segunda-feira, 27 de julho de 2020

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de Janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo»

jdact e cortesia de wikipedia

«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

Abandonada. Ninive, norte do Iraque
«Saia! A voz esganiçada do motorista iraquiano ecoou rispidamente no interior do carro. Uma nuvem de areia e pó se formou do lado de fora depois da travagem brusca. Rudemente acordada, Cotten Stone endireitou-se no banco. Mas o que foi isso!? Ela tentou enxergar alguma coisa no meio à poeira e a penumbra do anoitecer. Saia já! Não levo americanos. Do rádio jorrava um palavreado incompreensível na voz de um locutor iraquiano. O que aconteceu?, insistiu ela. O que está errado? O motorista saltou pela porta que tinha escancarado e correu para a parte de trás do carro. Cotten forçou a maçaneta da porta empoeirada até ouvir um estalido seco. Ei, o que você pensa que está fazendo?, gritou, saltando para fora. O motorista já abria o porta-malas, de onde tirou as duas sacolas dela, que jogou na beira da estrada. Você não pode deixar-me aqui, ela protestou, dando a volta no carro. Estamos no meio de um maldito deserto! Impassível, o motorista indicou com a cabeça o falatório do rádio. Cotten abaixou-se para pegar a sacola de lona em estilo militar que continha os seus videos e jogou-a de volta no porta-bagagem. Escute, eu já lhe dei todo o meu dinheiro. Não tenho mais nada. Virou do avesso os bolsos vazios da calça. Era uma mentira estratégica. Antes de embarcar, havia escondido os seus quase duzentos dólares dentro de uma embalagem de filme vazia. Era a sua reserva de emergência. Não está entendendo? Veja, não tenho mais dinheiro. Eu te paguei para me levar até a fronteira.  O motorista cutucou-a no ombro com o indicador. Fim da linha para americanos. Tornando a arrancar a sacola da bagageira, o motorista atirou-a com toda força no peito dela, quase derrubando-a, e obrigando-a a recuar cambaleando uns passos para trás. Em seguida, ele contornou o carro, reassumiu o posto à direcção, engatou a primeira velocidademarcha e saiu em disparada, com o velho Fiat derrapando na areia pedregosa.
Não acredito que isto esteja acontecendo, queixou-se ela. Desalentada, Cotten soltou a sacola ao lado da outra e, ajeitando uma mecha dos cabelos cor de chá atrás da orelha, acompanhou com o olhar as lanternas traseiras do táxi até que desapareceram na distância. O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de Janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo, Cotten abriu a outra sacola, tirou um casaco impermeável em estilo militar e vestiu-o. Para se aquecer, saltitou no lugar, as mãos enfiadas até ao fundo dos bolsos. A escuridão, brusca como o rude iraquiano, caía de repente sobre o deserto. Bem que alguém poderia aparecer..., precisava aparecer, ela pensou. Passaram-se dez minutos sem nenhum sinal de outro veículo. Finalmente, ela resolveu pegar as sacolas e começar a andar. Os pedregulhos e a areia rangiam como pedaços de vidro sob as suas botas de acampamento. Relanceou o olhar para trás, desejando ver o brilho de faróis, mas nada se destacava no deserto escuro e árido. Não sei o que me deu para confiar naquele sujeito, resmungou, a voz soando áspera no ar seco.
Alguma coisa o motorista devia ter escutado no rádio para ficar tão fora de si. Cotten sabia que as forças armadas americanas se preparavam para uma invasão. Havia uma semana que corriam rumores entre os jornalistas da comunicação social estrangeira de que ressoavam cada vez mais alto os tambores de guerra em Washington e Londres. Não era nenhum segredo que algumas equipas avançadas das forças americanas e britânicas tinham-se infiltrado no país. Podia ser que a invasão acontecesse meses depois, mas era difícil esconder a concentração de tropas nos países árabes que faziam fronteira com o sul do Iraque. O noticiário árabe local vivia coalhado de imagens das Forças Especiais e dos fuzileiros navais aparecendo e desaparecendo no meio da noite. Testemunhavam-se, até mesmo, sobrevôos estratégicos de caças, assim como a presença de aeronaves do tipo Predator, avião guiado por controle remoto que não leva tripulação, e de reconhecimento de alta altitude, para testar os graus de vulnerabilidade das instalações de mísseis e de radares iraquianos. Cotten acomodou a alça de uma das sacolas no ombro.
A culpa é toda sua, queixou-se. Quem mandou ser tão cabeça-dura? Algumas semanas antes, ela se encontrava na sala do chefe de reportagem da SNN, Ted Casselman, implorando que a designasse para cobrir os efeitos das sanções económicas sobre as mulheres e as crianças do Iraque. Seria uma história marcante, pensava, e não a incomodava a instabilidade crescente da região. Os americanos precisavam ser informados sobre as consequências das sanções económicas sobre os inocentes. Além disso, argumentou com Casselman, se os Estados Unidos tinham planos de atacar o Iraque, ela queria estar lá, pronta para registar os factos, no epicentro dos acontecimentos. Cotten também não mencionou que precisava ficar um tempo afastada de Thornton Graham. Não disse nada a Casselman porque sabia que não suportaria se tivesse de se explicar. A ferida emocional ainda estava aberta. O pedido para a viagem fazia sentido por si, vindo de uma repórter ávida e ansiosa, e ela queria uma missão que ganhasse as manchetes mundiais.
A Satellite News Network não enviava focas em missões em lugares tão instáveis, Casselman insistiu com ela várias vezes. Sim, ele admitia, ela possuía talento e prometia bastante. Sim, ele achava que conseguiria suportar a pressão. E sim, ele concordava que uma missão no Médio Oriente no momento era uma oportunidade perfeita para impulsionar uma carreira de sucesso. No entanto, ela não só era uma repórter iniciante, mas também era mulher, e uma mulher no Iraque na situação do momento estava fora de questão. Assim que a guerra começasse, os únicos jornalistas presentes seriam os escolhidos antecipadamente pelos militares e viajariam junto com as tropas. E eles deviam ser apenas do sexo masculino. As regras eram claras, a resposta era não. Ela ficou furiosa e iniciou um grande discurso sobre a injustiça de tudo. Casselman cortou-a com outro firme Não. Depois de se acalmar, Cotten finalmente conseguiu que ele concordasse que ela acompanhasse um grupo de repórteres até ao limite máximo da fronteira com a Turquia. De lá, ela cobriria a situação dos refugiados que estavam se dirigindo para o norte desde o início do conflito. Ele ficou furioso quando soube que ela tinha ido para Bagdad. Então ligou naquela manhã, ordenando que ela saísse de lá». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 26 de julho de 2020

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «Descanse o coração. Ela deve estar a chegar. Se calhar, tem o talento do pai para entradas tardias e espectaculares, declarou dona. Laurentina»

jdact

A Fundação. Sábado, 16 de Junho de 2002
«(…) Nervoso, João Pedro levou o copo à boca, deu um gole no Quinta de Camarate e disse: todos temos de ganhar a vida. Pela forma gélida como o olharam, sentiu desprezo geral pelo seu pragmatismo profissional. E é verdade o que dizem dele?, perguntou dona Laurentina. Dizem tanta coisa dele, respondeu João Pedro, evasivo. Que é maçon..., murmurou dona Laurentina, arrumando no prato os talheres de peixe, com nojo, como se fossem eles o alvo da sua repugnância. Não faço ideia, disse João Pedro. Num ano, nunca me quiseram iniciar. Ouviu-se um murmúrio, quase despercebido: talvez seja um templário... O pintor Afonso debruçou-se para a frente, como que evitando ser escutado pelas outras, acto desnecessário, pois o barulho na tenda era intenso, e usou um tom confidencial: disseram-me que ele anda com o fisco à perna. Everybody knows, confirmou Raulzito, penteando a melena loura, num gesto afectado. Como vê, abundam os rumores sobre o seu patrão, comentou dona Laurentina, piscando o olho ao pintor, numa súbita e até inesperada reconciliação.
Ao menos a si paga-lhe a horas?, provocou o professor Bernardino, sorrindo. Não me posso queixar, confessou João Pedro. O João Pedro tem uma relação muito boa com o doutor Marcos Portugal, contou Inês. E ainda melhor com a filha dele, não é João Pedro? O que era isto, pensou João Pedro? Estaria Inês apostada em arruinar-lhe a noite? É hoje que ficamos a saber se há namoro?, perguntou Francisco, também divertido com o embaraço visível de João Pedro. Não sei... Por acaso estou preocupado, ela ainda não apareceu, contou João Pedro, olhando para o lugar vazio a seu lado, guardado para Mariana Portugal.
Descanse o coração. Ela deve estar a chegar. Se calhar, tem o talento do pai para entradas tardias e espectaculares, declarou dona. Laurentina, e o pintor Afonso, agora já claramente um aliado da senhora, deu uma curta gargalhada. Nesse momento, os empregados, vestidos de smoking (casaco branco), começaram a servir o prato principal. Lombo e batatinhas interromperam o embaraço público de João Pedro, mas não a sua perturbação interior. Porque continuava Mariana sem chegar? Desde as seis da tarde desse sábado, hora a que Inês falara com ela, e para já Inês era a última pessoa que tinha falado com ela, ninguém sabia do seu paradeiro. É estranho..., comentara Inês ao sentarem-se à mesa. Falei com ela às seis. Disse-me que não vinha à missa, mas devia estar cá por volta das sete e meia. Já falaste para casa? Já falara, sem resultado. Mariana morava no Restelo, o casamento era numa quinta em Sintra, a viagem era coisa para demorar meia hora. Teria adormecido? Era pouco provável, mas possível. As restantes possibilidades eram mais desagradáveis. Há uma coisa que me está a preocupar, observara Inês. Ela estava assustada. Disse-me: há bocado, bateram-me à porta dois homens. Não tinham nada bom aspecto... Eu perguntei-lhe o que eles queriam e ela respondeu: não sei, disseram que andavam à procura de não sei quem, mas acho que estavam a mentir. Ela estava em casa?, perguntara João Pedro.
João Pedro, já bebeste? Não te acabei de dizer que os homens tinham batido à porta? Claro que estava em casa! Inês abanara a cabeça, exasperada com a sua distracção. Mas não era uma distracção. Uma frase perturbara João Pedro. Mariana dissera terem-lhe batido à porta. Ora, bater à porta não é costume num prédio de vários andares. O normal é que toquem à campainha, se não à da porta da frente, pelo menos à porta do apartamento. Para mais, Mariana vivia num prédio com porteiro permanente na entrada. Como é que dois homens tinham entrado sem que o porteiro a avisasse? Você parece atormentado, comentou o professor Bernardino, trazendo-o à terra. Só os dois estavam agora sentados à mesa. Os outros tinham ido servir-se das sobremesas. João Pedro encolheu os ombros. É por causa da rapariga?, perguntou o professor, indicando com os olhos o lugar vago». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

Sonho Febril. George R.R. Martin. «O senhor quer entrar no negócio dos barcos a vapor, é isso?, disse ele, inclinando-se para a frente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saint Louis, Abril de 1857
«(…) Até cumprir o resto de seus dias, Abner Marsh relembraria aquele momento, aquela primeira vez em que olhou dentro dos olhos de Joshua York. Quaisquer que fossem seus pensamentos naquela hora, quaisquer que fossem os planos que tivesse feito, foram sugados pelo redemoinho dos olhos de York. Rapaz e senhor, dândi e estrangeiro, todos eles sumiram naquele instante, e sobrou York, o homem apenas, seu poder, seu sonho, sua intensidade. Os olhos de York eram cinza, impressionantemente escuros num rosto tão pálido. Suas pupilas eram pontas de alfinete, de um negro abrasador, e penetraram directo em Marsh como se avaliassem com minúcias a sua alma. O cinza em volta daquelas pupilas parecia vivo, móvel, como um sapo no rio numa noite escura, quando as margens ficam indistintas e as luzes somem, não havendo nada no mundo a não ser seu barco e o rio e a neblina. Naquelas névoas dos olhos de York, Abner Marsh viu coisas, vislumbres fugazes que logo se perdiam. Havia uma inteligência fria espreitando por aquelas névoas. Mas havia também uma fera, escura e assustadora, acorrentada e raivosa, irada em meio à neblina. Gargalhada, solidão, paixão cruel: York tinha tudo isso em seus olhos. Mas acima de tudo havia força neles, uma força terrível, uma intensidade tão inexorável e impiedosa como o gelo que esmagara os sonhos de Marsh. Em algum lugar daquela neblina, Marsh podia sentir o gelo se movimentando, lento, muito lento, e ouvir o assustador estilhaçar de seus barcos e de todas as suas esperanças.
Naquele dia, Abner Marsh superou muitos homens com seu olhar, e ficou encarando York o maior tempo possível, com a sua mão segurando a bengala com tanta força que teve medo de parti-la em duas. Mas finalmente teve que desviar os olhos. O homem na mesa afastou a sopa, gesticulou e disse: capitão Marsh. Estava aguardando-o. Por favor, acompanhe-me. Sua voz era jovial, educada, fluente. Sim, disse Marsh, baixinho demais. Puxou a cadeira em frente da de York e acomodou-se. Marsh era um homem grande, com mais de um metro e oitenta, e cento e trinta quilos. Tinha um rosto avermelhado, uma barba densa e preta, que ele usava para dissimular um nariz achatado, afundado, e uma profusão de verrugas no rosto, mas nem a barba ajudava muito. Comentavam que era o homem mais feio do rio, e ele sabia disso. No seu pesado casaco azul de capitão, com a sua fileira dupla de botões de metal, era uma figura bruta e imponente. Mas os olhos de York haviam drenado a sua petulância. O homem devia ser um fanático, concluiu Marsh. Já vira olhos como aqueles antes, em loucos, em pregadores religiosos agressivos e uma vez no rosto de um homem chamado John Brown, na sangrenta Kansas. Marsh não queria contacto com fanáticos, com pregadores ou abolicionistas, ou com gente fazendo campanhas de abstenção alcoólica. Mas, quando York falou, não pareceu um fanático. Meu nome é Joshua Anton York, capitão. J. A. York nos negócios, Joshua para os amigos. Espero que possamos ser não só parceiros nos negócios, mas amigos, com o tempo. Seu tom era cordial e razoável. Veremos, disse Marsh, indeciso. Agora, os olhos cinza à sua frente pareciam neutros e vagamente divertidos; seja lá o que tivesse visto neles, já se perdera. Sentiu-se confuso. Penso que recebeu a minha carta? Estou com ela aqui, disse Marsh, puxando o envelope dobrado do bolso de seu casaco. Quando a oferta chegou, parecera-lhe um impossível golpe de sorte, a salvação para tudo o que ele julgava perdido. Agora, porém, não tinha mais essa certeza. O senhor quer entrar no negócio dos barcos a vapor, é isso?, disse ele, inclinando-se para a frente.
Um garçom apareceu. O senhor vai comer com o senhor York, capitão? Por favor, acompanhe-me, York incentivou. Acho que sim, disse Marsh. York podia superá-lo encarando-o por mais tempo, mas ninguém no rio ganhava de Marsh na mesa. Vou tomar um pouco dessa sopa e também uma dúzia de ostras e uns dois frangos assados com batatas e tudo mais. Por favor, bem tostadas. E alguma coisa para beber. O que está tomando, senhor York? Borgonha. Óptimo, traga-me uma garrafa do mesmo. York olhou, divertindo-se. O senhor tem um apetite e tanto, capitão. Para combinar com uma cidade formidável, disse Marsh com cuidado, e um rio formidável, senhor York. A gente precisa manter a nossa força em dia. Isso aqui não é Nova York, tampouco Londres. Disso já estou suficientemente a par, disse York. Bem, espero que sim, já que está no negócio dos barcos a vapor. Trata-se da coisa mais formidável que existe.
Devemos entrar directo nos negócios, então? Bem, o senhor tem uma linha de barcos de passageiros. Quero comprar um barco e dividir meio a meio. Como o senhor veio até aqui, imagino que tem interesse na minha oferta. Estou razoavelmente interessado, Marsh concordou, e razoavelmente confuso também. O senhor parece um homem inteligente. Acho que deve ter-se informado a meu respeito antes de me escrever esta carta. Ele bateu na carta com o dedo. Talvez já saiba que esse último Inverno quase me arruinou.
York não disse nada, mas algo no seu rosto convidou Marsh a continuar. A Companhia Fevre de Vapores Fluviais, é isso o que eu sou, Marsh prosseguiu. Chamei-a assim por causa do lugar onde nasci, lá no alto do Fevre, perto de Galena, não porque trabalhe apenas nesse rio, pois não é assim. Tive seis barcos, operando principalmente no alto Mississippi, de St. Louis até St. Paul, com algumas viagens subindo o Fevre, o llinois e o Missouri. Estava indo muito bem, acrescentando um ou dois barcos novos a cada ano, pensando em entrar no negócio também em Ohio, ou talvez até em New Orleans. Mas em Julho, o meu Mary Clarke teve uma caldeira estourada e pegou fogo, perto de Dubuque; queimou até a linha d’água, com cem mortos. E este Inverno, foi um inverno terrível, fiquei com quatro de meus barcos estacionados aqui o inverno todo, em St. Louis. O Nicholas Perrot, o Dunleith, o Sweet Fevre e o meu Elizabeth A., novinho, apenas quatro meses de serviço e um barco muito bom também, quase trezentos pés de comprimento, com doze grandes caldeiras, rápido como qualquer barco a vapor no rio. Estava realmente orgulhoso da minha Lady Liz. Custou-me duzentos mil dólares, mas valeu cada centavo». In George R.R. Martin, Sonho Febril, 1982, Saída de Emergência, 2018, ISBN 978-989-773-091-7.

Cortesia SdeEmergência/JDACT

sábado, 25 de julho de 2020

O Leopardo. Tomasi di Lampedusa. «Mas o jardim, refreado e macerado entre aquelas barreiras, exalava perfumes untuosos, carnais, levemente pútridos, como os líquidos destilados das relíquias de certos santos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Maio. 1860
«(…) Os raios do sol poente daquela tarde de Maio incendiavam a tez rosada e os cabelos cor de mel do Príncipe. Eram estes que denunciavam a origem alemã de sua mãe, aquela princesa Carolina cuja soberba, trinta anos atrás, havia enregelado a Corte um tanto negligente das Duas Sicílias. Mas no sangue fermentavam-lhe outras essências germânicas, e estas mais incómodas para um aristocrata siciliano, naquele ano de 1860, de que podiam ser atraentes numa pele clara e uns cabelos loiros no meio daquela gente de pele olivácea e cabelos negros. O seu temperamento autoritário, uma certa rigidez moral, a sua propensão às ideias abstractas, no ambiente moral um tanto mole da sociedade palermitana, haviam-se mudado, respectivamente, em tirania caprichosa, perpétuos escrúpulos morais e desprezo pelos seus parentes e amigos, os quais lhe pareciam andar à deriva nos meandros do vagaroso rio do pragmatismo siciliano. Ele era, numa família que, durante séculos, não havia nunca sequer sabido fazer a soma das despesas e a subtracção das dívidas, o primeiro e último a possuir uma forte e mais que notória inclinação para as ciências matemáticas. O Príncipe havia-as aplicado à astronomia e, desta forma, obtido com elas razoáveis sucessos públicos e belíssimos prazeres privados. Com efeito, a tal ponto, nele, o orgulho e a análise matemática se tinham associado, que alimentava a ilusão de que os astros obedeciam aos seus cálculos (como aliás pareciam fazer) e que os dois planetas que havia descoberto (chamara-lhes Salina e Esbelto em homenagem à sua propriedade e a um inesquecível perdigueiro) propagavam a fama da sua casa nas estéreis plagas do céu entre Marte e Júpiter. E, assim, os frescos da villa representariam mais uma profecia que a adulação de um pintor. Solicitado, por um lado, pelo orgulho e intelectualismo materno, por outro, pela sensualidade e condescendência do pai, o nobre Príncipe Fabrício vivia, sob a carranca de Zeus, em perpétuo descontentamento, entregando-se à contemplação da ruína da sua raça e do seu património sem dar mostras de qualquer actividade e, o que é mais, sem tentar pôr-lhe um termo. Aquela meia hora entre o rosário e o jantar era um dos momentos menos irritantes do dia e, horas antes, já de antegozava-lhes a calma equívoca.
Precedido de um Bendicó excitadíssimo, desceu a pequena escada que conduzia ao jardim. Encerrado entre três muros e um dos lados da villa, esta clausura conferia-lhe um ar de cemitério, acentuado ainda mais pelos montículos paralelos que ladeavam os pequenos canais de irrigação e que lembravam túmulos de gigantes magríssimos. Na argila avermelhada as plantas cresciam em espessa desordem; as flores surgiam ao deus-dará e as sebes de murta pareciam ali dispostas mais para impedir que para dirigir os passos. Ao fundo, uma Flora, manchada por líquenes amarelo-negros, exibia, com resignação, os seus mimos mais que seculares; de cada um dos lados um banco sustentava uma almofada bordada, comprida e enrolada, talhada, também ela, em mármore cinzento. A um canto, o oiro de uma acácia introduzia uma nota de alegria intempestiva. De todos aqueles torrões emanava uma sensação de beleza depressa amortecida pela indolência. Mas o jardim, refreado e macerado entre aquelas barreiras, exalava perfumes untuosos, carnais, levemente pútridos, como os líquidos destilados das relíquias de certos santos; o perfume apimentado das violetas sobrepunha-se ao aroma convencional das rosas e ao oleoso das magnólias que se concentravam nos cantos. Muito ao de leve, percebia-se ainda o perfume da hortelã-pimenta misturado ao aroma infantil da acácia e ao cheiro a confeitaria da murta. O perfume de alcova das primeiras flores das laranjeiras do pomar transbordava por cima do outro muro. Era um jardim para cegos. A vista constantemente se ofendia, mas o olfacto, esse, podia extrair dele um prazer violento, embora grosseiro. As rosas Paul Neyron, cujas estacas ele próprio adquirira em Paris, haviam degenerado. Primeiro estimuladas, depois extenuadas pelos sucos vigorosos e indolentes das terras sicilianas, queimadas por Julhos apocalípticos, haviam-se transformado numa espécie de couves cor de carne, obscenas, que destilavam, porém, um aroma denso, quase desonesto, que nenhum criador francês teria ousado esperar. O Príncipe levou uma delas ao nariz e foi como se aspirasse a coxa de uma bailarina da Ópera. Bendicó, a quem em seguida a ofereceu, retraiu-se nauseado e apressou-se a ir procurar sensações mais saudáveis no meio do estrume e das lagartixas mortas.
Para o Príncipe, porém, aquele jardim perfumado foi causa de obscuras associações de ideias. Agora, sim, cheira bem, mas há um mês... Recordava a repugnância que as baforadas adocicadas haviam espalhado por toda a villa antes que tivesse sido removida a sua causa: o cadáver de um jovem soldado do Batalhão de Caçadores 5 que, ferido na escaramuça de S. Lourenço, contra as tropas rebeldes, tinha vindo morrer, sozinho, debaixo de um limoeiro. Haviam-no encontrado de bruços, no meio do trevo espesso, o rosto mergulhado no sangue e nos vómitos, as unhas cravadas na terra, coberto de formigas; sob as bandoleiras os intestinos violáceos haviam formado uma poça de lama. Tinha sido Russo, o guarda, a encontrar aquela coisa desfeita, a voltá-la, a cobrir-lhe o rosto com o seu lenço vermelho e, com um pau, a meter as entranhas para dentro do rasgão do ventre e cobrir depois a ferida com as abas azuis do capote, cuspindo continuamente de nojo, não precisamente em cima mas bastante perto do cadáver. Tudo isto com uma habilidade cuidadosa. O fedor destes malandros não pára nem quando estão mortos, dizia. E fora tudo o que comemorara aquela morte solitária». In Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, 1958, Dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-467-6.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

O Advogado de Deus. Zibia Gasparetto. «Eram amigos há vários anos. Ele era um engenheiro especializado em construção naval. Sua empresa construía navios não só para companhias mercantes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você vive rodeado de pessoas conhecidas nas quais não confia e critica pelas costas. Amigo, para mim, é outra coisa. Agora você está sendo radical. Claro que tenho amigos! Mas sei até onde posso ir com cada um deles. São seres humanos, não é, pai? Isso mesmo. Um dia verá que tenho razão. Daniel sorria e não argumentava. De que adiantaria? Ele não era ingénuo como seu pai dizia. Tinha perspicácia para perceber as fraquezas e os limites de cada um, mas por causa disso não era insensível a ponto de ignorar as suas qualidades. Pensava que era mais produtivo incentivar essas qualidades do que ficar criticando e mostrando as falhas. Na adolescência, sempre que alguém criticava uma falha sua, sentia revolta e rancor. Não errava de propósito, mas por não saber fazer melhor. Sentia que as críticas não o ajudavam em nada, davam-lhe apenas uma visão de incapacidade que se ele aceitasse acabaria por incapacitá-lo ainda mais. Maria Alice preocupava-se com as ideias do filho, ao que António respondia: ele é jovem. Isso passa. Vai amadurecer com o tempo. Não sei, não. Às vezes ele me parece tão ingénuo... Não enxerga a maldade. Relaciona-se com qualquer um. Não valoriza nossa classe social. Tem a boa-fé dos moços. O que acha que ele vai encontrar relacionando-se com gente sem cultura ou boa educação? É inteligente. Vai descobrir que o nível de cada um é muito importante. Então, mudará, chegará onde nós estamos. Não se deve preocupar. Maria Alice dirigiu-se à porta principal. Um importante empresário acabava de chegar com a esposa. Ostentando o seu melhor sorriso, foi recebê-los.
Eram amigos há vários anos. Ele era um engenheiro especializado em construção naval. Sua empresa construía navios não só para companhias mercantes como para a marinha brasileira. Muito rico, casara-se com a filha de um ilustre fazendeiro de Minas Gerais, juntando os nomes importantes e as fortunas. Dos três filhos, o mais velho formara-se engenheiro e trabalhava com o pai. O segundo preferira advocacia e o mais novo não se decidira quanto à carreira. Mimado pela mãe, que lhe fazia todas as vontades, gastava o seu tempo desfilando com seu carro último modelo pelas praias da cidade, empenhando-se em gastar o dinheiro da família. Várias vezes o pai o advertira a que se moderasse, mas ele sorria e continuava. Ernesto, inconformado, pressionava a esposa: Angelina, precisa parar de dar tanto dinheiro a Betinho. Esse menino está abusando! Não estuda, não faz nada! Está errado! Ao que ela respondia sorrindo: não seja dramático! Ele é muito jovem. Tem tempo para arcar com as responsabilidades da vida! Maria Alice abraçou Angelina: como vai, querida? Bem. Que festa linda! Obrigada. E você, Ernesto, tudo bem? Tudo. Maria Alice passou o braço pelo de Angelina dizendo: passemos para o salão. António espera-o com ansiedade. Deixando Ernesto em companhia do marido, Maria Alice conduziu a amiga para um recanto agradável, convidando-a a sentar-se. Vendo-a acomodada com um copo de vinho entre os dedos e um pratinho de canapés sobre a mesinha lateral, perguntou: seus filhos virão, Angelina? Uma festa sem a alegria dos moços não tem brilho. Depois, sei de algumas meninas que os estão esperando com ansiedade. Angelina sorriu com satisfação. Ver os filhos serem admirados era a sua melhor recompensa onde quer que fosse. Andrezinho tinha um compromisso, mas ficou de vir mais tarde. Rubinho estava se preparando quando saímos, logo estará aqui. Quanto a Betinho, tem a agenda lotada. Não sei como arranja tantos compromissos. Há sempre alguém esperando por ele em algum lugar. Ficou de vir, mas sabe Deus a que horas.
Maria Alice via com prazer a presença dos dois filhos mais velhos de Angelina. Acariciava a ideia de um dia poder casar a filha com um deles. Quando falava nisso com Lanira, esta invariavelmente respondia: não penso em casar-me, mãe. Mas, se um dia resolver, será com um homem de verdade. André é engenheiro e já trabalha. Além do nome ilustre e de sua grande fortuna, é um moço bonito, fino, elegante. Qualquer moça desta cidade ficaria feliz com um partido desses! Pois que aproveitem! Ele não é o meu tipo. E Rubens? Também é formado. Embora esteja no início da carreira, a sua fortuna e seu nome bastam para que todas as portas lhe sejam abertas. Não tenho dúvida quanto a seu sucesso! É um moreno atraente, elegante! Não me interessa, mãe. Quando eu quiser namorar, posso arranjar eu mesma um pretendente. Não precisa dar-se a esse trabalho. Apesar das evasivas da filha, Maria Alice não desanimava. Os moços eram atraentes e ela acreditava que um dia, quando Lanira estivesse mais amadurecida, perceberia isso. — A qualquer hora serão bem-vindos, respondeu Maria Alice educadamente. E Daniel? Não o estou vendo. Deve estar com os amigos no jardim. Adora conversar. Já os meus preferem dançar. Já notei. Aliás eles dançam divinamente. Na outra sala, distanciados do ruído da festa, António e Ernesto conversavam animadamente. Precisamos unir nossos esforços, dizia António com entusiasmo. As eleições se aproximam. Você pode fazer muito pelo nosso partido». In Zibia Gasparetto, O Advogado de Deus, 1999, Edições Dinalivro, 2005, ISBN 978-858-587-257-1.

Cortesia de EDinalivro/JDACT

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Poesia Completas & Dispersos. Alexandre O’Neill. «São dias que nunca deviam ter saído do mau tempo fixo que nos desafia da parede dias que nos insultam que nos lançam»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ao Rosto Vulgar dos Dias
«Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,
À vida cada vez mais corrente,
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir».


O Tempo Sujo
«Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário
Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar».

Poemas de Alexandre O’Neill, Poesia Completas & Dispersos, Edição de Maria Antónia Oliveira, Assírio & Alvim, No Reino da Dinamarca, 2018, ISBN 978-972-371-947-5.

Cortesia de AssírioandAlvim/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Atrai a minha atenção uma oficina de tipógrafo. Um homem assoma à porta, a apreciar uma folha de papel acabada de imprimir»

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A porta do mundo
«(…) Rasgavam-se mais as janelas e portas, erguia-se mais um sobrado, lançava-se telhado de quatro águas, talhava-se nas traseiras a horta e o pomar, onde se abria o poço a par do tanque. A mudança das coisas significava, obviamente, a mudança nas pessoas. Algumas disposições reais revelavam a preocupação de criar aos naturais da terra condições de melhor vivenda e trabalho. Como corria o dinheiro e o comércio prosperava, havia menos privação, o luxo era uma tentação natural e, de longada, o abrandamento, senão o relaxamento dos costumes, surgia como lógica e necessária consequência. Enxameavam as ruas de gentes de muitas nações, o que se notava pelo aspecto corporal, pela maneira de vestir e pelo falar. Sinais dos tempos eram as coisas nunca vistas que levavam os transeuntes a especarem-se embasbacados arrectis auribus oculisque! Um indígena de pele bronzeada sentado no dorso de um enorme elefante, acabado de desembarcar, conduzia o pesado e bamboleante mastodonte através das ruas da cidade, oferta de um vizo-rei da Índia ao soberano. A janela de uma casa apalaçada um papagaio de ricas cores no seu poleiro era as delícias, oh!, velho Catulo!..., oh!, fumos de império!..., de grandes e pequenos a quem dizia olé. Na sombra de um caramanchão, numa gaiola pendurada saltitavam colibris vindos do Brasil. Um homem passava levando no ombro um sagui que arreganhava os dentes às pessoas com quem se cruzava e fazia momices como se fosse uma criatura trenga. Seguia eu ao longo de um comprido telheiro de duas águas, estaquei a observar os canteiros de mestre Boitaca, de escopro e cinzel nas mãos enfarinhadas do fino pó da pedra de Ançã, a lavrarem seus cantos: lindas goteiras e gárgulas diabólicas, carrancudas, pináculos esguios, nervuras de rosáceas, fustes de colunas, folhas de capitéis e tantas outras maravilhas que me faziam pensar que também em pedra se podia ser poeta. Seguiam-se oficinas operosas e barulhentas de carpinteiros e tanoeiros que não tinham mãos a medir. De um carro de bois estavam-se descarregando tábuas de madeiras raras, mogno, teca, sissó, ébano, que se empilhavam num terreiro onde se viam toros de árvores por aparelhar. Noutro ponto um entalhador esculpia finamente em madeira um retábulo para um altar e, na sua banca de trabalho, mais adiante, um ourives dava os últimos retoques numa salva de prata que reproduzia cenas de caça na selva africana, elefantes, palmares com bananas, negros tangendo suas marimbas. Montava-se além um astrolábio ou afeiçoava-se um sextante, uma balestilha. Aqui um caldeireiro batia um panelão de cobre, enquanto à porta da oficina de um latoeiro se viam pendurados baldes, lanternas de folha-de-flandres, funis, panelas, sertãs. No largo de Pampulha pedreiros ajustavam as pedras da bacia de um chafariz, em frente de um pelourinho de coluna enroscada em corda e encimada por uma esfera armilar com a cruz de Cristo. Um tapeceiro expunha preciosos tapetes persas trazidos pelas naus das índias Orientais e noutra parte da sua loja vendia colgaduras bordadas com linho de Guimarães e seda da China, que em seu lavor contavam cenas como o julgamento de Salomão ou os trabalhos de Hércules ou lavradas de aves e montaria, feitas umas em Goa, outras em Malaca e Bengala. A rainha, dizia-me ele, tem um grande salão onde mulheres e raparigas indianas tecem e bordam ricas colchas como estas. Trazem-nas os capitães das armadas e são muito hábeis lavradeiras de bastidor. Numa marcenaria havia muitas peças de fino mobiliário que acusavam também a novidade: entre mesas, camas, cadeiras, arcas e arcazes, vi um contador feito em Goa, de ébano incrustado de madrepérola, marfim e pedras preciosas.
Atrai a minha atenção uma oficina de tipógrafo. Um homem assoma à porta, a apreciar uma folha de papel acabada de imprimir: reparo nas letras góticas, em linhas muito certas, e na iluminura a vermelho. Se gostais de ver, entrai, irmão, diz-me, notando a minha curiosidade. A casa é vossa. Como se afasta um pouco para me dar passagem, entro, ao mesmo tempo que agradeço: um criado de Vossa Mercê. Germão Galhardo às vossas ordens. Digo-lhe o meu nome e relanceio a vista por toda a quadra, enquanto ele pendura com todo o cuidado a folha numa corda, ao lado de outras que estão a secar. A uma sala ampla, iluminada à esquerda por grande janelão abobadado, em cujo vão (traz obra para publicar vossa paternidade?... Se encontra uma alta estante que segura, numa e outra face, as caixas inclinadas dos caracteres tipográficos. (Escritor? Eu?...)» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Poesia Completas & Dispersos. Alexandre O’Neill. «Chorar encostada a uma saudade bem maior do que eu, que não fosse esta tristeza absurda de cada dia»

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Meditação na Pastelaria
«Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte…

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever, se tanto for preciso!

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…

(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)

Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!


Chorar…
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia…

Perdi tudo, quase tudo…

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece».

Poema de Alexandre O’Neill, Poesia Completas & Dispersos, Edição de Maria Antónia Oliveira, Assírio & Alvim, No Reino da Dinamarca, 2018, ISBN 978-972-371-947-5.

Cortesia de AssírioandAlvim/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Por toda a parte a febre da construção: eram os novos paços reais como o de Enxobregas, o de São Cristóvão, o da Ribeira, que, de certo modo, destronavam…»

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A porta do mundo
«(…) Chegamos!, dizia-me o barqueiro com insistência, vendo-me distraído, enquanto, já muito perto da margem, contornava um obstáculo e fazia manobra para acostar ao cais. Frei Fuão, chegava do alto de uma amurada o ronco de um mareante de nariz vermelho e dentes podres, passe na boa hora vossa paternidade, que com o que os meus olhos têm visto e os meus ouvidos ouvido já não hei mister vossa bênção!, e grunhia uma gargalhada avinhada que preludiava o vomito. E eu seguia pensando que também havia aí lugar para destemperos que certamente seriam frutos naturais de tempos de tanta convulsão e novidade. Desembarquei na Ribeira, junto dos estaleiros, que fervilhavam na azáfama da construção e restauro de embarcações. Perto de mim os carpinteiros pregavam já as pranchas curvas do bojo de um costado que os tanoeiros tinham afeiçoado. Mais adiante procediam calafates, manejando hábeis o maúlo, à substituição da estopa das junturas, de uma velha caravela por estopa nova que primeiro mergulhavam num caldeirão de piche para em seguida a encalcar outra vez nas juntas das tábuas com a encalcadeira. Uma nau já pronta, a madeira crua ainda por pintar, toda branca, lembrava uma criança acabada de nascer-que milagre!
Envernizava-se, mais à frente, uma outra e revestia-se, até à linha de água, de espessas chapas de breu, que fervia em enormes panelões fumegantes. Na taracena, um galeão arrombado aguardava a sua vez de ser curado das feridas havidas nas traições das sirtes... Não poucas vezes, depois, nas minhas deambulações pela cidade, vinha até ali presenciar a faina, ver uma nau, toda garrida, deslizar pela primeira vez na rampa do estaleiro e entrar baloiçante na água que chapinava. Era uma espécie de baptismo e assim o bem entendiam os mesteirais, pois esse acto era para eles uma verdadeira festa, que celebravam engalanando a nau e bebendo vinho em sua honra. Aconteceu um dia estar presente à largada de uma armada na praia do Restelo, cerimónia que a presença do rei em extremo solenizou. Cantou-se missa no recente e formoso mosteiro dos frades jerónimos e, em seguida, caminhou-se em procissão até ao areal, onde os mareantes haviam de tomar os batéis em direcção às naus, que se viam ao largo embandeiradas. El-rei e a sua comitiva já tomavam lugar no varandim rendilhado do baluarte de Belém, de cujas ameias chanfradas, no pátio em baixo, o bispo dava a bênção à armada e aos marinheiros. Era o momento mais penoso! Cenas lancinantes de lágrimas, gritos e desmaios! Mães, esposas, filhos que se tinham de desarreigar dos braços dos que partiam!... Bem se esforçavam estes por sorrir, por dizer palavras despreocupadas... Via-se-lhes bem no brilho do olhar e no embargo da fala o que lhes ia lá por dentro. Alguns, para conservarem a firmeza de ânimo tão necessária naquelas circunstâncias, não olhavam de frente os seus, fingiam-se alheados e quase não se despediam, viravam costas e metiam-se no primeiro batel que largava. Quando todos já estavam embarcados, fez-se entre a multidão da praia um grande silêncio e até aqueles que por seus ditos e resmungos se mostravam em desacordo e inconformados deixavam de se ouvir. Só voltariam a falar e a vociferar argumentos que calavam fundo em muitos dos que ficavam quando, consumado o acto, já se não avistava a armada, encoberta pela terra ultrapassada a barra. Dispersava então a multidão em pequenos grupos que, pela sua postura, procedimento e aspecto, denotavam sentimentos e opiniões diversos e até contraditórios, a tristeza, a dor, a angústia, a desolação, a raiva impotente, a euforia, o orgulho contido, a serena aquiescência, de tal modo era tamanha a incerteza do desfecho destes empreendimentos. Para muitos era um pranteado regresso, um magoado silêncio, como quando se volta do cemitério após um enterramento; para outros, um apressado e tagarelado debandar, como quem vem da romaria.
Caminhei por entre as pessoas, ao longo da margem. Um bando de rapazes entre os dez e os doze anos jogava o eixo e quando um saltava por cima do outro exclamava Vasco da Gama à Índia!, e ia amochar mais adiante. De maneira que, considerava eu com os meus botões, até nos jogos dos putos (como dizem os italianos, que tantas vezes os ouvi, em Veneza, em Trento e noutras terras, chamar pulti à rapaziada e até uma ocasião li num livro, já me não lembro qual, a mesma designação aplicada ao Menino Jesus: quando Nostro Signore era putto…, até nos jogos dos putos se notava a influência da novidade dos tempos. Volvi a vista atrás a apreciar, numa visão de conjunto, a grande mole do Mosteiro dos Jerónimos a engastar a brancura da sua pedra na verdura espessa da vertente da serra de Monsanto, e o perfil delicado do baluarte do Restelo, que enfrentava o Tejo como a proa e o castelo de uma nau altaneira e se recortava atenta no azul do céu. Esses dois monumentos a ocidente, e a Madre de Deus, que andava em obras de ampliação e enriquecimento, a oriente, fechavam os extremos por onde a cidade se estava a expandir. Por toda a parte a febre da construção: eram os novos paços reais como o de Enxobregas, o de São Cristóvão, o da Ribeira, que, de certo modo, destronavam o velho paço dos Estaus; eram os edifícios do Hospital de Todos-os-Santos e da Misericórdia, os solares da fidalguia, os armazéns, a Casa da Índia, as oficinas dos mesteirais e lojas dos mercadores, que na cidade antiga adentro das muralhas se arrumavam ordeiramente por ruas certas, do ordenamento do bom rei João primeiro deste nome, mas agora se espalhavam indisciplinadamente extramuros. Todavia era esta variedade e mistura de mesteres e mercâncias que dava a nota inédita e peculiar da cidade nova que crescia e alastrava como óleo perfumado de benjoim, pois se sentia por detrás de todo este afã e medrar a riqueza vinda do ultramar. As casas de morada enfileiravam-se em novos bairros que galgavam e desciam as colinas em redor da velha cerca. Abriam-se ruas novas e largas, mais arejadas e limpas que as vielas e betesgas antigas, tão sujas e malcheirosas, onde morava a doença e nascia a miúde a pestilência». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

Os Conquistadores de Lisboa. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Minha mãe é boa cozinheira, mas má-língua, comentou Chamoa. A esposa de meu pai viera também de Guimarães…»

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A intriga de Compostela 1140-1142
Arcos de Valdevez. Março de 1141
«(…) As minhas investigações haviam sido inúteis. Ninguém ouvira falar do misterioso monge corcunda que nos roubara o artefacto sagrado em Ourique. Mesmo assim e verdadeiramente fascinado, o imperador perguntou: haveis tocado na Lança de Cristo? Afonso Henriques contou-lhe como se apoderara da relíquia em Hisn Abi Cherif e como a erguera no ar, exibindo-a às tropas, antes da batalha de Ourique. Relâmpagos haviam caído em cima dos sarracenos, enquanto um raio de sol fazia brilhar a Lança de Cristo. Um milagre! Um milagre..., repetiu o imperador, impressionado, antes de recuperar a boa disposição e perguntar, com um sorriso matreiro. Porque não organizamos umas festividades, para celebrar o fim das guerras? Gostava de rever Chamoa... Ao meu melhor amigo, macho possessivo, não lhe agradava a proximidade entre a sua amada e o primo. Mas, se acedesse ao pedido imperial, ajudava Gomes Nunes. Chamoa só festejará se perdoardes ao pai dela. O imperador prometeu que o faria, desde que dançasse com a minha cunhada!

Queridos filhos e netos, Afonso VII era um grande rei, um guerreiro hábil e corajoso, um político audaz e sólido, mas também um mestre da palavra secreta, do sopro silencioso ao ouvido dos frágeis, um manipulador exímio das expectativas alheias. Por isso, foi um monarca tão bem-sucedido, que conseguia quase sempre atingir os seus propósitos. Aceite o acordo territorial e o reconhecimento real do primo, naquela mente felina nascia já um malicioso estratagema. Não só teria Chamoa nos seus fortes braços, como poderia soprar a tão mimosos ouvidos a sórdida intriga de Compostela...

