quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Erotismo Queirosiano. Ana Luísa Vilela. «A representação de uma actualidade em decomposição, dominada por uma sensualidade desorganizada, terá, num efeito de contraponto que já conhecemos, reconvocado em Eça a nostalgia de uma ordem ideal»


Cortesia de wikipedia e jdact 

«(…) Um tema tipicamente naturalista, a dominação do padre na família pela sua influência na mulher, surge nas suas crónicas de Londres, em Julho de 1877. Suscitado igualmente pela recensão literária, é particularmente revelador o juízo de Eça de Queirós sobre uma obra de divulgação de métodos anti-concepcionais: um manual cómodo e à mão de desmoralização e de deboche. A persistente tendência misógina; esta terminante condenação do amor não procriativo; as referências algo galhofeiras às criadas chantagistas londrinas e ao escândalo da prostituição; duas alusões jocosas (uma das quais bastante desenvolvida) ao lesbianismo, compõem, nestes textos jornalísticos, uma atitude de distância simultaneamente folgazã e moralista em relação ao prazer e à irregularidade erótica, inconsequentes mas sintomáticas anedotas de um quotidiano pré-catastrófico. A novidade é que este quotidiano seja o de uma Inglaterra que Eça, agora, sente conhecer do interior, tal como no tempo em que, falando de Lisboa, se dirigia aos seus leitores do Distrito de Évora. É agora Londres a cidade em véspera de catástrofe. Mesmo a mulher inglesa também desgosta Eça de Queirós, justamente pelo excesso daquela qualidade que, n’As Farpas, o atraía, a virilidade: basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela poderá ser tudo, uma hábil cavaleira, uma excelente atiradora à pistola, um óptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para uma partida de bacarat, tudo, menos uma esposa e uma mãe. (1 de Agosto de 1877)~
A tendência para a dissociação entre o prazer e a família, a emancipação institucional do prazer (os quais estiveram provavelmente na raiz da feroz condenação, por Eça, dos meios contraceptivos), que, para o autor, a mulher inglesa agora prefigura, torna-o aqui um crítico violento do vigor e da excessiva afirmatividade feminina, a desordem erótica da mulher é meio caminho andado para a catástrofe moral inglesa. Quando, nos Ecos de Paris, em 6 de Junho de 1880, a propósito da morte súbita de Flaubert (que ocorrera cerca de um mês antes), Eça de Queirós comenta Madame Bovary, é para sublinhar ainda esta identificação entre a decadência e o essencial desequilíbrio do eros feminino. E, da mesma forma, quando define o projecto de L’ Education Sentimentale, é fácil ler nesta representação uma projecção ideológica clara, encontrando numa geral síndrome feminizante da cultura pós-romântica a causa central de todas as instabilidades da vida social.
A representação de uma actualidade em decomposição, dominada por uma sensualidade desorganizada, terá, num efeito de contraponto que já conhecemos, reconvocado em Eça a nostalgia de uma ordem ideal e de uma harmonia superior, valores cuja rarefacção conceptual seja uma forma de pureza. E, por outro lado, o apego desiludido aos valores simples e humanos, como a solidariedade. Um agape democrático, eis a forma sucedânea, na sua última década de vida, desse amor natural, suavemente abençoado por Deus nas noites de S. João, evocada trinta anos antes. E o louvor irónico-lírico da doce atmosfera do sul, aqui, como já o fora no Distrito de Évora, pode igualmente integrar-se no esquema ascensional desta nostalgia da brandura, regida por uma instância superior e benfazeja. Esta tendência refluente da sua última fase determina, também, a evocação cada vez mais insistente dos primeiros românticos, e dos valores da naturalidade e simplicidade artísticas. Não se estranha, portanto que, chegado o momento crepuscular do Naturalismo, Eça de Queirós possa, com desenvoltura, recon­hecer em Positivismo e Idealismo que, provavelmente, o romance experimental nunca existiu. E, mais uma vez, as novas formas, já não as do decadentismo, mas do idealismo, primam pela irregularidade. Agora que a alma está na moda, a poesia e as artes plásticas diluem a representação da realidade física, esbatendo-lhe a consistência. Ou seja: mais uma vez, para Eça, a nova arte comunga do crepúsculo e do caos: os traços que ela privilegia, os do incorpóreo, resolvem-se numa global representação do inorgânico. A representação marcadamente virilizante do Positivismo-Razão vai adensar-se, sublinhando por contraste o cariz feminizante do polo oposto, o do Idealismo-Imaginação. A este regime exclusivo da oposição e da disjunção dos dois elementos, seguir-se-á agora, segundo Eça, uma espécie de conjunção alternada e regimental, que não parecerá deslocado designar por adultério ideal: a causa é patente, está toda no modo brutal e rigoroso com que o positivismo científico tratou a imagi­nação, que é uma tão inseparável e legítima companheira do homem como a razão. O homem de todos os tempos tem tido (se me permitem renovar essa alegoria neoplatónica) duas esposas, que são ambas ciumentas e exigentes, o arrastam cada uma, com lutas por vezes trágicas e por vezes cómicas, para o seu leito particular (…) O positivismo científico, porém, considerou a imaginação como uma concubina com­prometedora, de quem urgia separar o homem; e, apenas se apossou dele, expulsou duramente a pobre e gentil imaginação, fechou o homem num laboratório a sós com a sua esposa clara e fria, a razão. O resultado foi que o homem recomeçou a aborrecer-se monumentalmente e a suspirar por aquela outra companheira tão alegre, tão inventiva, tão cheia de graça e de luminosos ímpetos, que de longe lhe acenava ainda, lhe apontava para os céus da poesia e da metafísica, onde ambos tinham tentado voos tão deslumbrantes». In Ana Luísa Vilela, Erotismo Queirosiano, Universidade de Évora, ContraNatura, Wikipedia.
Cortesia de ContraNatura/Wikipedia/JDACT