quarta-feira, 23 de junho de 2021

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «No deque, estendidos em espreguiçadeiras, os passageiros conversam. Não todos com todos. Basta encostar a cadeira de determinada forma para afastar os inoportunos»

 


Cortesia de wikipedia e jdact

A bordo do Équateur, Novembro de 1864

«(…) Na primeira noite, jantámos com o comandante. Ele nos falou sobre as mudanças no império. Armazéns cheios até à boca de ouro verde. O café plantado e colhido por negros. Será muito diferente da servidão que tivemos na Rússia? Nosso czar Alexandre II acabou de libertá-los. Banidos de suas terras, antigos servos encherão as ruas de Petersburgo e Moscovo. A diferença é que aqui haverá riqueza, maman, riqueza que virá com o café. Mais, terras. Terras como tínhamos na Rússia. Servos substituídos por escravos africanos. Deixamos de lado o continente despovoado graças aos rigores do clima, as costas estéreis de mar frio e vazio, a tristeza do solo, tudo o que congela o coração, para trocar pelo sol e pelas promessas do eterno verão. Há fortuna a fazer. O rio Paraíba, grande como o nosso Neva, irriga as terras da família de Luís César. Dizem que é a principal artéria a bombear sangue para o coração do império.

Nossa travessia já dura três semanas, pouco mais. Os arquitectos do vapor se esforçaram para reconstituir a atmosfera de uma casa burguesa ou de um club inglês. As salas de jantar e o salão se confundem. Os passageiros jantam numa mesa comprida com cadeiras fixas que mais parece uma mesa de banquete. Num canto, o piano alegra o cair da tarde. Fora daí, homens e mulheres separados. Para elas, uma saleta com confortáveis sofás abriga conversas, jogos e trabalhos manuais. Para nós, a intimidade do fumoir protegido por janelas escuras, onde degustamos vinho do Porto e charutos.

Passo a maior parte do tempo na estreita cabine, fazendo planos para o futuro. A higiene é rudimentar e o ar confinado. O regulamento é rigoroso e o medo de incêndios impõe a prudência. Às onze da noite é preciso apagar as lâmpadas de gás, suspendidas do tecto. É proibido fumar fora da área determinada. Moralidade e segurança andam juntas: são proibidos os jogos de azar e o acesso de senhoras que não tenham reputação ilibada à primeira classe. Quando posso, saio para respirar ar livre. As distracções são pobres: whist, damas, dominó, desenho ou leitura. Os sul-americanos se tornam barulhentos, sobretudo quando jogam o tric-trac. Brigam a ponto de parecer estar iminente uma luta corporal.

No deque, estendidos em espreguiçadeiras, os passageiros conversam. Não todos com todos. Basta encostar a cadeira de determinada forma para afastar os inoportunos. Frequentáveis? Só um inglês que, tendo ouvido falar em diamantes, vai ao Brasil para explorar pedras preciosas e um francês, correspondente da Revue des Races Latines, ambos apavorados com os surtos de febre amarela na capital. No porão seguem uns pobres colonos alemães, a quem prometeram um mundo de riquezas. Na primeira classe, criados em uniforme branco garantem nosso conforto. Aproveito para repetir algumas palavras em português: bom dia, obrigado, por favor.

Impressionei Luís César ao ostentar restrição em relação aos demais viajantes. Com antecedência, reservei nossos lugares. E em vez de nos misturarmos à maciça mesa em que jantamos com o comandante, preferi que fizéssemos nossas refeições numa outra, pequena, de três lugares. Isolamento, sim. Afinal, o Équateur é um teatro. Aqui nos identificamos, nos reconhecemos e somos parte de uma restrita sociedade cosmopolita que desconhece fronteiras. Da Rússia para a França. E agora para os trópicos. E tenho um título que preciso fazer valer, maman.

O comandante não deixou dúvidas sobre a pobreza da Corte do império brasileiro. Sentirei falta da vida parisiense? Certamente. É sabido que até o bom Deus, quando se entedia nos céus, abre as janelas e olha os boulevards! Festas e prazeres em que as pessoas divertem os outros, se divertindo. Tudo brilha, tudo ferve, tudo se evapora e se esfuma. O entretenimento passou da Corte de Napoleão III para o Tout-Paris, que substituiu a aristocracia. E é aí que nos encaixamos, não? Sabemos como poucos que a estação hípica abre com as grandes corridas e se encerra, ao final da Primavera, com o Grand Prix. Que o Outono é tempo de caça no campo. Que só se pode ser visto no Bois de Boulogne até as treze horas. Que patinar até as dezasseis horas é para as famílias respeitáveis. Depois, tudo desanda com a chegada das demi-mondaines. Às sextas, dia de ir ao hipódromo e dia elegante para tomar um aperitivo e jantar nos boulevards, mas, nunca antes das vinte horas. Segundas e sextas, ópera. Sábados, Nouveau Cirque. À meia-noite, uma ceia no mercado dos Halles e, último toque, um copo de leite no Pré Catelan antes de se recolher. Já fui informado: aqui se deitam com as galinhas e acordam com elas». In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa,