domingo, 22 de outubro de 2023

Em Busca de Espinosa. António Damásio. «Como era o caso com a consciência, os sentimentos existiam fora das portas da ciência, aí mantidos cuidadosamente não só por uma certa filosofia empenhada em negar qualquer explicação…»

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Prazer e dor na Ciência dos Conhecimentos

Dar a Palavra aos Sentimentos

«Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente. É fácil não dar conta dessa simples realidade porque as imagens dos objectos e dos acontecimentos que nos rodeiam, bem como as imagens das palavras e frases que os descrevem, ocupam toda a nossa modesta atenção, ou quase toda. Mas é assim. Os sentimentos de prazer ou de dor ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer, os sentimentos de toda e qualquer emoção, ou dos diversos estados que se relacionam com uma emoção qualquer, são a mais universal das melodias, uma canção que só descansa quando chega o sono, e que se torna um verdadeiro hino quando a alegria nos ocupa, ou se desfaz em lúgubre réquiem quando a tristeza nos invade. Dada a ubiquidade dos sentimentos, seria fácil pensar que a sua ciência estaria já há muito elucidada. Mas não está. Dentre todos os fenômenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais a dor e o prazer são de longe os menos compreendidos no que diz respeito à sua biologia e em particular à neurobiologia. Isso é especialmente surpreendente quando pensamos que as sociedades avançadas cultivam os sentimentos da forma mais despudorada e manipulam os sentimentos com álcool ou drogas ilícitas, medicamentos, boa e má alimentação, sexo real e virtual, toda espécie de consumos e práticas sociais e religiosas cuja única finalidade é o bem-estar. Tratamos dos nossos sentimentos com comprimidos, bebidas, exercícios físicos e espirituais, mas nem o público nem a ciência fazem uma ideia clara do que são os sentimentos do ponto de vista biológico.

Não posso me declarar inteiramente surpreso com esse estado de coisas dadas as estranhas ideias com que cresci no que diz respeito aos sentimentos. Por exemplo, costumava pensar que os sentimentos não podiam se definir de forma específica, ao contrário dos objectos que se veem, que se ouvem ou em que se pode tocar. Ao contrário dessas entidades concretas, os sentimentos eram intangíveis. Quando comecei a pensar na forma como o cérebro criava a mente, aceitei sem protesto a ideia de que os sentimentos não cabiam em nenhum programa científico. Podíamos estudar a forma como o cérebro nos movimenta. Podíamos estudar processos sensitivos, tais como a visão, e compreender como se organiza o pensamento. Podíamos até estudar as reações emocionais com as quais respondemos a diversos objetos e situações. Mas os sentimentos que, como veremos no próximo capítulo, podem ser distinguidos das emoções continuavam fora do nosso alcance, para sempre misteriosos e inacessíveis. Não era possível explicar como aconteciam os sentimentos e, menos ainda, o local onde aconteciam.

Como era o caso com a consciência, os sentimentos existiam fora das portas da ciência, aí mantidos cuidadosamente não só por uma certa filosofia empenhada em negar qualquer explicação neurocientífica para os fenómenos mentais, mas também por neurocientistas diplomados que lhes negavam a entrada. A prova de que tomei a sério essas diversas limitações é o facto de que durante muitos anos evitei qualquer projecto que dissesse respeito aos sentimentos. Levei muito tempo para descobrir que os obstáculos postos à ciência dos sentimentos não tinham cabimento e que a neurologia dos sentimentos não era menos viável do que a da visão ou a da memória. Mas a realidade de certos doentes neurológicos forçou-me, ao fim e ao cabo, a rever a minha posição». In António Damásio, Em Busca de Espinosa, Prazer e dor na Ciência dos Conhecimentos, Companhia das Letras, 2004, ISBN 978-853-590-490-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, António Damásio, Ciência, Espinosa, Filosofia, Conhecimento, 

sábado, 21 de outubro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «Vale lembrar que a aplicação da tortura não era, de modo algum, uniforme em todos os tribunais inquisitórios e variava entre as cidades, e mesmo entre os países onde actuavam»

Cortesia de wikipedia e jdact

Outra visão da Inquisição

«Exemplo de ódio radical contra a Igreja e da manipulação a que me referi é um quadro no Museu Nacional de Budapeste, apresentando uma sala de torturas, intitulado no catálogo Inquisição. Só depois de muitos protestos de historiadores, mostrando que o quadro apresentava cena de tortura em um tribunal civil, é que o título foi mudado para Sala de torturas. Lembremo-nos de que foram as descrições caricaturais de Diderot, Voltaire e até de Dostoiévski que formaram na mente do homem de hoje a visão da Inquisição (maldita) como um espectro. Os historiadores poloneses também não ficaram atrás dos historiadores progressistas. Deparando diariamente com essa visão distorcida da Inquisição (maldita), o homem comum é inclinado a aceitá-la como verdadeira.

Talvez a opinião do pesquisador seja a verdade. Afinal, há um grande número de pesquisadores que insistem em afirmar que os inquisidores eram homens esclarecidos e que tratavam os hereges como portadores de doenças mentais. O suspeito de heresia, segundo os registos históricos, era tratado assim: o suspeito não recebia os sacramentos necessários e estabelecidos pelo catolicismo. Caso ele não se arrependesse de sua conduta, seria chamada a autoridade não religiosa, principalmente em casos de agressão verbal ou física.

Se nem mesmo assim a pessoa se mostrasse arrependida, era considerada como anátema, ou seja, reconhecida como passível de excomunhão. Alguns autores vão mais longe e afirmam que o uso da tortura em processos inquisidores era um facto bastante restrito, embora não se saiba mais detalhes do quanto poderia ser restrito. Ainda de acordo com essas pesquisas, a tortura era autorizada em casos em que não houvesse provas confiáveis, testemunhas fidedignas ou quando o acusado já tivesse antecedentes como má fama, maus costumes ou tentativas de fuga. Assim, o Concilio de Viena indicou que os inquisidores recorressem à tortura apenas em caso de aprovação pelo bispo diocesano e por uma comissão julgadora que deveria analisar cada caso.

Há também quem afirme que a tortura da Inquisição (maldita) era mais branda que a aplicada pelos poderes civis e que violência como amputação de membros não era permitida sob nenhuma circunstância. Vale lembrar que a aplicação da tortura não era, de modo algum, uniforme em todos os tribunais inquisitórios e variava entre as cidades, e mesmo entre os países onde actuavam.

Alguns acessórios mais comumente usados pelos inquisidores para obter a confissão dos acusados

Cadeira inquisitória: Com até 1.600 pontas afiadas de ferro ou madeira, sobre as quais as vítimas, completamente nuas, se sentavam para serem interrogadas. Por vezes, a fim de aumentar o sofrimento, o assento de ferro era aquecido. Esmagador de joelhos, polegares e mãos: Cada um desses três instrumentos tinha funções específicas, conforme os nomes indicam. Eram, no geral, prensas que esmagavam as ditas partes do corpo.

Esmaga seios: O instrumento preferido no século XV para torturar as mulheres acusadas de bruxaria. O seio era envolto por um ferro rectangular aquecido ao máximo. Eram esmagados com movimentos bruscos e circulares.

Despertador: Uma espécie de cavalete de madeira ou de ferro, com um vértice pontiagudo. Os acusados eram puxados por cordas ligadas a roldanas e suspensos até certa altura. Depois eram rapidamente lançados sobre o despertador de forma que o ânus e as partes sexuais tocassem a ponta da pirâmide. Dependendo da maneira como o instrumento estivesse afiado, as partes íntimas arrebentavam, entre elas, os testículos, a vagina e o cóccix.

Roda de despedaçamento: O acusado era colocado de costas sobre uma roda de ferro, sob a qual havia brasas. Então a roda era girada lentamente, o que causava uma morte lenta depois de longas horas de dor e gerava queimaduras de alto grau. Há uma segunda versão onde a roda é usada para dilacerar o corpo dos condenados. Em vez de brasas, eram usados instrumentos pontiagudos.

Mesa de evisceração: Considerado um dos mais cruéis instrumentos. Era usado para extrair de maneira lenta e mecânica as vísceras dos condenados. Depois de abrir a região abdominal, as vísceras eram puxadas uma a uma por ganchos pequenos que eram presos a uma roldana que, por sua vez, era girada pelo carrasco». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

 Cortesia de EGutenberg/JDACT

JDACT, Sérgio Pereira Couto, Vaticano, Religião, Conhecimento,

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica. E importante registar que escritores protestantes, pouco simpáticos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Inquisição medieval

«Vejamos o que diz: Onde quer que os ocorra pregar, estais facultados, se os pecadores persistem em defender a heresia apesar das advertências, a privá-los para sempre de seus benefícios espirituais e proceder contra eles e todos os outros, sem apelação, solicitando em caso necessário a ajuda das autoridades seculares e vencendo sua oposição, se isto for necessário, por meio de censuras eclesiásticas inapeláveis.

Vale lembrar que os dominicanos eram chamados originalmente de Ordem dos Pregadores. Têm como objectivo pregar a mensagem de Jesus e a conversão ao cristianismo. Essa ordem foi fundada em Toulouse, na França, em 1216, por São Domingos de Gusmão, um sacerdote espanhol originário da Caleruega. Os religiosos dessa ordem viviam em conventos próximos a grandes cidades e realizavam votos de pobreza, obediência e castidade, o que os tornava religiosos não monges. Não é à toa que Humberto Eco escolheu Bernardo Gui, justamente um dominicano, para caracterizar seu inquisidor impiedoso. Essa figura histórica foi o bispo de Lodève, na região do Languedoc, e é considerado como um dos escritores mais produtivos da época.

A exemplo de muitos outros inquisidores, inclusive do polémico Savonarola, foi poderoso, temido e respeitado dentro e fora do ambiente eclesiástico por defender seus ideais com ferocidade. Foi um dos que mais atacou os cátaros, presidindo julgamentos entre 1307 e 1323.

Outra visão da Inquisição

Analisando os factos, é difícil pensar que alguém se atreveria a defender a Inquisição (maldita). Mesmo assim, o professor de filosofia Roman Konik, ligado à Faculdade de Filosofia da Universidade de Wroclaw, na Polónia, e autor do livro Em Defesa da Santa Inquisição arrisca essa posição. Seu livro despertou muito interesse, mas sofreu boicotes de livrarias, por causa da má fama que a Inquisição (maldita) tem até hoje. Em entrevista concedida à revista eletrónica Catolicismo ele comentou sobre a obra de Umberto Eco: Na mente do homem de hoje, há uma ideia comum que considera o inquisidor como um velho monge encapuzado com inclinações sádicas, inflamado do desejo de autoridade. O melhor exemplo disso é a figura de Bernard Gui, inquisidor de Toledo, descrito pelo conhecido medievalista italiano Umberto Eco em seu livro O Nome da Rosa. Pior ainda é a imagem apresentada no filme realizado com base em tal obra.

Bernard Gui, como figura histórica real, foi inquisidor de Toledo e durante 16 anos exerceu esse cargo. Julgou 913 pessoas, das quais apenas 42 ele entregou ao tribunal civil como perigosos rebeldes (reincidentes, pedófilos, criminosos), o que não significava absolutamente pena de morte para eles. Em muitos casos, Gui indicava tratar-se de doença psíquica, suspeição de heresia, desistindo de interrogatórios.

Segundo a visão preconceituosa dos protestantes, é certo que essas pessoas iriam para a fogueira, ao contrário da verdade histórica. E importante registar que escritores protestantes, pouco simpáticos à Inquisição (maldita), começaram a escrever a história dela de maneira desfavorável, apresentando-a deformada. Também nas expressões artísticas das épocas posteriores à medieval verificou-se um reflexo dessa visão caricatural. Mas basta analisar o mundo artístico medieval para observar quadros que apresentam São Domingos convertendo os hereges, São Bernardo de Claraval discutindo com eles, ou então pinturas de inquisidores mártires morrendo nas mãos de hereges, por exemplo, o martírio de São Pedro de Verona, ou de São Pedro de Arbués, assassinado na catedral de Zaragoza». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

 Cortesia de EGutenberg/JDACT

JDACT, Sérgio Pereira Couto, Vaticano, Religião, Conhecimento, 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio Pereira Couto. «… por meio de duas bulas papais, assinadas por Gregório IX em Abril de 1233. A partir de então, a instituição julgou e condenou vários propagadores de heresias, mas também absolveu muitos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

As Principais Correntes Hereges

«Puritanismo. Concepção da fé cristã desenvolvida na Inglaterra por uma comunidade de protestantes radicais depois da Reforma. Pretendia purificar a Igreja Anglicana, ao retirar os resíduos do Catolicismo, de modo a tornar sua liturgia mais próxima à do Calvinismo.

Monarquianismo. Série de crenças que enfatizam a Unidade Absoluta de Deus. A crença conflita com a doutrina da Trindade, que vê em Deus uma unidade composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. O adicionismo, uma das suas correntes, diz que Deus é um único ser, superior a tudo e completamente indivisível. Assim, o Filho não foi coeterno com o Pai, mas sim revestido (ou adoptado) de Deus para pôr em prática seus desígnios.

Maniqueísmo. Fundada pelo profeta persa Mani ou Manes no século III, na Pérsia ou na Babilónia. Divide o mundo entre Bem, ou o Deus bom, e o Mal, ou o Deus mal. A matéria é intrinsecamente má, por isso o espírito é intrinsecamente bom e, ao tomar um corpo físico, deixa-se corromper.

Arianismo. Visão sustentada pelos seguidores de Arius, bispo de Alexandria nos primeiros tempos da Igreja primitiva. Esse movimento negava a existência da consubstancialidade (ou seja, que possui a mesma substância) entre Jesus e Deus. O Cristo seria preexistente, uma criatura mais excelsa, que encarnara em Jesus de Nazaré. Este seria, por sua vez, um subordinado de Deus, e não o próprio. Ário afirmava que só existe um Deus e que Jesus seria apenas seu filho, e não o próprio.

Nestorianismo. Doutrina do século V que afirma que há em Jesus Cristo duas pessoas distintas: uma humana e outra divina, completas de tal forma que constituem dois entes independentes. Essa doutrina surgiu em Antióquia e manteve forte influência na Síria. É sustentada ainda hoje por correntes ligadas ao movimento Rosa Cruz e à Gnose.

A Inquisição medieval

A versão medieval da Inquisição (maldita) começou suas actividades em 1184, na famosa região do Languedoc, no sul da França, lugar polêmico por ser acusado de ser o berço de movimentos heréticos, como o dos Cátaros ou Albigenses. Os Cátaros acreditavam em dois deuses: um bom e espiritual e outro mau e físico. Segundo a sua crença, Cristo teria sido enviado para salvar as almas boas, que iriam para o céu, enquanto as más voltariam por meio da reencarnação.

Isso fez com que os clérigos criassem uma Inquisição para avaliar a propagação de tais ideias em 1183, quando delegados papais descobriram essa vertente e a consideraram heresia no Concílio de Verona, em 1184, com o nome de Tribunal da Inquisição (maldito).

Tal criação se deu por meio de duas bulas papais, assinadas por Gregório IX em Abril de 1233. A partir de então, a instituição julgou e condenou vários propagadores de heresias, mas também absolveu muitos, o que é pouquíssimo divulgado. O texto seguinte é parte da bula Licet ad capiendos, de 1233, que marca o início da Inquisição (maldita) e é dirigida aos dominicanos inquisidores». In Sérgio Pereira Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

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terça-feira, 17 de outubro de 2023

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «E quanto ao paleontólogo? De onde surgiu? Ora, vamos, Ted, dá um tempo. Não pode me dar um pouco de sossego?»

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Os Fósseis de Gilley

Vale dos Dinossauros, Texas

«Não, não foi pela boa vontade dele, nem sem interesse nenhum. Ele acha que, por causa da publicidade que vamos lhe dar com a cobertura da história, a lojinha de fósseis dele vai fazer rios de dinheiro. Ele ainda pode escrever um livro, dar entrevistas e ter seus quinze minutos de fama. Outra opção seria vender no mercado negro, e ele receberia a mesma quantia em dinheiro, mas não a popularidade. Ele disse que, para ele, tanto faz. Mas que ainda prefere ser uma celebridade.

E quanto ao paleontólogo? De onde surgiu? Ora, vamos, Ted, dá um tempo. Não pode me dar um pouco de sossego? Você é quase uma filha para mim. Eu me preocupo com o que está fazendo. Não quero que seja enganada com toda essa fama. Cotten relaxou o corpo no assento e olhou para o velocímetro. Estava viajando a mais de cem por hora num trecho de estrada em que não podia passar dos oitenta, então tirou o pé do acelerador. Ted realmente se preocupava com ela.

O nome dele é Waterman. Mas é Waterman com P-H-D no final. Eu o conheci numa festa que o Museu Nacional de História ofereceu à imprensa uns dois meses atrás. Foi mais do que perfeito. Ele se ofereceu para vir até ao Texas. É claro que precisou assinar um termo de sigilo enquanto não levássemos a matéria a publicar. E deu algum trabalho para convencer o Gilley a deixar o Waterman dar uma olhada. Só estão sabendo do assunto os chefões da NBC, Waterman, Gilley, eu... e agora você. E eu seria demitida se descobrissem que estou tendo esta conversa com a concorrência.

Waterman, repetiu Ted. Sabe o primeiro nome? Henry... não, Harry, corrigiu-se Cotten. Harry Waterman. Por quê? Só estou curioso. Talvez possa descobrir alguma coisinha a mais sobre ele. Ele escreveu uma carta à emissora dando a sua opinião de que o artefacto é autêntico. Não fosse por isso, acho que eles não teriam liberado a verba. Quer dizer então que você vai gravar ao vivo para o noticiário nocturno? Cotten sentiu os músculos se contraírem por causa da excitação. Estaria de volta ao topo. Naquela noite, o rosto dela marcaria presença nas salas de estar de todo o país. Deus, como ela adorava isso!

É isso aí, confirmou ela. Hoje é o grande dia. Acho melhor começar a colocar o meu pessoal em campo. Cotten percebeu uma dose de ansiedade na voz do ex-chefe. O que está querendo dizer com isso, Ted? Pense nas matérias de continuidade. Qual será a reacção da comunidade científica e dos fundamentalistas ao ver a prova de que a Bíblia estava literalmente certa? Alguém vai engolir o maior sapo... ou talvez seja um bife de brontossauro. Adoro um bom churrasco, disse Cotten.

Houve pelo menos três segundos de silêncio antes de Ted responder. Cuide-se, menina. A gente se fala, disse ela e desligou o telefone. Cotten observou as espessas nuvens cinzentas que se acumulavam no céu baixo. Quem sabe ela iria testemunhar a transformação do rio Paluxy? Logo à frente, ela avistou a placa desgastada: Fósseis e Mercadinho do Gilley. Um quilómetro. Aí estava. O momento pelo qual tanto esperara. A reportagem que a levaria de volta ao topo. A conspiração do Graal fora uma coisa. Mas esta agora... iria provar de maneira inquestionável que o homem tinha vivido durante a época dos dinossauros. Os quinze minutos dela estavam simplesmente sendo esticados». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995,Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério,

domingo, 15 de outubro de 2023

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «Gilley, o texano, filho de um colecionador de bugigangas, com uma pilha de ossos de dinossauro, encontra esse fóssil no porão do pai, numa caixa com um punhado de outros fragmentos de ossos…»

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Os Fósseis de Gilley

«Somos o que pensamos. Tudo o que somos começa nos nossos pensamentos. E com os nossos pensamentos, criamos o nosso mundo. In Buda

Vale dos Dinossauros, Texas

«O mundo está prestes a mudar, Ted, comentava Cotten Stone no telefone móvel. Ela o segurava com uma das mãos e, com a outra, manobrava a direcção do carro na Highway 67 em direção a Glen Rose, Texas. E isso vai mexer com a cabeça de muitas pessoas. Estou impressionado, admitiu Ted Casselman, o som da voz começando a falhar. Cotten olhou para o indicador de sinal do telefone. Ele oscilava entre uma barra e nenhuma. Ela não queria perder o contacto com Ted, seu ex-chefe quando trabalhou para a Satellite News Network. Mesmo depois que deixou a SNN, para se tornar a principal repórter investigativa da NBC, Ted continuou sendo seu amigo e mentor.

Tenho acompanhado a cobertura da mídia, Cotten, mas é claro que tudo continua envolto em mistério. Fizeram um óptimo trabalho na divulgação da sua exclusiva. E é isso o que eu acho que foi..., exactamente um exagero. Não entendi nada. Por quanto tempo trabalhou nessa matéria? – Umas duas semanas. Esperei até que a cobertura da queda do avião da Virgin Atlantic esfriasse. Ainda não consigo acreditar que o piloto de um vôo comercial cometesse um acto tão terrível. Será que não se fazem mais testes de estabilidade mental?

O interessante é que o piloto tinha sido avaliado recentemente e não apresentou nenhum problema. Continuamos a acompanhar os aspectos de interesse humano nesse assunto. Ter de atirar num avião lotado de passageiros inocentes foi um sinal de alerta para muita gente. Mesmo depois do 11 de Setembro, não acho que alguém tenha pensado que se chegaria a esse ponto.

Eu entendi que o avião estava transmitindo um sinal de sequestro. Sim, concordou Ted. Imagina-se que o co-piloto tenha disparado o alarme para chamar a atenção dos controladores de tráfego aéreo. Enquanto ouvia Ted Casselman, Cotten Stone visualizava o homem alto e forte, um negro de 44 anos. Ted tornara-se grisalho mais cedo do que o normal e ela sabia que podia ser responsabilizada por muitos daqueles fios brancos prematuros. Para mudar de assunto, da tragédia com o avião para o tema da sua reportagem actual, ela disse: Estou realmente com um forte pressentimento em relação à minha exclusiva, Ted. Vai ser impressionante.

Mais do que impressionante. Vai destroçar toda uma montanha de conhecimentos científicos, Ted riu, depois suspirou. Espero que dê certo. Despejou uma porção de informações na matéria. Cotten sentiu a excitação correndo nas veias quando vislumbrou o rio Paluxy, agora tão raso que não se podia nem remar nele. Mas como lhe disseram, depois de uma chuva forte, ele se transformava numa torrente furiosa e espumante, formando as únicas corredeiras existentes no norte do Texas. Assim como a chuva que transformava o rio, acreditava ela, sua reportagem produziria, igualmente, uma mudança radical. Quanto você disse que a emissora pagou pelo artefacto?, quis saber Casselman.

Oito mil, respondeu ela, e ouviu Ted assoviar. Ah, Ted, não torne as coisas ainda mais difíceis p’ra mim. Estou absolutamente segura de que a peça vale isso. Se a emissora não a comprasse, ela seria vendida por um preço muito mais alto no mercado negro. E outra pessoa teria ficado com a história..., e com a glória. Verifiquei tudo, Ted. Os especialistas dizem que foi um bom negócio. Verificar um artefacto e confirmar a sua autenticidade são duas coisas bem diferentes, moça. E ninguém melhor do que você para saber disso. Ele fez uma pausa. Não quero que você faça papel de boba. Consegui que um paleontólogo examinasse o fóssil. Ele me deu o sinal positivo.

Veja bem o que parece, Cotten..., e lembre-se de que, por causa disso, está disposta a enfrentar o que der e vier. O bom e velho Gilley..., esse é o nome do comerciante, certo? Deus, será que todo mundo no Texas se chama Gilley?

Não, existem alguns Georges W. e Lyndons. Mas, sinceramente, esse foi o nome que ele deu quando se apresentou..., Gilley. Melhor do que Garganta Profunda, acho... Ted se referia à principal fonte jornalística do caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente Nixon.

De qualquer modo... Gilley, o texano, filho de um colecionador de bugigangas, com uma pilha de ossos de dinossauro, encontra esse fóssil no porão do pai, numa caixa com um punhado de outros fragmentos de ossos. Ele telefona para você, tudo isso sigilosamente, oferecendo-lhe a grande reportagem por um preço razoável... ou então ele venderia a coisa no mercado negro por uma pequena fortuna. Mas tudo pela boa vontade dele, sem interesse nenhum...» In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995,Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, 

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «O oposto a essa teoria era que, quando alguém encontra um artefacto, o que normalmente faz? Lava-o com a água da torneira, portanto, voilà, o fluoreto. O resultado final…»

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Peru

Um Ano Depois

«(…) Cotten encolheu-se no assento e; ao fazê-lo, viu de relance o brilho de luzes tremeluzindo lá em baixo. Apenas farrapos de nuvens passavam pelo avião enquanto se aproximavam do solo. Quase pousamos. Quase pousamos. Se tivesse o maldito tranquilizante no bolso, poderia tomá-lo. Mas havia deixado os comprimidos na bagagem de mão guardada no compartimento em cima. Caso se levantasse e pegasse a bolsa, todos olhariam para ela..., alguém poderia até mesmo reconhecê-la.

Cotten fechou os olhos de novo, concentrando-se em respirar e relaxar o corpo, começando pelos dedos dos pés, pensando em cada músculo, subindo pelo corpo até ao couro cabeludo. Respirações profundas, lentas, iguais. Inspirando pelo nariz, expirando pela boca.

As rodas guincharam ao tocar o solo. O avião balançou duas vezes antes de taxiar suavemente sobre a pista. O ruído da redução da potência dos motores soou quase como uma serenata maravilhosa para ela. A respiração de Cotten voltou ao normal e os dedos relaxaram sobre o braço da poltrona. A região da nuca refrescou-se com a humidade do suor. Ela afundou no assento, agradecida por ter passado o encantamento,  ela preferia essa palavra a ataque, mas sem saber se o vencera ou se o pouso seguro é que havia reduzido a tensão a um nível mais controlável. Agora não importava. Estava no chão.

Esse trabalho não era grande coisa, mas era pago como freelance, e a ajudaria a escalar mais um degrau na escada da respeitabilidade. O desastre no Texas no ano anterior não lhe havia custado apenas o emprego na emissora, a imagem e a credibilidade, mas também havia lhe tirado o respeito próprio. Não havia restado quase nada que pudesse ser aproveitado. Finalmente, ela ouviu o suave toque do sinal de Apertar os Cintos sendo desligado. Depois de se levantar e pegar a bagagem de mão do compartimento superior, esperou até o corredor se esvaziar e todos terem deixado o avião.

Pensou em pegar o remédio contra a ansiedade, mas resistiu a abrir a bolsa. Na saída, a tripulação dirigiu-lhe os obrigatórios cumprimentos de despedida quando ela passou pela porta de desembarque. Cotten inclinou a cabeça educadamente e exibiu o que sabia tratar-se de um sorriso falso. Mas, no momento, era o máximo que conseguia fazer.

Abrindo caminho para o terminal de bagagem, Cotten tirou o telefone móvel do bolso. Abriu-o e correu os olhos pela lista de contactos em busca do nome de Paul Davis. Assim que ligou o aparelho, viu o sinal de uma chamada não atendida. Pressionou o botão para consultar a relação de ligações recentes.

John Tyler. Só de ver o nome dele seu coração acelerou. Fechou momentaneamente os olhos e, naquele mesmo instante, pôde ver mentalmente aqueles olhos intensamente azuis. Deus, sentia tanto a falta dele! Se ele não fosse padre, com certeza a vida deles seria diferente.

Cotten pressionou o botão para responder a ligação de John, mas antes que a chamada se completasse, cancelou-a. Queria conversar com ele só quando pudesse pensar com calma e sem pressa. No aeroporto, caminhando em meio a toda aquela agitação, não era o momento nem o lugar.

Voltando a lista de contactos armazenados na memória do telefone, encontrou o número de Paul Davis. Ele era o cinegrafista com quem havia trabalhado na última reportagem, uma mixaria de artigo discutindo se a detecção de fluoreto numa relíquia supostamente antiga deve ser considerada no processo de autenticação. O argumento era que o fluoreto é um complemento actualmente acrescentado a água dos reservatórios e, caso fosse detectado num artefacto, isso deveria provar que se tratava de uma fraude. O oposto a essa teoria era que, quando alguém encontra um artefacto, o que normalmente faz? Lava-o com a água da torneira, portanto, voilà, o fluoreto. O resultado final era que ninguém realmente se preocupava com isso, a não ser um grupinho selecto na comunidade arqueológica que adorava discutir e ironizar sobre picuinhas, um se esforçando para provar que era mais brilhante do que os outros». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995,Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério,

Sexo com Reis. 500 Anos de Adultério. Eleonor Herman.«As memórias tornaram-se populares, embora devam ser lidas com cautela e comparadas com outros documentos do mesmo período. Escritas para serem publicadas, muitas delas tinham o duplo propósito de vingança…»

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Agnes Sorel

«Logo depois de o quadro ter sido pintado, talvez por coincidência, os poderes do céu enviaram a Ceifadeira para castigar Agnes. Com cerca de 40 anos, após 15 anos como amante, amiga e conselheira do rei, Agnes morreu ao dar à luz. Talvez contemplasse um lugar grandioso quando, ao olhar para seu corpo que se esvaía, disse com suavidade: É algo tão insignificante, maculado e exalando nossa fragilidade. Cerrou os olhos. O rei, dilacerado pela dor, concedeu-lhe o título póstumo de duquesa e a enterrou em grande esplendor.

Nosso conhecimento sobre as amantes reais aumenta significativamente com o advento do século XVI. O desabrochar do pensamento na Renascença trouxe novos ares para uma Europa estagnada. De súbito, navios cruzavam os sete mares, trazendo de volta novos-ricos que jamais haviam sonhado com a riqueza. Os mosteiros foram pesquisados para encontrar manuscritos que ilustrassem a sabedoria das lendas pagãs antigas. Sociedades que idolatraram, durante milhares de anos, as estátuas da Virgem extasiavam-se diante da imagem curvilínea da Vénus de Milo. Nesse processo, o Vaticano perdeu a chave do cofre de todo o conhecimento; sua tenaz de ferro sobre a moral e os costumes enfraqueceu de modo substancial,  mesmo em nações que permaneceram católicas após a Reforma.

A invenção da imprensa provocou uma explosão de instrução entre a nobreza. A escrita de cartas tornou-se um passatempo favorito de cortesãos ansiosos para saciar a curiosidade de parentes incultos sobre bisbilhotices picantes da corte. Dessas cartas extraem-se as lágrimas das rainhas, os acessos de raiva das amantes e a luxúria insaciável dos reis. Madame de Maintenon, a última favorita e esposa morganática do rei Luís XIV (1638-1715), escreveu mais de 90 mil cartas durante a vida. A cunhada de Luís XIV, Elizabeth Charlotte, duquesa de Orléans, escreveu 60 mil cartas sobre a vida na corte de Versalhes, cobrindo um período de cinquenta anos. Madame de Sévigné, que conheceu pessoalmente as amantes de Luís XIV, escreveu três vezes por semana durante 25 anos para sua filha querida, que morava na Provença. Algumas correspondências pessoais de reis e de suas amantes sobreviveram a incêndios, inundações, traças, destruição proposital; e parte dessas missivas aborda o lado romântico da vida.

Além disso, os relatórios dos embaixadores fornecem opiniões detalhadas sobre a vida na corte. Numa época em que um capricho do rei significava paz ou guerra, abundância ou fome, nenhum detalhe real era considerado insignificante. Alguns despachos oficiais discutiram até mesmo o funcionamento dos intestinos do rei. Luís XIV, ciente da grande influência que muitas amantes de Carlos II (1630-1685) tiveram sobre ele, instruiu seus embaixadores na Inglaterra para enviar  relatórios detalhados sobre todos os acontecimentos da corte da Grã-Bretanha, sobretudo, sobre a vida privada. Muitos desses relatos maliciosos sobreviveram.

Os diários tornaram-se moda, dando testemunho de intrigas reais. Um dos mais conhecidos memorialistas, Samuel Pepys, trabalhou como funcionário graduado no English Naval Office na década de 1660 e sentiu um fascínio lascivo pela amante de Carlos II. Mencionou tê-los visto no parque e no teatro, comparou a beleza deles, descreveu suas roupas e fez sexo com eles nos seus sonhos. Escreveu com entusiasmo que beijara Nell Gwynn no final de sua peça e que a visão das ricas roupas íntimas de Lady Castlemaine penduradas num varal lhe fora muito prazerosa.

As memórias tornaram-se populares, embora devam ser lidas com cautela e comparadas com outros documentos do mesmo período. Escritas para serem publicadas, muitas delas tinham o duplo propósito de vingança pessoal e delação. Pouco antes de sua morte em 1615, a rainha Margarida da França escreveu uma autobiografia enaltecendo sua virtude imaculada e descrevendo numerosas histórias sobre o comportamento censurável do marido com as amantes, eximindo-se de contar histórias semelhantes protagonizadas por ela e seus amantes. O vingativo duque de Saint-Simon, desiludido com o tratamento que lhe fora dispensado, partiu da corte de Versalhes em 1722. Teimosamente, empunhou sua pena para escrever quarenta volumes de memórias, a tinta misturada com grandes doses de veneno». In Eleonor Herman, Sexo com Reis, 500 Anos de Adultério.  Eleonor Herman, Editora Objetiva, 2005, ISBN 978-857-302-734-1.

Cortesia de EObjetiva/JDACT

JDACT, Eleonor Herman, Literatura, Conhecimento, Sexo, Reis,  

O Castelo. Luis Zueco. «Quizá fuera uno de esos espíritus que pueblan el bosque, o de esas mujeres que son capaces de transformarse en formas extrañas y viajar de un lugar a outro»

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El Rey Sancho III

Sierra de Leyre. Novembro de 1027

«Artal era tan listo como muchos hombres, de pelaje espeso y completamente blanco, como un copo de nieve recién caído. No conocía el frío, aunque en los veranos calurosos sufría con el viento cálido de poniente. Le gustaba la lluvia y correr entre los charcos que se formaban alrededor de la torre. Eneca había perdido la noción del tiempo desde que se separó de su madre y llegó al puente sobre el río.

Desde entonces, había caminado siempre hacia la salida del sol. No recordaba cuándo había desfallecido, pero al menos ya no estaba sola. Conforme se iba recuperando, pensaba en qué habría sido de su padre, que defendía lo alto de la torre; de su abuela, que se quedó para ocultar su huida; y su madre? Por qué ella le había dejado sola? No lo estaba. Artal frotó el hocico contra su espalda, empujándola para que se levantara. Eneca le hizo caso y le siguió entre la penumbra verdosa de la vegetación. Así, llegaron hasta un riachuelo, y Artal metió el morro en la corriente para beber con su alargada lengua. Después miró a Eneca y esta introdujo sus manos. El agua estaba fría, pero se lavó la cara, y comenzó a sentirse algo mejor. Se pasó las manos húmedas por el cuello, la frente y los hombros y volvió a introducir las dos palmas formando un cuenco del que beber. Aquello la devolvió a la vida.

Vamos, Artal , tenemos que buscar algo de comer. Eneca caminó siguiendo el curso del agua, rastreando la orilla, mientras su perro olisqueaba algunas plantas que iban encontrándose a su paso. Hasta que la muchacha se detuvo frente a un imponente árbol de cuyos pies brotaban raíces que se sumergían de nuevo en la tierra y sus ramas estaban tan altas que no podía alcanzarlas. Fue a la base de su tronco y escarbó, primero con las manos y, cuando se percató de que era tarea inútil, buscó un par de piedras. Con una de ellas dio forma a la otra, para después utilizarla en la misma tarea. Con ayuda de sus rudimentarios útiles, encontró unas raíces verdosas, que fue partiendo antes de lavarlas en el río. Masticó la primera de ellas, después la succionó, extrayendo toda la savia, continuó con la segunda a la vez que le daba otra a Artal .

Esa noche la pasaron en otro abrigo que encontraron antes de la puesta de sol, donde el riachuelo vertía sus aguas a un cauce mayor. Recordó cómo le habían enseñado a hacer fuego y buscó las rocas adecuadas, reunió hojas y ramulla secas, y, por último, se afanó en encontrar el lado donde menos pegara el viento para, después de casi una docena de intentos, lograr que una chispa cebara la escueta hoguera, a la que añadió ramas más considerables y alguna piña que prendió de manera efusiva. Se acurrucó contra Artal y cerró los ojos. Era complicado hacerlo cuando, en sueños, no dejaba de ver a sus padres sufriendo. Así que despertó antes del alba y permaneció en vigilia observando las estrellas de la bóveda celeste, todas estaban allí suspendidas y se movían al unísono alrededor de la tierra que pisaban los hombres.

Era hermoso verlas brillar y, en el profundo silencio de aquellas montañas, parecía como si pudieras elevarte y tocarlas con la punta de los dedos. No fue eso lo que sucedió, más bien lo contrario, pues creyó ver a un ser volando sobre las copas de los árboles. Quizá fuera uno de esos espíritus que pueblan el bosque, o de esas mujeres que son capaces de transformarse en formas extrañas y viajar de un lugar a otro.

Y soltó un tremendo grito cuando algo descendió frente a ella. Artal se despertó y se encaró con aquel ser. Era una lechuza blanca, que parecia mirarla impasible, mientras su perro ladraba de manera incesante. Tranquilo, le acarició el cuello, no pasa nada, tranquilo. El animal se fue apaciguando». In Luis Zueco, El Castillo, O Castelo, 2015, Titivillus, Alma dos Livros, 2020, ISBN 978-989-899-914-0.

Cortesia de AdosLivros/JDACT

JDACT, Luis Zueco, Idade Média, Século XI, Espanha, Literatura, História,

O Pacto. Joe Hill. «A primeira coisa em que pensou foi que, de algum modo, ele mesmo tinha causado aquela aflição para si. Na noite anterior, já bem tarde, entrara pela mata atrás da velha fundição…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ignatius Martin Perrish passou a noite bêbado, fazendo coisas horríveis. Acordou na manhã seguinte com dor de cabeça, levou as mãos às têmporas e sentiu algo estranho, um par de protuberâncias pontiagudas. Estava tão enjoado, sentia-se fraco e seus olhos lacrimejavam por causa da luz, que, a princípio, não deu atenção a isso. A ressaca não lhe permitia pensar nem se preocupar.

Porém, enquanto cambaleava diante da casa-de-banho, olhou de relance para seu reflexo no espelho acima do lavatório e viu que tinha criado chifres durante a noite. O susto foi tão grande que o fez recuar e, pela segunda vez em 12 horas, mi… nos próprios pés.

Ele enfiou de novo a bermuda cáqui, ainda estava com as mesmas roupas que usara no dia anterior, e se debruçou sobre o lavatório para olhar melhor. Em matéria de chifres não eram lá grande coisa. Tinham mais ou menos o tamanho de seu dedo anular, eram grossos na base e, à medida que faziam uma curva para cima, se afinavam até formar uma ponta. Os chifres estavam cobertos por uma pele muito pálida, com excepção das extremidades pontiagudas, que eram de um vermelho intenso e feio, como se estivessem prestes a romper a carne. Tocou um deles e percebeu que a ponta estava sensível, ligeiramente dolorida. Correu os dedos ao longo de cada um dos chifres, sentindo a densidade do osso por baixo da pele lisa e esticada.

A primeira coisa em que pensou foi que, de algum modo, ele mesmo tinha causado aquela aflição para si. Na noite anterior, já bem tarde, entrara pela mata atrás da velha fundição até ao local onde Merrin Williams havia sido morta. As pessoas tinham deixado lembranças numa cerejeira doente e sombria, cujo tronco descascado deixava o cerne à mostra. Merrin fora encontrada assim, com as roupas rasgadas deixando a carne à mostra. Havia fotos dela delicadamente dispostas nos galhos, um vaso de flores de salgueiro-gato, cartões Hallmark retorcidos e manchados pela exposição ao tempo. Alguém, provavelmente a mãe de Merrin, tinha deixado grampeada no tronco da árvore uma cruz de rosas amarelas de náilon e uma Virgem de plástico que sorria com a beatitude idiota dos retardados.

Ig não suportava aquele sorriso afectado. Tampouco suportava a cruz, afixada ao local onde Merrin sangrara até morrer em decorrência de traumatismo craniano. Uma cruz de rosas amarelas. Pu… que par…! Era como uma cadeira eléctrica com almofadas de estampa florida: uma piada de mau gosto. Ele ficou incomodado por alguém querer levar Cristo até ali. Cristo estava um ano atrasado para fazer algum bem; não esteve por perto quando Merrin precisou d’Ele.

Ig arrancou a cruz do tronco, jogou-a no chão e a pisou. Precisava urinar. Fez isso mirando a Virgem e, bêbado, acabou acertando nos próprios pés. Talvez isso tivesse sido blasfêmia suficiente para causar aquela transformação. Mas não, ele sentia que havia mais alguma coisa. Não conseguia lembrar o quê. Tinha bebido demais. Virou a cabeça para um lado e para o outro, estudando-se no espelho, tocando os chifres repetidamente. A que profundidade chegava o osso? Será que havia raízes que se infiltravam até ao cérebro? Quando pensou nisso, o banheiro escureceu, como se a lâmpada no tecto tivesse piscado por um momento. No entanto, a escuridão estava em seus olhos, na sua cabeça, não nas lâmpadas. Ele agarrou o lavatório e esperou a fraqueza passar.

Então se deu conta. Iria morrer. Claro que iria morrer. Alguma coisa estava mesmo pressionando seu cérebro: um tumor. Os chifres não estavam ali de verdade. Eram metafóricos, frutos da sua imaginação. Ele tinha um tumor comendo seu cérebro e fazendo com que ele visse coisas. E, se já chegara a esse ponto, provavelmente era tarde demais para ser salvo» In Joe Hill, O Pacto, 2010, Editora Arqueiro, 2013, ISBN 978-858-041-051-8.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

JDACT, Joe Hill, Literatura, 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo. João P. Rodrigues Carvalho. «Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo»

jdact e cortesia de wikipedia

As Fontes Secas. Hauridas. Queimadas

«O narrador prossegue descrevendo a formação do seu estilo, a história da resolução de inúmeras equações de terceiro grau, obtendo sempre uma solução inegável, só pelo próprio esforço intelectual, como se resolvesse a si mesmo perfeitamente, equacionado no papel; o método completa-se com a audição do Concerto Brandeburguês nº 5 de Bach, um único concerto, ouvido uma e outra vez, afinando o estilo do indivíduo na repetição, expurgando o caos sonoro que alterna loucamente ruídos e silêncios, depois de expurgado o caos epistemológico usando a matemática. Então, de repente, o argumento vira-se para a poesia, autocitando-se um excerto da parte VI do poema Elegia múltipla: As crianças enlouquecem em coisas de poesia. / Escutai um instante como ficam presas / no alto desse grito, como a eternidade as acolhe / enquanto gritam e gritam. / (...) / E nada mais somos do que o Poema onde as crianças / se distanciam loucamente. (Helder, 2015b: 9), opondo as crianças, a loucura e a poesia, dum lado, ao estilo, do outro; empubescer seria assim, simplesmente, o começo da procura dum estilo, duma memória, a renúncia à imaginação violenta das crianças, que desejam absolutamente algo a todos os instantes, sem o compararem com qualquer dos desejos anteriores, esquecendo-os.

A sua loucura, a sua relação ilógica com o mundo, permite-lhes transformá-lo incessantemente, aceitá-lo sempre como completamente novo, verdadeira surpresa. E é nesta loucura que a infância é infeliz, rompendo por todos os lados, fazendo a criança duvidar da sua própria existência, do próprio mundo, demente, demasiado forte, torturando-a até ceder, até ter de criar um estilo para se poder travar, apaziguada; por isso, a infância é tão vertiginosa, recriando-se a todos instantes, excedendo-se sempre com uma nova loucura totalmente diferente da anterior: bruxaria, astronáutica, pirataria, policiamento, ladroagem, medicina, infantaria. E, por sua vez, o poeta reproduz a infância, ou é inventado nesta, porque não pode ser adulto, simples, idiomático, tem de explodir sempre como uma criança: loucamente.

Como as crianças inventam o Poema que contém os adultos, estilos abandonados que duram meio-vivos, o poema deve capturar apenas um instante, um grito, um estilo momentâneo, logo afastado, exilado para sempre: eterno porque singular, irrepetível; permitindo ao poeta reformar-se de seguida, dolorosamente, para criar algo novo outra vez. Uma verdade que parece resistir no mais estilizado dos homens, finalizando o conto esperançosamente: Mas, escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande segredo da nossa humanidade? [...] Talvez o senhor seja mais inteligente do que eu, ou finalizando-se cruelmente, pois o conflito mantém-se (Talvez), entre a loucura e o estilo, entre o caos e o contínuo, mantendo o Segredo longe e perto, duplamente doloroso: ora como uma paixão apartada, ora como uma faca espetada.

Nota: A escolha de Bach não deixa de ser significativa: pela sua evocação do Barroco, fundamentalmente antitético (no contraponto, neste caso), excessivo, e pela obsessão deste compositor, em particular, por fugas: variações sobre uma frase musical inicial, ritmo esse diversas vezes utilizado pelo poeta, como, por exemplo, no poema (escrita pouco inocente).

Esta tensão com a origem, este perpétuo movimento pendular, será explorado numa imagem recorrente: a mãe, a fonte: Ela é a fonte. Eu posso saber que é / a grande fonte / em que todos pensaram. (Helder, 2014: 45); estranho uso do pronome, sem antecedente gramatical (iniciando o poema Fonte, como este fosse universal: pois o sujeito poético sabe que a mãe é a fonte, mas não a nomeia nesta parte I do poema (com seis partes), mesmo descrevendo as irmãs e o pai, evita essa palavra, sublinhando-a na ausência, recusando a possibilidade de conseguir nomeá-la, de conseguir descrevê-la: Ninguém falava dela, porque / era imensa, deixando a mãe como um silêncio debaixo do discurso, como um lençol de água subterrâneo fertilizando o terreno visível, fertilizando todos em cima, como mãe geral:

Mãe, como uma cadela alimentando uma ninhada, com o número apropriado de mamilos, sem necessidade de disputas fraternais: Era um manar / secreto e pacífico, uma mãe muda, calando os seus filhos por amamentação, ocupando suas bocas, apaziguadas; na imagem oposta à ruidosa violência infantil. Porque a infância é a libertação do leite maternal, a liberdade da imaginação, o caos e a guerra perdida contra este, a dor do crescimento dos dentes para a criança se alimentar sozinha, rasgando o mundo». In João P. Rodrigues Carvalho, O Poema Herberto Herder: Caos e Contínuo, Caso de Estudo, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, FCSH, 2018.

Cortesia de FCSH/JDACT

JDACT, João P. Rodrigues Carvalho, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Herberto Helder,

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Aproximou-se de Ramiro, ficando com o rosto em frente ao dele, para que o rapaz olhasse para as suas horríveis feições, e resmungou: Se tendes medo do que vedes, é melhor regressardes a Coimbra, pois irei para a cova assim, não vou sarar»

jdact

NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«Gondomar examinou-o e perguntou: Que idade tendes? Ramiro disse-lhe que tinha dezassete anos, e o velho murmurou: Idade suficiente para decidir pela vossa cabeça. Ao escutar esta mudança de opinião, o rapaz sorriu, animado, mas o cavaleiro avisou-o: Se Paio Soares se zangar, tereis de dizer a verdade, que é por vossa vontade que aqui estais, não por minha. Ramiro prometeu fazê-lo, embora tivesse a certeza de que tal não seria necessário. Com uma força inesperada para alguém da sua idade, Gondomar içou-o para o seu cavalo, e Ramiro sentou-se atrás dele na sela. Mal o animal recomeçou a andar, o rapaz sentiu um enorme alívio. Parecia que as pernas e os pés se distendiam e o seu corpo finalmente descansava.

Nas horas seguintes, é provável que tenha adormecido, embalado pelo andar do animal e encostado a Gondomar. Só quando a madrugada chegou é que espevitou e observou com atenção os restantes cavaleiros do grupo. Todos tinham um manto branco a cobri-los, usavam vestes modestas por baixo e pareciam homens de poucas posses. Um deles era muito grande, mas o seu companheiro de cavalo era o oposto, com o cabelo cortado rente, ao contrário dos outros, que usavam todos barba.

No segundo cavalo, ia montado um homem que tinha um rabo muito gordo, que caía para cima da garupa do animal, e à sua frente seguia outro que estava sempre a coçar a cabeça. Por fim, na garupa do terceiro cavalo, encontrava-se um indivíduo de cara disforme, com enormes elevações nas bochechas, cuja cor era avermelhada. Metia impressão olhar para ele e por isso Ramiro evitou fazê-lo, nem reparando bem no seu companheiro da frente, que guiava o animal.

Ninguém falou até que Gondomar deu ordem de paragem, já o céu estava alaranjado pelo nascer do Sol. Encontravam-se no meio de uma floresta e ouviam-se os pássaros lançando os seus agitados piares matinais. À beira da estrada havia uma clareira, e Gondomar disse-lhes que desmontassem ali, mandou-os colocar em círculo e depois ajoelhou e rezou uma oração em latim.

Ramiro reparou que o velho cavaleiro tinha os olhos avermelhados, parecia estar sempre a chorar. No final da reza, ouviu-o dizer: Comamos. O mestre foi junto do seu cavalo, trouxe um saco com pães e distribuiu-os. Comeram em silêncio e, depois de terminarem, Gondomar tomou a palavra.

Na nossa Ordem, não interessa o passado, mas sim o futuro. Olhando para Ramiro, prosseguiu: Temos um novo membro. Vai seguir connosco para Soure. Entre nós não há bastardos nem infanções, nem ricos-homens nem cavaleiros-vilões. Sereis igual a todos e a cada um, um monge guerreiro. Ramiro reparou que nenhum dos presentes parecia lavrador ou artífice. Deviam ser gente da floresta, antigos soldados ou servos, malados ou mesmo salteadores. Gondomar continuou: O nosso novo companheiro chama-se Ramiro, e é por esse nome que o devem tratar, a não ser que ele deseje outro.

Ramiro negou, abanando a cabeça. Então, Gondomar afastou-se um pouco, desaparecendo atrás de uma árvore. Os restantes homens cercaram o novo recruta e começaram a apresentar-se. O mais baixinho do grupo disse que o tratavam por Rato, pois era pequeno e conseguia enfiar-se nos locais mais difíceis.

Ramiro viu um punhal, com uma pérola no seu topo, enfiado no cinto do homem, e estremeceu. Era o punhal do seu pai! O mesmo que ele na sexta-feira quase usara para se matar, e que desaparecera no sábado! O pai perguntara pela arma, mas Ramiro lembrava-se de o ter deixado em casa, em cima de uma mesa, e vira-o no cinto de Paio Soares, sábado à tarde, durante o jantar.

De repente, reconheceu o homem: era o criado que chocara com o pai à entrada da tenda! Decerto fora nesse momento que roubara o punhal, aproveitando o descontrolo do seu progenitor. O Rato era um ladrão, fugira de Coimbra para evitar ser descoberto, mas Ramiro nada disse e deixou o homem seguinte apresentar-se. Era o maior e mais forte de todos, afirmou que lhe chamavam Urso, por ser assim, e os outros riram-se, divertidos. De mim ninguém se ri, disse o homem da cara disforme. Aproximou-se de Ramiro, ficando com o rosto em frente ao dele, para que o rapaz olhasse para as suas horríveis feições, e resmungou: Se tendes medo do que vedes, é melhor regressardes a Coimbra, pois irei para a cova assim, não vou sarar.

O Rato disse que o grotesco se chamava Ameixa, e que nem as mulheres da rua o queriam, pois desmaiavam se ele se aproximasse, e os outros riram novamente. Então, o Ameixa apontou para o que viera com ele no cavalo e avisou: Não vos chegueis ao Santinho, tem piolhos». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

 Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Vejo que sois teimoso, mas também resistente, disse. O cavaleiro da Terra Santa estendeu o braço e ofereceu-lhe um cantil com água. Depois de saciado, Ramiro agradeceu e declarou decidido: Não vou voltar para Viseu»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

 

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«Naquela noite, Ramiro levou apenas o arco e as flechas, e correu pelas ruas, saindo por uma das portas da muralha. Já na estrada, além de vários mendigos que se arrastavam, gemendo enregelados, viu uma mulher, que caminhava à sua frente. Era alta e forte, e estava enrolada num manto, para se proteger do frio da noite. Ao ouvir passos, virou-se para ver quem a seguia e Ramiro perguntou-lhe pelos homens de Gondomar. Acho que já partiram, informou ela.

Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão. Curiosa, Elvira questionou-o: Porque quereis fugir?

Num arremesso de honestidade só possível perante estranhos, Ramiro contou-lhe a verdade. A normanda suspirou, desalentada. Quem me dera ir convosco, mas eles só levam homens. Intrigado, Ramiro perguntou-lhe se estava enamorada de alguém, mas ela apenas encolheu os ombros. Ninguém me quer.

Depois, como se não quisesse falar mais sobre ela, disse ao rapaz que corresse, pois era possível que os homens de Gondomar ainda estivessem perto, e ele assim fez. Lançou-se estrada fora, passou pela estalagem e prosseguiu durante mais de uma légua. Quando estava quase a desistir, viu à sua frente uns vultos.

O som dos seus apressados passos avisou-os, e viu-os a pararem à sua frente, temendo talvez um assalto. À medida que se aproximava, Ramiro contou quatro cavalos, mas só Gondomar estava sozinho no seu, os outros seis homens formavam duplas nos três cavalos restantes. Ouviu o velho de manto branco perguntar: Quem vem lá?

Ramiro apresentou-se como filho bastardo de Paio Soares, dizendo que desejava juntar-se a eles. Intrigado, Gondomar questionou-o: Vosso pai conhece essa vontade? O rapaz pensou em mentir, mas decidiu não o fazer. Sou bastardo, trata-me como um cão, ou uma besta de carga. Houve alguns sorrisos entre os homens, mas Gondomar recordou: Paio Soares é o novo mordomo-mor do Condado. Lembro-me de o ouvir dizer que precisava de vós. Não quero problemas. Regressai a Viseu. Se ele vos deixar vir, podereis ir ter connosco. Contrariado, Ramiro mordeu o lábio. Só precisa de mim para me bater. Gondomar não se comoveu com o queixume. Isso é entre vós.

Dito isto, rodou o cavalo e os outros seguiram-no. O rapaz ficou a vê-los afastarem-se, desanimado, mas quando eles desapareceram no escuro decidiu continuar a segui-los. Manter-se-ia na peugada dos cavaleiros, pelo menos até chegarem a Coimbra, o que lhes levaria talvez dois dias. Estava determinado e, embora um pouco cansado da corrida, convencido de que o conseguiria, mas duas horas mais tarde nasceram-lhe dúvidas. Fazia muito frio, a noite ia alta, estava cheio de dores nas pernas e tinha muita sede. Os seus pés latejavam e, se não parasse, iria colapsar de fraqueza. Os cavaleiros continuavam à sua frente, a passo, e ele ouvia-os a falarem uns com os outros, crente de que não sabiam que os seguia. Estava errado. A dada altura, Gondomar parou e esperou que ele chegasse.

Vejo que sois teimoso, mas também resistente, disse. O cavaleiro da Terra Santa estendeu o braço e ofereceu-lhe um cantil com água. Depois de saciado, Ramiro agradeceu e declarou decidido: Não vou voltar para Viseu». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

 Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,