quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348…»

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O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Ler, mas ler mal, era a missão da escola, Do dizer de António Costa (1870:22). A Instrução do Povo foi o objectivo das nações e do nacionalismo, sobretudo a partir de finais de setecentos, embora as suas raízes remontem à invenção da imprensa, que tornou possível o proselitismo protestante e católico do século XVI e seguintes. Em Portugal, uma questão que parecia pertinente era a de saber se o povo devia ler. O debate iria prolongar-se até à segunda metade do século XIX. Para uns não havia qualquer dúvida sobre a necessidade e urgência de todo o povo receber uma instrução elementar e, portanto, aprender a ler e escrever; já para outros, o filho do camponês e do pastor deviam continuar o ofício do pai. Uns defendiam a instrução popular, em todos os estratos e sem discriminação de sexo, enquanto outros insistiam numa via elitista, defendendo um ensino para a nobreza e burguesia, considerando que nas aldeias não devia haver escolas e não se referindo praticamente a um ensino no feminino.
António Costa defendia uma instrução nacional para todas as classes sociais. Num artigo escrito para o periódico A Folha, Frederico Laranjo confirma-nos essa ideologia:

A instrucção nacional de que D. António Costa nos falla é a instrução primaria, a instrucção que se pode e se deve derramar por todas as classes, a luz que é precisa para todos os espíritos, como a do sol para todos os corpos (Laranjo, 1870: 93).

As leituras das gentes do povo são ainda reveladoras de um sentido: saber ler é útil para a vida. Os livros dirigidos ao povo deviam ser escritos em português e num estilo simples e acessível. Mas livros deste género não abundavam, seja porque a conjuntura política estava conturbada, seja porque as instituições vocacionadas para a difusão das luzes pareciam alhear-se do problema que era o nosso atraso cultural, neste domínio da instrução popular. Podemos dizer que o conjunto de textos para instrução económica obedecia a um objectivo bem preciso. Para o povo, as elites intelectuais e políticas pensavam e ofereciam produtos de baixa qualidade e custo: manuais em estilo catequético e o ensino mútuo. Porque as elites continuavam o velho preconceito voltairiano: o povo era estúpido, portanto, não era dado a abstracções, nem a grandes leituras. Preconceito que, partindo da afirmação da superioridade intelectual dos homens bem instruídos, levava a procurar doutrinar o povo, mais do que a aprender com o povo, ou a olhar para os grupos populares como dotados de um saber e cultura genuínas.
A escola necessitava de constituir-se como algo novo, que desse resposta à necessidade de uma formação integral do Homem nas suas componentes física, intelectual e moral, uma vez que o Homem deve ser visto como um ente physico, intellectual e moral. Para o homem das classes populares, a Escola assume um papel muito importante. Segundo António Costa, a Educação permite a um Povo salvaguardar a sua independência: a educação nacional, como  elemento poderoso da boa administração e da preponderância do nosso direito, é uma salvaguarda da nossa independência, ainda superior ao poder das armas. Segundo este Ministro da Instrução, caberia à família a educação; no entanto defende que isto apenas seria possível em relação às classes elevadas e mesmo estas delegavam nos colégios a educação dos seus filhos. Isto porque, segundo António Costa, nas classes populares, as crianças eram um capital aos olhos do pai pescador, do pai agricultor. Então se a família não conseguia educar (porque também ela não fora educada!), caberia à escola essa importante missão. Como nos dizia Costa:

Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348, dizer que a educação nacional pertence á família equivale a affirmar que a educação seria mentira.

Ainda segundo o autor, a escola portuguesa não tinha organizado a educação física e moral e era também por demais evidente um atraso na educação das classes populares». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT