quinta-feira, 17 de março de 2022

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «Na quarta votação, nenhum outro nome foi lido além do de Luciani. Houve algumas cédulas em branco (…) Mas cerca de noventa votos foram para Luciani. Os aplausos ecoaram na capela. A porta da capela foi aberta e oito auxiliares do conclave entraram para acompanhar Jean Cardinal Villot, o camerlengo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Assassinato nas Ordens Sagradas

«(…) Ao meio-dia, escreveram os jornalistas da Time, os dois conjuntos de cédulas, presos numa grande agulha como se fosse um kebab, foram atirados ao forno da capela junto com uma mistura química enviando fumaça escura como sinal negativo para a multidão que aguardava na praça de São Pedro. Mas o sistema de exaustão acima do forno estava quebrado e a fumaça preta se espalhou pela capela, obscurecendo parcialmente os famosos frescos de Michelangelo. Os cardeais ficaram tossindo por cerca de quinze minutos, cobrindo a boca e esfregando os olhos, até as janelas serem abertas para limpar o ar. Quando pararam para o almoço, enquanto os cardeais caminhavam até ao Hall Pontifício na ala dos aposentos de Bórgia, travaram-se intensas discussões. Na terceira eleição, às 16h30 (…) Luciani tomou a dianteira, quase obtendo a maioria. Nesse momento, Luciani explicou depois com um sorriso que lhe valeria o apelido de Papa Sorriso, a situação começou a ficar perigosa para mim. Os cardeais Willebrands, dos Países Baixos, e Ribeiro, de Portugal, sentados ao seu lado, inclinaram-se na sua direcção. Um sussurrou: Coragem. Se o Senhor dá o fardo, dá também a força para carregá-lo. E sussurrou o outro: O mundo todo ora pelo novo papa.

Na quarta votação, nenhum outro nome foi lido além do de Luciani. Houve algumas cédulas em branco (…) Mas cerca de noventa votos foram para Luciani. Os aplausos ecoaram na capela. A porta da capela foi aberta e oito auxiliares do conclave entraram para acompanhar Jean Cardinal Villot, o camerlengo da Igreja, até o aturdido Luciani, que ainda estava sentado no seu lugar sob um fresco do baptismo de Cristo. O camerlengo, o rosto todo sorrisos, fez a pergunta ritual: Aceita a sua eleição canónica como Supremo Pontífice? Luciani respondeu primeiro: Que Deus os perdoe pelo que fizeram em relação a mim. Depois deu seu consentimento: Accepto. As cédulas queimadas e palha quimicamente tratada enviaram uma fumaça branca pela chaminé, sinalizando para a multidão na praça de São Pedro que a Igreja tinha um novo papa. Ele seria Ioannes Paulus. A multidão foi informada do nome do novo papa: João Paulo. Depois de cantarem o Te Deum de agradecimento, o pontífice foi escoltado até à sacristia para colocar suas vestes papais temporárias. Reapareceu de batina branca com uma capa nos ombros e uma longa faixa branca. Sorridente, ocupou o trono que havia sido erguido diante do altar e os cardeais contentes se aproximaram um a um para abraçá-lo e beijar o anel papal.

Roma viu João Paulo pela primeira vez no dia seguinte, quando 200 mil pessoas ocuparam a praça de São Pedro para a bênção semanal do meio-dia de domingo. João Paulo falou por sete minutos. (…) Vamos nos entender uns aos outros, ele disse para a multidão. Não tenho a sabedoria do coração do papa João, nem o preparo e a cultura do papa Paulo. No entanto, agora estou no lugar deles e devo tentar ajudar a Igreja. Espero que me ajudem com as vossas orações. (…)

O novo papa, João Paulo, mostrou um pouco do seu estilo pessoal nos planos para as cerimónias de posse ao ar livre no dia 3 de Setembro. Por recomendação sua, não foi chamada de coroação ou entronização, mas de missa solene para marcar o início de seu ministério como Sumo Pontífice. João Paulo pediu para não ser carregado na liteira, como era costume, e preferiu caminhar em procissão. O mais significativo, porém, foi o facto de não querer ser coroado com a tiara papal na forma de colmeia. Em vez disso, um pálio, a estola de lã branca simbolizando seu título de patriarca do Ocidente, seria colocado sobre seus ombros. (…) No seu discurso inaugural aos cardeais, João Paulo jurou continuar a obra do Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João XXIII em 1962 e concluído por Paulo VI em 1965. Iria priorizar a revisão das leis do direito canónico, disse. Percebeu-se imediatamente que João Paulo pretendia dar um novo estilo ao papado, mais simples e menos formal do que muitos no Vaticano estavam habituados. Seu primeiro discurso para o mundo, proferido na sacada da basílica de São Pedro, foi directo e pessoal. (…) Ele pediu que os católicos tivessem misericórdia com o pobre novo papa que não esperava chegar a esse posto. Ele fez uma brincadeira dizendo que precisaria pegar o pesado livro do ano do Vaticano, o Annuario Pontificio, para estudar o funcionamento da cúria.

O novo papa não fez segredo do facto de que se sentia intimidado pela estrutura da Igreja que deveria governar. (…) Em eventos públicos, procurou fazer ligações com os católicos comuns adoptando uma maneira de pregar como se estivesse contando uma história e conferindo ao Vaticano uma atmosfera de paróquia. Explicou o conceito de livre-arbítrio com uma metáfora sobre a boa manutenção de um carro. Falou com simpatia daqueles que não conseguiam acreditar em Deus. Brincou, comparando o casamento a uma gaiola dourada. Aqueles que estão de fora morrem de vontade de entrar, disse, enquanto os que estão dentro morrem de vontade de sair. Ele chocou muitos católicos ao dizer que Deus é um pai, mas é ainda mais uma mãe, pela maneira como Ele ama a humanidade. Citou o profeta Isaías, do Velho Testamento: Pode uma mãe esquecer seu filho? Porém, mesmo que isso acontecesse, Deus jamais esqueceria o seu povo. Alguns comentadores da Igreja viram seu pontificado como uma época de graça e alegria, chamando-o de Papa Sorriso. Outros analistas disseram que a tarefa estava acima das possibilidades do papa João Paulo, um homem que foi esmagado pelo peso da sua nova posição. Os veteranos e tradicionalistas do Vaticano temiam que João Paulo fosse muito liberal e que pretendesse revolucionar as doutrinas da Igreja, incluindo a revisão de leis sobre a contracepção. O cardeal Ratzinger via nele grande bondade, simplicidade, humanidade e coragem. Ruth Bertels escreveu um artigo dizendo que na noite de 28 de Setembro de 1978, quando João Paulo se sentou para comer na sala de jantar do terceiro andar do Palácio Apostólico, seus dois secretários, padre Diego Lorenzi, que trabalhara com ele em Veneza por mais de dois anos, e o padre John Magee, que fora indicado logo após a eleição papal, estavam presentes. As freiras haviam preparado um jantar simples composto de sopa, vitela, vagens frescas e uma salada. Os três comeram enquanto assistiam ao noticiário na televisão. O papa parecia estar bem-humorado e com boa saúde». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJdosLivros/JDACT

JDACT, Paul Jeffers, Vaticano, Religião, Literatura,

Paul Jeffers. Mistérios Sombrios do Vaticano. «Uma coisa é interpretar a fé e outra é transmiti-la às pessoas nas paróquias, disse um alto prelado da cúria. Isso é algo que os bispos, qualquer que seja a sua teologia, entendem melhor do que os membros da cúria nas suas escrivaninhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Assassinato nas Ordens Sagradas

«(…) O crime de Formoso, lembrou Owen, foi ter coroado imperador um dos inúmeros herdeiros ilegítimos de Carlos Magno depois de já ter conferido o mesmo cargo a um candidato favorecido por Estevão. Após o discurso inflamado de Estevão, as vestes do cadáver foram arrancadas e seusdedos da mão direita amputados. Depois foi arrastado pelo palácio e jogado no rio Tibre. O corpo foi resgatado por simpatizantes de Formoso, que lhe deram uma sepultura digna. Alguns anos mais tarde, Estevão foi estrangulado. Em 964, o papa Bento V estuprou uma jovem e fugiu para Constantinopla com o tesouro papal, e só reapareceu quando o dinheiro acabou. Um historiador especializado em assuntos da Igreja chamou Bento de o mais iníquo de todos os monstros na impiedade. Ele também foi assassinado por um marido ciumento. Seu corpo, com centenas de ferimentos de punhal, foi arrastado pelas ruas antes de ser jogado numa fossa. (…) Em Outubro de 1032, a mitra papal foi comprada para Bento IX, então com onze anos. Ao chegar ao décimo quarto aniversário, escreveu um cronista, Bento havia superado em devassidão e libertinagem todos os que o haviam precedido.

Segundo o historiador Peter Rosa, no livro Vicars of Christ, os papas tinham amantes jovens, de até mesmo quinze anos, eram culpados de incesto e perversões de todos os tipos, tinham inúmeros filhos e eram mortos durante o acto do adultério. O papa Alexandre VI (nascido Rodrigo Bórgia) reinou de 1492 a 1503. Depois de assumir a mitra papal, gritou: Sou papa, vigário de Cristo!. Como seu predecessor, Inocêncio VIII, teve vários filhos, baptizou-os pessoalmente e oficiou o casamento deles no Vaticano. Teve dez filhos ilegítimos (incluindo os notórios César e Lucrécia Bórgia) com sua amante favorita, Vannoza Catanei. Quando seu fascínio se desvaneceu, Bórgia envolveu-se com uma jovem de quinze anos, Giulia Farnese. Farnese obteve o galero vermelho de cardeal para seu irmão, que depois se tornaria Paulo III. Alexandre foi seguido por Júlio II, que comprou o papado com sua fortuna particular. (…) Mulherengo notório, foi tão consumido pela sífilis que não podia expor seu pé para que fosse beijado.

O papa Sisto IV cobrava dos bordéis romanos um imposto para a Igreja. Segundo o historiador Will Durant, em 1490 havia 6,8 mil prostitutas registadas em Roma. O papa Pio II declarou que Roma era a única cidade governada por (…) filhos de papas e cardeais. O papa Leão I (440-461) afirmou que não importava quão imoral ou inepto fosse um papa, desde que fosse considerado legítimo sucessor de São Pedro. Não há uma lista oficial de papas, mas o Annuario Pontificio, publicado todos os anos pelo Vaticano, contém uma lista geralmente considerada a mais autorizada. Bento XVI é citado como o 265º papa de Roma. O número 263, João Paulo I, foi nomeado em 26 de Agosto de 1978. Primeiro pontífice a escolher dois nomes (em homenagem a seus predecessores, João XXIII e Paulo VI), nasceu Albino Luciani em 17 de Outubro de 1912, em Forno di Canale (actual Canale d´Agordo), Itália. Ao contrário de seus predecessores, nunca ocupou um alto cargo no governo interno ou no corpo diplomático do Vaticano. Apesar de proeminente na Itália, era praticamente desconhecido no restante do mundo. Ordenado em 7 de Julho de 1935, estudou na Universidade Gregoriana de Roma depois de um breve período como vigário na paróquia de sua infância. Depois de ser indicado para um cargo de vice-director no seminário de Belluno, em 1937, passou vários anos ensinando; nesse período tornou-se vigário-geral para o bispo de Belluno. No final de 1958, o papa João XXIII nomeou Luciani como bispo de Vittorio Veneto, e após um início lento no Concílio Vaticano II (1962–1965) logo se tornou voz activa em questões doutrinárias. Nomeado arcebispo de Veneza (1969) e cardeal em 1973, rejeitou muitos dos aspectos de maior opulência do catolicismo e encorajou as igrejas mais ricas a dar para as mais pobres. Após sua eleição ao papado pelo Colégio de Cardeais, a revista Time afirmou: Os cardeais sabiam o que queriam: um homem caloroso e humilde. Sentado a uma mesa diante do altar da Capela Sistina, o cardeal solenemente entoou o nome escrito em cada cédula. Luciani… Luciani… Luciani. Ao lado dele sentaram-se outros dois cardeais escrutinadores, que retiravam as cédulas cuidadosamente de um cálice de prata, desdobravam-nas e as passavam para seu colega. Foi a quarta e última votação do incrível conclave de um dia que deu ao mundo católico seu 263º papa.

Tendo conseguido penetrar o muro de segredos que se ergue em torno desses conclaves, e os votos de silêncio proferidos pelos cardeais ao entrarem e se isolarem do mundo exterior, os jornalistas da revista Time, Jordan Bonfante e Roland Flamini, reuniram dados para reconstituir boa parte da história do processo transcorrido na Capela Sistina. Ficou claro que a eleição de Luciani não foi um acidente, mas resultado de um consenso que evoluiu a partir de três acordos alcançados num longo período pré-conclave após a morte do papa Paulo VI em 6 de Agosto de 1978. Provavelmente, metade dos 111 cardeais eleitores estavam indecisos ao iniciar-se o conclave. A maioria estava convencida de que o papa teria que ser italiano. (…) O segundo consenso, ao qual resistiram alguns membros da cúria até ao final, era que a Igreja, independentemente dos seus problemas políticos e administrativos, precisava de um papa pastoral. Uma coisa é interpretar a fé e outra é transmiti-la às pessoas nas paróquias, disse um alto prelado da cúria. Isso é algo que os bispos, qualquer que seja a sua teologia, entendem melhor do que os membros da cúria nas suas escrivaninhas. Outro cardeal disse: Acho que antes do conclave todos nós concordávamos particularmente que precisávamos voltar a um homem humilde, pastoral, apesar de não termos consultado uns aos outros. E então, quando entramos, ficou claro para nós que era isso o que queríamos. Um dos participantes disse que havia um consenso para que o novo papa não fosse óbvio nem controverso. Enquanto a votação não produzia nenhuma liderança óbvia entre os candidatos, Luciani era um homem não activamente detestado por ninguém, e activamente querido por todos os que realmente o conheciam». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJdosLivros/JDACT

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quarta-feira, 16 de março de 2022

Paul Jeffers. Mistérios Sombrios do Vaticano. «Teorias e acusações de intrigas assassinas vieram à tona após a morte do papa Clemente XIV, em 1774. Ele estaria tão atormentado pela culpa por ter extinguido a ordem dos jesuítas…»

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Os Tesouros do Vaticano. Sacerdotes malcomportados

«(…) Ao proibir os padres de terem uma vida sexual madura, o que inclui compromisso, responsabilidade e respeito, e protegendo-os dos custos de suas façanhas sexuais, a Igreja na prática tem tolerado a liberdade sexual clerical para todos. O facto de o comportamento heterossexual e homossexual prosperarem no sacerdócio católico não reflecte algo inerente à homossexualidade ou à heterossexualidade, mas é antes uma prova da hipocrisia e duplicidade de um sistema elitista, fechado, masculino, de uma sociedade secreta que tolera, na verdade exige, a mentira a respeito da vida sexual de qualquer um a qualquer custo. Afirmando que o documento de 1962 do papa João XXIII continuou a vigorar até Maio de 2001, os autores do livro Sex, Priests and Secret Codes, Thomas P. Doyle, A.W.R. Sipe e Patrick J. Wall, apresentaram um relato que chamaram de evidências escritas dos abusos sexuais de 2 mil anos da Igreja Católica. Escreveram que a carta era significativa porque reflectia a insistência da Igreja em manter o mais alto grau de sigilo.

