domingo, 3 de junho de 2018

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «Cinco! O número simbólico desse grau, durante o qual o maçom deve viajar... Foi naquela noite, depois da nossa Sessão, que conversamos longamente...»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
«As chamas das tochas crepitavam ao vento. A espessa chuva fria já anunciava a neve. Dois homens e duas mulheres carregavam um corpo envolvido num sudário branco, seguidos pelos vultos de uma procissão, recolhidos e silenciosos. O cortejo avançava por uma floresta de carvalhos. Ao gesto de um homem muito velho, que ia à frente, todos pararam. Os quatro que levavam o cadáver depuseram-no no solo argiloso. Era uma terra de marga pastosa que colava nas solas das sandálias. Uma terra rica e perfumada. O ancião se posicionou junto à cabeça do morto, os pés formando um esquadro, quase tocando o sudário. Imediatamente, os seus companheiros espetaram as tochas na terra e, dando-se as mãos, formaram um círculo em torno do corpo estendido. Todos estavam unidos. Todos se davam as mãos com força. O ancião, erguendo com os braços tal cadeia humana, disse as seguintes palavras: já que está na hora e temos a idade, vamos abrir os trabalhos da nossa Loja. Homens e mulheres ergueram e abaixaram a corrente de braços por três vezes, depois a romperam. E o ancião falou.
A chuva havia aumentado de intensidade, empurrada pelo vento sobre a clareira, encharcando os casacos de algodão e as túnicas de linho. A voz do orador era fraca e rouca por ter sido muito usada, por ter cantado em excesso o amor e a fraternidade através de mil regiões e mil países. Era uma voz cansada e desencantada, uma voz triste. Infinitamente triste. Quando o ancião terminou o discurso, três homens deram alguns passos e se baixaram ao mesmo tempo. Levantaram uma argola de bronze e, num impulso sonoro, arrancaram do solo uma laje de pedra, abrindo um túmulo vazio. Tornaram a pegar o corpo do morto. O ancião se aproximou da cova onde agora repousava o amigo. Seu mestre. Enfiando a mão sob o casaco, retirou um objecto e o apertou contra si por um instante. Inclinando-se lentamente, ajoelhou-se com dificuldade à beira do túmulo escuro e chorou.
Chorou por longo tempo, antes de depositar o objecto no peito do morto. Erguendo-se, deu ordem para colocarem a laje no lugar e desprenderem a argola de bronze. Em seguida, disse: que teu Segredo permaneça contigo, Mestre... Malditos sejam todos aqueles que tentarem roubar a tua Palavra para deturpá-la! Bendito sejas, meu irmão, pelo ensinamento que nos deixaste como herança. A argola foi-lhe entregue. Apesar do peso, ele quis continuar a segurá-la, como uma relíquia.
Os homens e as mulheres retomaram o caminho e se embrenharam novamente na espessa floresta, sob a luz das tochas com chamas inclinadas. O ancião ia na frente. Um rapaz muito jovem, com o rosto coberto de lágrimas e de chuva, foi ao encontro dele. Não encerramos os trabalhos, João... Por quê?, perguntou ao mais velho. O ancião respondeu: eles jamais serão encerrados, meu irmão... Jamais! A Nossa Loja se abriu para sempre, fora dos muros do seu templo, fora do tempo. O nosso trabalho apenas iniciou. Para toda a eternidade... O que faremos sem Ele? O ancião sorriu e respondeu: nós O buscaremos. E esse será o nosso trabalho. Por todos os séculos dos séculos, nós o buscaremos, irmão...
Didier Mosèle olhava a chuva cair no bulevar exterior. Ele colou a testa no vidro frio da janela e ficou assim por alguns instantes, pensativo. Depois, saiu da janela, voltou para a mesa do escritório coberta de livros e documentos em desordem, procurou o maço de cigarros, pegou um, acendeu e aspirou uma puxada de queimar os pulmões. Didier Mosèle estava próximo dos quarenta anos. Tinha cabelos louros e compridos penteados para trás, queixo pronunciado com uma covinha no centro, maçãs do rosto altas e ligeiramente salientes, olhos de um azul-claro quase acinzentado. Alto, de ombros largos, vestia jeans e camisa polo pretos. Havia mais de uma hora que passava e repassava a fita cassete no gravador de trabalho. Havia mais de uma hora que fumava um cigarro atrás do outro, sentava-se, levantava-se, ia até a janela, voltava, desarrumava os dossier e pisava nos livros espalhados pelo chão. E, mais uma vez, ele apertou o replay do aparelho. A voz foi ouvida no escritório. Uma voz apressada, nervosa, entrecortada por uma respiração dolorosa: Meu Caríssimo Didier, quando escutar esta mensagem, sem dúvida não estarei mais neste mundo. Os meus perseguidores, em breve, me descobrirão, e me resta pouco tempo para relatar os últimos acontecimentos que me levaram às portas da morte... Os assassinos estão na minha peugada há muito tempo... Presumo que tenha recebido a minha última carta. Ela não era muito enigmática? Conseguiu compreendê-la? Tente lembrar-se... Antes de sair da sua casa, eu disse que levaria cinco envelopes com o seu endereço. Cinco! Para nos lembrar da época em que havíamos sido elevados ao grau de companheiro, na nossa Loja-Mãe Eliah... Cinco! O número simbólico desse grau, durante o qual o maçom deve viajar... Foi naquela noite, depois da nossa Sessão, que conversamos longamente... Queríamos nos lançar numa incrível busca... Na ocasião, parecia uma aposta de intelectuais parisienses desejosos de oferecer a si mesmos um último sopro de juventude. Ignorávamos que estávamos seguindo os passos de gigantes!» In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT