terça-feira, 5 de agosto de 2014

Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas. Maria Helena Coelho. «… que lentamente se apercebem da dimensão da história como ciência humana e social e da sua íntima relação com todas as outras que giram em torno do homem como ser social»

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Resumo
«Esta palestra apresenta um balanço da história rural portuguesa, com ênfase nas décadas posteriores à Revolução de Abril (décadas de 1970, 1980 e 1990). Para tanto, recupera a produção historiográfica desde o final do século XIX, para afrontar o surgimento, a partir das décadas de 1950 e 1960, de trabalhos afinados com a Escola Francesa que vão estar na raiz da renovação dos estudos agrários das décadas de 1980 e 1990. Finaliza com considerações acerca do futuro destes estudos em Portugal, tendo em vista as transformações sofridas pelo seu meio rural com a União Europeia e as exigências da economia contemporânea».

«Perfilho a posição de que o historiador é, no geral, um homem comprometido com o seu tempo. Ou dito pelas palavras de Michel Certeau, recolhidas na compilação A Nova História, quer se queira, quer não, o trabalho histórico inscreve-se no interior (e não fora) das lutas socioeconómicas e ideológicas. A Revolução de Abril repercutiu-se na história que se faz e fez em Portugal. Nas temáticas, nas metodologias, nas cronologias, nas interpretações. Redimensiona-se a história económica e social, caminha-se para a história das mentalidades, entrecruza-se o saber histórico com o de outras ciências sociais e humanas. Estende-se a investigação, com grande candência, aos olvidados séculos XIX e XX, séculos de revoluções e amplas mutações políticas e polémicas ideológicas. Desconstroem-se velhos mitos da história pátria.
Filha desse tempo, em que se vivia a acesa polémica da reforma agrária, das cooperativas agrícolas, das apropriações dos baldios, é assim a história rural que se produz essencialmente na década de oitenta. Nela convergindo, igualmente, toda a experiência estrangeira, especialmente a francesa, de uma história agrária que, de quantitativa e serial, progrediu para uma história total, mas modelizada geo-historicamente no espaço regional, que se vai abrindo, sucessivamente, a temáticas cada vez mais abrangentes, sugeridas pela antropologia e sociologia históricas. Não se trata, porém, de um fruto novo, abrupto, inédito. Tem raízes variadas. Mas adquire, sem dúvida, uma nova feição, modelada pela interacção entre presente e passado, que sempre percorre a construção histórica. As raízes podê-las-íamos buscar em tempos mais longínquos ou mais próximos. Comecemos pelos mais remotos. Por entre finais do século XIX e início do XX, a par da privilegiada história política e institucional, alguns assomos precoces de uma história económica e social se entreviram. Assim aconteceu com as obras de Alberto Sampaio, As vilas do norte de Portugal (1905-1908) e As póvoas marítimas (1893-1895), em que emergia a problemática da geografia do povoamento, das formas de propriedade e de aspectos vários do mundo rural, ou, com esse outro livro de Costa Lobo, História da sociedade em Portugal no século XV (1903), em que o seu autor nos dá a conhecer múltiplas facetas sociais e económicas dessa época histórica, desde a população, da sua caracterização demográfica e social, aos pesos e medidas, preços, moeda e haveres individuais. E mesmo um erudito historiador das instituições como foi Henrique Barros, na sua magna obra História da administração pública em Portugal (1885-1922), não deixa de dedicar cenas tomos à população, à economia ou à sociedade, até bem mais completos que os da própria administração, que não chegará a completar em toda a sua amplitude. Por sua vez pensadores como António Sérgio ou Jaime Cortesão, na exposição das suas teses e na abrangência das suas sínteses, levantaram novos véus à reflexão socioeconómica sobre a História de Portugal.
Mas depois destes alvores que prometiam, a máquina do Estado Novo e os seus ideólogos repuseram como temas centrais do travejamento histórico a formação da nacionalidade e o passado de certas instituições medievais, a epopeia dos descobrimentos ou o movimento patriótico da Restauração. Todavia, a década de 1950-1960 anuncia alguma renovação e arejamento, nela se conjugando a interdisciplinaridade com o aparecimento de obras vocacionadas para diferentes temáticas ou imbuídas de novas metodologias. Os ensinamentos de etnógrafos como Leite Vasconcelos, de filólogos como Rodrigues Lapa e Lindley Cintra, de geógrafos como Orlando Ribeiro começam a não ser indiferentes aos historiadores, que lentamente se apercebem da dimensão da história como ciência humana e social e da sua íntima relação com todas as outras que giram em torno do homem como ser social. Um destaque especial merecem os estudos dos etnólogos Jorge Dias e Fernando Galhano que dão a conhecer as alfaias agrícolas tradicionais portuguesas. E é ainda Jorge Dias que nos oferece os estudos clássicos sobre as ancestrais tradições comunitárias do Portugal transmontano, nas obras Vilarinho das Fumas, uma aldeia comunitária (l948) e Rio de Onor. Comunitarismo agro-pastoril (1953).

In Maria Helena Cruz Coelho, Balanço sobre a História Rural produzida em Portugal nas Últimas Décadas, Conferência, Mestrado em História das Sociedades Agrárias, Universidade Federal de Goiás, 1997, Faculdade de Letra, Coimbra, História Revista, 2 (I), 1997.

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