Quarenta e seis anos depois de o papa João XXIII ter assinado De Modo Provedendi di Causis Crimine Soliciciones e prometer sigilo da Igreja a respeito do abuso sexual de menores pelo clero, o papa Bento XVI pediu desculpas às vítimas de abuso por padres e falou publicamente sobre o assunto durante sua viagem pelos Estados Unidos e Austrália. Para o público da Jornada Mundial da Juventude em Sydney, Austrália, ele declarou: Esses malfeitos, que constituem grave quebra de confiança, merecem condenação inequívoca. Causaram grande sofrimento e prejudicaram o testemunho da Igreja. Peço a todos vocês que apoiem e ajudem seus bispos, e trabalhem junto com eles para combater esse mal. As vítimas devem receber cuidados e compaixão, e os responsáveis por essas maldades devem ser levados à Justiça. É uma prioridade urgente promover um ambiente mais seguro e sadio, especialmente para os jovens.

Assassinato nas Ordens Sagradas.

Os arquivos do Vaticano contêm provas de que o cargo de papa tem sido um dos mais arriscados da história. Ao longo dos séculos, muitos foram mortos ou assassinados. O primeiro foi o papa João VIII. Em 882, foi envenenado e depois espancado até à morte por conspiradores da corte papal. De acordo com o  livro de Matthew Brunson, The Pope Encyclopedia: An A to Z of the Holy See, a maioria das mortes de pontífices ocorreu na Idade Média, especialmente no período descrito pelo cardeal Cesare Baronius nos Annales Ecclesiastici como a Idade de Ferro do papado, de 867 a 964, quando famílias poderosas elegiam, depunham e assassinavam os papas por ambições políticas ou por vingança. Dos vinte e seis papas dessa época, dezasseis morreram violentamente. O mais estrondoso dos assassinatos foi o de João XII (955–964). Com apenas dezoito anos ao ser eleito pontífice, João era um notório mulherengo, e o palácio papal acabou por ser descrito como um bordel durante seu reinado. Ele morreu por causa dos ferimentos sofridos depois de ser descoberto na cama pelo marido de uma de suas amantes. Existem lendas que dizem que ele morreu por causa de um derrame sofrido durante o acto de amor.

Teorias e acusações de intrigas assassinas vieram à tona após a morte do papa Clemente XIV, em 1774. Ele estaria tão atormentado pela culpa por ter extinguido a ordem dos jesuítas, que passou o último ano de vida com medo de ser envenenado. Depois da sua morte, surgiram tantas histórias sobre um possível assassinato que foi realizada uma autópsia, mas não se descobriu nada que incriminasse os jesuítas. Aqui está uma lista de pontífices assassinados e a maneira como se acredita que tenham sido mortos, de acordo com The Pope Encyclopedia:

João VIII (872–882), supostamente envenenado e espancado até à morte;

Adriano III, são (884–885), teria sido envenenado;

Estevão VI (896–897), estrangulado;

Leão V (903), supostamente estrangulado;

João X (914–928), supostamente sufocado com um travesseiro;

Estevão VII (VIII) (928–931), provavelmente assassinado;

Estevão VII (IX) (939–942), mutilado, morreu por causa dos ferimentos;

João XII (955–964), morto na cama com uma amante pelo marido ultrajado ou devido a um derrame enquanto estava com a amante ou assassinado pelo marido enfurecido;

Bento VI (973–974), estrangulado por um sacerdote;

João XIV (983–984), morreu de fome , maus tratos ou foi envenenado;

Gregório V (996–999), teria sido envenenado;

Sérgio IV (1009–1012), provavelmente assassinado;

Clemente II (1046–1047), teria sido envenenado;

Damásio II (1048), teria sido assassinado;

Bonifácio VIII (1294–1303), morto após agressão enquanto prisioneiro na França.

A história mais bizarra é a do papa Estevão VII. Em 896, ele realizou o julgamento de seu rival, que estava morto havia nove meses. Segundo o escritor Mark Owen, num artigo sobre notórios pontífices, o corpo do papa Formoso foi trazido do túmulo e colocado num trono. Envolto com uma túnica de crina de cavalo, o cadáver recebeu um assessor jurídico, que permaneceu em silêncio enquanto o papa Estevão gritava e vociferava». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

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segunda-feira, 14 de março de 2022

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Aquele era o local onde ficava o pequeno grupo de remadores acorrentados, logo atrás da proa. Os quatro de um lado eram árabes…»

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A Chegada da Inquisição (maldita) 1490-1491

«(…) Usava um chapéu extravagante, de um tipo que eu nunca tinha visto, preto, com uma pena roxa e mais esmerado do que os usados por pantomimos e actores que fazem representações teatrais em praças nas épocas do Natal e da Páscoa. Fivelas reluziam em seus sapatos, enquanto uma agitação de rendados espumava nos punhos e pescoço. Uma argola de ouro pendia de uma orelha, e, no seu rosto bronzeado, ele deixara crescer um bigode e um minúsculo cavanhaque. Pelas roupas e modos, vi que era o capitão. Curvou-se sobre mim e alisou meu cabelo. Virei bruscamente a cabeça para o lado e enfiei os dentes na sua mão, consequentemente, ele me atingiu com a bengala de bambu que carregava. Recuei para o canto como um animal selvagem. O capitão da galé chupou o local da mordida, mas longe de ficar irritado com meu ataque, ele fez um gesto de aprovação com a cabeça. Gosto de um jovem com coragem, declarou. Isso significa que será útil numa batalha e capaz de evitar problemas para nossos próprios remadores. Está esquelético demais para pegar imediatamente num remo, mas se fortalecerá para isso se o alimentarmos.

Permaneci onde estava pelo resto do dia, agachado no canto. Naquela noite, ancoramos em águas rasas ao largo de uma ilha para que os remadores pudessem descansar e comer. O capitão me deu um pedaço da cabra que assava num braseiro montado no convés, dentro de uma fornalha de ferro usada para cozinhar alimentos. Comi avidamente. Haviam-se passado semanas, talvez meses, desde que eu comera carne pela última vez. O capitão deu uma risadinha enquanto me observava a devorar a comida. Calma, rapaz. Não parece ter tido uma refeição decente em toda a sua vida. Entupir-se assim tão rápido só vai-lhe causar dor de barriga. Ele tinha razão. Uma hora depois, eu estava curvado por causa das cólicas, depois que a comida, de um tipo que eu não estava acostumado, seguiu seu caminho pelas minhas entranhas. Para minha surpresa, alguns dos remadores vieram-me examinar.

Eu havia imaginado que eles estivessem acorrentados aos seus bancos, mas apenas um pequeno número, oito no total, era de escravos ou criminosos aprisionados daquela maneira. O resto, mais de vinte homens livres, tinha decidido fazer aquele trabalho. Descobri que homens de vários países se tornavam remadores de galés por opção. Esse era considerado um trabalho que requeria habilidade, embora árduo, mas o pagamento e os lucros podiam ser bem recompensadores: além do salário básico, o remador recebia uma percentagem do lucro obtido pela carga e de qualquer botim que surgisse no seu caminho. Nessa galé em particular, sob o comando do capitão Cosimo Gastone, a comida era nutritiva: carne, peixe ou ave, com bastante pão, queijos fortes e frutas e mel engolidos com vinho. Os remadores eram excepcionalmente bem alimentados, pois o capitão achava que deviam se manter no melhor da sua forma. Eu iria descobrir, do modo mais brutal, que nossas próprias vidas dependiam da aptidão dos remadores.

Saulo

No dia seguinte, o capitão me entregou ao mestre remador, que se chamava Panipat. Era um gigantesco homem-urso com braços grossos, peito e pernas musculosos, vestido apenas com calções curtos de couro, um chicote e uma faca comprida enfiados no cós. Cada centímetro de pele exposta estava coberto por tatuagens pretas e azuis, até, e incluindo, a superfície da sua cabeça rapada. Amarrada em volta do pulso havia uma corda da qual pendia a chave da corrente dos escravos. Está na hora de conhecer Panipat. O capitão Cosimo cutucou com a bengala as minhas costas, empurrando-me à sua frente ao longo da estreita passarela de madeira que percorria o centro do barco. Panipat estava sentado na vante conversando com um tripulante que cuidava do canhão posicionado ali. Aquele era o local onde ficava o pequeno grupo de remadores acorrentados, logo atrás da proa. Os quatro de um lado eram árabes, provavelmente capturados e comprados pelo capitão num mercado de escravos. Os quatro do outro lado eram homens de diferentes lugares que haviam sido sentenciados às galés por causa da gravidade dos seus crimes. Se fôssemos atacados e nosso canhão servisse de alvo para o fogo inimigo, eles seriam as primeiras baixas. Havia evidências de que o chicote fora usado nas suas costas e ombros. Estremeci quando os vi, cada um acorrentado ao seu banco, pois sabia que, no devido tempo, aquele seria meu destino. Interminável e para sempre. O capitão Cosimo anunciou nossa presença. Se isso lhe agrada, nobre mestre dos remadores, tenho um novo rato de galé para si». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Galera Record, 2014-2015, ISBN 978-850-110-256-0.

Cortesia de GRecord/JDACT

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Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Olhei para cima com os olhos semicerrados enquanto a corda descia. Se não consegue subir sozinho pela corda, segure na ponta que eu puxo, sugeriu ele, mas não de um modo indelicado»

 

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A Chegada da Inquisição (maldita) 1490-1491

«(…) Por duas vezes, enganou a morte, afirmou, enquanto abria a minha boca à força e despejava água pela minha garganta abaixo, pois o certo era ter morrido aqui por falta de água. Subiu novamente e voltou com um pedaço de pão e uma pele cheia de um azedo vinho tinto. Quebrando o pão em pedaços, molhava-o no vinho e observava enquanto eu tentava engolir. Grunhiu ao me ajudar a ficar de pé. Talvez você tenha nascido sob uma estrela especial.

Uma pequena galé mercante espanhola fora avistada no horizonte. O tenente não se importava se eu estava vivo ou não: mesmo se estivesse semimorto, ele teria me jogado por cima do costado, mas agora via uma possibilidade de me trocar por alguma bebida alcoólica. Um barril de vinho barato foi o quanto eu valia. E, mesmo assim, com relutância. Foi mais com um espírito de apaziguamento que o capitão da galé concordou com a troca, pois os soldados mantiveram as suas armas apontadas para o barco menor. Bem afundada na água, sem alojamentos cobertos para os ocupantes, a galé era dotada apenas parcialmente de convés, com um grosseiro pano de vela mastreado como toldo na popa, fechado de ambos os lados para protecção contra a fúria dos elementos. Havia um canhão de pequeno porte montado na frente, e, embora poucos tripulantes carregassem facas nos cintos, eles seriam facilmente dominados por um navio maior equipado com canhões e homens armados. A negociação foi feita em minutos, e o destino decretou que eu me tornasse um rato de galé. O soldado ruivo foi-me buscar para me fazer subir ao convés. A escotilha se abriu novamente, e o sol brilhou no meu rosto. Olhei para cima com os olhos semicerrados enquanto a corda descia. Se não consegue subir sozinho pela corda, segure na ponta que eu puxo, sugeriu ele, mas não de um modo indelicado. Cambaleei adiante para agarrar a ponta oscilante da corda. Algo cintilou na luz.

Presa entre as amarras de um fardo havia uma faca. Era comprida e de lâmina estreita: do tipo que uma mulher usaria para descascar legumes. Posteriormente, descobri que era do tipo usado por funcionários do governo para cortar os cordões durante o processo de afixar o selo da aduana em mercadorias tributáveis. A faca devia ter ficado presa enquanto a carga era inspeccionada antes de ser levada para o navio. Alcancei-a, e, num instante, estava na minha mão. Mas onde escondê-la? Curvando-me para bloquear a vista de quem estivesse vigiando de cima, cortei a parte interna do cós da calça e enfiei a faca lá dentro. Uma corda foi colocada do navio militar à galé para transferir o barril de vinho. Uma ponta de uma segunda corda foi amarrada na minha cintura e a outra ponta foi presa à primeira. Então fui jogado por cima do costado. Os tripulantes da galé me puxaram através do espaço vazio, mas eu estava fraco demais para subir pela corda até ao barco deles. O navio soltou sua ponta da corda, e eu teria sido colhido pela contracorrente, mas ouvi uma voz gritar da galé: Puxem ele! Puxem ele! Engasgando e tossindo, pousei na larga plataforma da popa da galé. O homem que dera a ordem se aproximou de mim. Ele era uma estranha visão, vestido com camisa, calções e perneiras pretas encimados por uma jaqueta justa azul-pavão com três-quartos de comprimento, bordada abundantemente com fios de prata». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Galera Record, 2014-2015, ISBN 978-850-110-256-0.

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domingo, 13 de março de 2022

Volker Reinhardt. Alexandre VI. «Em meados do século XV, eventos ocorridos fora da península foram cruciais para a Itália. O fim da Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, teve como consequência a rápida consolidação da monarquia francesa»

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 De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Por volta de 1453, o sobrinho do cardeal dedicou-se aos estudos de Direito em Bolonha. Os primeiros traços conhecidos de seu carácter devem ser contemplados com muita cautela. Os humanistas tinham a tendência de reescrever em elegante latim conhecidos lugares-comuns da Antiguidade Clássica. E isso se aplicava ainda mais quando se tinha de fazer uma lista com as qualidades de personalidades poderosas e de outras que poderiam vir a sê-lo. Acreditava-se poder distinguir nesses textos contornos de uma autêntica individualidade, mesmo com todas as violações: na ênfase da imponência física, no louvor à rápida faculdade de compreensão e agilidade mental, na capacidade de fazer manobras, assim como no talento de administrar e dominar. Todas essas qualidades deveriam ser amplamente demonstradas, pelo assim descrito, em 36 anos de cardinalato e onze de pontificado. Informações adicionais sobre esses primeiros anos são, no entanto, muito raras. Dentro da cúpula da Igreja, seu tio não desfrutava muito destaque. Essa falta de proeminência não conseguiu impedir a sua próxima escalada. No conclave, quando as partes em conflito não chegavam a um acordo, entravam em cena os candidatos de conciliação. A idade de Alonso Borja o qualificava, de mais a mais, a esse papel. Afinal, havia outros que também queriam uma parte desse quinhão. Além disso, os pontificados muito longevos provocavam, não raro, graves distúrbios. A distribuição de poder, as influências e as riquezas cristalizavam-se de forma unilateral em benefício dos sobrinhos do papa e seus clientes.

Enquanto outros protagonizavam manchetes diplomáticas e culturais, o cardeal de Valência, como era conhecido agora, esperava tranquilamente. No conclave de 1447, pouco sobressaiu. Nesse conclave, para surpresa de todos, o vencedor foi o humanista Tommaso Parentucelli, que adoptou o nome de Nicolau V. Durante os oito anos de seu pontificado, a Itália foi palco de profundas transformações políticas. Em 1450, Francesco Sforza, o único arrivista verdadeiro entre os governantes seculares da península, ascendeu ao trono ducal de Milão. Longas negociações com as principais famílias da aristocracia antecederam a disputa pelo trono, que, após a extinção dos Visconti, curiosamente favoreciam o mais fraco entre muitos candidatos. Seguindo essa linha, o domínio da nova dinastia permaneceu fora de perigo enquanto estiveram conscientes dos pactos assumidos com a sua elite, ou seja, enquanto respeitaram ou ampliaram seus privilégios e agiram com a máxima cautela em assuntos relacionados à política externa. Além do mais, Bórgia e Sforza eram velhos conhecidos. O novo duque já tinha dado provas de suas aptidões para exercer funções mais elevadas, quando foi líder de um exército mercenário durante a tortuosa luta pelo trono napolitano, da qual Afonso Aragão saiu vencedor. Em horizontes longínquos, foi traçado um cenário de três diferentes ângulos que revelava grande tensão: os Sforza e os Aragão, primeiramente rivais, depois aliados por muito tempo e, finalmente, inimigos mortais. Aliado a isso, os papas dos Bórgia tinham como objectivo tirar proveito dessa rivalidade para consolidar seu próprio domínio. No final das contas, Alexandre VI contribuirá de forma significativa para que uma dinastia permaneça por muito tempo no poder e para que a outra lá fique por mais de uma década.

Em meados do século XV, eventos ocorridos fora da península foram cruciais para a Itália. O fim da Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, teve como consequência a rápida consolidação da monarquia francesa. Sob a forma de influência de carácter diplomático, essa revitalização da monarquia tornou-se cada vez mais perceptível entre os Alpes e o Monte Etna já a partir de 1460. Com excepção de uma tentativa fracassada de fazer que a Casa de Anjou voltasse a se sentar no trono napolitano, as intervenções militares directas ficaram, naquele momento, de fora. Em contrapartida, o rei Luís XI encontrava-se bastante ocupado em outras frentes, especialmente na luta contra o duque da Borgonha, Carlos, o Temerário». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o Papa Sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

 Cortesia de EEuropa/JDACT

 JDACT, Vaticano, Religião, Volker Reinhardt,

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Assim sendo, dois sobrinhos de Alonso ocupavam o topo dessa hierarquia. Ambos eram fruto do casamento de sua irmã Isabel com dom Jofre Borja…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) É chegado, assim, o momento do penúltimo salto na trajectória do prelado político. Como homem de seu rei, recebeu o chapéu eclesiástico vermelho em 1444. Afonso não teve sequer de insistir excessivamente com o papa. O rigoroso jurista espanhol era muito benquisto às margens do Tibre. Idoso, sem raízes dentro do aparato curial e não muito rico, ele não representava uma ameaça para ninguém. No entanto, aquele que reinava sobre Nápoles e Sicília contava agora com um activo defensor de seus interesses dentro do Senado da Igreja. De sua residência, nos arredores de sua igreja titular Santi Quattro Coronati, próximo a Latrão, Alonso Borja nunca perdeu de vista as obrigações de cliente perante seu patrão, continuando a trabalhar incansavelmente para seu senhor, fosse na concessão de benefícios, fosse em questões eclesiásticas. Essa lealdade cega era apenas um lado da moeda. Como um dos vinte cardeais, o homem de Xátiva pertencia agora à elite de liderança exclusiva da Igreja. E essa cor púrpura brilhou muito além das dependências da cúria. As cabeças coroadas do mundo dirigiam-se a um cardeal como meu primo. Isso porque ele era um príncipe da Igreja, usufruía de poder, mas não de soberania. Se dependesse dos próprios cardeais, isso era algo que estaria prestes a mudar. Como grupo, eles estavam tentando garantir a autonomia nas tomadas de decisão da Igreja, pressionando o papa a ser o órgão executivo de sua vontade. Mas o papa, por sua própria natureza, não estava de acordo e reagiu contrariamente. Aproximadamente na metade do século XV, essa questão relacionada ao poder dentro da cúria ainda não estava definitivamente esclarecida.

Para o novo cardeal, no entanto, era o momento de expressar seu agradecimento. Seguida de Deus e do rei, a próxima na fila era a sua família. E, com ela, o círculo de apoio formado por amigos, ou seja, seus valiosos aliados. Pairavam sobre aquele que atribuía o sucesso apenas a si mesmo fortes suspeitas do grave pecado do orgulho e da soberbia, que já fora responsável pela queda de Lúcifer do céu para o inferno. A virtude da piedade, a submissão reverente aos costumes dos antepassados e o perfeito elo com sua devoção ajudavam contra os impulsos de seu dilatado ego. Concretamente, obrigava-se que parentes e amigos, e justamente nessa ordem, recebessem as bênçãos da ascensão. Assim sendo, dois sobrinhos de Alonso ocupavam o topo dessa hierarquia. Ambos eram fruto do casamento de sua irmã Isabel com dom Jofre Borja, um descendente do ramo principal da família: Rodrigo, o futuro Alexandre VI, bem como seu irmão Pedro Luís. Rodrigo foi designado, ainda muito jovem, a seguir a carreira eclesiástica. Esse era o plano de carreira típico daquela época. Com um membro da família sentado na cadeira episcopal de Valência, seria uma falha injustificável abrir mão desse privilégio. As posições de liderança dentro da Igreja eram herdadas geralmente de acordo com o celibato, não de pai para filho, mas de tio para sobrinho. Regulamentada por regras minuciosamente elaboradas, a prática da concessão de benefícios oferecia grandes oportunidades para isso. Embora o papado tenha sofrido muitas perdas durante o cisma, muitos dos prestimónios mais lucrativos continuaram a ser concedidos em Roma, ainda que, muitas vezes, em conjunto com os governantes seculares. A vocação ou aptidão pessoal não desempenhavam um papel importante para se ingressar no sacerdócio. Somente com as reformas do Concílio de Trento (1545-1563), essa disposição individual passou a ser normativa.

Para a profissão do jovem Rodrigo Borja, a ascensão de Alonso foi fundamental. Carreiras como a do grande jurista formavam o elemento móvel de uma sociedade que vinha se consolidando de forma considerável, particularmente na Itália. Cada prelado que conseguisse chegar à cúpula da Igreja levava prontamente consigo a sua família, munido do afã indomável de lá se estabelecer por tempo indeterminado. Esse mecanismo frustrava não apenas os romanos natos, mas também escasseava os recursos para os futuros jovens promissores. E, com isso, anunciavam-se graves conflitos na distribuição de recursos. Como muitos fizeram antes e depois dele, o cardeal de Xátiva também tomou medidas de precaução para garantir a futura posição dos seus. Ele deve ter levado Rodrigo para Roma por volta de 1449. Naquela época, seu protegido, que curiosamente após a morte do pai tinha-se mudado com a mãe para o desocupado palácio episcopal de Valência, já estava bem arranjado, com cargos dentro da Igreja e bons vencimentos. Um cônego em Xátiva, por exemplo, gozava de rendimentos consideráveis. Era mérito de seu ilustre filho cardeal Alonso que houvesse cónegos na pequena cidade. Alonso tinha promovido a paróquia local para colegiado, isso também é piedade. Para além de uma longa missão diplomática a serviço do papado, Rodrigo Borja, cujo nome está mudando gradualmente para a forma italiana Borgia, não deverá mais abandonar a Itália. No círculo mais íntimo da família e do poder, contudo, mesmo como papa continuará até o fim falando e escrevendo em catalão». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o Papa Sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Vaticano, Religião, Volker Reinhardt, 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Steve Berry. O Enigma de Jefferson. «Os três homens hesitaram por um instante, aguardando o sinal. Ele fez um gesto com a cabeça. A couraça foi lançada ao mar, e este devorou a oferenda»

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«(…) Diga-me uma coisa, perguntou Hale. Qualquer coisa, Quentin. Mas, por favor, me tire desta jaula. Os livros contábeis. Você falou sobre eles? O homem sacudiu a cabeça. Sequer uma palavra. Nada. Eles apreenderam os registos sobre o UBS e nem mencionaram os livros contábeis. Eles estão em segurança? Onde os guardamos não tem risco. Eu e você somos os únicos que sabemos onde eles estão. Hale acreditou nele. Até então, sequer uma palavra havia sido pronunciada sobre os livros, o que ajudava a relaxar um pouco a ansiedade. Mas não completamente. As tormentas que estavam prestes a enfrentar seriam bem piores do que o temporal que ele identificou se formando a leste. Todo o peso dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, junto à Receita Federal e ao Departamento de Justiça, estava a ponto de se abater sobre ele. Semelhantemente às tempestades que seus ancestrais tinham enfrentado, quando reis, rainhas e presidentes despachavam frotas inteiras à caça das chalupas e enforcavam seus capitães. Ele se virou para o homem deplorável dentro da armação de ferro e se aproximou dele. Por favor, Quentin. Estou implorando. Não faça isso. A voz saía entrecortada por soluços. Eu nunca perguntei nada sobre os negócios. Isso jamais me importou. Eu só cuidava dos livros contábeis. Como meu pai. E o pai dele. Nunca toquei num centavo que não fosse meu. Nenhum de nós, jamais. De facto, sua família nunca fizera isso. Mas o Artigo 6 era claro. Se qualquer um desonrar a companhia como um todo, deverá ser fuzilado. A Comunidade jamais enfrentara algo tão ameaçador. Se ao menos pudesse encontrar a chave para decifrar o código secreto, isso acabaria com tudo de uma vez e tornaria desnecessário aquilo que estava a ponto de fazer. Infelizmente, algumas vezes o dever do capitão envolvia determinar acções desagradáveis. Ele fez um gesto e três homens começaram a levantar o gibanete, deslocando-o na direcção da amurada. O homem imobilizado berrava. Por favor, não faça isso. Eu pensei que o conhecia. Pensei que éramos amigos. Porque está agindo como um maldito pirata?

Os três homens hesitaram por um instante, aguardando o sinal. Ele fez um gesto com a cabeça. A couraça foi lançada ao mar, e este devorou a oferenda. A tripulação voltou aos seus postos. Ele ficou sozinho no convés, o rosto sendo lavado pela brisa, e reflectiu sobre o insulto final daquele homem. Agindo como um maldito pirata. Monstros marinhos, cães do inferno, ladrões, opositores, corsários, bucaneiros, violadores de todas as leis humanas e divinas, encarnações do diabo, filhos do capeta. Todos rótulos dos piratas. Seria ele um desses também? Se é isso o que pensam de mim, sussurrou ele, então, porque não?

Jonathan Wyatt observava o desenrolar do evento. Estava sentado sozinho ao lado da janela do restaurante do Grand Hyatt, uma sala num átrio envidraçado que oferecia uma vista livre da rua 42, dois andares abaixo. Ele percebera o momento em que o trânsito fora interrompido, as calçadas evacuadas e o comboio presidencial estacionara ao lado do Cipriani. Ouvira um estrondo vindo de cima, e os pedaços de vidro se espatifando sobre o pavimento. Quando os disparos começaram, teve a certeza de que o dispositivo começara a funcionar. Havia escolhido cuidadosamente aquela mesa e notara que dois homens ali perto tinham feito o mesmo. Agentes do Serviço Secreto, que ocuparam a outra extremidade do restaurante, tomando uma posição próxima à janela e dispondo igualmente de uma vista incomparável do local. Ambos os homens carregavam rádios consigo, e os funcionários tinham intencionalmente impedido a presença de outros clientes ali. Ele conhecia os procedimentos operacionais». In Steve Berry, O Enigma de Jefferson, 2011, Editora Record, 2012, ISBN 978-850-140-205-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

JDACT, Século XIX, USA, Literatura, Steve Berry,

Steve Berry. O Enigma de Jefferson. «O banco cedeu. O United Bank of Switzerland havia de facto cedido à pressão americana e, finalmente, pela primeira vez, permitiu que mais de 50 mil contas fossem investigadas…»

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«(…) Quentin Hale podia pensar em poucas coisas melhores do que ver seu barco cortando as cristas espumantes e brancas sob o intenso deslizar da vela. Se a água do mar podia realmente fazer parte do sangue de alguém, aquele certamente era o seu caso. As chalupas haviam sido os burros de carga oceânicos nos séculos XVII e XVIII. Pequenas, com mastro único, a envergadura das velas as tornava rápidas e fáceis de manobrar. As linhas rasas e dinâmicas só aumentavam a sua conveniência. A maioria tinha capacidade para cerca de 75 homens e 14 canhões. Sua versão moderna era bem maior, 85 metros, e, substituindo a madeira, materiais de última geração a tornavam mais leve e ágil. Não havia canhões sobrecarregando essa maravilha. Ela era um prazer para os olhos, um regalo para a alma, uma embarcação para águas profundas, construída para o conforto e repleta de opções de entretenimento. Doze convidados podiam desfrutar das suas luxuosas cabines, e sua tripulação somava 16 homens, alguns deles descendentes daqueles que haviam servido à família Hale desde a Revolução Americana. Porque está fazendo isso?, gritou a sua vítima. Por quê, Quentin? Hale olhou para o homem estendido no convés, algemado com pesadas correntes e vestido com um gibanete, uma espécie de armadura vazada construída com barras planas de ferro com 9 centímetros de espessura. A parte arredondada encerrava o peito e a cabeça, e os membros eram fechados por armações separadas. Séculos atrás, essas couraças eram feitas para se ajustar à vítima, porém esta era mais improvisada. Nenhum músculo podia se mover, excepto a cabeça e a mandíbula do homem, e ele fora propositalmente deixado sem mordaça.

Você está louco?, gritou o homem. Isso é um assassinato. Hale se ofendeu com tal acusação. Matar um traidor não é um assassinato. O homem acorrentado era responsável pelas contabilidades da família Hale como foram seu pai e seu avô, antes dele. Era um contador que vivia no litoral da Virginia, numa propriedade sofisticada. A Hale Enterprises Ltd. se espalhava por todo o globo e empregava cerca de trezentas pessoas. Havia muitos contadores na folha de pagamento, mas aquele homem trabalhava fora dessa burocracia e respondia somente a Hale. Eu juro, Quentin, implorava o homem. Eu só forneci a eles as informações mais básicas. Sua vida depende de isso ser verdade ou não. Ele permitiu que suas palavras transmitissem alguma esperança. Era preciso fazer aquele homem falar. Era preciso ter a certeza. Eles chegaram com uma intimação. Já sabiam as respostas para as perguntas que fizeram. Disseram-me que, se eu não colaborasse, seria preso e perderia tudo o que tenho. O contador começou a chorar. Outra vez.

Eles eram a Receita Federal. Agentes da divisão de combate ao crime que surgiram certa manhã na Hale Enterprises. Eles se dirigiram também a oito bancos no país, exigindo informações financeiras sobre Hale e sua empresa. Todos os bancos americanos colaboraram. Sem surpresa. Poucas leis asseguravam o sigilo, razão pela qual essas contas eram acompanhadas por documentos meticulosos. Mas não era esse o caso para os bancos estrangeiros, especialmente o suíço, onde o sigilo financeiro é, há muito tempo, uma obsessão nacional. Eles sabiam sobre as contas no UBS, bradou o contador, por cima do som do mar e do vento. E foi sobre elas que falamos. Mais nenhuma. Eu juro, só sobre essas. Ele olhou pela amurada o mar agitado. Sua vítima estava no convés da popa, perto da jacuzzi e da piscina, fora do alcance visual de qualquer barco que passasse por perto. Mas eles estavam navegando desde a manhã cedo e, até então, não tinham avistado nenhuma embarcação. O que eu podia fazer?, queixou-se o contador. O banco cedeu. O United Bank of Switzerland havia de facto cedido à pressão americana e, finalmente, pela primeira vez, permitiu que mais de 50 mil contas fossem investigadas por um governo estrangeiro. É claro que ameaças de processo criminal aos executivos do banco nos EUA facilitaram essa decisão. E o que seu contador falava era verdade. Ele havia verificado. Somente os arquivos relacionados ao UBS tinham sido apreendidos. Nenhuma das contas noutros sete países havia sido tocada. Eu não tinha escolha. Pelo amor de Deus, Quentin. O que você queria que eu fizesse? Queria que fosse fiel aos Artigos. Desde a tripulação da chalupa até seus empregados domésticos, passando pelos caseiros de suas propriedades e até ele próprio, todos eram mantidos unidos pelos Artigos.

Fez um juramento e deu a sua palavra, prosseguiu ele, apoiado à amurada. Assinou por baixo. O que significava garantir a lealdade. Ocasionalmente, contudo, ocorriam violações, e era preciso lidar com elas. Como naquele momento. Ele olhou novamente para as águas azul-acinzentadas. O Adventure tinha encontrado uma brisa firme de sueste. Estavam a 50 milhas náuticas em mar aberto, rumo ao sul, voltando da Virginia. O sistema dyna-rig estava funcionando perfeitamente. Quinze velas quadradas compunham a versão moderna do veleiro de outrora, com a diferença de que, agora, as vergas não giravam em torno de um mastro fixo. Em vez disso, elas ficavam permanentemente presas, os mastros girando com o vento. Nenhum marujo precisava desafiar a altura para soltar o cordame. Graças à tecnologia, as velas eram guardadas dentro dos mastros e se desfraldavam com o accionamento de um motor eléctrico, levando menos de seis minutos para se abrirem completamente. Os computadores controlavam todos os ângulos, mantendo as velas infladas. Ele sentiu o cheiro do ar marinho e tentou pensar com clareza». In Steve Berry, O Enigma de Jefferson, 2011, Editora Record, 2012, ISBN 978-850-140-205-9.

Cortesia de ERecord/JDACT

JDACT, Século XIX, USA, Literatura, Steve Berry

terça-feira, 8 de março de 2022

Poesia. Brasil. Paulo Moska, Francisco Gonçalves e Maria Betânia. «Onde estará o meu amor? Se a voz da noite responder onde estou eu, onde está você estamos cá dentro de nós. Sós»

Cordesia de wikipedia e jdact

Onde estará?

Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Onde estará o meu amor?»

Estou Pensando

«Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu, pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer

Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você
Pensando em você»

Cortesia de wikipedia/JDACT

JDACT, Poesia, Encantamento, Brasil, 

Explicação dos Pássaros. António Lobo Antunes. «Já a comeste, velho? O quê?, pergunta o pai. Nada, estava a dizer que sigo agora mesmo para Tomar. Um congresso sobre o século XIX, sabe como é»

jdact

«(…) Sentado nos teus ombros quase tocava os ramos dos castanheiros com a cabeça, aureolado de luz à maneira dos santos dos milagres, enquanto uma eternidade de fotografia me imobilizava o sorriso que encontro, tantos anos depois, no espelho do quarto, a troçar-me numa careta azeda: como eu cresci, caraças, como o cabelo, por meu turno, me começa a faltar também: tento calcular de memória a idade do pai nessa época (serias mais novo do que eu hoje?) e a voz baralha-lhe as contas através dos furinhos de baquelite do telefone: Ouvi dizer que ias sair uns dias. Percebia-se o ruído das máquinas de escrever do escritório, gente debruçada para as mesas, o desodorizante da secretária transformando o espaço livre, salas, paredes, corredores, num enorme sovaco depilado e morno: Já a comeste, velho? O quê?, pergunta o pai. Nada, estava a dizer que sigo agora mesmo para Tomar. Um congresso sobre o século XIX, sabe como é. A minha irmã contou-me que tinhas outra casa com outros filhos, outro televisor, outros óleos, outra mesa de gamão, outro pote de Fixador Azevichex O Produto Favorito Do Homem De Sucesso, outro jornal. Escrever é uma coisa idiota, entendes, quando não se ganha o Nobel: tira o cursozinho. Houve uma pausa e a voz do senhor careca respondeu a hesitar: Realmente nestes telefones não se percebe nada. Não tem importância, sigo agora mesmo para Tomar. Hum, rosnou o pai, desconfiado. E ele adivinhava-lhe os olhos escuros, atrás dos óculos, a calcularem sem acreditar: Tinha de mentir-te, tinha sempre de mentir-te, não suportavas que eu fosse diferente de ti, que arranhasse versos, que preferisse ser professor num péssimo liceu dos subúrbios, a uma miséria por mês, a trabalhar na companhia, composto, de gravata, como os outros da tribo. Às vezes consolava-me pensar que o homem novo e alegre, que passeava comigo na quinta, me teria entendido: íamos os dois até ao muro coberto de cacos de garrafa, e permanecíamos fascinados a olhar o saguim do vizinho, preso à casota por uma corrente de cão, a figueira suspensa sobre o poço, a tranquilidade lilás dos fins de tarde, muito para lá das estátuas de loiça do jardim e das cadeiras de lona desbotadas da família, ao acaso na relva. Os pavões da mata gritavam angustiadamente ao longe:

Têm medo da noite, explicava o pai, têm medo de poder sonhar. Pensa O tipo que me levava às cavalitas pode bem acontecer que percebesse, percebia com certeza: quem conhece os pavões compreende um mau poeta à légua. Pensa Chiça, o que eu gostava de dizer e não consigo. Pensa A ausência de coragem é uma grande por… Quando é que voltas?, questiona o pai como se remexesse um pauzinho cruel numa ferida infectada. No domingo, acho eu, declara ele. E emenda, irritado consigo mesmo (Como vês tenho medo de ti, não sirvo para dirigir nenhuma empresa), numa afirmação categórica: No domingo sem falta. Domingo era a chatice da desocupação, o quarto dos brinquedos revolvido, o corpo a arrastar-se, maçado, pelos cantos. A mãe jogava as cartas com as amigas, na sala, numa cintilação de pulseiras e de brincos, as bocas pintadas conversavam, como periquitos, de filhos, de criadas, dos empregos dos maridos. Mãe. E agora estava ali a morrer no Outono de Campolide, num quarto de clínica, diante do tabuleiro de espinhas do almoço, que a prima colocou ao pé da jarra das flores antes de se afundar de novo, distraída, no tricot.

Pelo sim pelo não deixa o número de telefone aí, ordena o pai. Já sabes como estas coisas são: pode ser que de um momento para o outro haja necessidade de falar contigo». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,

segunda-feira, 7 de março de 2022

António Lobo Antunes. Explicação dos Pássaros. «Um telefone principiou a chorar como uma criança numa mesinha baixa junto dele. Sim, respondeu a prima que se apoderou velozmente do auscultador como um elefante do seu molho de cenouras»

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«(…) Cuidado, Fernanda, não se arrisque. Solicitamos à estimada assistência o máximo silêncio durante a perigosa refeição. A criatura jovial principiou a subir à manivela a cabeceira da cama, como os tipos de farda azul que esticam a mesa alemã para os exercícios de saltos. O laço, teso de goma, do avental, vibrava-lhe no rabo à laia de uma asa de borboleta aprisionada. Quem vai papar o almocinho todo, quem é?, perguntou ela no tom irritantemente divertido de uma mestra de meninos. Sopinha, pescadinha, perinha, uma delícia, a capsulazinha antes e o comprimido depois, já está. Ariops, berrou triunfalmente o pai num molinete do braço. As tuas irmãs também têm telefonado, disse a mãe a retirar cuidadosamente as espinhas em forma de aspa, muito brancas, da pescada. Esta noite, com toda a gente que garantiu que aparecia, o quarto vai ser uma sociedade recreativa em terça-feira gorda: vou-me divertir imenso. Uma orquestra de parentes idosos, de casaco de palhetas prateadas, tocava um bolero lento ao pé do lavatório, com a expressão impassível ou vagamente aborrecida dos músicos de bar. À luz velada do candeeiro de folhos da mesa de cabeceira, enodoado de manchas, as enfermeiras, os médicos, os tios graves conversavam baixinho, mastigavam croquetes espetados em palitos, aproximavam e afastavam, ao acaso, os rostos pálidos e lunares. O doutor indiano dançava com a prima do tricot num recato digno de termas, quando arredam as mesas da sala de jantar para lúgubres serões de violoncelos tristes.

Quietos, repetiu o pai, estou a ler o jornal. A mãe sorriu inesperadamente: a infância escorregou-lhe, lenta, ao longo da boca, como a água num desnível de tábuas: Não te preocupes, disse ela, tratam tão bem de mim aqui. Ele saía de casa com a mala cheia de rótulos de hotéis estrangeiros e tu ficavas sozinha, minúscula a um canto da cama enorme, a ler grossos livros ingleses incompreensíveis, romances, histórias de guerra, um homem e uma mulher a beijarem-se sem vergonha na capa. Voltava três, quatro dias depois, queimado do sol, com um resto de luz estranha nas pupilas alheadas. Eu ia vê-lo fazer a barba de manhã, em calças de pijama e tronco nu, fascinado pelo brilho da navalha. Usava Fixador Azevichex O Produto Favorito do Homem De Sucesso, e gargarejava impetuosamente, de nariz no ar, contra a cárie, a piorreia e o mau hálito: Quando eu for grande mando calar toda a gente para ler o jornal. Os cães das Amoreiras, diante da clínica, farejavam no nevoeiro as penas da galinha, um resto de sangue, o montículo gelatinoso e repelente das tripas. A mãe marcava o livro com um bilhete de eléctrico, apagava a luz, e eu tinha a certeza de que os olhos dela permaneciam abertos no escuro, resplandecentes e fixos como os dos mortos nos retratos. Um telefone principiou a chorar como uma criança numa mesinha baixa junto dele. Sim, respondeu a prima que se apoderou velozmente do auscultador como um elefante do seu molho de cenouras.

Sim. Sim. Não, passou bem a noite, o médico visita-a logo à tarde. Se houver alguma alteração eu aviso-te. O pai, a vaga culpabilidade do pai, a preocupação distraída do pai, a amante de que conhecia apenas a voz rouca e densa, como se uma lamparina de álcool lhe aquecesse permanentemente a garganta. Uma vez por mês almoçavam juntos num restaurante ao pé do escritório dele, sem falar, comendo silenciosamente num incómodo que se apalpava, que crescia. A calva inclinada para o prato luzia como um bule. As bochechas aumentavam e diminuíam, elásticas, enquanto mastigava, e vinham-me à ideia dias longínquos de infância, na quinta (a sombra móvel das árvores no chão, o odor seco das folhas e da terra), e um homem novo, magro, alegre, cujas gargalhadas se espalhavam no sossego da tarde, trotando, comigo às cavalitas, a caminho de casa. Pensa: Vamos voltar o filme para trás, recomeçar. A prima tapa o bocal com a mão: Queres dizer alguma coisa ao teu marido? O talher de peixe estremece sem responder, agarro no aparelho: Pai.

As sílabas chegam do outro lado, dentro do seu ouvido, nítidas e precisas como as paisagens gravadas a estilete numa placa de bronze:  Como está ela? O homem novo, magro e alegre, deu lugar a um senhor de idade que engordava, apertando constantemente os cabelos ralos contra as têmporas: Melhor, pai, melhor. Não se preocupe». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,

Donna Woolfolk Cross. A Papisa Joana. «Talvez não gostasses daquilo que podias aprender ali. Há um ditado do nosso povo que diz: O coração de um homem sábio raramente é feliz. Joana abanou a cabeça, apesar de não compreender muito bem»

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«(…) Joana não percebeu o que tinha feito de mal, mas apercebeu-se de uma dureza estranha na voz da mãe. Sentiu que ela a mandaria regressar à sua cama se não procurasse reparar o dano. Disse, rapidamente: Falai-me outra vez dos Antepassados. Não posso. O teu pai não acha bem que eu te conte essas histórias. Estas palavras eram um misto de afirmação e interrogação. Joana sabia o que fazer. Colocando ambas as mãos sobre o coração, recitou o juramento exactamente como a sua mãe lho tinha ensinado, prometendo segredo eterno, em nome de Thor, o deus do Trovão. Gudrun riu-se e voltou a abraçar Joana. Muito bem, passarinho. Vou contar-te a história, uma vez que tens tanto jeito para a pedir. A voz dela voltou a ser carinhosa, sussurrante e melodiosa quando começou a falar de Woden, Thor e Freya e de todos os outros deuses que tinham povoado a sua infância saxónica, antes de os exércitos de Carlos Magno terem trazido a Palavra de Cristo com um banho de sangue e de fogo. Falou cadenciadamente sobre Asgard, o reino radioso dos deuses, um país com palácios em ouro e prata, que só podiam ser alcançados atravessando Bifrost, a misteriosa ponte sobre o arco-íris. A guardar a ponte estava Heimdall, o Guardião, que nunca dormia e cujo ouvido era tão apurado que ouvia a erva a crescer. Em Valhalla, o palácio mais belo de todos, vivia Woden, o pai dos deuses, sobre cujos ombros poisavam dois corvos: Hugin, o Pensamento, e Munin, a Memória. Sentado no seu trono, enquanto os outros deuses festejavam, Woden meditava sobre as verdades que o Pensamento e a Memória lhe segredavam ao ouvido.

Joana acenava com a cabeça, contente. Esta era a parte da história que ela mais gostava. Falai-me do Poço da Sabedoria, pediu ela. Apesar de já ser muito sábio, explicou a mãe, Woden buscava sempre alcançar mais sabedoria. Um dia, foi ao Poço da Sabedoria, guardado por Mimir, o Sábio, e pediu-lhe autorização para beber dele. Que preço estás disposto a pagar?, perguntou Mimir. Woden respondeu que Mimir podia pedir o que quisesse. A sabedoria só se adquire com dor, respondeu Mimir. Se queres beber desta água, tens de sacrificar um dos teus olhos. Com os olhos a brilhar de excitação, Joana exclamou: E Woden pagou, mamã, não pagou? Pagou! A mãe acenou com a cabeça. Apesar de ter sido uma escolha difícil, Woden consentiu em perder um olho. Bebeu a água. Depois, transmitiu à humanidade a sabedoria que tinha adquirido. Joana levantou os olhos para a mãe, com um ar grave. Teríeis feito isso, mamã, para ser sábia, para saber tudo? Só os deuses é que fazem estas coisas, respondeu ela. Depois, vendo que a filha continuava a olhar para ela insistentemente, Gudrun confessou: Não. Teria tido demasiado medo. Eu também, disse Joana, pensativa. Mas, teria querido ser capaz de o fazer. Teria querido saber tudo quanto o poço pudesse dizer-me. Gudrun sorriu para o rostinho decidido.

Talvez não gostasses daquilo que podias aprender ali. Há um ditado do nosso povo que diz: O coração de um homem sábio raramente é feliz. Joana abanou a cabeça, apesar de não compreender muito bem. Agora, falai-me da Árvore, disse ela, aconchegando-se mais à mãe. Gudrun começou a descrever Irminsul, a maravilhosa árvore do universo. Encontrava-se no bosque saxónico mais sagrado, na nascente do rio Lippe. O seu povo tinha-a adorado até ela ter sido abatida pelos exércitos de Carlos Magno. Era muito bela, disse a mãe. E tão alta que não se conseguia ver o cimo. Era... Interrompeu-se. Tendo-se apercebido subitamente de outra presença, Joana levantou os olhos. O seu pai estava parado à entrada. A mãe sentou-se na cama. Marido, disse ela. Não esperava o vosso regresso senão amanhã. O cónego não respondeu. Pegou numa vela de cera que se encontrava na mesa junto à porta e aproximou-se da lareira para a acender.

Gudrun disse, nervosa: A criança estava com medo da trovoada. Pensei que podia confortá-la contando-lhe uma história inocente. Inocente! A voz do cónego tremia com o esforço para controlar a ira. Chamas a uma blasfémia dessas uma história inocente? Percorreu a distância que o separava da cama em duas passadas, pousou a vela e puxou o cobertor, destapando-as. Joana estava deitada abraçada à mãe, meio escondida sob uma cortina de cabelo dourado. Por momentos, o cónego ficou parado, estupefacto, olhando para o cabelo solto de Gudrun. Depois, a fúria apoderou-se dele. Como te atreveste! Quando eu o proibi expressamente! Agarrando Gudrun, começou a arrastá-la para fora da cama. Bruxa pagã! Joana agarrou-se à mãe. O rosto do cónego ensombrou-se. Desaparece, filha!, bramiu ele. Joana hesitou, dividida entre o temor e o desejo de proteger a sua mãe, de algum modo. Gudrun empurrou-a suavemente. Sim, larga-me. Vai depressa». In Donna Woolfolk Cross, A Papisa Joana, 2000, Editorial Presença, 2010, ISBN 978-972-232-641-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

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