Onde estará?
Onde estará o meu amor?»
Estou
Pensando
Cortesia de wikipedia/JDACT
JDACT, Poesia, Encantamento, Brasil,
Onde estará?
Onde estará o meu amor?»
Estou
Pensando
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«(…) Sentado nos teus ombros quase tocava os ramos dos castanheiros com a cabeça, aureolado de luz à maneira dos santos dos milagres, enquanto uma eternidade de fotografia me imobilizava o sorriso que encontro, tantos anos depois, no espelho do quarto, a troçar-me numa careta azeda: como eu cresci, caraças, como o cabelo, por meu turno, me começa a faltar também: tento calcular de memória a idade do pai nessa época (serias mais novo do que eu hoje?) e a voz baralha-lhe as contas através dos furinhos de baquelite do telefone: Ouvi dizer que ias sair uns dias. Percebia-se o ruído das máquinas de escrever do escritório, gente debruçada para as mesas, o desodorizante da secretária transformando o espaço livre, salas, paredes, corredores, num enorme sovaco depilado e morno: Já a comeste, velho? O quê?, pergunta o pai. Nada, estava a dizer que sigo agora mesmo para Tomar. Um congresso sobre o século XIX, sabe como é. A minha irmã contou-me que tinhas outra casa com outros filhos, outro televisor, outros óleos, outra mesa de gamão, outro pote de Fixador Azevichex O Produto Favorito Do Homem De Sucesso, outro jornal. Escrever é uma coisa idiota, entendes, quando não se ganha o Nobel: tira o cursozinho. Houve uma pausa e a voz do senhor careca respondeu a hesitar: Realmente nestes telefones não se percebe nada. Não tem importância, sigo agora mesmo para Tomar. Hum, rosnou o pai, desconfiado. E ele adivinhava-lhe os olhos escuros, atrás dos óculos, a calcularem sem acreditar: Tinha de mentir-te, tinha sempre de mentir-te, não suportavas que eu fosse diferente de ti, que arranhasse versos, que preferisse ser professor num péssimo liceu dos subúrbios, a uma miséria por mês, a trabalhar na companhia, composto, de gravata, como os outros da tribo. Às vezes consolava-me pensar que o homem novo e alegre, que passeava comigo na quinta, me teria entendido: íamos os dois até ao muro coberto de cacos de garrafa, e permanecíamos fascinados a olhar o saguim do vizinho, preso à casota por uma corrente de cão, a figueira suspensa sobre o poço, a tranquilidade lilás dos fins de tarde, muito para lá das estátuas de loiça do jardim e das cadeiras de lona desbotadas da família, ao acaso na relva. Os pavões da mata gritavam angustiadamente ao longe:
Têm medo da noite, explicava o
pai, têm medo de poder sonhar. Pensa O tipo que me levava às cavalitas pode bem
acontecer que percebesse, percebia com certeza: quem conhece os pavões
compreende um mau poeta à légua. Pensa Chiça, o que eu gostava de dizer e não
consigo. Pensa A ausência de coragem é uma grande por… Quando é que voltas?,
questiona o pai como se remexesse um pauzinho cruel numa ferida infectada. No
domingo, acho eu, declara ele. E emenda, irritado consigo mesmo (Como vês tenho
medo de ti, não sirvo para dirigir nenhuma empresa), numa afirmação categórica:
No domingo sem falta. Domingo era a chatice da desocupação, o quarto dos brinquedos
revolvido, o corpo a arrastar-se, maçado, pelos cantos. A mãe jogava as cartas
com as amigas, na sala, numa cintilação de pulseiras e de brincos, as bocas
pintadas conversavam, como periquitos, de filhos, de criadas, dos empregos dos
maridos. Mãe. E agora estava ali a morrer no Outono de Campolide, num quarto de
clínica, diante do tabuleiro de espinhas do almoço, que a prima colocou ao pé
da jarra das flores antes de se afundar de novo, distraída, no tricot.
Pelo
sim pelo não deixa o número de telefone aí, ordena o pai. Já sabes como estas
coisas são: pode ser que de um momento para o outro haja necessidade de falar
contigo». In António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom
Quixote, 1983, ISBN 978-972-205-020-3.
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JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, A Arte,
«(…) Cuidado, Fernanda, não se arrisque. Solicitamos à estimada assistência o máximo silêncio durante a perigosa refeição. A criatura jovial principiou a subir à manivela a cabeceira da cama, como os tipos de farda azul que esticam a mesa alemã para os exercícios de saltos. O laço, teso de goma, do avental, vibrava-lhe no rabo à laia de uma asa de borboleta aprisionada. Quem vai papar o almocinho todo, quem é?, perguntou ela no tom irritantemente divertido de uma mestra de meninos. Sopinha, pescadinha, perinha, uma delícia, a capsulazinha antes e o comprimido depois, já está. Ariops, berrou triunfalmente o pai num molinete do braço. As tuas irmãs também têm telefonado, disse a mãe a retirar cuidadosamente as espinhas em forma de aspa, muito brancas, da pescada. Esta noite, com toda a gente que garantiu que aparecia, o quarto vai ser uma sociedade recreativa em terça-feira gorda: vou-me divertir imenso. Uma orquestra de parentes idosos, de casaco de palhetas prateadas, tocava um bolero lento ao pé do lavatório, com a expressão impassível ou vagamente aborrecida dos músicos de bar. À luz velada do candeeiro de folhos da mesa de cabeceira, enodoado de manchas, as enfermeiras, os médicos, os tios graves conversavam baixinho, mastigavam croquetes espetados em palitos, aproximavam e afastavam, ao acaso, os rostos pálidos e lunares. O doutor indiano dançava com a prima do tricot num recato digno de termas, quando arredam as mesas da sala de jantar para lúgubres serões de violoncelos tristes.
Quietos, repetiu o pai, estou a
ler o jornal. A mãe sorriu inesperadamente: a infância escorregou-lhe, lenta,
ao longo da boca, como a água num desnível de tábuas: Não te preocupes, disse
ela, tratam tão bem de mim aqui. Ele saía de casa com a mala cheia de rótulos
de hotéis estrangeiros e tu ficavas sozinha, minúscula a um canto da cama
enorme, a ler grossos livros ingleses incompreensíveis, romances, histórias de
guerra, um homem e uma mulher a beijarem-se sem vergonha na capa. Voltava três,
quatro dias depois, queimado do sol, com um resto de luz estranha nas pupilas
alheadas. Eu ia vê-lo fazer a barba de manhã, em calças de pijama e tronco nu,
fascinado pelo brilho da navalha. Usava Fixador Azevichex O Produto Favorito do
Homem De Sucesso, e gargarejava impetuosamente, de nariz no ar, contra a cárie,
a piorreia e o mau hálito: Quando eu for grande mando calar toda a gente para
ler o jornal. Os cães das Amoreiras, diante da clínica, farejavam no nevoeiro
as penas da galinha, um resto de sangue, o montículo gelatinoso e repelente das
tripas. A mãe marcava o livro com um bilhete de eléctrico, apagava a luz, e eu
tinha a certeza de que os olhos dela permaneciam abertos no escuro,
resplandecentes e fixos como os dos mortos nos retratos. Um telefone principiou
a chorar como uma criança numa mesinha baixa junto dele. Sim, respondeu a prima
que se apoderou velozmente do auscultador como um elefante do seu molho de
cenouras.
Sim. Sim. Não, passou bem a
noite, o médico visita-a logo à tarde. Se houver alguma alteração eu aviso-te. O
pai, a vaga culpabilidade do pai, a preocupação distraída do pai, a amante de
que conhecia apenas a voz rouca e densa, como se uma lamparina de álcool lhe
aquecesse permanentemente a garganta. Uma vez por mês almoçavam juntos num
restaurante ao pé do escritório dele, sem falar, comendo silenciosamente num
incómodo que se apalpava, que crescia. A calva inclinada para o prato luzia
como um bule. As bochechas aumentavam e diminuíam, elásticas, enquanto mastigava,
e vinham-me à ideia dias longínquos de infância, na quinta (a sombra móvel das árvores
no chão, o odor seco das folhas e da terra), e um homem novo, magro, alegre,
cujas gargalhadas se espalhavam no sossego da tarde, trotando, comigo às cavalitas,
a caminho de casa. Pensa: Vamos voltar o filme para trás, recomeçar. A prima
tapa o bocal com a mão: Queres dizer alguma coisa ao teu marido? O talher de
peixe estremece sem responder, agarro no aparelho: Pai.
As
sílabas chegam do outro lado, dentro do seu ouvido, nítidas e precisas como as
paisagens gravadas a estilete numa placa de bronze: Como está ela? O homem novo, magro e alegre,
deu lugar a um senhor de idade que engordava, apertando constantemente os
cabelos ralos contra as têmporas: Melhor, pai, melhor. Não se preocupe». In
António Lobo Antunes, Explicação dos Pássaros, 1981, Publicações Dom Quixote,
1983, ISBN 978-972-205-020-3.
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«(…) Joana não percebeu o que tinha feito de mal, mas apercebeu-se de uma dureza estranha na voz da mãe. Sentiu que ela a mandaria regressar à sua cama se não procurasse reparar o dano. Disse, rapidamente: Falai-me outra vez dos Antepassados. Não posso. O teu pai não acha bem que eu te conte essas histórias. Estas palavras eram um misto de afirmação e interrogação. Joana sabia o que fazer. Colocando ambas as mãos sobre o coração, recitou o juramento exactamente como a sua mãe lho tinha ensinado, prometendo segredo eterno, em nome de Thor, o deus do Trovão. Gudrun riu-se e voltou a abraçar Joana. Muito bem, passarinho. Vou contar-te a história, uma vez que tens tanto jeito para a pedir. A voz dela voltou a ser carinhosa, sussurrante e melodiosa quando começou a falar de Woden, Thor e Freya e de todos os outros deuses que tinham povoado a sua infância saxónica, antes de os exércitos de Carlos Magno terem trazido a Palavra de Cristo com um banho de sangue e de fogo. Falou cadenciadamente sobre Asgard, o reino radioso dos deuses, um país com palácios em ouro e prata, que só podiam ser alcançados atravessando Bifrost, a misteriosa ponte sobre o arco-íris. A guardar a ponte estava Heimdall, o Guardião, que nunca dormia e cujo ouvido era tão apurado que ouvia a erva a crescer. Em Valhalla, o palácio mais belo de todos, vivia Woden, o pai dos deuses, sobre cujos ombros poisavam dois corvos: Hugin, o Pensamento, e Munin, a Memória. Sentado no seu trono, enquanto os outros deuses festejavam, Woden meditava sobre as verdades que o Pensamento e a Memória lhe segredavam ao ouvido.
Joana acenava com a cabeça,
contente. Esta era a parte da história que ela mais gostava. Falai-me do Poço
da Sabedoria, pediu ela. Apesar de já ser muito sábio, explicou a mãe, Woden
buscava sempre alcançar mais sabedoria. Um dia, foi ao Poço da Sabedoria,
guardado por Mimir, o Sábio, e pediu-lhe autorização para beber dele. Que preço
estás disposto a pagar?, perguntou Mimir. Woden respondeu que Mimir podia pedir
o que quisesse. A sabedoria só se adquire com dor, respondeu Mimir. Se queres
beber desta água, tens de sacrificar um dos teus olhos. Com os olhos a brilhar
de excitação, Joana exclamou: E Woden pagou, mamã, não pagou? Pagou! A mãe
acenou com a cabeça. Apesar de ter sido uma escolha difícil, Woden consentiu em
perder um olho. Bebeu a água. Depois, transmitiu à humanidade a sabedoria que
tinha adquirido. Joana levantou os olhos para a mãe, com um ar grave. Teríeis
feito isso, mamã, para ser sábia, para saber tudo? Só os deuses é que fazem
estas coisas, respondeu ela. Depois, vendo que a filha continuava a olhar para
ela insistentemente, Gudrun confessou: Não. Teria tido demasiado medo. Eu também,
disse Joana, pensativa. Mas, teria querido ser capaz de o fazer. Teria querido
saber tudo quanto o poço pudesse dizer-me. Gudrun sorriu para o rostinho
decidido.
Talvez não gostasses daquilo que
podias aprender ali. Há um ditado do nosso povo que diz: O coração de um homem
sábio raramente é feliz. Joana abanou a cabeça, apesar de não compreender muito
bem. Agora, falai-me da Árvore, disse ela, aconchegando-se mais à mãe. Gudrun
começou a descrever Irminsul, a maravilhosa árvore do universo. Encontrava-se
no bosque saxónico mais sagrado, na nascente do rio Lippe. O seu povo tinha-a
adorado até ela ter sido abatida pelos exércitos de Carlos Magno. Era muito
bela, disse a mãe. E tão alta que não se conseguia ver o cimo. Era... Interrompeu-se.
Tendo-se apercebido subitamente de outra presença, Joana levantou os olhos. O
seu pai estava parado à entrada. A mãe sentou-se na cama. Marido, disse ela. Não
esperava o vosso regresso senão amanhã. O cónego não respondeu. Pegou numa vela
de cera que se encontrava na mesa junto à porta e aproximou-se da lareira para
a acender.
Gudrun disse, nervosa: A criança
estava com medo da trovoada. Pensei que podia confortá-la contando-lhe uma história
inocente. Inocente! A voz do cónego tremia com o esforço para controlar a ira. Chamas
a uma blasfémia dessas uma história inocente? Percorreu a distância que o
separava da cama em duas passadas, pousou a vela e puxou o cobertor,
destapando-as. Joana estava deitada abraçada à mãe, meio escondida sob uma
cortina de cabelo dourado. Por momentos, o cónego ficou parado, estupefacto,
olhando para o cabelo solto de Gudrun. Depois, a fúria apoderou-se dele. Como
te atreveste! Quando eu o proibi expressamente! Agarrando Gudrun, começou a
arrastá-la para fora da cama. Bruxa pagã! Joana agarrou-se à mãe. O rosto do cónego
ensombrou-se. Desaparece, filha!, bramiu ele. Joana hesitou, dividida entre o
temor e o desejo de proteger a sua mãe, de algum modo. Gudrun empurrou-a
suavemente. Sim, larga-me. Vai depressa». In Donna Woolfolk Cross, A Papisa Joana,
2000, Editorial Presença, 2010, ISBN 978-972-232-641-4.
Cortesia de EPresença/JDACT
Donna Woolfolk Cross, JDACT, Literatura, Vaticano,
«(…) Aquela parte da casa estava às escuras e silenciosa, só se ouvindo a respiração ritmada da sua mãe. Pelo som, a criança percebeu que ela estava a dormir profundamente; o barulho não a tinha acordado. Dirigiu-se rapidamente para a cama, levantou o cobertor de lã e deslizou por baixo dele. A mãe estava deitada de lado, com a boca entreaberta; a sua respiração morna acariciou a face da criança. Esta aconchegou-se, sentindo o corpo macio da mãe através da camisa de linho fino. Gudrun bocejou e mudou de posição, desperta pelo movimento. Abriu os olhos e, ensonada, olhou para a criança. Depois, acordando completamente, estendeu os braços e abraçou a filha. Joana, repreendeu-a ela, docemente, com os lábios junto do cabelo macio da criança. Pequenina, devias estar a dormir. Falando apressadamente, com a voz elevada e tensa pelo medo, Joana contou à mãe o aparecimento da mão monstruosa. Gudrun ouviu, acariciando e abraçando a filha e murmurando mimos. Com os dedos, percorreu docemente a face da criança, tacteando no escuro. Não era bonita, pensou Gudrun, com tristeza. Era demasiado parecida com ele, com o seu grosso pescoço inglês e o grande maxilar. O seu corpinho já era atarracado e pesado e não esguio e gracioso como os do povo de Gudrun. Mas, os olhos da criança eram generosos, grandes e expressivos, com pupilas de uma linda cor verde, com pequenos anéis de cinzento-escuro no centro. Gudrun levantou uma madeixa do cabelo da sua filha e acariciou-a, apreciando a forma como ele brilhava, de um louro-claro, mesmo na escuridão. O meu cabelo. Não o cabelo preto espigado do seu marido e do seu povo cruel e escuro. A minha filha. Enrolou um fio de cabelo em volta do dedo e sorriu. Pelo menos, esta é minha. Acalmada pela solicitude da mãe, Joana descontraiu-se. Imitando a mãe, começou a puxar a longa trança de Gudrun, desfazendo-a, até o cabelo cair em torno da sua cabeça. Joana ficou a olhar para ele, espalhando-o sobre a cobertura escura, como se fosse creme. Nunca tinha visto a mãe com o cabelo solto. Por insistência do cónego, Gudrun usava-o sempre bem preso, escondido sob uma touca de linho grosso. O seu marido dizia que o cabelo de uma mulher é a rede onde Satanás apanha a alma de um homem. E o cabelo de Gudrun era extraordinariamente belo, comprido, macio, dourado, sem um único cabelo branco, apesar de já ser uma idosa com trinta e seis primaveras.
Porque é que o Mateus e o João se
foram embora?, perguntou Joana, subitamente. A mãe já lhe tinha explicado várias
vezes, mas Joana queria ouvir novamente. Sabes bem porquê. O teu pai levou-os com
ele na sua viagem missionária. Porque é que eu não pude ir também? Gudrun
suspirou pacientemente. A filha estava sempre cheia de perguntas. O Mateus e o
João são rapazes; um dia, serão padres como o teu pai. Tu és uma rapariga, por
isso esses assuntos não te dizem respeito. Vendo que Joana não tinha ficado
satisfeita com a resposta, acrescentou: Além disso, és muito nova. Joana ficou
indignada. Fiz quatro anos no Wintarmanoth!
Os olhos de Gudrun brilharam
divertidos ao olhar para o rosto rechonchudo da criança. Ah, pois, já me
esquecia que tu, agora, és uma menina crescida, não é? Quatro anos! Já és muito
crescida. Joana ficou calada, enquanto a mãe lhe acariciava o cabelo. Depois
perguntou. O que são os pagãos? O pai e os irmãos tinham falado muito de pagãos
antes de terem partido. Joana não percebia exactamente o que eram pagãos, apesar
de pensar que devia ser qualquer coisa muito má. Gudrun ficou hirta. A palavra
tinha poderes de esconjuro. Tinha sido pronunciada pelos soldados invasores,
quando tinham pilhado a casa dela e morto a sua família e amigos. Os sinistros
e cruéis soldados de Carolus, o imperador dos Francos. Magnus, como o povo lhe
chamava agora, depois da sua morte. Carolus Magnus. Carlos Magno. Será que lhe
dariam esse título se tivessem visto o seu exército arrancar os bebés dos braços
das mães, fazendo-os voltear no ar, antes de esmagarem as suas cabeças contra
as pedras?, pensou Gudrun. Gudrun tirou a mão do cabelo de Joana e virou-se de
costas. Tens de perguntar ao teu pai, disse ela». In Donna Woolfolk Cross, A Papisa
Joana, 2000, Editorial Presença, 2010, ISBN 978-972-232-641-4.
Donna Woolfolk Cross, JDACT, Literatura, Vaticano,
Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado
A Fronteira na Idade Média: Espaço de Separação ou Aproximação Populacional?
«(…) A marca era um território
onde se estacionavam comunidades, que por iniciativa régia, cuja actividade
guerreira era objectivo principal, defendendo o território de rectaguarda, ou
pelo menos sustendo uma investida inimiga. Eram então comunidades em risco
permanente, grupos populacionais que habitavam um espaço organizado e absorviam
os ataques inimigos. Estamos a falar de um espaço que, recebendo influência de
duas comunidades humanas distintas que separava, poderia adquirir características
próprias de individualização, face aos blocos em confronto. A fronteira
Islão/Cristandade era um espaço territorial e social que poderia englobar
indivíduos de religiões, sociedades e civilizações diferentes, formando uma
sociedade de fronteira bastante heterogénea, onde só se conseguem conhecer, com
alguma clareza, as elites, grupos sociais que viviam na sua maioria em centros
urbanos, onde estariam concentradas as principais actividades industriais,
comerciais e administrativas.
As informações dos achados
arqueológicos, nomeadamente os de carácter epigráfico, podem ser aqui um bom
fornecedor de informações, embora seja maioritariamente em centros
populacionais de alguma importância que se concentram os maiores núcleos de
epígrafes funerárias, estruturas feitas em mármore, embora também estejam
espalhadas um pouco por todo o sul de Portugal. Já nos locais rurais, como
Noudar, a construção de epígrafes seria em material mais modesto, devido aos
elevados custos de outros materiais, nomeadamente o mármore, que não era barato
nem acessível a todos.
A marca era ainda um espaço de um
grupo social que utilizava conhecimentos adquiridos em contextos específicos,
nomeadamente a guerra. São populações de fronteira que estão habituadas aos
rigores de um espaço que tem influências de duas comunidades beligerantes, e
que se batem pela conquista e povoamento daquele território que não possuía uma
integração territorial segura e jurisdicional do ponto de vista administrativo,
sob uma das monarquias conquistadoras. Os conhecimentos adquiridos pelas
pessoas que habitam estas áreas são mesmo requisitados pelos diversos blocos
político-militares em confronto, servindo como informação de preparação contra
incursões de ambos os lados, em busca de saque através de ataques rápidos. Como
tal, muitas dessas populações são pessoas que se distinguem das outras comunidades
integrantes na dicotomia peninsular Islão/Cristandade, sendo vistas como muito
úteis para determinados propósitos guerreiros.
Estes contactos de fronteira
desenvolveriam um bi-linguismo, em que os integrantes da marca aprenderiam a
falar como aqueles com quem contactavam, o que facilitaria a comunicação entre
grupos diferenciados numa sociedade tão heterogénea como uma comunidade de
fronteira na reconquista peninsular. Na dinâmica da reconquista portuguesa, o
povoamento e sua promoção, com o objectivo do alargamento do território
conquistado e entretanto ocupado, é uma das principais preocupações dos
monarcas da nossa primeira dinastia, pois com o alargamento das fronteiras, a
sua continuidade dos territórios conquistados nas mãos de quem os adquiriu depende
do (re)povoamento dos mesmos, onde as regiões fronteiriças têm um papel de
destaque. A importância dada a comunidades de fronteira é então primordial, pois
são estas comunidades são o suporte da manutenção das fronteiras conquistadas e
do seu alargamento». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia
Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a
Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local,
Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT
JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo,
Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado
A Fronteira na Idade Média: Espaço de Separação ou Aproximação Populacional?
«(…) As questões de fronteira são
algo ambíguas, pois normalmente vemos a palavra fronteira com possuindo um
significado divisório, actualmente é uma linha estabelecida pela sociedade
política com o objectivo de separar dois ou mais estados, duas ou mais regiões,
e também os seus povos. A origem de uma fronteira reside no movimento próprio
dos seres vivos, implicando a paragem por falta de condições vitais
necessárias, ou então significa uma paragem perante um movimento contrário, e
não uma linha fixa no tempo, como a concebemos hoje em dia. A fronteira é então
móvel e artificial, a definição de fronteira, como uma linha
político-administrativa de separação entre dois espaços geográficos, é um produto
do homem e não tem enquadramento num contexto geográfico.
Muitas vezes existe uma
continuidade física e natural dos territórios em termos geográficos, cujo fim
desses mesmos espaços são determinados fisicamente pelos chamados confins
naturais, onde a própria natureza determina o término de qualquer área geográfica
que seja de características homogéneas, e mesmo assim só se consideram
elementos de separação naturais quando ainda não foram tocados por qualquer
grupo humano. Como elemento de separação, a fronteira é um modo encontrado pelo
homem para reivindicar, de modo pacífico, direitos sobre determinado
território, reivindicações essas que passaram do interior de determinados
grupos sociais dentro de uma sociedade, para um contexto mais vasto, de grupos
sociais mais numerosos, cuja separação necessitava de um acordo de divisão de
território, surgindo assim a fronteira para dividir grupos, embora esses se
possam sentir como integrantes de um todo mais abrangente, mesmo estando
separados.
Cada conjunto populacional tinha
o seu território, que deveria organizar, criando uma coesão interna, e o seu
exclusivismo pode materializar-se em duas situações: a expansão, adquirindo
mais território, surgindo a necessidade da sua defesa. Durante a Idade Média, a
fronteira significava, não uma linha divisória entre dois estados, ideia
historicamente algo recente, mas um espaço que poderia ter dimensões
consideráveis em função da expansão ou retracção de um grupo em movimento, seja
em processo de conquista, obtendo mais território para esse grupo, cujas
necessidades de acrescentamento à sua unidade territorial podem ser de várias
ordens, como melhores terrenos agrícolas, metais preciosos, uma imposição
expansionista em relação a outro grupo menos forte economicamente ou
militarmente, e também menos coeso.
Aqui predomina então o conceito
de fronteira móvel, um espaço, ocupado por várias comunidades que se expandem,
retraem ou contêm, consoante a sua capacidade de decisão e coesão. A
necessidade de expansão surge com outra necessidade, a de um espaço vital, cujo
avanço em determinada direcção necessitava de uma capacidade demográfica
considerável para criar um grupo (ou vários) de colonos-soldados, que deveriam
ocupar o espaço deixado vago pelos antigos ocupantes, após a retirada destes
últimos. No Portugal Medieval, mais concretamente no espaço da reconquista cristã
peninsular dos séculos XII-XIII, a fronteira era enquadrável no conceito de marca,
um espaço divisório e indefinido entre dois grupos humanos (Islão/Cristandade),
que recebe influências dos mesmos corpos sociais que divide, embora também se
aproxime deles, pois pode ser gerido politicamente a partir do exterior». In
Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar,
O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em
História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras,
Departamento de História, 2007.
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JDACT, Hugo M. P. Calado, Cultura e Conhecimento, História, Alentejo,
Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado
O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
A
Historiografia Espanhola
«(…) As informações sobre este
tema são trazidas por textos de direito, que explicam o que é o Fuero del
Baylio, como apareceu e propondo diversas origens para o mesmo, nomeadamente
origem portuguesa. O Fuero del Baylio, do qual há estudos desde a primeira
metade do século XX, foi aplicado na Estremadura castelhana na Idade Média nas
suas várias localidades de fronteira, através dos conquistadores cristãos das fortalezas
do mesmo território, portugueses, castelhanos e cavaleiros templários, sendo
que estes últimos seguramente receberam a praça de Jerez de los Caballeros na
primeira metade do século XIII de mãos de Fernando III, e embora não tenham
tido autoridade imediata para concederem um foral a uma determinada localidade,
porque era uma ordem que só poderia vir de um capítulo geral da dita ordem em
consonância com a coroa. Segundo informações apresentadas por Teófilo Borrallo
Salgado, Alfonso Telles Menezes tomou Albuquerque e a repovoou por volta de 1200,
e quanto à sua possível origem em Portugal, derivada da chamada Carta da
Metade, o equivalente a este Fuero, o autor confessa o seu desconhecimento
sobre o aparecimento deste tipo de foral na sociedade familiar portuguesa e que
afinal ele não derivaria de costumes portugueses, embora, citando as Ordenações
Manuelinas de 1521, apresente informação sobre a existência da Carta da Metade
em Portugal, como normativa vigente sobre todos os casamentos feitos no reino
português, mas que ela não existiria em Portugal na altura da conquista de
Albuquerque.
No entanto, estudos mais recentes
na área do direito falam nesta lei como pertencendo à legislação portuguesa no
início do século XIII, através da qual se regeram os vassalos do conquistador
de Albuquerque, Alfonso Tellez Menezes, e que a existência do foral nesta
localidade se deve a esta personalidade, transitando esta carta de foral por
várias localidades da Estremadura Espanhola, devido à vinculação ao domínio dos
cavaleiros da Ordem do Templo. Esta ordem tinha-se instalado na Estremadura, no
Baylio de Jerez de los Caballeros, e esse mesmo local foi encarregado de
autorizar matrimónios celebrados nesta zona, daí a transição do foral por
diversos locais. Instalou-se então, na Estremadura Espanhola, uma legislação
económica e matrimonial, de origem não consensual, e que poderá ser mais antiga
do que se pensa, podendo então a Ordem do Templo e Alfonso Tellez Menezes não
ter implantado nada de novo, e sim confirmarem um costume desde tempos imemoriais.
Teófilo Borrallo Salgado indica-nos
ainda que Alfonso Telles Menezes era casado com dona Teresa Sanches, filha
ilegítima de Sancho I e de dona Maria Páez Rivera, tendo obtido esta informação
de uma história geral espanhola. A obra de Salgado é um livro com bastante
informação sobre esta carta de povoamento, que deve ser consultado. No entanto,
conta já com bastantes anos, escrevendo o autor no primeiro quartel do século
XX (1915), e recorrendo o mesmo a outras obras mais antigas, nomeadamente
portuguesas, citando mesmo Alexandre Herculano, como fonte de estudo para a
origem histórica do foral. As referências que chegam até nós sobre o Fuero del
Baylio podem ser utilizadas para uma abordagem a uma perspectiva regional, ao
termos em atenção as questões geográficas e culturais, pois este foral foi
aplicado em povoações na Estremadura espanhola, como Jerez de los Caballeros, Fregenal,
Oliva de Jerez, Valência del Mombuey (esta última tem ligação por via a
Noudar), entre outras povoações que receberam o dito foral, todas situadas na
mesma região geográfica de Noudar, o que nos é mostrado pelo mapa de Teófilo Salgado
(o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado
pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana,
embora não de uma forma contínua, indo de Albuquerque até Fuentes de León; os
autores não referem Badajoz, Mérida ou Almendralejo, povoações próximas desta
zona como possuindo este foral, talvez por serem locais de uma envergadura
maior e com uma organização interna mais cuidada, ou então por já se situarem
para dentro do território castelhano, onde a defesa e chegada de reforços para
a mesma seria mais fácil).
É importante sabermos o tipo de
povoamento do outro lado da fronteira político-administrativa, pois existem
certamente determinadas afinidades características de instalação de populações
nos dois lados da fronteira, e como tal, os artigos acima referidos são
aconselháveis em termos de consulta para estudo de questões fronteiriças,
apesar de serem artigos de âmbito jurídico, onde a questão histórica não goza
de um maior cuidado». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia
Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a
Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local,
Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT
Thanks For The Dance
«Thanks for
the dance
I'm sorry you're tired
The evening has hardly begun
Thanks for
the dance
Bride of the inspired
One-two-three, one-two-three, one
There is a
rose in your hair
Your shoulders are bare
You've been wearing this costume forever
So turn up the music
Pour out the wine
Stop at the surface
The surface is fine
We don't need to go any deeper
Thanks for
the dance
I hear that we're married
One-two-three, one-two-three, one
Thanks for the dance
And the baby you carried
It was almost a daughter or a son
And there's
nothing to do
But to wonder if you
Are as hopeless as me
And as decent
We're joined in the spirit
Joined at the hip
Joined in the panic
Wondering if
We've come to some sort
Of agreement
It was fine,
it was fast
We were first, we were last
In line at the
Temple of pleasure
But the green was so green
And the blue was so blue
I was so I
And you were so you
The crisis was light
As a feather
Thanks for
the dance
It was hell, it was swell, it was fun
Thanks for all the dances
One-two-three, one-two-three, one»
In Leonard Cohen - Thanks for the Dance
Obrigado pela dança
«Obrigado
pela dança
Me desculpe, você está cansado
A noite mal começou
Obrigado
pela dança
Noiva do inspirado
Um-dois-três, um-dois-três, um
Há uma rosa
no seu cabelo
Seus ombros estão nus
Você está vestindo esse traje para sempre
Então aumente a música
Despeje o vinho
Pare na superfície
A superfície é fina
Não precisamos ir mais fundo
Obrigado
pela dança
Ouvi dizer que somos casados
Um-dois-três, um-dois-três, um
Obrigado pela dança
E o bebê que você carregou
Era quase uma filha ou um filho
E não há
nada a fazer
Mas para saber se você
São tão sem esperança quanto eu
E tão decente
Estamos unidos no espírito
Juntas pelo quadril
Juntou-se ao pânico
A pensar se
Chegamos a algum tipo
De acordo
Foi bom, foi
rápido
Nós fomos os primeiros, fomos os últimos
Em linha no
Templo do prazer
Mas o verde era tão verde
E o azul era tão azul
Eu era assim eu
E você era assim você
A crise foi leve
Como uma pena
Obrigado
pela dança
Foi o inferno, foi incrível, foi divertido
Obrigado por todas as danças
Um-dois-três, um-dois-três, um…»
Tradução: Leonard Cohen - Thanks for the Dance
Cortesia de
wikipedia
Poesia,
Dança, Eternidade, Leonard Cohen,
«(…) Carmen não respondeu. O seu incompleto conhecimento do português colocava-a sempre em inferioridade neste tiroteio de picuinhas. Preferiu esclarecer com uma voz mansa que ocultava uma intenção reservada: Era una mujer. Trazia o jornal e vinha lá o anúncio. Era para aqui, no había confusión. E, como era una mujer, pensei que tivesses posto o anúncio... Emílio Fonseca fechou a mala, de estalo. Apesar de a frase da mulher não ser bastante explícita, compreendeu-a. Levantou para ela os olhos claros e frios, e respondeu: Se fosse um homem teria de concluir que o anúncio tinha sido posto por ti? Carmen corou, ofendida: Malcriado! Henriquinho, que ouvia a conversa sem pestanejar, fitou o pai para ver como ele reagia. Mas Emílio encolheu lentamente os ombros e murmurou apenas: Tens razão. Desculpa. No quiero que me peças desculpa, redarguiu Carmen, já exaltada. Quando me pedes desculpa estás a fazer pouco de mí. Antes quero que me batas! Nunca te bati. E no te atrevas! Descansa. És mais alta e mais forte que eu. Deixa-me conservar a ilusão de que pertenço ao sexo forte. É a última ilusão que me resta. Acabemos com a discussão! Y si yo quisiera discutir? Fazes mal. Eu tenho sempre a última palavra. Ponho o chapéu na cabeça e saio. E só volto à noite. Ou nem volto mesmo... Carmen foi à cozinha buscar o porta-moedas. Deu dinheiro ao filho e mandou-o à mercearia comprar rebuçados. Henriquinho quis resistir, mas o atractivo dos rebuçados foi mais forte que a sua curiosidade e a sua coragem que lhe estava exigindo que tomasse o partido da mãe. Logo que a porta se fechou, Carmen voltou à casa de jantar. O marido sentara-se na ponta da mesa e acendia um cigarro. A mulher caiu a fundo na discussão: Não voltas, hem? Já cá sabia! Tens onde ficar, no? Já sabia, já desconfiava! O santinho de pau carunchoso, viram?... Y aquí estoy yo, la moira, la esclava, a trabajar todo el dia para quando sua excelência quisier vir a casa!... Emílio sorriu. A mulher ficou enfurecida: No te rias! Rio-me, pois claro que me rio. Porque não havia de rir? Tudo isso são pataratas. Há muitas pensões por essa cidade. Quem me impede de ficar numa delas? Yo! Tu? Ora, deixa-te de parvoíces! Tenho que fazer. Deixemo-nos de parvoíces. Emílio! Carmen barrava-lhe a passagem, vibrante. Um pouco mais alta que ele, a face esquadrada de queixo proeminente, duas rugas fundas das asas do nariz aos cantos da boca, havia ainda nela uns restos de beleza quase esmaecidos, uma recordação de tez luminosa e quente, de olhos de olhar líquido e aveludado, de mocidade. Por momentos, Emílio viu-a como ela fora oito anos atrás. Um lampejo, e a recordação apagou-se. Emílio! Tu enganas-me!... Tolice. Não te engano. Até posso jurar, se quiseres... Mas, se te enganasse, em que podia isso importar-te? Já é tarde para estas lamentações. Estamos casados há oito anos e, somados todos estes dias, que felicidade tivemos? A lua de mel, ou talvez nem isso! Enganámo-nos, Carmen. Brincámos com a vida e estamos a pagar a brincadeira. É mau brincar com a vida, não achas? Que dizes tu, Carmen? A mulher sentara-se, a chorar. Entre lágrimas, exclamou: Soy una disgraciada! Emílio pegou na mala. Com a mão livre afagou a cabeça da mulher com uma ternura esquecida, e murmurou: Somos dois desgraçados. Cada um a seu modo, mas acredita que somos os dois. E talvez seja eu o maior. Tu, ao menos, tens o Henrique... A voz afectuosa endureceu subitamente: Acabou-se. Talvez não venha almoçar, mas virei jantar, com certeza. Até logo. No corredor, voltou-se para trás, e acrescentou, com uma prega irónica na voz: E quanto a essa história do anúncio, deve ser engano. Talvez seja aqui do lado...
Abriu
a porta e saiu, com a mala suspensa da mão direita, o ombro deste lado
ligeiramente descaído por causa do peso. Num gesto inconsciente ajustou o
chapéu, um chapéu cinzento, de aba larga, que lhe tornava mais pequena a face e
o corpo e lhe lançava uma sombra sobre os olhos pálidos e distantes». In
José Saramago, Claraboia, 1953, Editorial Caminho, 1991, 2011, ISBN
978-972-212-441-6.
Cortesia ECaminho/JDACT
JDACT, José Saramago, A Arte da Escrita, Literatura,
«(…) Na cozinha, marido e mulher começaram o diálogo-monólogo de quem está casado há mais de vinte anos. Banalidades, palavras ditas só por dizer, um simples prelúdio ao sono tranquilo da idade madura. Pouco a pouco, os ruídos foram diminuindo, até que ficou aquele silêncio de expectativa que antecede a chegada do sono. Depois o silêncio tornou-se mais denso. Apenas Maria Cláudia continuava acordada. Tinha sempre dificuldade em adormecer. Gostara da fita. No cinema, um rapaz olhara-a muito, durante os intervalos. À saída viera mesmo junto dela, a tal ponto que lhe sentira o hálito no pescoço. Só não percebia porque o rapaz não a seguira. Mais valia não ter olhado tanto para ela. Esqueceu-se do cinema para se lembrar da visita que fizera a casa de Lídia. Que bonita era a Lídia! Muito mais bonita que eu... Teve pena de não ser como a Lídia. Subitamente, lembrou-se de que vira o automóvel à porta. Ficou sobre brasas, já incapaz de adormecer. Ignorava que horas eram, mas calculou que não devia estar muito longe das duas. Sabia, como toda a gente no prédio, que o visitante nocturno de Lídia saía por volta das duas da madrugada. Por efeito da fita, do rapaz ou da visita matinal, sentia-se cheia de curiosidade, embora achasse nessa curiosidade algo de censurável e impróprio. Esperou. Minutos depois, ouviu no andar de baixo o ruído de uma lingueta que corre e duma porta que se abre. Um som indistinto de vozes e uns passos descendo a escada. Com cuidado, para não acordar os pais, a rapariga deixou-se escorregar da cama. Caminhando na ponta dos pés, chegou à janela e entreabriu a cortina. O automóvel ficava sempre encostado ao passeio fronteiro. Viu o vulto pesado do homem atravessar a rua e entrar no automóvel. O carro começou a rolar e, rapidamente, desapareceu do campo de visão de Maria Cláudia.
Dona Carmen tinha um modo muito seu
de saborear as manhãs. Não era pessoa que se deixasse ficar na cama até à hora
do almoço e nem isso lhe era possível porque tinha de tratar da refeição do
marido e de arranjar o Henriquinho, mas não lhe falassem em lavar-se e
pentear-se antes do meio-dia. Adorava andar pela casa fora, durante a manhã,
por arranjar, os cabelos soltos, toda ela descuidada e preguiçosa. O marido
detestava semelhantes hábitos, que implicavam com as suas normas de
regularidade. Vezes sem conto tentara convencer a mulher a emendar-se, mas o
tempo encarregara-se de fazer-lhe ver que era tempo perdido. Apesar de a sua
profissão de caixeiro de praça não lhe impor um horário rígido, escapava-se de
manhã cedo só para não ficar indisposto todo o dia. Carmen, por seu lado,
desesperava-se quando o marido se demorava em casa depois do café. Não que se
sentisse obrigada por tal a faltar aos seus queridos hábitos, mas a presença do
marido diminuía-lhe o prazer da manhã. O resultado é que, para ambos, dia em
que isso acontecesse era dia estragado.
Nessa
manhã, Emílio Fonseca, no preparar o mostruário para sair, verificou que alguém
tinha baralhado preços e amostras. Os colares estavam fora dos lugares, misturados
com as pulseiras e os alfinetes de peito, e tudo isto a trouxe-mouxe com os
brincos e os óculos escuros. O responsável pelo desalinho só podia ser o filho.
Ainda pensou em interrogá-lo, mas achou que não valia a pena. Se o filho
negasse, desconfiaria de que estava mentindo, e isso era mau; se ele
confessasse, teria de bater-lhe ou ralhar-lhe, o que seria pior. Sem contar que
a mulher interviria logo, como uma fúria, e a cena acabaria em zaragata. Ora,
farto de zaragatas estava ele. Colocou a mala sobre a mesa da casa de jantar e,
sem uma palavra, procurou pôr ordem naquele desconcerto. Emílio Fonseca era um homem
pequeno e seco. Não era magro: era seco. Pouco mais de trinta anos. Louro, de
um louro pálido e distante, o cabelo ralo e a testa alta. Sempre se envaidecera
da altura da sua testa. Agora que ela estava maior por causa da calvície
incipiente, preferiria tê-la mais baixa. Aprendera, no entanto, a conformar-se
com o inevitável, e o inevitável
não era apenas a falta de cabelo mas também a necessidade de arrumar a mala.
Aprendera a ficar tranquilo em oito anos de casamento falhado. A boca era
firme, com uns vincos de amargura. Quando sorria entortava-a ligeiramente, o
que lhe dava à fisionomia um ar sarcástico que as palavras não desmentiam. Henriquinho, com o ar embaraçado
do criminoso que volta ao local do crime, veio mirar o que o pai fazia. Tinha
uma cara de anjo, louro como o pai, mas de um louro mais quente. Emílio nem o
olhou. Pai e filho não se amavam, nem pouco, nem muito: apenas se viam todos os
dias. No corredor
ouvia-se o chinelar de Carmen, um chinelar agressivo, mais eloquente que todos
os discursos. A arrumação estava quase completa. Carmen espreitou à porta da
casa de jantar para calcular o tempo que o marido demoraria ainda. Já lhe
parecia demasiada a demora. Neste momento, a campainha retiniu. Carmen franziu
o sobrecenho. Não esperava ninguém àquela hora. O padeiro e o leiteiro já
tinham vindo, e para o carteiro ainda era cedo. A campainha tocou outra vez. Com
um já lá vai!
impaciente
dirigiu-se para a porta, levando o filho nos calcanhares. Apareceu-lhe uma
mulherzinha de xaile, com um jornal na mão. Mirou-a, desconfiada, e perguntou: Qué desea? (Tinha momentos em que
ainda que a matassem não falaria português) A mulher sorriu com humildade: Bom dia, minha senhora. É aqui
que está um quarto para alugar, não é? Podia vê-lo?... Carmen ficou assombrada: Quarto para alugar? No hay aquí
quarto para alugar. Mas o jornal
traz um anúncio... Um anúncio?
Deixe ver, se faz favor.
A
voz tremia-lhe de irritação mal reprimida. Respirou fundo para acalmar-se. A
mulher indicou-lhe o anúncio com um dedo espetado que tinha uma cicatriz de
panarício. Lá estava, na coluna dos quartos para alugar. Não havia dúvida.
Batia tudo certo: o nome da rua, o número do prédio e a indicação claríssima de
rés-do-chão
esquerdo. Devolveu o jornal e declarou secamente: Aqui não há quartos para alugar! Mas, o jornal... Já lhe disse. E, además, o
anúncio é para caballero!...
Há
tanta falta de quartos, que eu...
Com
licença! Fechou a porta na
cara da mulher e foi ter com o marido. Sem passar da porta, perguntou: Puseste alguno anúncio no jornal? Emílio Fonseca olhou para ela,
com um colar de pedras coloridas em cada mão, e, erguendo uma sobrancelha,
respondeu em tom calmo e irónico:
Anúncio?
Só se fosse para arranjar clientes...
Anúncio
de um quarto para alugar...
De
um quarto? Não, minha filha. Casei contigo em regime de comunhão de bens e
autoridade, e não me atreveria a dispor de um quarto sem te consultar. No seas gracioso. Não estou a dizer graças. Quem se
atreveria a ser engraçado contigo?»
In
José Saramago, Claraboia, 1953, Editorial Caminho, 1991, 2011, ISBN
978-972-212-441-6.
Cortesia ECaminho/JDACT
JDACT, José Saramago, A Arte da Escrita, Literatura,
Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) Atravesamos las calles
esquivando cadáveres, heridos que clamaban la muerte, huestes a caballo que
pasaban a nuestro lado, hombres portando mujeres que gritaban y se retorcían en
un intento desesperado de zafarse de sus captores, sabedoras de lo que el fatal
destino les deparaba. Al torcer una esquina se presentó ante nuestros ojos una
gran casa que, por su fachada señorial, debía de pertenecer a una familia
importante de la ciudad. En una de las ventanas del primer piso pude ver los
ojos assustados de una mujer que intentó esconderse de mi mirada. Tan sólo
fueron unos instantes, pero percibí tanto horror en aquel rostro que frené mis
pasos. El abad se dio cuenta de que me quedaba atrás y, sin apenas detenerse, me
dijo que marchase más rápido. Padre, tengo que evacuar. Id caminando que ahora
os alcanzo. El abad se detuvo y se volvió hacia mí. Ahora?, preguntó
contrariado. Afirmé con la cabeza, mostrando con un ligero movimiento la inquietude
de la prisa. No tardaré nada, os alcanzaré de inmediato. Está bien, dijo, después
de torcer el gesto, pero no tardes; esta ciudad no es segura ni siquiera para
un hombre de la Iglesia. Bernardo me miró con un gesto de interrogación. Yo no
me inmuté. Me mantuve inmóvil hasta que ambos desaparecieron por el final de la
calle. Entonces dirigí mi mirada hacia la entrada de aquella gran casa que, como
todas, había sido forzada. El patio parecía vacío. Con cautela y con el temor
de que en cualquier momento pudieran aparecer un grupo de latinos y la
emprendiesen a palos conmigo, subí por la escalera hacia el piso superior. La
sensación de inseguridad se había agudizado en mi interior en el instante mismo
en el que me había quedado solo. La presencia del abad garantizaba cierta
inmunidad ante el pillaje y la barbarie, pero en aquel momento, en medio de
aquella locura, sentí la angustiosa sensación de ser una presa fácil para
cualquiera que pasara.
La puerta estaba cerrada. Intenté
abrir y el pomo cedió al empuje de mi mano. El corazón se me aceleró al
escuchar en la calle el galope de vários caballos. Sin apenas pensarlo, me metí
dentro y cerré la puerta despacio para evitar hacer cualquier ruido que pudiera
llamar la atención de alguien. El interior estaba sumido en la oscuridad y en
un principio mis ojos no pudieron ver nada, acostumbrados al resplandor del
sol. Lo primero que percibí fue un agradable aroma, una mezcla de especias y
perfumes que contrastaba con el olor a muerto y carne quemada que había en las
calles. Cuando la vista se empezó a acomodar a la penumbra distinguí un gran salón,
con una mesa en su centro rodeada de hermosas sillas de altos respaldos y
varios arcones dispuestos a lo largo de las paredes, abiertos y vacíos de
cualquier cosa que antes hubieran contenido. El silencio hueco de aquel lugar
contrastaba con el estrépito que se escuchaba al otro lado de las ventanas
cerradas con los fraileros de madera por los que apenas se colaba algo de luz.
Di varios pasos hacia la mesa conteniendo la respiración. De pronto escuché el
llanto quejumbroso de un niño y mis ojos se fijaron en un par de bultos que había
en el rincón más oscuro de la habitación. Eran dos figuras encogidas sobre sí
mismas que irradiaban desde su escondite un miedo evidente. Me acerqué despacio
y pude observar cómo las figuras se movían inquietas, conscientes de que las
había descubierto. El niño gemía incómodo y se resistía a los arrullos que
intentaban hacerle callar. Al ver cómo me acercaba los dos bultos se
acurrucaron aún más en un vano intento de alejarse de mi presencia.
No
temáis, dije, manteniendo mis manos extendidas hacia aquellos cuerpos sin saber
si entendían mis palabras. No os haré ningún daño. Intenté que mi voz fuera lo
más suave posible para evitar asustarles. Me fui acercando despacio hacia aquel
rincón. Cuando me encontraba a unos pasos de aquellas sombras me di cuenta de
que se trataba de dos mujeres; la más joven, de piel morena y pelo negro como
el tizón, sujetaba en su regazo a un bebé que se movía inquieto entre sus
brazos. Reconocí los ojos de la otra mujer que había visto en la ventana. Mantenía
esa mirada aterrada y recelosa. Entendéis mi lengua? Comprendéis lo que os
digo? Un espeso silencio se instaló en el ambiente. Las mujeres, inmóviles, me
miraban asustadas a la espera de un ataque, apretadas entre ellas, concediéndose
una última oportunidad de mutua protección. La que había visto en la ventana
extendía su brazo sobre el regazo de su compañera en el que sujetaba al pequeño.
Mis manos se mantenían tendidas hacia ellas, y mis movimientos eran lentos y
cautelosos para evitar asustarlas más de lo que estaban». In Paloma Shanchez-Garnica, A
Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coutinho, Saída de Emergência, 2012,
ISBN 978-989-637-411-2, epublibre, La brisa de Oriente, 2009,
editor digital x313n1o, ePub base r1.2, Proyec Scriptorium Ex-Libris.
Cortesia SEmergência/JDACT
JDACT, Paloma Shanchez-Garnica, Literatura, Escrita, Saber,
Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) O abade pousou o olhar no
cofre e pude ver, nos seus olhos, o brilho da avareza. Vamos levar esta peça
para a nossa abadia, onde poderá ser venerada pelos peregrinos fiéis e
assegurar o sustento do mosteiro durante muito tempo. Escondeu o cofre entre as
suas vestes e saímos daquele lugar com a mesma pressa com que ali tínhamos
chegado. Mal saímos do recinto, fomos interceptados por um cavaleiro montado
num brioso corcel, que se pôs diante de nós, obrigando-nos a estacar, o cavalo ergueu-se
sobre as patas traseiras e nós, assustados, recuámos vários passos. Aonde ides
com tanta pressa?, indagou o cavaleiro, segurando as rédeas com firmeza
enquanto controlava os movimentos do cavalo. Regressamos ao nosso barco. Já não
temos nada a fazer aqui, respondeu o abade Martín, com firmeza. O cavaleiro remexeu-se
sobre o seu animal inquieto, que volteava diante de nós com fulgor contido. Era
um exemplar formidável, negro como azeviche, com a cabeça alta e fitas de seda
de cores vivas entrelaçadas nas crinas. A sua pele brilhava sob aquele Sol de
meio de tarde. O que viestes aqui fazer? O que levais escondido?
O abade olhou para o estômago,
ponto onde tinha escondido o tesouro, que agora formava um volume sob as suas
roupas, como se se tratasse de uma protuberância do seu corpo. Isto é...,balbuciou
por um instante, tentando encontrar algo adequado para dizer, é um cálice
sagrado. Apanhámo-lo do chão da igreja. Não podíamos permitir que os infiéis o
profanassem… Instalou-se, por momentos, um silêncio tenso, interrompido apenas
pelo resfolegar do cavalo e pelo bater repetido das suas patas no empedrado. O
medo que o abade tinha de que aquele cavaleiro lhe arrebatasse o cofre para o
acrescentar aos despojos de guerra mantinha-o alerta.
Mostrai-me o cálice! Se for um objecto
valioso, terá de ser incluído nos despojos de guerra! Não querereis,
certamente, deixar de cumprir o juramento que todos fizemos! Sou o abade
Martín, reclamou o monge, com autoridade. O que levo entre as minhas roupas é
uma peça que pertence apenas à Igreja; não um despojo de guerra que possa ser
dividido entre homens. Quero ver o que levais!
Não!
O cavaleiro desembainhou a espada
e ergueu-a no ar, enquanto segurava as rédeas do cavalo com a outra mão.
Me
entregaréis lo que lleváis entre las ropas u os lo arrancaré con mi espada,
monje estúpido, aquí soy yo quien da las órdenes. Mi corazón latía de temor al
ver aquella escena. Bernardo y yo esperábamos el desenlace agarrados, con gesto
despavorido, incapaces de reaccionar. Me preguntaba hasta qué punto estaría
dispuesto a mantener su postura el abad, hasta dónde estaría dispuesto a llegar
por aquella relíquia robada en su propio beneficio. Si lo queréis, tendréis que
matarme. La tensión se hizo eterna. El caballero blandía su espada con gesto amenazante
sin dejar de mirar el rostro impertérrito del abad, que sujetaba el bulto de su
vientre con resuelta firmeza. Una voz hizo que todos nos girásemos. Roberto!, otro
hombre a caballo se acercaba a nosotros. Tiró de las riendas con fuerza y el
animal se detuvo en seco a escasos dos metros de mí, haciendo que diera un
salto hacia un lado. Roberto de Saint-Po! Amigo mío. Creía que habías muerto. Estos
infieles no podrán conmigo. El caballero que había interceptado nuestra salida
se acercó al recién llegado. Ambos hombres chocaron sus manos y comenzaron a
hablar entre ellos mientras mantenían sujetas las riendas de sus monturas. El
abad hizo un ligero gesto y sin mirar hacia atrás iniciamos nuestro camino,
alejándonos con el temor de que el bramido de sus voces nos hiciera detenernos;
pero, por lo visto, habíamos dejado de ser de interés para ellos porque apenas
se dieron cuenta de nuestra marcha, enfrascados en la conversación de su
reencuentro». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís
Coutinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2, epublibre, La
brisa de Oriente, 2009, editor digital x313n1o, ePub base r1.2, Proyec
Scriptorium Ex-Libris.
Cortesia SEmergência/JDACT
JDACT, Paloma Shanchez-Garnica, Literatura, Escrita, Saber,