Arcos de Valdevez, Março de 1141
Nessa noite, a maior parte dos portucalenses nem reparou na dança emocionante do imperador com Chamoa, pois estava verdadeiramente eufórica com a vibrante humilhação de Fernão Peres, que, acabrunhado, logo se retirara com as respectivas tropas, regressando aos seus domínios galegos. A belicosa família Trava fora finalmente vencida e os irmãos Bermudo e Fernão teriam de partir para a Terra Santa, onde se arrependeriam do mal que nos haviam causado. Apenas a mãe de Chamoa, Elvira Peres Trava, esteve presente na ceia, apesar de contrariada com a debandada cabisbaixa dos irmãos. O destino do marido estava por esclarecer e ela poderia ser a principal beneficiária, caso Afonso VII banisse Gomes Nunes de Tui, pois ficaria a única titular do condado da família. Agarrada com unhas e dentes ao seu estatuto, Elvira esperou com espantosa tranquilidade a decisão do imperador, apenas preocupada em criticar os repastos destinados por Teresa de Celanova. Minha mãe é boa cozinheira, mas má-língua, comentou Chamoa.
A esposa de meu pai viera também de Guimarães e tomara conta da organização da festa, a pedido de Afonso Henriques. Nas redondezas de Arcos de Valdevez, os soldados haviam caçado ursos e javalis, depois cozidos em grandes panelas e servidos aos convivas. Sopas, legumes e até mariscos pescados em Vila do Conde foram aprimorados sob a supervisão de Teresa de Celanova, mas a afiada língua de Elvira Peres Trava não parou de desprezar a falta de paladar das iguarias, o que obrigou Chamoa a pedir, mais uma vez, compreensão à organizadora. Minha mãe bebe um vaso de fel todas as manhãs, desculpai-a! A bondosa Teresa de Celanova limitou-se a encolher os ombros, pois não dava importância à antipática marafona, e o repasto decorreu alegremente, com muitos brindes de vinho galego e animadas risadas perante as actuações dos bobos e dos trovadores». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, A Intriga de Compostela, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                                                                                       
Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Ah! Ah, Ah! Cabra? Chamaste-me cabra? Ora querem lá ver que afinal não és só salamaleques! Mary levantou o copo e disse: brindemos a isso! À cabra!»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Eu, Jack Gil Mascarenhas Deane, filho de mãe portuguesa e pai inglês, nascera em Capetown, na África do Sul, onde vivera seis anos da minha infância. Depois, seguira-se Sydney, na Austrália, até aos 15. Novos projectos do meu pai e nova viagem, até Hong Kong, onde permaneci até aos 25, antes de vir para Portugal. Conhecera ao longo da vida muitas mulheres: criadas, secretárias e até amantes do meu pai. Mais tarde, vieram as prostitutas e as colegas da universidade. Tinha, pensava, um suficiente conhecimento dos temperamentos femininos. Mas estava errado. Em 1941, nunca conhecera uma mulher como Mary, nunca uma mulher me falara assim, em desafio, com hostilidade, pondo em causa a minha coragem, o meu orgulho patriótico, o meu carácter. Estava perfeitamente siderado, paralisado pela sua contundência verbal. Estás sem palavras, inglês?, insistiu ela. A tua diplomacia, a tua educação, não te dizem como responder? O que é preciso para te fazer estremecer? Meu Deus, pareces um figurante do teatro!
Mary estava, definitivamente, lançada. Não sabia o que despertara aquela explosão, e não sabia como contê-la. Fiquei ali, a olhar para ela, sem palavras. Seria aquilo um teste, a sua estratégia de recrutamento? Mary encolheu os ombros, decepcionada: só me saem destes... Achas que, se eu quisesse vir sozinha para casa, não tinha chamado um táxi? Meses mais tarde, estas estranhas mudanças de temperamento de Mary, os seus arranques como eu lhes chamava, tornaram-se compreensíveis para mim. Quanto mais a sua vida e a de James Bowles se iam tornando perigosas em Lisboa, mais instável ela ficava.
Mas, naquela primeira noite, a forma desabrida como me falou pareceu-me conversa de desmiolada e bêbada. Mary, perguntei, o que foi que eu disse que te incomodou tanto? Ela deu uma gargalhada histérica: oh!, sempre um cavalheiro, e imitou a minha voz. Mary, o que foi que eu disse que te incomodou tanto? Depois, regressou ao seu tom impulsivo, hostil, agressivo: acorda, Jack Gil! Estamos em guerra! Na guerra não há cavalheiros, só homens duros e maus. Homens que atiram bombas para cima de cidades! Homens que querem matar nazis!
Diz-me, cavalheiro Jack Gil, porque é que não foste à guerra? Debrucei-me para a frente no sofá e expliquei-lhe: já tenho 30 anos, não fui chamado. Além de que sou filho de mãe portuguesa. Ela fez um gesto de desprezo com a mão: logo vi. És um cobardolas, imitou-me de novo. Sou filho de mãe portuguesa. Os nossos rapazes a sangrarem nas areias dos desertos de África, os pilotos da RAF a caírem como patos mortalmente atingidos e tu, sou filho de mãe portuguesa, já tenho 30 anos. Piff, bem diz o James que a nossa fibra se está a perder. Os nazis não pensam assim, sabes? O Hitler diz-lhes para eles se atirarem a nós e eles fazem-no, pelo Terceiro Reich! E tu: tenho 30 anos, não fui chamado. Não tens vergonha?
Uns anos antes, o meu pai dissera-me o mesmo. Queria que eu fosse para Inglaterra alistar-me na Royal Navy. Recusei. Preferia os bordéis de Hong Kong e mais tarde o Casino do Estoril. Morrer não era ideia que me agradasse, mesmo que fosse pela pátria. Só que, agora que a guerra estava no auge, consumia-me um sentimento de culpa. Sentado atrás de uma mesa de mogno no escritório da companhia de navegação do meu pai, numa rua próxima do Cais do Sodré, não contribuía em nada para mudar o curso daquela guerra estúpida. Muitas vezes perguntara a mim próprio o que poderia fazer, mas nada me ocorria. Perante o desafio de Mary, sentira-me por momentos útil. Ouvir estas palavras, cruéis mas certeiras, irritava-me e explodi: Mary, disse há pouco que te ia ajudar, que ia falar com o Nubar! Porque me estás a humilhar? Sim, não me alistei! Sim, nunca fiz o que o meu pai me pediu, ir para Inglaterra lutar! Mas isso já é passado! Agora, aqui em Lisboa, estou pronto para ajudar a Inglaterra nesta guerra!
Ela escarneceu de mim: olha, de repente temos herói. Vai falar com uma pessoa num hotel chique de Lisboa e já diz que está pronto para ajudar a Inglaterra nesta guerra! Que nobre, que digno! Pobre Jack Gil. Bem vestido, anda de Citroen, noivo de uma portuguesinha de boa família, amiga de Salazar.
Ofendido, esbocei o gesto de me levantar do sofá. Mary murmurou, sibilina: ó pobrezinho, queres ver que o magoei? Falei na noivinha... Gritou, como uma mãe berra à criança que praticou um disparate: pára de te portares como um palerma, Jack Gil! Age como um homem, responde-me à letra, e não te ponhas para aí com delicadezas!
Talvez fosse isso que Mary quisesse, que eu entrasse num combate verbal com ela. E confesso que, embora à superfície aquela verborreia me estivesse a incomodar, aqueles termos provocavam em mim alvoroço. Era como se a trepidação que emanava dela me estivesse a acordar energias, como se um redemoinho me puxasse, e sentia vontade de lhe ripostar, de a agredir de volta. Foi o que fiz.
Mary, já me tinham dito que eras uma cabra.
Um insulto. Em 1941, as pessoas não usavam tanto os palavrões como usam hoje, quando já os banalizaram. Em 41, um insulto era uma coisa grave. Contudo, ao longo da vida fui compreendendo que a atracção sexual entre homens e mulheres é cheia de mistérios, e um deles é que os insultos entre seres que se desejam são por vezes naturais. Trata-se de actos drásticos, destinados a despertar o irracional das pessoas, o seu lado mais violento, apaixonado e animal.
Ah! Ah, Ah! Cabra? Chamaste-me cabra? Ora querem lá ver que afinal não és só salamaleques! Mary levantou o copo e disse: brindemos a isso! À cabra! Vá lá, inglês, filho de mãe portuguesa, bebe um copo à saúde desta cabra maluca! Depois, sorriu com malícia e perguntou: também dizes palavrões durante o sexo? Julgo que corei, pois ela apontou imediatamente o dedo para a minha cara e gritou: estás a corar! Jack Gil, tu dizes palavrões durante o sexo! Tu, o atencioso, o cavalheiro, o noivinho, dizes palavrões durante o sexo! Por instantes, o verniz da civilização era um porto seguro, aonde eu queria regressar desesperadamente. Estava enervado e inseguro. Mas, ao mesmo tempo, desejava possuí-la. O que é que tu lhes chamas, inglês filho de mãe portuguesa?, perguntou. O que é que dizes às mulheres quando lhes falas ao ouvido? Vá lá, Jack Gil! Se vamos trabalhar juntos temos de confiar um no outro. O que é que lhes dizes? Que obscenidades? Então, pela primeira vez na vida, contei a uma mulher o que dizia às outras mulheres quando as possuía». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT