo. Ao que se pode julgar, os principais elos de solidariedade foram dois: regional e religioso. As pessoas identificavam-se com as suas aldeias, as suas cidades e as suas províncias muito mais do que com o Império. Quando alguém estava longe de casa, não passaria de um estranho, sendo muitas vezes tratado como suspeito. Um monge da Ásia Menor Ocidental que se juntou a um mosteiro no Ponto foi denegrido e maltratado por todos como se fosse um estranho. O corolário para a solidariedade regional era a hostilidade regional. Encontramos muitos testemunhos depreciativos em relação aos Sírios astutos que falavam com um sotaque cerrado, aos grosseiros Paflagónios, os pedintes de Creta. Os Alexandrinos incitavam à ridicularização de Constantinopla. Os Arménios eram quase todos descritos em termos do seu carácter abusador. Até os demónios, tinham fortes sentimentos de afiliação local e não queriam associar-se aos seus companheiros das províncias vizinhas». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

 JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento, 

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «Não será mais provável que a ausência de um clero linguisticamente qualificado, a relativa inacessibilidade das Escrituras eslavónicas…»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Por muito elucidativa que possa ser em determinados aspectos, uma visão demasiado abrangente não ajudará o historiador bizantino a resolver os problemas específicos com os quais se confronta. Terá sido a helenização, por exemplo, um objectivo consciencioso do governo imperial, se foi, como se implementou e com que sucesso? E se teve sucesso na Idade Média, porque não o terá atingido na Antiguidade, sob as condições de uma vida mais estável e uma civilização superior? Quando consideramos as nossas fontes precárias, compreendemos que a formulação das anteriores perguntas não se adapta à forma de pensar bizantina. Primeiro que tudo, a própria designação grego, que usamos livremente hoje em dia para descrever os bizantinos que não pertenciam a nenhum grupo alheio, está inteiramente ausente na literatura da época. Um habitante do Sul da Grécia, da Tessália, ter-se-ia se referido a si próprio como um Helladikos (um nome já comum no século VI d.C.), mas tanto podia ter sido eslavo como grego. O mesmo se pode dizer sobre regiões cujos habitantes se chamavam pelos nomes das suas respectivas províncias, por exemplo, Paflagónios ou Thrakésians (segundo o tema Thrakésian na Ásia Menor Ocidental). Por isso, visto que não existia uma noção de grego, é difícil explicar como poderá ter existido o conceito de helenização. O único passo que se conhece, e que o poderá explicar, refere-se ao modo como o imperador Basílio I converteu as tribos eslavónicas da sua antiga religião e, dando-lhes uma forma grega (graikósas), tornou-os governantes de acordo com o costume romano, honrou-os com o baptismo e libertou-os da opressão dos seus próprios governantes. Contudo, há muito tempo que se vem a discutir o significado que o termo helenizado poderá ter no presente contexto. O que ouvimos, muitas vezes, é que se relaciona com a conversão de vários povos ao cristianismo ortodoxo e com a implantação de uma organização eclesiástica, tal como atesta a Crónica de Monemvasia. que descreve a actividade do imperador Nicéforo I no Peleponeso: ele construiu de novo a cidade de Lacedemónia e implantou uma população diversificada: nomadamente, os caíres, os Thrakésians, os Arménios e outros, reunidos de vários sítios e cidades, e transformou-a num bispado. Decerto, nem os cafres (possivelmente um termo genérico para referir os convertidos do Islão); nem os Arménios contribuíram para a helenização da Lacónia. O objectivo do imperador era simplesmente reunir uma população cristã e estabelecer um bispado. Não há qualquer dúvida de que a evangelização dos povos não cristãos instalados no Império foi levada a cabo em grego. Isto pode causar alguma surpresa no caso dos Eslavos, pois o alfabeto eslavónico foi ele mesmo inventado por um bizantino, São Cirilo, provavelmente na década de 860. No entanto, a sua invenção e a consequente tradução dos textos cristãos fundamentais destinavam-se a uma região eslava bem distante, a Morávia; e foi inteiramente por uma questão de sorte que a missão cirilo-metodiana, após o seu fracasso inicial, encontrara um solo fértil num país em que tal não seria suposto acontecer, nomeadamente, o reino búlgaro. Tanto quanto se sabe, nenhuma tentativa foi alguma vez realizada para evangelizar os Eslavos na Grécia na sua própria língua, sendo que o uso litúrgico do grego foi imposto na Bulgária conquistada depois de 1018. Como é evidente, esta situação deverá ter contribuído para a difusão da língua grega. Mas terá havido alguma política deliberada também nesse sentido? Não será mais provável que a ausência de um clero linguisticamente qualificado, a relativa inacessibilidade das Escrituras eslavónicas, e a natureza heterogénea da população tenham conjuntamente levado a fazer uso do grego, como sendo a opção mais fácil? Por mais que a imposição litúrgica do grego se tenha provado eficaz, temos de admitir que a assimilação dos enclaves bárbaros foi um processo muito lento. No Peloponeso a presença dos Eslavos pagãos a uma curta distância do Sul de Esparta é atestada nos finais do século X, aproximadamente duzentos anos depois das primeiras tentativas para provocar a sua conversão. Igualmente eficaz terá sido o caso dos Eslavos na Bitínia. Vimos que estes foram transplantados em número considerável no final do século VII e até meados do século VIII. Cerca de duzentos anos mais tarde, os exércitos bizantinos que reuniram esforços para conquistar Creta em 949, incluíam um contingente de eslavónios que estavam instalados em Opsikion (sendo este o nome administrativo de uma parte da Bitínia) situado abaixo dos seus comandantes». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento, 

domingo, 11 de julho de 2021

Bizâncio. O Império da Nova Roma. Cyril Mango. «O Império de Roma no Mediterrâneo simplesmente deixara de existir, enquanto o Estado bizantino ficara limitado à Ásia Menor, às ilhas do mar Egeu e a um pedaço da Crimeia e da Sicília»

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Aspectos da Vida Bizantina. Povos e Línguas

«(…) Simultaneamente. com a perda dos Balcãs, o Império sofreu uma amputação mais grave ao ser destituído das províncias orientais e do Sul, num processo em que se poderá distinguir duas fases. Primeiro, entre os anos 609 e 619, os Persas conquistaram toda a Síria, a Palestina e o Egipto. Foram posteriormente derrotados pelo imperador Heraclio e retiraram-se para o seu país. Todavia, alguns anos mais tarde, as mesmas províncias foram invadidas pelos Árabes e, desta vez, perdidas para sempre. Toda a costa norte-africana sucumbiu também ao invasor. O Império de Roma no Mediterrâneo simplesmente deixara de existir, enquanto o Estado bizantino ficara limitado à Ásia Menor, às ilhas do mar Egeu e a um pedaço da Crimeia e da Sicília.

Os Persas iniciaram também outro processo que viria a ter consequências demográficas importantes, ao atacarem Constantinopla através da Ásia Menor. Ao fazê-lo causaram uma devastação imensa. Quando os Árabes sucederam aos Persas e se assenhorearam de todos os territórios até às montanhas do Tauro, também atacaram a Ásia Menor, não uma ou duas vezes, mas praticamente todos os anos. As incursões continuaram durante quase dois séculos. Muitos dos ataques de surpresa não penetraram muito para além da fronteira, mas vários deles estenderam-se até ao mar Negro e ao mar Egeu e alguns chegaram mesmo à própria Constantinopla. No entanto, os Árabes nunca conseguiram ganhar uma base de operações no planalto da Anatólia. Ao invés, o que sucedeu foi que cada vez que entravam, a população local refugiava-se em fortes inacessíveis, dos quais a Ásia Menor está liberalmente provida. Os Árabes passavam entre os fortes, fazendo prisioneiros e pilhando, enquanto os Bizantinos queimavam as colheitas para privar os inimigos das provisões e mantê-los em movimento. As consequências deste processo prolongado são fáceis de imaginar: grande parte da Ásia Menor foi devastada e despovoada quase de forma irreversível.

Deste modo, criou-se uma lacuna demográfica enorme. O Império precisava urgentemente de agricultores assim como de soldados. Para atingir este fim, teria de recorrer a transferências em massa de populações. O imperador Justiniano II, em particular, aplicou esta política em grande escala. Deslocou uma grande parte da população do Chipre para a região de Cízico na costa sul do mar de Mármara. Ao que parece, foi um fracasso: muitos dos imigrantes morreram no caminho, e aqueles que chegaram ao destino pediram mais tarde para ser repatriados. Justiniano II deslocou também uma grande multidão de Eslavos para a Bitínia. Mais uma vez, teve pouca sorte: os trinta mil soldados que organizou de entre aquele grupo para lutar contra os Árabes não foram suficientes para vencer o inimigo, após o que o imperador infligiu represálias cruéis sobre as famílias. No entanto, nos anos 760, sabe-se que duzentos e oito mil eslavos vieram viver para a Bitínia por mútuo acordo. No século VIII ouvimos falar repetidamente da colonização organizada dos Sírios na Trácia. Contudo, os imigrantes mais proeminentes foram os Arménios, muitos dos quais chegaram sem terem sido forçados. Eram soldados excelentes e o Império, privado do seu terreno de recrutamento na Ilíria, precisava muito deles. De facto, a imigração dos Arménios começara no século VI, e a partir do reinado de Maurício formaram a espinha dorsal do exército bizantino. A entrada dos Arménios no Império prolongou-se durante muitos séculos. Muitos estabeleceram-se na Capadócia e em outras partes da Ásia Menor Oriental perto da sua terra natal, outros na Trácia e outros ainda na região de Pérgamo. É impossível avançar com um valor aproximado do seu número. No entanto, ao contrário dos Eslavos, os Arménios ascenderam rapidamente a posições proeminentes, e até mesmo ao trono imperial, dominando a instituição militar durante o Período Médio bizantino. Desta forma, se nos situarmos mais ou menos na altura em que o Império iniciou o lento percurso da sua recuperação, digamos, em fins do século VIII, encontramos a população que havia sido agitada tão minuciosamente dispersa, que é difícil dizer que grupos étnicos viviam onde e em que números. Afirma-se muitas vezes que afastando, por muito doloroso que seja, os principais elementos que não falavam grego, tais como os Sírios, os Egípcios e os Ilírios, o Império tomara-se mais homogéneo. Também se afirma que os que não eram gregos foram gradualmente sendo assimilados ou helenizados através da actuação da Igreja e do exército, o que, de resto, se verificou particularmente com as populações indígenas da Ásia Menor, assim como com os Eslavos no Peloponeso e noutros locais da Grécia. Poder-se-á aconselhar o leitor mais crítico a encarar estas generalizações com alguma cautela. É evidentemente verdade que após a queda do latim, o grego passara a ser a única língua oficial do Império, pelo que para a aprender se tomara necessário seguir uma carreira de negócios ou de comércio. Nem o arménio nem o eslavónio alguma vez suplantaram o grego como meio de comunicação geral. Também é verdade que, a longo prazo, o eslavónio morrera na Grécia e na Bitínia, e se se falou algum arménio na Trácia, tanto quanto temos na memória, não terá sido pelos descendentes dos colonos que lá se estabeleceram no século VIII. Mas depois também se sabe que o grego sobrevivera na Ásia Menor continuamente apenas no Ponto e numa pequena parte da Capadócia, ao passo que ter-se-á praticamente extinto na parte oriental do subcontinente até à sua reintegração pelos imigrantes nos séculos XVIII e XIX. Não discutiremos a última observação de que a Ásia Menor Ocidental não falou predominantemente grego durante a Idade Média». In Cyril Mango, Bizâncio, O Império da Nova Roma, 1980, Edições 70, 2008, ISBN 978-972-441-492-8.

Cortesia de E70/JDACT

JDACT, Cyril Mango, História, Cultura e Conhecimento, 

sábado, 10 de julho de 2021

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não soube ao certo se o estado da roupa era um indício de pobreza ou se apenas seguia o modo etíope de tratar as crianças. Quando morávamos em Adis Abeba, todos vestiam farrapos e pareciam ser negligenciados pelos pais. Quando pequena, eu considerava essa negligência a epítome da liberdade. Queria ser deixada em paz, brincar por quanto tempo desejasse, fosse dia ou noite, em vez de ser obrigada a trabalhar. A mãe de Sahra parecia ser tão indulgente quanto a minha fora austera e proibidora. Mas o vestido da minha meia-irmã não era a única coisa em frangalhos. O apartamento se encontrava no mesmo estado. Estávamos num cómodo apertado, separado dos demais espaços por um fino lençol de algodão que já fora branco, mas estava manchado pela fumaça e pelo pó. O cimento do prédio residencial já tinha sido liso e plano, e agora, como tantos outros apartamentos partilhados, tinha rachaduras e buracos grandes e pequenos que eram preenchidos por pequenas poças d’água. Nenhum dos ocupantes podia arcar com o custo dos reparos, e eles não se uniam para levantar o dinheiro necessário para a manutenção e a limpeza das áreas comuns. No fim da tarde, mosquitos gordos zumbiam e se lamentavam perto dos meus ouvidos. Decidi fazer uso do meu melhor árabe e amárico para propor que secássemos as poças d’água.

Minha madrasta dera de ombros numa encantadora manifestação de conformismo. É a vontade de Alá, disse. As poças secarão quando parar de chover. Alá traz a chuva e Alá faz o sol brilhar. A terceira esposa do meu pai aceitava a vida da maneira que se apresentava a ela. Como minha mãe, ela era passiva, mas sua passividade era diferente. As duas eram versadas em autopiedade, resignadas às circunstâncias. Porém, minha mãe amaldiçoava, ralhava, gritava, exigia e insultava aqueles que considerava responsáveis. A mãe de Sahra sorria e repreendia com doçura; abaixava o olhar e parecia contente. O que quer que o próximo dia lhe trouxesse seria a vontade de Alá, e ela não via razão para desafiar os acontecimentos, seu marido nem seu Deus. Todas as suas frases terminavam com Inshallah, é a vontade de Alá. Era este o seu método de sobrevivência. Não tive a energia nem a habilidade linguística para sugerir que, embora pudéssemos deixar que Alá se encarregasse de coisas como trazer a chuva e o brilho do sol, talvez pudéssemos secar as poças nós mesmas. Tive malária duas vezes durante a infância e aprendi nas aulas de ciências e higiene, tanto em Juja Road quanto na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano, que o parasita responsável pela malária deposita seus ovos na água parada. Para evitar a doença, combatíamos os insectos com veneno e dormíamos sob filós, mas tínhamos também que secar as poças d’água que se formavam no nosso complexo habitacional e até nas ruas em torno da nossa casa. É claro que nunca conseguimos erradicar as poças de nosso bairro, mas, enquanto crescia, sequei nosso complexo habitacional em Nairóbi com o zelo de uma sobrevivente e contei a meus parentes somalis sobre animais invisíveis que se reproduziam na água.

A pequena Sahra e sua mãe levavam uma vida bastante comunitária. Durante todo o dia as pessoas entravam e saíam do edifício que abrigava o complexo. Num dos cantos do pátio havia uma grande jarra d’água feita de pedra, e os homens entravam, apanhavam um pouco de água com a concha de alumínio e bebiam directamente a partir dela. As mulheres usavam a mesma jarra para fazer chá e encher suas panelas. A certa altura daquela tarde, alguém disse algo sobre a higiene: lave as mãos antes de usar a jarra. Todos bebemos daí. O quê?, disse um jovem com um sorriso confuso. Lavar as mãos com o quê? Não há mais água. De facto, a concha metálica bateu contra o fundo da jarra de pedra fazendo muito barulho, indicando que estava vazia, e as senhoras mais velhas começaram a se lamentar e gritar, pedindo às mais novas que fossem buscar água. As preocupações com a higiene se perderam no meio do burburinho. Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes. Todas as frases que diziam eram pontuadas por expressões como pela vontade de Alá ou pelo amor de Alá.

Sentada no carro que me levava para longe do meu pai após tê-lo visto pela última vez, pensei no que teria me afastado da minha família e dele durante tanto tempo: a regra que dita que um homem deve contar com a obediência de suas mulheres, de suas esposas e de suas filhas, e que elas devem se submeter a ele. Se as mulheres de um homem rejeitarem a submissão, elas . atingem; sua reputação, sua autoridade, a ideia de que ele é leal, forte e cumpridor de sua palavra. Essa ideia faz parte de uma crença mais ampla segundo a qual os indivíduos não têm importância, suas escolhas e seus desejos não têm significado, principalmente se os indivíduos em questão forem mulheres. Essa ideia de honra e direito masculino restringe drasticamente as escolhas das mulheres». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Ayaan Hirsi Ali, Direitos Humanos, JDACT, Literatura,

A Trégua. Mario Benedetti. «Os Policarpos, os indeformáveis, eternos, inócuos Policarpos da minha infância, balançaram-se e, de repente, fizeram algo totalmente imprevisto»

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«(…) Ontem à noite, depois de trinta anos, voltei a sonhar com meus encapuzados. Quando eu tinha 4 anos ou até menos, comer era um pesadelo. Então minha avó inventou um método realmente original para que eu engolisse sem maiores problemas a batata amassada. Ela vestia um enorme impermeável do meu tio, colocava o capuz e uns óculos escuros. Com esse aspecto, aterrorizante para mim, vinha bater à minha janela. A empregada, minha mãe, alguma tia, diziam então em coro: chegou don Policarpo! Don Policarpo era uma espécie de monstro que castigava as crianças que não comiam. Paralisado no meu próprio terror, eu só tinha forças para mover as mandíbulas numa velocidade incrível e assim acabar com o insosso e abundante purê. Era cómodo para todos. Ameaçar-me com don Policarpo equivalia a apertar um botão quase mágico. No final, aquilo se tornara uma diversão famosa. Quando chegava uma visita, era trazida até ao meu quarto para assistir aos engraçados pormenores do meu pânico. É curioso como às vezes se pode chegar a ser tão inocentemente cruel. Porque, além do susto, havia minhas noites, minhas noites cheias de encapuzados silenciosos, estranha espécie de Policarpos que sempre estavam de costas, rodeados por uma bruma espessa. Sempre apareciam em fila, como que esperando a vez para ingressar no meu medo. Nunca pronunciavam uma só palavra, mas moviam-se pesadamente numa espécie de balanço intermitente, arrastando suas túnicas escuras, todas iguais, pois era isso o que o impermeável do meu tio fizera. Era curioso: no meu sonho, eu sentia menos horror do que na realidade. E, à medida que passavam os anos, o medo ia-se transformando em fascinação. Com aquele olhar absorto que a gente costuma ter sob as pálpebras do sonho, eu assistia como que hipnotizado àquela cena cíclica. Às vezes, noutro sonho qualquer, eu tinha uma obscura consciência de que preferiria sonhar com meus Policarpos. E, uma noite, eles vieram pela última vez. Formaram sua fila, balançaram-se, guardaram silêncio e se esfumaram, como de costume. Durante muitos anos dormi com um inevitável desconforto, com uma quase enfermiça sensação de espera. Às vezes adormecia decidido a encontrá-los, mas só conseguia criar a bruma e, em raras ocasiões, sentir as palpitações do meu antigo medo. Só isso. Depois fui perdendo cada vez mais essa esperança e cheguei insensivelmente à época em que comecei a contar aos estranhos o fácil enredo do meu sonho. Também cheguei a esquecê-lo. Até ontem à noite. Ontem à noite, quando eu estava bem no meio de um sonho mais vulgar do que pecaminoso, todas as imagens se esfumaram e apareceu a bruma, e, no meio da bruma, surgiram todos os meus Policarpos. Sei que me senti indizivelmente feliz e horrorizado. Até agora, se me esforçar um pouco, posso reconstituir algo daquela emoção. Os Policarpos, os indeformáveis, eternos, inócuos Policarpos da minha infância, balançaram-se e, de repente, fizeram algo totalmente imprevisto. Pela primeira vez, viraram-se, só por um momento, e todos eles tinham o rosto da minha avó.

É bom ter uma funcionária que seja inteligente. Hoje, para testar Avellaneda, expliquei-lhe de uma só vez tudo o que se refere à Controladoria Fiscal. Enquanto eu falava, ela foi fazendo anotações. Quando concluí, comentou: veja, senhor, acho que entendi bastante, mas tenho dúvidas sobre alguns pontos. Dúvidas sobre alguns pontos... Méndez, que cuidava disso antes dela, precisou de nada menos que quatro anos para dissipá-las... Depois, coloquei-a para trabalhar na mesa que fica à minha direita. De vez em quando, dava-lhe uma olhada. Ela tem belas pernas. Ainda não trabalha automaticamente, e por isso se cansa. E também é inquieta, nervosa. Acho que minha hierarquia (pobre inexperiente!) a coíbe um pouco. Quando diz: Senhor Santomé, sempre pestaneja. Não é uma formosura. Bom, sorri pousadamente. Já é alguma coisa». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

JDACT, Mario Benedetti, Literatura, 

A Trégua. Mario Benedetti. «Será que o gerente sabe, como todos nós, que Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora, essa Lidia Valverde»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esta noite conversei com uma Blanca quase desconhecida para mim. Estávamos sozinhos, depois do jantar. Eu lia o jornal e ela jogava paciência. De repente ficou imóvel, com uma carta erguida no alto, e seu olhar era ao mesmo tempo perdido e melancólico. Vigiei-a durante alguns instantes; em seguida, perguntei em que pensava. Ela então pareceu despertar, dirigiu-me um olhar desolado e, sem conseguir se conter, afundou a cabeça entre as mãos, como se não quisesse que ninguém profanasse seu pranto. Quando uma mulher chora diante de mim, eu me torno indefeso e, ainda por cima, desajeitado. Fico desesperado, não sei como lidar com aquilo. Desta vez, segui um impulso natural: me levantei, me aproximei dela e comecei a lhe acariciar a cabeça, sem dizer palavra. Aos poucos ela foi-se acalmando e as convulsões chorosas se espaçaram. Quando, por fim, baixou as mãos, sequei-lhe os olhos e lhe assoei o nariz com a metade não usada do meu lenço. Nesse momento, ela não parecia uma mulher de 23 anos, mas uma menininha, momentaneamente infeliz porque uma de suas bonecas se quebrou ou porque não a levaram ao zoológico. Perguntei se se sentia descontente e ela respondeu que sim. Perguntei o motivo e ela disse que não sabia. Não estranhei muito. Eu mesmo, às vezes, me sinto infeliz sem motivo concreto. Contrariando minha própria experiência, comentei: oh, alguma coisa deve haver. Ninguém chora por nada. Ela então começou a falar atropeladamente, impelida por um desejo repentino de franqueza: Tenho a horrível sensação de que o tempo passa e eu não faço nada, e nada acontece, e nada me comove até a raiz. Vejo Esteban e vejo Jaime e tenho certeza de que eles também se sentem descontentes. Às vezes (não se aborreça, pai), também olho para si e penso que não gostaria de chegar aos 50 anos e ter sua têmpera, seu equilíbrio, simplesmente porque os considero sem relevo, gastos. Sinto em mim uma grande disponibilidade de energia, e não sei em que empregá-la, não sei o que fazer com ela. Acho que se resignou a ser opaco, e isso me parece horrível, porque eu sei que não é opaco. Pelo menos, não era.Respondi (que outra coisa eu poderia dizer?) que ela estava com a razão, que fizesse o possível para se desligar de nós, de nossa órbita, que me agradava muito vê-la gritar esse inconformismo, que me parecia estar escutando um grito meu, de muitos anos atrás. Ela então sorriu, disse que eu era muito bom e jogou os braços ao meu pescoço, como antes. É uma menininha ainda.

O gerente chamou os cinco chefes de secção. Durante três quartos de hora, falou-nos do baixo rendimento do pessoal. Disse que a Diretoria lhe fizera chegar uma observação nesse sentido, e que no futuro não estava disposto a tolerar que, por causa da nossa negligência (como gosta de acentuar negligência!), sua posição se visse gratuitamente afectada. Portanto, de agora em diante, etc. etc. O que será que eles chamam de baixo rendimento do pessoal? Eu, pelo menos, posso dizer que meus funcionários trabalham. E não somente os novos, os veteranos também. É certo que Méndez lê romances policiais habilmente acondicionados na gaveta central da sua escrivaninha, enquanto sua mão direita empunha uma caneta sempre atenta à possível entrada de algum hierarca. É certo que Muñoz aproveita suas saídas até a Inspectoria de Rendas para surripiar à empresa vinte minutos de ócio diante de uma cerveja. É certo que Robledo, quando vai ao banheiro (exactamente às 10h15), leva escondido sob o guarda-pó o suplemento em cores ou a página desportiva. Mas é também certo que o trabalho está sempre em dia, e que, nas horas em que o trâmite se acelera e a bandeja aérea do Caixa viaja sem cessar, replecta de facturas, todos se afanam e trabalham com verdadeiro sentido de equipa. Cada um, em sua reduzida especialidade, é um entendido, e posso confiar plenamente em que as coisas estão sendo bem-feitas. Na realidade, sei muito bem qual era o destinatário do aperto do gerente. A Expedição trabalha sem vontade e, além disso, executa mal sua tarefa. Todos sabíamos hoje que o sermão era para Suárez, mas então, para que chamar-nos todos? Que direito tem Suárez a que compartilhemos sua culpa exclusiva? Será que o gerente sabe, como todos nós, que Suárez se deita com a filha do presidente? Não é de se jogar fora, essa Lidia Valverde». In Mario Bennedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro, 2015, ISBN 978-989-623-048-7.

Cortesia de ECdeFerro/JDACT

JDACT, Mario Benedetti, Literatura,    

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Até Amanhã Camaradas. Manuel Tiago. «Um dos garotos, reparando nas calças metidas por dentro das meias, chegou à porta, espreitou para fora, disse qualquer coisa a um dos homens e este dirigiu-se ao desconhecido»

jdact

«Súbitas rajadas de vento bufaram do Sul. Com estardalhaço, uma chapa de zinco vinda não se sabe donde, voou de um lado da estrada, deu quatro pinotes grotescos e foi engarrafar-se, silenciosa e miserável, na valeta do outro lado. Logo uma bátega varreu a estrada. Os homens, já encharcados pelos chuviscos que caíam desde o alvorecer, procuraram abrigo junto aos troncos esbeltos dos pinheiros. Só dois rapazitos se deixaram ficar a britar pedra, rindo dos homens que fugiam à chuva. Encolhidos e colados às árvores, os homens gritaram que se abrigassem. Vendo-se observados, os rapazitos mais riram ainda e um deles, sempre britando pedra, começou a esticar o pescoço alto e esgalgado, pondo os olhos em alvo e lambendo a água que lhe escorria cara abaixo. O outro, piscando os olhos, olhava o companheiro, olhava os homens e parecia dizer: somos engraçados, não somos? Vejam aqueles diabos, disse um velho, procurando enrolar-se num casaco tão pequeno que dir-se-ia de criança.

O homenzinho magro a quem se dirigia encolheu os ombros. Já não temos outro dia, disse numa voz branda e cansada. Como para lhe dar razão, o vento soprou mais forte, o ar escureceu, o céu pegou-se à terra, os fios de água continuaram a engrossar. Um a um, os homens largavam então os fracos abrigos. Alguns em passo forçado, outros em corridas curtas, outros com seu passo natural, como achando indigno apressar-se por coisa tão pouca, dirigiram-se a uma casa isolada que a uma centena de metros parecia agachar-se debaixo da chuva. Havia ali uma taberna e, se nem todos estavam dispostos a beber, ao menos sempre teriam um tecto em cima. Vendo os companheiros afastarem-se, os dois garotos atiraram as marretas ao chão. O do pescoço alto partiu como uma flecha, espadeirando as poças de água com os pés nus e agitando os braços em gestos largos e desengonçados, a querer possivelmente significar que era um grande nadador. O outro seguiu, sacudido de riso. Chegaram antes de todos à taberna, mas o engraçado, incapaz de ali esperar, veio para a chuva, chamando os homens com os braços e reivindicando assim a iniciativa e a descoberta de tão magnífico abrigo.

Foram-se juntando no pequeno e escuro compartimento. Amontoados à porta, olhavam para fora a insinuar ao taberneiro que estariam ali só um instante a abrigar-se da chuva. As ocasiões de negócio eram porém raras e o taberneiro, apressado, pôs-se a lavar os copos já lavados, olhando os homens a pedir desculpa da demora em os servir. Seja pela vergonha de negar tão claro convite, seja porque lhes parecesse não poderem ali ficar todos sem gastar um tostão, seja pela força do pecado, três homens, com ar solene, chegaram-se para beber. Então todos os outros se instalaram mais à vontade, sentando-se uns à roda da mesa, fugindo outros do vão da porta, onde a chuva martelava trazida pelo vento. Já não temos outro dia, repetiu o homenzinho magro. Era bem precisa, era bem precisa, disse o velho, que não conseguira ainda, nem conseguiria nunca, ajeitar pelos ombros o minúsculo casaquinho.

Todos aqueles homens eram mais camponeses que operários, alguns tinham mesmo a sua leira de terra, e, como a estiagem fora grande, sentiam-se tentados a perdoar a molha e a tarde de trabalho perdida. Silenciosos, repassados, fitavam no rectângulo de claridade da porta a cortina de água que quase vedava à vista o outro lado da estrada e apuravam o ouvido ao ruído surdo e amplo perdendo-se na profundidade do pinhal e acusando o peso da bátega. Até os garotos estavam silenciosos, e o engraçado, com um ar triste que se julgaria impossível naquele rosto minutos antes, fazia esforços para reter as tremuras de frio dos membros arroxeados. Num momento em que a chuva caía mais forte, uma sombra passou rápida diante da porta e, antes de alguém ter ido ver do que se tratava, a sombra voltou a aparecer e um homem entrou. Vinha curvado para a frente, abanando os braços e a cabeça para fazer escorrer a água das mangas do casaco e do boné. Quando julgou completada a operação, endireitou-se e, dando os bons-dias, mostrou um rosto largo, anguloso, de pele branca e de expressão severa, onde os olhos se destacavam pela sua fixidez. Um dos garotos, reparando nas calças metidas por dentro das meias, chegou à porta, espreitou para fora, disse qualquer coisa a um dos homens e este dirigiu-se ao desconhecido. Meta a máquina dentro. Há muito lugar. O desconhecido pareceu não ouvir. Limpava a cara e o pescoço com um lenço. Algum dos senhores sabe dizer-me o caminho para o Vale da Égua?, perguntou. Os homens entreolharam-se. Alguns mostraram um sorriso mal-disfarçado. Para onde?, perguntou de um canto uma voz. Vale da Égua». In Manuel Tiago, Até Amanhã Camaradas, Editorial Avante, 1989, Lisboa, 2001, ISBN 972-747-534-5.

Cortesia de EAvante/JDACT

JDACT, Álvaro Cunhal, Literatura, Comunismo, A Arte, 

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «O barco então balançou e os rapazes, na mesma hora estenderam a mão para amparar o pai. Mirina viu os três olharem nervosos para a água e entendeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África

«(…) Assim que chegaram perto o suficiente para serem vistas, Mirina acenou com a lança no ar para chamar a atenção dos outros. A água agora batia na sua cintura e Lilli ia agarrada às suas costas. Os homens a encararam incrédulos, o que não era de espantar. Eles nos viram!, arquejou Mirina, avançando com passos bambos pela água lamacenta. Estão sorrindo e acenando para subirmos a bordo... Ao se aproximar do barco, porém, viu que os homens não estavam sorrindo, mas sim gesticulando frenéticos, com os semblantes contorcidos pelo medo. Instantes depois, agoniados, os homens puxaram primeiro Lilli, depois Mirina para dentro do barco e, logo em seguida, aliviados, apontaram para a água enquanto desfiavam longas explicações num idioma estrangeiro. O que foi?, quis saber Lilli, segurando-se na túnica enlameada da irmã. O que eles estão dizendo? Quem me dera eu entendesse, murmurou Mirina. A julgar pela aparência, os pescadores eram o pai e dois filhos adultos. Não pareciam do tipo que se deixava abalar com facilidade. Eu acho...

O barco então balançou e os rapazes, na mesma hora estenderam a mão para amparar o pai. Mirina viu os três olharem nervosos para a água e entendeu, por fim, o motivo de seu alarme. Uma forma comprida e malhada rodeava o barco, deslizando o imenso corpo pela água barrenta. Seria um peixe grande? Mas ela não viu nem cabeça nem cauda, somente um corpo interminável da mesma grossura de um ser humano. Era uma cobra gigantesca. O que houve?, ganiu Lilli, sentindo a súbita tensão. Me diga! Mirina mal conseguia falar. Já tinha visto cobras grandes, claro, mas nunca algo como aquilo. Ah, nada, conseguiu articular, enfim. Só umas algas presas no casco. Após alguns segundos de aflição, a cobra pareceu perder interesse pelo barco, e os homens relaxaram e recomeçaram a conversar. Verificaram mais algumas armadilhas, mas a pescaria foi magra: apenas uma dúzia de peixes e um par de enguias. Apesar disso, eles pareciam animados ao recolher as varas e, a duras penas, começar a impulsionar o barco para a frente com movimentos curtos e ritmados. Para onde estamos indo?, sussurrou Lilli, trémula de cansaço. Mirina puxou a cabeça da irmã para junto do peito e afagou seu rosto sujo de lama. Para a cidade grande, leoazinha. A Deusa da Lua está nos esperando, lembra-se?

Aurora

Se o dr. Ludwig ficou surpreso ao me ver sentada junto ao portão de embarque, folheando com gestos casuais uma revista de bordo abandonada, não demonstrou nada. Apenas meneou a cabeça como se minha presença já fosse esperada e ofereceu: café? Assim que ele se afastou, relaxei de alívio e exaustão. Por mais calma que aparentasse estar, as últimas horas sem dúvida tinham sido as mais agitadas da minha vida, e eu não havia parado sequer para respirar depois de encontrar o caderno da avó no sótão. Por sorte, meu pai tinha-se mostrado muito disposto a uma pequena aventura e insistira em me levar até ao aeroporto. Mas confesso que estou um tanto curioso, dissera ele, de modo sensato, durante a nossa curta paragem em frente à minha faculdade em Oxford, enquanto eu lutava para enfiar no banco de trás do Mini a mala feita às pressas.

É só por uma ou duas noites, respondi, sentando-me no banco do carona e ajeitando meu rabo de cavalo. Talvez três. O motor continuava ligado e meu pai ainda segurava o volante, mas o carro não andou. E as aulas que precisa dar? Eu me remexi no banco, incomodada. Antes que o senhor perceba, eu já vou ter voltado. É uma viagem de pesquisa. Na verdade, uma pessoa está pagando para ir a Amsterdão...» In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,  

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «Duvido, falou Mirina, mentindo, enquanto golpeava a água à frente com a lança. Cobras não gostam de água aberta. Bem nessa hora, vozes as fizeram parar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Norte de África

«(…) Tudo o que Mirina conseguia escutar era o grasnar dos pássaros. Vozes... Lilli girou a cabeça para um lado e outro. Vozes de homens. Esperançosa, Mirina escalou uma rocha grande para poder ver melhor. Diante delas se descortinava um litoral e uma grande extensão de água. Ficou aliviada. É o mar!, exclamou ela, apontando sem pensar. É enorme..., exactamente como a mãe disse que seria. Com excepção da mãe delas, ninguém da aldeia tinha visto o mar. Mas os anciãos faziam muitas referências a ele sentados à sombra da figueira, meneando a cabeça para concordar uns com os outros. O mar era grande, azul e perigoso, diziam, espantando distraidamente as moscas, e em seus litorais distantes havia cidades cheias de riscos e sofrimento, cidades povoadas por estrangeiros maus... A mãe sempre rira dessas palavras, lembrando às filhas que os homens costumavam julgar mal aquilo que não compreendiam. A cidade não é mais má do que o povoado, dissera ela certa vez, descartando aquilo tudo com um gesto da mão coberta de massa de pão. Na verdade, as pessoas lá são bem menos invejosas do que aqui. Então porque foi embora?, quisera saber Mirina, salpicando mais farinha nas mãos da mãe. E porque não podemos voltar para lá?

Talvez voltemos. Mas por enquanto é aqui que a Deusa nos quer. Mirina não havia se deixado enganar. Sabia que a mãe estava escondendo alguma coisa relacionada à Deusa da Lua. No entanto, não importava como formulasse suas perguntas, não conseguia obter as respostas que desejava. Tudo o que sua mãe dizia era: nós somos servas fiéis da Deusa, Mirina. Ela sempre nos vai ajudar. Nunca questione isso. Conforme as irmãs avançavam pela vegetação rasteira e pegajosa do estuário, Mirina descobriu que o mar era surpreendentemente raso e pantanoso. Juncos altos brotavam da água e não havia ondas; na verdade, a água mal se movia. Não estou gostando disto aqui, disse Lilli em determinado momento, quando as duas estavam afundadas até ao joelho na lama e na vegetação marinha viscosa. E se tiver alguma cobra?

Duvido, falou Mirina, mentindo, enquanto golpeava a água à frente com a lança. Cobras não gostam de água aberta. Bem nessa hora, vozes as fizeram parar. É a mesma coisa que eu escutei antes!, sibilou Lilli, aflita, grudando o corpo às costas da irmã. Está vendo de onde vem? Mirina afastou os juncos com a ponta da lança. Por entre o emaranhado de caules verdes, pôde distinguir um barquinho com três pescadores a bordo. Estavam entretidos demais com suas redes para reparar nas duas. Decidiu que eram trabalhadores, portanto dignos de confiança. Vamos! Foi levando a irmã pela água, ansiosa para chegar ao barco antes que ele sumisse. A perspectiva de passar mais uma noite no leito seco do rio ou naquele pântano coalhado de insectos era insuportável. Aonde quer que aqueles pescadores fossem, ela e Lilli iriam também». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura

domingo, 4 de julho de 2021

Sedução Fatal. LSFerreira. «Hoje, eu vou procurar um novo emprego, ou aceito a proposta daquela mulher?, pensou ela, ainda com os olhos fixos no tecto do quarto»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Cleyde dormia de dorso sobre o enxergão do catre. Estremunhada por um impulso inconsciente, abriu os olhos. Nódoas cinzentas, que se disseminavam no tecto e nas paredes do quarto pequeno, amorteciam mais a claridade matinal que atravessava o vidro empoeirado de uma clarabóia. A esperança de uma vida nova foi também quebrantada pelo desânimo que estava consumindo sua alma desde o acometimento que a infelicitara no seu último emprego. Lembrou-se da casa do dr. Waldomiro. Às cinco da manhã já estava de pé, movida pelos repetidos gritos de dona Creuza, que a chamava para preparar o desjejum. Acorda, menina! Dormes muito! É por isso que estás preguiçosa! Cleyde se levantava e banhava o rosto no pequeno lavatório. Olhava-se no espelho. Seus olhos, recobertos pelas pálpebras intumescidas, tinham a cor das águas-marinhas; ela se orgulhava deles. Depois de fazer o asseio pessoal e a simples maquiagem, colocava o avental branco para iniciar a rotina dos afazeres enfadonhos. Sua mente estava limitada por essas actividades. Para ela, as manhãs eram as mesmas dos dias passados. Bom dia, dona Creuza, estava indisposta, por isso não lavei a louça; mas é pra já! Ela resmungava para si: ah, a minha patroa é muito exigente! Lembrou-se que certa noite, o dr. Waldomiro, encontrando-a casualmente dentro de casa, inesperadamente a puxara pelo braço, e disse: depois que ela morrer, vou casar contigo!

O dr. Waldomiro era funcionário aposentado da Alfândega. Ele controlava a importação de insumos diversos, bens de consumo, equipamentos eletrónicos e automóveis de luxo. Recebia elevadas propinas para deixar passar ilegalmente muitos desses produtos valiosos. Nos leilões, os carros contrabandeados eram vistos sem uma das portas, sendo arrematados por um preço muito aquém do valor real por alguém aparentemente desinteressado nessa falta. Depois do leilão, o dono do carro recebia a porta, que era colocada em alguma oficina. A compensação pecuniária para o dr. Waldomiro vinha breve. Assim, ele enriquecia à vista de todos com a conivência das autoridades superiores entre as quais estava o representante do Governo, que, segundo diziam, era um sibarita impudente e corrupto.

Depois de aprontar o lauto desjejum, Cleyde continuava na preparação do almoço. O dr. Waldomiro chegava a casa por volta do meio dia. Cleyde, arruma a mesa!, gritava dona Creuza. Depois do banho, ele vinha sentar-se à mesa, ocupando a cabeceira desta. À sua direita ficava Creuza; ao lado desta, a jovem Zoraia. E à sua esquerda, o Ricardo, sempre atirado quando via Cleyde. Dona Creuza segurava um pequeno sino de prata e, com um gesto calculado, dobrava o mesmo, avisando a Cleyde que já deveria trazer o almoço. Às vezes, quando ela virava a cabeça para falar com a filha, o dr. Waldomiro aproveitava a oportunidade para acariciar a coxa de Cleyde, que permitia essa licenciosidade com medo de perder o emprego, ou, talvez, porque se lembrava da promessa do velho desbriado. Após o almoço, ela continuava a rotina diária com a limpeza dos três carros contrabandeados, mas já legalizados, que ocupavam uma garagem do tamanho de uma casa média. Após o jantar, continuava em actividade na preparação da ceia. Quase todas as noites o dr. Waldomiro recebia visitas, o que prolongava o trabalho dela até alta hora da noite. Depois, já extenuada, só lhe restava ir para a cama na qual repousava seu belo corpo de mulher já feita. Como vivia em casa de família, só tinha folga parcialmente aos domingos.

Cleyde tinha dezoito anos. Ela nascera de uma família de empregadas domésticas, dessa espécie de família que abunda neste vasto país, indolente pela própria natureza, mas cheio de esperteza marota; esse tipo de família da qual a prole fecunda vem da pobreza que lhe permite de graça, entre os poucos prazeres, o pequeno espaço de uma cama. Novas gerações vêm com a mesma sina, sujeitas, quem sabe, ao inexorável jogo da competição. Hoje, eu vou procurar um novo emprego, ou aceito a proposta daquela mulher?, pensou ela, ainda com os olhos fixos no tecto do quarto. Não tenho coragem para fazer isso! Mas eu também poderia ir à casa do dr. Waldomiro e exigir meus direitos. Aquele canalha do filho dele ainda vai me pagar! Preciso ter coragem! Ele precisa reparar isso! Cleyde era, de certo modo, uma excepção entre a maioria das pessoas da sua classe. Observe o leitor o seu nome próprio. Seus pais lhe deram esse nome, talvez, tirando-o de algum almanaque, ou, talvez, tomando-o das personagens de novelas ou filmes. A mesma coisa se poderia dizer de sua fala. O dr. Waldomiro se admirava das expressões quase correctas dessa moça que, provavelmente, viera de uma família sem a necessária escolaridade. Escuta, Cleyde! Algum dia ainda vou te amparar. Você é tão bonita! Minha mulher é uma megera!, sussurrava ele ao ouvido dela, ocasionalmente. Talvez ele fosse sincero com ela. Suas trapaças eram extradomésticas e, sobretudo, ligadas ao contrabando. Era rico. Poderia alugar um apartamento e tê-la como sua amante. Devido à sua condição social, ela almejava ter segurança. Pensava consigo: ah! não quero ter casos com certos homens bonitos que só querem se aproveitar; depois desaparecem e ainda deixam um filho p’ra gente criar. Dizem que eles não gostam de usar camisinha!...» In LSFerreira, Sedução Fatal, 2005, Paka-Tatu, 2005, ISBN 858-794-572-6.

Cortesia de PakaTatu/JDACT

JDACT, LSFerreira, Literatura,

sábado, 3 de julho de 2021

Deborah Moggach. A Febre das Tulipas. «O que tens aí?, diz ela. Deixa-me ver. O que queres, Maria, meu patinho? E baixa a cesta ao nível da anca. E se fosse uma bela e gorda enguia?»

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Sophia

«(…) Já nos vejo na tela: Cornelis, em fundo negro, com o seu colarinho de renda branca, a barba mexendo-se enquanto come; o arenque jazendo no meu prato, de pele rasgada e brilhante deixando à mostra a carne; os lábios entreabertos do meu pão. Uvas roliças e espessas à luz da vela; o castiçal de estanho derramando uma luz opaca. Já nos vejo: sentados à mesa, imóveis, os nossos momentos fixados antes de tudo mudar. Depois do jantar ele costuma ler-me a Bíblia: toda a criatura é como a erva e toda a sua glória como a flor-dos-campos!; a erva seca e a flor murcha, quando o sopro do Senhor passar sobre elas; verdadeiramente, o povo é idêntico à erva... Mas encontro-me já pendurada na parede, observando-nos.

Maria

Maria, a criada, sonolenta de amor, está ocupada a dar lustre a uma panela de cobre. Sente-se avassalada de desejo, lânguida, como se se movesse em círculos debaixo de água. O seu rosto, distorcido pelo reflexo do metal, sorri-lhe. É uma moça do campo, larga e rubicunda, de um apetite saudável. A sua consciência é também um órgão são e adaptável. Quando se deita com Willem na cama embutida na parede por trás do fogão da cozinha, corre a cortina para se proteger do olhar reprovador de Deus. Longe da vista, longe do coração; afinal de contas, casar-se-ão um dia. Maria sonha com o dia em, que o patrão e a mulher morrem, naufragados no mar, e que ela e Willem passam a viver nesta casa, com seis filhos adoráveis. Pensa nesta visão enquanto se dedica às limpezas; e quando a patroa sai, desce as gelosias até meio para não ser vista da rua, mergulhando a sala de visitas na sombra, e caminha então como se se  movesse no fundo do mar. Põe a jaqueta de veludo azul da patroa, de gola e punhos debruados a pele, e passeia-se pela casa, captando de vez em quando a sua imagem nos espelhos. É um sonho inocente; que mal pode fazer?

Maria está agora ajoelhada na sala de visitas, a esfregar os azulejos azuis e brancos, todos eles exibindo a imagem de crianças a brincar, uma com um arco, outra com uma bola. Um deles, o seu favorito, mostra uma criança num cavalo de baloiço. Toda a sala está atapetada com as suas crianças imaginárias, e Maria limpa-as ternamente com um pano. Tendo sido criada no campo, o bulício da rua que lhe chega através das paredes, passos, vozes, todos esses ruídos do Herengracht e o modo como s ruas invadem o seu secreto mundo doméstico, continua a surpreendê-la. O vendedor de flores apregoa com uma voz tão inquietante como o cacarejo de um galispo; o amolador chocalha uma lata para atrair os potenciais fregueses, como se convocasse uma assembleia de pecadores. Alguém, pertíssimo, apregoa e escarra. E ouve então a sineta.

Peixe, peixe fresquinho!, canta Willem com uma voz terrível e desafinada. Robalo, sargo, arenque e bacalhau! E abana a sua sineta. Ela está tão alerta como uma pastora ao ouvir o tilintar do seu amor no meio do rebanho. Maria dá um pulo, assoa o nariz ao avental, ajeita a saia e abre a porta. Está uma manhã tão nevoenta que mal consegue ver o canal do outro lado do passeio. Willem surge do nevoeiro. Olá, meu amor! O seu rosto abre-se num sorriso. O que tens aí?, diz ela. Deixa-me ver. O que queres, Maria, meu patinho? E baixa a cesta ao nível da anca. E se fosse uma bela e gorda enguia? Como é que gostas delas? Tu bem sabes!, e ri por entre dentes. Prefere estufada com damascos e vinagre doce? Mm!, suspira ela, ouvindo o barulho dos barris sendo descarregados de uma barcaça ao fundo da rua e que embatem no chão, pumba! pumba!, repercutindo as batidas do seu coração. Não queres antes um arenque?, pergunta ele. Ou um beijo? Sobe um degrau e quase a alcança. Pumba! pumba! Chiu!, diz Maria, recuando porque vão pessoas a passar. Willem fica cabisbaixo». In Deborah Moggach, A Febre das Tulipas, 1999, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989-233-874-3.

Cortesia de EASA/JDACT

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

A Febre das Tulipas Deborah Moggach. «Olho fixamente para o meu pão abandonado em cima da mesa: abriu-se durante a cozedura e parece exibir lábios entreabertos»

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Sophia

«Eu e o meu marido estamos a jantar. Um bocado de alho-porro fica-lhe preso na barba e move-se para cima e para baixo à medida que mastiga; parece um insecto preso na erva. Observo-o indolentemente, pois sou uma mulher jovem e vivo o presente de modo simples. Não morri nem renasci ainda. Ainda não morri uma segunda vez, porque aos olhos do mundo, esta será uma segunda morte. No meu fim está o meu princípio: a enguia enrosca-se e engole a sua própria cauda. No princípio ainda estou viva e jovem, apesar de o meu marido estar velho. Erguemos os nossos cálices e bebemos. Há palavras gravadas dentro do meu cálice: as esperanças da Humanidade são vidro frágil, e por isso a vida também é breve, uma homilia áspera contida no líquido que bebo. Cornelis arranca um pedaço de pão e molha-o na sopa. Mastiga por um momento.

Minha querida, tenho de falar consigo. Limpa-se ao guardanapo. Não é verdade que todos desejamos a imortalidade nesta vida transitória? Fico petrificada, porque sei o que vai dizer a seguir. Olho fixamente para o meu pão abandonado em cima da mesa: abriu-se durante a cozedura e parece exibir lábios entreabertos. Estamos casados há três anos e ainda não tive um filho. Não por falta de tentativas, pois, no que a isto diz respeito, o meu marido ainda é um homem viril. À noite monta-me: afasta-me as pernas e eu fico ali, como um escaravelho de pernas para o ar, esmagado por um sapato. Ele deseja ardentemente um filho, um herdeiro que gatinhe por este chão de mármore, que prolongue a vida desta casa grande e vazia no Herengracht.

Mas, até ao momento, tenho fracassado. Submeto-me naturalmente aos seus abraços, porque sou uma esposa ciosa dos seus deveres e ser-lhe-ei grata para sempre. A vida é cruel e ele salvou-me, assim como salvámos a nossa pátria do avanço das águas: drenámo-la e construímos canais para a manter a salvo e evitar que se afundasse. Por isso, amo-o. Todavia, ele surpreende-me: por isso, contratei os serviços de um pintor, Jan van Loos, um dos artistas mais promissores de Amesterdão: naturezas-mortas e paisagens, mas sobretudo retratos. Foi-me recomendado por Hendrick Uylenburgh que, como sabe, é um negociante perspicaz. Rembrandt van Rijn, que chegou recentemente de Leiden, é um dos seus protégés. É desta maneira que me ensina, dizendo-me mais do que quero saber; mas esta noite as palavras dele aterram silenciosamente à minha volta. O nosso retrato vai ser pintado!

Tem trinta e seis anos, a mesma idade que o nosso novo e corajoso século. Cornelis esvazia o cálice e enche-o novamente: está embriagado com a visão de nós próprios imortalizados na tela. Quando bebe cerveja fica sonolento, mas quando bebe vinho torna-se patriótico. Vivemos na mais grandiosa das cidades, berço da nação mais grandiosa do globo. Embora esteja só eu sentada à sua frente, fala como se se dirigisse a uma larga audiência. As suas faces, por cima da barba amarelada, enrubescem. Não é deste modo que Vondel descreve Amesterdão? Haverá águas ainda não ensombrecidas pelo seu velame? Haverá mercados que ainda desconheçam os seus produtos? Haverá ainda, sob a luz da lua, algum povo que ela desconheça? Ela, que dita as leis a todos os oceanos?

Não espera que eu responda porque sou apenas uma jovem mulher pouco vivida, confinada a esta casa. Trago comigo, em redor da cintura, apenas as chaves das arcas onde está guardado o enxoval, embora me falte abrir algo ainda mais importante. Penso no que irei trajar aquando da pose para o retrato, por enquanto, o meu mundo resume-se a isto. Esqueçamos os oceanos e os impérios. Maria traz uma travessa com arenques e volta fungando para a cozinha. Tem soprado do mar uma névoa constante e ela tem tossido todo o dia. No entanto, o seu estado de espírito não foi afectado. Estou certa de que tem um amor secreto: trauteia na cozinha e às vezes surpreendo-a em frente do espelho a arranjar o cabelo sob a touca. Descobrirei o seu segredo, porque trocamos sempre confidências uma com a outra; ou, pelo menos, até ao ponto permitido pelas circunstâncias. É a minha única confidente desde que deixei as minhas irmãs.

O pintor vem na próxima semana. O meu marido é um connoisseur e a nossa casa está repleta de quadros. Na parede atrás dele está pendurada uma tela intitulada Susannah and the Elders: os velhos espiam a donzela nua a banhar-se. À luz do dia consigo ver os rostos vorazes dos velhos mas, a esta hora, à luz de vela, já se refugiaram na sombra; consigo vislumbrar apenas o seu corpo roliço e pálido por cima da cabeça do meu marido enquanto se serve de peixe. Gosta de colecionar coisas belas». In Deborah Moggach, A Febre das Tulipas, 1999, Edições ASA, 2017, ISBN 978-989-233-874-3.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Deborah Moggach, Literatura, Holanda, Tulipas, 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A Tábua de Flandres. Arturo Pérez-Reverte. «A Partida de Xadrez: Óleo sobre madeira. Escola flamenga. Datado de 1471. Autor: Pieter Van Huys (1415-1481). Suporte: três painéis finos de carvalho, unidos por linguetas falsas»

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Os segredos de Mestre Van Huys

Deus move o jogador e este move a peça. Que Deus por trás de Deus o jogo começa? In J. L. Borges

«(…) Girou o interruptor da lâmpada, descobriu a clarabóia e a luz fria da manhã outonal veio espalhar-se de novo sobre o cavalete e o quadro, iluminando o estúdio cheio de livros, prateleiras com tintas e pincéis, vernizes e diluentes, instrumentos de marcenaria, craveiras e instrumentos de precisão, talhas antigas e bronzes, bastidores, quadros poisados no chão e voltados para a parede sobre uma valiosa carpete persa manchada de tinta e, num canto, por cima de uma cómoda Luís XV, uma aparelhagem de alta fidelidade rodeada por pilhas de discos: Dom Cherry, Mozart, Miles Davis, Satie, Lester Bowie, Michael Edges, Vivaldi... Na parede, um espelho veneziano de moldura dourada devolveu a Júlia, ligeiramente embaciada, a sua própria imagem: cabelo cortado pelos ombros, leves olheiras de sono sob uns olhos grandes e escuros, ainda sem maquilhagem. Atraente como um modelo de Leonardo, costumava dizer César quando, como agora, o espelho emoldurava o seu rosto em ouro, ma piu bella. E embora César pudesse ser considerado mais entendido em efebos do que em madonnas, Júlia sabia que essa afirmação era rigorosamente correcta. Ela própria gostava de se olhar naquele espelho de moldura dourada porque lhe dava a sensação de estar do outro lado de uma porta mágica que, anulando o tempo e o espaço, lhe devolvia a sua imagem encarnada numa beleza renascentista italiana.

Sorriu ao pensar em César. Desde pequena que sorria sempre ao pensar nele. Um sorriso terno, muitas vezes cúmplice. Depois poisou as radiografias sobre a mesa, apagou o cigarro num pesado cinzeiro de bronze assinado por Benlliure e foi sentar-se em frente da máquina de escrever: A Partida de Xadrez:

Óleo sobre madeira. Escola flamenga. Datado de 1471. Autor: Pieter Van Huys (1415-1481). Suporte: três painéis finos de carvalho, unidos por linguetas falsas. Dimensões: 60x87 cm. (Três painéis idênticos, de 20x87). Espessura da tábua: 4 cm. Estado de conservação do suporte: Não é necessário endireitar. Não se observam estragos causados pela acção de insectos xilófagos. Estado de conservação da película pictórica: Boa adesão e coesão do conjunto estratigráfico. Não há alterações de cor. Notam-se craquelures de idade, sem se observarem fendas nem escamas. Estado de conservação da película superficial: Não se verificam marcas de exsudação de sais nem de humidade. Excessivo escurecimento do verniz, devido a oxidação. A capa deve ser substituída.

A cafeteira assobiava na cozinha. Júlia levantou-se e foi servir-se de uma chávena grande, sem leite nem açúcar. Regressou segurando-a numa mão e enxugando a outra, molhada, ao largo camisolão masculino que enfiara por cima do pijama. Bastou uma leve pressão do indicador para que as notas do Concerto para Alaúde e Viola de Amor, de Vivaldi, enchessem o estúdio, deslizando por entre a luz cinzenta da manhã. Bebeu um gole de café negro e amargo que lhe queimou a ponta da língua. Foi depois sentar-se, com os pés nus no tapete, para continuar a escrever à máquina o relatório: Inspecção U. V. e radiológica:

Não se detectam mudanças importantes, transformações ou pinturas posteriores. Os raios X revelam uma inscrição coberta na época, em caracteres góticos, que figura em cópias fotográficas anexas. Não é visível em observação convencional. Pode ser posta a descoberto sem prejuízo para o conjunto mediante a eliminação da camada de tinta no local que a cobre.

Retirou a folha de papel do rolo da máquina e meteu-a num envelope, juntando duas cópias fotográficas. Bebeu o resto do café, que ainda estava quente, e preparou-se para fumar outro cigarro. Na sua frente, sobre o cavalete, face à dama que lia, absorta, junto da janela, os dois jogadores, continuavam uma partida de xadrez que durava há cinco séculos, representada na tábua por Pieter Van Huys de forma tão rigorosa e magistral que as peças pareciam estar fora do quadro, com relevo próprio, tal como os restantes objectos ali reproduzidos. A sensação de realismo era tão intensa que atingia plenamente o efeito procurado pelos velhos mestres flamengos: a integração do espectador no conjunto pictórico, persuadindo-o de que o espaço de onde o contemplava era o mesmo contido no seu interior, como se o quadro fosse um fragmento da realidade ou a realidade um fragmento do quadro. Para tal, contribuíam a janela pintada no lado direito da composição, com uma paisagem exterior para além da cena, e um espelho redondo e convexo pintado no lado esquerdo, na parede, que reflectia os vultos dos jogadores e o tabuleiro de xadrez, deformados pela perspectiva do ponto de vista do espectador, situado para aquém da cena, conseguindo assim o assombroso efeito de integrar os três planos: janela, compartimento e espelho num único ambiente». In Arturo Pérez-Reverte, A Tábua de Flandres, 1990, Edições ASA, 2009, ISBN 978-989-230-61-1.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Arturo Pérez-Reverte, Literatura, Xadrês,